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segunda-feira, 6 de julho de 2020

O POÇO DOS MARIDOS – Humberto de Campos


          Ferdinanda Sobreiro havia sido, até os vinte e três anos, uma das moças mais requestadas e formosa dos salões do Rio de Janeiro. Muito clara, cabelos castanhos, olhos suavemente azuis, porte mediano, nenhuma a sobrepujava nas maneiras, na elegância, na distinção e, principalmente, na graça de um sinalzinho petulante, que lhe dava ao rosto, na face esquerda, o retoque de uma brejeirice encantadora. Aquele sinalzinho era, podia-se dizer, o ponto final da formosura. Ao escrever o poema da beleza feminina, Deus havia posto, ali, a última palavra do derradeiro capítulo.

            Os anos foram-se, porém, sucedendo, uns aos outros, e como gotas da mesma clepsidra; e o certo é que, aos vinte e oito, a moça não havia encontrado marido. Amigas mais feias, ou, antes menos bonitas, iam, uma a uma, recebendo o seu noivo, constituindo o seu lar, multiplicando o seu sangue; e ela, somente ela, de tantas que eram, já se deixava ficar na casa de seu pai, cercada de admiradores, atordoada de lisonja, mas sem ver um homem que  a convidasse, leal e sincero, para constituição legal de um ninho em comum. A Belita Simpson, que não tinha os seus olhos nem o seu sorriso, havia encontrado o Dr. Mascarenhas, advogado estudioso e jovem, e lá andava pela Europa em passeio de núpcias, percorrendo as cidades, experimentando os climas, visitando os museus. A Alice Martins era, agora, mme. Lopes Taveira, arrastando pelo braço, nos salões e na Avenida, o grande médico seu marido. A Totinha se casara com um deputado, e dava empregos, e a Tecla Meireles com um capitalista, e dava recepções. Só ela, que fora a mais graciosa, a mais elegante, e mais cobiçada, ali estava sozinha no seu leito de solteira, sentindo aproximar-se, após uma alvorada chilreante de pássaros, uma tarde triste, lúgubre, amortalhada em cinza e silêncio. Onde andava com a sua matilha e com os seus pajens o seu Príncipe Encantado, que não vinha rápido, alarmando a floresta com as buzinas de caça, ao encontro da sua Princesa Adormecida?

            Sem irmãs nem irmãos, que lhe dessem o conforto de uns sobrinhos pequeninos, Fernandinha sentia-se oprimir, afogar, asfixiar, pelo instinto maternal do coração. O pai, alquebrado, não podia mais conduzi-la, com tanta frequência, como dantes, a festas, a passeios, a teatros. Uma primeira ruga riscou-lhe a fronte lisa, partindo, como um fio telegráfico sem destino, do canto dos olhos. Combatida à força de loções, de unguentos, de pomadas, multiplicou-se, dividiu-se, repartiu-se abrindo novos caminhos para as lágrimas. E foi nessa idade, com o sol da mocidade em franco declínio, que Fernandinha adormeceu e teve uma noite, um sonho, que a desiludiu.

            Ao fechar os olhos, humedecidos em torno por uma loção que lhe haviam receitado, sentiu-se, de repente, transportada a uma grande campina, no fim da qual ressoavam harpas e cítaras, que ela procurava e não via. Embevecida, olhava para o lado de onde lhe vinham aquelas vozes embaladoras, quando sentiu, de repente, que alguém lhe tocava o ombro. Voltou-se, assustada, e caiu de joelhos, gemendo:

            - Minha madrinha! Minha Madrinha! Amparai-me.

            Ao seu lado, radiosa e doce, mal pisando a terra, sorria a imagem de Santa Rosa de Lima, sua madrinha e protetora, à qual havia rezado contritamente, aflitamente, antes de adormecer, pedindo a graça de um marido. Sorriso nos lábios, aureola à cabeça, mãos sobre o peito, a Santa Rosa fitava-a com ternura, quando, carinhosa, ordenou:

            - Minha filha, vem...

            E puseram-se a andar pela campina, uma ao lado da outra, mas tão leves, tão brandas, tão ligeiras, as duas, que nem pesavam sobre o relvado orvalhado. Súbito, ouviram vozes. A planície havia desaparecido e Fernandinha estava, agora, diante de um grande poço, em torno do qual se aglomeravam, apertando-se, empurrando-se, disputando, dezenas, centenas, milhares de moças. Espremendo uma, afastando outra, a rapariga chegou à beira do abismo e viu: de dentro saía uma corda, puxada por um sacerdote, na qual vinha amarrado, de sete em sete palmos um homem, que as mulheres, em cima, recebiam debaixo de gritaria.

            - Que é isto? Indagou, tímida, Fernandinha, a uma desconhecida que lhe ficara ao lado.

            - Então você aqui e não sabe?

            E como percebesse a sinceridade daquela pergunta:

            - Isso aqui é o poço dos maridos, o lugar de onde eles vêm. Essas moças que aqui vê, estão esperando cada uma aquele que lhe é destinado.

            - E a senhora já encontrou o seu? – Indagou Fernandinha admirada.

            A outra baixou os olhos, e confessou:

            - Não, senhora. Estou aqui há doze anos. Felizmente ainda não perdi a esperança...

            A rapariga ia rir da sua vizinha quando seus olhos descobriram, do outro lado do poço, várias fisionomias amigas, debruçadas, todas, para o fundo insondável do abismo. Eram Abelita Simpson, Alice Martins, Dorinha Tavares, a Abgail Queiróz, a Ninita, a Maria da Penha, a Lúcia, a Cidinha, a Tude, a Graziela... E a medida que a corda subia, puxada incessantemente pelo sacerdote, desgarrava-se dela  um homem jovem, ou velho, feio, bonito, a cujo pescoço pulara logo um vulto feminino, que nunca o tinha visto, mas que o esperava ansiosamente à beira do poço. E assim viu ela sair o Dr. Mascarenhas, o Lopes Taveira, o comandante Maia Cunha, o Dr. Casemiro Alves, o Tenente Alberto Wellington, em cujos braços se atiraram  logo, a Belita, a Alice, a Tecla, a Totinha, a Maria da Graça, que lá se iam, felizes, pela campina com seus maridos..

            De repente, Fernandinha sentiu uma agitação íntima, um susto, uma inquietação deliciosa, uma espécie de pressentimento. Uma vontade de fugir, de esquivar-se, agitou-lhe os nervos, mas os pés a detiveram, autoritários, no mesmo lugar. Alguma coisa de grave, de inesperado, ia, necessariamente acontecer. E estava ela nessa angústia, nessa tortura, encantada, quando a Santa, sua madrinha, lhe apareceu, de novo, anunciando-lhe:

            - Minha filha, olha para o fundo do poço. Teu noivo, o homem que te é destinado para marido, está para chegar. É o oitavo, depois deste que saiu agora.

