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quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

RETUMBANTE CONVERSÃO DE UM JUDEU – Plinio Corrêa de Oliveira

 


REPRESENTAÇÃO DA APARIÇÃO DE

NOSSA SENHORA A ALPHONSE

RATISBONNE

No dia 20 de janeiro de 1842, há exatamente 180 anos, o judeu Alphonse Ratisbonne se converteu milagrosamente ao catolicismo, por intervenção direta de Nossa Senhora

Plinio Corrêa de Oliveira

De família muito rica de banqueiros de Estrasburgo (Alemanha), o jovem judeu Alphonse Tobias Ratisbonne (1814-1884) percorria vários países. Após uma viagem ao Oriente, em 1842 passou uma temporada em Roma, onde se encontrou com um antigo colega, Gustavo de Bussières, de religião protestante. Na residência deste, conheceu seu irmão, o Barão Teodoro de Bussières, que havia se convertido ao catolicismo.

Naqueles dias falecera em Roma um grande amigo do Barão, o Conde de La Ferronays (1777-1842), ex-embaixador da França junto à Santa Sé.

Assim, Bussières convidou Ratisbonne para acompanhá-lo à igreja de Sant’Andrea delle Fratte a fim de tratar de uma cerimônia fúnebre pelo falecido. Concordou de mau grado, pois o judeu detestava a religião católica, mas como turista iria para apreciar as obras de arte daquela igreja romana.

Após tratar do assunto da cerimônia, o Barão de Bussières voltou para o centro da igreja e se deparou com uma grande surpresa: Ratisbonne ajoelhado em frente ao altar lateral de São Miguel Arcanjo! O judeu rezando fervorosamente, extasiado, maravilhado.

Banhado em lágrimas, disse ao amigo que tinha visto Nossa Senhora numa aparição sobre o altar. Pela descrição que fez, tratava-se de Nossa Senhora das Graças, como aparece na Medalha Milagrosa [foto ao lado].

Ratisbonne achava-se completamente mudado, estava convertido, e queria mudar de vida. Ele se fez batizar. Alguns até consideram que ele tenha morrido em odor de santidade.

Naquele altar da aparição foi introduzido um quadro que representa Nossa Senhora segundo as descrições de Ratisbonne. Ela é chamada de Madonna del Miracolo (Nossa Senhora do Milagre).

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Excertos da conferência proferida pelo Prof. Plinio

Corrêa de Oliveira em 20 de janeiro de 1973. Esta

 transcrição não passou pela revisão do autor. Fonte:

Revista Catolicismo, Nº 853, Janeiro/2022.

https://www.abim.inf.br/retumbante-conversao-de-um-judeu/

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quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

TRÊS POEMAS DA LUA - Cyro de Mattos

Clique sobre a foto, para vê-la no tamanho original


Três Poemas da Lua

Cyro de Mattos

 

Moça bela

 

Em luares de relva

Na rede embala-me

Nudez tão pura.

Bafeja meu rosto,

Veste-me de sonho.

Para o céu me leva

No colo que flutua

 Lua, ó lua,

Moça bela,

Toda nua.


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O menino e a lua

 

O menino sonha com a lua

acima da nuvem escura

fazendo descer para o rio

uma comprida luaranha.

 

O menino sonha com a lua

no céu de estrelas, cintilante,

aquele pedaço da frente

ele abocanhou na crescente.

 

O menino sonha com a lua

chamando-o pra brincar no areal

deixado pela grande enchente.

 

Lá ele cata muita prata,

depois é levado pro céu

no colo da lua risonha.


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 A cidade e a lua

 

Toda ela iluminada

flutua no colo da lua

que lhe trouxe rosas.

 

Ó encantos! Ó perfeições!

Carícia e frêmito de sonho.

Suspiros de ternura.

 

Brilha cantiga da beleza,

a cidade no eterno pervaga,

perfumes a noite exala.

 

 Cyro de Mattos, poeta, ficcionista, cronista, ensaísta e autor de literatura infantojuvenil. Publica quinzenalmente uma crônica na revista digital RUBEM.

