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terça-feira, 9 de julho de 2019

BÉCASSINE - Plinio Corrêa de Oliveira


15 de junho de 2019

Harmonioso relacionamento de outrora entre classes sociais

Plinio Corrêa de Oliveira

Nesta ilustração* vemos a representação do ensaio para o casamento de um rei e uma rainha (Charles VIII e Anne de Bretagne) e duas crianças à frente deles. Do lado direito está representada a França com flores de lis no traje da menina; do lado esquerdo a Bretanha, com seus símbolos heráldicos no traje do menino.

O personagem que organizou a festa para rememorar a união da França com a Bretanha está pedindo a opinião do marquês de Grand-Air — um modelo de elegância masculina anterior à Primeira Guerra Mundial. São dois velhos conversando, e se nota claramente a diferença social entre ambos. Se alguém perguntasse, não seria difícil responder quem é o marquês.

O velho do lado esquerdo é um camponês vestido como personagem da corte de Ana de Bretanha; o outro é o marquês. Fino e esguio, quase como fumaça que se desprende de um cigarro, tem o tom e o jeito de um homem ciente de sua importância, habituado a ser considerado, que sabe mandar, e com o qual não se pode brincar. O narigão dele é vagamente na linha de uma ave de rapina, de quem sabe decidir sem hesitação. Ele usa um belo chapéu, gravata exuberante, colete e um paletó pomposo que chega até o joelho, chamado de sobrecasaca.

O camponês está inteiramente à vontade, mas de chapéu na mão em sinal de respeito, e se inclinando um pouco para falar com o marquês. Para saber se a representação do casamento está bem feita, ele consulta o marquês sem o menor receio de ser maltratado, de sofrer uma caçoada, de ser menosprezado, e o marquês de Grand-Air demonstra benevolência cativante. Conversa como se estivesse diante de outro nobre, dando explicações com muita bondade. Reina entre eles uma concórdia completa — o contrário da luta de classes marxista, pregada pelos comunistas e por teólogos da libertação.

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* Ilustração do artista francês Joseph Pinchon (1871-1953), autor dos desenhos dos livros de Bécassine, personagem da literatura infantil da época. Para conhecer outros comentários de ilustrações desses livros, leia a matéria “Bécassine — Verdadeiros tratadinhos de sociologia viva”, edição de Catolicismo de fevereiro/2018.
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Excertos da conferência proferida pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em 9 de junho de 1984. Esta transcrição não passou pela revisão do autor.


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O BERÇO – Coelho Neto


           Entre violetas e rosas, pequenino e risonho, as mãozinhas cruzadas sobre o peito, Dedê, de cinco meses, dorme para todo o sempre.

            Veste-lhe o corpinho rechonchudo a mesma cambraia com que foi à pia; à cabecinha loura a mesma touca branca. Parece que esperam que acorde para levá-lo novamente à igreja. Babi, de três anos, guarda o pequenino irmão. Sabe que dorme lho disseram. Para não o despertar, pisa de manso, cautelosa, apertando nos braços Colombina.

            O sol faz um véuzinho de ouro e translúcido, para o rosto risonho de Dedê. Os círios empalidecem e as flores vão murchando junto ao corpinho frio do defunto.

            Batem palmas à porta. Babi estremece. Acerta mais Colombina e lança um olhar ao irmão, receosa de que tenha despertado. Mas Dedê não desperta: dorme, as mãozinhas cruzadas sobre o peito como rezando. Batem palmas de novo.

            Babi, cautelosa, em pontas de pé, vai a porta e coitadinha! Não consegue abafar um grito, dando com os olhos no velho negro que traz debaixo do braço, como um estojo, o pequeno esquife cor de rosa e branco , cercado de franjas de ouro. Babi não consegue sufocar um grito: bate palma, contente, deixa cair Colombina e entra a correr, anunciando:

            “Está aí o berço novo de Dedê! Está aí o berço novo de Dedê!”

            E, com voz de choro, agarrando-se às saias da avó trêmula, que vai compondo ramos para o pequenino, implora: “Mandas fazer um berço igual para mim , vozinha? Mandas fazer, vozinha?” E, para convencê-la, beija-lhe repetidas vezes a mão magra e a velha, soluçando, beija-lhe e os cabelos louros.

            Há dias, indo de visita à casa, encontrei-a silenciosa. Fora, no rosal, já não cantavam pássaros; dentro, no interior, berços não se balançavam. Senti que ali faltava alguma cousa... Não havia barulho.

