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sábado, 10 de agosto de 2019

10 DE AGOSTO: DIA DE JORGE AMADO – o robe de ouro


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(Rio de Janeiro, 1977 – o robe de ouro)


            Chega-se ao fim de uma batalha que durou oitenta anos, tantos quantos os da Academia*: as mulheres de agora em diante poderão se candidatar às vagas, ganhar a eleição, vestir o fardão com o peitoril de ouro. Como será o fardão das damas? Robe verde, pano de bilhar, ourama no parapeito, desenhado por Austregésilo**. Apesar da ameaça do robe, apoio com alvoroço a luta pela entrada das literatas, voto a favor da proposição de Osvaldo Orico***.

            Essa história de exclusão das mulheres dos quadros acadêmicos foi umas das salafrarices cometidas por Machado de Assis quando fundou a chamada Ilustre Companhia, não foi a única, sujeitinho mais salafrário nosso venerado mestre do romance.  Custou-lhe esforço chegar a branco e a expoente das classes dominantes, mas tendo lá chegado não abriu mão de nada a que tinha direito, culminou a carreira bem-sucedida de burocrata com a fundação da Academia: até hoje a preside, entronizado de sobrecasaca no pátio de entrada do Petit Trianon. Crítico entre amável e sarcástico da burguesia brasileira da época, da classe média alta, o mestre romancista; sustentáculo de seus privilégios e preconceitos, o cidadão Joaquim Maria Machado de Assis, marido de dona Carolina, casou-se com portuguesa.

            Estabeleceu ele próprio a relação dos fundadores, inscreveu os vetos. Nem boêmios - Emilio de Menezes ****só pôde ser eleito após a morte de Machado -, nem mulheres. Na época havia uma escritora de renome estabelecido - e merecido, vale a pena ler seus romances, Júlia Lopes de Almeida *****, impossível passá-la para trás, se ela protestasse seria o escândalo, como fazer para não colocá-la entre os quarenta ilustre titulares? Machado, o manipulador, deu a volta por cima, encontrou como impor o machismo. Barganhou com dona Júlia: ela ficava de fora, mas em troca ficaria de dentro, acadêmico de número, o marido dela, Filinto d'Almeida, escrevinhador de pouca valia. A romancista achou, com a razão, que o consorte precisava bem mais que ela dos bordados da Academia, cedeu-lhe a cadeira, a ela bastavam os romances. Com o quê Machado fechou de vez as portas do silogeu às saias femininas. Nem mulheres nem boêmios, mas teve vaga para jovem de vinte anos, quase inédito, Magalhães de Azeredo, dele se conhecia apenas páginas de louvor, aliás justo, aos livros do fundador da instituição. Também vem de Machado a tradição das cadeiras reservadas aos candidatos das diversas categorias do poder, cadeiras cativas do Exército, da Igreja, do Judiciário, das letras médicas: a tradição dos expoentes perdura ainda hoje. Escritores, uns poucos e nem sempre os melhores. Deixa pra lá.

            Certa quinta-feira, dia de sessão, na sala do chá testemunhei ácido debate entre Luiz Viana Filho e Magalhães Júnior a propósito de Rui Barbosa, alvo da crítica do rebarbativo Raymundo. A memória dos grandes homens, exemplo para a juventude, deve estar acima de qualquer restrição, branca de leite, limpa e polida de qualquer defeito, impoluta para a admiração da posteridade, arengava Luiz. Viu-me parado a escutar, olhou-me com o rabo do olho, sorriu-me, mas, político habilíssimo, não pediu minha opinião. O cidadão Machado de Assis, não o romancista, muito tem se beneficiado com a tese da memória pulcra dos grandes mortos.

            Na votação da proposta o que abriu as portas da Academia às mulheres, Hermes Lima surpreendeu-me: voto contra. Vendo  meu espanto, explica-me: isso aqui não passa de um clube de homens, Jorge, no dia em que entrar mulher nem isso mais será: nossa paz se terminará, a fofoca substituirá a convivência.

