Dezessete de maio de 2017, aniversário de 12 anos de um dos
meus filhos -que deixaria a escola e sairia do país a meu pedido-, foi também o
dia do meu renascimento. Senti-me um novo ser humano, com valores, entendimento
e coragem para romper com elos inimagináveis da corrupção praticada pelas
maiores autoridades do nosso país.
Em vez de comemorar seu aniversário, minha filha juntou-se a
milhões de brasileiros que tomavam conhecimento de episódios de embrulhar o
estômago. Naquele dia vazou para a imprensa o conteúdo
do acordo de colaboração premiada que havíamos assinado com a
Procuradoria-Geral da República. Confesso que minha reação foi de medo,
preocupação e angústia.
Afinal, uma semana antes estivera em audiência no Supremo
Tribunal Federal para cumprir os ritos necessários à homologação do acordo. Era
essa a notícia que eu estava ansiosamente aguardando, não a do súbito
vazamento.
Desde então, vivo num turbilhão para o qual são arrastadas
minha família, meus amigos e funcionários.
Imagens minhas e da minha família embarcando num avião,
tiradas do circuito interno do Aeroporto Internacional de Guarulhos, foram
exibidas na TV, como se estivéssemos fugindo. Um completo absurdo.
Políticos, que até então se beneficiavam dos recursos da
J&F para suas campanhas eleitorais, passaram a me criticar, lançando mão de
mentiras. Disseram, por exemplo, que, depois da delação, eu estaria flanando
livre e solto pela Quinta Avenida, quando, na verdade, nem em Nova York eu
estava.
Para proteger a integridade física da minha família, decidi
ir para uma pequena cidade no interior dos Estados Unidos, longe da curiosidade
alheia. Nessa altura, porém, eu já havia sido transformado no inimigo público
número um, e nada do que eu falasse mereceria crédito.
Minha exata localização nem seria assim tão relevante, a não
ser por revelar uma estrutura armada com o objetivo de transformar a realidade
complexa, plena de nuances, num maniqueísmo primário, em que eu deveria ser o
mal para que outros pudessem ser o bem.
Mentiras foram alardeadas em série. Mentiram que durante
esse período eu teria jantado no luxuoso restaurante Nello, em Nova York;
mentiram que eu teria viajado para Mônaco a fim de assistir ao GP de Fórmula 1;
mentiram que eu teria fugido com meu barco.
A lista das inverdades não parou por aí. Mentiram que eu
estaria protegendo o ex-presidente Lula; mentiram que eu seria o responsável
pelo vazamento do áudio para imprensa para ganhar milhões com especulações
financeiras; mentiram que eu teria editado as gravações.
Por fim, a maior das mistificações: eu teria estragado a
recuperação da economia brasileira, como se ela fosse frágil a ponto de ter que
baixar a cabeça para políticos corruptos.
De uma hora para outra, passei de maior produtor de proteína
animal do mundo, de presidente do maior grupo empresarial privado brasileiro, a
"notório falastrão", "bandido confesso", "sujeito
bisonho" e tantas outras expressões desrespeitosas.
Venderam uma imagem perfeita: "Empresário irresponsável
e aproveitador toca fogo no país, rouba milhões e vai curtir a vida no
exterior".
A única verdade que sei é que, desde aquele 17 de maio,
estou focado na segurança de minha família e na saúde financeira das empresas,
para continuar garantindo os 270 mil empregos que elas geram.
Por isso, demos início a um agressivo plano de
desinvestimento que tem tido considerável êxito, o que demonstra a qualidade da
equipe e das empresas que administramos.
De volta a São Paulo, onde moro com minha mulher e meus
filhos, vejo na imprensa políticos me achincalhando no mesmo discurso em que
tentam barrar o que chamam de "abuso de autoridade".
Eles estão em modo de negação. Não os julgo. Sei o que é
isso. Antes de me decidir pela colaboração premiada, eu também fazia o mesmo.
Achava que estava convencendo os outros, mas na realidade enganava a mim mesmo,
traía a minha história, não honrava o passado de trabalho da minha família.
Poucos mencionam a multa de R$ 10,3 bilhões que pagaremos,
como resultante do nosso acordo de leniência. Essa obrigação servirá para que
nossas próximas gerações jamais se esqueçam dessa lição do que não fazer.