            A mãe, viúva, de vez em vez, levantando a cabeça, punha os olhos no céu e baixava-os molhados; a velha não falava. Senti que ali faltava alguma cousa.

            Por acaso voltando os olhos descobri Colombina sobre uma peanha. Pobre Colombina! Lembrei-me, então, de Babi e perguntei por ela. A velhinha fitou-me. A mãe baixou os olhos soluçando.

            Teria a complacente avó satisfeito o desejo da criança? Teria a velha dado a Babi um berço cor de rosa e branco igual ao de Dedê? E não foi outra cousa... essas velhas avós fazem tantas vontades aos netinhos...


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COELHO NETO (Henrique Maximiano Coelho Neto) - romancista, crítico e teatrólogo, nasceu em Caxias, MA, em 21 de fevereiro de 1864, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 28 de novembro de 1934. Fundador da Cadeira 2 da ABL, recebeu os Acadêmicos Osório Duque Estrada, Mário de Alencar e Paulo Barreto.

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segunda-feira, 8 de julho de 2019

ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS DÁ CONTINUIDADE À SÉRIE ‘MÚSICA DE CÂMARA NA ABL’, COM O CONCERTO DO ‘QUARTETO DE CORDAS DA UFF’



A série “Música de Câmara na ABL” apresenta concerto do grupo “Quarteto de Cordas da UFF”, intitulado “Teuto-brasilidade”. O evento está programado para o dia 9 de julho, terça-feira, às 12h30, no Teatro R. Magalhães Jr. (Avenida Presidente Wilson, 203, 1º andar, Castelo Rio de Janeiro). Entrada franca.

O espetáculo dá continuidade a essa atividade oferecida pela Academia Brasileira de Letras, uma das mais concorridas pelo público e inteiramente grátis. O Presidente da Academia, escritor Marco Lucchesi, fará a abertura da apresentação.

A formação atual do grupo, criado em 1984, é composto pelos instrumentistas Tomaz Soares (1º violino), Ubiratã Rodrigues (2º violino), Jessé Pereira (violista convidado) e David Chew (violoncelista).

Programa


Calimerio Soares
Suite antiga, para quarteto de cordas

Ernst Mahle
Quarteto 1975 C92

Pixinguinha/João de Barro
Carinhoso

Ernst Mahle
Suite “Viajando pelo Brasil”
Eu não vim para ficar (Maranhão)
Menino vá dormir (Sergipe)
Eh, morena (Minas)
São João Dararão (Piauí)
Meu guriabá (Alagoas)
Jacaré (São Paulo)

Tom Jobim/Vinicius de Moraes
Eu sei que vou te amar

Ludwig van Beethoven
Quarteto de cordas em si bemol maior, OP. 18 nº6

Saiba mais

De acordo com os integrantes do grupo, a Universidade Federal Fluminense é a única instituição educacional pública no Brasil a ter em seu quadro funcional um quarteto de cordas com mais de 30 anos de existência, cuja finalidade é difundir obras de repertório universal e brasileiro para esta formação.

O quarteto da UFF foi criado em 1984 e, desde então, a partir de suas várias formações, buscou divulgar, de acordo com seus integrantes, a música de concerto, e realizar um trabalho de pesquisa acerca dos repertórios para formação de público, integrando projetos na própria UFF, como o Festival Conexões Musicais, realizando workshops e master class em outras universidades públicas e se apresentando em espaços culturais, salas de concerto e teatros de Niterói e do estado do Rio de Janeiro.

01/07/2019



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RAUL POMPÉIA, Um impressionista brasileiro


REALISMO IMPRESSIONISTA

QUE É IMPRESSIONISMO?

          Como diz Afrânio Coutinho, o Impressionismo é uma fusão de elementos realísticos e simbólicos. A reprodução da realidade de maneira objetiva, minuciosa, constituía a norma realista; para o impressionista, a realidade ainda é foco de interesse, mas o que ele pretende mesmo é registrar a impressão que a realidade provoca no espírito do artista, no exato momento em que se dá a impressão. O importante não é o objeto e sim as sensações que o objeto desperta num determinado instante. O impressionista capta o instante, o fragmentário, o instável. O tempo constitui, portanto, o elemento básico do movimento.

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UM IMPRESSIONISTA BRASILEIRO

          Raul D’Ávila Pompéia nasceu em Angra dos Reis, província do Rio de Janeiro, em 1863, e faleceu no Rio de Janeiro em 1895.  Estudou no Colégio Pedro II e bacharelou-se pela Faculdade de Direito de Recife; iniciara, porém, seu curso em São Paulo, onde militou nos movimentos abolicionista e republicano. Iniciou-se nas letras muito cedo com “Uma Tragédia no Amazonas”, em 1880, novela que, apesar de imatura, já refletia um temperamento angustiado. Essa mesma inquietude, traço fundamental de sua constituição, levou-o a contínuas polêmicas e ao suicídio, aos trinta e dois anos de idade, na noite de Natal de 1895.

