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segunda-feira, 24 de julho de 2017

67 DIAS E 67 NOITES DE UMA DELAÇÃO - Joesley Mendonça Batista

23/07/2017
Dezessete de maio de 2017, aniversário de 12 anos de um dos meus filhos -que deixaria a escola e sairia do país a meu pedido-, foi também o dia do meu renascimento. Senti-me um novo ser humano, com valores, entendimento e coragem para romper com elos inimagináveis da corrupção praticada pelas maiores autoridades do nosso país.

Em vez de comemorar seu aniversário, minha filha juntou-se a milhões de brasileiros que tomavam conhecimento de episódios de embrulhar o estômago. Naquele dia vazou para a imprensa o conteúdo do acordo de colaboração premiada que havíamos assinado com a Procuradoria-Geral da República. Confesso que minha reação foi de medo, preocupação e angústia.

Afinal, uma semana antes estivera em audiência no Supremo Tribunal Federal para cumprir os ritos necessários à homologação do acordo. Era essa a notícia que eu estava ansiosamente aguardando, não a do súbito vazamento.

Desde então, vivo num turbilhão para o qual são arrastadas minha família, meus amigos e funcionários.

Imagens minhas e da minha família embarcando num avião, tiradas do circuito interno do Aeroporto Internacional de Guarulhos, foram exibidas na TV, como se estivéssemos fugindo. Um completo absurdo.

Políticos, que até então se beneficiavam dos recursos da J&F para suas campanhas eleitorais, passaram a me criticar, lançando mão de mentiras. Disseram, por exemplo, que, depois da delação, eu estaria flanando livre e solto pela Quinta Avenida, quando, na verdade, nem em Nova York eu estava.

Para proteger a integridade física da minha família, decidi ir para uma pequena cidade no interior dos Estados Unidos, longe da curiosidade alheia. Nessa altura, porém, eu já havia sido transformado no inimigo público número um, e nada do que eu falasse mereceria crédito.

Minha exata localização nem seria assim tão relevante, a não ser por revelar uma estrutura armada com o objetivo de transformar a realidade complexa, plena de nuances, num maniqueísmo primário, em que eu deveria ser o mal para que outros pudessem ser o bem.

Mentiras foram alardeadas em série. Mentiram que durante esse período eu teria jantado no luxuoso restaurante Nello, em Nova York; mentiram que eu teria viajado para Mônaco a fim de assistir ao GP de Fórmula 1; mentiram que eu teria fugido com meu barco.

A lista das inverdades não parou por aí. Mentiram que eu estaria protegendo o ex-presidente Lula; mentiram que eu seria o responsável pelo vazamento do áudio para imprensa para ganhar milhões com especulações financeiras; mentiram que eu teria editado as gravações.

Por fim, a maior das mistificações: eu teria estragado a recuperação da economia brasileira, como se ela fosse frágil a ponto de ter que baixar a cabeça para políticos corruptos.

De uma hora para outra, passei de maior produtor de proteína animal do mundo, de presidente do maior grupo empresarial privado brasileiro, a "notório falastrão", "bandido confesso", "sujeito bisonho" e tantas outras expressões desrespeitosas.

Venderam uma imagem perfeita: "Empresário irresponsável e aproveitador toca fogo no país, rouba milhões e vai curtir a vida no exterior".

A única verdade que sei é que, desde aquele 17 de maio, estou focado na segurança de minha família e na saúde financeira das empresas, para continuar garantindo os 270 mil empregos que elas geram.

Por isso, demos início a um agressivo plano de desinvestimento que tem tido considerável êxito, o que demonstra a qualidade da equipe e das empresas que administramos.

De volta a São Paulo, onde moro com minha mulher e meus filhos, vejo na imprensa políticos me achincalhando no mesmo discurso em que tentam barrar o que chamam de "abuso de autoridade".

Eles estão em modo de negação. Não os julgo. Sei o que é isso. Antes de me decidir pela colaboração premiada, eu também fazia o mesmo. Achava que estava convencendo os outros, mas na realidade enganava a mim mesmo, traía a minha história, não honrava o passado de trabalho da minha família.

Poucos mencionam a multa de R$ 10,3 bilhões que pagaremos, como resultante do nosso acordo de leniência. Essa obrigação servirá para que nossas próximas gerações jamais se esqueçam dessa lição do que não fazer.