            Um jornal faz uma enquete às vésperas da decisão, pergunta qual das nossas beletristas (!) deve ser a primeira a envergar o fardão – perdão, o robe. Em minha opinião, digo ao repórter, nenhuma das nossas confrades merece mais a consagração, os pechisbeques (!) da Academia do que a poetisa - naquele tempo dizia-se poetisa, hoje poetisa é xingo  - Gilka Machado, figura singular em nossa literatura. Poetou sobre o desejo da mulher, a tesão pelo homem, o amor sem peias quando as outras reservaram o coito para os confessionários das igrejas: ousou quando a ousadia significava discriminação, repulsa, abjeção. Sugeri que as prováveis candidatas assinassem manifesto propondo aos acadêmicos o nome de Gilka Machado: mais que outra qualquer merece ser a primeira mulher a ingressar no fatal cenáculo. A sugestão caiu no vazio das vaidades, tampouco eu acreditava fosse avante, sou ingênuo, mas não tanto. As impacientes andavam pelos alfaiates, de figurino em punho, estudando o robe: ainda mais solene e triste do que o fardão.

*Academia Brasileira de Letras

**Austregésilo de Athayde, Presidente da ABL
***Osvaldo Orico (1901/1981), escritor
****Emílio de Menezes (1866/1918), poeta
*****Júlia Lopes de Almeida (1862/1934), romancista


Jorge Amado
(NAVEGAÇÃO DE CABOTAGEM)

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(Rio de Janeiro, 1968 – os mabaças)

            O filme de Fernando Sabino e David Neves, A Casa do Rio Vermelho, um dos doze documentários que a dupla dedicou a escritores brasileiros, tem vinte minutos de duração dos quais os senhores Carybé e Dorival Caymmi desperdiçam uns seis ou sete a dizer mal de mim, o mocinho da película.           

            Fernando e David foram à Bahia para a filmagem, os dois figurantes não estavam, exibiram-se depois, no Rio. Disseram horrores, que eu fazia e acontecia, inventada e produzia, pintava o diabo, amarrava o bode, criticaram-me as bengalas, os bonés e o bigode, as camisas coloridas, as bermudas, as sandálias.

           Assisto o filme, vejo os dois compadres fazendo minha caveira, no entanto sou o terceiro a formar com eles a trinca dos doutores do povo da Bahia, três obás de Xangô, senhores respeitáveis. Meus dois mabaças, Caymmi e Carybé, não merecem confiança, não são pessoas sérias, línguas de trapo, corações de ouro, a voz e a face da Bahia.

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JORGE AMADO - Quinto ocupante da Cadeira 23 da ABL, eleito em 6 de abril de 1961, na sucessão de Otávio Mangabeira e recebido pelo Acadêmico Raimundo Magalhães Júnior em 17 de julho de 1961. Recebeu os Acadêmicos Adonias Filho e Dias Gomes.



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sexta-feira, 9 de agosto de 2019

10 DE AGOSTO: DIA DE JORGE AMADO – a poeta e a fundação

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(Paris, 1992 – a poeta e a fundação)


            Da Bahia Rosane me envia o livro de poemas de Myriam Fraga, Os Deuses Lares, ilustrações de Calasans Neto. A dupla é imbatível, Calá nasceu para ilustrar a poesia de MYriam, os poemas e as monotipias são da mesma matéria, visceral.

            Leitor cativo de Myriam Fraga, tomo do livro e constado que seu canto atingiu a madureza, a densidade dramática, a sabedoria da palavra precisa e mágica. Que poeta, meu Deus! Que Deus a abençoe, o Deus da Fundação, o compadre Exu. Fuso e roca / roca e roca/ /tinjo e lavo /lavo com água e /mornos sais /o corpo /as feridos /na fímbria /no remoto  - vou parar senão transcrevo o livro todo, verso a verso.

           Nós o lemos juntos, Zélia e eu, não sei de prazer maior que o de ler poesia com a namorada, em conluio. Invadido de remorsos, acuso Zélia: a culpa é tua, foste tu a inventar a Fundação onde Myriam se encerra dia e noite no trabalho, na luta, na estafa, no planejamento, na realização, na busca mesquinha e heroica de dinheiro para poder levar avante a cultura , no afã de criar condições para a literatura e a arte na Bahia, para o estudo do romance brasileiro, pauta de afazeres pejada de problemas.