          Obras: “Canções sem metro” (1881); “O Ateneu” (1888).

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O ATENEU

          “Vais encontrar o mundo, disse-me meu pai, à porta do Ateneu. Coragem para a luta.”

          “Bastante experimentei depois a verdade deste aviso, porque me despia, num gesto, das ilusões de criança educada exoticamente na estufa de carinho que é o regime do amor doméstico, diferente do que se encontra fora, tão diferente que parece o poema dos cuidado maternos um artifício sentimental, com a vantagem única de fazer mais sensível a criatura a impressão rude do primeiro ensinamento...”

         Estas são linhas iniciais de O Ateneu, um dos romances mais controvertidos de nossa literatura, dada a sua violência e sua difícil colocação em qualquer dos movimentos artísticos do século XIX. Fortemente autobiográfico, trata das experiências frustrantes de um menino no internato do colégio Ateneu. O narrador é o próprio personagem, que evoca a sua vida no internato, e assim o leitor tem a visão de um sujeito adulto que lembra os acontecimentos e não a visão que o menino tinha ao ingressar no Ateneu. O romance é a memória de uma experiência infantil e está carregado com um espírito de vingança feroz. O homem não perdoa aquilo que o sistema do internato fez à sua infância, destruindo-a.

          O livro se compõe de episódios que são desmascaradamentos sucessivos da miséria moral e da corrupção que habita o Ateneu. De uma sensibilidade quase mórbida (ver o trecho acima) o menino percebe angustiado o cair das aparências. Aristarco, o diretor do colégio, que diz velar “pela candura das crianças, como se fossem não digo meus filhos: minhas próprias filhas”, se mostra cobiçoso, cínico e desumano. Os colegas são também figuras insensíveis, brutais. O menino não consegue estabelecer uma amizade profunda. Todas as camaradagens são rápidas, efêmeras e dissimuladas por uma angustiante ânsia de poder e por um homossexualismo evidente.

          O Ateneu supera o Realismo pela presença emotiva e grandiloquente de um narrador. As vibrações sentimentais têm a propriedade de durar na consciência que os recorda, e as lembranças de Sérgio adulto, os momentos que ele guardou do internato são mais emocionais que objetivos. O Ateneu é pura expressão das emoções do narrador, ou seja, de suas impressões emotivas. Assim, o colégio e seus personagens não são encarados com absoluta objetividade. O espírito de vingança, sofrimento e auto castigo de Raul Pompeia não o permitem. As impressões são demasiadamente fortes para que ele seja impessoal. Daí o caráter impressionista de seu romance.

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                                              O INCÊNDIO DO ATENEU

          Dirigi-me para o terraço de mármore do outão. Lá estava Aristarco, tresnoitado, o infeliz. No jardim continuava a multidão dos basbaques. Algumas famílias em toilette matinal passeavam. Em redor do diretor muito discípulos tinham ficado desde a véspera, vigor inabaláveis e compadecidos. Lá estava, a uma cadeira em que passara a noite, imóvel, absorto, sujo de cinza como um penitente, o pé direito sobre um monte enorme de carvões, o cotovelo, espetado na perna, a grande mão felpuda envolvendo o queixo, dedos perdidos no bigode de branco , sobrolho carregado.

          Falavam do incendiário. Imóvel! Contavam que não se achava a senhora. Imóvel! A própria senhora com quem ele contava para o jardim de crianças! Dor venerada! Indiferença suprema dos sofrimentos excepcionais! Majestade inerte do cedro fulminado! Ele pertencia ao monopólio da mágoa. O Ateneu, devastado! O seu trabalho perdido, a conquista inapreciável dos seus esforços!...

          Em paz!...  Não era um homem aquilo: era um de profundis.

         POMPÉIA, Raul – O ATENEU, Ed. Cultrix, São Paulo, 1976, pag. 216.

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Novo HORIZONTE
Literatura – Linguagem – Redação
Izaías Branco da Silva & Braz Ogleari
COMPANHIA EDITORA NACIONAL

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domingo, 7 de julho de 2019

A ESCOLHA E SUA



Você pode
escolher seu destino
ou continuar acreditando
que ele já estava escrito 
e não há nada a fazer.