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PRINCIPAL CAUSA DA CONFUSÃO MENTAL NO IDOSO - Arnaldo Lichtenstein

Arnaldo Lichtenstein

Sempre que dou aula de clínica médica a estudantes do quarto ano de Medicina, lanço a pergunta:

– Quais as causas que mais fazem o vovô ou a vovó terem confusão mental?
Alguns arriscam:   Tumor na cabeça.
Eu digo: Não.
Outros apostam: Mal de Alzheimer
Respondo, novamente: Não.

A cada negativa a turma se espanta…. E fica ainda mais boquiaberta quando enumero os três responsáveis mais comuns:
– diabetes descontrolado;
– infecção urinária;
– a família passou um dia inteiro no shopping, enquanto os idosos ficaram em casa.

Parece brincadeira, mas não é. Constantemente vovô e vovó, sem sentir sede, deixam de tomar líquidos.
Quando falta gente em casa para lembrá-los, desidratam-se com rapidez.

A desidratação tende a ser grave e afeta todo o organismo. Pode causar confusão mental abrupta, queda de pressão arterial, aumento dos batimentos cardíacos (batedeira), angina (dor no peito), coma e até morte..
Insisto: não é brincadeira.

Na melhor idade, que começa aos 60 anos, temos pouco mais de 50% de água no corpo. Isso faz parte do processo natural de envelhecimento.
Portanto, os idosos têm menor reserva hídrica.

Mas há outro complicador: mesmo desidratados, eles não sentem vontade de tomar água, pois os seus mecanismos de equilíbrio interno não funcionam muito bem.

Conclusão:

Idosos desidratam-se facilmente não apenas porque possuem reserva hídrica menor, mas também porque percebem menos a falta de água em seu corpo. Mesmo que o idoso seja saudável, fica prejudicado o desempenho das reações químicas e funções de todo o seu organismo.

Por isso, aqui vão dois alertas:

1 – O primeiro é para vovós e vovôs: tornem voluntário o hábito de beber líquidos. Por líquido entenda-se água, sucos, chás, água-de-coco, leite, sopa, gelatina e frutas ricas em água, como melão, melancia, abacaxi, laranja e tangerina, também funcionam. O importante é, a cada duas horas, botar algum líquido para dentro. Lembrem-se disso!

2 – Meu segundo alerta é para os familiares: ofereçam constantemente líquidos aos idosos. Ao mesmo tempo, fiquem atentos. Ao perceberem que estão rejeitando líquidos e, de um dia para o outro, ficam confusos, irritadiços, fora do ar, atenção. É quase certo que sejam sintomas decorrentes de desidratação.

Líquido neles e rápido para um serviço médico.


*Arnaldo Lichtenstein, médico, é clínico-geral do Hospital das Clínicas e professor colaborador do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).

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terça-feira, 18 de janeiro de 2022

ITABUNA CENTENÁRIA UM SONETO: AS POMBAS – Raimundo Correia



As Pombas

Raimundo Correia

 

Vai-se a primeira pomba despertada,

Vai-se outra mais... mais outra... enfim dezenas

De pombas vão-se dos pombais, apenas

Raia sanguínea e fresca a madrugada.

 

E à tarde, quando a rígida nortada

Sopra, aos pombais de novo elas, serenas,

Ruflando as asas, sacudindo as penas,

Voltam todas em bando e em revoada.

 

Também os corações onde abotoam,

Os sonhos, um por um, céleres voam,

Como voam as pombas dos pombais;

 

No azul da adolescência as asas soltam,

Fogem... Mas aos pombais as pombas voltam,

E eles aos corações não voltam mais!

