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terça-feira, 27 de março de 2018

RESENHA SOBRE O LIVRO 'BOLERUS', DO POETA VANDERLEY SAMPAIO


Resenha: Bolerus, de Vanderley Sampaio

(*) Marcos Fidêncio

Não há como não estabelecer uma relação entre “Bolero” e “Bolerus”. O primeiro é um gênero musical nascido na Europa e depois trazido para a América, em especial para Cuba, onde se misturou com ritmos africanos. Já o segundo é um besouro. Isso mesmo. Um inseto da ordem dos coleópteros. Qual seria então a provocação do autor com tal título? Fazer o nosso pensamento dançar? Colocar um inseto zunindo na nossa cabeça para remexer os neurônios, rearranjando nossas viciadas sinapses, tão acostumadas ao óbvio? Façamos uma síntese: um besouro atrevido, às vezes irritante e desafiador como o grilo falante de Disney ou a mosca da sopa de Raul, que nos tira da nossa cômoda posição e nos faz encontrar novas formas de fazer o pensamento dançar. Talvez seja isso. E não adianta dedetizar!Também é inútil dormir, que a dor não passa.

Mas vamos ao livro. Em primeiro lugar, julgo necessário estabelecer aqui uma definição acerca do estilo de cada escritor. Trata-se do modo com que as palavras são escolhidas e dispostas na prosa ou na poesia. É como se o autor tocasse uma música e as palavras dançassem de acordo com o ritmo dos sons produzidos por ele. Às vezes uma dança lenta, às vezes acelerada, grave ou aguda, harmoniosa... E, em alguns momentos, ele pode até emitir acordes dissonantes pelos cinco mil alto-falantes das páginas da sua obra. Senhoras e senhores, ele também pode pôr os olhos grandes sobre o mundo para cantá-lo do seu próprio modo aos leitores!

Na obra "Bolerus", primeira reunião de poemas de Vanderley Sampaio, a trilha sonora é fortemente marcada pelo concretismo. Na maioria dos poemas, com destaque para "Pingos nos is" e "Um espinho", isso fica muito claro e pode ser facilmente comprovado na própria diagramação dos versos. Sampaio se preocupa com a disposição espacial das palavras em alinhamentos geométricos, buscando com extrema competência uma forma para veicular a expressão poética, concentrando suas preocupações na materialidade da palavra, nos seus aspectos sonoro e visual, tal qual fizeram Haroldo de Campos, Augusto de Campos e Décio Pignatari, no final dos anos 50, mandando às favas as métricas e rimas tradicionais. Afinal, nem sempre a adequação tem que ser perfeita ao modo de Bilac. Como já disse Caetano, nem tudo é métrica e rima, às vezes é dor! A dor de romper, como faz Sampaio.

Por isso, "Bolerus" tem um leve cheiro de Tropicalismo na medida em que flexibiliza versos, aproveita espaços em branco como parte da significação, transforma as palavras em objetos, explorando a sonoridade e a visualidade. Mas também é deliciosamente contaminado por um sutil sabor de poesia-práxis ao se preocupar com os aspectos semânticos das palavras, fazendo uso de neologismos, decompondo termos, abrindo a possibilidade de múltiplas leituras, levando em conta a capacidade própria de interpretação de cada leitor.

A predominância de um estilo em que conteúdo e forma se enamoram e brigam ao mesmo tempo em cada um dos versos, nos leva a compreender o porquê da escolha de tal canto. Possivelmente, as influências dos estudos semióticos do autor, formado em jornalismo, são sentidas aí. As leituras de Peirce, Pignatari, Umberto Eco e outros grandes pensadores, durante seu período na Unesp (Universidade Estadual Paulista), onde ele concluiu a sua primeira graduação, dão o tom e a partitura para que o poeta torne seus instrumentos afinadíssimos, o papel e a caneta, notadamente em noites solitárias e inquietas, como ele mesmo revela em alguns textos – “Escuridão”, “Sozinho”, “A noite que traiu as águas” e “Carta à Madrugada”, por exemplo – e embale as palavras com tal maestria.