Você pode assumir sua individualidade ou sempre procurar ser o que os outros gostariam que você fosse. Você pode curtir ser quem você é ou viver infeliz por não ser quem você gostaria. Você pode curtir ser quem você é ou viver infeliz por não ser quem você gostaria.

Você pode ir à diversão ou dizer em tom amargo que já passou da idade e que essas coisas são fúteis, que não são sérias como você. Você pode olhar com respeito para as outras pessoas ou olhar com aquela censura punitiva, sem nenhuma consideração para com os limites e dificuldades de cada um, inclusive os seus.

Você pode amar incondicionalmente ou ficar se lamentando pela falta de gente à sua volta. Você pode ouvir seu coração ou agir apenas racionalmente, analisando a vida antes de vivê-la. Você pode deixá-la como está para ver como é que fica ou realizar as mudanças que o mundo pede. Você pode deixar-se paralisar pelo medo ou agir com o pouco que tem e muita vontade de ganhar.

Você pode amaldiçoar sua sorte ou encarar a grande oportunidade de crescimento que a vida lhe oferece. Você pode achar desculpas e culpados para tudo ou encarar que sempre você é quem decide o tipo de vida que quer levar. Você pode escolher seu destino ou continuar acreditando que ele já estava escrito e não há nada a fazer.

Você pode viver o presente ou ficar preso a um passado que já acabou e a um futuro que ainda não veio. Você pode melhorar tudo que está à sua volta e a si próprio, ou esperar que o mundo melhore para que então você possa melhorar.Você pode continuar escravo da preguiça ou tomar a atitude necessária para concretizar seu plano de vida.

Você pode aprender o que ainda não sabe ou fingir que já sabe tudo, e nada mais aprender. Você pode ser feliz com a vida como ela é ou passar todo o seu tempo se lamentando pelo que ela não é. A ESCOLHA É SUA... E o mais importante, é que você sempre tem escolha.

(Autoria não mencionada)



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PALAVRA DA SALVAÇÃO (138)


14º Domingo do Tempo Comum, 07/07/2019

Anúncio do Evangelho (Lc 10,1-12.17-20)

— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Lucas.
— Glória a vós, Senhor.

Naquele tempo, o Senhor escolheu outros setenta e dois discípulos e os enviou dois a dois, na sua frente, a toda cidade e lugar aonde ele próprio devia ir. E dizia-lhes: “A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. Por isso, pedi ao dono da messe que mande trabalhadores para a colheita. Eis que vos envio como cordeiros para o meio de lobos. Não leveis bolsa, nem sacola, nem sandálias, e não cumprimenteis ninguém pelo caminho! Em qualquer casa em que entrardes, dizei primeiro: ‘A paz esteja nesta casa!’ Se ali morar um amigo da paz, a vossa paz repousará sobre ele; se não, ela voltará para vós.
Permanecei naquela mesma casa, comei e bebei do que tiverem, porque o trabalhador merece o seu salário. Não passeis de casa em casa. Quando entrardes numa cidade e fordes bem recebidos, comei do que vos servirem, curai os doentes que nela houver e dizei ao povo: ‘O Reino de Deus está próximo de vós’.
Mas, quando entrardes numa cidade e não fordes bem recebidos, saindo pelas ruas, dizei: ‘Até a poeira de vossa cidade, que se apegou aos nossos pés, sacudimos contra vós. No entanto, sabei que o Reino de Deus está próximo!’
Eu vos digo que, naquele dia, Sodoma será tratada com menos rigor do que essa cidade”.
Os setenta e dois voltaram muito contentes, dizendo: “Senhor, até os demônios nos obedeceram por causa do teu nome”. Jesus respondeu: “Eu vi Satanás cair do céu, como um relâmpago. Eu vos dei o poder de pisar em cima de cobras e escorpiões e sobre toda a força do inimigo. E nada vos poderá fazer mal. Contudo, não vos alegreis porque os espíritos vos obedecem. Antes, ficai alegres porque vossos nomes estão escritos no céu”.

— Palavra da Salvação.

— Glória a vós, Senhor.

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Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Pe. Gustavo Sampaio, MSS:

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Estar no mundo à maneira de Jesus

“...e os enviou dois a dois, na sua frente, a toda cidade e lugar aonde Ele própria devia ir” (Lc 10,1)

Ainda carregamos resquícios de uma falsa visão da santidade como afastamento do mundo e de seus perigos e buscar refúgio no deserto, nas montanhas ou nos conventos. O(a) santo(a) não se afasta do mundo para encontrar a Deus; ele(ela) faz a “experiência” do Deus agindo no mundo. Aí O encontra e caminha com Ele; o(a) santo(a) é aquele(a) que faz o que Deus faz neste mundo, aquele que faz com que este mundo seja justo, santo, salvo. O mundo não é só o “habitat” da sua missão: é sobretudo a fonte da sua espiritualidade, o lugar certo para encontrar a Deus e escutar o Seu chamado. 