            Myriam teria escrito e publicado nesses anos pelo menos três  livros de poemas, sem falar no lazer abandonado, a casa de praia em Mar Grande, os fins de semana na fazenda, já não lhe sobra tempo para nada, vive amarrada às cadeias de mil dificuldades, carrega nas costas essa tal de Fundação, a tua Fundação. Zélia não se abala, diz estar certa que Myriam o faz com prazer, além de poeta é combatente, as dificuldades não a assustam, ao contrário, a seduzem. Quanto a poesia, que eu não me incomode, a poesia brota e resplandece, vive dentro de Myriam e nada a impedirá.

            Quando digo que Zélia é a responsável pela existência da fundação cultural estabelecida no Pelourinho, nascida da doação do de meu acervo literário leva meu nome, digo a verdade. Não fosse Zélia o acervo estaria a essa hora em universidade norte-americana.  

            Começara por me desfazer de minha biblioteca, nunca foi grande, mas eu já não tinha, fosse na Bahia, fosse no Rio, onde botar tantos livros. Passei a doá-los a bibliotecas públicas, muitos volumes foram para Lençóis Paulista onde funciona a Biblioteca Orígenes Lessa. A partir de certo momento, atendendo sugestão feita por Carlos Cunha, venho doando os livros a Biblioteca da Academia de Letras da Bahia. Guardo apenas uns poucos tomos, de minha preferência absoluta, mestres que me marcaram, amigos a quem quero, uns quantos álbuns, poucas centenas de volumes, bastam e sobram. Também o acervo se acumulava, onde guardar tanta papelada?

            Pesava eu propostas recebidas de universidades americanas, da Pensilvânia e de Boston, desejavam receber o acervo em doação, propunham-me zelar por ele, colocá-lo à disposição dos interessados em pesquisá-lo, criando para tanto, verbas e espaços. Eu testemunhara durante minha estada na Penn State University*, como tais universidades trabalham com eficiência e dedicação. Eu estava quase a decidir-me, Zélia se opôs com determinação a minha ideia de oferecer à organização estrangeira documentos, correspondência, livros, fotos, diplomas, a massa dos guardados: esse acervo só sairá do Brasil, da Bahia, se passarem por cima de meu cadáver, tem de ficar aqui, é o seu lugar. No decorrer de quase meio século de coabitação aprendi que não adianta discutir com Zélia, perco sempre, até agora não ganhei uma.

            O escritor José Sarney, na época Presidente da República, em cerimônia no Palácio do Planalto** instituiu a Fundação. Ao agradecer eu disse esperar que a casa não se transformasse num 
museu, fosse realmente centro de cultura para o estudo da literatura baiana e do romance brasileiro, trabalhasse em conjunto com os outros organismos culturais. Acrescentei que sendo na Casa apenas personagem, não me envolveria em sua administração nem no planejamento das tarefas. Por fim, referindo-me à doação por James Amado de escultura de Tati Moreno, coloquei a fundação sob a proteção, os cuidados de Exu, entregue ao seu desvelo.

           Sob a grande placa das três raças que se misturaram, os índios, os negros e os brancos, arte de Carybé, erguido diante da Casa, Exu preside o destino da Fundação, ali foi plantando o fundamento na noite de inauguração. Dos diversos axés e ilês vieram as mães e as filhas-de-santo para o canto e a dança em seu louvor. Antes o Presidente da República, acompanhado pelo Ministro da Cultura, Celso Furtado, pelo Ministro das Comunicações, Antônio Carlos Magalhães, pelo Governador do Estado, João Durval Carneiro, declara a Fundação inaugurada. Dom Timóteo aspergiu a água benta da Igreja Católica, o babalorixá Luiz da Muriçoca soltou a pomba branca do culto do candomblé, Casa do sincretismo e da miscigenação. No palco armado no largo desfilam à noite os músicos e intérpretes que, de uma ou de outra maneira, estão ligados a meu trabalho de escritor, foram comandados por Nilde Spencer, minha amiga, grande dama do teatro da Bahia. Mais de vinte mil pessoas lotavam o Pelourinho na noite da inauguração***. Ao lado de Waldir Pires, governador eleito, e de José Aparecido de Oliveira, governador de Brasília, assisti de uma janela ao começo da festa, não tive condições de ficar até o fim, o coração tem seus limites.