No poema "Semântica", porém, Sampaio dá mostras de que nem só de “gestalt” vivem seus versos ao nos mandar engolir, tirar, jogar ou privar a palavra se não for semântica, ou seja, caso ela não esteja carregada de significado. A psicologia das formas, também apreendida pelo autor em seus estudos unespianos, sugere ao leitor não se ater apenas ao particular da palavra-objeto, mas também ao todo, à imagem produzida, que muitas vezes redunda em figuras geométricas reveladoras. Por outro lado, cada palavra particular tem o seu valor e não pode ser completamente desprezada.

Prova disso está na página seguinte, em "Termo", poema em que ele demonstra que as palavras não devem ser salpicadas ao modo de um saleiro, sem razão, sem destino ou dose certa. Cada termo precisa ser próprio. "E se lhe parecer impróprio, talvez não tenha sido minucioso o suficiente". Ainda bem que, segundo o poeta, generoso com todos os que se arriscam a cantar sem muito critério, "a insuficiência do termo nem sempre prejudica a noite".

Com relação às indagações acerca da minha análise, como amigo e admirador do autor, eu posso garantir que tive o cuidado de tecê-la com o necessário distanciamento. Meus estudos de sociologia neste momento evocam Bordieu: “os circuitos de consagração social serão tanto mais eficazes quanto maior a distância social do objeto consagrado”. Consagro o trabalho de Sampaio pela qualidade, pelo prazer da leitura, pelo compromisso com a seriedade e porque conheço sua trajetória poética, sempre constante e paralela ao oficio de jornalista, que ele igualmente desempenhou com brilhantismo. A poesia acompanha o autor desde a mais tenra idade e tenho certeza de que esse livro é apenas o primeiro de muitos que ainda virão, afinal, eu sei de uma colônia de bolerus que ainda não voaram para as primeiras páginas. Por enquanto, são apenas ninfas em crescimento... Ou, quem sabe, já estão zunindo na cabeça de um certo poeta.

(*) Marcos Fidêncio é jornalista formado pela Unesp (câmpus de Bauru/SP). Também cursou Ciências Sociais na Unesp (câmpus de Marília/SP) e se especializou em Marketing na Univem (Marília/SP).

 Sinopse do livro

Bolerus é um termo instigante para dar nome a um livro que nos sugere uma leitura sem plano de voo definido, em que podemos assistir à dança dos versos construindo imagens, cadências e zumbidos. Nesses poemas e outros delírios líricos de Vanderley Sampaio, somos confrontados com nossos devaneios e temores mais cotidianos ao mesmo passo em que desejamos conhecer o segredo do Universo. O incômodo e inusitado besouro cascudo, que pousa sobre nossas cabeças nas noites quentes e inquietantes, esconde também asas leves e frágeis, que enternecem nossa fúria existencial. E assim, pareando questionamento e desejo, confusão e silêncio, ludicidade e solidão, somos todos convidados a surtar de poesia e a dançar com os insetos barulhentos que sobejam nossos mais profundos pensamentos. (Rose Almeida, bacharel em Letras pela USP e poeta no blog Absurtos).

Sobre o autor
Vanderley Sampaio nasceu em Garça (SP), no ano de 1972. Começou a escrever poesia na adolescência, quando também mergulhou no teatro como ator amador. Jurando que iria voltar, "pediu um tempo" às artes cênicas, para cursar Jornalismo na Unesp, em Bauru (SP). Descumpriu sua promessa e seguiu a vida sem palcos, atuando como jornalista por nove anos e depois como servidor público. Mudou-se para São Paulo (SP) e formou-se em Direito pela USP. Mas a poesia sempre se manteve presente em sua vida. Alguns de seus poemas foram publicados em jornais, sites e nas redes sociais, especialmente no blog Absurtos.


