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sábado, 9 de fevereiro de 2019

NATURALISMO - Aluísio Azevedo




            O estilo realista, objetivo, com muitos pormenores, apresentando as pessoas como se fossem animais e anormais, mostrando atitudes típicas da considerada “ralé humana” em cenas grosseiras, chama-se estilo naturalista ou NATURALISMO.

            O naturalismo é um exagero do Realismo, dominado por extremo materialismo. As pessoas são animalizadas, agem e reagem por instinto, como se fossem bichos. Tudo isso, para criticar a sociedade e suas injustiças.

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UM AUTOR NATURALISTA

            ALUÍSIO TANCREDO GONÇALVES DE AZEVEDO nasceu em 1857 e morreu em 1913. Era filho do vice-cônsul português em São Luís (Maranhão). Estudou ali até o secundário. Foi para o Rio de Janeiro e trabalhou como caricaturista nas redações de jornais políticos e humorísticos. Foi diplomata e morreu em Buenos Aires.
   
            Sua linguagem era chocante, objetiva, direta. Procurava denunciar pela palavra a miséria, a corrupção moral, à luz dos novos conceitos científicos. Muitos de seus personagens são doentes físicos, mentais ou fisiológicos, vítimas de suas próprias imperfeições. É considerado escritor naturalista. Sua obra “O Mulato”, publicada em 1881, ao lado de “Memórias Póstumas de Brás Cubas” de Machado de Assis, é considerada como marco inicial do realismo em nossa literatura.

            OBRA: Romances: “Uma Lágrima de Mulher”; “O Mulato”; “Casa de Pensão”; “Filomena Borges”; “O Coruja”; “O Homem”; “O Esqueleto”; “O Cortiço”; “Mortalha de Alzira”; “Livro de uma Sogra”; “O Touro Negro”.

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“SEO” LIBÓRIO COME COMO UM PORCO!


            Anoitecia já.

            O velho Libório, que jamais ninguém sabia ao certo onde almoçava ou jantava, surgiu do seu buraco, que nem jabuti quando vê chuva.

            Um tipão, o velho Libório! Ocupava o pior canto do cortiço e andava sempre a fariscar os sobejos alheios, filando aqui, filando ali, pedindo a um e a outro, como um mendigo, chorando misérias eternamente, apanhando pontas de cigarro para fumar no cachimbo, cachimbo que o sumítico roubara de um pobre cego decrépito. Na estalagem diziam, todavia, que Libório tinha dinheiro aferrolhado, contra o que ele protestava ressentido, jurando a sua extrema penúria. E era tão feroz o demônio naquela fome de cão sem dono, que as mães recomendavam às suas crianças todo o cuidado com ele, porque o diabo do velho, quando via algum pequeno desacompanhado, punha-se logo a rondá-lo, a cercá-lo de festas e a fazer-lhe ratices para o engabelar, até conseguir furtar-lhe o doce ou o vintenzinho que o pobrezito trazia fechado na mão.

            Rita fê-lo entrar e deu-lhe de comer e de beber, mas sob condição de que o esfomeado não se socasse demais, para não rebentar ali mesmo.

            Se queria estourar, fosse estourar para longe!

            Ele pôs-se logo a devorar, sofregamente, olhando inquieto para os lados, como se temesse que alguém lhe roubasse a comida da boca. Engolia sem mastigar, empurrando os bocados com os dedos, agarrando-se ao prato e escondendo nas algibeiras o que não podia de uma só vez meter para dentro do corpo.

            Causava terror aquela sua implacável mandíbula, assanhada e devoradora; aquele enorme queixo, ávido, ossudo e sem um dente, que parecia ir engolir tudo, tudo, principalmente pela própria cara, desde a imensa batata vermelha e grelada, que ameaçava já entrar-lhe na boca, até as duas bochechinhas engrelhadas, os olhos, as orelhas, a cabeça inteira, inclusive a sua grande calva, lisa como um queijo e guarnecida em redor  por uns pelos puídos e ralos como farripas de coco.