            O ímpeto de Fernandinha foi o de atirar-se à Santa, abraçando-a, apertando-a, cobrindo-a de beijos gulosos, de furiosa gratidão. Era preciso, porém, olhar para o fundo do poço, e receber com os olhos, de longe, o seu prometido; a ansiedade dominou-se, curvando-se sobre o abismo. Debruçada para dentro, contou os vultos que se divisavam agarrados à corda!

            - Um... dois... três... quatro... cinco... seis... sete... oito...

            Era aquele. De longe, na meia escuridão, não lhe podia divisar as feições, nem avaliar a idade. O coração batia-lhe, inquieto, sôfrego, descompassado. Um suor frio corria-lhe por todo o corpo, numa vertigem. As pernas tremiam-lhe, mal sustendo o peso do busto amparado ao muro do poço. A manivela continuava porém, a rodar, manejada pelo padre, e a corda a subir trazendo gente. Agora faltavam apenas quatro. Ele era o quinto.

            Apesar da penumbra, Fernandinha via-lhe, já, as feições. Era jovem, sim! Jovem e bonito. Na sua coquetearia instintiva a moça levou as duas mãos ao cabelo, afofando o penteado. Mais um movimento da manivela e a claridade exterior atingiu. Chicoteado pelo jato de luz o rapaz ergueu o rosto, e encontrando, em cima, os olhos dela, encarou-a e sorriu. Fernandinha quase desmaia de gozo, de prazer, de ventura. Toda ela era alvíssaras de carne, alvíssaras de nervo, alvíssaras de coração. Agora, ele era o segundo. Olhos nos olhos, embebidos um no outro, as suas mãos já se tocavam quase.

            Fernandinha sorria e chorava. Mais uma volta da manivela e estaria ele nos seus braços. Esperava, como se fosse um século, a passagem deste grão de areia na ampulheta da eternidade, quando um grito reboou alarmando a multidão.

            - Fujam! Fujam! – Avisou alguém.

            A massa recuou, espavorida, deixando Fernandinha, sozinha, à beira do poço.

            - A corda vai partir-se! – bradou a mesma voz com terror. Atordoada, a moça voltou-se, e viu. Um pouco acima de sua cabeça no ponto que passava pelo carretel, o cabo desfiava-se, rápido, ameaçando romper-se. Soltando um grito, a rapariga estendeu as mãos, aflita, louca, desesperada, para o fundo do poço. Era, porém, tarde. Rodopiando com o peso, o cabo se havia distorcido de repente, estalando num ruído seco, atirando, com um estrondo surdo, a sua carga humana, no fundo do abismo.

            Um grito de raiva, de angústia, de dor alucinante, alarmou, àquela hora da noite a família Sobreira. Pessoas da casa acorreram, em trajes de dormir.

            Curvada para fora do leito, os braços estendidos para o chão, o rosto lavado em lágrimas, Fernandinha chorava nervosamente, aflitamente, agoniadamente, no seu primeiro ataque de histeria.

(CONTOS DE ALCOVA - Dezembro de 1963)
Compilados por Yves Idílio

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HUMBERTO DE CAMPOS

          Sem sombra de dúvidas HUMBERTO DE CAMPOS VERAS foi quem, dentre os escritores brasileiros, dominou com maior mestria o ensaio e a novela.
           Atual, perene, possui aquele dom indescritível que faz as grandes obras permanecerem sempre atuais, sempre vivas...
            Natural do Maranhão impregnou suas páginas de uma nostalgia, de um humanismo pungente característico dos naturais daquela região.
            Neste “Poço de Maridos”, ele se revela sarcástico, mordaz, cruel mesmo, mas sem nunca fugir ao realismo tão seu e do qual foi um dos pioneiros no Brasil.

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Terceiro ocupante da Cadeira 20 da ABL, eleito em 30 de outubro de 1919, na sucessão de Emílio de Menezes e recebido pelo Acadêmico Luís Murat em 8 de maio de 1920. Humberto de Campos (H. de C. Veras), jornalista, crítico, contista e memorialista, nasceu em Miritiba, hoje Humberto de Campos, MA, em 25 de outubro de 1886, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 5 de dezembro de 1934.

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domingo, 5 de julho de 2020

AMAI O AMOR QUE NÃO É AMADO – Marília Benício dos Santos

      
   
  4 de outubro, dia de São Francisco.

            Tenho grande admiração por São Francisco. Foi a primeira imagem que entrou em minha casa. Meu pai era espírita. E, como bom espírita, coerente com suas ideias, não possuía imagens em casa. Eu, quando despertei para a minha responsabilidade de católica, achei que deveria cuidar da conversão dele. E, como protetor escolhi São Francisco, pois o meu pai se chamava Francisco. Comprei uma pequenina imagem e coloquei no meu quarto. Rezava muito pedindo a São Francisco não só por meu pai, mas também pelos meus irmãos. Mas o melhor é que procurei conhecer a vida desse santo. Ninguém ama aquilo que não conhece. Através das leituras fiquei conhecendo Francisco e me apaixonando por ele. A sua vivência de pobreza e o seu amor pelo Cristo me empolgavam. Como invejava Santa Clara por ter conhecido São Francisco, por ter sido sua seguidora! Muitas vezes penso: “como gostaria de ter um Francisco em minha vida!” Como sinto falta! Às vezes, Afonso faz-me lembrar São Francisco. Converso muito com ele. Vamos até o arpoador conversando. Fazemos verdadeiras reflexões. Cada qual conta suas experiências com o Pai. É tão bom!

            Hoje, olhando o mar, o sol e os homens que correm para gozar destas delícias, mas não se lembram de seu Autor, daquele que não se cansa de manifestar o seu amor por eles, lembro-me de São Francisco. “Amai o Amor que não é amado”. Este amor que está dentro de cada um de nós precisando apenas de nossa disposição.

            Na minha juventude, queria fazer milhões de coisas ao mesmo tempo: visitava os pobres, ensinava o catecismo, tinha reuniões e mais reuniões. Vivia sufocada e mamãe, com muita razão dizia: “Menina, você quer abarcar o mundo sozinha”.

            Hoje, quero, sim, abraçar o mundo, mas como os meus braços são pequenos, quero uni-los aos de meus irmãos e formar uma grande cadeia por onde circule o Amor e assim realizar o que São Francisco pregou: “Amai o Amor que não é amado”.


(ARCO-ÍRIS)
Marília Benício dos Santos

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PALAVRA DA SALVAÇÃO (191)

14º Domingo do Tempo Comum, 05/07/2020

Anúncio do Evangelho (Mt 11,25-30)

— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Mateus.
— Glória a vós, Senhor.

Naquele tempo, Jesus pôs-se a dizer: “Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado. Tudo me foi entregue por meu Pai, e ninguém conhece o Filho, senão o Pai, e ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar.  Vinde a mim todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e vós encontrareis descanso. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve”.

 — Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor.