Ficha Técnica
Título: Bolerus
Autor: Vanderley Sampaio
Editora: Scortecci Editora
Edição:
ISBN: 978-85-366-5355-6
Ano: 2017
Formato: 14 x 21 cm - 120 páginas
Gênero: Poesia brasileira
Preço de capa: R$ 35,00
Faixa etária: livre

Onde comprar o livro físico:
Livraria Asabeça: https://goo.gl/Gw3L2z
Site da Amazon: https://goo.gl/W7FnFY
Cia. dos Livros: https://goo.gl/EHvedE
Livraria Martins Fontes: https://goo.gl/u9sBP2
Livraria Cultura: https://goo.gl/749hA8
Onde comprar o livro digital (e-book):
Site da Amazon: https://amzn.to/2AL1uVl
Links de divulgação:
Blog Absurtos: www.absurtos.com.br


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POESIA NA SEMANA SANTA - Cyro de Mattos


Uma Prece

Bomba a alvejar manso rebanho,
Fera branca que se achou Deus,
Cidade grande em galope amarelo,
Faces levando sede e fome,
Droga a matar a maravilha,
Sangue inocente de réu negro,
Lágrima extirpada de índio,
Mãos de metralha do menino,
Pai que apagou a luz do filho,
Mãe que não quis sentir a rosa,
Irmão que fugiu do outro irmão,
Rei que esqueceu a oração,
Veneno na água, chão e céu.
Cura-me, ó Deus de todos os perdões.

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Louvemos  Baixinho

 Para Manuel Bandeira,
 em memória


Nasceu numas palhas
O nosso reizinho,
Os matos cheiravam,
O vento embalava.

A Virgem Maria
Sentia como doía
O destino humano
Do filho de Deus.

Quando for um homem
Com o nome de Jesus
De tanto nos amar
Irá morrer na cruz.

Louvemos no Natal
O nosso reizinho
Enquanto ele dorme
Como um cordeirinho.

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Tudo É Mistério
               
Para  Antonio Carlos Vilaça,
em memória


Certa vez
Ele me disse
No Flamengo.

Tudo é mesmo
Um mistério.
Três em Um.

Ser, não ser
Oscilamos
Na questão.

Um, um, um
Fiat luz
Na voz de Um.
  
Um, um, um,
Fria foice
Em cada um.

Na dúvida
Depositando
Tantos danos,

Há na morte
Um final
Que liberta.

Dor ou tédio
Derrota-se
No caixão.

O temor
De algo após
Que não sabe

Enlaça   
Esse ator
Fugitivo

Que no fardo
Do mistério
Segue finito.
Na contradição.

Cyro de Mattos  
Escritor e poeta. Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual de Santa Cruz. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia, Pen Clube do Brasil, Academia de Letras de Ilhéus e Academia de Letras de Itabuna. Autor premiado no Brasil, Portugal, Itália e México.

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segunda-feira, 26 de março de 2018

DOM CESLAU STANULA - IV e V Conferência-Geral


15/03/2018
IV Conferência Geral

Em 12 de outubro de 1992, dia em que se abriu a IV Conferência-Geral, na Igreja da América Latina iniciara-se a celebração dos 500 anos da chegada dos europeus e com eles a primeira evangelização.

O documento de Santo Domingo até último momento dos trabalhos ficou indeciso e confuso. Dizem que quase na véspera de encerramento da Conferência, Dom Luciano Mendes de Almeida, naquela época Arcebispo de Mariana, passou a noite inteira trabalhando e de manhã apresentou o projeto da conclusão dos trabalhos, dizendo que não vamos indicar prioridades, porque estes são muitos, e priorizando muitos, não priorizamos nada. Sugeriu então que o Documento saísse indicando LINHAS PASTORAIS.  Esta sugestão agradou a todos e assim saiu o documento. Indicou três principais linhas pastorais:

1. Uma nova evangelização

2. Promoção integral dos povos

3. A Evangelização inculturada.

Assim na  IV Conferência-Geral, deu-se um passo decisivo rumo à inculturação, a um evangelho inculturado, em nossas Igrejas.

Nesta apresentação das quatro Conferencias servi-me do trabalho realizado pelo participante daquela Conferência, o Cardeal Dom Aloísio Lorscheider, já falecido, arcebispo emérito de Aparecida.

