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quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

MISSÃO DE ENSINAR, GUIAR E SANTIFICAR – Pe. David Francisquini


“Jesus Cristo entrega as chaves dos Céus a Pedro”, Perugino (1450-1523).

Padre David Francisquini*

 

Nada mais consentâneo com a condição sacerdotal do que fazer uso da autoridade divina das verdades reveladas para cumprir a missão de ensinar, guiar e santificar as almas neste vale de lágrimas.

Com efeito, a crise espiritual que assola o homem pós-moderno — qualificativo utilizado para causar expectativa de “bons fluidos” — é a fonte de tantos males. O ensinamento dos santos ao longo dos séculos consistiu em advertir e instruir os fiéis a propósito da falta de vida interior e de ocupação com tudo aquilo que norteia as almas, a fim de conduzi-las ao seu fim último, que é Deus.

A disposição dos evangelhos, abrindo e fechando o ano litúrgico, nos mostra a importância desses ensinamentos: “Vigiai e orai para não cairdes em tentação” (Mt 26, 41), para o qual as pessoas devem se ater sempre, já que a insistência do inimigo infernal é contínua e implacável contra uma pessoa e mesmo povos inteiros.

Não é bem isto que vem acontecendo hoje, em todos os ambientes frequentados por nós? Não é verdade que com suas artimanhas envolventes os asseclas infernais dispersos pela Terra procuram levar-nos para o abismo, ora por meio de ideologias, ora por manobras políticas ou falsas religiosidades? Fica, portanto, a advertência: “Vigiai e orai”!

Eis as maravilhosas afirmações da Escritura, sustentáculo da nossa fé, a nos asseverar com as palavras de São Paulo: “Toda Escritura divinamente inspirada é útil para ensinar, repreender, corrigir, formar na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito, apto para toda boa obra” (II Tim. 3, 16-17).

Ademais, é-nos imensamente vantajoso deixar-nos conduzir por Aquele que é o caminho, a verdade e a vida: “[…] andai enquanto tendes luz, para que não vos surpreendam as trevas; quem caminha nas trevas não sabe aonde vai. Enquanto tendes luz, crede na luz para que sejais filhos da luz” (Jo 12. 35-36).

Reflita, caro leitor(a), quão benfazejas são essas palavras nesses dias de tanta perplexidade diante das crises que nos assolam, a fim de estabelecermos as balizas do pensamento e o critério de nosso peregrinar pela terra. Podemos ver, tanto no evangelho de São Mateus, quanto no de São Lucas, a narração do último domingo do ano litúrgico, dos acontecimentos que se abateram sobre Jerusalém, como prefigura de todas as épocas de crise.

Pode-se constatar que, de crise em crise, a Igreja instituída por Cristo Nosso Senhor chegou aos tempos atuais. Foram muitas e clamorosas tentativas de subverter sua ordem e ensinamentos no decorrer das centúrias, mas a Santa Igreja preservou e ensinou seus filhos, ministrando-lhes os sacramentos e mostrando-lhes os caminhos da salvação eterna. 

No Ofício Divino, São Jerônimo comenta as palavras do evangelho, dizendo: “Quando virdes a abominação da desolação no lugar santo predita pelo profeta Daniel, quem ler entenda. ”Estas palavras se referem ao transtorno da fé que abalou os fundamentos do povo judeu, abolindo o sacrifício e a oblação, deixando o templo desolado por ter perdido a sua função.

Compreende-se, portanto, por que Pilatos colocou no Templo as estátuas de César e de Adriano. Segundo a Escritura, a abominação é chamada de ídolo, e a desolação é por ele ter sido posto no templo desolado e deserto.

Alguém ousaria contestar a semelhança com fatos do nosso cotidiano? Não é bem verdade que assistimos hoje à introdução de ídolos e a realização de cultos idolátricos no interior das nossas igrejas? 