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Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Pe. Roger Araújo:

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“...porque sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para vós” (Mt 11,29) 

Inútil discutir e dar voltas: o distanciamento social veio e começou a fazer parte do nosso ritmo cotidiano; não nos resta outro remédio a não ser tomar medidas para aprender a manejá-lo e a incorporá-lo em nossa vida da maneira menos danosa possível.

De fato, seus perigos são evidentes: o distanciamento físico (“que só se aproximem até um metro”), pode gerar o distanciamento social (“que não me venham com mais problemas, porque já tenho os meus”) e desembocar no distanciamento emocional (“olho ao meu redor e sinto as pessoas como uma ameaça”).
O evangelho deste domingo pode nos oferecer uma inspiração neste momento dramático que vivemos.

Jesus nos revela que toda manifestação de distanciamento (sanitário, físico, social, religioso, cultural, político...) pode ser quebrado a partir do coração. Toda proximidade com o outro começa pelo coração. Nesse sentido, encontramos uma pérola de grande valor naquilo que o evangelista Mateus nos des-vela: “Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração” .

Ao se apresentar como referência para os seus discípulos - “aprendam de mim!”- , Jesus frisou duas atitudes pelas quais pautava a sua vida: a mansidão e a humildade. Elas são o reflexo das bem-aventuranças que Ele sempre deixou transparecer no encontro com os outros.

É do coração que brotam a mansidão e a humildade, únicos remédios que substituem a expressão do afeto e a cordialidade manifestada por via táctil (dar as mãos, abraçar...). Mesmo quando a situação impede que mãos e braços se encontrem, os corações se abraçam. 

Este “tempo de confinamento” está nos fazendo tomar consciência de nossas debilidades, quebrando toda pretensão de auto-suficiência e de soberba; ao mesmo tempo, está nos fazendo experimentar que não somos donos de nossos estados de ânimo e que precisamos dedicar tempos ao descanso e à gratuidade.
Vivemos em meio à cultura da produtividade, da competição, da eficiência, e isso nos deixa cansados, raivosos, angustiados e tristes, sem um motivo aparente e sem poder encontrar uma solução para isso.  Constatamos que nossa fragilidade carrega em si a necessidade de sair, de passar tempos distendidos, de reaprender a estar com os outros, de oxigenar nossa vida em meio a tantos venenos que nos asfixiam...

humildade e a mansidão do coração nos trazem para o chão da vida e nos possibilitam viver com mais humanidade. E estas duas virtudes estão disponíveis, em abundância, no nosso interior. Basta abrir espaços para elas e o nosso cotidiano adquirirá novo sabor e calor.

É suave a condição humana quando, em vez de ocultar nossa debilidade, descobrimos com assombro que é ela que nos conduz pela mão a nos aproximar calorosamente dos demais. Quando vivemos a debilidade de forma agradecida, é mais fácil perdoar que condenar, compreender que murmurar, aceitar que julgar.

A debilidade humana descansa nas mãos de Deus. Talvez seja esta a aprendizagem principal de nossa vida, pois a temos saboreado internamente. Só assim poderemos oferecer, também nós, um lugar acessível de repouso para os cansaços e fragilidades dos outros.

“Descansar” não é a outra face da ação de trabalhar; é participar, ter parte, na vida mesma de Deus, onde ação e repouso coincidem numa única pulsação, num único movimento de segurança e de felicidade, de consentimento e de abandono, nessa Presença Humilde que flui dentro de nós, nos atrai e nos conduz com suavidade. O decisivo é ir ao seu encontro e deixar-nos aliviar, para aprender d’Ele a sermos mais humanos.

Se vivemos só em chave de mandamentos, de doutrinas, de normas..., comeremos pão de fadigas e sentimento de culpa; se vivemos em chave de bem-aventuranças, certamente poderemos caminhar aliviados, porque o peso e a fecundidade da vida estão apoiados em Outro e não dependem só de nós.

Nesse sentido, as bem-aventuranças da humildade e a mansidão são o terreno sólido sobre o qual podemos assentar nossa vida e ativar todas as potencialidades humanas que nos habitam.

“Humildade” vem de húmus, chão, barro. Ela está vinculada ao amor à verdade e a ele se submete.  Ser humilde é amar a verdade mais que a si mesmo. “Humildade é andar na verdade” (S. Teresa).

“Onde está a humildade, está também a caridade” (S. Agostinho). É que a humildade leva ao amor, e todo amor verdadeiro a supõe; sem a humildade, o ego ocupa o espaço disponível, e só vê o outro como objeto ou como inimigo. A humildade nos conduz à pura gratuidade do amor desinteressado.

Por outro lado, aqueles que vivem sob o impulso da mansidão, não rejeitam nada, não exigem nada. Estão abertos às surpresas da vida, vão interiorizando as contrariedades de cada dia e ampliando um espaço no próprio interior, onde acolher a realidade e reafirmá-la; revelam um coração que cria e alimenta proximidades com todos, porque pulsa no ritmo do coração do outro, fisicamente presente ou distante.

A mansidão se assemelha a um sentimento de não-violência ativa, a “essa capacidade passiva de recepção que se encontra no fundo da estrutura da pessoa” (Edith Stein).

Mansidão não é debilidade, mas força suavizada; ela não é a atitude medíocre daqueles que se sentem anulados pela presença violenta do outro. É força que não provém da violência externa, mas de uma transformação interna. Por isso, o manso pode realizar ações impossíveis a quem é violento e sentir-se bem-aventurado e feliz, uma vez que tem esperança de conquistar o coração dos outros e se encontra entre os que herdarão a “terra prometida” do coração de Deus.

A mansidão cristã, reflexo daquela de Jesus, é plena de força. Suavidade e força que recorda o modo “suave-forte” divino de agir. Trata-se daquela harmonia conquistada pelo ser humano que alcançou seu centro mais profundo e ali encontra o dom da liberdade. A mansidão é o estado interior a ser alcançado pelos corações dos homens e mulheres livres.

Nessa ótica, de fato, quando perdemos a mansidão, vemos nossa liberdade diminuída. Entramos na lógica do revide e a emoção indomada preside nossas ações. 

Vivemos em um mundo onde imperam a prepotência, a agressividade, a vingança, o ataque e o desafio preventivo, o amedrontamento, a extorsão e a imposição violenta como meios habituais para conseguir os fins que se pretendem. Esta mesma estratégia de morte é utilizada em diferentes ambientes, tanto civis como religiosos, políticos como econômicos, entre pessoas e entre grupos ou nações.

Com isso, a vida e as relações se convertem num campo de batalha contínua, como se fosse uma manada de lobos disputando o cordeiro.

Como seguidores(as) d’Aquele que é o humilde artífice da paz, testemunhamos e profetizamos que a mansidão é o verdadeiro rosto da Igreja.

