Total de visualizações de página

terça-feira, 4 de abril de 2017

DIA 04 DE ABRIL - Aniversário da Academia Grapiúna de Letras (AGRAL)

Academia Grapiúna de Letras (AGRAL)
Seis anos de vida.

PARABÉNS, amados confrades e confreiras:


Ivann Krebs Montenegro
Vercil Rodrigues
José Carlos Oliveira
Ramiro Soares de Aquino
Washington Farias Cerqueira
Antonio da Silva Costa
Jorge Ribeiro Carrilho
Adeildo Marques Santos
Mariza Silveira Kanige
Agenilda Palmeira Santos Ramos
Antonio José de Souza Baracho
Maria da Glória Oliveira Brandão Marques
Ceslau Stanula
Fernando Ribeiro Caldas
Jaime César Nascimento Oliveira
Eva Lima Machado
José Augusto de Carvalho
Jailton Alves de Oliveira
Gustavo Joaquim Lisboa
Laurindo Lopes da Silva Neto
Kleber Antonio Torres de Moraes
Jasmínea Benício dos Santos Midlej (+)
Norma Souza Sampaio da Silva
Antonio Nunes de Souza
Odilon Pinto de Mesquita Filho
Luiz Cláudio Zumaeta Costa
Paulo Sérgio dos Santos Bomfim
Maria Rita de Almeida Fontes
Zélia Possidônio dos Santos
Samuel Macedo Guimarães
Antonio Paulo de Oliveira Lima
Ari Rodrigues Filho
Zelia de Oliveira Lessa
Samuel Leandro de Oliveira Mattos
Sandra Marina Cavalcanti Ramalho Souza
Eglê Santos Machado
Geraldo Vaz de Quadros
Antonio Braitt
Edmundo Dourado Silveira
Jairo Xavier

Clique sobre a foto, para vê-la no tamanho original
Foto de Ari Rodrigues
* * *

SUPREMO DEVERIA SE ESPELHAR NUM JUIZ COMO ELIÉZER ROSA

Eliézer Rosa, cumprimentando a atriz Regina Duarte
Jorge Béja

Já expliquei aqui na Tribuna da Internet que nosso Mandado de Segurança será uma peça arrojada e futurista, em função de seu ineditismo, porque estará sendo apresentado em nome de dois eleitores, que não foram partes na ação do PCdoB sobre o rito do impeachment da presidente Dilma Rousseff, a ADPF 378.

Esta inovação é plenamente cabível, porque quem possui legitimidade para eleger tem também para destituir o eleito. Quem é parte legítima para o processo eleitoral que elege um presidente da República é também parte legítima para integrar e participar do processo cuja pena é a destituição do cargo daquele que foi eleito. Trata-se de um direito difuso, transindividual, coletivo e a todo eleitor pertencente.
É o tipo de ação para ser julgada por um juiz arrojado e moderno como o lendário Eliézer Rosa, que nas décadas de 60/70, sempre titular da 8a. Vara Criminal do Rio (“O Bom Juiz”, como era conhecido) dava sentenças até ao arrepio da lei. E arrepiava os tribunais, encantava o povo e previa o futuro. Ele dizia: “Prefiro o justo sobre o legal”. Conheci o dr. Eliézer e dele fui muito amigo.

AGRESSÃO AO GUARDA…
 Certa vez condenou um homem que agredira um guarda de trânsito a permanecer por dois seguidos ao lado do guarda na esquina da Avenida Presidente Vargas com Avenida Rio Branco. Era para o réu ver “como é dura a vida de um agente de trânsito num calor de 40º no Rio”. A pena foi cumprida e eles (o guarda e o homem condenado) se tornaram amigos para sempre.

De outra feita, condenou um homem a comprar um cavaquinho novo e dar de presente ao músico que ele acusara de desafinado e depois quebrara o instrumento contra a cabeça da vítima (o músico). Não apenas comprar e presentear, mas passar uma noite inteira no Morro da Mangueira ouvindo o músico tocar. E isso aconteceu. E o Dr. Eliézer foi até à Mangueira num sábado à noite ver de perto o cumprimento da pena. E os dois se tornaram amigos e morreram velhos, muito amigos.  Eram as penas alternativas que mais de 50 anos depois se tornaram lei.
O Dr. Eliézer era um vidente. Religioso, foi um dos maiores processualistas do Direito Civil brasileiro.

