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quarta-feira, 7 de outubro de 2020

VARIAÇÕES EM TORNO DA LEI DO TALIÃO – Giovanni Boccaccio

 


           Ouvi contar, que viviam há muito tempo atrás em Siena, dois bons burgueses, de nome um, Spinelloccio Tamena e o outro, Zeppa de Mino. Estavam ambos na flor da idade, moravam na mesma rua e estimavam-se muito. Casados, cada qual possuía uma linda mulher. Spinelloccio, que ia a miúde à casa de Zeppa, estivesse ele ou não, apaixonou-se pela esposa do vizinho e tão bem lhe soube fazer a corte que não tardou em obter-lhe os favores. Tais relações duraram longo tempo sem que o marido enganado desconfiasse da traição. Entretanto, a familiaridade reinante entre sua mulher e o amigo acabou por lhe inspirar inquietação e a fim de esclarecer se eram ou não fundadas suas suspeitas, resolveu certo dia esconder-se à hora em que Spinelloccio costumava visitá-lo. Este, mal chegando, procurou-o e como a dona da casa, que o supunha na rua informasse que estava ausente, pôs-se logo a beijá-la e ela a retribuir beijo por beijo. Zeppa, que assistia às carícias do lugar onde se escondera, silenciou, para ver qual seria o resultado desse jogo. Em resumo: - viu sua mulher com Spinolloccio entrar no quarto de dormir e fechar a porta à chave.

            É fácil imaginar com deve Zeppa, ter ficado indignado com esta dupla traição. Considerou, no entanto, que seus gritos, longe de diminuírem o ultraje, somente viriam aumentar sua vergonha, achou melhor não dar o alarma e contentou-se em conjeturar um meio de se vingar sem fazer escândalo. Imediatamente, sua imaginação forneceu-lhe um meio muito conveniente.

            Tendo Spinelloccio saído, entrou Zeppa, no quarto e encontrou a esposa a ajeitar o penteado desfeito.

            - Que fazes aí, minha mulher? – perguntou-lhe.

            - Não estás vendo?

            Sim, de fato vejo e vi também outra cousa que bem quisera não haver presenciado. – Relatou-lhe então o que assistira. A mulher, tomada de pavor, percebendo que não havia meio de negá-lo, tudo co0nfessou e em prantos, pediu-lhe perdão.

            - Não me poderias fazer injúrias maior – disse o marido – eu te perdoarei, mas sob a condição de fazeres o que eu te ordenar.

            - Serás obedecido.

            - Pois bem! Quero que marques uma entrevista com Spinelloccio, para amanhã as nove horas; chegarei um minuto depois dele; assim que me ouvires manda-o esconder-se nesse grande cofre e fecha-o à chave. Feito isto, dir-te-ei o resto. Segue minhas ordens com presteza e juro-te que te perdoarei e até mesmo esquecerei tua afronta.

            A mulher tudo prometeu para merecer o perdão, cumprindo com exatidão as instruções do marido.

            Às nove horas do dia seguinte, Spinelloccio e Zeppa estavam juntos. O primeiro, que combinara com a esposa do amigo ir encontrá-la nessa hora, pretextou um almoço ao qual disse não poder faltar, a fim de poder despedir-se.

            - Ainda não é hora do almoço, portanto não vás tão cedo.

            - Não me incomodarei de chegar antes da hora, porque tenho de tratar de negócios com o dono da casa na qual vou almoçar.

            E se despediu, dirigindo-se para a residência de sua amante. Mal adentraram ao quarto, Zeppa se fez ouvir na escada. A mulher, fingindo-se apavorada, convence o conquistador a enfiar-se no cofre, tranca o mesmo e sai do quarto. Surge Zeppa e pergunta-lhe se o almoço está pronto.

            - Ficará pronto em um minuto.

            - Acabo de deixar Spinelloccio – replicou o marido – ele hoje vai almoçar fora com um amigo e já que sua esposa ficará completamente só, vai e convida-a para vir almoçar conosco.

            A dama, a quem a lembrança de sua falta e o receio de ser punida tornava obediente, atendeu à ordem do marido e tanto insistiu com a vizinha, a quem convenceu que não deveria aguardar o marido, que afinal a levou consigo. Recebeu-a Zeppa, com grandes demonstrações de amizade e depois de fazer sinal à mulher para que fosse à cozinha, tomou a outra pela mão e levou-a para o quarto cuja porta fechou com o ferrolho.

            - Que significa isto? – perguntou a visitante – Foi para isto que me convidou para almoçar? É esta, então, a amizade que dedica a meu marido?

            - Antes de se ofender, minha senhora, - respondeu Zeppa, segurando-lhe a mão e aproximando-se do cofre – queira ouvir o que lhe tenho para dizer, gostava muito de seu esposo como se meu irmão fosse. Quanto à amizade que ele me devota, ignoro se é sincera; o que sei, é que ela não o impede de dormir com minha mulher, como com a senhora. Ontem mesmo o fez, quase às minhas vistas. Ora, justamente porque gosto dele é que tenciono usar de represálias e limitar a isso toda a minha vingança. Assim como ele possuiu minha esposa, é justo que eu possua a dele. É o mínimo que posso exigir. Se me recusa esta satisfação informo-lhe que não me será difícil surpreendê-lo e tratá-lo de um modo que nenhum dos dois haverá de apreciar.

            A dama recusava-se a crer que o marido lhe fosse infiel, mas Zeppa, relatou-lhe o que fizera para obter a certeza. Essas particularidades acabaram por persuadi-la.

            - Já que o senhor resolveu vingar-se em mim, do ultraje do meu marido, estou disposta a consentir, mas sob a condição de que farás as pazes com sua mulher; eu, por meu turno, perdoo de bom grado o que ela me fez.

            - Fique tranquila – replicou Zeppa – encarrego-me de tudo e, comprometo-me a lhe ofertar uma das mais belas joias que se possam ver. A seguir, pôs-se a beijá-la apaixonadamente, conduzindo-a delicadamente para cima do cofre e ali a usou quanto tempo quis.