Não tenho dúvida de que esse acordo pagará com sobra possíveis danos à sociedade brasileira.

Hoje, depois de 67 dias e 67 noites da divulgação da delação, resolvi escrever este artigo, não para me vitimar - o que jamais fiz -, mas para acabar com mentiras e folclores e dizer que sou feito de carne e osso. E entregar ao tempo a missão de revelar a razão.


 JOESLEY MENDONÇA BATISTA, empresário, é dono do grupo J&F



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MOCINHA - Ariano Suassuna


Mocinha


Em 1990, quando tomei posse de minha cadeira na Academia Brasileira de Letras, agi de modo a ligar o mais possível a cerimônia, o uniforme, o colar e a espada aos rituais de festa do nosso povo. Eu lera, de Gandhi, uma frase que me impressionou profundamente. Dizia ele que um indiano verdadeiro e sincero, mas pertencente a uma das classes mais poderosas de seu país, não deveria nunca vestir uma roupa feita pelos ingleses. Primeiro, porque estaria se acumpliciando com os invasores. Depois, porque, com isso, tiraria das mulheres pobres da Índia um dos poucos mercados de trabalho que ainda lhes restavam.

A partir daí, passei a usar somente roupas feitas por uma costureira popular, Edite Minervina. E também foi ela quem cortou e costurou meu uniforme acadêmico, bordado por Cicy Ferreira. Isaías Leal fez o colar e a espada, unindo, nesta, num só emblema, a zona da mata e o sertão.

Naquele ano, era Miguel Arraes quem governava Pernambuco. E, como o Estado que me adotou como filho se encarregou da doação normalmente feita ao acadêmico pela terra de seu nascimento, combinei tudo com o governador e fizemos, no palácio do Campo das Princesas, uma espécie de cerimônia prévia na qual Arraes (que, como eu, é egresso do Brasil oficial, mas procura se ligar ao real) faria o discurso de entrega das insígnias; e artistas populares me entregariam os adereços feitos por eles: Edite e Cicy, o fardão, Isaías Leal, o colar, e mestre Salusitano, a espada (que, na ABL, me seria entregue por meu mestre Barbosa Lima Sobrinho). Depois que Isaías Leal me deu o colar, no Recife, pedi à maior cantadora nordestina, Mocinha de Passira, que o colocasse em meu pescoço - uma vez que, na Academia, escolhera para isso outra mulher, minha querida Rachel de Queiroz.

Como se vê, em tudo, eu tentava mostrar, do modo canhestro, simbólico e precário que me é possível, que, apesar de nascido e criado no Brasil oficial, procuro sempre não esquecer que existe o Brasil real e é a seu lado que me alinho em todas as circunstâncias da minha vida.

Foi por tudo isso também que, escrevendo aqui em dezembro do ano passado, escolhi dois personagens simbólicos para representarem o Brasil real. Dizia: “O primeiro é Chico Ambrósio, cabreiro do sertão da paraíba, homem de sangue predominantemente indígena e jeito aciganado; a outra é Mocinha de Passira, violeira dotada de uma voz impressionante”

E concluía: “Na minha opinião, o que devemos fazer é olhar o brasil de Chico e Mocinha para seguir e aprofundar (no campo social, político e econômico) o caminho indicado por Antônio Conselheiro - aquele socialismo-de-pobre que, para nós, foi uma picada aberta em direção ao sol de Deus”.

Nos tempos de desprezo que estamos vivendo em relação à cultura brasileira (e em especial à popular), espero, então, que pelo menos as nossas universidades percebam a importância dessa cantora e repentista, que, como afirmei em meu discurso da ABL, significa para mim, para o Brasil e para o nosso povo o mesmo que Pastora Pavón representava para García Lorca, para a Espanha e para o povo espanhol.

Folha de São Paulo, 27/06/00


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Ariano Suassuna - Sexto ocupante da Cadeira nº 32 da ABL, eleito em 3 de agosto de 1989, na sucessão de Genolino Amado e recebido em 9 de agosto de 1990 pelo Acadêmico Marcos Vinicios Vilaça. Faleceu no dia 23 de julho de 2014, no Recife, aos 87 anos.