Não é por acaso que muitas pessoas que lutaram em favor da justiça, pagando com a própria vida, tenham essa característica comum: a mansidão (Gandhi, Luther King, Dom Romero...). São descritos como indivíduos mansos e humildes, amáveis e de agir discreto, abertos ao diálogo e à acolhida do outro, pacientes e simples. E, exatamente por isso, dotados de uma força diferente e, sobretudo, muito eficaz.

Bem-aventurados os humildes e os mansos! Graças a eles o mal, na terra, pode se transformar em bem!


Texto bíblico:  Mt 11,25-30

Na oração: De onde brotam a mansidão e a humildade? Como ativá-las e fazê-las crescer? Ninguém pode improvisá-las. A raiz última da mansidão-humildade é contemplativa. Nasce em um clima de oração, numa proximidade íntima que faz o nosso coração pulsar no mesmo movimento do Coração com-passivo de Deus. Desse encontro, de coração a Coração, emergem das profundezas de nosso ser estes dinamismos mais humanos e mais divinos. A partir da fonte original, a mansidão e a humildade vão se expandindo na direção dos outros, alimentando novas relações, acolhendo o diferente, vibrando com o bem presente no outro...

- No ritmo de sua vida, o que mais se faz visível: mansidão e humildade? Ego inflado e soberba? Agradecimento assombrado ou ingratidão venenosa? Suavidade divina ou prepotência que petrifica?...

Pe. Adroaldo Palaoro sj


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sábado, 4 de julho de 2020

O DELÍRIO – Machado de Assis

Que me conste, ainda ninguém relatou o seu próprio delírio; faço-o eu, e a ciência mo agradecerá. Se o leitor não é dado à contemplação destes fenômenos mentais, pode saltar o capítulo; vá direito à narração. Mas, por menos curioso que seja, sempre lhe digo que é interessante saber o que se passou na minha cabeça durante uns vinte a trinta minutos.

Primeiramente, tomei a figura de um barbeiro chinês, bojudo, destro, escanhoando um mandarim, que me pagava o trabalho com beliscões e confeitos: caprichos de mandarim.

Logo depois, senti-me transformado na Suma Teológica de São Tomás, impressa num volume, e encadernada em marroquim, com fechos de prata e estampas; ideia esta que me deu ao corpo a mais completa imobilidade; e ainda agora me lembra que, sendo as minhas mãos os fechos do livro, e cruzando-as eu sobre o ventre, alguém as descruzava (Virgília decerto), porque a atitude lhe dava a imagem de um defunto.

Ultimamente, restituído à forma humana, vi chegar um hipopótamo, que me arrebatou. Deixei-me ir, calado, não sei se por medo ou confiança; mas, dentro em pouco, a carreira de tal modo se tornou vertiginosa, que me atrevi a interrogá-lo, e com alguma arte lhe disse que a viagem me parecia sem destino.

    — Engana-se, replicou o animal, nós vamos à origem dos séculos. Insinuei que deveria ser muitíssimo longe; mas o hipopótamo não me entendeu ou não me ouviu, se é que não fingiu uma dessas coisas; e, perguntando-lhe, visto que ele falava, se era descendente do cavalo de Aquiles ou da asna de Balaão, retorquiu-me com um gesto peculiar a estes dois quadrúpedes: abanou as orelhas. Pela minha parte fechei os olhos e deixei-me ir à ventura. Já agora não se me dá de confessar que sentia umas tais ou quais cócegas de curiosidade, por saber onde ficava a origem dos séculos, se era tão misteriosa como a origem do Nilo, e sobretudo se valia alguma coisa mais ou menos do que a consumação dos mesmos séculos: reflexões de cérebro enfermo. Como ia de olhos fechados, não via o caminho; lembra-me só que a sensação de frio aumentava com a jornada, e que chegou uma ocasião em que me pareceu entrar na região dos gelos eternos. Com efeito, abri os olhos e vi que o meu animal galopava numa planície branca de neve, e vários animais grandes e de neve. Tudo neve; chegava a gelar-nos um sol de neve. Tentei falar, mas apenas pude grunhir esta pergunta ansiosa:

    — Onde estamos?

    — Já passamos o Éden.

    — Bem; paremos na tenda de Abraão.

    — Mas se nós caminhamos para trás! redarguiu motejando a minha cavalgadura.

Fiquei vexado e aturdido. A jornada entrou e parecer-me enfadonha e extravagante, o frio incômodo, a condução violenta, e o resultado impalpável. E depois — cogitações do enfermo — dado que chegássemos ao fim indicado, não era impossível que os séculos, irritados com lhes devassarem a origem, me esmagassem entre as unhas, que deviam ser tão seculares como eles. Enquanto assim pensava, íamos devorando caminho, e a planície voava debaixo dos nossos pés, até que o animal estacou, e pude olhar mais tranquilamente em torno de mim. Olhar somente; nada vi, além da imensa brancura da neve, que desta vez invadira o próprio céu, até ali azul. Talvez, a espaços, me parecia uma ou outra planta, enorme, brutesca, meneando ao vento as suas largas folhas. O silêncio daquela região era igual ao do sepulcro: dissera-se que a vida das coisas ficara estúpida diante do homem.

Caiu do ar? destacou-se da terra? não sei; sei que um vulto imenso, uma figura de mulher me apareceu então, fitando-me uns olhos rutilantes como o sol. Tudo nessa figura tinha a vastidão das formas selváticas, e tudo escapava à compreensão do olhar humano, porque os contornos perdiam-se no ambiente, e o que parecia espesso era muita vez diáfano. Estupefato, não disse nada, não cheguei sequer a soltar um grito; mas, ao cabo de algum tempo, que foi breve, perguntei quem era e como se chamava: curiosidade de delírio. 

    — Chama-me Natureza ou Pandora; sou tua mãe e tua inimiga.

Ao ouvir esta última palavra, recuei um pouco, tomado de susto. A figura soltou uma gargalhada, que produziu em torno de nós o efeito de um tufão; as plantas torceram-se e um longo gemido quebrou a mudez das coisas externas.

    — Não te assustes, disse ela, minha inimizade não mata; é sobretudo pela vida que se afirma. Vives; não quero outro flagelo.

    — Vivo? perguntei eu, enterrando as unhas nas mãos, como para certificar-me da existência.

    — Sim, verme, tu vives. Não receies perder esse andrajo que é teu orgulho; provarás ainda, por algumas horas, o pão da dor e o vinho da miséria. Vives: agora mesmo que ensandeceste, vives; e se a tua consciência reouver um instante de sagacidade, tu dirás que queres viver.

Dizendo isto, a visão estendeu o braço, segurou-me pelos cabelos e levantou-me ao ar, como se fora uma pluma. Só então pude ver-lhe de perto o rosto, que era enorme. Nada mais quieto; nenhuma contorção violenta, nenhuma expressão de ódio ou ferocidade; a feição única, geral, completa, era a da impassibilidade egoísta, a da eterna surdez, a da vontade imóvel. Raivas, se as tinha, ficavam encerradas no coração. Ao mesmo tempo, nesse rosto de expressão glacial, havia um ar de juventude, mescla de força e viço, diante do qual me sentia eu o mais débil e decrépito dos seres.

