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sábado, 26 de maio de 2018

NELSON PEREIRA DOS SANTOS UMA DESPEDIDA - Marco Lucchesi

É um momento de não rara dificuldade, querida Ivelise, colegas e familiares de Nelson Pereira dos Santos, porque se espera que o Presidente cumpra o rito, pronuncie poucas palavras,  corifeu de um coro antigo, que traduza, quanto possível, o sentimento da Casa, dos companheiros e de quantos se reúnem em torno da figura luminosa de Nelson Pereira dos Santos.

Querida Ivelise, somos testemunhas de seu amor a Nelson, vivido de modo intenso, de parte a parte, e cuidadoso. Prova desses atributos consolidou-se na travessia recente, cheia de desafios, dolorosa, partilhada pela família, tornada pelo afeto algo mais leve.

Meu caro Nelson, a emoção não tem métrica, estamos cercados de lágrimas-nuvens, saudade, comoção. Ao mesmo tempo, tristes e feridos, mas consolados, na dimensão fraterna que organiza a presente cerimônia de adeus. Não se contava com a sua morte. Certas pessoas não deviam partir, sobretudo em momentos ásperos da História.

Como disse Tarkovsky, o cineasta esculpe o tempo. Nelson Pereira dos Santos, ao cinzelar imagens vigorosas de nossa identidade, quando o Brasil ainda mal se conhecia, deu protagonismo à cidade, como conversamos Ana Maria Machado e eu, cidade multiforme, dando início a um diálogo raro de uma cidade nada transitiva, alvejada pela desigualdade.

Nelson teve a ousadia não apenas de denunciar, mas de criar uma estética da denúncia, humanista, corajosa, que transcendesse leituras fundamentalistas. A desigualdade nítida. Uma estética para compreendê-la e uma ética para denunciá-la: instância permanente de emancipação.
  
À direita de Nélson, nesta sala dos poetas românticos, encontra-se Castro Alves. A cadeira de Nelson não é uma contradição no adjetivo. Nelson e Castro Alves possuem não raras convergências, sob uma perspectiva generosa, batendo-se para o fim de modos assimétricos, contra a injustiça, no cinema e na praça, que é do povo, integra e não separa, sob uma ótica republicana incontornável.

Nelson amou como poucos a cultura popular, antes que muitos percebessem essa riqueza. Criou imagens antológicas, que até hoje povoam nossas retinas. A sua obra não pertence a seu autor, é propriedade de nossa gente e do futuro. O autor viverá para sempre.  Esse ‘escultor do tempo’ está de viagem e leva um amuleto, no dia da festa popular de São Jorge, a poucos passos daqui, onde o povo se reconhece, nos terreiros e igrejas. “O amuleto de Ogum” é um filme que todos conhecem, todos celebram, porque é um símbolo de nosso amigo Nelson, um amuleto de partes dispersas que se integram a partir de uma obra generosa, de um olhar temperado e produtivo, dedicado ao povo brasileiro.

Querido Nelson, é difícil falar de você sem perder o fio de uma razão, conter as lágrimas. Ouço de algum canto da sala a sua gargalhada tão sonora, tão independente, salvo-conduto por tantos e diversos territórios que você atravessou sem se fixar. Uma ode à sua independência. Em todos os espaços, você jamais negociou  a sua verdade, simples e altivo, suave e corajoso. 

Nelson foi um poeta da luz, esculpiu na luz a “forma mentis” de chegar ao Brasil.  Imagino desde já suas conversas intermináveis, sem maiores cerimônias, como o reencontro de irmãos, entre Rossellini e De Sica, Leon Hirszmann e Joaquim Pedro de Andrade. 

Mas o meu coração, Nelson, vai com você. Sem mágoa, seu coração, isento de rancores e das paixões tristes. Aceite, Nelson, a saudade de todos, dos que viveram e dos que estão para chegar ao mundo. Você é nosso, enquanto houver Brasil, enquanto houver defesa da arte e inquietação para integrar as partes dispersas da República.

Adeus, querido Nélson. Adeus.  
Comunità Italiana, 24/05/2018

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Marco Lucchesi - Sétimo ocupante da cadeira nº 15 da ABL, eleito em 3 de março de 2011, na sucessão de Pe. Fernando Bastos de Ávila, foi recebido em 20 de maio de 2011 pelo Acadêmico Tarcísio Padilha. Foi eleito Presidente da ABL para o exercício de 2018.

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domingo, 22 de abril de 2018

MORRE AOS 89 ANOS O CINEASTA NELSON PEREIRA DOS SANTOS


Diretor estava com câncer no fígado, descoberto após internação devido a pneumonia

POR O GLOBO
21/04/2018 17:39 / atualizado 22/04/2018 13:54

O cineasta Nelson Pereira dos Santos - Camilla Maia / Infoglobo

RIO — Morreu aos 89 anos o diretor de cinema Nelson Pereira dos Santos, um dos precursores do Cinema Novo. O cineasta estava internado desde a quarta-feira, dia 12, com uma pneumonia, no hospital Samaritano. Na internação foi constatado um tumor no fígado, já em estágio avançado, que causou a morte do diretor.