Pondo-nos na escola do Evangelho, é aqui, neste mundo, que Jesus nos chama a estender o Reinado do Pai, trabalhando cada dia como amigos seus que passam, observam, curam, se compadecem, ajudam, transformam, multiplicam os esforços humanos. Apaixonados pelo Reino, nos apaixonamos pelo mundo que, em sua diversidade, riqueza, simplicidade, profundidade, fragilidade, sabedoria... nos fala com novos traços do Deus que buscamos com desvelo. E amando e investigando tudo o que é do mundo, adoramos o Deus Santo que habita em tudo.

O(a) santo(a) seguidor(a) de Jesus é aquele(a) que, na liberdade, afirma: “Fora do mundo não há salvação”. Ele(ela) descobre na realidade do mundo e da história os “sinais dos tempos” e entra em comunhão com tudo, porque tudo é “diafania” de Deus. Enraíza sua convicção nesta visão, nesta mística da presença de Deus em sua obra, na contemplação de um mundo chamado a re-converter-se em justo e belo, verdadeiro e pacífico, unido e reconciliado, entranhado em Deus, como no primeiro dia da Criação.

A vocação à santidade ativa em nós a paixão pelo Reino, mobilizando-nos a levar adiante a missão, a ir aos lugares do mundo onde há mais necessidade e ali realizar obras duradouras de maior proveito e fruto.

Como seguidores(as) de Jesus, movidos(as) por um olhar novo, entramos em comunhão com a realidade tal como ela é. Trata-se de olhar o mundo como “sacramento de Deus”. Um olhar capaz de descobrir os sinais de esperança que existem no mundo; um olhar afetivo, marcado pela ternura, compassivo e por isso gerador de misericórdia; olhar que compromete solidariamente.

O(a) discípulo(a) missionário(a) não é aquele(a) que, por medo, se distancia do mundo, mas é aquele(a) que, movido(a) por uma radical paixão, desce ao coração da realidade em que se encontra, aí se encarna e aí revela os traços da velada presença do Inefável; o mundo já não é percebido como ameaça ou como objeto de conquista, mas como dom pelo qual Deus mesmo se faz encontrar. O mundo não é lugar da exploração e da depredação, mas é o lugar da receptividade, da oferenda e do encontro inspirador.

Para realizar esta nobre missão, não podemos permanecer sentados. Seguir Jesus exige de nós uma dinâmica continuada, um colocar-nos a caminho em direção às margens. Não podemos viver o chamado do “Rei Eterno” a partir de uma cômoda instalação pessoal. A disponibilidade, o despojamento e a mobilidade são exigências básicas.

Corremos o risco de viver em mundos-bolha; podemos construir nossa vida encapsulada em espaços feitos de hábito e segurança, convivendo com pessoas semelhantes a nós e dentro de situações estáveis. É difícil romper e sair do terreno conhecido, deixar o convencional. Tudo parece conspirar para que nos mantenhamos dentro dos limites politicamente corretos. Todos podemos terminar estabelecendo fronteiras vitais e sociais impermeáveis ao diferente. Se isso acontece, acabamos tendo perspectivas pequenas, visões atro-fiadas e horizontes limitados, ignorando um mundo amplo, complexo e cheio de surpresas. Muitas vezes “vemos” o diferente, mas só como notícia, como o olhar do espectador que sabe das “coisas que acontecem”, mas não sente e nem se compadece por elas.

Viver a santidade no mundo de hoje nos move a encontrar outras vidas, outras histórias, outras situações…; escutar outros relatos que trazem muita luz para a nossa própria vida. Olhar a partir de um horizonte mais amplo, ajuda a relativizar nossos próprios absolutos e deixar-nos impactar pelos valores presentes no outro. Escutar de tal maneira que o que ouvimos penetra na nossa própria vida; isso significa implicar-nos afetiva-mente, relacionar-nos com pessoas, não com etiquetas. Acolher na nossa própria vida outras vidas; abrir espaços para que as histórias dos excluídos e diferentes encontrem morada nas nossas entranhas, na nossa memória e no nosso coração. 

