Total de visualizações de página

sábado, 26 de maio de 2018

A CAMINHO DO BREJO – Cora Ronái


A sociedade dá de ombros, vencida pela inércia.

Um país não vai para o brejo de um momento para o outro — como se viesse andando na estradinha, qual vaca, cruzasse uma cancela e, de repente, saísse do barro firme e embrenhasse pela lama.

Um país vai para o brejo aos poucos, construindo a sua desgraça ponto por ponto, um tanto de corrupção aqui, um tanto de demagogia ali, safadeza e impunidade de mãos dadas.

Há sinais constantes de perigo, há abundantes evidências de crime por toda a parte, mas a sociedade dá de ombros, vencida pela inércia e pela audácia dos canalhas.

Aquelas alegres viagens do então governador Sérgio Cabral, por exemplo, aquele constante ir e vir de helicópteros. Aquela paixão do Lula pelos jatinhos. Aquelas comitivas imensas da Dilma, hospedando-se em hotéis de luxo. Aquele aeroporto do Aécio, tão bem localizado. Aqueles jantares do Cunha. Aqueles planos de saúde, aqueles auxílios moradia, aqueles carros oficiais. Aquelas frotas sempre renovadas, sem que se saiba direito o que acontece com as antigas. Aqueles votos secretos. Aquelas verbas para “exercício do mandato”. Aquelas obras que não acabam nunca. Aqueles estádios da Copa. Aqueles superfaturamentos.

Aquelas residências oficiais. Aquelas ajudas de custo. Aquelas aposentadorias. Aquelas vigas da perimetral. Aquelas diretorias da Petrobras.

A lista não acaba.

Um país vai para o brejo quando políticos lutam por cargos em secretarias e ministérios não porque tenham qualquer relação com a área, mas porque secretarias e ministérios têm verbas — e isso é noticiado como fato corriqueiro da vida pública.

Um país vai para o brejo quando representantes do povo deixam de ser povo assim que são eleitos, quando se criam castas intocáveis no serviço público, quando esses brâmanes acreditam que não precisam prestar contas a ninguém — e isso é aceito como normal por todo mundo.

Um país vai para o brejo quando as suas escolas e os seus hospitais públicos são igualmente ruins, e quando os seus cidadãos perdem a segurança para andar nas ruas, seja por medo de bandido, seja por medo de polícia.

Um país vai para o brejo quando não protege os seus cidadãos, não paga aos seus servidores, esfola quem tem contracheque e dá isenção fiscal a quem não precisa.

Um país vai para o brejo quando os seus poderosos têm direito a foro privilegiado.

Um país vai para o brejo quando se divide, e quando os seus habitantes passam a se odiar uns aos outros; um país vai para o brejo quando despenca nos índices de educação, mas a sua população nem repara porque está muito ocupada se ofendendo mutuamente nas redes sociais.

Enquanto isso tem gente nas ruas estourando fogos pelos times de futebol!



Cora Tausz Rónai é jornalista, escritora e fotógrafa brasileira.

* * *

I MOSTRA CULTURAL IFBA


Clique sobre as fotos, para vê-las no tamanho original
O Projeto Oxe: literatura baiana contemporânea participará, entre os dias 28 e 30 de maio, da I Mostra de arte e cultura do IFBA. Em sua primeira edição, o evento traz o tema "Baianidades Possíveis" e receberá, nos três dias apresentações de vários municípios do estado onde estão instalados campi do IFBA.

Com o intuito de visibilizar institucionalmente projetos culturais e artísticos desenvolvidos nos 23 campi do Instituto, localizados na capital e interior da Bahia, o evento foi idealizada e organizada pela Pro-reitoria de extensão e contou com a participação de bolsistas, técnicos e docentes.

O Oxe apresentará dois recitais Oxe: palavra mapeada, que articula recitação de trechos de autores e autoras baianas com projeção de videomapping e música e Rabiscos revelados, que apresenta produções dos integrantes do projeto após curso de criação literária.

Respectivamente, os espetáculos serão apresentados no palco do auditório Dois de Julho e o pátio externo da Reitoria do IFBA, localizada no bairro do Canela, em Salvador.

Para saber mais sobre o evento, clique e veja a programação.


* * *

NELSON PEREIRA DOS SANTOS UMA DESPEDIDA - Marco Lucchesi

É um momento de não rara dificuldade, querida Ivelise, colegas e familiares de Nelson Pereira dos Santos, porque se espera que o Presidente cumpra o rito, pronuncie poucas palavras,  corifeu de um coro antigo, que traduza, quanto possível, o sentimento da Casa, dos companheiros e de quantos se reúnem em torno da figura luminosa de Nelson Pereira dos Santos.