A história recente nos traz à memória, por exemplo, o encontro interreligioso em Assis (1986), acontecimento-símbolo da mentalidade nova que revolucionou o conceito infalível da existência de uma só religião revelada, fora da qual não há salvação. É dogma de fé!

Tem-se, então, um pecado contra a fé, com uma agravante: a introdução de ídolos pagãos, algo abominável diante de Deus, escândalo para incontáveis almas, transtorno da ordem natural e divina que proclama o culto do verdadeiro Deus. Tais acontecimentos, que significam um largo passo rumo à panreligião, constituem uma ameaça cada vez maior para inúmeros fiéis.

Essas considerações devem nos fazer temer as consequências da vida desregrada de nossos dias, que abrange todos os campos da ação humana. Em todos eles os critérios divinos são sistematicamente rejeitados.

Meditemos, por exemplo, nesta advertência de Nosso Senhor, referindo-se aos tempos do anticristo ou prefiguras dele que agem contra Deus, promovendo a desolação em toda a terra: “Quando virdes estabelecida no lugar santo a abominação da desolação” (Mt. 24, 15).

Ao ler comentários feitos pelos Padres da Igreja, podemos adiantar-nos em outras considerações que se aplicam bem aos dias atuais, como a introdução da Pachamama no templo de Deus. São Luís Grignion de Montfort já predissera profeticamente: “Vossa divina fé é transgredida, vosso evangelho desprezado; abandonada vossa religião; torrentes de iniquidade inundam toda a terra, e arrastam até os vossos servos; a terra toda está desolada; a impiedade está sobre um trono; vosso santuário é profanado, e a abominação entrou até no lugar santo.

Aqueles que buscam viver segundo a sã Doutrina de Nosso Senhor não devem descer às coisas mais baixas pelo desejo mundano. “O que está no campo, não volte atrás para tomar o seu manto”, isto é, não volte às preocupações antigas, tornando a conviver no meio dos pecados passados, que manchavam seu corpo e perdiam sua alma.

Daí a importância da verdadeira fé, da boa orientação católica e da aquisição do senso do discernimento a fim de conhecer o momento de fugir da abominação e se proteger dos perigos de condenação eterna — “Então os habitantes da Judéia fujam para os montes” (Mt 24, 16).

Cumpre salientar que ouvimos com frequência interpretações protestantes de textos bíblicos atribuindo aos fatos trágicos, mas naturais, ou ainda da inter-relação humana, como sinais da segunda vinda do Messias, muito embora se trate de algo que sempre aconteceu na história do mundo. Estas são interpretações subjetivas.

Na realidade, quando Cristo diz que haverá sinais no sol, na lua, nas estrelas e que as virtudes dos céus serão abaladas, a interpretação mais lógica e prudente está em aplicar essas predições à própria Igreja, com o efeito benéfico de não nos expormos ao debique dos inimigos a propósito de considerações sobre calamidades tantas vezes ocorridas no mundo.

Afinal, a Igreja se assemelha ao sol, à lua e às estrelas. Seu brilho poderá fenecer um tanto, em decorrência da violência inaudita de seus perseguidores e do apodrecimento moral no campo religioso e civil, mas as portas do inferno não prevalecerão contra Ela.

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*Sacerdote da Igreja do Imaculado Coração de Maria – Cardoso Moreira (RJ).

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quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

DOIDOS, MAS NEM TANTO - José Sarney


Algumas figuras populares são adeptas à política. O nosso Sócrates era um dos que sonhava ser eleito para qualquer coisa. Outro, na década de 1950, aqui no Maranhão, era o Paletó.

Ele dizia sempre: 'Sou o número um das Oposições Coligadas.' Eu ainda o conheci: ele não faltava a nenhuma das reuniões dos nossos partidos políticos.

O Deputado Clodomir Millet foi, durante algum tempo, o chefe da oposição. Uma hora resolveu dar uma missão ao Paletó: ir todo dia ao TRE assistir às sessões e trazer de volta o relatório do que tinha sido votado e de como havia votado cada um dos juízes.

