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segunda-feira, 12 de julho de 2021

ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS LANÇA SEGUNDO EPISÓDIO DO CICLO DE PODCASTS INTITULADO "LITERATURA BRASILEIRA NO MUNDO"


A Academia Brasileira de Letras prossegue com o ciclo de podcasts "Literatura Brasileira no Mundo". A emissão traz a visão dos Sócios Correspondentes da ABL sobre a presença da literatura brasileira em diferentes países do mundo. O segundo episódio, que será disponibilizado ao público no dia 14 de julho, a partir das 16h, foi gravado pelo Sócio Correspondente Leslie Bethell. A apresentação do episódio e a coordenação do ciclo são feitas pelo Acadêmico Antônio Torres.

Leslie Bethell, historiador inglês, é atualmente diretor do Centre for Brazilian Studies da Universidade de Oxford, na Inglaterra. Antes, foi diretor do Centro de Estudos Latino-Americanos, da Universidade de Londres. Seu principal trabalho, como acadêmico, foi a coordenação e edição da monumental Cambridge History of Latin America, com 11 volumes publicados desde 1984, e um grande número de publicações derivadas. Além de editar a obra, o prof. Bethell é autor e co-autor de inúmeros capítulos que fazem parte dela. Como as outras histórias de países com o selo da Cambridge University Press, esta obra tornou-se a principal referência internacional para a história da América Latina. Pela cuidadosa pesquisa, o livro sobre a ação britânica na abolição do tráfico de escravos para o Brasil tornou-se um marco historiográfico, tanto no que se refere ao tráfico como às relações entre o Brasil e a Grã-Bretanha. Em toda sua carreira, o professor Bethell manteve estreito contato com o Brasil. O Centro de Estudos Brasileiros da Universidade de Oxford, que o prof. Bethell dirige, é um importante ponto de referência, contato e intercâmbio entre especialistas brasileiros, ingleses, e de outros países, em diversas áreas do conhecimento – economia, história, educação, ciência política, artes -, sendo responsável também pela realização de eventos acadêmicos, científicos e culturais que ajudam a promover a cultura e a ciência brasileira no Reino Unido.

Todos os podcasts gravados ficarão disponíveis no site da Academia, assim como nas plataformas de streaming Spotify, Apple Podcasts, Deezer e Castbox.

12/07/21

https://www.academia.org.br/noticias/academia-brasileira-de-letras-lanca-segundo-episodio-do-ciclo-de-podcasts-intitulado-0

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EMENDA PIOR QUE O SONETO - Major-Brigadeiro Jaime Rodrigues Sanchez


Senhor Omar Aziz. Assisti atentamente sua entrevista na CNN Brasil, onde o senhor buscou com seu linguajar dúbio e vulgar tapar o sol com a peneira, depois de tentar enxovalhar a imagem das Forças Armadas, uma instituição que desde o início da sua existência dedica-se exclusivamente a servir à Pátria e aos cidadãos brasileiros.

Justamente o senhor, membro de uma instituição que tem uma reprovação quase unânime da sociedade, se arvora de apedrejador esquecendo-se do seu teto de cristal.

Esqueceu-se também de que enquanto o senhor tomava whiskies e vinhos importados e selecionados com caviar, os heróis das três Forças (como disse o senhor mesmo nessa entrevista, tentando amenizar sua ofensa) dedicavam sua juventude e de suas famílias a arriscar suas vidas enfrentando todos os perigos que oferecem as peculiaridades da região amazônica, principalmente a malária e outras doenças tropicais, contra as quais tomavam Ivermectina, Cloroquina e todos os tratamentos preventivos e precoces que hoje Vossas Excelências demonizam para tentar atingir indiretamente o Presidente da República.

O senhor atacou SIM a honra de todos os militares vivos, da ativa e da reserva, ao completar seu raciocínio com a comparação de que os Presidentes Geisel e Figueiredo morrerem pobres.