Não tenho dúvida de que esse acordo pagará com sobra possíveis danos à
sociedade brasileira.
Hoje, depois de 67 dias e 67 noites da divulgação da
delação, resolvi escrever este artigo, não para me vitimar - o que jamais fiz -,
mas para acabar com mentiras e folclores e dizer que sou feito de carne e osso.
E entregar ao tempo a missão de revelar a razão.
JOESLEY MENDONÇA
BATISTA, empresário, é dono do grupo J&F
Em 1990, quando tomei posse de minha cadeira na Academia
Brasileira de Letras, agi de modo a ligar o mais possível a cerimônia, o
uniforme, o colar e a espada aos rituais de festa do nosso povo. Eu lera, de
Gandhi, uma frase que me impressionou profundamente. Dizia ele que um indiano
verdadeiro e sincero, mas pertencente a uma das classes mais poderosas de seu
país, não deveria nunca vestir uma roupa feita pelos ingleses. Primeiro, porque
estaria se acumpliciando com os invasores. Depois, porque, com isso, tiraria
das mulheres pobres da Índia um dos poucos mercados de trabalho que ainda lhes
restavam.
A partir daí, passei a usar somente roupas feitas por uma
costureira popular, Edite Minervina. E também foi ela quem cortou e costurou
meu uniforme acadêmico, bordado por Cicy Ferreira. Isaías Leal fez o colar e a
espada, unindo, nesta, num só emblema, a zona da mata e o sertão.
Naquele ano, era Miguel Arraes quem governava Pernambuco. E,
como o Estado que me adotou como filho se encarregou da doação normalmente
feita ao acadêmico pela terra de seu nascimento, combinei tudo com o governador
e fizemos, no palácio do Campo das Princesas, uma espécie de cerimônia prévia
na qual Arraes (que, como eu, é egresso do Brasil oficial, mas procura se ligar
ao real) faria o discurso de entrega das insígnias; e artistas populares me
entregariam os adereços feitos por eles: Edite e Cicy, o fardão, Isaías Leal, o
colar, e mestre Salusitano, a espada (que, na ABL, me seria entregue por meu
mestre Barbosa Lima Sobrinho). Depois que Isaías Leal me deu o colar, no
Recife, pedi à maior cantadora nordestina, Mocinha de Passira, que o colocasse
em meu pescoço - uma vez que, na Academia, escolhera para isso outra mulher,
minha querida Rachel de Queiroz.
Como se vê, em tudo, eu tentava mostrar, do modo canhestro,
simbólico e precário que me é possível, que, apesar de nascido e criado no
Brasil oficial, procuro sempre não esquecer que existe o Brasil real e é a seu
lado que me alinho em todas as circunstâncias da minha vida.
Foi por tudo isso também que, escrevendo aqui em dezembro do
ano passado, escolhi dois personagens simbólicos para representarem o Brasil
real. Dizia: “O primeiro é Chico Ambrósio, cabreiro do sertão da paraíba, homem
de sangue predominantemente indígena e jeito aciganado; a outra é Mocinha de
Passira, violeira dotada de uma voz impressionante”
E concluía: “Na minha opinião, o que devemos fazer é olhar o
brasil de Chico e Mocinha para seguir e aprofundar (no campo social, político e
econômico) o caminho indicado por Antônio Conselheiro - aquele
socialismo-de-pobre que, para nós, foi uma picada aberta em direção ao sol de
Deus”.
Nos tempos de desprezo que estamos vivendo em relação à
cultura brasileira (e em especial à popular), espero, então, que pelo menos as
nossas universidades percebam a importância dessa cantora e repentista, que,
como afirmei em meu discurso da ABL, significa para mim, para o Brasil e para o
nosso povo o mesmo que Pastora Pavón representava para García Lorca, para a
Espanha e para o povo espanhol.
Ariano Suassuna - Sexto ocupante da Cadeira nº 32 da ABL,
eleito em 3 de agosto de 1989, na sucessão de Genolino Amado e recebido em 9 de
agosto de 1990 pelo Acadêmico Marcos Vinicios Vilaça. Faleceu no dia 23 de
julho de 2014, no Recife, aos 87 anos.