SENTENÇA COMOVENTE
 Outra do Dr. Eliézer: ao conceder liberdade a um jovem e pequeno usuário de droga que ia ser pai pela primeira vez, sentenciou: “Dou-te a liberdade, moço. Não tanto porque a mereças agora, mas porque tu serás pai dentro de algumas horas. Tua mulher e teu filho necessitam de tua presença. Vendo a beleza da maternidade e o rostinho do teu filho, talvez aches coragem para teres uma vida diferente. Vai e trabalha e assiste à tua mulher e à frágil vida que encherá teu pobre barraco de uma alegria que nunca vistes. E tu, mulher sofredora, que hoje trazes no ventre o fruto do teu amor pelo homem a quem agora dou a liberdade, lembrarás que teu filho foi gerado e cresceu dentro de ti, em sofrimento. Nunca digas a ele que o pai esteve preso, para não lhe magoares o coração. Nem lhe diga que um velho Juiz teve piedade de ti, de teu filho e de teu marido, porque o humilharás. Moço, quando chegares a teu barraco, ajoelha-te e pede a Deus que te ajude e que ajude ao velho Juiz. Tu sofres. Eu também. Expeça-se alvará de soltura hoje e com urgência, ele será pai e não deve estar preso. O mundo não perderá nada com essa pequena infração que acabo de fazer em nome de um sentimento maior de solidariedade humana. Afinal, o delito não é tão grave assim desse pai preso“.

Meio século depois, o porte de pequena porção de droga deixou de ser crime. Seu precursor foi o Dr. Eliézer, com suas sentenças vistas naquela época como “tresloucadas” e “sem pé nem cabeça”, tal como poderá será visto agora o Mandado de Segurança de Carlos Newton, nosso editor da TI e de Francisco Bendl, nosso leitor e articulista.

O Juiz Eliézer Rosa foi um santo que conviveu entre nós. Nunca mais houve outro igual, nem perto. E jamais haverá. Felizes aqueles que o conheceram e com ele trataram. Muito aprenderam. Dr. Eliézer Rosa, rogai por nós. Rogai pelo Brasil. Rogai pelos ministros do STF.



* * *

DIÁRIO DE VIAGEM – Francisco Benício dos Santos (2)

BORDO DO PEDRO II
2º DIA


Desperto.
Céu e mar.
O sol vem chamejando e lambendo as águas que arrepiadas se contraem, fugindo dos beijos doidos do astro rei.
Sineta de bordo...
Primeiro almoço. Lanço o meu olhar e só vejo fisionomias desconhecidas.
O mar está agitado.
A xícara dança em minhas mãos.
Meio tonto. O melhor é ir deitar...
Saio aos trancos, agarro-me aqui na borda do navio, ali numa cadeira, acolá no corrimão da escada. A porta do camarote afinal. Entro. Encerro-me no camarote.
Adormeço.
- Vossa Excelência não vai ao almoço?
- Não, prefiro servir-me aqui mesmo, traga o cardápio.
Almoço...
Vou espairecer no convés.
Crianças brincam nos cavalos e nos balanços.
Moças passeiam e flertam...
O mar está mais camarada.
O vento norte patrício sopra brandamente.
Doninhas aos pulos acompanham o navio, de vez em quando apresentam o dorso preto e mergulham.
Gaivotas passam voando, alvas, graciosas como minúsculos aviões-brinquedo.
Jantar.
Vou ao salão. Faço figura.
Estou amarinheirando-me.
Visito a biblioteca.
Uma surpresa: Livros de minha especialidade.
Livros de viagem ao Pacífico.
Serão meus cicerones, os meus camaradas, os meus melhores amigos.
Bandos de moçoilas espreitam-me.
Já descobriram que sou doutorado.
O anel simbólico denunciou-me.
Radiotelegrafista:
“Um telegrama para o doutor Isauro.
Abro. “Saudades, muitas saudades. Nísia”.
Outro mais: “Deus te guie e proteja, saudades, Míriam”.
Limpo furtivamente uma lágrima impertinente.
O coração está dolorido, penalizado...
Saudades! Amores! O que será?...
Olham-me e passam tagarelando.
Disfarço. Não as ouço. Não as vejo.
Ficam intrigadas.
Música.
A orquestra ataca uma valsa, um samba, uma rumba, um tango, uma marchinha carioca...
Dançam.
Indiferente nada ouço.
Passam e sussurram:
“Até parece viúvo! Será possível, tão novo?...”
Faço-me desentendido.
Tomo uma chaise-longue.
Leio.
Espiam-me. Observam-me.
- É poesia, arte ou ciência?
- Ah?! Desculpe-me.
- Leio Cícero.
- Chi! Cícero, o antigo?...
- Que barbaridade!...
- Acha gosto nestas leituras tão bolorentas?
O senhor ainda tão jovem...
- Os velhos têm o segredo da experiência.
Adoro-os.
Desconcertei-as.
Saem rindo e mofando...
O médico de bordo:
- Se me permite, falo ao Dr. Isauro.
- Para servir.
- Obrigado.
- Já o conhecia.
Os jornais da capital deram-nos a notícia da sua viagem-prêmio e pelo rádio de bordo em Belém, ouvimos o seu magnífico discurso na Academia.
Conversamos, trocamos ideias, ficamos amigos.
Os pares se machucavam com os volteios dos sambas e os balanços do mar.
Dez horas. Vou dormir.