Os militares, considerando genericamente o nosso universo, não obrigatoriamente morrem pobres, mas, seguramente, os que atingem melhores condições de vida o fazem com o fruto do seu suor e planejamento de vida, diferentemente da classe que o senhor representa.

Sabemos que temos ovelhas negras, mas em quantidades desproporcionalmente pequenas que não significam desgaste na credibilidade da instituição.

Como disse o Comandante da Força Aérea Brasileira em sua entrevista ao jornal O Globo, como resposta às suas infames declarações, “nós não somos lenientes com desvios”. Ele próprio exemplificou que foram expulsos sete oficiais por envolvimento em atividades ilícitas.

Essa conduta institucional é alicerçada em uma doutrina inarredável dos princípios calcados no juramento inicial do militar ao ingressar na Força e num Código de Honra que se define pelo lema da CORAGEM, LEALDADE, HONRA, DEVER E PÁTRIA.

Infelizmente, a prática dessas cinco palavras, que em diversos países representam um exercício natural de cidadania, são aqui diariamente vilipendiados pelas mais altas autoridades da República, que seriam os responsáveis por legalizar, implementar e zelar pela sua adoção.

A despeito dos muitos anos de ausência de confrontos armados e da pequena probabilidade de envolvimento brasileiro em conflitos internacionais, exceto em missões de paz da ONU, o prestígio das FFAA permanece inabalável, refletindo a excelência da sua formação ética e profissional, e graças aos relevantes serviços prestados à sociedade, em todos os momentos críticos onde sua intervenção é requerida, tornando inócuas tentativas como as suas para denegrir esse conceito.

O DATAFOLHA, aquele mesmo instituto que distorcia as pesquisas na eleição passada e retoma agora a mesma linha de conduta, tentando derrubar a candidatura Bolsonaro, afirmou em junho de 2018: “as Forças Armadas foram avaliadas como a instituição mais confiável. Nove em cada dez (78%) declararam confiar nas Forças Armadas”.

Enquanto isso, senhor Aziz, mais eloquente do que os baixos índices revelados pelos mesmos institutos de pesquisa para a coletividade que o senhor representa é a forma como são referidos nas manifestações populares e o entusiasmo como são saudados em aparições públicas.

Lembrem-se: aquele que semeia pouco, também colherá pouco, e aquele que semeia com fartura, também colherá fartamente. (2 Coríntios 9:6)

 

BRASIL ACIMA DE TUDO, DEUS ACIMA DE TODOS


Major-Brigadeiro Jaime Rodrigues Sanchez

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domingo, 11 de julho de 2021

ITABUNA CENTENÁRIA, UM POEMA: Como Pássaro, fugi - Paulo Bezerra

 


Como Pássaro, Fugi

Paulo Bezerra

 

Como pássaro, fugi para a montanha,

fugi das ciladas, busquei esconderijos,

esqueci, cobri o rosto, da estranha

força que mantém os nervos rijos.

 

Atiram flechas, esticam arco e cordas

para tentar, em vão, reter-me o passo.

Rodeia-me, espreita-me a horda

que prepara, em cada trilha, a mim, seu laço.

 

Mas, como pássaro fugi, esguio e firme

trouxe, nas asas, teu ser e o pus a salvo

para que tudo que disse se confirme

e o teu corpo não seja mais o alvo.

 

Da blasfêmia, do ódio e do inimigo,

te escondi, junto a mim, em meu recanto.

Tendo você, a salvo, aqui comigo,

pra te curar a dor, secar teu pranto.

 

(somos, assim, feitos um pro outro)

 

 

(O ESTRO QUE ILUMINA O SER)

Paulo Bezerra

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PREFÁCIO 

 

            "Conheci Paulo, advogado, quando da realização  do primeiro Concurso para Juiz do Trabalho realizado pelo TRT de Alagoas, em 1992. Ansioso, esperançoso, nervoso, como todo candidato. Vinha da Bahia – terra de Carlos Coqueijo Costa, Orlando Gomes, J.J. Calmon de passos e José Augusto Rodrigues Pinto, trazendo, na bagagem, ao invés de roupas, livros, em busca de um ideal: ser juiz.