Um dia, Paletó entrou, meio cansado e revoltado, na redação do jornal O Povo - que pertencia a Neiva Moreira, um dos nossos líderes -, onde nos reuníamos todas as tardes, e foi logo dizendo:

- Dr. Millet, não volto mais ao Tribunal. Está tudo perdido: um juiz da Oposição - como é o Desembargador Eugênio Piva - votou com o juiz do Governo!

Naquela época a política muitas vezes se tornava violenta. Quando organizamos uma passeata para protestar contra o Governo, que tinha sido acusado de estar queimando as casas dos pobres, das palafitas, cobertas de palhas, o Paletó também quis participar dela.

Neiva lhe deu uma bandeira, dizendo:

- Paletó, leve esta bandeira.

Então, o Paletó, 'membro número um da Oposição', enrolou a bandeira no pescoço, deixando uma parte caída nas costas, e foi, exaltado, à passeata, gritando palavras de protesto. Até que, chegando perto do Palácio, onde havia uma fila de soldados com metralhadoras apontando para a passeata, ele parou e disse:

- Seu Neiva Moreira, está aqui a sua bandeira. Arrume um mais doido do que eu que, daqui, não passo!

No Recife havia outro popular meio doido. Ele andava com um capote pesado, absolutamente inadequado para o clima da região. Com a barba grande, entre profeta e andarilho, acompanhava todos os movimentos da Esquerda pernambucana e gostava, para gozação da cidade, de dar conselhos ao Governador. Deram-lhe o apelido de Malenkov, o efêmero sucessor de Stalin.

Certa vez, encontrou Miguel Arraes num comício, aproximou-se dele e denunciou:

- Dr. Arraes, isso não é possível, o Delegado de Polícia de Caruaru não sabe nada de marxismo. É preciso zelar pela doutrina.

Em 1964 ele foi detido. Na prisão o inquisidor, um capitão revolucionário, ao olhá-lo, foi direto:

- Seu comunista miserável, enfim o pegamos!

olhou de lado, sacudiu a cabeça e retrucou:

- Capitão, não venha me furar. Eu sou kardecista, da linha 2 - porque existiram dois

. Comunista, jamais! Sou espiritualista.

Malenkov e Paletó não eram tão doidos quanto todos pensavam.

Os Divergentes, 19/12/2021

 

https://www.academia.org.br/artigos/doidos-mas-nem-tanto

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 José Sarney - Sexto ocupante da Cadeira nº 38 da ABL, eleito em 17 de julho de 1980, na sucessão de José Américo de Almeida e recebido em 6 de novembro de 1980 pelo Acadêmico Josué Montello. Recebeu os Acadêmicos Marcos Vinicios Vilaça e Affonso Arinos de Mello Franco.

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PESARES DE SÔNIA MARON – Cyro de Mattos

            Imagem: DiarioBahia


Pesares de Sônia Maron

Cyro de Mattos

 

Quem entende esse gesto?

O passado não tem volta.

Não se esvaem as dores

Prisioneiras do presente.

 

O vento que se aloja

nessas asas fabrica

vozes em rito de pesares,

que não se decifram.

 

Ó tempo rigoroso

no musgo desse muro,

sinto frieza no meu peito,

como fere nesse inverno.

 

Até no encanto assustas,

a flor que aparece

é a mesma que breve

no pó desaparece.

 

Imutável nesse estar

que ceifa a inocência,

a solidão de anoitecer

teu enigma que ofertas.

 

Hora que não tem cura,

Vez que não tem volta

Enquanto a noite chega

Para soterrar o dia.

 

Ó tempo quão amargo

É teu rigor nesse gesto

Que só a ti pertence,

Sufoca no meu peito. 

 

De ti em dó e lágrima,

o que dói não é o calor

que aqueceu o coração,

mas as coisas que não virão.

 


Cyro de Mattos
é escritor de contos, crônicas, romance, poemas, literatura infantojuvenil, ensaio e memorialista. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia. Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz. Possui prêmios literários importantes. Também é editado no exterior.