A mídia vem tratando das dificuldades que há em
passar da economia comunista para a economia privada nos países que estavam
submetidos à tirania da URSS. Como o público comum não está habituado aos
assuntos econômicos, não entende qual é a razão de tais dificuldades. Porque a
volta à normalidade traz um pouco de incômodo, mas se pode, em pouco tempo e
com algum esforço retornar a ela, e a vida segue.
Não me levem a mal o prosaísmo da comparação que vou fazer.
Quando eu era menino, viajava-se muito de trem e pouco de automóvel. Quando se
chegava a uma estação, eu via mercadorias serem retiradas do vagão de cargas.
Muitas vezes observava descerem jacás com galinhas — eram uns cestos grandes
que se usava para transportá-las.
Depois, as galinhas às vezes eram levadas para minha casa e
soltas no galinheiro. De vez em quando ia observar o galinheiro. De maneira que
ainda conservo a noção das reações das galinhas saídas do jacá para o período
da normalidade dentro do galinheiro. Eu seria capaz, se soubesse desenhar, de
traçar o itinerário delas presas no jacá, e depois, colocadas em liberdade.
Em suma: primeiramente a galinha sentia-se livre e olhava um
pouco em torno de si, sentindo-se a si própria. Depois, ela percebia que era
possível voltar à normalidade e começava meio desajeitadamente a andar. Em
pouco tempo, estava andando mais depressa e começava a agressão aos vermes para
matar a fome. A galinha é antiecológica… Logo mais, ela percebia onde estava a
água e bebia, fazendo — não sei por que fenômeno de deglutição — um gesto
enérgico com a cabeça. Por fim, saía andando normalmente. Ela havia escapado do
regime de cárcere e voltado para o regime de liberdade.
Por que a economia de um país não se faz mais ou menos do
mesmo modo? Em última análise, para se avaliar esse assunto sob um aspecto mais
sério, exemplifico com a Hungria. O país esteve dominado pelo regime comunista
durante muito tempo e, em certo momento, começou a liberalizar a economia. Em
alguns anos, a economia húngara estava restituída à normalidade. Não foi
necessário escrever longos artigos com estatísticas… Foi a marcha natural, como
a da galinha retirada da prisão. Assim também com a economia que sai do regime
socialista.
Não compreendo por que em outros países que integravam a
antiga URSS não se faz o mesmo. Os jornais apresentam tais complicações
funambulescas para a normalização da economia, que se fica sem saber se vão
encontrar solução. Parece-me que isso representa um desejo dos comunistas de
apresentar alguma outra nova fórmula velhaca que represente um comunismo
transformado de verme em libélula. Uma metamorfose do comunismo a fim de
enganar os ingênuos…
____________
Excertos da conferência proferida pelo Prof. Plinio Corrêa
de Oliveira em 5 de janeiro de 1992. Sem revisão do autor.
- Márcio, você cai! Não corra, vou chamar sua mãe.
Márcio apesar das advertências da babá corria como um desesperado. Eu da
varanda que dava para o jardim onde Márcio brincava, observava-lhe e dava
risadas com as suas traquinadas.
Num dada momento, Márcio resolveu subir na goiabeira. Aí, realmente fiquei
apreensiva. Ele tinha só cinco anos e disse-lhe de onde estava:
- Cuidado Márcio.
- Deixe comigo.
Lá em cima ele conseguiu tirar uma goiaba verde. A babá
gritou:
-- Não coma goiaba verde. Vai lhe fazer mal.
Não sei se por que a babá falou ou porque não gostou da goiaba, resolveu
jogá-la fora. Não foi uma coisa nem outra; é que a goiaba estava lhe
atrapalhando, pois de lá de cima, continuava as suas travessuras passando de um
galho para outro.
Numa dessas tentativas, o seu bracinho não conseguiu encontrar o outro galho e
ele ficou pendurado só em um braço. Eu e a babá tomamos um susto. Foi naquele
momento que ele sentindo o perigo, gritou:
- Deus, eu preciso de sua ajuda!
Na mesma hora ele conseguiu alcançar o outro galho e ficou a se balançar alguns
segundos pendurado na goiabeira e em seguida pulou no chão e saiu correndo.