            Conheci Paulo, juiz, já em 1993. Vitorioso, realizado, feliz, pois como ele mesmo diria mais tarde, chegou a esta terra 'trazendo uma mala de esperança, de alegria e de luta'.

            De luta, porque estressado de uma maratona de 10 horas de estudos, durante dois anos inteiros.

            De alegria, porque finalmente, o filho de um caminhoneiro e de uma nordestina Severina, anualmente buchuda e doce por toda a vida, era Juiz. Esse nordestino também tão Severino.

            De esperança, porque todos os que se lançam em busca de algo e conseguem, se enchem de esperança para novos rumos.

            Conheci Paulo, poeta, em 1994, quando, ao receber o título de cidadão palmarino, deixou transparecer em seu discurso, inserido ao final  deste livro, o estro que lhe ia n’alma.

            Não é de admirar que um filho da terra de Castro Alves, Dorival Caymmi, Jorge Amado, Caetano Veloso e Dias Gomes, tenha percebido a poesia no ar, à sua volta, e dela sorvido.

          Um advogado, forma-se. Um juiz, instrui-se.

            Mas um poeta, nasce. Porque o poeta já trás no sangue, nos gens, a sensibilidade, a poesia.

           O poeta já nasce com olhos de poeta, com ouvidos de poeta, com alma de poeta.

            Paulo, poeta, certamente, herdou do seu pai, caminhoneiro, a beleza absorvida por este, nas muitas horas de solidão, quando vagava pelas paisagens das estradas.

          Paulo, poeta certamente herdou de sua mãe, doce por toda a vida, os cantos e encantos das muitas horas de suave colóquio, dela com o ser que lhe crescia no ventre.

          Não me cabem méritos nem reconhecimento público, para ser escolhido para prefaciar esta obra, a não ser o respeito e a admiração por esta mesma obra.

 

            É bom saber que, em tempos em que os homens andam cada vez mais esquecidos dos sentimentos, revela-se um novo poeta.

            É bom saber que, da mesma pena de onde brotam sentenças de direito trabalhista, brotam também poesias. Porque isto dá ao poeta a qualidade da poesia que não é mero sonho, mas traz a marca da experiência de vida.

            Dá ao juiz a qualidade de decidir, sem esquecer os valores mais sutis do sentimento, as questões mais humanas do ser humano. E dá ao leitor a oportunidade de ótimos momentos de reflexão, de devaneios, de divagação, enfim, da melhor poesia".

 

José Antônio Esteves Nunes


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PALAVRA DA SALVAÇÃO (236)



15º Domingo do Tempo Comum – 11/07/2021

Anúncio do Evangelho (Mc 6,7-13)

— O Senhor esteja convosco.

— Ele está no meio de nós.

— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Marcos.

— Glória a vós, Senhor.

Naquele tempo, Jesus chamou os doze, e começou a enviá-los dois a dois, dando-lhes poder sobre os espíritos impuros.

Recomendou-lhes que não levassem nada para o caminho, a não ser um cajado; nem pão, nem sacola, nem dinheiro na cintura. Mandou que andassem de sandálias e que não levassem duas túnicas.

E Jesus disse ainda: “Quando entrardes numa casa, ficai ali até vossa partida. Se em algum lugar não vos receberem, nem quiserem vos escutar, quando sairdes, sacudi a poeira dos pés, como testemunho contra eles!”

Então os doze partiram e pregaram que todos se convertessem. Expulsavam muitos demônios e curavam numerosos doentes, ungindo-os com óleo.

— Palavra da Salvação.