Com a benção e oração. Boa e repousante noite de paz.
Dom Ceslau

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V Conferência Latino Americana e Caribenha
16/03/2018

Estando em Aparecida, Santuário nacional, visitando os monumentos lá existentes, nos deparamos entre a saída do Santuário e a entrada a residência dos missionários redentoristas, com uma enorme pedra de granito, pontiaguda, de aproximadamente 10 m de altura, só de um lado a metade polida. É o monumento comemorativo da V Conferência Latino Americana e Caribenha.

A Conferência de Aparecida, foi inaugurada pelo Papa Bento XVI no dia 13 de maio e encerrada no dia 31 de maio de 2007. O tema foi: “ Discípulos e Missionários de Jesus Cristo, para que nele nossos povos tenham vida”, inspirado na passagem do Evangelho de João que narra “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6).

A Conferência foi convocada pelo Papa João Paulo II e confirmada pelo Papa Bento XVI. Foi organizada pelo Conselho Episcopal Latino-Americano, sob a orientação da Pontifícia Comissão para a América Latina. É o mais recente evento eclesial que nos trouxe a riqueza de orientações pastorais e material de reflexão à luz da fé sobre a Igreja na América Latina e Caribe. (Continuará).

Com o abraço fraterno e a benção com a oração. Uma repousante noite.
Dom Ceslau.

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17/03/2018

O Papa Bento XVI na homilia de abertura da Conferencia disse:

 “Esta V Conferência Geral celebra-se em continuidade as outras quatro que a precederam (...) . Com o mesmo espírito que as animou, os pastores querem dar novo impulso à evangelização, a fim de que estes povos sigam crescendo e amadurecendo em sua fé, para serem luz do mundo e testemunhas de Jesus Cristo com a própria vida”.

E os bispos constataram, que desde a última conferência em Santo Domingo muito mudou na sociedade. E a Igreja que participa das alegrias e esperanças de seus filhos, quer caminhar ao seu lado neste período de tantos desafios para infundir-lhes sempre esperança e consolo. (AP 16).

 Acho que nestas palavras poderíamos resumir o objetivo principal da Conferência nesta nossa realidade da mudança da época. Novo impulso da evangelização e estar ao lado do povo. Pensemos nisto. (continua).

Com a minha benção e oração. Um boa noite.
Dom Ceslau

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Cultura e inculturação na América latina
19/03/2018

Antes de apresentar em linhas gerais a herança de Aparecida, chamo a atenção a afirmação que o Papa Bento XVI, fez na abertura da Conferência sobre a cultura e enculturação na América Latina.

O Papa refletiu sobre o que foi o encontro das duas culturas: pré-colombiana e cristão. Será que foi um choque, ou a imposição? “Mas, que significou a aceitação da fé cristã para os  povos da América Latina e o Caribe?

Para eles, significou conhecer e acolher Cristo, o Deus desconhecido que seus antepassados sem saber, buscaram em suas ricas tradições religiosas. Recebendo também o Espírito Santo para fecundar suas culturas, purificando-as desenvolvendo os números germes e sementes que o Verbo encarnado (Jesus Cristo) que havia posto neles, orientando-as assim pelos caminhos do Evangelho.

O anuncio de Jesus e seu Evangelho não supôs, em nenhum momento, uma alienação das culturas pré-colombianas, nem foi uma imposição de uma cultura estranha. 

E continua dizendo o Papa: As autenticas culturas não são fechadas em si mesmas nem petrificadas num determinado ponto da história. Estão abertas, buscam o encontro com as outras culturas, pelo diálogo com outras formas de vida no respeito sempre a diversidades das expressões e de sua realização concreta. Em última instância só a verdade unifica e sua prova é o amor. Mais ou menos nestes termos falou o Papa sobre o encontro das duas culturas.

Um abraço e a benção a todos com a humilde oração.
Dom Ceslau.

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20/03/2018

O Documento de Aparecida está dividido em três grandes partes:
1ª A vida dos nossos povos;
2ª A Vida de Jesus Cristo nos discípulos missionários;
3ª A vida de Jesus Cristo para nossos povos.