            Aqui nestas lembranças desejo apenas agradecer a todos e a cada um dos que concorreram para a existência e a atuação da Casa, são muitos. José Sarney que a instituiu, Antônio Carlos Magalhães, Celso Furtado, Waldir Pires, João Durval Carneiro, ministros e governadores, Lafayete Pondé Filho, presidente do Banco da Bahia, Renato Martins, da Odebrecht, Mario Gordilho, Germano Tabacov, reitor da UFBA****, que preside seu destino desde a instalação, os que compõem os Conselhos, os que nela trabalham: Rosane Rubim, Zilá Azevedo, Maria de Lurdes, cito apenas as que começaram com a Casa, ao poeta Claudios Portugal que inventou e dirige a revista Exu, órgão da Fundação. Quando me anunciou o projeto temi pelo futuro do organismo, a revista iria devorar-lhe o patrimônio, ser arauto da subliteratura, nunca cometi engano tamanho, a revista é uma beleza e não custa um centavo aos cofres magérrimos que Myriam administra.

            Diretor-executivo, Myriam Fraga moureja buscando solução para os problemas, não se queixa, não se abate por mais difícil pareça e seja a manutenção da Casa, a execução dos projetos. Myriam dirige a Fundação em poesia, em fuso e roca, no embruxedo, na fantasia, dona e comparsa, no esconjuro e na esperança, um ato de amor que ela repete a cada dia, a poeta Myriam Fraga.

            Agradeço também a Zélia: só passando sobre meu cadáver! Não fosse ela, a Casa não teria nascido, a papelada estaria nos States.


*em 1971
**Brasília, 1986
***maio de 1987
****Universidade Federal da Bahia


(NAVEGAÇÃO DE CABOTAGEM)

Jorge Amado

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(Rio, 1947 – semelhança)

            Médicos e doentes se atropelavam para ver passar Maria, a della Costa, esplendor de beleza: atravessa os corredores da maternidade, vem de visita a Zélia que na véspera dera à luz um menino, João Jorge.
            Enfermeiras vão buscar o infante no berçário e o trazem para o banho na presença da mãe feliz. Desnudam-no das fraldas, mergulham-no na água tépida. A atriz examina o corpo do recém-nascido, aponta:
            - Olha a piquinha dele... Igualzinha à do pai.

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JORGE AMADO - Quinto ocupante da Cadeira 23 da ABL, eleito em 6 de abril de 1961, na sucessão de Otávio Mangabeira e recebido pelo Acadêmico Raimundo Magalhães Júnior em 17 de julho de 1961. Recebeu os Acadêmicos Adonias Filho e Dias Gomes.



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quinta-feira, 8 de agosto de 2019

10 DE AGOSTO: DIA DE JORGE AMADO – as gulosas


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(Bahia, 1965 – as gulosas)


            Um ruído suspeito me acorda, apuro o ouvido, parece-me provir da sala de jantar. levanto-me evitando fazer barulho, saio do quarto, avisto luz acesa na cozinha. vou em passo de gato, surpreenderei o ladrão, a surpresa será a melhor arma, não tenho revólver em casa. Aliás nunca possuí nem usei revólver, na Câmara dos Deputados eu era o único parlamentar desarmado, me lembro do assombro de Silvestre Péricles de Góes Monteiro quando abri o paletó e ele constatou a ausência de pau-de-fogo em minha cintura: você é maluco.

            Na cozinha, o que vejo? Dona Angelina, mãe de Zélia, e minha mãe Lalu, envergando uma e outra camisolas de dormir como convém a viúvas idosas, chupam mangas - manga se chupa, não se come, caso se deseje fruir o prazer completo -, rostos lambuzados. O mel escorre dos lábios para o queixo, mancha as pulcras camisolas. Chupam as mangas com avidez e competência, o ruído que me pareceu suspeito procede das bocas das duas senhoras no gozo da fruta colhida no jardim da casa, mangas-carlotas suculentas.