 

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Raimundo da Mota Azevedo Correia, o mais célebre dos parnasianos brasileiros, foi autor de famosos sonetos e de famosas poesias que podem ser consideradas das melhores da língua. Nasceu a bordo de um navio surto num porto do Maranhão em 13/05/1860 e faleceu em Paris em 13/09/1911. Na vida civil foi professor de Direito, magistrado e diplomata. Publicou: “Primeiros Sonhos” (1879), “Sinfonias” (1882), “Versos e Versões” (1886), “Aleluias” (1890). Em 1898 coligiu suas principais produções poéticas num volume a que deu o título “Poesias”; 2ª Edição1906; 3ª Edição 1910; 4ª Edição 1922. Foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, onde ocupou a cadeira nº 5, que tem por patrono Bernardo Guimarães e onde teve por sucessores Osvaldo Cruz e Aloísio de Castro. Suas “Poesias Completas”, a cargo de Múcio Leão, foram editadas em dois volumes em São Paulo em 1948.

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segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

CAPITAL DO URUGUAI EM BAIXO D'ÁGUA. IMAGENS DA ENCHENTE DEVASTADORA QUE ...

A PRECE – Gibran Khalil Gibran


A Prece

 

Então uma sacerdotisa disse: “Fala-nos da Prece”.

E ele respondeu dizendo:

“Vós rezais nas vossas aflições e necessidades; pudésseis também rezar na plenitude de vossa alegria e nos dias de abundância.

Pois que é a oração senão a expansão de vosso ser para o éter vivente?

            E se constitui conforto exalar vossas trevas no espaço, maior conforto sentireis quando exalardes a aurora de vosso coração.

            E se não podeis reter vossas lágrimas quando vossa alma vos chama para orar, ela vos deveria esporear repetidamente, embora chorando, até que aprendêsseis a orar com alegria.

            Quando rezais, vos elevais até encontrardes, nas alturas, aqueles que estão orando à mesma hora, e que, fora da oração, talvez nunca encontrásseis.

            Portanto, que a vossa visita a esse templo invisível não tenha nenhuma outra finalidade senão o êxtase e a doce comunhão.

            Pois se penetrardes no templo unicamente para pedir, nada recebereis.

            E se nele entrardes para vos curvar, ninguém vos erguerá.

            E mesmo se aí fordes para mendigar favores para outros, não sereis atendidos.

            Basta-vos entrar no templo invisível.

            Não vos posso ensinar a rezar com palavras.

            Deus não escuta vossas palavras, exceto quando Ele próprio as pronuncia através de vossos lábios.

            E não vos posso ensinar a oração dos mares e das florestas e das montanhas.

            Mas vós que nascestes das montanhas, e das florestas, e dos mares, podeis encontrar suas preces no vosso coração.

            E se somente escutardes na quietude da noite, ouvi-los-ei dizendo em silêncio:

            Deus nosso, que és nosso Eu alado, é Tua vontade em nós que quer.

            É teu desejo em nós que deseja.

            É Teu impulso em nós que pode transformar nossas noites, que Te pertencem, em dias que também Te pertencem.

            Nada Te podemos pedir, pois Tu conheces nossas necessidades antes mesmo que nasçam em nós.

            Tu és nossa necessidade; e dando-nos mais de Ti, Tu nos dás tudo.”

 

(O PROFETA)

Khalil Gibran Khalil

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Gibran Khalil Gibran - Poeta libanês, viveu na França e nos EUA. Também foi um aclamado pintor. Seus textos apresentam a beleza da alma humana e da Natureza, num estilo belo, místico, conseguindo com simplicidade explicar os segredos da vida, da alegria, da justiça, do amor, da verdade.


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OS DEUSES DA TERRA OU NA FRONTEIRA DO SUPRANATURAL

 

          Este livro constitui uma categoria à parte na obra de Gibran. Pois é o único que tem por heróis deuses – e não homens. Nos outros livros de Gibran, mesmo os heróis dotados de sublime grandeza fazem parte da humanidade. Até Jesus no livro Jesus, o Filho do Homem, é apresentado como homem.

          Em Os Deuses da Terra, os três heróis do livro são deuses, que falam num estilo de apocalíptica majestade. E o livro é, na realidade, um poema épico que parece desenrolar-se num lugar fora ou além desta Terra.