            Spinelloccio, a que tudo ouvira, sentiu tamanha cólera que julgou estourar de raiva e se o temor pelo ressentimento de Zeppa não o detivesse, não haveria insulto que não dirigisse à mulher, embora estivesse encerrado daquela forma. Considerando, porém, que o ofensor era ele, e que o amigo apenas lhe retribuía cornos por cornos, decidiu ser mais do que nunca seu amigo.

            A vizinha, no entanto, descendo do cofre, solicitou a joia prometida. Zeppa abrindo a porta do quarto, chamou a mulher, que ao entrar, disse à visitante:

            - Você me devolveu um pão por um bolo.

            - Minha mulher, - disse o marido interrompendo-a – abre este cofre. – Depois, voltando-se para a vizinha surpresa por ver ali o esposo, disse-lhe:

            - Cá está, minha bela senhora, a joia prometida.

            Seria difícil dizer qual dos dois teve maior vergonha, se Spinelloccio, que sabia de como acabavam de traí-lo, ou se sua mulher, por ver que o marido ouvira tudo quanto ela dissera e fizera com Zeppa. Saindo do cofre, disse Spinelloccio, sem entrar em explicações:

            - Estamos quites, meu vizinho; e se quiseres atender à minha sugestão, continuaremos bons amigos como dantes. Já que a única coisa que nos faltava compartilhar eram nossas mulheres, sou de opinião de que as tenhamos em comum.

            Zeppa aceitou a oferta e os quatro almoçaram juntos na mais perfeita união. Daí para diante, cada mulher teve dois maridos e cada marido duas mulheres, sem que jamais houvesse entre eles a menor desinteligência em torno do fato.

 

(CONTOS DE ALCOVA)

Compilados por Yves Idílio

 

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GIOVANNI BOCCACCIO

 

          “Quando Deus criou Giovanni, duplicou a criação”.

            Com estas simples palavras um crítico, certa vez, definiu fielmente a vida e a obra de Boccaccio.

           Tudo o que escreveu é vida, é alegria e acima de tudo é gargalhada. Nada respeitou, nem religiões, nem preconceitos, nem ideais, mas no fundo suas conclusões tinham um quê, ainda que disfarçado, de moralismo, medroso e receoso...

            Nada melhor para retratá-lo do que suas próprias palavras referindo-se aos interesses comerciais da família que ele deixava em completo abandono: - “Que meu pai trate disso: corre-lhe ouro nas veias; nas minhas corre sangue”.

            Com Rabelais, Boccaccio forma a dupla máxima da sátira e do humor, quase que se poderia dizer referindo-nos às suas obras, nesse gênero: Depois deles – O Dilúvio.

            Com “VARIAÇÕES EM TORNO DA LEI DO TALIÃO”, o “conteur” irreverente do ‘Decameron’, nos dá uma demonstração da sua verve incomparável e do seu modo simplista e indiferente de acomodar as coisas...

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quarta-feira, 30 de setembro de 2020

ÚLTIMA NOITE EM PETROGRADO – Igor Palykh


     
 
Lizaveta Ivanovna olhou curiosa aquela figura empertigada. Homem persistente esse Oleg Ardalionovitch. Será que agia assim com todas, ou ela era mesmo digna de tanta atenção, tanto assédio... Livros, flores, presentes para o pequeno Feodor, convites para o Teatro, e não sabia mais o que...

            - Então, Lizaveta Ivanovna, - Oleg fixou-a bem no fundo dos olhos – às nove em ponto. Está bem?

            - Ótimo, está certo.

            Lizaveta tentou aparentar algum entusiasmo, mas as palavras saíram insossas, gélidas quase.

            Subiu lentamente a escada, contando os degraus. Pensava no marido. Pobre Mikhail, tão gordo e principalmente tão longe... fizera questão que ela viesse com o garoto passar uns dias em Petrogrado. Ele não poderia ficar, viria apenas buscá-los. Depois, o Hotel era ótimo e não faltariam oportunidades para ela e Feodor divertirem-se um pouco, mudarem de ares...

            Abriu a porta do quarto, deixou-o na penumbra. Deitou-se vestida mesmo. Um leve torpor invadiu-a. Estava bom ali. Quente, agradável. Deslizou as mãos pelo corpo, pela cintura, pelas coxas; subiu vagarosamente até os seios, duros, bem duros ainda; capazes de fazer inveja a muitas mocinhas de dezessete anos.

            Levantou-se. Acendeu a luz. Começou a despir-se. Olhava com carinho, quase com cobiça as próprias formas. Tirou a blusa. Estava branca, muito branca, alva, cor de leite. Desapertou o espartilho. Os seios saltaram rebeldes, volumosos, eretos, para fora. Deixou cair a saia, jogou com um gesto cheio de coqueteria a camisa no espaldar daquela horrível cadeira negra. Sorriu da própria audácia. Estava quase nua. Volteou em frente ao espelho. Corpo bem feito. Coxas bem torneadas, penugens escuras sobressaíam embaixo da calcinha clara e teimosamente mostravam suas pontas irreverentes junto à junção das pernas.

            Apenas mais algumas horas em Petrogrado e depois de novo a vidinha melancólica e triste da Província. O “samovar” de sempre e os indefectíveis mexericos de todas as tardes... Até que o empertigado Oleg Ardalionovotch não parecia tão horrível naquele momento. Se essa noite, a última noite na cidade grande ele ousasse... Talvez... Quem sabe... Se fosse nesse mesmo momento, não teria dúvidas. À noite... Bem, tudo seria uma questão de tato...

            Passavam às margens do Neva. Tudo gelado. Doía a vista a brancura do gelo. O porto todo duro. Os guindastes parados formavam figuras grotescas, sombrias, furando a névoa cinzenta. A velha e magnífica Catedral de Kazan surgiu imponente, à direita; a névoa respeitava seu aspecto senhorial e mantinha-se à distância, aureolando-a apenas...