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A ECONOMIA E A GALINHA - Plinio Corrêa de Oliveira

23 de julho de 2017
Plinio Corrêa de Oliveira
A economia e a galinha
Sair da prisão e viver em liberdade



mídia vem tratando das dificuldades que há em passar da economia comunista para a economia privada nos países que estavam submetidos à tirania da URSS. Como o público comum não está habituado aos assuntos econômicos, não entende qual é a razão de tais dificuldades. Porque a volta à normalidade traz um pouco de incômodo, mas se pode, em pouco tempo e com algum esforço retornar a ela, e a vida segue.

Não me levem a mal o prosaísmo da comparação que vou fazer. Quando eu era menino, viajava-se muito de trem e pouco de automóvel. Quando se chegava a uma estação, eu via mercadorias serem retiradas do vagão de cargas. Muitas vezes observava descerem jacás com galinhas — eram uns cestos grandes que se usava para transportá-las.

Depois, as galinhas às vezes eram levadas para minha casa e soltas no galinheiro. De vez em quando ia observar o galinheiro. De maneira que ainda conservo a noção das reações das galinhas saídas do jacá para o período da normalidade dentro do galinheiro. Eu seria capaz, se soubesse desenhar, de traçar o itinerário delas presas no jacá, e depois, colocadas em liberdade.

Em suma: primeiramente a galinha sentia-se livre e olhava um pouco em torno de si, sentindo-se a si própria. Depois, ela percebia que era possível voltar à normalidade e começava meio desajeitadamente a andar. Em pouco tempo, estava andando mais depressa e começava a agressão aos vermes para matar a fome. A galinha é antiecológica… Logo mais, ela percebia onde estava a água e bebia, fazendo — não sei por que fenômeno de deglutição — um gesto enérgico com a cabeça. Por fim, saía andando normalmente. Ela havia escapado do regime de cárcere e voltado para o regime de liberdade.

Por que a economia de um país não se faz mais ou menos do mesmo modo? Em última análise, para se avaliar esse assunto sob um aspecto mais sério, exemplifico com a Hungria. O país esteve dominado pelo regime comunista durante muito tempo e, em certo momento, começou a liberalizar a economia. Em alguns anos, a economia húngara estava restituída à normalidade. Não foi necessário escrever longos artigos com estatísticas… Foi a marcha natural, como a da galinha retirada da prisão. Assim também com a economia que sai do regime socialista.

Não compreendo por que em outros países que integravam a antiga URSS não se faz o mesmo. Os jornais apresentam tais complicações funambulescas para a normalização da economia, que se fica sem saber se vão encontrar solução. Parece-me que isso representa um desejo dos comunistas de apresentar alguma outra nova fórmula velhaca que represente um comunismo transformado de verme em libélula. Uma metamorfose do comunismo a fim de enganar os ingênuos…
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Excertos da conferência proferida pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em 5 de janeiro de 1992. Sem revisão do autor.



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domingo, 23 de julho de 2017

DEUS, EU PRECISO DE SUA AJUDA! - Marília Benício dos Santos

Deus, eu preciso de sua ajuda!


- Márcio, você cai! Não corra, vou chamar sua mãe.

Márcio apesar das advertências da babá corria como um desesperado. Eu da varanda que dava para o jardim onde Márcio brincava, observava-lhe e dava risadas com as suas traquinadas.

Num dada momento, Márcio resolveu subir na goiabeira. Aí, realmente fiquei apreensiva. Ele tinha só cinco anos e disse-lhe de onde estava:

- Cuidado Márcio.

- Deixe comigo.
Lá em cima ele conseguiu tirar uma goiaba verde. A babá gritou:

-- Não coma goiaba verde. Vai lhe fazer mal.

Não sei se por que a babá falou ou porque não gostou da goiaba, resolveu jogá-la fora. Não foi uma coisa nem outra; é que a goiaba estava lhe atrapalhando, pois de lá de cima, continuava as suas travessuras passando de um galho para outro.

Numa dessas tentativas, o seu bracinho não conseguiu encontrar o outro galho e ele ficou pendurado só em um braço. Eu e a babá tomamos um susto. Foi naquele momento que ele sentindo o perigo, gritou:

- Deus, eu preciso de sua ajuda!

Na mesma hora ele conseguiu alcançar o outro galho e ficou a se balançar alguns segundos pendurado na goiabeira e em seguida pulou no chão e saiu correndo.