            Firmo propôs embebedá-lo, só para ver a sorte que ele daria. O Alexandre e a mulher opuseram-se, mas rindo muito; nem se podia deixar de rir, apesar do espanto, vendo aquele resto de gente, aquele esqueleto velho, coberto por uma pele seca, a devorar, a devorar sem tréguas, como se quisesse fazer provisão para uma outra vida.

            De repente, um pedaço de carne, grande demais para ser ingerido de uma vez, engasgou-o seriamente. Libório começou a tossir, aflito, com os olhos sumidos, a cara tingida de uma vermelhidão apoplética. A Leocádia, que era quem lhe ficava mais perto, soltou-lhe um murro nas costas.

            O glutão arremessou sobre a toalha da mesa o bocado de carne já meio triturado.

            Foi um nojo geral.

            - Porco! Gritou Rita, arredando-se.

            Pois se o bruto quer socar tudo ao mesmo tempo, disse Porfírio. Parece que nunca viu comida, este animal!

            E notando que ele continuava ainda mais sôfrego por ter perdido um instante:

            - Espera um pouco, lobo! Que diabo! A comida não foge! Há muito aí com que te fartares por uma vez! Com efeito!

            - Beba água, tio Libório! Aconselhou Augusta

            E, boa, foi buscar um copo de água e levou-lhe à boca.

            O velho bebeu, sem despregar os olhos do prato.

            -  Arre diabo! Resmungou Porfiro, cuspindo para o lado. Este é mesmo capaz de comer-nos a todos nós, sem achar espinhas!



                    AZEVEDO, Aluísio – O CORTIÇO, 12ª edição.
                 Ed. Ática, São Paulo, 1982.


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sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

A PESSOA HUMANA – Dom Ceslau Stanula



Admiramos o mundo e as suas maravilhas e as classificamos como primeira, segunda, terceira... maravilha do mundo.

Procuramos e com os mesmos critérios avaliamos as obras criadas pelo homem: pontes, estradas, prédios, monumentos...

Será que percebemos a maior, única e mais perfeita maravilha de Deus que é a pessoa humana? Até próprio Deus, parou, olhou e se encantou com esta obra ao compará-la com as outras maravilhas criadas dizendo "era muito bom". (Gn, 1,26-31).

O Rei Davi, poeta e cantor, extasiado confessa: "Tu o fizeste pouco menor de que os anjos..." (Sl 8,6).

Admiremos agradecidos a natureza encantadora, porém fixemos olhos em nós mesmos e lutemos para que a pessoa humana não só seja declarada como maior e única maravilha do mundo, mas também respeitada. Que a riquezas e as leis sejam avaliadas e criadas em função do homem. 

Assim mudará a face deste mundo. 

Bom dia... Com a benção e oração.

Dom Ceslau

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Dom Ceslau Stanula - Bispo Emérito da Diocese de Itabuna-BA, escritor, Membro da Academia Grapiúna de Letras-AGRAL

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QUEM AMA REALMENTE OS POBRES? - Marcos Luiz Garcia


8 de Fevereiro de 2019
A sopa do mosteiro franciscano — Ferdinand Georg Waldmüller (1793-1865). Österreichischen Galerie, Belvedere, Viena

♦  Marcos Luiz Garcia

Entramos em 2019, e se renovam as esperanças de dias melhores. O presidente Bolsonaro tomou posse reafirmando suas promessas de termos nosso Brasil de volta, deixando para trás a atmosfera de desordem e caos da era comuno-petista e socialo-psdbista. Prometeu proteger as nossas tradições e a família, bem como a propriedade privada e a livre iniciativa. Isso significa estimular as forças empreendedoras da Nação, que já se aprontam para corresponder ao estímulo.

Essas perspectivas vêm causando profundo desagrado nos arraiais da esquerda, sobretudo no setor do clero e do laicato alinhados com a “Teologia da Libertação”, todo ele amplamente comprometido com a ideologia petista. Para esse tipo de gente, um governo que estimule a propriedade privada e a livre iniciativa pode até gerar riquezas, mas à custa do que para eles é o supremo mal: a desigualdade. Preferem o achatamento de todos na miséria a permitir que os ricos se diferenciem dos pobres. Afirmam que se trata de “opção preferencial pelos pobres”, quando na verdade propugnam pela “opção preferencial pela luta de classes”.