(AQUARELAS E RECORDAÇÕES Capítulo XXII)

Francisco Benício dos Santos.

* * *

AS MÃOS

As Mãos


Uma bola de Basquete em minhas  mãos custa cerca de R$ 50,00. Uma bola de Basket nas mãos do Michael Jordan custaria cerca de R$ 5.000,00.
Só depende das mãos que a seguram.

Uma raquete de tênis não tem valor algum em minhas mãos. Uma raquete de ténis nas mãos
do Rafael Nadal valeria muitos milhares de reais.
Só depende das mãos que a seguram.

Uma vara em minhas mãos serviria apenas para afugentar um cão. Uma vara nas mãos de Moisés abriu um caminho seguro no mar vermelho.
Só depende das mãos que a seguram.

Um estilingue em minhas mãos seria somente um brinquedo de criança. Um estilingue nas mãos de Davi se tornou uma poderosa arma, capaz de derrubar gigantes.
Só depende das mãos que o seguram.

Dois peixes e cinco pães em minhas mãos serviriam para fazer um lanchinho. Dois peixes e cinco pães nas mãos do nosso Senhor Jesus Cristo, foram multiplicados e alimentaram milhares de pessoas.
Só depende das mãos que os seguram.

Pregos em minhas mãos serviriam para pendurar quadros na parede. Pregos nas mãos de Jesus Cristo serviram para trazer a salvação para o mundo inteiro.
Só depende das mãos que os seguram.

Como podes ver agora, só depende das mãos que seguram.
Por isso ponha suas ansiedades, suas preocupações, seus temores, seus alvos, seus sonhos, sua família e seu relacionamento  nas mãos de Deus, porque...
Só depende das mãos que seguram e asseguram. 

Se está nas mãos de Deus...então descansa o teu coração, Ele vai sempre fazer muito mais do que você pensa ou imagina. Ele sabe o que é melhor pra vc.

Se o Senhor controla com perfeição todo o universo, tudo é muito ordenado e definido, não controlaria da mesma forma com perfeição a sua vida? Agora, se ainda está tudo em suas mãos, então, entrega tudo pra Ele, agora.

Ele tem todo poder, pra mudar todas as coisas na sua vida.

Jesus disse: Se credes em mim do seu interior fluirão rios de aguas vivas.

(Autor não mencionado)


Enviado do meu smartphone Samsung Galaxy

* * *


A CONQUISTA DE UM IDEAL - Antônio Carlos de Souza Hygino

O texto que se seque, eu o escrevi quando do meu ingresso na magistratura. Após publicá-lo, por conta de mudança de comarca, etc... Acabei por não ficar com uma cópia sequer.
Debalde foram buscas no sentido de conseguir um exemplar do vespertino que o veiculou. E os anos se passaram. Havia perdido a esperança. Entretanto, na Noite de Natal do ano passado, fui presentado com exemplar do aludido jornal pelo meu irmão Jorge Hygino, brilhante advogado baiano, a quem sou eternamente grato. Ao relê-lo, voltei ao passado e não contive a emoção, por motivos óbvios. Trata-se da trajetória de um menino de família humilde, que se atreveu a ser Juiz. Ei-lo:

A conquista de um ideal


Vitorioso no vestibular de Direito da FESPI, subi-lhe as escadarias que davam acesso à sala onde iria assistir minha primeira aula de Introdução à Ciência do Direito. Vibravam em mim o entusiasmo e a esperança de ser advogado, para defender os interesses dos que tivessem sede de justiça. Durante quatro anos consecutivos repeti o mesmo ritual para receber, naquele Templo onde se cultuava a ciência de Têmis, as luzes do conhecimento jurídico. Findo o quatriênio, bacharelei-me em Direito. Impossível descrever as emoções daquele dia. O entusiasmo e a esperança do ingresso cederam lugar às responsabilidades que aguardavam o egresso no exercício da vida profissional.

Assustei-me ante o conflito existente entre o mundo teórico , de onde saía, e a complexidade do meu mister. Mergulhado em milhões de pensamentos desci, pela última vez, os patamares da minha querida Faculdade de Direito. O derradeiro deles, colocar-me-ia frente a frente com a realidade que temia encontrar. Entretanto, a vontade de crescer e de vencer na vida foi maior que o temor momentâneo. Enfrentei o mundo com determinação e firmeza de ânimo e exerci a advocacia com lealdade e amor à profissão, em respeito à sua nobre classe e à justiça.

No desempenho de minha profissão de advogado percebi, de logo, que a advocacia não me bastava. Queria ir mais longe. Queria ser magistrado. Para isso, amarguei os dissabores de vários concursos. Entretanto, não me deixei abater pelo pessimismo, pois só os fortes, os que não se acomodam, vencem e triunfam. E, se não fosse vitorioso no concurso de Juiz de Direito a que me submeti, estaria disposto a repetir a experiência tantas vezes fossem necessárias para ver realizado o meu sonho, o supremo ideal de minha vida.

E a magistratura me veio como uma recompensa, uma premiação aos meus esforços, aos meus sacrifícios por conquistá-la. Por isso mesmo saberei dar-lhe o devido valor. Saberei honrá-la e dignificá-la, lacerado que tenho os pés dos cardos do caminho por atingi-la.

Hoje sou magistrado e estou consciente da responsabilidade que flui da magistratura, a mais sublime missão que um mortal pode aspirar. Missão quase divina. Meu objetivo é ser aquele Juiz do futuro, de que fala o comentário de “La vie Judiciaire”: “Cavalheiresco, hábil para sondar o coração humano, enamorado da ciência e da justiça, ao mesmo tempo que insensível às vaidades do cargo; arguto para descobrir as espertezas dos poderosos; informado das técnicas do mundo moderno, no ritmo da era nuclear, onde as distâncias se apagam e as fronteiras se destroem, onde, enfim, as diferenças entre os homens serão simples e amargas lembranças do passado...”

Estou ciente da soma dos poderes e prerrogativas que o Juiz encarna e que, como bem disse Eliasar Rosa: “não pode cair em mãos quaisquer, sem riscos e perigos para todos, e sem o aviltamento, inclusive, da própria ordem jurídica”.
Apesar de jovem, tenho conhecimento da ciência da vida, que julgo mais importante que o direito, pois o saber jurídico, como magnificamente enfocou o eminente Desembargador Oscar Tenório, do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, “por si só, não é suficiente ao digno exercício da magistratura. O conhecimento dos Códigos, mesmo à luz da doutrina dos grandes interpretes, não é domínio exclusivo dos juízes. O atributo essencial do grande magistrado é a sabedoria, cujas raízes conceituais se aprofundam na vida e na razão”.

Imbuído desses princípios é que, no exercício da judicatura, procurarei aplicar bem a justiça, como bálsamo para todas as chagas sociais. Procurarei ser digno de mim mesmo, como magistrado, reconhecendo, como Calamandrei, que as qualidades que mais se respeitam nos Juízes são a imparcialidade e a sua resistência a todas as seduções do sentimento.

E quero, ao final de minha carreira, diante do terrível NÃO JULGUEIS, dizer com os olhos fitos nos Céus: SENHOR, cumprir com o meu dever, convicto, porém, de que É TEU O PODER DE JULGAR.

Hoje, vinte e seis anos depois, venho aqui dizer que sinto em mim o mesmo vigor, a mesma devoção, o mesmo amor e mesmo respeito à magistratura. Vou ao fórum com a mesma disposição, encantamento e coragem dos primeiros dias.