            Regresso ao quarto, pé ante pé, para que as duas não me vejam, morreriam de encabulamento. Aproveitam a calada da noite para o pecado da gula, o sabor das mangas chupadas assim às escondidas torna-se divino. Lalu e Angelina estalam as línguas.

***
            Onde quer que eu chegue, nas comarcas do mundo, províncias e metrópoles, vilarejos, encontro mesa posta e escuto uma palavra amiga.

            Alguém me diz: li teu livro, companheiro, ri chorei, me comovi. Tereza Batista mudou minha vida, Pedro Arcanjo me ensinou o pensamento livre, a pensar por minha cabeça, aprendi com Quincas a não ser o outro e, sim, eu próprio, com o comandante Vasco Moscoso de Aragão troquei o medíocre pelo sonho, aprendi o amor com Gabriela e dona Flor dele me deu a medida exata: mais poderoso do que a morte. És escritor porque eu existo, teu leitor: chorei e ri, me emocionei ao ler teu livro.

          Onde quer que eu chegue tenho mesa posta e alguém me diz uma palavra amiga. esse o prêmio, a razão e o compromisso.


(NAVEGAÇÃO DE CABOTAGEM)
Jorge Amado

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JORGE AMADO - Quinto ocupante da Cadeira 23 da ABL, eleito em 6 de abril de 1961, na sucessão de Otávio Mangabeira e recebido pelo Acadêmico Raimundo Magalhães Júnior em 17 de julho de 1961. Recebeu os Acadêmicos Adonias Filho e Dias Gomes.

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PREMIADA POETA BRASILEIRA ESTREIA COMO CONTISTA - 14/08/2019


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DENISE EMMER convida para o lançamento do livro O cavalo cantor e outros contos, no dia 14 de agosto de 2019, próxima quarta-feira, a partir das 19 horas, na Casa da Leitura (Rua Pereira da Silva, 86 - Laranjeiras - Rio de Janeiro /RJ).

Atenciosas saudações,
Cláudio Aguiar
Presidente do PEN Clube do Brasil
Visite nosso portal: http://www.penclubedobrasil.org.br
E-mail: [/compose?to=pen@penclubedobrasil.org.br]pen@penclubedobrasil.org.br


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O cavalo cantor e outros contos


A premiada poeta Denise Emmer faz sua estreia como contista. A coletânea, editada pela Espelho D’Alma, traz 11 histórias em que a autora mergulha no realismo mágico. A obra chega às livrarias em agosto.

A carioca Denise Emmer é dos nomes mais importantes da poesia contemporânea brasileira. Uma constatação disso está nos 11 prêmios dados à autora, sendo dois deles concedidos pela Academia Brasileira de Letras (ABL): Olavo Bilac, em 1991, e o Prêmio ABL de Poesia, em 2009. Sem falar no respeito conquistado por ela entre grandes nomes como o do crítico literário Antônio Houaiss (1915-1999) e o do poeta e imortal Ivan Junqueira (1934-2014). Autora de 18 livros (15 deles de poesia, dois romances e uma memória romanceada), a escritora aventura-se agora por um gênero até então inédito para ela, o dos contos. Sua estreia no gênero dá-se com “O cavalo cantor e outros contos” (Espelho D’ Alma),  no qual reúne 11 histórias  cujas narrativas têm, em comum, o estilo conhecido como realismo mágico ou fantástico. O prefácio é do premiado autor Álvaro Alves de Faria, que também assina as ilustrações da obra, e a orelha é do poeta e ensaísta Cyro de Mattos. “O cavalo cantor e outros contos” chega às livrarias em agosto, com noites de autógrafos no Rio (14/08) e em São Paulo (22/08).