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segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

A HISTÓRIA DO NATAL - Eglê S. Machado

 


A História do Natal

Eglê S. Machado


E Deus sorriu lá do céu,

Pois veio ao mundo em seu Filho:

Chegou pobre, sem escarcéu,

Enchendo a terra de brilho!

 

Removeu o escuro véu,

Pôs setas marcando o trilho;

"Glória in Excelsis Deo"

Anjos cantaram em estribilho!

 

E chegou trazendo a Paz,

Incrementando a bonança,

Tornando o homem capaz

De confiar na Esperança!

 

Com amor que não se esvai,

Com perfeição sem igual,

Compôs o Divino Pai

A poesia do Natal!

 

E da treva Deus fez Luz,

Que transfigura e extasia,

Com a Brandura de Jesus

E o Sorriso de Maria!

 

Eglê S. Machado

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sábado, 18 de dezembro de 2021

NATAL E O BOM COMBATE COMO CONDIÇÃO PARA UMA AUTÊNTICA PAZ NA TERRA


A guerra contra o demônio e seus sequazes daqueles que desejam o estabelecimento da autêntica paz entre os homens

Fonte: Editorial da Revista Catolicismo, Nº 852, Dezembro/2022

É uma tradição da revista Catolicismo publicar na sua edição de dezembro matérias concernentes ao Santo Natal do Menino Jesus, que constitui com a Páscoa as duas maiores festas da Cristandade.

Neste ano reproduzimos um artigo do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, publicado no mensário em dezembro 1963, no qual ele chama a atenção para o fato de que a imensa maioria das pessoas não atenta para o verdadeiro sentido da expressão “Paz na Terra”, contida na citação de São Lucas “Glória a Deus nas alturas e paz na Terra aos homens de boa vontade”.

Dr. Plinio mostra que não pode haver “Paz na Terra aos homens de boa vontade” (nem aos de má vontade…) se a humanidade não estiver voltada para a “Glória de Deus”. Como nos ensinou o Divino Mestre, “buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça e todas estas coisas vos serão dadas em acréscimo” (Mt 6, 33). Só assim teremos a “Paz na Terra”; se esquecermo-nos de Deus, não teremos o seu Reino e nem o acréscimo. Não teremos a verdadeira paz!

Em nossa época narcotizada pelo desejo de paz a qualquer preço — mesmo à custa da renúncia aos ideais católicos —, convém ter bem presente o que disse Santo Agostinho: “A paz é a tranquilidade da ordem de todas as coisas”. Segundo esta definição, paz não é apenas um período de tranquilidade, mas de “ordem de todas as coisas”; e tudo estará desordenado se os mandamentos de Deus forem transgredidos.

Outro aspecto importante dessa temática é que a “Paz na Terra — como consta no artigo em pauta — inclui a cessação de todas as lutas, exceto a incessante e gloriosa guerra contra o demônio e seus aliados, isto é, o mundo e a carne”. Aliados que atuam para tentar apagar da memória a lembrança de Deus. Daí os Natais secularizados de nosso século, parecidos com festas do comércio. Não se conseguiu eliminar inteiramente a lembrança do Natal, mas se conspira para que um dia isso aconteça.


Além do artigo de Plinio Corrêa de Oliveira, duas outras matérias o complementam. Seus autores, Luís Dufaur e Paulo Américo de Araújo, acrescentam fatos e comentários evocativos do Santo Natal, quando há 2021 anos nascia em Belém o Príncipe da Paz, o Deus que faz guerra aos sequazes de Lúcifer e apresenta a única solução para as desordens que abalam o mundo e geram conflitos.

Um Santo e Feliz Natal a todos os diletos leitores de Catolicismo, com os nossos melhores votos de um Ano Novo repleto das mais seletas graças e bênçãos do Menino Jesus e de sua Mãe Santíssima.