A magistratura não me cansa, muito pelo contrário, renova diariamente as minhas energias. Sinto-me feliz com o meu trabalho. É enriquecedor ao espírito servir aos que têm sede e fome de justiça. O servir é o bálsamo que alivia os sofrimentos causados pelos cardos do caminho. A magistratura é a razão da minha existência.

Sou magistrado por vocação.



Antônio Carlos de Souza Hygino
Juiz de Direito titular da 5ª Vara Cível da Comarca de Itabuna – Bahia.

* * *

segunda-feira, 3 de abril de 2017

O RIO CACHOEIRA – SUA VIDA, SUA HISTÓRIA, SUAS ENCHENTES

Clique sobre a foto, para vê-la no tamanho original
Foto ICAL
A verdadeira história do rio de Itabuna. Todos os historiadores que escreveram depois sobre o Rio Cachoeira "esqueceram-se" de citar essa fonte fidedigna. (ICAL)

O rio Cachoeira


Nasce nas fraldas da serra de Itaraca, no município de Vitória da Conquista. Depois de banhar parte deste município, entra em terras de Itambé, penetrando no município de Itabuna com a denominação de Rio Colônia, nome que lhe deram os Capuchinhos italianos, que fizeram trabalho de catequese em meados do século XVIII.

Como “Colônia” banha o município de Itaju do Colônia, e depois de receber as águas do Rio Salgado, o seu mais importante afluente, pouco acima de Itapé, passa a ser o Rio Cachoeira até desaguar no oceano Atlântico. Antes, na entrada do porto de Ilhéus, une-se ao rio Santana e ao rio Fundão, formando a chamada “Coroa Grande”.

Nesse percurso da serra de Itaraca até o Atlântico, através mais de 300 quilômetros, as suas águas regam uma das mais importantes regiões da Bahia, sendo o fator principal para a subsistência de duas grandes riquezas do Estado: Cacau e Pecuária.

Curiosamente, apesar de seu nome, o rio não possui, ao longo de seu curso, nenhuma cachoeira importante. Muitas ilhas, por outro lado, pontilhavam o seu leito: Mutucugê, Marimbeta hoje a popular “Ilha do Jegue”, Sequeiro Grande, Bananeiras, Sempre Viva, Quiricós e outras. De todas essas ilhas, existem apenas vestígios.

O principal afluente do Rio Cachoeira é o “Salgado”, que antes de lhe despejar suas águas banha as terras de Ibicaraí, Floresta Azul, Firmino Alves, Itororó e Santa Cruz da Vitória. São ainda seus afluentes, Piabanha”, “Catolé”, “Duas Barras”, “Sucuriuba”, “Ponte” “Sapucaia” “Areia”, “Primavera”, “Jacarandá” e “Itaúna”, este último entre “Salobrinho” e “Cachoeira”, o qual para alguns, passa por ter sido a origem do atual nome de Itabuna.

A história do rio Cachoeira começa justamente onde termina o seu curso: à entrada do porto de Ilhéus. Ali, em 1535, suas águas foram testemunhas da chegada de Francisco Romero, que vinha tomar posse das cinquenta léguas de terras doadas por D. João III, pela Carta Régia de 25 de abril de 1534, ao escrivão da Corte de Portugal, Jorge de Figueiredo Correia e que se constituía na Capitania de São Jorge dos Ilhéus.

Esse rio assistiu e acompanhou, ainda, as lutas dos donatários e ouvidores da capitania, contra os terríveis Aimorés, Tupiniquins e Guerens, guardando na lembrança das suas águas os nomes de Lucas Giraldes, D. Helena de Castro, Brás Fragoso, Vasco Fernandes Coutinho, Antônio da Costa Camelo, Luiz Freire de Véras, Francisco Nunes Costa, Balthazar da Silva e outros.

Em 1595 suas águas deram passagem aos hereges franceses, que saquearam e devastaram a pequena aldeia de Ilhéus. Mais tarde,  abrigariam também, os soldados da esquadra do almirante Lichthardt, que desembarcaram no Pontal, fazendo dali a cabeça de praia para o assalto e saque a Ilhéus. Em ambas as invasões, os estrangeiros foram heroicamente repelidos pelos poucos habitantes da Vila, com a intercessão da Virgem Maria, originando-se daí a lenda e culto de N.S. das Vitórias.