O realismo mágico consagrou-se na Literatura dos anos 1960 para cá. E tem no colombiano Gabriel Garcia Márquez (1927-2014) seu sumo pontífice. No Brasil, o estilo tem como principais representantes José J. Veiga (1915-1999) e Murilo Rubião (1916-1991). Mais recentemente, o moçambicano Mia Couto consagrou-se nessa seara. Na história da literatura é comum um autor tornar-se célebre por dominar bem um determinado estilo. O que não o impede de flertar com outros, não necessariamente demonstrando intimidade com eles. O que não é o caso de Denise Emmer. E isso é observado por Cyro de Mattos na orelha do livro. Após evocar os supracitados Veiga e Rubião, ele destaca o quão segura a escritora está no terreno do fantástico: “’O cavalo cantor e outros contos’ é um livro excelente. O seu realismo fantástico, de natureza poética, sobra na belíssima narrativa. É puro brilho de criatividade, rico nas imaginações que encantam”.

Se os contos são regidos pelo signo do fantástico, em relação aos temas, a autora mergulha fundo em questões que  acompanham – e afligem – a alma humana desde tempos imemoriais. “Denise percorre, com esmero, mundos diversos ligados à vida do homem”, atesta Álvaro Alves de Faria no seu prefácio, complementando em seguida: “um zelo quase sempre difícil de se encontrar na literatura brasileira atual”.

São questões como a morte, a falta de comunicabilidade entre os seres (pertinente nesses nossos tempos) e, claro, a solidão. Essa solidão, que, segundo Alves de Faria, “está impregnada em tudo e isso torna a linguagem muito mais apaixonante”. Se os personagens são desprovidos de nomes na sua grande maioria (as exceções são a anciã Alice e o cavalo que dá título ao livro, ora denominado Cinema, ora Morte), por outro lado, são personas plenas de idiossincrasias e características que fazem deles seres comoventes ou assombrosos. Em comum, todos únicos, como cada uma de suas tramas, elaboradas com maestria.

Mais sobre a autora:

Denise Emmer nasceu no Rio de Janeiro. É escritora e musicista. Estreou na Literatura com “Geração estrela”, em 1976, e desde então construiu uma carreira literária que abarca 15 livros de poesia e outros três em prosa (dois deles romances). É detentora de 11 prêmios literários, dentre os quais destacam-se o Prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA), ganho em 1990; o Prêmio Internacional José Marti, da Unesco, pelo conjunto da sua obra; e dois deles concedidos pela ABL: Olavo Bilac (1991) e o ABL de Poesia (2009). Seu livro “Lampadário” foi editado no Brasil (7 Letras, 2008) e em Portugal (Chiado, 2018). Como musicista e cantora, gravou diversos CDs, dentre os quais “Cinco movimentos e um soneto”, no qual musicou e canta poemas de Ivan Junqueira.

Serviço:

Título: “O cavalo cantor e outros contos”
Autora: Denise Emmer
Editora: Espelho D’Alma
Lançamento: agosto de 2019
Formato:  14 X 21cm
Número de páginas: 96
Preço: R$30

Mais informações:
Christovam Chevalier Comunicação

(21) 9 9177-4761 ou christovam.chevalier@gmail.com


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NEGRA SABINA - Cyro de Mattos


Negra Sabina
Cyro de Mattos


Cerâmica do piso brilhando. Móveis lustrados. Vidros sem um fio de poeira. Comida deliciosa, pratos variados, cheiro provocante, tempero divino.

Incomum disposição nos trabalhos de casa.

Outra não existia no mundo. A família elogiava. Nem ligava.

 Fechava a porta da cozinha. Não queria ver marido e esposa duelando na sala.  Nem pai com o filho. Batalhas acirradas.

Nunca quis ter seu homem. Pra que ter filho, pobre e preto? Carregar mais peso neste mundo? Bastava-se na sua cruz pessoal. Acostumada com o destino.  Doçura nunca lhe pertenceu neste mundo cheio de amarguras.
 
Tempão trabalhava para aquela gente fina. De cabelo louro, olho azul, pele branca como vela.

Um dia, a pergunta constante, ninguém sabia explicar o sumiço da foto.  Quem tinha feito aquilo?  A moldura vazia na parede. Sem o retrato do neto da patroa.  Procurou-se por todos os cantos. A patroa abriu, fechou gavetas.
 