          Começa com os seguintes versos:

          “Quando caiu a noite da

                           duodécima grande era

          E o silêncio, a maré da alta da

                  noite, engoliu as colinas,

          Os três deuses nascidos da terra,

          Os Senhores Titãs a vida,

          Apareceram sobre as montanhas.

          Rios corriam à volta de seus pés;

          A neblina flutuava sobre seus peitos,

          E suas cabeças elevavam-se majestosamente

          Acima do mundo.”

         

          O livro todo se desenvolve na mesma atmosfera, feita de imagens imponentes e de evocações sobre-humanas.

          Barbara Young o considera um dos poemas mais belos de toda literatura anglo-saxônica.

          São três os deuses heróis do livro, e cada um deles representa um dos aspectos da divindade: Força esmagadora e altiva – Providência Compassiva – Amor e Bondade.

          E eles conversam entre si.

          Mas de que conversam os deuses quando conversam? E quando desejam, o que desejam?

          Os homens, mortais, desejam a imortalidade. Mas os deuses, imortais, estão satisfeitos com sua imortalidade?

          E qual é o papel do amor na vida dos deuses?

          As respostas de Gibran levam-nos para um mundo diferente, fora do espaço e do tempo.

          Um livro de inspiração, de iluminação, que faz ressaltar como a vida e o amor dos homens são efêmeros e os torna, assim mesmo, infinitamente mais desejados.

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domingo, 16 de janeiro de 2022

PALAVRA DA SALVAÇÃO (252)

 


2º Domingo do Tempo Comum – Domingo, 16/01/2022

 

Anúncio do Evangelho (Jo 2,1-11)

— O Senhor esteja convosco.

— Ele está no meio de nós.

— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo João.

— Glória a vós, Senhor.

Naquele tempo, houve um casamento em Caná da Galileia. A mãe de Jesus estava presente. Também Jesus e seus discípulos tinham sido convidados para o casamento. Como o vinho veio a faltar, a mãe de Jesus lhe disse: “Eles não têm mais vinho”. Jesus respondeu-lhe: “Mulher, por que dizes isto a mim? Minha hora ainda não chegou”.

Sua mãe disse aos que estavam servindo: “Fazei o que ele vos disser”.

Estavam seis talhas de pedra colocadas aí para a purificação que os judeus costumam fazer. Em cada uma delas cabiam mais ou menos cem litros.

Jesus disse aos que estavam servindo: “Enchei as talhas de água”. Encheram-nas até a boca. Jesus disse: “Agora tirai e levai ao mestre-sala”. E eles levaram.

O mestre-sala experimentou a água, que se tinha transformado em vinho. Ele não sabia de onde vinha, mas os que estavam servindo sabiam, pois eram eles que tinham tirado a água.

O mestre-sala chamou então o noivo e lhe disse: “Todo mundo serve primeiro o vinho melhor e, quando os convidados já estão embriagados, serve o vinho menos bom. Mas tu guardaste o vinho bom até agora!”

Este foi o início dos sinais de Jesus. Ele o realizou em Caná da Galileia e manifestou a sua glória, e seus discípulos creram nele.

— Palavra da Salvação.

— Glória a vós, Senhor.

http://liturgia.cancaonova.com/pb/

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Ligue o vídeo abaixo, e acompanhe a reflexão do Pe. Donizete Ferreira da Comunidade Canção Nova:


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BODAS DE CANÁ: o abundante e saboroso vinho do Reino

 


“Mas tu guardaste o vinho melhor até agora” (Jo 2,10) 

Estamos ainda no espírito da Epifania, da manifestação de Deus em Jesus Cristo. A festa dos “Reis Magos” e do Batismo de Jesus formam, tradicionalmente, com as Bodas de Caná, a tríade da epifania.

O acontecido em Caná da Galileia é o começo de todos os sinais, e que se prolongará ao longo da vida de Jesus. A nova purificação não se fará com água que limpa o exterior, mas com vinho saboroso que transforma o interior do ser humano. O vinho-amor como dom do Espírito, é o que purifica, o único que pode salvar definitivamente. 