O encontro com o diferente possibilita também o encontro consigo mesmo, ou seja, encontrar a própria verdade. Isso implica em se perguntar pela própria identidade, por aquilo que dá sentido à própria vida, o impulso por viver de uma maneira cristificada, conforme os valores do Reino. Para que haja verdadeiro encontro com o outro, o deslocamento ex-põe quem se desloca, deixa-o vulnerável e “contaminado” pela realidade que encontrou. Quando alguém se desloca e se aproxima de realidades diferentes, é para encontrar, encontrar-se e aprender.

Como discípulos(as)-missionários(as) de Jesus, nosso desafio não é fugir da realidade, mas aproximarmos dela com todos os nossos sentidos bem abertos para olhar e contemplar, escutar e acolher, percebendo no mais profundo dela a presença ativa do Deus que nos ama com criatividade infinita, para encontrar-nos com Ele e trabalhar juntos por seu Reino. O mundo precisa de místicos(as) santos(as) que descubram onde está Deus criando algo novo, para proclamar esta boa notícia. 

Nós cristãos honramos a santidade universal sem fronteiras de raça, de credo, de cultura... Santidade é dizer sim à vida; é um caminho a ser percorrido “de dois em dois”. Porquê esta insistência em fazer o caminho ao menos junto a outro(a)? Do envio dos discípulos e discípulas de dois em dois, podemos tirar duas consequências: uma para os momentos de fragilidade, de cansaço e de desânimo; a outra para quando nos sobrevém inesperadamente a luz, a alegria... 

Precisamos fazer o caminho em companhia para poder estendermos a mão quando caímos, para aprender a sustentar mutuamente... E, também de “dois em dois” para ter alguém ao nosso lado com quem poder brindar, porque é uma ação que não é possível realizá-la sozinhos. Celebrar, agradecer, brindar a vida... para isso, quanto mais companheiros(as) de estrada, melhor.

Textos bíblicos:  Lc 10,1-12.17-20 

Na oração: Todas as narrativas acerca do chamado conservam a marca intencional de um encontro surpreendente, inesperado e expansivo: deixar a vida estreita para entrar no amplo espaço de vida proposto por Jesus.

- Diante de Jesus, que “passa e chama” a todos, responda: como você vive, hoje, sua missão no trabalho, no seu ambiente, na sua comunidade? Que sentido você quer dar à sua própria vida?... em quê gastar suas forças, capacidades? Como viver, no seu cotidiano, sua vocação de discípulo(a)-missionário(a)?

Pe. Adroaldo Palaoro sj

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sábado, 6 de julho de 2019

MELANCÓLICO EM LIVRO DE BANDEIRA, CARNAVAL EM 1919 FOI PURA LIBERTINAGEM - Antonio Carlos Secchin


Segundo o dicionário Houaiss, efeméride designa, primordialmente, “a tábua astronômica que registra, em intervalos de tempo regulares, a posição relativa de um astro”. Na segunda acepção, “fato importante ou grato ocorrido em determinada data”.

E, na terceira acepção, “comemoração de um fato importante, de uma data etc.” Muita coisa cabe nesse “etc”, principalmente a jubilosa celebração de alguma cidade, município ou estado. Mais frequentes, porém, são as efemérides temáticas: já foram publicadas em livros, entre outras, as aeronáuticas, as astronômicas, as judiciárias, as navais. 

No campo literário, ressalte-se livro de 1997 dedicado a efemérides da Academia Brasileira de Letras e dois outros similares, das academias mineira e pernambucana.

Nas sessões acadêmicas rememoram-se vida e obra de um escritor a partir de um ano chave de sua biografia, em especial se representa data redonda: cinquentenário de morte, centenário de nascimento. Sendo usual o recurso a tais datas para evocar os antecessores, seria igualmente possível a comemoração de uma outra espécie de aniversário, não do criador, mas da criatura: a obra. 

Embora o escritor seja o pai do livro, o livro, de algum modo, é o pai do escritor, pois este, o autor, só nasce, enquanto tal, em decorrência daquele, o livro. O cidadão Manuel Bandeira, por exemplo, chegou ao mundo em 1886, mas o poeta Manuel Bandeira viria à luz apenas em 1917, graças ao volume “A Cinza das Horas”, que conferiu a ele a certidão de nascimento como escritor. Autor que, literalmente, brotou da cinza.

O poeta renasceria em livro dois anos depois, com a publicação de “Carnaval”. Este 2019, portanto, corresponde ao ano do centenário da obra. Ocasião propícia para redimensioná-la no conjunto da produção poética do escritor.