            Lizaveta sentiu a mão de Oleg Ardalionovitch pousar, a medo, sobre a sua. Olhou-o e não retirou a mão. A carruagem estacou um momento, uns transeuntes passavam, depois prossegui mais rápida.

            Oleg pensava depressa: “Se entrarmos no Teatro, quase tudo estará perdido. O trem parte bem cedo e ela não poderá recolher-se muito tarde; depois, existe o garoto, e acho que a sua resistência não está suficientemente minada; é preciso agir já”.

            Ordenou ao cocheiro que parasse um minuto. Abriu a janelinha da carruagem:

            - Você aí, “paizinho”, quer ir ao Teatro? Tome duas entradas. Tome. Não tenha medo. É presente. É de graça. Pegue, homem, pegue.

            A carruagem seguiu. Lizaveta olhava-o interrogativamente. Oleg explica de um só fôlego:

            - Não é mesmo a Pavlova quem vai dançar hoje. Ademais, fiquei com pena daquele “paizinho”. Deve ter sido a maior surpresa de sua vida. Depois Lizaveta, você parte amanhã. Deus sabe quando poderei vê-la de novo. Hoje é um dia especial. Merece algo melhor. Inesquecível... Vamos cear em...  minha casa?

            Lizaveta não se perturbou. Hesitou um segundo e assentiu com a cabeça. Afinal, se de fato, não era mesmo a Pavlova...

            A cabeça doía muito. Estava enjoada a mais não poder. Que estúpido aquele Oleg, enchê-la de bebida. Como se fosse preciso. O trem afastava-se velozmente. Petrogrado ficara para trás. Não existia. Oleg também não. Tudo voltava à calmaria de sempre. Olhou Feodor. O menino dormia recostado em seu braço. Sentiu náuseas de novo. Maldito Oleg. Procurou recordar...

            - Chega, Oleg, já bebi muito. Parece que esse vinho não combina com caviar... – Lizaveta empurrou o copo. – E estas ostras, nessa época! Você tinha certeza de que eu viria aqui. Preparou tudo, não?

            Oleg encheu outro copo. Vinho branco dessa vez.

            - Nem tanto; em último caso, ficaríamos passeando pela cidade. Petrogrado é sempre linda, especialmente à noite. Experimente esse vinho branco. Só um pouquinho. Prove só.

            E colou o copo nos lábios da mulher. Lizaveta riu. Como ele parecia vulgar, grosseiro, até. Mas já chegara.

            Tudo girava. Nem notou quando Oleg Ordalionovitch, a levou, quase carregada para o quarto. Sentiu umas mãos ávidas despindo-a. apalpando-a sofregamente. Quase arrancando as peças do seu vestuário.

            Viu-se nua, mole, zonza e cheia de náuseas...

            O homem parou um instante. Admirou aquele corpo maravilhoso. A perfeição e a horizontalidade dos seios, a curva embriagadora dos quadris, as covas perfeitas, levemente saltadas para fora... Atirou-se sobre a presa. Procurou os lábios de Lazaveta, mordeu-os. Sentiu um gosto estranho na boca, Ácido. Um líquido viscoso, nojento, molhou seu rosto, esguichou sobre seu peito. Afastou-se e apoiando a cabeça de Lizaveta ajudou-a a... vomitar.

            O trem deixava Petrogrado cada vez mais para trás. Fora melhor assim. Lizaveta Ivanovna acariciou a cabeça do menino que dormia. Afinal, ela não tinha certeza de que não fora mesmo a Pavlova que dançara...

           

 (CONTOS DE ALCVOVA)

Compilados por Yves Idílio

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IGOR PALYKH

 

          O autor de “Última Noite em Petrogrado”, desponta como uma das maiores figuras no moderno ficcionismo russo. Filho da Georgia, região onde os homens são marcados por indelével tristeza, Igor Palykh, não obstante, possui uma temática leve e saborosa.

          Sem embargo de sua inconteste notoriedade nos estados da União Soviética, não alcança no mundo ocidental a mesma projeção devido à exígua divulgação de suas obras.

           Não querendo privar os leitores de tão agradável conhecimento, inserimos um de seus contos mais característicos, nesta coletânea. Nele afloram todas as constantes individuadoras de sua obra. O estilo leve, colorido. A discrição minuciosa, exata. A frustração sempre tisnando os desejos humanos. Desígnios estranhos intervindo para a não concretização de vontades conjugadas. O final sempre imprevisto. E o autor, colocado como impotente espectador, enquanto os fatos, os acontecimentos, as situações, insinuam e apregoam a limitação humana.


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domingo, 6 de setembro de 2020

A SENHORA DO GALVÃO – Machado de Assis


           
 Começaram a rosnar dos amores deste advogado com a viúva do brigadeiro, quando eles não tinham ainda passado dos primeiros obséquios. Assim se fazem algumas reputações más, e, o que parece absurdo, algumas boas. Com efeito, há vidas que só têm prólogo; mas toda gente fala do livro que se lhe segue, e o autor morre com as folhas em branco. No presente caso, as folhas escreveram-se, formando todas um grosso volume de trezentas páginas compactas, sem contar as notas. Estas foram postas no fim, não para esclarecer, mas para recordar os capítulos passados; tal é o método nesses livros de colaboração. Mas a verdade é que eles apenas combinavam no plano, quando a mulher do advogado recebeu este bilhete anônimo:

            “Não é possível que a senhora se deixasse embair mais tempo, tão escandalosamente, por uma de suas amigas, que se consola da viuvez, seduzindo os maridos alheios, quando bastava conservar os cachos...” 

            Que cachos? Maria Olympia não perguntou que cachos eram; da viúva do Brigadeiro, que os trazia por gosto e não por moda. Creio que isto se passou em 1853. Maria Olympia leu e releu o bilhete; afinal, meteu-o no vestido e encarou a mucama, que esperava por ela e que lhe perguntou:

            - Nhanhã não quer mais ver o chale?

            Maria Olympia pegou no chale que a mucama lhe dava e foi pô-lo aos ombros, defronte do espelho. Achou que lhe ficava bem, muito melhor que à viúva. Cotejou suas graças com as da outra. Enquanto fazia essas reflexões, ia compondo pregando e despregando o chale.