O relato das Bodas em Caná sugere algo mais. A água só pode ser saboreada como vinho quando, seguindo as palavras de Jesus, é “tirada” de seis grandes talhas de pedra, utilizada pelos judeus para suas purificações. A religião da lei escrita em tábuas de pedra está exausta; não há água capaz de purificar o ser humano. Essa religião deve ser libertada pelo amor e pela vida que Jesus comunica.

As talhas estavam ali “colocadas” sem mobilidade alguma. Com isso denota a importância que elas vão ter no relato e seu caráter simbólico. O número seis (sete menos um) é sinal do incompleto. É o número das festas dos judeus que são relatadas no evangelho de João. A sétima será a Páscoa.

As talhas eram de pedra, como as tábuas da lei, e estão significando a Antiga Aliança. A lei de pedra é sem misericórdia, sem amor (vazias, sem água e nem vinho). A lei é a causadora da falta de amor (vinho). Essa consciência de pecado era consequência da infinidade de preceitos, impossíveis de serem cumpridos. Jesus faz tomar consciência de que estão vazias; ou seja, que o sistema de purificação era ineficaz. 

Em quê consistiu o primeiro “sinal” realizado por Jesus, no evangelho de S. João?

Mergulhando mais a fundo na cena damo-nos conta de que a água que Jesus transformou em vinho não era água para os usos domésticos ou, mais precisamente, para usos “profanos”; em outras palavras, não era “água para a vida” (beber, preparar refeições, lavar-se, regar...), mas era “água para a religião”.

O Evangelho diz isso expressamente: “Estavam seis talhas de pedra colocadas aí para a purificação dos judeus; em cada uma delas cabiam mais ou menos cem litros”.

Portanto, seiscentos litros de água, armazenadas em talhas de pedra. Expressa-se, assim, em linguagem metafórica, a enormidade e o peso da religião judaica; representa todo o sistema da observância ritual judaica, que impedia as pessoas viverem mais plenamente. 

Jesus, na primeira oportunidade que teve, suprimiu a “água da religião” e transformou-a em vinho, no generoso “vinho da vida”, sinal da abundância de vida e do prazer de viver.

Definitivamente, o que Jesus quis dizer, mediante o primeiro dos “sinais” que realizou em sua vida, foi que a velha ordem religiosa havia terminado. A partir de então, Deus manifesta sua “glória” de outra maneira. Jesus traça e marca uma nova maneira de viver uma relação sadia com Deus, que não impõe, nem exige rituais religiosos e purificações sagradas. Em vez disso, Ele se comunica “na vida”, no prazer de viver, na alegria de saborear a vida e a festa, em tudo o que, de maneira espontânea, evoca o melhor vinho que nós, humanos, podemos beber neste mundo.

Jesus “dessacralizou” o templo, o sábado, o sacerdócio, as instituições religiosas judaicas, e “sacralizou” a festa como tempo e espaço de humanização.

“glória de Deus”, a partir de Jesus, não se manifesta mais no Templo, nos sacrifícios e nas solenidades litúrgicas, mas no prazer da festa e na alegria dos amantes que compartilham o melhor vinho.

Isso é muito humano! E, exatamente por isso, é tão divino.

Jesus, ao se fazer presente em Caná, deu novo sabor e impulso vital (esperança, alegria) às bodas da história humana, passando da pura lei (cântaros de água de purificações) à vida intensa, ao vinho abundante, bom, saboroso, que ativa a alegria da festa; e tudo isso despertado pela sensibilidade de sua mãe Maria (ela é sinal da passagem, de caminho a ser feito para ir do Antigo ao Novo Testamento).

Muitas vezes manipulamos Jesus para continuar tendo à porta de nossas igrejas as “seis talhas de água das purificações” (proibições, normas, ritualismos, doutrinas...). Temos seis talhas de água parada, água de imposições e medos; falta-nos o vinho generoso da vida, para todos, para que a alegria se expanda e todo o mundo seja lugar de bodas. Muitos só conhecem uma “religião aguada”, não podem saborear algo da alegria festiva que Jesus contagiava; e continuarão se afastando das comunidades cristãs.