Na primeira parte se considera, brevemente, a pessoa que olha a realidade e que louva a Deus por todos os dons recebidos, em especial, pela graça, a fé que o fez seguidor de Jesus e pela alegria de participar da missão eclesial. Analisam-se vários processos históricos complexos e em curso nos níveis sócio-cultural, econômico, sócio-político, étnico e ecológico, e se discernem grandes desafios como a globalização, a injustiça estrutural, a crise na transmissão da fé e outros. Nesse contexto, considera a difícil situação de nossa Igreja nesta hora de desafios, fazendo um balanço de sinais positivos e negativos. (continua).

Com uma benção e oração nesta última semana de quaresma. Um boa noite.
Dom Ceslau.
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21/03/18

A segunda parte, a partir do olhar sobre a realidade da América Latina e o Caribe, entra na essência do tema: A vida de Jesus Cristo nos discípulos missionários. Indica a beleza da fé em Jesus Cristo como fonte de vida para os homens e as mulheres que se unem a Ele e percorrem o caminho do discipulado missionário.

Aqui são tratadas, dimensões relativas aos cristãos como discípulos missionários de Jesus Cristo. A alegria de ser chamado para anunciar o evangelho e suas repercussões na pessoa e na sociedade. (cap. 3); a vocação à santidade que recebemos ao ser configurados com Cristo (cap.4); a comunhão de todo o Povo de Deus e de todos no Povo de Deus, na perspectiva de discípulo e missionário. 

Os distintos membros da Igreja com suas vocações específicas, e o diálogo ecumênico, o vínculo com o judaísmo e o diálogo inter-religioso (cap. 5); No fim, se aborda o caminho dos discípulos missionários, a sua riqueza espiritual na piedade popular católica, uma espiritualidade trinitária, cristocêntrica e Mariana de estilo comunitário e missionário (cap. 6) Aqui se encontra uma das novidades do documento: revitalizar a vida dos batizados para que permaneçam e caminhem no seguimento de Jesus. (continua).

Uma serena noite. Deus te abençoe. Com a minha oração.
Dom Ceslau
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22/03/18

 A terceira parte entra plenamente na missão atual da Igreja Latino-americana e Caribenha. Nesta parte se considera as principais ações pastorais com um dinamismo missionário. Vemos a grande opção da Conferência: converter a Igreja em uma comunidade mais missionária. Com este fim, se fomenta a conversão pastoral e a renovação missionária das Igrejas Particulares, das comunidades eclesiais e dos organismos pastorais. Aqui se incentiva uma missão continental que teria por agentes as dioceses e os episcopados.

Procura-se priorizar algumas áreas a serem evangelizadas; se reconhece novos rostos dos pobres: os desempregados, migrantes, abandonados, enfermos e outros. “A nossa fé proclama que Jesus Cristo é o rosto humano de Deus e o rosto divino do homem” (Papa J.P. II) Por isso a opção preferencial pelos pobres está implícita na fé cristológica naquele Deus que se fez pobre por nós, para nos enriquecer com a sua pobreza. (Bento XVI). Esta opção nasce da nossa fé em Jesus Cristo, o Deus feito homem, que se fez o nosso irmão.  Opção, no entanto, não exclusiva, nem excludente” (Ap 392). (Continua).

Com a benção e oração.
Dom Ceslau.

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23/03/2018
Família

Sob o título Família, se promove uma cultura do amor no matrimônio e na família, e uma cultura do respeito à vida na sociedade; ao mesmo tempo, deseja-se acompanhar pastoralmente as pessoas em suas diferentes condições: crianças, jovens, idosos, mulheres e homens, e se fomenta o cuidado com o meio ambiente como casa comum (cap. 9).

No último capítulo, fala da evangelização da cultura e a evangelização inculturada. Aponta os desafios pastorais na educação e na comunicação, nos novos areópagos e centros de decisão, na pastoral das grandes cidades e a presença dos cristãos na vida pública.

O Documento quer renovar em todos os membros da Igreja, convocados a ser discípulos missionários de Cristo, “ a doce e confortadora alegria de evangelizar” ( EN 80).

Com as palavras dos discípulos de Emaús e com a oração do Papa em seu discurso inaugural, o Documento conclui com uma prece dirigida a Jesus Cristo: ‘Fica conosco porque é tarde e o dia declina’ (Lc 24,29).