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Para assinar a revista Catolicismo envie um e-mail para catolicismo@terra.com.br

https://www.abim.inf.br/natal-e-o-bom-combate-como-condicao-para-uma-autentica-paz-na-terra/

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sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

ORLANDO GOMES: UM JURISTA CRONISTA – Cyro de Mattos

 


Orlando Gomes: um jurista cronista

Cyro de Mattos

 

         Os alunos gostavam de dizer de boca cheia, a expressão feliz no rosto, que aquela era a gloriosa Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia. O prédio ficava na Rua Direita da Piedade, em frente, no diminuto largo, o gesto em bronze do jurista Teixeira de Freitas, a observar os alunos que entravam para a aula na manhã. Os professores eram senhores de vasto saber jurídico. Uns faziam que os alunos respeitassem aquela faculdade de tradição valorosa, outros com a sua maneira de dizer o direito que a amassem. Entre eles, havia Orlando Gomes, professor de Direito Civil. Era um autor respeitável no circuito nacional, à época publicara obras de Direito Civil, que sobressaíam de sua vocação entre os talentosos juristas baianos.      

          O curso de Direito Civil durava quatro anos.  Para cada ano era estudada uma das ramificações desse direito. Não havia aluno que não quisesse estudar Direito Civil com o professor Orlando Gomes durante os quatro anos. Era uma dádiva ser aluno daquele professor elegante, dicção objetiva, poder de síntese e densidade atraentes. Fazia sem esforço que as aulas se tornassem sedutoras, durante o ano ninguém pensava em faltar a uma delas, lamentando quando isso acontecia por motivo alheio à vontade.   

          A razão do moço que veio do interior logo tomou conhecimento que o Direito é uma das maiores conquistas do ser humano. Sem essa hora não existe de fato gente humanizada, o cidadão condigno, mas o regresso na escala biológica onde prevalece o instinto animal na prática invariável dos atos com base na lei do mais forte.

          Havia chegado a hora do professor de Direito Civil se aposentar, guardar suas ferramentas de ensino na gloriosa faculdade. E assim, no veraneio imposto pela passagem da vida, viria acontecer o cronista. De crônica em crônica, publicada no “Jornal da Bahia”, nos anos 1960 e 1970, o estilo não jurídico do autor foi revelando um baiano bom cronista. O autor no final da sua atividade como cronista alcançava a marca de quem havia escrito 140 textos do gênero.

         Crônicas sobre o seu amor à Bahia, a sua história, os seus velhos mestres, o Carnaval ontem e hoje, o racismo, o futebol, a oratória decadente do bolodório, os advogados, a Justiça e o Direito, entre tantas que fluem no estilo sóbrio.  Em algumas fica claro que os homens da geração do cronista tinham dificuldades de entender o mundo, que passava ligeiro, por mais aberto que seja o espírito, mais ansiosa a vontade de compreendê-lo, como pasmo se dizia. 

          Essas crônicas foram reunidas agora no alentado volume Orlando Gomes, o cronista. Percebe-se em algumas que o tempo passageiro é flagrado na Bahia com seu direito de sambar, caminhar por novas ruas do mundo onde foi introduzido o homem audiovisual modelado pela telecomunicação, formatado em seu psiquismo, educação e relações sociais. O cronista com conhecimento de causa toca as faces nostálgicas da velha Salvador, exibe a cidade que não mais existia com a pura alegria de viver de sua boa gente. Ninguém mais queria conhecer o outro por prazer.

          Em “Papo de Folião Aposentado”, no tom consolador, conclui que o carnaval de ontem já era, o corso de automóveis com famílias aplaudindo nas calçadas não passava de evocação de cafonices. Estava convencido de que não foi mesmo o folião aposentado que mudou ao correr da vida. O babado, em seu cometa ululante e feérico, “atrás do qual centenas de foliões pulam por pular e arrastam o que encontram pela frente”, é que era outro.