O corpo será velado na Academia Brasileira de Letras (ABL) nesta segunda, dia 23, às 9h. O enterro será às 16h, no Cemitério São João Batista. Nelson faria 90 anos em outubro. Ele deixa a mulher Ivelise Ferreira, quatro filhos e cinco netos.

TRAJETÓRIA

Em 1955, Nelson levou as telas em "Rio 40 graus" a canção-denúncia de Zé Ketti “O morro não tem vez". E, até então, o morro realmente não tinha vez no cinema brasileiro — ao menos não com aquela crueza poética (ou poesia crua), num olhar influenciado pelo neorrealismo italiano.

Por trás da obra que fundou muitas das bases do que viria nos anos (e décadas) seguintes, sobretudo o Cinema Novo, estava o diretor estreante Nelson Pereira dos Santos, aos 27 anos — antes, ele havia feito apenas o curta-metragem “Juventude” e a assistência de direção em “O saci”.

Filmografia

Em entrevista dada ao GLOBO em 1998, Nelson Pereira dos Santos comentou seus clássicos mais marcantes. O cineasta morreu neste sábado, de câncer no fígado, descoberto tardiamente após internação devido a pneumonia. Veja o que ele falou sobre sua obra.

Era só o começo da trajetória daquele que se tornaria um dos maiores cineastas do país, um diretor que buscou ler e desenhar o Brasil em cada um de seus trabalhos — até o último, o documentário “A luz de Tom” (2012), sobre o maestro Tom Jobim.

— O Nelson era tudo. Inventou um cinema que só poderia ser feito no Brasil — definiu Cacá Diegues. — É uma perda irreparável. Ele morreu, mas a obra está aí, e deve ser vista.

Em entrevista ao GLOBO em 1998, Nelson falou de seu desejo, herdado dos modernistas, de tentar lançar luz sobre o Brasil — e de como bebeu em outros criadores e intérpretes do país para fazer isso. Ele se referia a nomes como Graciliano Ramos (ele levou às telas “Vidas secas” e “Memórias do cárcere”), Machado de Assis (“Azylo muito louco”), Jorge Amado (“Tenda dos milagres” e “Jubiabá”), Guimarães Rosa (“A terceira margem do rio”), Nelson Rodrigues (“Boca de ouro”), Gilberto Freyre (a série “Casa grande & senzala”) e Castro Alves (“Guerra e liberdade”).

— Sou de uma geração formada por esses escritores e outros artistas do modernismo. Uma geração que cresceu com Oswald, Graciliano, Di Cavalcanti, Villa-Lobos. Para construir um país só faltava o cinema — disse Nelson.

PRIMEIRO CINEASTA A ENTRAR NA ABL

A relação com cinema vem da infância. A mãe o levava às matinês do Cine Teatro Colombo, em São Paulo (onde nasceu, em 22 de outubro de 1928). Ali, ele passava a tarde vendo longas-metragens, seriados e desenhos animados.

Nos anos 1940, na escola, aproximou-se do comunismo e tomou contato com o neorrealismo italiano, que chegava ao Brasil em filmes de cineastas como Roberto Rossellini e Luchino Visconti.

Nelson chegou a se formar em Direito na USP, em 1953 — mas já saiu da universidade sabendo que seria cineasta. Foi nessa época que decidiu mudar-se para o Rio. Ainda em São Paulo, atuou também como jornalista, profissão que manteve no Rio em veículos como “Jornal do Brasil”.

A estreia com “Rio 40 graus” — filme feito com câmera emprestada pelo pioneiro do cinema brasileiro Humberto Mauro — foi celebrada, mas também gerou reações do governo, e a obra chegou a ser proibida. Ele seguiria, porém, a trilha que abrira. Dois anos depois, em 1957, fez “Rio, Zona Norte”.

Filmando documentários sobre a seca do Nordeste, Nelson pensou em fazer um filme sobre aquela realidade. Percebeu que a história que queria estava pronta, no livro “Vidas secas”, que lançaria em 1963. Antes de conseguir realizar o filme, já dentro das propostas do Cinema Novo, mergulhou no universo rodriguiano de “Boca de ouro” (1962).

Nos anos seguintes, Nelson embarcaria nas viagens alegóricas da contracultura (“Fome de amor”, “Quem é Beta?”), na comédia carioca (“El justicero”), nos cinemas históricos (“Como era gostoso meu francês”) e urbano (“Amuleto de Ogum”). Com “A terceira margem do Rio”, de 1994, ele se fez presente na chamada “retomada”. O universo de escândalos políticos do período pós-redemocratização não escapou de seu olhar — ele os retratou, em 2006, em “Brasília 18%”, que faz no título uma referência à baixa umidade da cidade.

— Não que seja uma relação determinista, de que Brasília é daquele jeito por causa das condições geográficas. Mas o clima seco e a poeira combinam bem com o que acontece por lá — disse Nelson ao GLOBO na época do lançamento.

O cineasta foi professor fundador do curso de cinema da Universidade de Brasília (o primeiro do Brasil) e também lecionou na UCLA (Universidade da Califórnia em Los Angeles) e na Universidade de Columbia, em Nova York. Desde 2006, era membro da Academia Brasileira de Letras — o primeiro cineasta a ocupar a posição.



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