          - Este parece melhor que o outro, aventurou a mucama.

           - Não sei... disse a senhora, chegando mais para a janela, com os dois nas mãos.

           - Bota o outro, nhanhã.

            A nhanhã obedeceu. Experimentou cinco chales dos dez que ali estavam, em caixas, vindos de uma loja da rua da Ajuda. Concluiu que os dois primeiros eram os melhores; a questão era saber qual dos dois escolheria, uma vez que o marido, recente advogado, pedia-lhe que fosse econômica. Contemplava-os alternadamente, e ora preferia um, ora outro. De repente, lembrou-se da aleivosia do marido, a necessidade de mortificá-lo, castigá-lo, mostrar-lhe que não era peteca de ninguém, nem maltrapilha; e, de raiva, comprou os dois chales.

          Ao bater das quatro horas (era a hora do marido), nada de marido. Nem às quatro e meia. Maria Olympia imaginava uma porção de coisas aborrecidas, ia à janela, tornava a entrar, temia um desastre ou doença repentina, pensou também, que fosse uma sessão de júri. Cinco horas, e nada. Os cachos da viúva também negrejavam diante dela, entre a doença e o júri com uns tons de azul-ferrete, que era provavelmente a cor do diabo. Realmente era para exaurir a paciência de uma moça de vinte e seis anos. Vinte e seis anos; não tinha mais. Era filha de um deputado do tempo da Regência, que a deixou menina; e foi uma tia que a educou com muita distinção. A tia não a levou muito cedo a bailes e espetáculos. Era religiosa, conduziu-a primeiro à igreja. Maria Olympia tinha a vocação da vida exterior, e, nas procissões e missas cantadas, gostava principalmente do rumor, da pompa. Magra devoção, que escasseou ainda mais com o primeiro espetáculo e o primeiro baile. Não alcançou a Candiani, mas ouviu a Ida Edelvira, dançou à larga e ganhou fama de elegante.

            Eram cinco horas e meia, quando o Galvão chegou. Maria Olympia, que então passeava na sala, tão depressa se lhe ouviu os pés, fez o que faria qualquer outra senhora na mesma situação: pegou um jornal de modas e sentou-se, lendo, com um grande ar de pouco caso. Galvão entrou ofegante, risonho, cheio de carinhos, perguntando-lhe se estava zangada, e jurando que tinha um motivo para a demora, um motivo que ela havia de agradecer, se soubesse...

            - Não é preciso, interrompeu ela friamente.

            Levantou-se; foram jantar. Falaram pouco; ela menos que ele, mas em todo o caso sem parecer magoada. Pode ser que entrasse a duvidar da carta anônima; pode ser também que os dois chales lhe pesassem na consciência. No fim do jantar, Galvão explicou a demora; tinha ido, a pé, ao teatro provisório comprar camarote para esta noite: davam os Lombardos. De lá, na volta, foi encomendar um carro...

            - Os Lombardos? Interrompeu Maria Olympia.

            - Sim, canta a Leboceta, canta a Jacobson, há bailado. Você nunca viu os Lombardos?

            - Nunca.

            - E aí está porque me demorei. Que é que você merecia agora? Merecia que eu lhe cortasse a ponta desse narizinho arrebitado...

            Como ele acompanhasse o dito com um gesto, ela recuou a cabeça; depois acabou de tomar o café. Tenhamos pena da alma dessa moça. Os primeiros acordes dos Lombardos ecoavam nela, enquanto a carta anônima lhe trazia uma nota lúgubre, espécie de “Réquiem”. E por que é que a carta não seria uma calúnia? Naturalmente não era outra coisa: alguma invenção de inimigos, ou para afligi-la, ou para fazê-los brigar. Era isto mesmo. Entretanto, uma vez que estava avisada, não os perderia de vista. Aqui acudiu-lhe uma ideia: consultou o marido se poderia convidar a viúva.

            - Não, respondeu ele; o carro só tem dois lugares e eu não hei de ir na boleia.

            Maria Olympia sorriu de contente, e levantou-se. Há muito tempo que tinha vontade de ouvir os Lombardos. Vamos aos Lombardos! Trá, lá, lá, lá... Meia hora depois foi vestir-se. Galvão, quando a viu pronta daí a pouco, ficou encantado. Minha mulher é linda, pensou ele; e fez um gesto para estreitá-la ao peito; mas a mulher recuou, pedindo-lhe que não a amarrotasse. E, como ele, por umas veleidades de camareiro, pretendeu consertar-lhe a pluma do cabelo, ela disse-lhe enfastiada:

            - Deixa, Eduardo! Já veio o carro? 

            Entraram no carro e seguiram para o teatro. Quem é que estava no camarote contíguo ao deles? Justamente a viúva e a mãe; esta coincidência, filha do acaso, podia fazer crer algum ajusta prévio. Maria Olympia chegou a suspeitá-lo, mas a sensação da entrada não lhe deu tempo de examinar a suspeita. Toda a sala voltara-se para vê-la, e ela, bebeu a tragos demorados, o leite da admiração pública. Demais, o marido, teve a inspiração maquiavélica de lhe dizer ao ouvido: “Antes a mandasses convidar; ficava-nos devendo o favor”. Qualquer suspeita cairia diante desta palavra. Contudo, ela cuidou de não os perder de vista.

            Juntas saíram do camarote, no fim e atravessaram os corredores. A modéstia com que a viúva trajava podia realçar a magnificência da amiga.

            Uma semana depois, recebeu Maria Olympia outra carta anônima. Era mais longa e explícita. Vieram outras, uma por semana durante três meses. Maria Olympia leu as primeiras com algum aborrecimento; as seguintes foram calejando a sensibilidade. Não havia dúvida que o marido demorava-se fora, muitas vezes, ao contrário do que fazia dantes, ou saía à noite e regressava tarde, mas, segundo dizia, gastava o tempo no Wallerstein ou no Bernardo, em palestras políticas. E isto era verdade, uma verdade de cinco a dez minutos, o tempo necessário para recolher alguma anedota ou novidade, que pudesse repetir em casa, à laia de documento. Dali seguia para o Largo São Francisco e metia-se no ônibus.