          Lírico, observador, reflexivo, opinativo. Cronista que recolhe os estados emotivos da vida em sociedade, extraindo das cenas cotidianas o pretexto que resulta no texto informativo com equilíbrio e devaneio.  Cultiva a crônica com o engenho de ensaísta, que inspirado fere com humor a mudança dos costumes, expede juízo acerca de temas como o amor, a idade avançada como virtude acumulada de saber, o preconceito contra as mulheres, a euforia das domésticas, a utilidade das novelas de televisão, as drogas e a violência. Crônicas para todos os gostos como resultado de uma experiência de vida bem vivida. 

          À sombra das lembranças que acendem o pensamento emotivo, às vezes revelam   a maneira apropriada para se regressar ao passado, reconstruindo-o com pedaços felizes, momentos generosos da cidade de beleza antiga na canção da vida. Com uma conversa simples, pedem atenção para o perene das coisas, pessoas, costumes, situações, logrando trazer para as páginas do livro agora a notícia efêmera que pertence ao jornal. 

          O cronista tem uma visão tranquila de ver o mundo. Distingue-se na escritura que prefere recriar com emoção e razão situações ao invés de recorrer à mera transcrição dos fatos. Assim, ainda que tardio, fez descansar o jurista de saber e ensino notáveis.  Gosta de se apresentar com humor, diverge quando a cena se lhe mostra inconsequente, mas sempre querendo conversar com o mundo, de maneira lúcida, serena, numa condição que lhe é necessária, faz parte de seu caráter revestido das essências da vida. Isso certamente fará com que o leitor comente que em bom momento não ficou o veranista esquecido dentro do jurista.

 

*Orlando Gomes, o cronista, 140 crônicas de Orlando Gomes, prefácio por Otávio Luiz Rodrigues Jr., organizador Rodrigo Moraes, EDUFBA, editora da Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2021.

 

**Cyro de Mattos é ficcionista, poeta, ensaísta, cronista, autor de literatura infantojuvenil. Editado e premiado também no exterior. Autor de 55 livros pessoais. Membro da Academia de Letras da Bahia, foi aluno do professor Orlando Gomes, que ocupou a cadeira 16 da instituição.

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MARIA GENEROSA – Nelson de Faria



 Maria Generosa

                                        “...aquele que dentre vós está sem pecado,

                                           Seja o primeiro que lhe atire uma pedra”.



          “É como estou contando, moço. Às brutas, não, porque ninguém sojiga minha vontade. Mais, porém, numa conversa bem conversada a gente topa tudo, sem receber tostão, sem nada, que o dinheiro inté, muitas vezes, sapeca as mãos da gente. Pra quê dinheiro, sô, quando o sujeito é bem-falante, palpitoso, que faz a gente se derreter toda? Pra quê misturar as coisas boas que a vida dá pra gente com essa porcaria de dinheiro, que a gente tem quando não precisa e só carece dele quando a gente não tem? Não gosto de mangar de ninguém, não carrego soberba comigo e nem tenho implicância com os mais. Qualquer vivente, filho de Deus, tem resplandor nas minhas ideias mesmo que seja um tiquim só. Os bichins de Nosso Senhor, os que não fazem mal a ninguém, inté eles todos, são coisas do   meu bem-querer. Borboleta e passarim, pra falar só dos dois, vosmecê já prestou atenção nas bonitezas deles? Quem é que não gosta de coisas assim? Vosmecê se ri, achando que eu sou diferente das outras? Mais, porém, não está me debochando, né mesmo? Muitas das tais que nem eu, que andam por aí especulando a vida dos outros, eu maldo, não vieram ao mundo para a vida desinfeliz que Deus deu pra elas. Estragam o ofício, sujam o nome limpo das famílias delas e querem emporcalhar as companheiras. Caíram na vida por bestagem delas ou sem-vergonheira de homem sem coração. Depois da primeira cabeçada atolam o corpo na sujeira. Não se dão ao respeito, desvalorizam a classe.