Querida Ivelise, somos testemunhas de seu amor a Nelson, vivido de modo intenso, de parte a parte, e cuidadoso. Prova desses atributos consolidou-se na travessia recente, cheia de desafios, dolorosa, partilhada pela família, tornada pelo afeto algo mais leve.

Meu caro Nelson, a emoção não tem métrica, estamos cercados de lágrimas-nuvens, saudade, comoção. Ao mesmo tempo, tristes e feridos, mas consolados, na dimensão fraterna que organiza a presente cerimônia de adeus. Não se contava com a sua morte. Certas pessoas não deviam partir, sobretudo em momentos ásperos da História.

Como disse Tarkovsky, o cineasta esculpe o tempo. Nelson Pereira dos Santos, ao cinzelar imagens vigorosas de nossa identidade, quando o Brasil ainda mal se conhecia, deu protagonismo à cidade, como conversamos Ana Maria Machado e eu, cidade multiforme, dando início a um diálogo raro de uma cidade nada transitiva, alvejada pela desigualdade.

Nelson teve a ousadia não apenas de denunciar, mas de criar uma estética da denúncia, humanista, corajosa, que transcendesse leituras fundamentalistas. A desigualdade nítida. Uma estética para compreendê-la e uma ética para denunciá-la: instância permanente de emancipação.
  
À direita de Nélson, nesta sala dos poetas românticos, encontra-se Castro Alves. A cadeira de Nelson não é uma contradição no adjetivo. Nelson e Castro Alves possuem não raras convergências, sob uma perspectiva generosa, batendo-se para o fim de modos assimétricos, contra a injustiça, no cinema e na praça, que é do povo, integra e não separa, sob uma ótica republicana incontornável.

Nelson amou como poucos a cultura popular, antes que muitos percebessem essa riqueza. Criou imagens antológicas, que até hoje povoam nossas retinas. A sua obra não pertence a seu autor, é propriedade de nossa gente e do futuro. O autor viverá para sempre.  Esse ‘escultor do tempo’ está de viagem e leva um amuleto, no dia da festa popular de São Jorge, a poucos passos daqui, onde o povo se reconhece, nos terreiros e igrejas. “O amuleto de Ogum” é um filme que todos conhecem, todos celebram, porque é um símbolo de nosso amigo Nelson, um amuleto de partes dispersas que se integram a partir de uma obra generosa, de um olhar temperado e produtivo, dedicado ao povo brasileiro.

Querido Nelson, é difícil falar de você sem perder o fio de uma razão, conter as lágrimas. Ouço de algum canto da sala a sua gargalhada tão sonora, tão independente, salvo-conduto por tantos e diversos territórios que você atravessou sem se fixar. Uma ode à sua independência. Em todos os espaços, você jamais negociou  a sua verdade, simples e altivo, suave e corajoso. 

Nelson foi um poeta da luz, esculpiu na luz a “forma mentis” de chegar ao Brasil.  Imagino desde já suas conversas intermináveis, sem maiores cerimônias, como o reencontro de irmãos, entre Rossellini e De Sica, Leon Hirszmann e Joaquim Pedro de Andrade. 

Mas o meu coração, Nelson, vai com você. Sem mágoa, seu coração, isento de rancores e das paixões tristes. Aceite, Nelson, a saudade de todos, dos que viveram e dos que estão para chegar ao mundo. Você é nosso, enquanto houver Brasil, enquanto houver defesa da arte e inquietação para integrar as partes dispersas da República.

Adeus, querido Nélson. Adeus.  
Comunità Italiana, 24/05/2018

-------
Marco Lucchesi - Sétimo ocupante da cadeira nº 15 da ABL, eleito em 3 de março de 2011, na sucessão de Pe. Fernando Bastos de Ávila, foi recebido em 20 de maio de 2011 pelo Acadêmico Tarcísio Padilha. Foi eleito Presidente da ABL para o exercício de 2018.

* * *

sexta-feira, 25 de maio de 2018

LOGICAL SONG – SUPERTRAMP

Logical song

Ligue o vídeo:

Quando eu era jovem
Parecia que a vida era tão maravilhosa
Um milagre, oh ela era tão bonita, mágica
E todos os pássaros nas árvores
Eles cantavam tão felizes
Alegria, brincalhões, me olhando

Mas aí eles me mandaram embora
Para me ensinar a ser sensato,
Lógico, responsável, prático
E mostraram um mundo
Onde eu poderia ser dependente
Doente, intelectual, cínico.

Muitas vezes,
Quando todo mundo dorme
As questões... Todas profundas demais...
Para um homem tão simples

Mas, por favor,
Me diga o que aprendemos
Eu sei que soa absurdo
Mas por favor me diga quem eu sou

Eu digo:
Agora cuidado com o que você diz
Ou eles estarão te chamando de radical,
Liberal, fanático, criminoso

Você não vai assinar seu nome
Gostaríamos de sentir que você é
Aceitável, respeitável, apresentável
Um vegetal!