            Tudo era verdade. E, contudo, ela continuava a não crer nas cartas. Ultimamente, não se dava mais ao trabalho de a refutar consigo; lia-as de uma só vez e rasgava-as. Com o tempo foram surgindo alguns indícios menos vagos, pouco a pouco, ao modo de aparecimento da terra aos navegantes. Mas este Colombo teimava não crer na América. Negava o que via; não podendo negá-lo, interpretava-o; depois recordava algum caso de alucinação, uma anedota de aparência ilusória, e nesse travesseiro cômodo e mole punha a cabeça e dormia. Já então, prosperando-lhe o escritório, dava o Galvão partidas e jantares, iam a bailes, teatros, corridas de cavalos. Maria Olympia vivia alegre, radiante; começava a ser um dos nomes da moda. E andava muita vez com a viúva, a despeito das cartas, a tal ponto que uma destas lhe dizia: “Parece que é melhor não escrever mais, uma vez que a senhora se regala numa comborçaria de mau gosto.” Que era comborçaria? Maria Olympia quis perguntá-lo ao marido, mas esqueceu o termo, e não pensou mais nisso. 

            Entretanto, constou ao marido que a mulher recebia cartas pelo correio. Cartas de quem? Esta notícia foi um golpe duro e inesperado. Galvão examinou de memória as pessoas que lhe frequentavam a casa, as que podiam encontrá-la em teatros ou bailes e achou muitas figuras verossímeis. Em verdade, não lhe faltavam adoradores.

            - Cartas de quem? Repetia ele mordendo o beiço e franzindo a testa.

            Durante sete dias passou uma vida inquieta e aborrecida, espiando a mulher e gastando em casa grande parte do tempo. No oitavo dia, veio uma carta.

            - Para mim? Disse ele vivamente.

            - Não; é para mim, respondeu Maria Olympia, lendo o sobrescrito; parece letra de Mariana ou de Lulu Fontoura.

            Não queria lê-la, mas o marido disse que a lesse; podia ser alguma notícia grave. Maria Olympia leu a carta e dobrou-a , sorrindo; ia guardá-la, quando o marido desejou ver o que era.

            - Você sorriu, disse ele gracejando; há de ser algum epigrama comigo.

            - Qual! É um negócio de moldes.

            - Me deixa ver.

            - Para que, Eduardo?

            - Que tem? Você não quer mostrar, por algum motivo há de ser. Dê cá.

            Já não sorria, tinha a voz trêmula. Ela ainda recusou a carta, uma, duas, três vezes. Teve mesmo ideia de rasgá-la, mas era pior, e não conseguiria fazê-lo até o fim. Realmente, era uma situação original. Quando ela viu que não tinha remédio, determinou ceder. Que melhor ocasião para ler no rosto dele a expressão da verdade? A carta era das mais explícitas: falava da viúva em termos crus. Maria Olympia entregou-lha.

            - Não queria mostrar esta, disse-lhe ela primeiro, como não mostrei outras que tenha recebido e botado fora; são tolices, intrigas, que andam fazendo para... Leia, leia a carta.

            Galvão abriu a carta e deitou-lhe os olhos ávidos. Ela enterrou a cabeça na cintura, para ver de perto a franja do vestido. Não o viu empalidecer. Quando ele, depois de alguns minutos, proferiu duas ou três palavras, já tinha a fisionomia composta e um esboço de sorriso. Mas a mulher, que o não adivinhava, respondeu ainda de cabeça baixa; só a levantou daí a três ou quatro minutos, e não para fitá-lo de uma vez, mas aos pedaços, como se temesse descobrir-lhe nos olhos a confirmação do anônimo. Vendo-lhe, ao contrário, um sorriso, achou que era o da inocência, e falou de outra coisa.

            Redobraram as cautelas do marido; parece também que  ele não pôde esquivar-se a um tal ou qual sentimento de admiração para com a mulher. Pela sua parte, a viúva, tendo notícia das cartas, sentiu-se envergonhada; mas reagiu depressa, e requintou de maneiras afetuosas com a amiga.

            Na segunda ou terceira semana de agosto, Galvão fez-se sócio do Cassino Fluminense. Era um dos sonhos da mulher. A seis de setembro, fazia anos a viúva, como sabemos. Na véspera, foi Maria Olympia (com a tia que chegara de fora), comprar-lhe um mimo: era uso entre elas. Comprou-lhe um anel. Viu na mesma casa uma joia engraçada, uma meia lua de diamantes para o cabelo, emblema de Diana, que lhe iria muito bem sobre a testa. De Maomé, que fosse; todo emblema de diamantes é cristão. Maria Olympia pensou naturalmente na primeira noite do Cassino; e a tia, vendo-lhe o desejo, quis comprar a joia, mas era tarde, estava vendida.

            Veio a noite do baile. Maria Olympia subiu comovida as escadas do Cassino. Pessoas que a conheciam naquele tempo, dizem que o que ela achava na vida exterior, era a sensação de uma grande carícia pública, à distância; era a sua maneira de ser amada. Entrando no Cassino, ia recolher nova cópia de admirações e não se enganou, porque elas vieram, e de fina casta.

            Foi pelas dez horas e meia que a viúva ali apareceu. Estava realmente bela, trajada a primor, tendo na cabeça a meia lua de diamantes. Ficava-lhe bem o diabo da joia, com as duas pontas para cima, emergindo do cabelo negro. Toda a gente admirou sempre a viúva naquele salão. Tinha muitas amigas, mais ou menos íntimas, não poucos adoradores, e possuía um gênero de espírito que espertava com as grandes luzes. Certo secretário da ligação não cessava de recomendar aos diplomatas novos: “Causez avec Mme. Tavares, c’est adorable!” Assim era nas noites; assim foi nesta.