    — Entendeste-me? disse ela, no fim de algum tempo de mútua contemplação.

    — Não, respondi; nem quero entender-te; tu és absurda, tu és uma fábula. Estou sonhando, decerto, ou, se é verdade, que enlouqueci, tu não passas de uma concepção de alienado, isto é, uma coisa vã, que a razão ausente não pode reger nem palpar. Natureza, tu? a Natureza que eu conheço é só mãe e não inimiga; não faz da vida um flagelo, nem, como tu, traz esse rosto indiferente, como o sepulcro. E por que Pandora?

    — Porque levo na minha bolsa os bens e os males, e o maior de todos, a esperança, consolação dos homens. Tremes?

    — Sim; o teu olhar fascina-me.

    — Creio; eu não sou somente a vida; sou também a morte, e tu estás prestes a devolver-me o que te emprestei. Grande lascivo, espera-te a voluptuosidade do nada.

Quando esta palavra ecoou, como um trovão, naquele imenso vale, afigurou-se-me que era o último som que chegava a meus ouvidos; pareceu-me sentir a decomposição súbita de mim mesmo. Então, encarei-a com olhos súplices, e pedi mais alguns anos.

    — Pobre minuto! exclamou. Para que queres tu mais alguns instantes de vida? Para devorar e seres devorado depois? Não estás farto do espetáculo e da luta? Conheces de sobejo tudo o que eu te deparei menos torpe ou menos aflitivo: o alvor do dia, a melancolia da tarde, a quietação da noite, os aspectos da Terra, o sono, enfim, o maior benefício das minhas mãos. Que mais queres tu, sublime idiota?

    — Viver somente, não te peço mais nada. Quem me pôs no coração este amor da vida, senão tu? e, se eu amo a vida, por que te hás de golpear a ti mesma, matando-me?

    — Porque já não preciso de ti. Não importa ao tempo o minuto que passa, mas o minuto que vem. O minuto que vem é forte, jucundo, supõe trazer em si a eternidade, e traz a morte, e perece como o outro, mas o tempo subsiste. Egoísmo, dizes tu? Sim, egoísmo, não tenho outra lei. Egoísmo, conservação. A onça mata o novilho porque o raciocínio da onça é que ela deve viver, e se o novilho é tenro tanto melhor: eis o estatuto universal. Sobe e olha.

Isto dizendo, arrebatou-me ao alto de uma montanha. Inclinei os olhos a uma das vertentes, e contemplei, durante um tempo largo, ao longe, através de um nevoeiro, uma coisa única. Imagina tu, leitor, uma redução dos séculos, e um desfilar de todos eles, as raças todas, todas as paixões, o tumulto dos Impérios, a guerra dos apetites e dos ódios, a destruição recíproca dos seres e das coisas. Tal era o espetáculo, acerbo e curioso espetáculo. A história do homem e da Terra tinha assim uma intensidade que lhe não podiam dar nem a imaginação nem a ciência, porque a ciência é mais lenta e a imaginação mais vaga, enquanto que o que eu ali via era a condensação viva de todos os tempos. Para descrevê-la seria preciso fixar o relâmpago. Os séculos desfilavam num turbilhão, e, não obstante, porque os olhos do delírio são outros, eu via tudo o que passava diante de mim,— flagelos e delícias, — desde essa coisa que se chama glória até essa outra que se chama miséria, e via o amor multiplicando a miséria, e via a miséria agravando a debilidade. Aí vinham a cobiça que devora, a cólera que inflama, a inveja que baba, e a enxada e a pena, úmidas de suor, e a ambição, a fome, a vaidade, a melancolia, a riqueza, o amor, e todos agitavam o homem, como um chocalho, até destruí-lo, como um farrapo. Eram as formas várias de um mal, que ora mordia a víscera, ora mordia o pensamento, e passeava eternamente as suas vestes de arlequim, em derredor da espécie humana. A dor cedia alguma vez, mas cedia à indiferença, que era um sono sem sonhos, ou ao prazer, que era uma dor bastarda. Então o homem, flagelado e rebelde, corria diante da fatalidade das coisas, atrás de uma figura nebulosa e esquiva, feita de retalhos, um retalho de impalpável, outro de improvável, outro de invisível, cosidos todos a ponto precário, com a agulha da imaginação; e essa figura, — nada menos que a quimera da felicidade, — ou lhe fugia perpetuamente, ou deixava-se apanhar pela fralda, e o homem a cingia ao peito, e então ela ria, como um escárnio, e sumia-se, como uma ilusão.

Ao contemplar tanta calamidade, não pude reter um grito de angústia, que Natureza ou Pandora escutou sem protestar nem rir; e não sei por que lei de transtorno cerebral, fui eu que me pus a rir, — de um riso descompassado e idiota.

    — Tens razão, disse eu, a coisa é divertida e vale a pena, — talvez monótona — mas vale a pena. Quando Jó amaldiçoava o dia em que fora concebido, é porque lhe davam ganas de ver cá de cima o espetáculo. Vamos lá, Pandora, abre o ventre, e digere-me; a coisa é divertida, mas digere-me.

A resposta foi compelir-me fortemente a olhar para baixo, e a ver os séculos que continuavam a passar, velozes e turbulentos, as gerações que se superpunham às gerações, umas tristes, como os Hebreus do cativeiro, outras alegres, como os devassos de Cômodo, e todas elas pontuais na sepultura. Quis fugir, mas uma força misteriosa me retinha os pés; então disse comigo: — “Bem, os séculos vão passando, chegará o meu, e passará também, até o último, que me dará a decifração da eternidade.” E fixei os olhos, e continuei a ver as idades, que vinham chegando e passando, já então tranquilo e resoluto, não sei até se alegre. Talvez alegre. Cada século trazia a sua porção de sombra e de luz, de apatia e de combate, de verdade e de erro, e o seu cortejo de sistemas, de ideias novas, de novas ilusões; cada um deles rebentavam as verduras de uma primavera, e amareleciam depois, para remoçar mais tarde. Ao passo que a vida tinha assim uma regularidade de calendário, fazia-se a história e a civilização, e o homem, nu e desarmado, armava-se e vestia-se, construía o tugúrio e o palácio, a rude aldeia e Tebas de cem portas, criava a ciência, que perscruta, e a arte que enleva, fazia-se orador, mecânico, filósofo, corria a face do globo, descia ao ventre da Terra, subia à esfera das nuvens, colaborando assim na obra misteriosa, com que entretinha a necessidade da vida e a melancolia do desamparo. Meu olhar, enfarado e distraído, viu enfim chegar o século presente, e atrás deles os futuros. Aquele vinha ágil, destro, vibrante, cheio de si, um pouco difuso, audaz, sabedor, mas ao cabo tão miserável como os primeiros, e assim passou e assim passaram os outros, com a mesma rapidez e igual monotonia. Redobrei de atenção; fitei a vista; ia enfim ver o último, — o último!; mas então já a rapidez da marcha era tal, que escapava a toda a compreensão; ao pé dela o relâmpago seria um século. Talvez por isso entraram os objetos a trocarem-se; uns cresceram, outros minguaram, outros perderam-se no ambiente; um nevoeiro cobriu tudo, — menos o hipopótamo que ali me trouxera, e que aliás começou a diminuir, a diminuir, a diminuir, até ficar do tamanho de um gato. Era efetivamente um gato. Encarei-o bem; era o meu gato Sultão, que brincava à porta da alcova, com uma bola de papel...