“Deus, eu preciso de sua ajuda”. Quantas lições as crianças nos dão. O grito de Márcio foi realmente uma oração. Durante a nossa vida vivemos tentando passar de um galho para outro. Sirvamo-nos das palavras de Márcio. “Deus, eu preciso de sua ajuda.”

Com certeza, ele virá ao nosso encontro.

(CARROSSEL)
Marília Benício dos Santos

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PREFÁCIO


Marília escreve como quem canta. Naturalmente.

Em sua prosa fluente e agradável sentimos a vida palpitando, mesmo nos acontecimentos mais triviais. Fragmentos do tempo, suas próprias vivências constituem seu tema predileto, o qual, sob uma aparência singela, representa, em última análise, um diálogo ininterrupto com Deus e com o mundo.

Não se pense, porém, que se trata de um livro religioso no sentido estrito da palavra. Em momento algum, a autora tenta provar o que quer que seja. No desdobrar de suas reflexões despontam os sentimentos mais intensos do seu coração e Marília possui aquela qualidade tão rara em nosso tempo e tão marcante dos autores místicos: a capacidade de transformar o seu dia a dia em busca constante de encontro entre a criatura e o Criador.

Lendo este livro, ou melhor, saboreando suas páginas, aos poucos nos apercebemos de que o trivial é, para Marília, o lugar próprio de encontro e de diálogo. Assim, ela nos prende e nos encanta desde o primeiro momento, precisamente pelo fato de que canta a vida, em suas alegrias e em suas tristezas, mas, sempre, na perspectiva feliz da esperança.


                                                                                                                         Lygia Costa Moog

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CHINA — “Comunistas têm medo da Virgem de Fátima”

23 de julho de 2017


      A afirmação é do cardeal Joseph Zen Ze-kiun, bispo emérito de Hong-Kong. Ele acrescentou que apesar de o horizonte parecer negro, o importante é recusar toda composição com o socialismo. Muitos cristãos estão presos, mas quando o regime comunista cair, esses católicos vão construir um novo país. Os católicos chineses acreditam na mensagem de Fátima e os comunistas temem o seu conteúdo. Ainda segundo o cardeal, as imagens de Nossa Senhora de Fátima estão proibidas pelo governo chinês, porque para os socialistas sua mensagem é “anticomunista”.


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ITABUNA CENTENÁRIA REFLETINDO - O conto das areias

O conto das areias



Num reino, distante das altas montanhas, nasceu um rio claro, transparente.

Fez uma longa viagem e, no decorrer de sua existência, percorreu países diferentes, sulcados por vales extensos e férteis.

Por fim, chegou diante das areias de um deserto imenso.
Ele tinha encontrado muitas dificuldades que sempre soubera ultrapassar.

Da rocha mais dura fizera seixos lisos e doces que cantavam com ele em sua rota.

Tentou atravessar este último obstáculo do seu jeito habitual. Grande foi sua surpresa quando percebeu que toda a arte e toda a ciência que possuía não tinham agora qualquer utilidade para ele.

Suas águas desapareciam nas areias tão rapidamente como ele as lançava.

Recomeçou, e recomeçou, durante tanto tempo que o desespero o invadiu. Mas ele continuava a lançar suas águas sobre a areia, no imenso silêncio do deserto.

Foi então que, do fundo da areia, se elevou o murmúrio de uma voz que segredou:
– O vento atravessa o deserto, e o rio pode fazer o mesmo.

O rio respondeu que era exatamente aquilo que se esforçava por fazer, e que estava exausto:
– Tudo o que consegui foi me perder um pouco mais a cada tentativa. E estou apenas na borda deste deserto.

– E acrescentou: – O vento pode voar, por isso pode atravessar o deserto.

– Continue a lançar-se com violência, como estava fazendo – disseram-lhe as areias –, e não conseguirá atravessar.
Desaparecerá ou se transformará em charco estagnado. Deve permitir que o vento o leve ao seu destino.

Mas como posso fazer isso? – perguntou o rio.

– Aceite ser absorvido pelo vento – respondeu o murmúrio.

Esta ideia não lhe agradou nem um pouco. Além do mais, ele jamais tinha sido absorvido. Tinha medo de perder sua individualidade.