            - Hoje quase não tenho tido tempo de estar com você, disse ela a Maria Olympia lá para meia-noite.

            - Naturalmente, disse a outra abrindo e fechando o leque; e, depois de umedecer os lábios, como para chamar a eles todo o veneno que tinha no coração: - Ypiranga, você está hoje uma viúva deliciosa... Vem seduzir mais algum marido?

            A viúva empalideceu, e não pôde dizer nada. Maria Olympia acrescentou, com os olhos, alguma coisa que a humilhasse bem, que lhe respingasse lama no triunfo. Já no resto da noite falaram pouco; três dias depois, romperam para nunca mais.

            

(CONTOS DE ALCOVA)

Compilados por Ives Idílio

           

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MACHADO DE ASSIS

 Machado de Assis, nascido no Rio de Janeiro em 1839, representa nesta antologia, a literatura brasileira. 

Ninguém melhor do que o autor de “Dom Casmurro”, reúne credenciais para comparecer a este cortejo de autores de diferentes países e de épocas diversas.

O genial romancista Brasileiro, que começa a prender a atenção dos leitores e críticos de todo o mundo, embora faça viver seus personagens em cenário autenticamente nacional, consegue ultrapassar as barreiras da língua, graças ao acento de universalidade que lhe aureola a obra.

Dedicado também ao conto, gênero dos mais difíceis, consegue escrevê-lo com facilidade, sem desprestigiar uma só de suas qualidades, superando os obstáculos naturais que a brevidade impõe.

“A Senhora do Galvão”, amostra brilhante de sutileza, é o endosso convincente de nossas palavras a respeito da obra do maior de nossos escritores.

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quinta-feira, 27 de agosto de 2020

A HONRA DOS BROSSABOURG – Georges Courteline

A Honra dos Brossabourg


           A Baronesa – Esposo meu! Chegou o momento de confessar-vos alguma coisa terrível. Nossa honra, a honra dos Brossabourg, até hoje imaculada...

            O Barão – Que dizeis, senhora? A honra dos Brossabourg?...

            A Baronesa (com dolorosa solenidade) – Senhor de Brossabourg! Vossa honra está para sempre manchada! 

            O Barão – (com entonação terrível) – Vosso cúmplice! O nome do vosso cúmplice, senhora! Necessito afogá-lo em seu próprio sangue! Seu nome prontamente!

            A Baronesa – Ignoro-o!... (Assombro do Barão). É uma história terrivelmente trágica. Ouvi-me e julgai-me. Estais lembrado de que no mês de novembro vieram passar uns dias no castelo vários amigos vossos. Eram eles, o visconde Lamonte, o cavalheiro de Mepier, o senhor de Poilú-Budin, o general barão de La Roussardière...

             O Barão – O doutor Bourdegrave e Oscar Poutrepet. E então?

            A Baronesa – Dois dias depois da chegada de vossos hóspedes achava-me eu nos meus aposentos, mudando de roupa interior. Havia atingido o momento psicológico em que a extremidade inferior da camisa, subindo ao nível da nuca, fica enganchada nos grampos do penteado. Lutava eu para desvencilhar a cabeça desse envoltório, quando ouço, com terror, abrir-se a porta atrás de mim e exclamar, numa voz masculina! – “Raios do céu! Como isto é lindo!...  No mesmo instante, senti uns dedos audaciosos me roçarem a pele, no lado inferior das espáduas... (pudicamente) Corramos um véu sobre o que houve. Quando enfim, pude arrancar a cabeça de entre as pregas da maldita camisa e passear em torno um olhar de nobre indignação, o indiscreto havia desaparecido, deixando uma nódoa indelével no brasão dos Brossaborgs!

            O Barão (soltando uma gargalhada) – Mas como? Não reconheceste a voz?

            A Baronesa – Pela baixeza da expressão, supus reconhecer Poutrepet, e, no mesmo instante, me dispus a apurar a verdade, arrancando ao falso gentil-homem a confissão de sua felonia. Para isso, convidei-o para uma entrevista à meia noite. À hora fixada, abri-lhe a porta do meu aposento, repartindo com ele o meu leito...

            O Barão – Hein?!

           A Baronesa - Sim, esposo meu. Ocultei sob o travesseiro punhal envenenado resolvida a levar a cabo minha vingança ao ter a prova do seu miserável procedimento. Quando o vi prestes a exalar a alma na embriaguez do beijo supremo, disse-lhe com pérfido sorriso, passando-lhe os braços pelo pescoço, numa expressão de fingida ternura: “Confessa tudo, meu amor! Não é verdade que foste tu que entraste ontem no meu aposento no momento em que eu mudava de camisa?” E enquanto dizia isso acariciava o cabo do punhal. Mas ele respondeu: “Como? Não entendo!”, com tal acento de sinceridade, que minhas suspeitas se dissiparam.

            O Barão (enxugando o suor que lhe banha a fronte) – Uff!...

            A Baronesa – Minhas dúvidas recaíram, então, sobre o senhor de Poilú-Budin, cujos olhares libidinosos haviam mais de uma vez chamado a minha atenção. Desejosa de vingar a honra dos Brossabourg, usei do mesmo procedimento anterior, convencendo-me igualmente da sua inocência.

            O Barão (cujos olhos saltam das órbitas) – E, com certeza, suspeitaste também do barão de La Rous-sardière.

            A Baronesa – Exatamente. Por desgraça, minha terceira tentativa resultou igualmente infrutífera, tocando, então, o turno do cavalheiro de Mepier...

            O Barão – E logo ao doutor Boudegrave...

            A Baronesa – Depois ao visconde Lamote, e mais tarde ao nosso cocheiro. Agora, vou fazer e experiência com o porteiro.

            O Barão (fora de si) – É verdade, senhora, que sois mais estúpida que todos os porcos do mundo, juntos. Que meu rosto se cubra de cicatrizes, se pensei, jamais que pudessem advir tais consequências da minha inocente brincadeira daquele dia.

            A Baronesa – Ah!... Mas... Então, foste vós?