 (Memórias póstumas de Brás Cubas, 1881)

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Machado de Assis (Joaquim Maria Machado de Assis), jornalista, contista, cronista, romancista, poeta e teatrólogo, nasceu no Rio de Janeiro, RJ, em 21 de junho de 1839, e faleceu também no Rio de Janeiro, em 29 de setembro de 1908. É o fundador da cadeira nº. 23 da Academia Brasileira de Letras. Velho amigo e admirador de José de Alencar, que morrera cerca de vinte anos antes da fundação da ABL, era natural que Machado escolhesse o nome do autor de O Guarani para seu patrono. Ocupou por mais de dez anos a presidência da Academia, que passou a ser chamada também de Casa de Machado de Assis.

Fonte: ABL http://www.academia.org.br/academicos/machado-de-assis/textos-escolhidos

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sexta-feira, 3 de julho de 2020

O VÍRUS DA REVOLUÇÃO MATA O CORPO E A ALMA

2 de julho de 2020
Carlos Vitor Santos Valiense

Uma notícia muito chocante viralizou na internet: um homem, durante uma discussão, foi morto pelo gerente de um supermercado por ter-se negado a usar máscara.*

Não narrarei o fato em seus mínimos detalhes, mas apenas o foco principal: “a briga por causa de uma máscara resultou em uma morte”.

Apesar de essa notícia ainda ser considerada chocante para muita gente, a coisa está ficando diferente. Aquele rapaz, aquela mocinha que luta pela “democracia” publicou foto com os dizeres: “sou estudante e antifascista”; “sou mulher e antifascista”; “sou isso, aquilo, aquilo outro e sou antifascista”. Esses mesmos, por sua vez, dizem: “esse aí, sem mascara, mereceu morrer, ele ia contaminar o supermercado inteiro, colocou em risco a coletividade; fascista, merece morrer!
Atira nele, pouuu!”. Isso é sinistro.

Acredito que a Revolução conseguiu em três meses colocar literalmente o mundo em uma maca de hospital, na maior crise sanitária dos últimos tempos, a qual, ainda pior, afetou as almas, como veremos adiante.

O Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, falando em uma reunião no dia 8 de novembro de 1971 sobre “Epidemias comunistas”, fez a seguinte suposição: “Se alguém conseguisse provar — o que, aliás, não é verdade, mas se houvesse uma prova disso — que o comunismo espalha epidemias, o partido comunista ficava reduzido a zero, porque toca num dos ídolos, que é a saúde.” Em tempos de coronavírus essa suposição é prenhe de verossimilhança.

A crise causada pelo Comunavírus não só colocou a população em uma prisão domiciliar, mas levou os sacramentos católicos de volta às catacumbas.

Presenciamos hoje, da pior forma possível, algo que nos seria dado conhecer somente através dos livros que narram a história dos mártires dos primeiros séculos. Os católicos que enfrentavam então as arenas, que eram mortos pelos leões, queimados vivos e esquartejados, ficariam hoje trancados em suas casas, porque o valor supremo passou a ser a vida.

O martírio, então, nem se diga. Segundo a esquerda dita católica, já existem muitos mártires: mártires sem-terra, mártires das favelas, mártires LGBT, mártires das calçadas etc. Esses seriam os verdadeiros mártires que importam nos tempos de fascismo.

Sacramentos? Para quê? “Somos uma igreja doméstica, o sonho do pontificado de João Paulo II está se realizando”, dirá uma freira comunista. Missa pela internet, catequese por live, comunhão na sacolinha, confissão por videoconferência ou no estilo protestante, “confesse-se diretamente com Deus”. Água benta? Nem pensar, álcool gel, já!

Quantos mortos sem os sacramentos? Já pararam para pensar? Quantos ficaram sem a assistência da Igreja no seu momento crucial, naquele momento para o qual rezamos na Ave Maria: “rogai por nós, pecadores, agora e na hora da nossa morte”.

Já pararam para pensar? A crise não é somente sanitária, é um reflexo de uma crise muito maior, é uma crise de fé. Os ministros de Deus são impedidos de realizar o seu oficio sagrado não somente pelas autoridades civis; impedem-nos — por exemplo, de reabrir as igrejas — as próprias autoridades eclesiásticas… em nome da vida.

O Prof. Plinio também dizia: “Quando a cúpula de São Pedro balança, o mundo também balança”, ou seja, a crise na sociedade é um reflexo da crise na Igreja.

Esta pandemia do vírus chinês está mostrando ao mundo não apenas o poder e a protuberância da Revolução, mas também sua notória influência sobre a estrutura eclesiástica. Está mostrando que a Revolução mata não apenas o corpo, mas também a alma.

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quinta-feira, 2 de julho de 2020

O PATRIARCA – Helena Borborema

          Como Abraão, ele foi também pai de um numeroso povo. Qual predestinado, teve na vida uma grande missão que soube cumprir com retidão de caráter e grande bondade, sendo a sua passagem pelo mundo uma trajetória de trabalho, idealismo e desprendimento. A história desse Patriarca teve início em março de 1863 quando, ainda adolescente, chegou à região Sul da Bahia em companhia dos pais, irmãs e do avô. Nas matas do Sul ele cresceu e aprendeu a desvendar seus segredos. Ambientou-se ao novo clima, sobreviveu a febres mortais e enfrentou toda a labuta e sacrifícios que o novo meio oferecia no dia-a-dia. José Firmino Alves, foi o seu nome. Filho de desbravador, seu pai, o sergipano José Alves, foi dos primeiros a se lançar na grande aventura do Sul. Quando chegou a essas terras do Município de Ilhéus, acompanhado da família, havia por esses lados apenas a aldeia de índios mansos em Ferradas, dirigida por frades missionários. Tudo o mais era mata com todas as suas características selváticas, onde apenas as clareiras abertas por Félix Severino e Manoel Constantino indicavam o trabalho de pioneirismo.