Constatamos que seu teor antecipatório do modernismo não se dá na amplitude que lhe conferiu Mário de Andrade, a ponto de haver cognominado Manuel Bandeira de “o são João Batista” do movimento. 

Com a lucidez que o caracterizava, o poeta pernambucano declarou que devia muito mais ao modernismo do que o modernismo a ele, e que só 11 anos mais tarde, com “Libertinagem”, de 1930, aderiria inteiramente à estética de 1922.

Talvez tenha contribuído para o hiperdimensionamento do papel de Bandeira como vanguardista “avant la lettre” o fato de um poema de “Carnaval” ter sido lido em São Paulo na Semana de Arte Moderna: o famoso “Os Sapos”, sátira ao parnasianismo.

Observemos o poema no conjunto do livro. Trata-se do segundo texto de “Carnaval”, composto de 13 quadras e um terceto. Os 55 versos são rigorosamente pentassilábicos, e todas as quadras são rimadas no esquema a-b-a-b. Nada que prenuncie o verso livre —presente, aliás, numa única peça da coletânea, “Debussy”, em flagrante contraste com os demais 31 poemas, regularmente rimados, escandidos e metrificados.

Na estrofação, predomínio quase absoluto da quadra, ao lado de poucas quintilhas e pouquíssimos tercetos. Mesmo “Os Sapos” empreende menos uma crítica ao parnasianismo como um todo do que a certos tiques e lantejoulas do estilo. Seria, aliás, contraditório Manuel Bandeira atacar indistintamente o movimento, pois seu livro contém vários poemas de nítida e bem executada fatura parnasiana, seja pela forma (versos isométricos, sonetos etc), seja pelo vocabulário de elevada extração.

Resta examinar a configuração do Carnaval propriamente dito na obra homônima de Bandeira. Ainda sob esse aspecto, ela muito pouco prefigura o despojamento vocabular e a extraordinária incorporação das cenas populares do futuro poeta. Nela desfila, para citar o último verso da coletânea, “o meu carnaval sem nenhuma alegria”.

Com efeito, em vez do rumor das ruas, haverá, na maioria dos poemas, a encenação do medieval triângulo pierrô-colombina-arlequim, num confronto cujo desfecho é pré-conhecido. Leia-se o fúnebre autorretrato de pierrô: “Atrás de minha fronte esquálida,/ Que em insônias se mortifica,/ Brilha uma como chama pálida/ De pálida, pálida mica...”. Apesar do Carnaval, não há dança de salão, e, sim, dança da solidão.

Se o derradeiro verso de “Carnaval” confirma a tonalidade depressiva e melancólica do volume, se o penúltimo poema descreve uma túnica de pierrô “feita de sonho e de desgraça”, o verso inicial do volume, no entanto, prometia um roteiro de puro prazer e desregramento: “Quero beber! Cantar asneiras”. 

Como a sequência do livro demonstra, nunca se deve acreditar rápido demais nos poetas. E, a propósito desse verso, Bandeira, numa entrevista de 1964, registra, com deliciosa autoironia: “Em ‘Carnaval’ eu dizia: ‘Quero beber! Cantar asneiras!’. Pois um crítico observou: ‘Conseguiu plenamente o que queria’”.

O centenário de “Carnaval” nos dá oportunidade de falar também dos festejos carnavalescos propriamente ditos no ano de 1919. Inexiste no livro a presença da festa popular, salvo no poema “Sonho de uma Terça-feira Gorda”. Mas a folia carioca de então guardou uma peculiaridade que a tornou, de certo modo, inesquecível: aquele carnaval ficou conhecido como “o da gripe espanhola”, quando os habitantes do Rio, pela via dionisíaca, exorcizaram a sombra da morte que descera sobre a cidade pouco tempo antes.

No artigo “O Carnaval da Gripe Espanhola”, o historiador Ricardo Augusto dos Santos informa que a gripe aqui desembarcou em setembro de 1918, tendo efeito catastrófico. Num Rio de Janeiro de cerca de 1 milhão de habitantes, estima-se que 600 mil contraíram o vírus e 15 mil morreram. Comércio, indústria e serviços públicos foram afetados, nos casos em que não tiveram paralisadas por completo suas atividades. 

Abandonaram-se os cadáveres, na falta de coveiros para enterrá-los. Mas, conforme poderia ter escrito Machado de Assis, a gripe entrou à socapa e saiu à sorrelfa, pois desapareceu em novembro, depois de dois meses devastadores.