Coisa estranha, intrigante.

Negra Sabina era empregada de confiança. Nunca tinha sumido nada no apartamento.

Então como foi acontecer?  “Se quiser, vá até meu barraco. É perto daqui. Procure lá.” Resposta da patroa, nervosa.: “O que é isso? Nunca falamos que foi você.”

Para que ia querer o retrato da criança loura, cabelos finos, olhos azuis como o mar?

Colocara o retrato do menininho no seio.

À noite no barraco. Diante da foto protegida por mãos generosas. Cantava baixinho:

Boi, boi, boi
Boi da cara preta
Vem pegar nenê
Que tem medo
De careta.

Igual como a tataravô fazia com o neném da sinhazinha. Na casa-grande do engenho.


Cyro de Mattos é escritor e poeta. Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz. Publicado em Portugal, Itália, Espanha, Alemanha, França, Dinamarca, Rússia e Estados Unidos. Premiado no Brasil e exterior. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia e de Ilhéus. Comendador da Ordem do Mérito do Governo da Bahia.

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quarta-feira, 7 de agosto de 2019

O ACADÊMICO, ESCRITOR, POETA E FILÓSOFO ANTONIO CICERO É O CONFERENCISTA DA SEGUNDA PALESTRA DO CICLO DE CONFERÊNCIAS “O QUE FALTA AO BRASIL?”

O Acadêmico e escritor Antonio Cicero faz a segunda palestra do Ciclo O que falta ao Brasil?, coordenado pela Acadêmica e escritora Rosiska Darcy de Oliveira. O tema será A implantação dos Direitos Humanos. O evento está programado para o dia 8 de agosto, quinta-feira, às 17h30min, no Teatro R. Magalhães Jr. (Avenida Presidente Wilson, 203, Castelo, Rio de Janeiro). Entrada franca.

A Acadêmica e escritora Ana Maria Machado é a coordenadora geral dos Ciclos de Conferências de 2019.

Os Ciclos de Conferências, com transmissão ao vivo pelo Portal da ABL, têm o patrocínio da Light.

Serão fornecidos certificados de frequência.

O Ciclo terá mais três conferências no mês de agosto, sempre às quintas-feiras, no mesmo local e horário: O amor pelo que somos, com o Acadêmico e cineasta Carlos Diegues no dia 15; Porque ficamos para trás, com o Acadêmico e economista Edmar Bacha no dia 22; e Um futuro pior que o passado? Reflexões na antevéspera do bicentenário da Independência, com o diplomata Rubens Ricupero no dia 29.

O ACADÊMICO

Antonio Cicero, escritor, poeta e filósofo, é autor dos livros de poemas Guardar (1996), contemplado com o “Prêmio Nestlé de Literatura”, A cidade e os livros (2002) e Porventura (2012), que recebeu o Prêmio ABL de Poesia, o Prêmio Jabuti de Poesia e foi finalista do Prêmio Telecom de Literatura. É também autor dos livros de ensaios filosóficos O mundo desde o fim (1995), Finalidades sem fim (2005), finalista do Prêmio Jabuti, e Poesia e filosofia (2012).

Organizou, ainda, o livro de ensaios Forma e sentido contemporâneo: poesia (2012) e, em parceria com o poeta Waly Salomão, o volume de ensaios O relativismo enquanto visão do mundo (1994). Com Eucanaã Ferraz, organizou a Nova antologia poética de Vinicius de Moraes (2003).

É autor de inúmeras letras de canções e tem como parceiros, entre outros, compositores como Marina Lima, Adriana Calcanhotto e João Bosco.

Em 2012, foi agraciado com o “Prêmio Alceu Amoroso Lima – Poesia e Liberdade”.

Leitura complementar
A Biblioteca Rodolfo Garcia disponibiliza seu acervo para pequisa e leitura de obras relacionadas ao tema desta conferência, como "O mundo desde o fim [texto] : sobre o conceito de modernidade", "A reconstrução dos direitos humanos : um diálogo com o pensamento de Hannah Arendt" e "Diálogo [texto] : Direitos Humanos no século 21".
Para consultar mais materiais como os citados, acesse o link abaixo e visite os "Levantamentos bibliográficos" realizados para este evento.