            O Barão – Sim, senhora! Fui eu...

            A Baronesa – Louvado seja Deus! Alegra-me saber isso! Pois, à dúvida de que o culpado fora o porteiro, se misturava o indizível terror de que pudesse ter sido aquele imundo criado preto, que trouxeste de Marrocos!...

            

(CONTOS DE ALCOVA)

Compilado por Ives Idílio   

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GEORGES COURTELINE

 

         GEORGES VICTOR MARCEL MOINAUX, que se tornou mundialmente conhecido no mundo literário sob o pseudônimo de Georges Courteline, nasceu em Tours, por volta de 1858 e morreu em Paris em 1929.

          Dotado de fino poder de observação e de uma crítica penetrante, foi inúmeras vezes comparado por essas qualidades ao próprio Molière...

          “A Honra dos Brossabourg”, é um modelo de, sutileza e sobretudo, de poder de síntese. Em meia dezena de palavras, Courteline nos dá uma visão completa e magnífica, embora irreverente, da época em que se passa essa cena inimitável... 

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segunda-feira, 6 de julho de 2020

O POÇO DOS MARIDOS – Humberto de Campos


          Ferdinanda Sobreiro havia sido, até os vinte e três anos, uma das moças mais requestadas e formosa dos salões do Rio de Janeiro. Muito clara, cabelos castanhos, olhos suavemente azuis, porte mediano, nenhuma a sobrepujava nas maneiras, na elegância, na distinção e, principalmente, na graça de um sinalzinho petulante, que lhe dava ao rosto, na face esquerda, o retoque de uma brejeirice encantadora. Aquele sinalzinho era, podia-se dizer, o ponto final da formosura. Ao escrever o poema da beleza feminina, Deus havia posto, ali, a última palavra do derradeiro capítulo.

            Os anos foram-se, porém, sucedendo, uns aos outros, e como gotas da mesma clepsidra; e o certo é que, aos vinte e oito, a moça não havia encontrado marido. Amigas mais feias, ou, antes menos bonitas, iam, uma a uma, recebendo o seu noivo, constituindo o seu lar, multiplicando o seu sangue; e ela, somente ela, de tantas que eram, já se deixava ficar na casa de seu pai, cercada de admiradores, atordoada de lisonja, mas sem ver um homem que  a convidasse, leal e sincero, para constituição legal de um ninho em comum. A Belita Simpson, que não tinha os seus olhos nem o seu sorriso, havia encontrado o Dr. Mascarenhas, advogado estudioso e jovem, e lá andava pela Europa em passeio de núpcias, percorrendo as cidades, experimentando os climas, visitando os museus. A Alice Martins era, agora, mme. Lopes Taveira, arrastando pelo braço, nos salões e na Avenida, o grande médico seu marido. A Totinha se casara com um deputado, e dava empregos, e a Tecla Meireles com um capitalista, e dava recepções. Só ela, que fora a mais graciosa, a mais elegante, e mais cobiçada, ali estava sozinha no seu leito de solteira, sentindo aproximar-se, após uma alvorada chilreante de pássaros, uma tarde triste, lúgubre, amortalhada em cinza e silêncio. Onde andava com a sua matilha e com os seus pajens o seu Príncipe Encantado, que não vinha rápido, alarmando a floresta com as buzinas de caça, ao encontro da sua Princesa Adormecida?

            Sem irmãs nem irmãos, que lhe dessem o conforto de uns sobrinhos pequeninos, Fernandinha sentia-se oprimir, afogar, asfixiar, pelo instinto maternal do coração. O pai, alquebrado, não podia mais conduzi-la, com tanta frequência, como dantes, a festas, a passeios, a teatros. Uma primeira ruga riscou-lhe a fronte lisa, partindo, como um fio telegráfico sem destino, do canto dos olhos. Combatida à força de loções, de unguentos, de pomadas, multiplicou-se, dividiu-se, repartiu-se abrindo novos caminhos para as lágrimas. E foi nessa idade, com o sol da mocidade em franco declínio, que Fernandinha adormeceu e teve uma noite, um sonho, que a desiludiu.

            Ao fechar os olhos, humedecidos em torno por uma loção que lhe haviam receitado, sentiu-se, de repente, transportada a uma grande campina, no fim da qual ressoavam harpas e cítaras, que ela procurava e não via. Embevecida, olhava para o lado de onde lhe vinham aquelas vozes embaladoras, quando sentiu, de repente, que alguém lhe tocava o ombro. Voltou-se, assustada, e caiu de joelhos, gemendo:

            - Minha madrinha! Minha Madrinha! Amparai-me.

            Ao seu lado, radiosa e doce, mal pisando a terra, sorria a imagem de Santa Rosa de Lima, sua madrinha e protetora, à qual havia rezado contritamente, aflitamente, antes de adormecer, pedindo a graça de um marido. Sorriso nos lábios, aureola à cabeça, mãos sobre o peito, a Santa Rosa fitava-a com ternura, quando, carinhosa, ordenou:

            - Minha filha, vem...

            E puseram-se a andar pela campina, uma ao lado da outra, mas tão leves, tão brandas, tão ligeiras, as duas, que nem pesavam sobre o relvado orvalhado. Súbito, ouviram vozes. A planície havia desaparecido e Fernandinha estava, agora, diante de um grande poço, em torno do qual se aglomeravam, apertando-se, empurrando-se, disputando, dezenas, centenas, milhares de moças. Espremendo uma, afastando outra, a rapariga chegou à beira do abismo e viu: de dentro saía uma corda, puxada por um sacerdote, na qual vinha amarrado, de sete em sete palmos um homem, que as mulheres, em cima, recebiam debaixo de gritaria.

            - Que é isto? Indagou, tímida, Fernandinha, a uma desconhecida que lhe ficara ao lado.

            - Então você aqui e não sabe?

            E como percebesse a sinceridade daquela pergunta:

            - Isso aqui é o poço dos maridos, o lugar de onde eles vêm. Essas moças que aqui vê, estão esperando cada uma aquele que lhe é destinado.