Para comemorar simbolicamente a vitória contra a doença, a gripe espanhola foi logo cantada nas ruas, tornando-se tema de marchinhas carnavalescas, como: “Não há tristeza que possa/ Suportar tanta alegria./ Quem não morreu da espanhola,/ Quem dela pôde escapar/ Não dá mais tratos à bola/  Toca a rir, toca a brincar...”.

Houve, porém, algo mais apimentado no Carnaval de 1919, a ponto de, décadas depois, três grandes cronistas a ele retornarem.

Ruy Castro: “Quem não morreu sentiu-se no dever de celebrar a vida, brincando o Carnaval como nunca antes. A cidade saiu em peso para os corsos, ranchos e batalhas de confete. Os pierrôs e caveiras não se contentavam em pular —invadiam as casas e arrastavam os renitentes para a folia. Pela primeira vez, o samba superou os outros ritmos nas ruas. E, numa dessas, o menino Nelson [Rodrigues] viu, dançando no alto de um carro, na praça Saenz Peña, uma moça fantasiada de odalisca, com o umbigo à mostra. Ninguém de sua família tinha umbigo —ele próprio só agora descobria o seu”.

Carlos Heitor Cony: “No Rio, o sujeito ia atravessar a rua, botava o pé no meio-fio com plena saúde e chegava morto ao meio-fio do outro lado. Era fulminante a gripe, os parentes deixavam os mortos nos bondes, pagavam a passagem deles, como se passageiros fossem. Não havia tempo nem lugar para o enterro. Natural que, depois da fase mortuária, viesse a fase libertária, ou libertina, basta dizer que as delegacias da cidade registraram a queixa de 4.315 defloramentos e outros tantos casos de abandono do lar, adultério e até incesto. E assim é que o Carnaval de 1919 permanece inédito, à espera que algum desocupado encare a época, o Rio da gripe e de depois da gripe, o Rio cuja violência explodiu no sexo de um Carnaval como nunca houve nem haveria igual. A ideia [...]  era pegar como narrador um personagem nascido nove meses depois, um filho dessa esbórnia, desse pânico pela morte que estourou donzelas e famílias. Os brasileiros nascidos na feliz data de novembro de 1919 que se habilitem”.

Nelson Rodrigues: “Estou aqui reunindo as minhas lembranças. Aquele Carnaval foi, também, e sobretudo, uma vingança dos mortos mal vestidos, mal chorados e, por fim, mal enterrados. Ora, um defunto que não teve o seu bom terno, a sua boa camisa, a sua boa gravata é mais cruel e mais ressentido do que um Nero ultrajado. E o Zé de S. Januário está me dizendo que enterrou sujeitos em ceroulas, e outros nus como santos. A morte vingou-se, repito, no Carnaval... E tudo explodiu no sábado de Carnaval. Vejam bem: até sexta-feira, isto aqui era o Rio de Machado de Assis; e, na manhã seguinte, virou o Rio de Benjamim Costallat [...] Desde as primeiras horas de sábado, houve uma obscenidade súbita, nunca vista, e que contaminou toda a cidade. Eram os mortos da espanhola e tão humilhados e tão ofendidos que cavalgavam os telhados, os muros, as famílias... Nada mais arcaico do que o pudor da véspera. Mocinhas, rapazes, senhoras, velhos cantavam uma modinha tremenda. Eis alguns versos: ‘Na minha casa não se racha lenha,/ Na minha racha, na minha racha./ Na minha casa não há falta d’água,/ Na minha abunda, na minha abunda’”.

Regressemos agora ao dicionário Houaiss, que deixamos aberto na página do vocábulo efeméride. Ele se localiza imediatamente após um outro que é o seu oposto, como se o veneno da fugacidade estivesse à espreita para inocular-se em tudo que se deseja eterno. Sim, porque a palavra que dicionariamente antecede efeméride é efemeridade. O efêmero é o reino daquilo que só dura um dia, numa negação do resgate que a efeméride intenta efetuar. 

Diversamente dos dois carnavais aqui referidos, o literário e o literal, que perduram na memória de nossa cultura, quantos milhares de livros e milhares de festas de 1919 extinguiram-se na modesta condição de terem sido somente efêmeros? 

Talvez valesse a pena considerar que, na sábia lição oferecida pelo dicionário, é de apenas um passo, ou um verbete, a distância entre a pretensão da eternidade e a realidade do esquecimento. 

Folha de S. Paulo, 22/06/2019


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Antonio Carlos Secchin - Sétimo ocupante da Cadeira nº 19 da ABL, eleito em 3 de junho de 2004, na sucessão de Marcos Almir Madeira e recebido em 6 de agosto de 2004 pelo acadêmico Ivan Junqueira.


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