À noite, quando todo mundo dorme
As questões... Todas profundas demais...
Para um homem tão simples

Por favor, me diga o que aprendemos
Eu sei que soa absurdo
Mas, por favor,
Me diga quem eu sou.

===========
Com Carinho, Lucia
"Gotas de Crystal" ppscrystal@yahoo.com.br


INCOERÊNCIA DESCABIDA! - Antonio Nunes de Souza

Nós humanos temos nossas crenças religiosas, talvez como uma das mais firmes dentro das nossas mentes, mesmo os não praticantes fervorosos, e até aqueles que, pelas suas dúvidas eventuais não acreditam, de alguma forma mantem as suas expectativas de que podem acontecer ou não!

Isso não é ciência, nem dados estatísticos, apenas observação por convivência, conversas com diversas camadas de gêneros diferentes, condições sociais e cursos efetuados. Com esses preciosos dados, depois de certo tempo, você passa a ter uma visão ampla dos pensamentos das pessoas, principalmente pelos seus comportamentos.

A primeira regra que nos chama atenção é a de que: “Só acontecem as coisas quando Deus quer”!

Bem...se é dessa forma, para que tantas preocupações e precauções, pois se “DEUS” não quiser, nada de ruim acontecerá? (De bom também, claro).

Assim sendo, todos os aparatos, conselhos, cuidados e uma infinidades de procedimentos, passam a não ter cabimentos, nem justificativas, a não ser que as pessoas também acreditem no Demônio. Pois, ao mesmo tempo que Deus não deseja que aconteça, ou aconteça, o tal do Capeta está se esmerando para sair tudo ao contrário.

Para mim essa parte da crença é infundada e inexistente, entretanto, em muitas religiões, a figura do Demônio é forte, acentuada e muitíssimo acreditada!

Devemos passar a acreditar no Capeta, ou achar que as outras religiões estão erradas nesse sentido?

Essa situação nos traz uma grande dúvida, nos tirando um pouco a crença de que somente acontece quando Deus deseja. Pois, se o Diabo estiver atento e Deus “meio distraído”, a coisa acontece errado e fora do tempo nos prejudicando barbaramente. E isso não é difícil de acontecer. É como nos esportes: Um time pequeno ganha do grande!

Outra coisa que é super divulgada e comum é que, sempre no final das nossas vidas Deus nos perdoa e vamos todos para o céu ficar ao seu lado!

Com as misérias, sofrimentos, abandonos e sem nenhuma assistência básica, vivendo uma vida tumultuada, humilhante e triste, ninguém quer morrer para ir para o céu?

Sinto que com essas e dúvidas, as pessoas, também religiosas como eu, farão reflexões sobre minhas opiniões e, muitas outras acharão que sou um herege desqualificado e desrespeitador celestial!

Aleluia, aleluia e que Deus esteja com todos, sempre iluminando nossas vidas e, com carinho, nos esclareça essas incoerências descabidas!

Antonio Nunes de Souza, escritor
Membro da Academia Grapiúna de Letras-AGRAL


* * *

quinta-feira, 24 de maio de 2018

SOBRE A PARALISAÇÃO DOS CAMINHONEIROS


Para aqueles que estão achando "injusto" todo o "transtorno" que a greve está causando, ai vai algumas considerações do que eu acho injusto:


INJUSTO é almoçar bolachas para economizar o dinheiro do almoço, pois você sabe que esse dinheiro vai ajudar sua família em casa.

INJUSTO é estar no perigo constante, onde um país parece enaltecer ladrões e corruptos e esquecer o trabalhador de bem.

INJUSTO é ter que andar por estradas mal conservadas, mal sinalizadas, ou ficar dias atolado em uma BR qualquer...

INJUSTO é a idade estar chegando e ter que puxar lonas pesadas de vários metros todos os dias (piora quando o dia está frio).

INJUSTO é você dizer que está na "estrada porque quer, pois tem outras profissões", OK, mas ganhar 900 reais trabalhando na cidade sustenta uma família? (casa, comida, estudo dos filhos, necessidades básicas?)

INJUSTO é ter que ouvir tiros do lado da cabina, tentando ser parado para perder o seu único bem.

INJUSTO é acordar às 2 horas da manhã carregar o caminhão e ter que viajar durante o dia, descarregar, e voltar ao mesmo processo 7 dias da semana, 4 semanas por mês...

INJUSTO é você ser tratado mal em cooperativas, firmas, ou em qualquer outro lugar por você ser "apenas o motorista".