Segundo o Dr. Francisco Borges de Barros, no livro “Memórias do Município de Ilhéus”, edição de 1915, foi em 1553 que tiveram início as explorações nas margens do  Cachoeira. Apenas uma parte, a que era navegável, ou seja o trecho entre Ilhéus e Banco da Vitória era conhecida e explorada. Já nesse tempo, o padre Luiz Soares de Araújo, referindo-se ao rio escrevia: “Caudaloso rio chamado o da Cachoeyra da Vila, capaz de navegar sumacas, barcas, lanxas e canoas; não há quem lhe saiba o seu princípio, por vir muito de dentro do Sertão e que todos afirmam que vem das minas...”

A incumbência de exploração e catequese nas margens do Cachoeira coube ao Padre Manoel da Nóbrega, juntamente com os catequistas Francisco Pires, Aspicuelta Navarro, Manoel Chaves e outros.

Os trabalhos dos jesuítas se desenvolveram mais para as regiões de Porto Seguro, Itacaré, “Boipeba”, Cairu e Canavieiras, mas alguns deles se ocuparam dos índios que viviam nas margens do rio, no seu referido trecho navegável.

Mais tarde, em 1570, durante a época das “bandeiras”, uma dessas expedições, chefiada por Martins Carvalho, penetrou pelas margens do rio indo até a um ponto além do Banco da Vitória.

Um personagem de destaque nas expedições ao longo das margens do Cachoeira foi o capitão português João Gonçalves da Costa. Contam-se várias histórias a respeito da ação devastadora contra os índios, destacando a sua crueldade contra os mesmos, a ponto de A. de Saint Hilaire, no seu relatório “Voyage ou Perou,” assim se expressar: “o quadro de destruição e os atos de selvageria praticados por João Gonçalves da Costa, contra os fracos restos de índios das margens do Cachoeira e Rio de Contas, desafia ao mesmo tempo a sensibilidade do homem de coração bem formado”.

Em “Capitania de São Jorge dos Ilhéus”, o doutor João da Silva Campos registra também a ação devastadora  praticada contra os índios Guerens pelos paulistas, chefiados por João Amaro, especialmente contratados pelo governador da Província, Afonso Furtado de Mendonça.

Muito sangue, muita crueldade e as vidas de milhares de índios foi o preço da conquista e exploração das margens do Cachoeira.

No princípio do século XVIII, os frades capuchinhos deram início à catequese dos poucos índios que sobreviveram às carnificinas de João Gonçalves e João Amaro.

Do trabalho catequético desses piedosos e bravos frades, foram surgindo ao longo do curso do Rio Cachoeira, aldeias, povoados, colônias e missões, entre estas: Banco da Vitória, Cachoeira de Itabuna, Ferradas, Cachimbos, Catolé e outras.

Uma destas povoações muito progrediu, foi a de Cachoeira de Itabuna, no tempo de Weyll e Samaraker, colonos estrangeiros que fundaram ali nas margens do Cachoeira e seu afluente “Itaúna”, uma colônia que ficou muito afamada pelo desenvolvimento da cultura de cana de açúcar arroz, cacau e fumo, produtos que chegaram a ganhar medalhas de ouro nas exposições de Viena, Turim e na Corte do Brasil.

Também a povoação do Banco da Vitória conheceu um surto de progresso, servindo como o nosso primeiro Porto fluvial.

Entre os muitos que morreram afogados nas águas do Cachoeira, um deles ficou na história, foi o nobre frade capuchinho Luiz de Grava, no dia 19 de abril de 1875, quando viajava de canoa com destino ao arraial de Tabocas.

Entre as ilhas formadas pelo Cachoeira, uma delas tem uma história muito nossa conhecida. É a Ilha do Jegue, que já se chamou “Ilha da Marimbêta”, “Ilha dp Temistocles” e “Ilha do Capitão Aristeu”, porque ela foi testemunha da chegada de Félix Severino e Manoel Constantino, pioneiros da corrente migratória sergipana rumo a Itabuna, ouvindo bem próximo de si o barulho da derruba da primeira árvore que serviu de marco de uma cidade que cresceu com o tempo e se transformou na grande e bela cidade de Itabuna.

- : -

Em 1914, registra-se a primeira grande enchente do Rio Cachoeira. Fortes chuvas desabaram sobre a região, durante 11 dias, resultando num alagamento geral e destruição de tudo que existia próximo às suas margens, sofrendo com isso Itabuna, que começava a surgir, a perda de suas primeiras ruas. Foi a maior enchente até poucos dias.