Afinal, quem são os verdadeiros amigos dos pobres? Seriam os que desejam vê-los perpetuamente achatados na miséria, desde que não haja desigualdade? Ou são os que procuram criar condições para eles trabalharem e se enriquecerem? Por que não aproveitar em favor dos pobres a força dos que sabem fazer fortuna? Se estes dispõem das condições para trabalhar e enriquecer, criam também condições para enriquecer os que dependem de empregos. Dessa forma, dentro de uma benéfica e harmoniosa desigualdade, o pobre deixa de ser pobre e pode elevar-se a uma condição de vida melhor. Mas isso não é tolerado pelos adeptos da “Teologia da Libertação”.

Que mal há numa situação de harmônica desigualdade, com enriquecimento justo, honesto e digno? Foi para proteger esse direito que Deus estabeleceu dois Mandamentos: “Não roubar” e “Não cobiçar as coisas alheias”. Lamentavelmente, eles são sistematicamente omitidos nas homilias de padres progressistas.

“Pobres sempre os tereis entre vós”, disse Nosso Senhor Jesus Cristo. E São Tomás de Aquino nos ensina que é dever do homem praticar a caridade. Mas para que ela se torne possível, é necessário que uns tenham bens, e outros tenham carência de bens. Se Deus permite pobres no mundo, também suscita os ricos que os ajudam, fomentando assim a caridade cristã.

Em nenhum lugar o Evangelho relata conduta igualitária de Nosso Senhor. Não há um só caso em que Ele tenha tirado um pobre da pobreza, nem rebaixado um rico da sua condição de riqueza. Ele curou, deu esmolas, mas não modificou o status econômico ou social de ninguém. Nem pregou a luta de classes.

Tomemos, por exemplo, a parábola dos talentos. Um senhor (já aqui surge a relação desigual entre servo e senhor), dizendo que ia se ausentar, deu cinco talentos a um servo, dois a outro, um para o terceiro, com a recomendação de fazê-los render. Por que Nosso Senhor não exemplificou com alguém que distribuísse por igual, a mesma quantidade de talentos a cada um dos servos? Por que essa desigualdade? Certamente porque tinha avaliado em cada um a capacidade de aproveitar esses talentos, e os distribuiu de acordo com essa capacidade. E ao final censurou o servo mau, que enterrou a moeda recebida e não a fez render.

Jesus Cristo indicou nessa parábola que respeita a livre iniciativa e o direito de propriedade, sem os quais não há progresso. Quando os mais capazes se elevam, elevam também os menos capazes. Assim todos gozam dos frutos do trabalho bem ordenado e planejado. Sobram motivos para admirarmos quem é dotado por Deus com superior capacidade, e não para ódio de classes igualitário. Num regime igualitário, ninguém tolera que um possua mais do que outro. É um mundo inóspito em que predomina o pecado capital da inveja.

Por mais que os defensores da “Teologia da Libertação” encenem caras humildes, na ideologia comunista e socialista predomina a inveja e não a humildade. Por exemplo, não têm pena dos miseráveis de Cuba, da Venezuela e de outros países em situações semelhantes. Querem a pobreza como se isso fosse um bem.

O verdadeiro espírito do Evangelho cria a harmonia e o amor recíproco entre as classes. O da “Teologia da Libertação” fomenta o ódio entre ricos e pobres, prejudica uns sem resolver o problema dos outros. (Fonte: Revista Catolicismo, Nº 818, Fevereiro/2019).


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quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

DIÁRIO DE VIAGEM - Francisco Benício dos Santos (13)


BORDO DO Pedro II

31º DIA (Continuação)

Post anterior - clique no link abaixo: 


Chegou o pessoal.
Nísia está radiante, contentíssima.
Os colegas, cabotinos e bancando importância,
cheios de dedos, cada qual a se considerar mais importante, e nas cavaqueações a misturarem frases inglesas castelhanas ao vernáculo.
As gafes eram imensas.
Eles não as contam.
Cada um arrota mais prestígio.
As citações de nomes arrevezados, saem a cada momento.
Uma coisa eu sei que é verdadeira:
Estão limpos e sem vintém nas algibeiras.
A salvação é que viajam num barco do Loyd e o governo paga-lhes o sustento.
Nísia está contrariada com a conduta de alguns, tais as inconveniências praticadas em terra estranha, manchando a reputação da pátria.
São uns insensatos.
Atenções do governo e da sociedade mexicana.
Passeios, convescotes, banquetes, recitais e sessões científicas.
Estou cansado de tanta festa!
Aspirando a um descanso e a um repouso.
Partida marcada.
Aguardamos a chegada do Bagé, de sua volta da América, para conduzir-nos à pátria de regresso.