De todo o documento emana o novo espirito que envolve a Igreja da América Latina e Caribe, que é: A EVANGELIZAÇÃO.

Eis a riqueza do Documento, aqui apresentado só como o “tira gosto”, para animar-nos ao estudo, porque é o Documento de Magistério da Igreja.

Com a benção e oração. Tenhamos uma Santa Semana Santa.
Dom Ceslau.
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Dom Ceslau Stanula – Bispo Emérito da Diocese de Itabuna-BA, escritor, Membro da Academia Grapiúna de Letras-AGRAL


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ITABUNA CENTENÁRIA REFLETINDO: O momento presente



O momento presente


            “Naturalmente este não é um segredo, mas uma verdade muito antiga,  que necessita ser reiterada mais que aprendida. Os homens e mulheres prudentes de todos os tempos têm aprendido que se alguém quer ser feliz, há um só momento para isso, a saber,  o presente. E uma das peculiaridades da felicidade, um paradoxo que ninguém tem entendido nem explicado até aqui, é que um ser humano regido pelo egoísmo, que pensa em si muito mais do que qualquer outra pessoa, e que se espraia principalmente em suas ideias e interesses egoístas, encontra a maior felicidade quando se esquece de seu egoísmo e se torna altruísta no que se refere a si mesmo, seus bens  e seus pensamentos.”

            Tudo o que se aplica à falta de felicidade se aplica à aflição, que é tão fator de desditas. Se concentramos nossa atenção para ver e desfrutar a felicidade que está ao alcance de nossa mão, não divagará pelos campos do passado onde cometemos erro, nem do futuro onde talvez nunca chegaremos. Se nos acostumarmos a gozar de cada momento, a extrair a felicidade do presente à medida que a bondade de Deus no-la traz, iremos  vendo que  é fútil afiigir-se pelo dia de amanhã. Este dia também trará seus momentos  felizes se estivermos dispostos a vê-los e desfrutá-los.

          Não devemos procurar viver dois dias de cada vez. Não é necessário que nos aflijamos  pelos problemas de hoje e os de amanhã. Hoje, mais que no passado,  têm aplicação as palavras do grande Mestre: “Não vos inquieteis pelo dia de amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal.” “Fui moço, e agora sou velho; mas nunca vi desamparado o justo, nem a sua descendência a mendigar o pão”, declarou Davi num de seus salmos. “A tua força será como os teus dias”, é a promessa que nos faz a Escritura Sagrada.


(A CHAVE DA FELICIDADE E A SAÚDE MENTAL)
Marcelo I. Fayard

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FASCINANTE BOLA NO PÉ – Cyro de Mattos


Fascinante Bola no Pé
Cyro de Mattos
                   
          Parece que o futebol  jogado  antigamente no Campo da Desportiva   era melhor do que o que iria se apresentar depois na fase do  estádio Luiz Viana Filho, tempo  em que o time do Itabuna filiou-se à Federação Baiana de Futebol e se tornou profissional. Nos primeiros anos até que o  representante da cidade  se saiu bem como time profissional. Aproveitou alguns jogadores  remanescentes da seleção amadora,  como Luís Carlos, Carlos Riela, Fernando Riela, Lua,  Leto, Santinho e Déri.  Dava bons espetáculos dentro e fora de seus domínios, e, numa temporada,  foi  vice-campeão do campeonato baiano.

        Anos depois, administrado por dirigentes individualistas, ora querendo mais tirar proveito da situação  com os seus interesses políticos,   ora sem compromisso sério  com a cidade, alheio à sua gloriosa história esportiva,  o time do Itabuna profissional  mostrou-se  desorganizado na sua cúpula diretiva,  começou a descer a ladeira.  Foi se enfraquecendo de tal forma que não resistiu  e  caiu para a segunda divisão. De uns anos para cá nem sequer disputa  mais a segunda divisão do campeonato  baiano. Uma lástima. Como isso pode acontecer numa cidade de mais de  duzentos  mil habitantes,  com inúmeros torcedores  que amam o futebol e o tem na alma como uma das mais  fortes paixões  do povo,  é difícil  de aceitar.
  