            - E a senhora já encontrou o seu? – Indagou Fernandinha admirada.

            A outra baixou os olhos, e confessou:

            - Não, senhora. Estou aqui há doze anos. Felizmente ainda não perdi a esperança...

            A rapariga ia rir da sua vizinha quando seus olhos descobriram, do outro lado do poço, várias fisionomias amigas, debruçadas, todas, para o fundo insondável do abismo. Eram Abelita Simpson, Alice Martins, Dorinha Tavares, a Abgail Queiróz, a Ninita, a Maria da Penha, a Lúcia, a Cidinha, a Tude, a Graziela... E a medida que a corda subia, puxada incessantemente pelo sacerdote, desgarrava-se dela  um homem jovem, ou velho, feio, bonito, a cujo pescoço pulara logo um vulto feminino, que nunca o tinha visto, mas que o esperava ansiosamente à beira do poço. E assim viu ela sair o Dr. Mascarenhas, o Lopes Taveira, o comandante Maia Cunha, o Dr. Casemiro Alves, o Tenente Alberto Wellington, em cujos braços se atiraram  logo, a Belita, a Alice, a Tecla, a Totinha, a Maria da Graça, que lá se iam, felizes, pela campina com seus maridos..

            De repente, Fernandinha sentiu uma agitação íntima, um susto, uma inquietação deliciosa, uma espécie de pressentimento. Uma vontade de fugir, de esquivar-se, agitou-lhe os nervos, mas os pés a detiveram, autoritários, no mesmo lugar. Alguma coisa de grave, de inesperado, ia, necessariamente acontecer. E estava ela nessa angústia, nessa tortura, encantada, quando a Santa, sua madrinha, lhe apareceu, de novo, anunciando-lhe:

            - Minha filha, olha para o fundo do poço. Teu noivo, o homem que te é destinado para marido, está para chegar. É o oitavo, depois deste que saiu agora.

            O ímpeto de Fernandinha foi o de atirar-se à Santa, abraçando-a, apertando-a, cobrindo-a de beijos gulosos, de furiosa gratidão. Era preciso, porém, olhar para o fundo do poço, e receber com os olhos, de longe, o seu prometido; a ansiedade dominou-se, curvando-se sobre o abismo. Debruçada para dentro, contou os vultos que se divisavam agarrados à corda!

            - Um... dois... três... quatro... cinco... seis... sete... oito...

            Era aquele. De longe, na meia escuridão, não lhe podia divisar as feições, nem avaliar a idade. O coração batia-lhe, inquieto, sôfrego, descompassado. Um suor frio corria-lhe por todo o corpo, numa vertigem. As pernas tremiam-lhe, mal sustendo o peso do busto amparado ao muro do poço. A manivela continuava porém, a rodar, manejada pelo padre, e a corda a subir trazendo gente. Agora faltavam apenas quatro. Ele era o quinto.

            Apesar da penumbra, Fernandinha via-lhe, já, as feições. Era jovem, sim! Jovem e bonito. Na sua coquetearia instintiva a moça levou as duas mãos ao cabelo, afofando o penteado. Mais um movimento da manivela e a claridade exterior atingiu. Chicoteado pelo jato de luz o rapaz ergueu o rosto, e encontrando, em cima, os olhos dela, encarou-a e sorriu. Fernandinha quase desmaia de gozo, de prazer, de ventura. Toda ela era alvíssaras de carne, alvíssaras de nervo, alvíssaras de coração. Agora, ele era o segundo. Olhos nos olhos, embebidos um no outro, as suas mãos já se tocavam quase.

            Fernandinha sorria e chorava. Mais uma volta da manivela e estaria ele nos seus braços. Esperava, como se fosse um século, a passagem deste grão de areia na ampulheta da eternidade, quando um grito reboou alarmando a multidão.

            - Fujam! Fujam! – Avisou alguém.

            A massa recuou, espavorida, deixando Fernandinha, sozinha, à beira do poço.

            - A corda vai partir-se! – bradou a mesma voz com terror. Atordoada, a moça voltou-se, e viu. Um pouco acima de sua cabeça no ponto que passava pelo carretel, o cabo desfiava-se, rápido, ameaçando romper-se. Soltando um grito, a rapariga estendeu as mãos, aflita, louca, desesperada, para o fundo do poço. Era, porém, tarde. Rodopiando com o peso, o cabo se havia distorcido de repente, estalando num ruído seco, atirando, com um estrondo surdo, a sua carga humana, no fundo do abismo.

            Um grito de raiva, de angústia, de dor alucinante, alarmou, àquela hora da noite a família Sobreira. Pessoas da casa acorreram, em trajes de dormir.

            Curvada para fora do leito, os braços estendidos para o chão, o rosto lavado em lágrimas, Fernandinha chorava nervosamente, aflitamente, agoniadamente, no seu primeiro ataque de histeria.

(CONTOS DE ALCOVA - Dezembro de 1963)
Compilados por Yves Idílio

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HUMBERTO DE CAMPOS

          Sem sombra de dúvidas HUMBERTO DE CAMPOS VERAS foi quem, dentre os escritores brasileiros, dominou com maior mestria o ensaio e a novela.
           Atual, perene, possui aquele dom indescritível que faz as grandes obras permanecerem sempre atuais, sempre vivas...
            Natural do Maranhão impregnou suas páginas de uma nostalgia, de um humanismo pungente característico dos naturais daquela região.
            Neste “Poço de Maridos”, ele se revela sarcástico, mordaz, cruel mesmo, mas sem nunca fugir ao realismo tão seu e do qual foi um dos pioneiros no Brasil.

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Terceiro ocupante da Cadeira 20 da ABL, eleito em 30 de outubro de 1919, na sucessão de Emílio de Menezes e recebido pelo Acadêmico Luís Murat em 8 de maio de 1920. Humberto de Campos (H. de C. Veras), jornalista, crítico, contista e memorialista, nasceu em Miritiba, hoje Humberto de Campos, MA, em 25 de outubro de 1886, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 5 de dezembro de 1934.

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