Chegou o Bagé.
Explosões de júbilo.
Contentamento.
Despedida com uma festa que a nossa embaixada ofereceu à sociedade mexicana a bordo do navio.
Foi solene
Foi impecável.
Distinta!
Fechamos com chave de ouro a nossa estada no estrangeiro.

Rumo ao Brasil direto a Recife.
Viagem tumultuosa e cheia de encantos.
Eu e Nísia boicotamos os componentes da embaixada e a sós vivemos o nosso mundo.
Uma lua-de-mel espiritual.
Numa comunhão de ideais e sentimentos.
Somos invejados.
Somos vistos com olhos pérfidos.
Não ligamos para eles.
As festas de bordo não mais compartilhamos.
Afinal houve uma festa em honra ao ministro mexicano que viaja para o Rio onde vai representar o seu país.
Fomos convidados.
Aceitamos.
Foi uma exibição artística magnífica.
Declamações.
Recitais de canto.
Um número de dança nacional.
Nísia representou a bandeira mexicana.
A embaixatriz do México a brasileira.
Quando as duas, empunhando as bandeiras do México e do Brasil, penetraram no salão de festas, as palmas foram estrepitosas.
Nísia fez um improviso ao México numa felicidade rara. Numa eloquência cicereana, percorre lembrando os heróis mexicanos e termina beijando a bandeira do México.
Salvas de palmas abafaram as suas últimas palavras.
A embaixatriz do México comovida, também beijou a bandeira do Brasil e ternamente a Nísia.
O representante do México fez o brinde de honra ao Brasil saudando o seu presidente na pessoa do comandante do navio.
Foi uma festa maravilhosa, especialmente pela cordialidade.

Recife à vista.
Saudamos a terra do Brasil com vários urros e palmas.
Saltamos.
Passeio pela Veneza brasileira, cheia de pontes, rios e palácios.
O Bagé apenas demorou quatro horas no porto.
Novamente à bordo, para o término da viagem.

A costa do Norte já não tem o pitoresco e a magia daquela do Sul.
A natureza aqui não se esmerou tanto. Lembro, entretanto, Gonçalves Dias no seu verso candorado e patriótico.
Mas praias alvíssimas a orlam e dão beleza singular, bordadas com os coqueiros e as carnaúbas.
Sem esquecer-me das lendárias jangadas que salpicam de encantos o seu verde mar, sempre protegido por um céu de um azul tão puro e tão suave como não há igual na terra.
O Doutor Hidalgo, embaixador mexicano, entreteve à noite sobre o pálio do cruzeiro, uma palestra agradável conosco (refiro-me à Nísia), que vou tentar aqui descrevê-la.
Madame Hermosa, a embaixatriz, foi coparticipante na tertúlia, se bem que somente para discordar e manter-se irredutível na defesa de seu dogma de fé religioso.