“Deus, eu preciso de sua ajuda”. Quantas lições as crianças nos dão. O grito de
Márcio foi realmente uma oração. Durante a nossa vida vivemos tentando passar
de um galho para outro. Sirvamo-nos das palavras de Márcio. “Deus, eu preciso
de sua ajuda.”
Com certeza, ele virá ao nosso encontro.
(CARROSSEL)
Marília Benício dos Santos
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PREFÁCIO
Marília escreve como quem canta. Naturalmente.
Em sua prosa fluente e agradável sentimos a vida palpitando,
mesmo nos acontecimentos mais triviais. Fragmentos do tempo, suas próprias
vivências constituem seu tema predileto, o qual, sob uma aparência singela,
representa, em última análise, um diálogo ininterrupto com Deus e com o mundo.
Não se pense, porém, que se trata de um livro religioso no
sentido estrito da palavra. Em momento algum, a autora tenta provar o que quer
que seja. No desdobrar de suas reflexões despontam os sentimentos mais intensos
do seu coração e Marília possui aquela qualidade tão rara em nosso tempo e tão
marcante dos autores místicos: a capacidade de transformar o seu dia a dia em
busca constante de encontro entre a criatura e o Criador.
Lendo este livro, ou melhor, saboreando suas páginas, aos
poucos nos apercebemos de que o trivial é, para Marília, o lugar próprio de
encontro e de diálogo. Assim, ela nos prende e nos encanta desde o primeiro
momento, precisamente pelo fato de que canta a vida, em suas alegrias e em suas
tristezas, mas, sempre, na perspectiva feliz da esperança.
A afirmação é do cardeal
Joseph Zen Ze-kiun, bispo emérito de Hong-Kong. Ele acrescentou que apesar de o
horizonte parecer negro, o importante é recusar toda composição com o
socialismo. Muitos cristãos estão presos, mas quando o regime comunista cair,
esses católicos vão construir um novo país. Os católicos chineses acreditam na
mensagem de Fátima e os comunistas temem o seu conteúdo. Ainda segundo o
cardeal, as imagens de Nossa Senhora de Fátima estão proibidas pelo
governo chinês, porque para os socialistas sua mensagem é “anticomunista”.
Num reino, distante das altas montanhas, nasceu um rio
claro, transparente.
Fez uma longa viagem e, no decorrer de sua existência,
percorreu países diferentes, sulcados por vales extensos e férteis.
Por fim, chegou diante das areias de um deserto imenso.
Ele tinha encontrado muitas dificuldades que sempre soubera
ultrapassar.
Da rocha mais dura fizera seixos lisos e doces que cantavam
com ele em sua rota.
Tentou atravessar este último obstáculo do seu jeito
habitual. Grande foi sua surpresa quando percebeu que toda a arte e toda a
ciência que possuía não tinham agora qualquer utilidade para ele.
Suas águas desapareciam nas areias tão rapidamente como ele
as lançava.
Recomeçou, e recomeçou, durante tanto tempo que o desespero
o invadiu. Mas ele continuava a lançar suas águas sobre a areia, no imenso
silêncio do deserto.
Foi então que, do fundo da areia, se elevou o murmúrio de
uma voz que segredou:
– O vento atravessa o deserto, e o rio pode fazer o mesmo.
O rio respondeu que era exatamente aquilo que se esforçava
por fazer, e que estava exausto:
– Tudo o que consegui foi me perder um pouco mais a cada
tentativa. E estou apenas na borda deste deserto.
– E acrescentou: – O vento pode voar, por isso pode
atravessar o deserto.
– Continue a lançar-se com violência, como estava fazendo –
disseram-lhe as areias –, e não conseguirá atravessar.
Desaparecerá ou se
transformará em charco estagnado. Deve permitir que o vento o leve ao seu
destino.
Mas como posso fazer isso? – perguntou o rio.
– Aceite ser absorvido pelo vento – respondeu o murmúrio.
Esta ideia não lhe agradou nem um pouco. Além do mais, ele
jamais tinha sido absorvido. Tinha medo de perder sua individualidade.
– E uma vez que tiver desaparecido, como recuperar minha
identidade? Quando serei novamente um rio?
– O vento, o vento – murmuraram as areias – ele cumprirá sua
função. Ele levanta as águas, as transporta por sobre o deserto, e as faz
descer como chuva, e esta forma de novo um rio.