— Glória a vós, Senhor.

http://liturgia.cancaonova.com/pb/

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Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Pe. Roger Araújo:


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O discernimento de espíritos: problema da vida espiritual pessoal

Imagem: pexels.com

Falar em discernimento de espíritos é afirmar a possibilidade do Criador e criatura de se comunicarem e se compreenderem verdadeiramente. Existe uma linguagem que eles empregam quando se comunicam. Como compreender tal linguagem? Como podemos reconhecer a voz de Deus que nos é dirigida e responder a ela livremente? Existe um espaço de autonomia para o ser humano ao interno do grande desígnio divino?

Para os mestres da vida espiritual, tais perguntas soariam estranhas. Para estes, não há sentido em querer separar essas duas realidades. A relação entre Deus e o homem/mulher se realiza no Espírito Santo, a Pessoa Divina que os torna partícipes do amor do Pai pelo Filho. Esta participação, isto é, a presença do amor divino em nós, torna possível nosso acesso a Deus (1). Entre a pessoa humana e o seu Senhor existe uma verdadeira comunicação que, para ter a garantia da liberdade, se vale, com frequência, dos nossos pensamentos e dos sentimentos.

O discernimento faz parte da relação vivida entre Deus e o homem/mulher; mais ainda, é o espaço próprio onde podemos experimentar tal relação com Deus como uma experiência de liberdade, como uma possibilidade de uma criação continuada. Nesse ato, a criatura experimenta ser chamada a participar como cocriadora responsável pela própria existência. Experimenta a si como chamado/a a desvelar a si mesmo/a na criatividade da História que ele cria criando a si mesmo/a.

O discernimento é uma realidade relacional, tal como a fé. A fé cristã se funda em um encontro pessoal, pois o Deus que se revela se comunica como amor, e o amor pressupõe sempre o reconhecimento de um “tu”. Deus é amor porque é comunicação absoluta, capacidade de ser em relação eterna, seja no ato primordial do amor recíproco das três Pessoas divinas, seja na Criação. Por isso, a experiência da relação livre que experimentamos no discernimento não é nunca somente uma relação vertical entre nós e Deus, mas inclui também a relação com os outros e ainda a relação com a criação, a partir do momento em que entrar em uma relação autêntica com Deus significa entrar naquela ótica de amor que é uma relação vivificante com tudo o que existe.

O discernimento é a arte de compreender a si mesmo tendo em conta esta estrutura de conjunto, olhando-se a si na unidade porque se vê com o olho de Deus que enxerga a unidade de vida. É expressão de uma inteligência contemplativa, é uma arte que pressupõe o saber contemplar, ver a Deus.

Existimos porque Deus nos dirigiu a palavra, chamando-nos à existência para sermos seus interlocutores. A vocação nada mais é do que a Palavra pessoal que Deus dirige ao homem, imprimindo nele um caráter dialogal. A vocação é a plena realização do homem no amor, ao interno do princípio dialógico em que foi criado, tendo Deus como principal interlocutor.

O discernimento nada mais é do que a arte por meio da qual o homem aprende a compreender a palavra que lhe foi dirigida, palavra que abre diante dele um caminho a ser percorrido, para poder responder à Palavra (2). A vocação não é um fato automático, mas implica um processo de amadurecimento das relações, a partir daquela relação fundamental com Deus. É um progressivo ver a si mesmo e ver a História e perguntar-se como eu posso me dispor a me tornar parte da humanidade que Cristo assume, e através da qual assume também a criação toda, para entregar tudo ao Pai. Nesta descoberta progressiva do caminho a ser seguido, é relativamente fácil distinguir entre o que é injusto daquilo que não o é. Mas quando nos encontramos diante de possibilidades ambas boas, com que critério eu posso escolher aquela que se revela como a melhor? Isto é sem dúvida muito mais difícil! “Devo rezar mais ou devo trabalhar mais?” “O que eu devo me tornar na vida?”.