Tombadilho do Bagé. Sala de estar.
Cadeiras de vime pintadas de esmeralda e decoradas a ouro.
Ao centro uma mesa redonda também de vime ostentando braçadas de flores recifenses...
Eu e Nísia lemos.
Nísia, um tratado inglês sobre fisiologia; eu releio o meu diário de viagem.
Aproxima-se o casal de embaixadores mexicanos.
- Buenos dias...
- Buenos, mui Buenos...
- Estão a ler tão cedo. Acho que para noivos e em viagem de recreio, isto é algo admirável e estranho.
- Concordo madame.
- Sentem-se, façam-nos a graça da companhia tão gentil e cativante como instrutiva.
- Aceitamos, não pelas bondosas afirmativas, mas pelo prazer da jovem companhia.
- Leem...
- Os meus borrões de viagem.
- Um tratado sobre fisiologia.
- E nada de amores nem de versos, nem de madrigais. Esquisito que tão jovens e já com o inverno dos anos a lhes perturbarem as alegrias e as espontaneidades da juventude!...
- De certo que gostamos destas cousas, a que todos da nossa idade rendem culto, mas é que encaramos a vida, o amor, o sentimento por outros prismas.
- Parece-lhes que estamos no século de Demóstenes e de Cícero?
- Não, apenas vejo espíritos velhos em corpos novos, moços. Não concordo, isto é, contra todos os dogmas da Igreja e como tal devemos respeitá-los; são mistérios que o ser humano não pode e não deve contrariar, a não ser que se queira tornar incréu e infiel.
- Mas senhora embaixatriz, nem eu nem Nísia concordamos com o crer sem saber a razão. A nossa doutrina religiosa resume-se apenas no cumprimento do dever, no respeito a todos os seres da criação, especialmente ao homem, nosso semelhante.
- De acordo, estou com o seu pensamento – disse o embaixador. A senhora é católica dogmática a esta classe de gente que “têm olhos, mas não veem e têm ouvidos, mas não ouvem”, é inútil, é inútil a discussão. São irredutíveis nos seus dogmas, mistérios e convicções religiosas.
- De fato, a Deus pertence o mundo e as criaturas e só a ele é possível o conhecimento das cousas divinas. A nós só compete adorá-lo e honrá-lo.
- Estou de perfeito acordo com a madame, mas embora seja mulher e tenha admiração pelo culto artístico e rico dos católicos e que reconheça que a Igreja deve ao mundo grandes causas e importantes obras, todavia, discordo dos dogmas e dos mistérios, das penas e das recompensas. Acho-os absurdos e inexplicáveis.
- Oh! Não fale assim, minha querida, não ofenda a Jesus. Olhe que a sua santíssima Mãe está a ouvir-nos e Lúcifer não perde oportunidades para lançar as suas garras sobre as pessoas que falam inconsideradamente. Cuidado, minha filha, com as palavras e com aquelas que representam ofensas, blasfêmias. Deus castiga com ira a quem o desobedece...
- Desculpe-me, madame, mas não posso compreender um Deus irado e vingador. Um Deus que criou um ser igual a si no poder e que este poder é somente para arrebatar ao inferno e ao purgatório os seres que ele criou à sua imagem e semelhança. Não, isto é conto para fazer temer a crianças.
- Bem, “a cada um segundo as suas obras”, pode a menina pensar assim, mas, está em erro e cedo ou tarde, responderá pelo que diz.
- De certo que respondo pelos meus atos, de posse como estou do meu livre arbítrio, responsável, portanto, perante o meu espírito, pelos atos bons ou maus que praticar. Mas, posso errar, posso cair, posso laborar em erro, mas tenho em minha frente não o castigo, mas o tempo, para com novas obras meritórias pagar o mal que fiz com o bem que fizer e deste modo remir-me da culpa, não perante Deus, mas perante mim mesma, no tribunal da minha consciência.
Palmas do embaixador...
- Disse profundas e consoladoras verdades aristotelinas...
- Isto são divagações contrárias ao que ensina a Santa Madre Igreja. A mocidade de hoje em todos os países é a mesma. Desculpe-nos, senhorita.
- Não há por que se desculpar, estamos numa tertúlia agradável; o meu espírito sente-se contentíssimo nestas divagações. Há de concordar comigo que são melhores do que aquelas que se estão realizando ali no salão de bailes, ao som do jazz e ao enlaçar de corpos nos bamboleios do samba, da rumba, do fox e do tango!
- De fato, mas é que a música e os divertimentos são permitidos por Deus. Não devemos abusar deles, mas usá-los com moderação é até salutar.
- Tanto mais quando os cérebros estão toldados com os vapores do néctar dos deuses, que até no altar é admitido, no sacrifício da missa.
- Oh! Mas ali ele representa o sangue de Jesus Cristo. Não blasfeme, minha querida.
- Mas é sempre com o suco da parreira que se faz o “sangue do Cristo”, que se faz a Champagne com que as “cocotes” e as levianas celebram as saturnas do vício e as sociedades galantes toldam o cérebro e perdem a noção de dignidade, tornando-se presas da volúpia, da licenciosidade e do sensualismo.
- É grande menina! Sois com as vossas ideias um compêndio de moral. Eu vos felicito.
Obrigada Doutor Hidalgo. Agradeço o vosso encorajamento. Sois um corpo velho com uma alma de moço.
- Não admira que meu marido aprecie as ideias feministas da menina, ele é ateu, e não sei como não é comunista.
- Pobre da minha mulher, grande alma infantil! Não sei quando quer despertar e abrir os olhos à luz.