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10 DE AGOSTO: DIA DE JORGE AMADO – singularidade


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(Pequim, 1987 - singularidade)


           Em Pequim, Fan Weixin, tradutor para o chinês de livros de língua portuguesa, de brasileiros traduziu José de Alencar e Herberto Salles, traz-me exemplar de tradução de Dona Flor e seus dois maridos, edição modesta, porém decente, Fan está contente com a repercussão do romance da moça baiana.

            Folheio o volume, relembro cenas de amor, dona Flor e Vadinho, os dois na cama, a rosa-chá e a pimenta malagueta, desconfiado pergunto a Fan Weixin:

            - Como traduziste as patifarias de Vadinho?

            Os lábios do tradutor abrem-se num sorriso malandro, quase brasileiro:

            - Ao pé da letra.

            No fim desse mesmo ano hospedamos na casa do Rio vermelho um jovem casal de amigos chineses. Ele é Ho-Ping, filho de Eva e Emi Siao (Siao Sam), Eva fotógrafa alemã, Emi um dos poetas mais famosos da China, foi íntimo amigo de Maiakowski*, deputado, biógrafo de Mao, durante vários anos representante da China no secretariado do Conselho Mundial da Paz, na Tchecoslováquia. Ho-Ping, dito Pupsik, nasceu em praga, alguns meses antes de Paloma: pais bobocas, inventávamos no Castelo dos Escritores* futuro noivado entre os dois infantes. Eva e Emi regressaram à China, gramaram dezesseis anos de prisão durante a mal denominada Revolução Cultural, Emi saiu da cadeia muito enfermo, logo faleceu.

            Ela é Ting-Li, esposa de Ho-Ping, filha de Liu Chao Shi, que foi Presidente da República Popular da China, Secretário-Geral do Partido Comunista, liquidado politicamente e assassinado durante os anos infelizes do domínio da Banda dos Quatro – os assassinos inventaram que Liu Chao Shi morrera num desastre de avião.

            Jovem casal encantador, trocam pernas nas ruas da Bahia, adoram a cidade, o casario, a culinária, os mercados, o povo alegre cordial. Nos intervalos dos passeios, no Jardim da casa do Rio Vermelho, Ting Li lê Dona Flor e seus dois maridos em chinês e em inglês. Pergunto e o que acha das duas traduções. Pensa um pouco, responde:

            - Ambas são boas, gostei das duas. Em inglês a história é mais picante, em chinês é mais romântica. Para você ter uma ideia dá singularidade de cada uma: em chinês dona Flor chama Vadinho de volta com o coração, em inglês ela o chama com aquilo o que tem debaixo das calcinhas.

            - E como se diz em chinês aquilo o que ela tem debaixo das calcinhas?

            Tim lê sorri, encabulada, pronuncia uma palavra, soou-me linda, um trino de pássaro, me esqueci, que pena.


*Maiakowski (18903/1930, poeta soviético.
**Castelo de Dobris, perto de Praga, onde J.A. viveu com a família de 1950 a 1952.


(NAVEGAÇÃO DE CABOTAGEM)
Jorge Amado
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            “Nenhum de meus detratores, esses tantos que não perdem vaza para dizer mal de mim, sabichões cuja missão crítica é negar qualquer valor a meus livros, nenhum deles conhece tão bem minhas limitações de escritor quanto eu próprio, deles tenho plena consciência, não permito que me iludam os oropéis e os confetes.

            Sei também, de ciência certa, existir nas páginas que escrevi, nas criaturas que criei, algo imperecível: o sopro de vida do povo brasileiro. Não carrego vaidade, presunção, e sim, orgulho.”

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JORGE AMADO - Quinto ocupante da Cadeira 23 da ABL, eleito em 6 de abril de 1961, na sucessão de Otávio Mangabeira e recebido pelo Acadêmico Raimundo Magalhães Júnior em 17 de julho de 1961. Recebeu os Acadêmicos Adonias Filho e Dias Gomes.

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