– E uma vez que tiver desaparecido, como recuperar minha identidade? Quando serei novamente um rio?

– O vento, o vento – murmuraram as areias – ele cumprirá sua função. Ele levanta as águas, as transporta por sobre o deserto, e as faz descer como chuva, e esta forma de novo um rio.

– Mas – foi o grito do rio –, como saber se você diz a verdade?

– É assim – recomeçou a voz, do fundo das areias.

– E se você não acredita, se transformará em lodaçal. Isso levará alguns anos. Mas, você sabe, um charco é muito diferente de um rio.

– Mas não posso continuar tal como sou agora? – implorou o rio.

– Não, é impossível – murmuraram as areias. – Você não pode conservar sua forma atual. Mas se o seu ser (sua parte essencial) for transportado, ele voltará a ser um rio.

– Mas – lamentou-se o rio –, nem mesmo sei qual é a minha parte essencial.

Não vinha mais nenhuma voz do deserto, que tornou a fechar-se no horizonte.

Então, a voz das areias começou a ressoar na memória do rio.
Estranhas lembranças lhe faziam eco. Como se já alguma parte dele (mas qual?) tivesse sido levada pelo vento.

Parecia que se lembrava de que tudo aquilo devia acontecer-lhe, e que devia cumprir seu destino, mesmo que não tivesse a mínima vontade.

E o rio parou de resistir. Suas águas se elevaram em vapor nos braços acolhedores do vento, que aspirou delicadamente sua parte essencial.

Ele as levou muito depressa, muito longe, e as ergueu muito alto, sobre os cimos, até o longínquo reino das montanhas, muito além do deserto.

Então, o rio tomou consciência de seu ser, onde ressoava o eco de uma voz, vinda das areias:
– Nós, as areias, conhecemos o caminho que se estende, dia após dia, desde o fim dos rios até o longínquo reino das montanhas.

Eis por que se diz: o rio da vida tem um caminho, e seu destino está inscrito nas areias.


Traduzido da coletânea "Cuentos de Oriente para Ninos de Occidente", Editiones Dervish International, A. H. D. Halka, Buenos Aires, 1986.




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PALAVRA DA SALVAÇÃO (36)

Anúncio do Evangelho (Mt 13,24-43)

— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Mateus.
— Glória a vós, Senhor.

Naquele tempo, Jesus contou outra parábola à multidão: “O Reino dos Céus é como um homem que semeou boa semente no seu campo. Enquanto todos dormiam, veio seu inimigo, semeou joio no meio do trigo, e foi embora. Quando o trigo cresceu e as espigas começaram a se formar, apareceu também o joio. Os empregados foram procurar o dono e lhe disseram: ‘Senhor, não semeaste boa semente no teu campo? Donde veio então o joio?’
O dono respondeu: ‘Foi algum inimigo que fez isso’. Os empregados lhe perguntaram: ‘Queres que vamos arrancar o joio?’
O dono respondeu: ‘Não! Pode acontecer que, arrancando o joio, arranqueis também o trigo. Deixai crescer um e outro até a colheita! E, no tempo da colheita, direi aos que cortam o trigo: arrancai primeiro o joio e amarrai-o em feixes para ser queimado! Recolhei, porém, o trigo no meu celeiro!’”
Jesus contou-lhes outra parábola: “O Reino dos Céus é como uma semente de mostarda que um homem pega e semeia no seu campo. Embora ela seja a menor de todas as sementes, quando cresce, fica maior do que as outras plantas. E torna-se uma árvore, de modo que os pássaros vêm e fazem ninhos em seus ramos”.
Jesus contou-lhes ainda uma outra parábola: “O Reino dos Céus é como o fermento que uma mulher pega e mistura com três porções de farinha, até que tudo fique fermentado”.
Tudo isso Jesus falava em parábolas às multidões. Nada lhes falava sem usar parábolas, para se cumprir o que foi dito pelo profeta: “Abrirei a boca para falar em parábolas; vou proclamar coisas escondidas desde a criação do mundo”.
Então Jesus deixou as multidões e foi para casa. Seus discípulos aproximaram-se dele e disseram: “Explica-nos a parábola do joio!”
Jesus respondeu: “Aquele que semeia a boa semente é o Filho do Homem. O campo é o mundo. A boa semente são os que pertencem ao Reino. O joio são os que pertencem ao Maligno. O inimigo que semeou o joio é o diabo. A colheita é o fim dos tempos. Os ceifeiros são os anjos. Como o joio é recolhido e queimado ao fogo, assim também acontecerá no fim dos tempos: o Filho do Homem enviará seus anjos, e eles retirarão do seu Reino todos os que fazem outros pecar e os que praticam o mal; e depois os lançarão na fornalha de fogo. Aí haverá choro e ranger de dentes.
Então os justos brilharão como o sol no Reino de seu Pai. Quem tem ouvidos, ouça”.


— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor.

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Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Pe. Paulo Ricardo:
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O "lado mau amado" de nossa vida

“Pode acontecer que, arrancando o joio, arranqueis também o trigo.
Deixai crescer um e outro até a colheita” (Mt 13,29-30)


A Bíblia fala sempre da vida humana. Nela encontramos inúmeras referências à questão da sombra ou do lado obscuro em nossa vida. Textos emblemáticos são as parábolas de Jesus que desvelam o que somos, o que está acontecendo em nosso interior; em certo sentido, assemelham-se a uma descrição de nossa realidade interior. Não são contos moralizadores; todos os personagens que aparecem somos nós. Por isso, as parábolas são tremendamente iluminadoras. Com efeito, cada um de nós é um tipo diferente de terreno; cada um, o trigo e o joio; cada um, os dois filhos; cada um, o fariseu e o publicano..., e assim por diante, em todas as parábolas.

O primeiro e o mais claro que se revela na parábola que a liturgia nos propõe para este domingo, é que a realidade da vida humana é de tal condição, que nela sempre vão estar mesclados o bem e o mal, o trigo e o joio, a boa e a má erva. Este é o fato. Todos gostaríamos que as coisas acontecessem de outra maneira. E que, portanto, não teríamos que ver cada dia tanto joio sufocando o bom trigo que cresce e dá vida.

Em nosso interior também sentimos cruamente o trigo e joio, e gostaríamos ser um bom campo de trigo, desses movidos pelo vento, que antecipam um pão abundante; e todo joio que aparece junto a esse trigo nos molesta, desejaríamos arrancá-la e como, depois de muito esforço, não conseguimos, então empreendemos a tarefa de ir buscar joios em campos alheios com um fervor que impressiona.

A parábola do joio e do trigo  revela a tendência humana em realizar os ideais de perfeição e distanciar-se cada vez mais de sua condição de criatura. O ideal é o ser humano “puro” e “justo”, sem qualquer imperfeição ou fraqueza. Tal tendência nos leva ao rigorismo contra nós mesmos, ou seja, nos leva a proceder com violência contra nossas próprias limitações.

Aquele que, a qualquer preço, deseja ser “perfeito”, em seu campo não irá crescer senão um trigo raquítico. Nas nossas raízes o joio está intimamente misturado com o trigo. Quando alguém não admite em si nenhuma falha, com suas paixões ele arranca também a própria vitalidade, com a fraqueza ele destrói também a própria força. Muitos perfeccionistas e idealistas se fixam de tal maneira sobre o joio em seu interior que só pensam em eliminar as falhas, de tal modo que a vida mesma fica prejudicada.  De tão perfeitos, eles ficam sem força, sem paixão, sem coração.

Numa espiritualidade “perfeccionista”, o ideal é o homem-mulher puro(a) e santo(a), sem defeitos nem fraquezas. Mas isso leva a um rigorismo moral, contra o qual parece dirigir-se a parábola deste domingo. A arte da humanização consiste na reconciliação com a própria sombra. O ser humano comporta em si amor e ódio, razão e emoção, gentileza e dureza... Muitas vezes vivemos apenas um polo e recalcamos o outro. Enquanto este permanecer nas sombras terá um efeito destrutivo. Muitos ficam chocados quando, apesar de todo esforço para serem pessoas amáveis e gentis, descobrem em si lados insensíveis, antipáticos e ofensivos.

Um outro aspecto que aparece na parábola é que os “trabalhadores do Senhor”, ou seja, os que se veem a si mesmos como os vigilantes da ortodoxia e da moralidade, tem a tendência de querer logo arrancar o joio. Ou seja, não toleram que o bem e o mal estejam misturados. E querem um campo limpo de tudo o que eles veem como joio. Normalmente, esta tendência daqueles que se consideram como “vigilantes do bem” costuma desembocar na intolerância e inclusive na intransigência e no fanatismo.