– Mas – foi o grito do rio –, como saber se você diz a
verdade?
– É assim – recomeçou a voz, do fundo das areias.
– E se você não acredita, se transformará em lodaçal. Isso
levará alguns anos. Mas, você sabe, um charco é muito diferente de um rio.
– Mas não posso continuar tal como sou agora? – implorou o
rio.
– Não, é impossível – murmuraram as areias. – Você não pode
conservar sua forma atual. Mas se o seu ser (sua parte essencial) for
transportado, ele voltará a ser um rio.
– Mas – lamentou-se o rio –, nem mesmo sei qual é a minha
parte essencial.
Não vinha mais nenhuma voz do deserto, que tornou a fechar-se no horizonte.
Então, a voz das areias começou a ressoar na memória do rio.
Estranhas lembranças lhe faziam eco. Como se já alguma parte
dele (mas qual?) tivesse sido levada pelo vento.
Parecia que se lembrava de que tudo aquilo devia
acontecer-lhe, e que devia cumprir seu destino, mesmo que não tivesse a mínima
vontade.
E o rio parou de resistir. Suas águas se elevaram em vapor
nos braços acolhedores do vento, que aspirou delicadamente sua parte essencial.
Ele as levou muito depressa, muito longe, e as ergueu muito
alto, sobre os cimos, até o longínquo reino das montanhas, muito além do
deserto.
Então, o rio tomou consciência de seu ser, onde ressoava o
eco de uma voz, vinda das areias:
– Nós, as areias, conhecemos o caminho que se estende, dia
após dia, desde o fim dos rios até o longínquo reino das montanhas.
Eis por que se diz: o rio da vida tem um caminho, e seu
destino está inscrito nas areias.
Traduzido da coletânea "Cuentos de Oriente para Ninos
de Occidente", Editiones Dervish International, A. H. D. Halka, Buenos
Aires, 1986.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo
Mateus.
— Glória a vós, Senhor.
Naquele tempo, Jesus contou outra parábola à multidão:
“O Reino dos Céus é como um homem que semeou boa semente no seu campo. Enquanto
todos dormiam, veio seu inimigo, semeou joio no meio do trigo, e foi
embora. Quando o trigo cresceu e as espigas começaram a se formar,
apareceu também o joio. Os empregados foram procurar o dono e lhe
disseram: ‘Senhor, não semeaste boa semente no teu campo? Donde veio então o
joio?’
O dono respondeu: ‘Foi algum inimigo que fez isso’. Os
empregados lhe perguntaram: ‘Queres que vamos arrancar o joio?’
O dono respondeu: ‘Não! Pode acontecer que, arrancando o
joio, arranqueis também o trigo. Deixai crescer um e outro até a colheita!
E, no tempo da colheita, direi aos que cortam o trigo: arrancai primeiro o joio
e amarrai-o em feixes para ser queimado! Recolhei, porém, o trigo no meu
celeiro!’”
Jesus contou-lhes outra parábola: “O Reino dos Céus é como
uma semente de mostarda que um homem pega e semeia no seu campo. Embora
ela seja a menor de todas as sementes, quando cresce, fica maior do que as
outras plantas. E torna-se uma árvore, de modo que os pássaros vêm e fazem
ninhos em seus ramos”.
Jesus contou-lhes ainda uma outra parábola: “O Reino dos
Céus é como o fermento que uma mulher pega e mistura com três porções de
farinha, até que tudo fique fermentado”.
Tudo isso Jesus falava em parábolas às multidões. Nada lhes
falava sem usar parábolas, para se cumprir o que foi dito pelo profeta:
“Abrirei a boca para falar em parábolas; vou proclamar coisas escondidas desde
a criação do mundo”.
Então Jesus deixou as multidões e foi para casa. Seus
discípulos aproximaram-se dele e disseram: “Explica-nos a parábola do joio!”
Jesus respondeu: “Aquele que semeia a boa semente é o Filho
do Homem. O campo é o mundo. A boa semente são os que pertencem ao Reino.
O joio são os que pertencem ao Maligno. O inimigo que semeou o joio é o
diabo. A colheita é o fim dos tempos. Os ceifeiros são os anjos. Como o
joio é recolhido e queimado ao fogo, assim também acontecerá no fim dos tempos: o
Filho do Homem enviará seus anjos, e eles retirarão do seu Reino todos os que
fazem outros pecar e os que praticam o mal; e depois os lançarão na
fornalha de fogo. Aí haverá choro e ranger de dentes.