Nísia:
- Mas senhora embaixatriz, a quem admiro como respeitável senhora, como digníssima esposa, como dama aristocrática da raça, como mexicana amiga do meu país, como cristã e adoradora do maior filósofo que palmilhou a crosta deste “vale de lágrimas”, permita-me que lhe diga, que não há ser nenhum ateu, especialmente em se tratando do seu digno marido, essa grande alma sonhadora e possuidora de dotes de inteligência que ofuscam a maioria de seus semelhantes. Não senhora, não existe ateu!
- E a menina crê em Deus e como O define, já que se referiu a Jesus.
- Peço-lhe dez minutos de atenção para nesse diminuto espaço de tempo, dizer-lhe em síntese como creio em Deus e como O percebo.
- Perfeitamente.
- Sirva-nos limonada para acalmar os nossos cérebros e as nossas emoções.
- Sentemo-nos mais confortavelmente. (final na próxima postagem)


(AQUARELAS E RECORDAÇÕES Capítulo XXII) – continuação...
Francisco Benício dos Santos

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quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

ITABUNA CENTENÁRIA REFLETINDO: Nas crises



Ligue o vídeo abaixo:

Nas Crises

Estarás talvez diante de algum problema que te parece positivamente insolúvel.

Não acredites que a fuga te possa auxiliar.

Pensa nas reservas de força que jazem dentro de ti e aceita as dificuldades como se apresentem.

Não abandones a tua possibilidade de trabalhar e continua fiel aos próprios deveres.

Assume as responsabilidades que te dizem respeito.


Evita comentar os aspectos negativos da provação que atravesses.

Ora – mas ora com sinceridade – pedindo a proteção de Deus em favor de todas as pessoas envolvidas no assunto que te preocupa, sejam elas quem sejam.

Se existem ofensores no campo das inquietações em que, porventura, te vejas, perdoa e esquece qualquer tipo de agressão de que hajas sido objeto.

Esforça-te por estabelecer a tranquilidade em tuas áreas de ação, sem considerar sacrifícios pessoais que serão sempre pequenos, por maiores te pareçam, na hipótese de serem realmente o preço da paz de que necessitas.

Se nenhuma iniciativa de tua parte é capaz de resolver o problema em foco, nunca recorras à violência, mas sim continua trabalhando e entrega-te a Deus.


Chico Xavier



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QUERIA MORRER NO MAR - Cyro de Mattos





            Tinha uns sentimentos estranhos, mãe e pai aborrecidos. Não queria morrer embarcado no seco. Moço bonito, corpulento, olhos verdes, pele cor de espuma branca. Disputado pelas moças da aldeia. Não ligava.  Dizia baixinho, quem é do mar não se separa dele. Completamente verde naquelas águas, o que mais queria.  Quem ama essas águas verdes nunca se queixa da vida, morre nas ondas doces do mar, sua voz prosseguia.

             Pressentimento? Intuição? Pretensão alimentada às escondidas?  Ideia transmitida a ele desde cedo.  Desejo feito de ondas verdes no íntimo, sempre. Chegava cantante aos seus ouvidos, trazido, ninguém duvide, pelas vozes encantadas do mar.
  
            Não se desligava de seu amor forte nascido com o balanço das ondas.  Ninguém entendia a esquisitice, mangavam dele, o abestado.

             Um dia, tudo teria o seu fim natural, levado no seio das ondas, no rosto o soprar do vento marinho, molhados os cabelos encaracolados.  Esperassem o final, não demoraria. Acreditariam então que não andava brincando com o que mais queria.