No entanto, Jesus revela uma presença original numa festa e sua mãe no-lo apresenta para que Ele seja a fonte de vinho, ou seja, do amor, de bodas para toda a humanidade. 

Esta é a mensagem do evangelho deste domingo, um dos textos mais belos da história da humanidade.      

O pano de fundo de todo o relato é a alegria de um homem e uma mulher que se vinculam no amor e querem que esse amor se expanda e chegue a todos, como amor feito vinho de festa e plenitude prazerosa.

Reino de Deus se vincula, deste o Antigo Testamento, com banquete e bodas, como destacou uma tradição profética desenvolvida por Oséias e culminada no Cântico dos Cânticos. A vida é, antes de tudo, refeição festiva e amor. Não basta o pão, é preciso o vinho. Uma vida sem amor e sem prazer (vinho e bodas) seca, torna-se estéril, em meio ao círculo da violência, do ódio, da fome e da luta de todos contra todos. É necessário atualizar, com fidelidade criativa, o “sinal” que Jesus realizou para introduzir, em nossas vidas, a alegria do Deus-Pai festeiro; só assim, nossa vida se tornará mais ditosa e com mais sentido.

“Também Jesus e seus discípulos tinham sido convidados para o casamento”. Eles não se encontravam ali desde o início, mas chegaram de fora, para alterar e dar novo curso à festa, que estava correndo risco de se acabar, com a falta do vinho.

Só a chegada de Jesus e seus discípulos desvela uma grande carência. Só quando chega o Amor Maior, descobre-se a falta de amor. Chega Jesus e vemos que há pouco amor no mundo, que as pessoas vivem a pão e água, na dura batalha pela vida, sem poder saborear o bom vinho da alegria e da festa. Certamente, o texto alude a uma falta material de “vinho”, mas é claro que o relato alude a outra carência mais profunda. Não é que só tenha acabado o pouco de vinho; não é que seja questão de ter mais ou menos vinho. Acabou o amor e a solidariedade; acabou o vinho porque alguns beberam demais, acumularam e desperdiçaram tudo. Acabou o vinho (o pão, o vinho, o prazer da vida) porque alguns fizeram a opção pela morte, pelo ódio, pela destruição e divisão; dessa forma, o mundo se transformou em lugar de opressão, de mentira, de festas mortíferas. Esta simples expressão – “eles não tem mais vinho” – é a crônica de um fracasso.

A presença de Jesus e seus discípulos na festa de casamento evoca a chegada de um novo tempo para a nova comunidade dos seus seguidores(as). Jesus, em sintonia com o Pai festeiro, se revela, antes de tudo, como um “animador de bodas”. Não vem cobrar ou impor, mandar ou proibir. Vem com os seus para oferecer bodas ao mundo, bodas festivas, carregadas de amor. Jesus e sua nova comunidade são presenças de bodas: querem que os homens e mulheres possam celebrar suas bodas com bom vinho em todos os tempos. 

Texto bíblico:  Jo 2,1-11

Na oração: As “talhas das purificações” não são algo do passado. Elas ainda continuam fazendo parte de nossa vivência cristã, marcada pela superficialidade e exterioridade, feita de ritos, moralismos, cansaços, normativas... e que não deixam que o bom vinho Reino se expanda e tenha acesso às dimensões mais profundas do nosso ser. Pois bem, segundo seu evangelho, Jesus nos quer portadores do vinho da festa, animadores da celebração, prontos para o baile, o encontro, o abraço, a vivência do amor, a comunhão. Esta é a imagem que deveríamos revelar ao mundo de hoje.

- Sua vida cotidiana tem a marca do “vale de lágrimas” ou do “vinho saboroso da alegria”?

- Sua presença na comunidade cristã deixa transparecer o “melhor vinho” que brota do seu interior?


Pe. Adroaldo Palaoro sj

https://centroloyola.org.br/revista/outras-palavras/espiritualidade/2490-bodas-de-cana-o-abundante-e-saboroso-vinho-do-reino

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