INJUSTO é o preço do diesel subir a patamares que tornam o trabalho quase impossível.

INJUSTO é uma família toda vez que precisa dizer "tchau", pedir a Deus que assim como está indo, que ele consiga retornar.

INJUSTO é saber que apesar de todas as movimentações talvez nada aconteça para resolver os problemas.

INJUSTO é uma classe ser tão desvalorizada, desmoralizada e injustiçada.

Apenas quero deixar claro com todos esses pontos que eu acho injusto (e vários outros que não citei) e é com a estrada que eu crio os meus filhos. E muitos já criaram.

 ===========
EU TENHO ORGULHO DOS SENHORES MOTORISTAS E EU APOIO A PARALISAÇÃO

(Autor não mencionado)


* * *

O PIOR TIME DO MUNDO - Cyro de Mattos


O Pior Time do Mundo
Cyro de Mattos

            
            Cafuringa Futebol Clube. Da cidade de Pilão Danado. Só interessava perder. Perder, perder, perder. Ganhar nem pensar. O pior time do mundo. Encontrasse um time pior, estivesse ganhando o jogo por um a zero, os defensores dessem um jeito, antes que o juiz trilasse o apito final. Fizesse logo dois pênaltis, um atrás do outro, a derrota não escapasse ao apagar das luzes. Torcedores iam ao delírio. Foguetes pipocavam. Gritos e gritos e gritos. Ê-Ô, Ê-Ô,  Cafuringa  é Perdedor! Ê-Ô, Cafuringa é perdedor.

            O grito de guerra ecoava no estádio.

            Costumava perder de goleada. Dez a zero a última, o auge da emoção, torcedores choravam, abraçavam-se.  Noticiário com manchete empolgante na mídia. Plantão de notícia.  A TV estampava. Mais Uma Derrota do Pior Time do Mundo.  De goleada: treze  a zero. O Cafuringa Futebol Clube não deu trégua ao Arempepe Esporte Clube, um que gostava também de perder, mas nem tanto como o rival.
 
            O pior em campo: Gol-Contra.  Zagueiro especializado em fazer gol contra. Na goleada última fez três.  Um de cabeça, outro de bicicleta, o terceiro de bicuda, furou a rede.

            Era a glória. Não cansava das derrotas. Não tinha jeito.  Nasceu para perder, até a última gota de  sangue.

             Pergunta do repórter ao atacante Zé Velho:
 
            - Vai acabar hoje  a série centenária de derrotas contra o Pedrada Futebol Clube?

            Sem hesitar,  resposta contundente:

            - Perder,  perder, perder, uma vez perder, perder até morrer.

            Bandeiras desfraldadas.  Retrato dos ídolos tremulando. De arrepiar. Furão, Perna de Pau, Pereba, Azavesso, Frangueiro, Bola Murcha, Chulé. Os mais ovacionados. Ídolos sem igual.  A foto na camisa do torcedor,  rosto sorridente do craque Azavesso, desdentado, cabeludo. No álbum de figurinhas, disputado a peso de ouro pelos colecionadores.

            Novos jogadores. O time rejuvenescido. Ganhou de repente por um a zero, a zebra aconteceu contra o Bagunça Futebol e Regatas. Ganhou outra, a terceira seguida. Não era possível! Meu Deus, tem pena da gente,  o presidente suplicou, as  mãos rogando  para o céu.  Demitido o técnico.
 
            Os torcedores inflamados, sonoro protesto,  passeata aos gritos.  Desaprovação  geral no estádio. De-Canela, ex-astro do time, hoje chefe da torcida organizada, chegou a queimar a camisa do time.

            O time entrando no gramado, apupos, xingamentos, ameaças. UM HORROR! Segundo turno, ocupava o primeiro lugar. Podia ser campeão. Aberração, Calamidade. Tragédia.

            Até que retomou o rumo certo. Melhor dizendo, o errado, o costumeiro.  Voltou a perder,  uma partida atrás da outra, engordando o famoso vicio. E o refrão voltou a ecoar no estádio: “Eê! Ê! Ê! Perder Pra valer!  Quem quiser venha ver!” Abraços, choro incontido. Fogos de artifício, foguetes, berros, histerismo.

            O pior time do mundo na manchete. Com o seu trio de atacantes inesquecível: Mudo,  Zoinho e Surdo.  Ovação geral do torcedor empolgado. Convicto.  Eternamente.

----------
Cyro de Mattos é contista, poeta, cronista, ensaísta, romancista, organizador de antologia,  autor de livros para crianças e jovens. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia.  Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual de Santa Cruz. Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México. Tem livro publicado em Portugal, Itália, França, Alemanha, Espanha e Dinamarca. Detentor de prêmios importantes.

* * *