             Diante da cena de seu sumiço, ficariam rendidos, subjugados à verdade de seu relacionamento com o mar.  Saberiam que ele, o moço de pele tostada pelo sol de verão, olhos translúcidos de verde, língua lambendo o salitre nas comissuras dos lábios sanguíneos, outra coisa desse mundo não queria, a não ser morrer no mar.
    
             O pai irritado. A mãe chorava, rezava o terço, suplicava. Nossa Senhora do Perpétuo Socorro tirasse da cabeça do filho aqueles sentimentos. Vivia dizendo  que quando chegasse o dia,   ninguém tentasse  procurar seu corpo por entre as ondas, não achariam em qualquer lugar. A mãe aflita, o pai de olhos arregalados, de tanto escutar ele repetir aquele desejo insistente, que escorria, vinha, escorria.  

             O pai proibiu que ele saísse no saveiro barra afora. Inseguro para conduzir a embarcação. Não sabia manejar firme o leme ante os arrecifes. Se topasse com o rodamundo, vento que encapelava o mar, erguendo ondas altas, adeus, meu saveiro Vencedor com o seu tripulante sonhador.
 
             Uma tarde, de vento alegre, empurrou o saveiro para cortar as ondas que se esbatiam em seu peito moreno.  Subiu na embarcação. Foi na direção das ondas brilhando no vasto verde.  Ouviu aquela voz cheia de encanto no canto melodioso do vento.  “É doce morrer no mar, nas ondas verdes do mar”.

             Não se ouviu falar mais dele. Nem encontraram seu corpo. Nem tampouco algum escombro do saveiro. Nada. Era doce morrer no mar. Nas ondas verdes do mar. Reinventara-se para sempre, como havia prometido a si mesmo.

............    
Cyro de Mattos escreve poesia, literatura infantil, juvenil, conto, romance, crônica e ensaio. Publicado por editoras europeias. Prêmios no Brasil e exterior. Primeiro Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz. Membro da Academia de Letras da Bahia, Pen Clube do Brasil e Instituto Geográfico e Histórico da Bahia. 

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terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

JOÃO DA CRUZ E SOUSA, O maior simbolista brasileiro



            JOÃO DA CRUZ E SOUSA (Florianópolis, 1861 – 1898) era negro, filho de escravos. Sua vida, sulcada de lutas e sofrimentos, foi um penoso esforço de ascensão. Orgulhoso e indômito, busca na arte o meio de superar as barreiras levantadas pela sua origem.

            Em 1890 fixa-se no Rio de Janeiro, onde se une ao grupo de poetas simbolistas, publica um livro de versos e colabora na imprensa. Vive de um modesto emprego na Estrada de Ferro Central do Brasil. Casa-se em 1893 e seu lar é entristecido pela loucura da esposa. O poeta, minado pela tuberculose, morre alguns anos depois, em Minas, longe de seus filhos.

            Cruz e Sousa, o Cisne Negro, é a figura central do simbolismo brasileiro. Impugnado pelos contemporâneos, teve a glorificação dos pósteros. Traduziu em versos frementes toda a angústia e revolta de sua alma sofredora, opressa pelo estigma da raça.

          São os seguintes os livros em verso do poeta negro: Broquéis (1893), Faróis (1900), Últimos Sonetos (1907) e O Livro Derradeiro (1961.

            Em prosa escreveu Tropos de Fantasias,  Missal, Evocações.
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ACROBATA DA DOR

Gargalha, ri, um riso de tormenta,
Como um palhaço, que desengonçado,
Nervoso, ri, num riso absurdo, inflado
De uma ironia e de uma dor violenta.

Da gargalhada atroz, sanguinolenta,
Agita os guizos, e convulsionado
Salta, gravoche, salta, clown, varado
Pelo estertor dessa agonia lenta...

Pedem-te bis e um bis não se despreza!
Vamos! Retesa os músculos, retesa
Nessas macabras piruetas d ‘aço...

E embora caias sobre o chão, fremente,
Afogado em teu sangue estuoso e quente,
Ri! Coração, tristíssimo palhaço.


CRUZ E SOUSA – A LITERATURA BRASILEIRA ATRAVÉS DOS TEXTOS, de Massaud Moisés, Ed. Cultrix, São Paulo, 1979. Pag. 300



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