            Vou contar uma coisa pra vosmecê: foi Sêo Cantídio, cometa afiançado, rapaz de muitas letras e muitas falas bonitas – o homem mais senhor que já vi na minha vida – quem me explicou muitas dessas coisas do mundo. A gente se embelecava com o cujo, logo na primeira hora, sem dar fé do que estava acontecendo, sem acreditar que se amarrava ao danado. Sêo Cantídio protegia e alteava a criatura que andasse com ele. No fim, a gente virava escrava, só ouvindo a boniteza do palavreado dele. Pra mostrar que a vida que a gente leva não é assim tão condenável, contava casos acontecidos com princesas e rainhas de outras eras, criaturas das terras dos gringos e outras da nossa terra também.  De uma ensinança de invejar professoras, mostrava, nos livros, retratos de muitas mulheres e falava de suas sem-vergonhezas, seus feitiços, mandando e desmandando nos homens que imperavam antigamente. Quer saber de uma coisa, moço? Umas eram bonitas, de verdade, que nem cromos; outras, que nem nós mesmas... Vosmecê não quer tirar uma fumacinha, aqui, no meu cigarro? Diz que faz mal, porque sofre dos peitos, é? Me desculpe. Como estava contando: decorei o nome de muitas que estão nos livros e sei as malucagens que elas fizeram pra dominar reis e imperadores. Me diga, agora, vosmecê: essas criaturas, feias ou bonitas, são ou não são que nem a gente? Sêo Cantídio me mostrou um livro, desses de capa preta, grandão, pesado, abriu ele e leu para nós, para mim e Celestina – a Celeste, que amaridou com Sêo Zé Tertuliano, minha amiga mais chegada – uma porção de estórias, adonde a vida  e criaturas que nem eu e Celeste é inté engrandecida. A tal Rainha de Sabá,  para exemplo, fez coisas com o rei Salomão... Bem, nem é bom se recordar. Sêo Cantídio  leu os versos que o tal Rei escreveu, louvando pra danar o corpo dela, não foi assim? O rei explicava tudo tão direitinho, tão bem explicado mesmo, que a gente ficava maginando, sentindo uma gastura dos diabos remordendo dentro da gente. Inté nossos olhos ficavam marejando...

          E aquelas estórias das “noites mil”? Vosmecê diz que estou errando no nome, que é Mil e Uma Noites? Pois seja! Vosmecê já leu coisas mais doidas do que aquelas? E a tal de Salomé, que mandou cortar a cabeça do santo? E as tais Lucrécia e Messalina? Virge, que criaturas desapiedadas! E as madamas, imperadoras da França, monarcas de Roma? E aquela danadinha lá do Egito, que deu os peitos pra cobra morder? Já se viu?! Vosmecê não aceita mesmo um cigarrinho? Uma tragadinha só, toma, não vai fazer tanto mal... Que nem Sêo Cantídio, lhe juro, sem agravar os mais outros homens, nunca vi igual! Ele fez nós duas, eu e Celeste, descobrir o valor do nosso ofício e provou que nós espanamos do mundo as doideiras dos homens. Jurava que, sem a gente, o número de malucos seria mais grande do que é; e que também, no meio das famílias, as desgraças seriam mais desgraçadas do que essas desgraças que aí estão, e que a gente sabe delas por ouvir dizer...

          Acho que Sêo Cantídio tinha razão. Quando a gente duvidava do que ele dizia, ficava assim, do olhos pregados na nossa cara, naquele jeitão de quem sabe muito bem o que falava. Se ria todo e perguntava, com a cara mais lavada: “Como foi, então, que o mundo se encheu de tanta gente, se, no começo dele, era só um casal? Me responda, anda!” É... pensando bem, ele tinha razão. Por exemplo: numa cidade porqueira que nem esta nossa, se não fosse eu e Celeste – pra não falar de umas quatro mais, que fazem lá os seus benefícios particulares, às escondidas – como é, pergunto, que os homens se desapertavam, os viúvos se consolavam, os pelancos apendiam? Me diga.