Então os justos brilharão como o sol no Reino de seu Pai.
Quem tem ouvidos, ouça”.
Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Pe. Paulo
Ricardo:
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O "lado mau amado"
de nossa vida
“Pode acontecer que, arrancando o joio, arranqueis também o
trigo.
Deixai crescer um e outro até a colheita” (Mt 13,29-30)
A Bíblia fala sempre da vida humana. Nela encontramos
inúmeras referências à questão da sombra ou do lado obscuro em nossa vida.
Textos emblemáticos são as parábolas de Jesus que desvelam o que somos, o que
está acontecendo em nosso interior; em certo sentido, assemelham-se a uma
descrição de nossa realidade interior. Não são contos moralizadores; todos os
personagens que aparecem somos nós. Por isso, as parábolas são tremendamente
iluminadoras. Com efeito, cada um de nós é um tipo diferente de terreno; cada
um, o trigo e o joio; cada um, os dois filhos; cada um, o fariseu e o
publicano..., e assim por diante, em todas as parábolas.
O primeiro e o mais claro que se revela na parábola que a
liturgia nos propõe para este domingo, é que a realidade da vida humana é de
tal condição, que nela sempre vão estar mesclados o bem e o mal, o trigo e o
joio, a boa e a má erva. Este é o fato. Todos gostaríamos que as coisas
acontecessem de outra maneira. E que, portanto, não teríamos que ver cada dia
tanto joio sufocando o bom trigo que cresce e dá vida.
Em nosso interior também sentimos cruamente o trigo e joio,
e gostaríamos ser um bom campo de trigo, desses movidos pelo vento, que
antecipam um pão abundante; e todo joio que aparece junto a esse trigo nos
molesta, desejaríamos arrancá-la e como, depois de muito esforço, não
conseguimos, então empreendemos a tarefa de ir buscar joios em campos alheios
com um fervor que impressiona.
A parábola do joio e do trigo revela a tendência
humana em realizar os ideais de perfeição e distanciar-se cada vez mais de sua
condição de criatura. O ideal é o ser humano “puro” e “justo”, sem qualquer
imperfeição ou fraqueza. Tal tendência nos leva ao rigorismo contra nós mesmos,
ou seja, nos leva a proceder com violência contra nossas próprias limitações.
Aquele que, a qualquer preço, deseja ser “perfeito”, em seu
campo não irá crescer senão um trigo raquítico. Nas nossas raízes o joio está
intimamente misturado com o trigo. Quando alguém não admite em si nenhuma
falha, com suas paixões ele arranca também a própria vitalidade, com a fraqueza
ele destrói também a própria força. Muitos perfeccionistas e idealistas se
fixam de tal maneira sobre o joio em seu interior que só pensam em eliminar as
falhas, de tal modo que a vida mesma fica prejudicada. De tão perfeitos,
eles ficam sem força, sem paixão, sem coração.
Numa espiritualidade “perfeccionista”, o ideal é o
homem-mulher puro(a) e santo(a), sem defeitos nem fraquezas. Mas isso leva a um
rigorismo moral, contra o qual parece dirigir-se a parábola deste domingo. A
arte da humanização consiste na reconciliação com a própria sombra. O ser
humano comporta em si amor e ódio, razão e emoção, gentileza e dureza... Muitas
vezes vivemos apenas um polo e recalcamos o outro. Enquanto este permanecer nas
sombras terá um efeito destrutivo. Muitos ficam chocados quando, apesar de todo
esforço para serem pessoas amáveis e gentis, descobrem em si lados insensíveis,
antipáticos e ofensivos.
Um outro aspecto que aparece na parábola é que os
“trabalhadores do Senhor”, ou seja, os que se veem a si mesmos como os
vigilantes da ortodoxia e da moralidade, tem a tendência de querer logo
arrancar o joio. Ou seja, não toleram que o bem e o mal estejam misturados. E
querem um campo limpo de tudo o que eles veem como joio. Normalmente, esta
tendência daqueles que se consideram como “vigilantes do bem” costuma
desembocar na intolerância e inclusive na intransigência e no fanatismo.