            O pequeno grupo começou vida dura de desbravadores na mata cerrada, entre índios, com carência de tudo o que fosse necessário à saúde ou ao conforto. Enfrentando chuvas rigorosas e invernos úmidos, falta de qualquer meio de transporte, só mesmo os fortes de espírito podiam suportar as adversidades daquele meio. Mas José Alves se estabeleceu com a família nesse ermo, limpou a terra e plantou cacau. Da luta do homem e mata resultou a vitória do primeiro, quando as verdes plantações de cacaueiros dominaram a terra subjugada pelo trabalho daquele punhado de destemidos sergipanos. A Burundanga foi o reduto dessa família corajosa onde o velho José Alves viria mais tarde a sucumbir.

            Com a morte do pai, o moço José Firmino assumiu a responsabilidade de cuidar da família e continuar o trabalho do velho pioneiro.

            Nas margens do Rio Cachoeira, principal vias dessa terra brabas, outros desbravadores aos poucos se instalaram; com eles, rústicas vendolas surgiram, as “tabocas”, destinadas a atender com o pequeno comércio de fumo, açúcar, querosene, os sertanejos que transitavam de Conquista para Ilhéus com seus carregamentos de requeijão, charque, e por aqui faziam pernoite certo. José Firmino passou também a negociar. Abriu pequena casa de comércio, misto de loja e armazém. As suas atividades se dividiram então entre a roça de cacau e o comércio. Em torno das vendolas ou “tabocas”, da beira do rio, acabou se formando um aglomerado de pequenas casas cobertas de palhas umas, outras de telhas – o arraial das Tabocas (1873).

            A casa comercial de José Firmino tinha mercadoria variada que ia, desde tecidos de algodão a gêneros alimentícios, sabão, querosene, chumbo para caça, o que atendia às necessidades das famílias do nascente arraial e das roças. Já não era mais preciso a longa caminhada para a vila de Cachoeira, pois Tabocas começava a fornecer à pequena população, os gêneros de necessidade. Assim, o pequeno armazém foi prosperando. O amor à terra onde crescera e onde se sentia arraigado, aumentou no moço comerciante o seu sonho de vê-la progredir. Queria ver o arraial das Tabocas crescer, prosperar e que muita gente viesse colaborar para aquele progresso. De sob aquelas árvores, de dentro daquele mato, haveria de sair a Terra da Promissão onde correria, não leite e mel, mas dinheiro, muito dinheiro. Não se limitou o moço sergipano a cuidar somente do seu patrimônio, a simplesmente plantar cacau, multiplicar suas roças e descansar na própria riqueza. Ele queria a prosperidade da terra.

            Famílias foram chegando para o arraial. Na mata, as clareiras aqui e acolá indicavam a penetração de outros bravos pioneiros. O tempo foi passando. Já dono de um sólido patrimônio, conhecido na capital do Estado, onde ia fazer compras para abastecer sua casa de comércio já próspera e forte, o então coronel José Firmino Alves, com crédito firmado, abriu em uma conceituada casa comercial de Salvador uma conta corrente para financiar às suas custas o transporte de patrícios seus, os mais pobres, a fim de que pudessem vir para Tabocas sem dificuldades monetárias, e aqui trabalhar. Distribuía ainda por sua conta, instrumentos de lavoura com os chegantes, que rumavam mata a dentro, abrindo suas próprias roças.

            José Firmino enxergava muito além do seu tempo. Já estabelecido no arraial, anteviu a cidade que devia nascer e crescer para um futuro de grandeza. Sentiu a necessidade de incentivar a fixação na terra de elementos úteis e de valor que a procurassem. Na falta de um hotel, cedeu uma casa de sua propriedade para acomodar as pessoas de bem que chegassem. Era a “República dos Hóspedes”. Estes aí ficavam acomodados até que se estabelecessem no trabalho e em casa, por conta própria.

            São muitos os que procuram Tabocas, aquela pequena colmeia de sergipanos e sertanejos. Vêm do interior do Estado, do Recôncavo (Santo Amaro é um grande celeiro de migrantes), da capital, de outros Estados e até de terras longínquas do Oriente, das regiões da Síria e do Líbano.

            O incipiente arraial haveria de progredir sob a inspiração mágica daquele coronel que manda construir um sobrado de bonita arquitetura para sua residência, o primeiro e único daquela povoação, pouco importando o aspecto simplório do arraial de chão coberto de lama e capinzal. Aquela construção de aspecto senhorial, com suas janelas de gradis de ferro trabalhado e emolduradas por lindos florões esculpidos em cimento nas suas três fachadas, era um atestado de amor à terra e confiança no seu futuro. Acolhedor, tornou-se aquele sobrado o centro da vida política e social do arraial de Tabocas. Nos seus salões, importantes decisões da política e da vida regional foram tomadas, sem falar nas alegres comemorações nele realizadas e nos animados saraus dançantes feitos sob a claridade de bonitos lustres de bico de gás e ao som de um piano que o Coronel mandara buscar em Salvador. Entre jarrões de louça alemã e o tinir de cristais, poesias eram declamadas pelos moços da terra e, pelas jovens mais dotadas de voz, belas canções quebravam o silêncio das noites do arraial. Eram os encontros de congraçamento que o “sobrado do coronel” proporcionava, consolidando, fortalecendo uma sociedade em formação. O bonito sobrado era o cérebro e a alma do arraial e depois vila de Itabuna.

            Já tendo constituído família, casado com dona Lucrécia Selmann, de tradicional família ilheense, coronel, Firmino Alves envia suas filhas a estudarem em Salvador, a despeito de todas as dificuldades de transporte da época e embora vivendo num meio onde poucas mulheres tinham acesso à instrução.

            Esse coronel de maneiras simples e afáveis, crescido e vivido na mata e depois no arraial, tinha alma de esteta. Além da bonita construção de sua residência, presenteia uma de suas filhas casadas com um outro belo sobrado de inusitado estilo para aquele meio, aqueles primeiros tempos de Itabuna, uma imitação de um castelo medieval. Essa construção foi entregue à direção do mestre de obras, o português “seo Américo”, responsável por muitas das melhores obras de Itabuna. Internamente, as suas paredes foram decoradas com lindas pinturas de flores e guirlandas em suave colorido, num trabalho primoroso de um pintor vindo especialmente de Salvador para executá-lo. O lindo teto de madeira trabalhada e o piso de madeira de lei, além da bela porta de madeira entalhada e vidro bisotado, acabavam de enriquecer todo o conjunto. Esse sobrado, o “castelo” como era chamado, ficou como um marco na paisagem urbanística de Itabuna pela sua beleza e arquitetura fora do comum.

            O progresso material em Tabocas era sensível, corria dinheiro, casas eram construídas, as sacas de cacau se empilhavam nos depósitos das fazendas e nos armazéns, as tropas cresciam, o comércio se movimentava, mas a população crente e fervorosa se ressentia da falta de vida espiritual. Atendendo aos apelos das almas piedosas, José Firmino dá uma área de suas próprias terras para que fosse nela erigida uma igreja sob o patrocínio de São José – à qual seria mais tarde a igreja matriz de Itabuna (1893).