Muitas e muitas enchentes seguiram-se a esta, uma delas, entretanto ficou famosa: a de 1920, porque batizou a nossa falada ilha. A “Ilha do Capitão Aristeu”, passou a ser chamada “Ilha do Jegue”. Um jumento ficara preso na dita ilha, sendo alvo da compaixão e curiosidade públicas, durante quatro dias, sendo salvo depois que as águas baixaram e recebido por uma grande multidão que lhe deu as honras de um “herói”.

- : -

Em 1947, a ponte Lacerda, recém-construída, serviu de barragem para grande quantidade de “baronesas”, capim “amazonas” e outros vegetais que o rio transportava.

As águas represadas invadiram as partes mais baixas da cidade. Foi grande a destruição na Mangabinha, Burundanga, Bananeira, Berilo e outros bairros ribeirinhos.

- : -

Em 1964, novamente as águas do rio Cachoeira estiveram em fase de enchente, voltando a causar prejuízos nos mesmos lugares anteriormente atingidos.

Um ano depois, ou seja, em 1965, mês de novembro, o Cachoeira pegava novamente Itabuna, chegando a alagar a Avenida do Cinquentenário. Foram grandes os prejuízos.

Ultimamente, dezembro de 1967, segundo registros históricos, muito superior a todas as enchentes foi esta última, cujos efeitos ainda estão bem vivos na memória de todos.


(DOCUMENTÁRIO HISTÓRICO E ILUSTRADO DE ITABUNA 1ª Edição - 1968)

José Dantas de Andrade

* * * 

A BELEZA DAS COISAS ESTÁ DENTRO DA GENTE


Algumas pessoas apreciam ver o Ipê florido. Outras, simplesmente amaldiçoam as suas flores caídas pelo chão. A beleza das coisas está dentro da gente.



Não dá para explicar direito o porquê de termos nossas atenções voltadas para certas pessoas, determinados momentos, como se nossos olhos fossem mecanicamente atraídos para aquilo que nos encanta. Não há, porém, nada de mecânico naquilo que enxergamos como belo, posto que se carrega de sentidos, de essência, de olhares de nossa alma.

A capacidade de se encantar, de olhar a tudo e a todos com olhos do bem, com o filtro da leveza e da compaixão, é um dos maiores presentes que podemos nos dar. E depende somente de nós encontrar o que é positivo, o que é belo, o que perfuma, mesmo em meio a dias traiçoeiros, ainda que a vida estiver teimando em dizer não. Enxergar o óbvio, sim, é mecânico e acaba por robotizar os nossos sentidos.

São tantos afazeres repetitivos e isentos de emoção pontuando nossa jornada; são tantas pessoas insípidas e ásperas atravancando os nossos passos, que, não raro, sentimo-nos propensos a embarcar nessa toada célere e fria do cotidiano entediante. Ainda mais com as contas se acumulando, as decepções se amontoando, os amores se evaporando, tudo parece tomar os contornos crus e inertes do desencanto.

Nesse contexto, quem muito sorri é tido por bobo, quem ama demais é tido como trouxa, quem é verdadeiro é tido como louco. Ser comedido é a ordem do dia, enquanto que o muito, o demais, soa a espetáculo, a insensatez, a desequilíbrio. A frieza e ponderação extremadas, o desapego total e o descomprometimento com o outro acabam por ultrapassar os limites da convivência minimamente harmônica, abrindo as portas ao egoísmo e ao pessimismo frente a quem ousa ter esperança.

Que não percamos nossa capacidade de nos encantar, de sentir prazer com o que estiver ali à frente, com o que temos junto a nós, com a vida enfim. O nosso olhar, a maneira como encaramos a vida é que determinará o tanto de felicidade que encherá os nossos corações. Em tudo o que acontece há lições, oportunidades e crescimento. Todas as pessoas possuem algo especial, mesmo que sejam exemplos de como não devemos ser.

Porque algumas pessoas apreciam ver o Ipê florido. Outras, simplesmente amaldiçoam as suas flores caídas pelo chão. A beleza das coisas está dentro da gente.


MARCEL CAMARGO
"Escrever é como compartilhar olhares, tão vital quanto respirar".



* * *