De onde vem a dificuldade? Poderíamos responder lembrando o provérbio popular que afirma que “nem tudo o que é bom para um é necessariamente bom para os outros”. Não existe uma santidade genérica. Cada um deverá buscar a sua própria estrada. A razão disso é porque Deus chama cada um pessoalmente. Claro que existem preceitos gerais que todos nós devemos viver, mas tais regras gerais serão colocadas em prática por cada um de um modo diverso. O plano de Deus contém para cada pessoa um projeto de vida pessoal (3).

Discernir pouco a pouco o plano de vida pessoal que Deus tem por mim, eis a finalidade dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio! Trata-se de buscar a mesma atitude que Cristo adotou com relação ao seu Pai: “Que seja feita a tua vontade!”. Atitude que Ele nos ensinou quando nos ensinou a rezar o Pai-Nosso (Lc 22,42; Mt 6,10).

Tarefa difícil, se quisermos impor limites ao nosso querer desde o início. Assim que pertence ao discernimento dos espíritos o romper, antes de mais nada, com todo apego à vontade própria, libertar-nos de tudo o que nós queremos por nós mesmos a fim de que nos tornemos livres para poder dizer com o Cristo: “Não seja feito o que eu quero, mas o que tu desejas!” (Mc 14,36). A este ponto é preciso ser livres interiormente para poder abraçar a vontade do Pai.

Mas mesmo depois de encontrada, esta vontade do Pai deve continuar a determinar a nossa vida para sempre. Em circunstâncias que serão mutáveis e de acordo com uma evolução pessoal, deveremos vigiar para que a decisão tomada permaneça sempre fiel e seja ainda expressão da vontade de Deus. A escolha que foi abraçada de acordo com Deus não deve somente trabalhar a nossa vida como um simples resultado ao qual se chega, mas como se fosse um programa de vida, ela deve agir, em primeiro lugar, como uma disposição de espírito, uma atitude de liberdade interior orientada para Deus, numa disponibilidade sempre renovada de dobrar-se à vontade do Pai. Poderíamos nos perguntar: como descobrir positivamente o que o Pai quer? É aqui que mergulhamos em cheio naquilo que Inácio insiste tanto ao longo dos seus Exercícios Espirituais: através de um conhecimento interno de Cristo! É Nele que o Pai se tornou visível: “Quem me vê, vê o Pai!” (Jo 14,9).

Por essa razão, quem quer fazer uma escolha de vida, guiado por Inácio, precisará empenhar-se em uma sequência de contemplações onde só uma coisa importa: conformar-se com Cristo. Trata-se de saborear internamente as coisas em Cristo (cf. EE 2). Considerando o Cristo em cada contemplação, somos chamados a tomar do mesmo alimento do Filho, isto é, “fazer a vontade do Pai, que me enviou, e cumprir a sua obra” (Jo 4,34).

Para nossa consideração: Como temos vivido nossa relação dialogal com o Senhor? Como podemos avançar na conformação de nossas existências à vida de Cristo? Peçamos ao Senhor a graça de uma maior liberdade interior nas nossas escolhas!

 


Alfredo Sampaio Costa SJ é professor e pesquisador no departamento de Teologia da FAJE

 

In: site da FAJE 

 https://centroloyola.org.br/revista/outras-palavras/espiritualidade/2365-o-discernimento-de-espiritos-problema-da-vida-espiritual-pessoal

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sexta-feira, 9 de julho de 2021

PEDAÇOS DE VIDA JAMAIS DESVENDADOS - Ignácio de Loyola Brandão

 