            O povoado de casinhas modestas e ruas enladeiradas crescia cada vez mais. Gente boa e gente ruim nela fincava pouso; era a aventura do dinheiro, o desejo da fortuna através dos frutos amarelos dos cacaueiros.

            Chega o ano de 1906. O distrito de Tabocas, desmembrado do município de Ilhéus, passa a município, vila e termo com o nome de Itabuna. Uma representação fora enviada à Câmara dos Deputados Estaduais, pedindo a criação do Município de Itabuna. Um dos signatários era o coronel José Firmino Alves, que se comprometia a doar os prédios necessários para a Intendência, o Quartel da Polícia e a casa do Juiz Preparador. Vai à capital do Estado e solicita, pessoalmente, do Arcebispo Dom Jerônimo Tomé da Silva, a criação da Paróquia. Diante das dificuldades apresentadas pela falta de padres disponíveis, José Firmino faz uma discreta advertência: “Bem, Eminência, se não há um sacerdote católico que possa ir para a vila de Itabuna, então convidarei um Pastor protestante”. O impasse é logo resolvido e fica garantida a vinda de um vigário para a futura paróquia, comprometendo-se mais uma vez Firmino Alves a doar como patrimônio da mesma uma casa para residência do vigário, que seria o Monsenhor Moisés Gonçalves do Couto, o primeiro a ocupar o importante cargo. Assim foi criada a Paróquia de São José (1908).

            Em recompensa pelos seus serviços no campo espiritual, foi Firmino Alves agraciado pelo Santo Padre Pio X, com a comenda Pró Eclesia et Pontifice e a bênção papal (1913).

            Esse homem de espírito batalhador e coração generoso ficou rico, conservando uma modéstia singular. Chefe político de grande prestígio, jamais pleiteou para si uma eleição, como também jamais deu guarida a jagunços em suas fazendas ou praticou um ato que desabonasse a sua conduta.

            A vila de Itabuna prosperava rápido. Muita gente para ela convergia. Vieram os morigerados e trabalhadores, vieram assassinos e desordeiros. Dias alegres e dias de terror marcavam seu calendário. Firmino Alves participa de memoráveis acontecimentos políticos como líder respeitado. Num período de muitas violências, quando o banditismo atingiu uma de suas fases mais agudas, ele foi a Salvador e, pessoalmente, expôs ao Governador, o dr. Araújo Pinho, a caótica situação. Inteirado das terríveis ocorrências, o dr. Araújo Pinho, que tinha conhecimento do valor moral de Firmino Alves e do seu espírito ordeiro, ofereceu-lhe as posições políticas do Município e cargos para seus amigos, o que lhe dava com isso, amplos poderes para mandar e desmandar. Mas, delicadamente, ele recusa o poder e diz ao governador que nada deseja para si próprio, queria apenas uma coisa: a manutenção da ordem, e ficava satisfeito. O governador promete atender o seu pedido e nesse sentido nomeia um Delegado Regional que vem com uma força policial manter a ordem e pacificar o Município.

            Os anos passaram e o Patriarca de olhar calmo e semblante plácido viu o seu povo crescer. Viu crescer a cidade que ele criou com amor e com honradez a legou à posteridade.

            A sua vida de trabalho e lutas políticas não passou incólume de sofrimentos e ingratidões. Amargou os dissabores da política e do banditismo. De certa feita teve de refugiar-se em Salvador por mais de seis meses para escapar à fúria assassina de seus adversários políticos, mas sem nunca deixar de lutar pelos interesses de sua terra.

            Com elevado espírito público viveu com desprendimento, amando a cidade que nasceu de seu sonho, dando a ela tudo o que pôde dar de bom e de si mesmo.

             Por motivos particulares, nos últimos anos de sua vida passou a residir em Salvador. Era o pássaro ferido, engaiolado, saudoso da amplidão das matas verdejantes onde vivera.

            Sentindo o peso da idade, sentia também saudades da terra querida, daquele chão que pisara desde a adolescência, daquele céu que tantas vezes mirara, daquelas estrelas que tantas vezes tentara contar nas noites escuras da mata. E volta em busca de sua Itabuna querida, para nela dormir o sono derradeiro e entregar à terra amada os despojos do velho guerreiro, já cansado e combalido de tantas lutas. Não quis dormir em terras alheias, buscou o seu povo, o Patriarca que previu o futuro e grandeza de uma cidade.

(TERRAS DO SUL)
Helena Borborema

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quarta-feira, 1 de julho de 2020

2 + 2 = X? - Paulo Roberto Campos

1 de julho de 2020

Paulo Roberto Campos

Está em voga certa pedagogia moderna, segundo a qual não se deve mais, como antigamente, corrigir — e muito menos reprimir — os erros cometidos pelos alunos, pois “poderia provocar traumas”.

Resultado dessa enganosa pedagogia: alunos de diferentes etapas do ensino fundamental são considerados “analfabetos funcionais”. Eles não entendem o texto que lêem, não sabem sequer interpretar uma única frase — entendem palavras soltas, mas não a expressão completa. Não sabem sequer as operações fundamentais de matemática.

Comento isso porque ontem recebi de um amigo carioca um vídeo que, de modo bem didático e cômico, ironiza a situação em que fica o aluno “protegido” por pessoas (às vezes até pelos pais…) que defendem a tese de que não há uma só verdade, mas verdades diferentes (sic!), “verdades alternativas”…, como a de que 2 + 2 são 22 (ou qualquer outro resultado).

E o professor que não aceita o resultado relativista e corrige os erros dos alunos poderá ser acusado de “politicamente incorreto”, extremista, fascista, por querer lhes impor “sua particular visão de mundo”. E sob acusação de “doutrinar e radicalizar os alunos”, o professor “nazista” poderá ser demitido do colégio.

Esse caso entre professor/aluno é apenas um exemplo. Tal relativismo se estende a todos os campos, como o da moral. Hoje, assim como se ensina que a verdade não é única, leciona-se que não há uma única moral, que se pode ir mudando a moral ao longo dos tempos. Entretanto, não acreditar que a moral é imutável é aceitar que a verdade é mutável, ou seja, mentira. E não passa de um ignorante troglodita aquele que nela crê. Daí a consequência: a perseguição aos “intolerantes” que ensinam logicamente que o resultado de 2 + 2 só pode ser 4.

Será que o tal do tão badalado “novo normal” dentro de uma “Nova Ordem Mundial” — da qual tanto se fala a propósito da atual pandemia — é aceitar como normal a ilogicidade, o absurdo e até aberrações?

A continuar assim, aonde vamos parar? Certamente, se não reagirmos, no tribalismo indígena, por meio de uma verdadeira Revolução Cultural, infelizmente já em curso.
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Postscriptum: Vale muito a pena assistir ao criativo vídeo que segue — a resposta final da professora é, além de divertida, brilhante!





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