          Despois que Sêo Cantídio leu para nós o que escrivinharam nos livros, carrego minha cabeça bem alevantada, bem nos altos. Não abaixo meu cangote pra ninguém montar nele. Celeste, hoje, é também que nem eu. Ela já foi moça-de-padre – sabe? – No Calhau, logo depois que ela saiu de casa. Os ignorantes boquejam que ela vira mula-sem-cabeça, quando chega a coresma. Vira nada! Tudo inzona das bobas, que nem á-bê-cê soletram direito. Ela morou comigo um par de anos. Nunca vi nada que condenasse minha amiga. Ela me disse, um dia, sem remorsos naquela cara bonita: “Que mal faz gostar a gente de padre, se eles são homens também que nem os outros?”

          Eu não rezo na mesma cartilha, nhor não. Tenho cá pra mim que isso não é direito, não por medo de virar mula-sem-cabeça, não. Mais, porém, porque, no mundo, tem bastante dos outros homens desimpedidos. A gente não carece usar os proibidos, né mesmo? Não condeno minha amiga porque ela gosta de esquisitar nosso ofício, isso não. O que é do gosto regala a vida, diz o vulgo, e eu acho que tá certo. Para acalmar minhas dúvidas, perguntei, uma vez, ao Doutor Minervino, o juiz de direito – quando a dona dele andou de resguardo -, se Celeste era criminosa porque apreciava aquilo. Ele se riu da indagação, e falou: “Não, Generosa, a lei não fala dessas coisas; e, quando a lei não escogita – penso que ele falou assim mesmo, es-co-gi-ta - palavra danada de difícil! – é porque o ato não é criminoso”. E o Doutor Minervino é homem sem, porém, de muita sabença. Mioludo que nem Sêo Cantídio. Fala por aí – as donas sem caridade no coração delas – que a gente é de vida fácil... Vida fácil, pois sim! Bestagem delas, pura bestagem.

          Digo e confirmo pra vosmecê: já andei nos braços de homem pobre, inté de criaturas desvalidas, de pé no chão e camisa rasgada, mais, porém, de corpo limpo. Vosmecê me pergunta se foi de graça? Nhor sim, de graça! Porque achei que era caridade que eu fazia. Abraços e boquinhas de sujeitos ricos, posudos, desses que acham que a gente, por ser uma das tais, é obrigada a aceitar qualquer um, desses fulanos sem coração, já repeli muitos.  Sem malquerença, sem agravar os cujos, tiro o corpo fora com desculpa de doenças, e o mais. Vosmecê, vê-se logo, não é desses, sei que não. Conheço vosmecê de vista, em desde que aqui chegou. Não desconheço que é doutor formado em medição de terras. A família de sua dona, conheço ela toda, porque é gente daqui mesmo. Me contaram que vosmecê não é moço de riquezas, que nem seu sogro. Cochicham por aí que vosmecê inté já cuspiu vermelho, por via de doença-do-peito. Que é que a gente não sabe nesta terra pequenina? Vosmecê vai me relevar a pergunta, que deixa a gente meio desacertada: me contaram que sua dona tem medo de tísica, e é por isso que vosmecê vive assim, desarvorado, é mesmo? Pois assunta, nêgo: bota sua cabeça, aqui, no meu ombro, estala as bicotas que quiser nos cabelos, no rosto, no meu cangote. Não! Na boca, não, por via do entojo que me dá´...”

  

(BAZÉ – ESTÓRIAS SERTANEJAS)

Nelson de Faria

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O escritor NELSON DE FARIA

Julgado pela crítica brasileira:

 

“Não conheço na moderna literatura regionalista brasileira nada melhor do que a prosa desse mineiro. As narrativas são de um escritor plenamente realizado na arte do conto, dramático, poético ou pitoresco, apresentando os “fatos” e os tipos com uma segurança e um sabor que fazem o encanto da leitura.”

RAUL LIMA       

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