Na “parábola do trigo e do joio”, o impaciente é nosso orgulho, que gostaria de chegar de imediato aos resultados para ficar “satisfeito”. Enquanto vivermos, o joio crescerá no campo do nosso interior. Conviver com isso nos faz mais humildes e nos protege de uma dureza falsa em relação a nós mesmos e aos outros.

A sabedoria de Jesus convida-nos a reconhecer em nós, misturados, o trigo e o joio. Este último, que é semeado “durante a noite”, isto é, na obscuridade do inconsciente, podem ser nossas próprias sombras, aquilo que tentamos eliminar porque se mostra incômodo para nós e não combina com nossos ideais pré-fixados... E Jesus não nos pede que sejamos só trigo – essa é a armadilha de toda espiritualidade farisaica, mas que aceitemos nossa verdade completa e reconciliemos também com o “nosso lado obscuro”

Numa leitura moralista e dualista da vida, nós gostamos de separar o bom do mau, os que pensam como nós e os que não pensam como nós, os que são dos nossos e aqueles aos quais não os levamos em conta. Há muitas pessoas que, não só se sentem capacitadas, senão que além disso estão empenhadas em arrancar o quanto antes o que elas pensam que é a erva má. São os intolerantes, os que não suportam aqueles que fazem ou dizem o que eles creem que não se deve fazer nem dizer. Por isso não respeitam o pluralismo, nem a diversidade. Exigem que todos lhes respeite, mas eles se consideram com direito a não respeitar o dissidente, o diferente ou simplesmente o outro.

No entanto, o Senhor (dono do grande campo da vida) não quer que ninguém se veja no direito de discernir o que é trigo e o que é joio. Mas, sobretudo, o Senhor não tolera que ninguém se constitua em juiz que, como consequência, vai pela vida arrancando tudo o que a ele lhe parece que é joio. Porque pode equivocar-se. A religião não tem nem autoridade nem competência para decidir o que é joio na sociedade. E menos ainda tem competência para arrancar essa presumível joio. Somente o Senhor pode saber quem é trigo e quem é joio.

O ensinamento do evangelho de hoje é claro: sejamos tolerantes e respeitosos. Não julguemos, não condenemos e deixemos a Deus ser Deus. Nós não somos “deuses”. A fertilidade da nossa vida nunca é expressão de uma impecabilidade absoluta, mas resulta da confiança no fato de que o trigo é mais forte do que o joio e de que o joio poderá ser separado na colheita.

Em tudo que fazemos devemos ser permeáveis ao Espírito de Deus. Mas sempre devemos permanecer humildes e contar com a possibilidade de que nossas atividades cotidianas se misturem com segundas intenções. Essas são o joio. Mas isso não significa que devemos deixar o joio determinar a nossa vida, através do seu crescimento irrefreado.

A questão de fundo é esta: qual dos dois alimentamos em nossa vida: o joio ou o trigo? Aqui se trata de pôr ambos, o trigo que cresce em nós e o joio que espreita, sob o olhar e o cuidado do Semeador; porque só Ele é que pode fazer a colheita. O decisivo é colocar o Senhor no centro de nossa vida; e onde Ele encontra espaço de atuação, ali o trigo cresce viçoso e produz frutos.

O caminho do seguimento de Jesus não visa nos transformar em pessoas perfeitas e impecáveis. Antes, deseja encorajar-nos a conviver com nossos lados sombrios. O seguimento de Jesus, portanto, não é combate interno que desgasta, visando eliminar o joio, mas abrir espaço para que o Semeador atue com sua Graça.

Texto bíblico:   Mt 13,24-43

Na oração: A vida cristã nos faz especialistas em interioridade precisamente porque somos levados a percorrer, mil e uma vezes, todos os meandros de nosso interior para encontrar, transcendendo luzes e sombras, a Presença criadora que tudo sustenta e vivifica.

E é simplesmente dessa maneira que nos tornamos mais humanos e, portanto, mais divinos.
- quê lucidez você tem de sua própria sombra (joio) e qual a sua atitude com relação a ela? Quê atitudes você assume para que o trigo determine sua vida?

Pe. Adroaldo Palaoro sj



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