No final dos anos 1950, em Araraquara, Mister Pimenta, professor de inglês, teve um gesto generoso. Toda terça-feira à noite, ele dava uma aula gratuita de reforço de inglês. Classe lotada. Por semanas, lá estive, por interesse na língua e em uma loirinha, a Gilda. O ritual da paquera, na época chamado flerte, era longo, exigia paciência. Em geral, começava no footing, com as mulheres caminhando na calçada entre os dois cinemas e os homens parados no meio-fio. Olha que olha, olha que olha, até que o olhar era correspondido. O footing acontecia aos sábados e domingos. Primeira semana, segunda, terceira, um encontro era marcado e aí dependia de você. As aulas de terça-feira acabavam funcionando como um dia a mais para nos favorecer. Uma noite, consegui descer a escada ao lado de Gilda. Emocionado, sabia que aquela era a chance. Conversamos um pouco, elas tinham horário para regressar à casa, 10 da noite. A certa altura, consegui encaixar a frase, “gostaria de namorar contigo, parece que a gente vem se entendendo”. Ela pareceu constrangida: “Tem um problema, meu pai acha que é cedo para eu ter namorado. Também acho. Além disso, meu irmão disse que só vou namorar quem ele aprovar. Não me leve a mal”. Insisti – só eu sei o quanto me custou – e ela ficou firme: “Não”.

Na quinta-feira, fui ao cinema, já tinha começado a fazer crítica no jornal. Sentei-me atrás de três amigas de Gilda. Elas conversavam e então uma delas chamada Elide disse uma coisa tenebrosa. Nunca mais esqueci esse nome, Elide. Ela se virou para as amigas: “Sabem que o Ignácio quis namorar a Gilda? E ela disse ‘não, você é muito feio’. Disse na cara dele. E ela tem razão: quem vai namorá-lo?”. Não ouvi mais nada. Ser feio era estigma. Tempos difíceis, moralismo, severidade, pegava-se na mão depois de dois meses de namoro. Aliás, para terem ideia de como este país era, na década de 1970, quando fui à Primeira Feira Literária de Bento Gonçalves, Rio Grande do Sul, fiquei surpreso com o número de garotas que circulavam à noite. Um sucesso. Os livros eram atraentes? “Não”, me disse uma delas, “é que, com a Feira, nossos pais e irmãos nos deixam sair durante a semana”.

Voltando à Gilda, traumatizado, porque aos 16 anos tudo é drama, me recolhi, nunca mais me aproximei de nenhuma jovem. Amei várias, jamais souberam. Enfiei-me nos livros, no jornal, no cinema, queria ir embora, não ficar mais ali. Vim, fiz minha vida, esqueci. Contei rapidamente este episódio na Aula Magna que dei em minha cidade há duas semanas. A imagem de Gilda tinha voltado num repente. Indaguei da plateia (online): e se ela tivesse dito sim, eu estaria aqui, como estou, a dar esta aula como Doutor Honoris Causa pela Unesp, ou estaria a assistir à aula de um outro? O ‘se’ não existe, mas a fantasia sim, afinal sou ficcionista. A esta Gilda que me disse não, dediquei um livro, Dentes ao Sol. Não sei se ela viu, ficou sabendo. Teria ela dito este ‘não’ arrasador? Nem sei se está viva, sabe quem sou, o que faço. Será que se lembra do ‘não’?

Por que há de se lembrar? O assunto nada significava para ela. Doce e instigante mistério. Fui mais longe: e se ela estiver aqui neste auditório, viva, ou em casa me assistindo digamos, ao lado da filha? E esta se vira para a mãe e pergunta: “Veja só! Quem terá sido essa mulher que o rejeitou? E se tivesse sido você, mãe? Teria dito sim? Tivesse dito, ele hoje seria meu pai?”. Fascinantes estes rápidos recortes da vida jamais desvendados. Literatura funciona assim. Ou imaginei este ‘não’ e o incluí como realidade? A memória tem sua ironia, uma certa dose de crueldade, diz meu primo José Castelli, filósofo certeiro em tardes invernais.

O Estado de S. Paulo, 02/07/2021

 

https://www.academia.org.br/artigos/pedacos-de-vida-jamais-desvendados

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Ignácio de Loyola Brandão - Décimo ocupante da Cadeira 11 da ABL, eleito em 14 de março de 2019 na sucessão do Acadêmico Helio Jaguaribe.

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quinta-feira, 8 de julho de 2021

O CONHECIMENTO DE SI PRÓPRIO – Gibran Khalil Gibran


                     O conhecimento de si próprio

 

          E um homem disse: “Fala-nos do Conhecimento de Si Próprio”.