           Um dos craques que jogou no Campo da Desportiva e que me deu a  impressão como o melhor que atuou na sua posição foi o meia de armação   Déri.  Deixava o torcedor incrédulo com o lançamento  certo na bola longa. Atuou no Janízaros e na seleção amadora de Itabuna. Fez sucesso no campeonato baiano. Com o ilheense Deco formou uma famosa meia cancha que deu ao Galícia vitórias sensacionais contra os times do Bahia, Vitória,  Ipiranga e Botafogo. Sagrou-se campeão com o Vitória. Suas assistências e bola lançada longa  na área deixavam o atacante na posição ideal para fazer o gol. Até o torcedor  do time adversário aplaudia.

.        Na década de 70, o Confiança de Sergipe  teve um dos grandes times de sua  história. Sagrou-se novamente bicampeão estadual em 1976/77. Em 1977 realizou a melhor campanha de um time sergipano em campeonato nacional,  chegando a decidir a liderança do grupo contra o Flamengo, em pleno Maracanã.   Déri estava nesse time. Foi o dono da bola no jogo em que o Confiança venceu o Flamengo por três a um no Maracanã. Fez um dos gols na vitória do time sergipano, golaço. Assombrou com a sua atuação espetacular os torcedores e os jornalistas esportivos. Cláudio Coutinho, técnico  da Seleção Brasileira à época,  que assistiu a partida, impressionado com o  craque das terras baianas do cacau recomendou ao  Flamengo que o contratasse.

              Desse time do Confiança, vários destaques acabaram  jogando nos principais clubes do futebol nacional.
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Cyro de Mattos 
Baiano de Itabuna. Escritor e poeta, Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual de Santa Cruz (Sul da Bahia). Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia, Pen Clube do Brasil, Academia de Letras de Ilhéus e Academia de Letras de Itabuna.

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domingo, 25 de março de 2018

ANUNCIAÇÃO DO ANJO E ENCARNAÇÃO DO VERBO - Plinio Corrêa de Oliveira

25 de Março de 2018
Acontecimento capital da História: o Verbo de Deus se encarna no seio puríssimo de Maria (Festividade celebrada pela Igreja no dia 25 de março).
Plinio Corrêa de Oliveira*

A cena famosa da Anunciação do Arcanjo São Gabriel a Nossa Senhora, no retábulo pintado por Fra Angélico [quadro acima], constituiu para a humanidade uma hora da graça. Abriu-se o Céu que a culpa de Adão e Eva havia cerrado, e dele desceu um espírito de luz e pureza, trazendo consigo mensagem de reconciliação e paz, dirigida à criatura mais formosa, nobre, cândida e benigna que nascera da estirpe de Adão.

Estando o Arcanjo em presença da Santíssima Virgem, o diálogo se estabelece. A nobreza própria à natureza angélica, sua fortaleza leve e toda espiritual, sua inteligência e pureza, enfim tudo se espelha admiravelmente na figura altamente expressiva de São Gabriel. Nossa Senhora, com razão, aparece na pintura menos etérea e impalpável, pois é uma criatura humana. Entretanto, um quê de angélico nota-se em toda a compostura d´Aquela que é a Rainha dos anjos. Sua fisionomia excede em espiritualidade, nobreza e candura à do próprio emissário celeste.

Invisível, Deus entretanto manifesta sua presença na luz sobrenatural que parece irradiar de ambos os personagens, comunicando a toda a natureza o esplendor de uma alegria pura, tranquila, virginal. Sente-se quase a temperatura suavíssima, a brisa levíssima e aromática, a alegria que perpassa todo o ambiente criado por Nossa Senhora e o Arcanjo.