Na “parábola do trigo e do joio”, o impaciente é nosso
orgulho, que gostaria de chegar de imediato aos resultados para ficar
“satisfeito”. Enquanto vivermos, o joio crescerá no campo do nosso interior.
Conviver com isso nos faz mais humildes e nos protege de uma dureza falsa em
relação a nós mesmos e aos outros.
A sabedoria de Jesus convida-nos a reconhecer em nós,
misturados, o trigo e o joio. Este último, que é semeado “durante a noite”,
isto é, na obscuridade do inconsciente, podem ser nossas próprias sombras,
aquilo que tentamos eliminar porque se mostra incômodo para nós e não combina
com nossos ideais pré-fixados... E Jesus não nos pede que sejamos só trigo –
essa é a armadilha de toda espiritualidade farisaica, mas que aceitemos nossa
verdade completa e reconciliemos também com o “nosso lado obscuro”
Numa leitura moralista e dualista da vida, nós gostamos de
separar o bom do mau, os que pensam como nós e os que não pensam como nós, os
que são dos nossos e aqueles aos quais não os levamos em conta. Há muitas
pessoas que, não só se sentem capacitadas, senão que além disso estão
empenhadas em arrancar o quanto antes o que elas pensam que é a erva má. São os
intolerantes, os que não suportam aqueles que fazem ou dizem o que eles creem
que não se deve fazer nem dizer. Por isso não respeitam o pluralismo, nem a
diversidade. Exigem que todos lhes respeite, mas eles se consideram com direito
a não respeitar o dissidente, o diferente ou simplesmente o outro.
No entanto, o Senhor (dono do grande campo da vida) não quer
que ninguém se veja no direito de discernir o que é trigo e o que é joio. Mas,
sobretudo, o Senhor não tolera que ninguém se constitua em juiz que, como
consequência, vai pela vida arrancando tudo o que a ele lhe parece que é joio.
Porque pode equivocar-se. A religião não tem nem autoridade nem competência
para decidir o que é joio na sociedade. E menos ainda tem competência para
arrancar essa presumível joio. Somente o Senhor pode saber quem é trigo e quem
é joio.
O ensinamento do evangelho de hoje é claro: sejamos
tolerantes e respeitosos. Não julguemos, não condenemos e deixemos a Deus ser
Deus. Nós não somos “deuses”. A fertilidade da nossa vida nunca é expressão de
uma impecabilidade absoluta, mas resulta da confiança no fato de que o trigo é
mais forte do que o joio e de que o joio poderá ser separado na colheita.
Em tudo que fazemos devemos ser permeáveis ao Espírito de
Deus. Mas sempre devemos permanecer humildes e contar com a possibilidade de
que nossas atividades cotidianas se misturem com segundas intenções. Essas são
o joio. Mas isso não significa que devemos deixar o joio determinar a nossa
vida, através do seu crescimento irrefreado.
A questão de fundo é esta: qual dos dois alimentamos em
nossa vida: o joio ou o trigo? Aqui se trata de pôr ambos, o trigo que cresce
em nós e o joio que espreita, sob o olhar e o cuidado do Semeador; porque só
Ele é que pode fazer a colheita. O decisivo é colocar o Senhor no centro de
nossa vida; e onde Ele encontra espaço de atuação, ali o trigo cresce viçoso e
produz frutos.
O caminho do seguimento de Jesus não visa nos transformar em
pessoas perfeitas e impecáveis. Antes, deseja encorajar-nos a conviver com
nossos lados sombrios. O seguimento de Jesus, portanto, não é combate interno
que desgasta, visando eliminar o joio, mas abrir espaço para que o Semeador
atue com sua Graça.
Texto bíblico: Mt 13,24-43
Na oração: A vida cristã nos faz especialistas em
interioridade precisamente porque somos levados a percorrer, mil e uma vezes,
todos os meandros de nosso interior para encontrar, transcendendo luzes e
sombras, a Presença criadora que tudo sustenta e vivifica.
E é simplesmente dessa maneira que nos tornamos mais humanos
e, portanto, mais divinos.
- quê lucidez você tem de sua própria sombra (joio) e qual a
sua atitude com relação a ela? Quê atitudes você assume para que o trigo
determine sua vida?