          E ele respondeu, dizendo:

          “Vosso coração conhece em silêncio os segredos dos dias e das noites.

          Mas vossos ouvidos anseiam por ouvir o que vosso coração sabe.

          Desejais conhecer em palavras aquilo que sempre conhecestes em pensamento.

          Quereis tocar com os dedos o corpo nu de vossos sonhos.

          E é bom que o desejeis.

          A fonte secreta de vossa alma precisa brotar e correr, murmurando, para o mar;

          E o tesouro de vossas profundezas ilimitadas precisa revelar-se a vossos olhos.

          Mas não useis balanças para pesar vossos tesouros desconhecidos;

          E não procureis explorar as profundidades de vosso conhecimento com uma vara ou uma sonda.

          Porque o Eu é um mar sem limites e sem medidas.

 

          Não digais: ‘Encontrei a verdade’. Dizei de preferência: ‘Encontrei uma verdade’.

          Não digais: ‘Encontrei o caminho da alma’. Dizei de preferência: ‘Encontrei a alma andando em meu caminho’.

          Porque a alma anda por todos os caminhos.

          A alma não marcha numa linha reta nem cresce como um caniço.

          A alma desabrocha, tal um lótus de inúmeras pétalas.”

 

(O PROFETA)

Gibran Khalil Gibran

 

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VIDA E OBRA DE GIBRAN (7)


          1931- Gibran morre em 10 de abril, no Hospital São Vicente, em Nova Iorque. Ele, que escrevera tantas páginas profundas sobre a vida e a morte, agoniza entre gemidos confusos, no decorrer de uma crise pulmonar que o deixara inconsciente.

          O adeus que lhe proporcionaram os Estados Unidos foi grandioso e comovente, e em 21 de agosto de 1931, os restos mortais do maior e mais célebre escritor e pintor do Mundo Árabe contemporâneo, chegaram a Beirute, e foram recebidos e acompanhados até Bicharre com manifestações oficiais e populares de proporções inusitadas.

          Foi enterrado na vertente de uma colina de silêncio e de beleza, num velho convento cavado na rocha, onde Gibran sonhava ir viver como anacoreta seus últimos anos.

          Seu túmulo transformou-se num lugar de peregrinação. Ao lado, o Comitê Nacional de Gibran edificou um museu onde são expostos algumas das suas belas telas e os seus livros em todas as línguas. Em cima do túmulo, esta simples inscrição: “Aqui entre nós, dorme Gibran”.

          Mas lá, na verdade, dorme somente seu corpo. Sua alma, difundida nos seus livros, serve de guia a milhões de leitores na mais fascinante de todas as viagens: a que leva o homem das trevas do egoísmo e da cegueira ao esplendor do dom de si e da compreensão.

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JAQUELINE - Cyro de Mattos

 


                                                Jaqueline

 Cyro de Mattos

  

A princesa e o príncipe Alfredo,

O homem e a mulher tantas vezes,

A amiga e o amigo nas vestes do dia,

A mãe e o pai desse filho, ó flor,

Abençoada no ventre do eterno.

O olho dela na imagem dele,

A foto do beijo mais completo.

E a chegada desse perfume

No lado de lá, agora no jardim

Do nosso bem-amado Galileu 

Para trescalar no ar sublime, 

Que me sabe como estou,

O coração a bater em saudade.

Custa-me dizer como prossigo

Dentro dessa hora inevitável,

Que me acena na distância

E quer fazer meu peito triste.  

 

(Dedico o poema Jaqueline ao poeta

 amigo Alfredo Pérez Alencart.

 Itabuna, Bahia-Brasil, 4.6.2021)

 

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Cyro de Mattos -Escritor e poeta. Primeiro Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia, Pen Clube do Brasil, Academia de Letras de Ilhéus e Academia de Letras de Itabuna. Autor premiado no Brasil, Portugal, Itália e México.

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