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(*) Excertos da conferência proferida pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, em novembro de 1986, sem sua  revisão.

http://www.abim.inf.br/anunciacao-do-anjo-e-encarnacao-do-verbo/#.WriUSS7wbIU

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A VULGARIZAÇÃO DA LITERATURA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA - por Alexandre Coslei


No mundo atual, onde a nova ordem é o consumo, os editores se comportam como gerentes de contas e forçam a literatura a deixar de ser arte para se transformar numa grande feira. Os livros não são vendidos a preço de banana, mas passam a ser expostos como produtos vulgares, com capas atraentes aos olhos, mas de conteúdo duvidoso. Nem autores clássicos, como Machado de Assis, escapam à sanha do lucro e recebem "traduções" suspeitas na intenção de se tornarem populares. Ou seja, o mercado editorial subestima seus leitores e nivela a cultura por baixo.

Recentemente discutiu-se tanto a popularização dos textos de Machado de Assis que quase alcançamos um tom clichê. A ideia de reimprimir a obra de Machado objetivando a imposição de um vocabulário simplório, que esteja ao alcance do público menos letrado, é somente um reflexo de uma literatura contemporânea açoitada pelas mãos de editoras que escolheram transformar a arte em cifras lucrativas. Recentemente, a escritora Nélida Piñon afirmou que hoje publicam o que vende, e não mais a literatura que fica. Está corretíssima. E qual a literatura que demonstra capacidade de mercadoria no Brasil? São os livros sobre vampiros brasileiros, ficções medievais encarnadas por anjos e demônios, violência sádica e caricata e romances sobre nada que correm centenas de páginas descrevendo litorais e personagens sem sal.

O que surpreende é a complacência cúmplice de muitos críticos com a subliteratura e uma raiva revanchista contra quem imagina poder atualizar um clássico literário. O Word, a Internet e o analfabetismo funcional do Brasil abriram espaço para pretensos escritores que produzem em ritmo industrial, mas pouco se importam com estética, pois estão voltados para os quinze minutos de fama e buscam o eldorado que os tornem best-sellers. Às vezes, contam com competentes empresários que abrem as portas da mídia e transformam o que é oco em celebridade, pois no mercado atual é a celebridade que vende. Tal realidade nos remete ao arquétipo explicitado no filme "Muito além do jardim", onde até um suspiro do acéfalo personagem Chance (Peter Sellers) era interpretado como genial.

Por que hostilizar a tradução populista de Machado e ignorar os nichos literários criados compostos de livros caricatos, lançados para conquistar jovens e limitados leitores? Essa é uma discussão que poderia ganhar amplitude inteligente e está se resumindo a um debate provinciano.

Toda literatura é válida, mas as que devem ganhar visibilidade são aquelas que os editores compreendem como comerciais. É assim que se configura o presente mercado editorial brasileiro. O autor a ser valorizado é o que se comporta como um bom gerente de contas e cumpre boas metas de venda com o seu produto. É esse o autor que as editoras inserem na mídia, para eles negociam a condescendência de uma parte da crítica e a partir deles criam a farsa do merchandising.

Numa nação de leitores toscos, Machado de Assis precisa ser reescrito para vender e os autores de sucesso desfilam a face mais pueril de uma literatura vulgar em programas de entrevistas e nos cadernos culturais dos nossos periódicos. Talvez, tenha sido por isso que o nosso Machado elaborou aquela sentença magnífica de Brás Cubas, um ato profético:

“Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria”.

Assim, nossos clássicos vão ficando sem herdeiros e, pelo visto, se transformando em hieróglifos a serem decifrados.
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ALEXANDRE COSLEI - Jornalista, professor e escritor premiado. Autor dos livros "Os Paralelepípedos da Vila Mimosa”, que participou do Prêmio Portugal Telecom 2010, além de um volume crítico intitulado "Os indigentes literários", uma reunião de artigos sobre literatura contemporânea que autor classifica como subversivos. Também figura em diversas antologias de contos e poesias. Complementando seu acervo, possui inúmeros artigos publicados em importantes veículos virtuais como o Jornal O Dia, Observatório de Imprensa, Folha do Meio Norte e em diversos Blogs relevantes. Alguns desses artigos foram recordistas de visualizações nos sites onde foram divulgados ou republicados. Está entre os primeiros autores que serviram de base para a criação da revista literária "Verbo", hoje não mais impressa. Como jornalista, está presente em diversas publicações polêmicas na imprensa.


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