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sábado, 10 de agosto de 2019

10 DE AGOSTO: DIA DE JORGE AMADO – o robe de ouro


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(Rio de Janeiro, 1977 – o robe de ouro)


            Chega-se ao fim de uma batalha que durou oitenta anos, tantos quantos os da Academia*: as mulheres de agora em diante poderão se candidatar às vagas, ganhar a eleição, vestir o fardão com o peitoril de ouro. Como será o fardão das damas? Robe verde, pano de bilhar, ourama no parapeito, desenhado por Austregésilo**. Apesar da ameaça do robe, apoio com alvoroço a luta pela entrada das literatas, voto a favor da proposição de Osvaldo Orico***.

            Essa história de exclusão das mulheres dos quadros acadêmicos foi umas das salafrarices cometidas por Machado de Assis quando fundou a chamada Ilustre Companhia, não foi a única, sujeitinho mais salafrário nosso venerado mestre do romance.  Custou-lhe esforço chegar a branco e a expoente das classes dominantes, mas tendo lá chegado não abriu mão de nada a que tinha direito, culminou a carreira bem-sucedida de burocrata com a fundação da Academia: até hoje a preside, entronizado de sobrecasaca no pátio de entrada do Petit Trianon. Crítico entre amável e sarcástico da burguesia brasileira da época, da classe média alta, o mestre romancista; sustentáculo de seus privilégios e preconceitos, o cidadão Joaquim Maria Machado de Assis, marido de dona Carolina, casou-se com portuguesa.

            Estabeleceu ele próprio a relação dos fundadores, inscreveu os vetos. Nem boêmios - Emilio de Menezes ****só pôde ser eleito após a morte de Machado -, nem mulheres. Na época havia uma escritora de renome estabelecido - e merecido, vale a pena ler seus romances, Júlia Lopes de Almeida *****, impossível passá-la para trás, se ela protestasse seria o escândalo, como fazer para não colocá-la entre os quarenta ilustre titulares? Machado, o manipulador, deu a volta por cima, encontrou como impor o machismo. Barganhou com dona Júlia: ela ficava de fora, mas em troca ficaria de dentro, acadêmico de número, o marido dela, Filinto d'Almeida, escrevinhador de pouca valia. A romancista achou, com a razão, que o consorte precisava bem mais que ela dos bordados da Academia, cedeu-lhe a cadeira, a ela bastavam os romances. Com o quê Machado fechou de vez as portas do silogeu às saias femininas. Nem mulheres nem boêmios, mas teve vaga para jovem de vinte anos, quase inédito, Magalhães de Azeredo, dele se conhecia apenas páginas de louvor, aliás justo, aos livros do fundador da instituição. Também vem de Machado a tradição das cadeiras reservadas aos candidatos das diversas categorias do poder, cadeiras cativas do Exército, da Igreja, do Judiciário, das letras médicas: a tradição dos expoentes perdura ainda hoje. Escritores, uns poucos e nem sempre os melhores. Deixa pra lá.

            Certa quinta-feira, dia de sessão, na sala do chá testemunhei ácido debate entre Luiz Viana Filho e Magalhães Júnior a propósito de Rui Barbosa, alvo da crítica do rebarbativo Raymundo. A memória dos grandes homens, exemplo para a juventude, deve estar acima de qualquer restrição, branca de leite, limpa e polida de qualquer defeito, impoluta para a admiração da posteridade, arengava Luiz. Viu-me parado a escutar, olhou-me com o rabo do olho, sorriu-me, mas, político habilíssimo, não pediu minha opinião. O cidadão Machado de Assis, não o romancista, muito tem se beneficiado com a tese da memória pulcra dos grandes mortos.

            Na votação da proposta o que abriu as portas da Academia às mulheres, Hermes Lima surpreendeu-me: voto contra. Vendo  meu espanto, explica-me: isso aqui não passa de um clube de homens, Jorge, no dia em que entrar mulher nem isso mais será: nossa paz se terminará, a fofoca substituirá a convivência.

            Um jornal faz uma enquete às vésperas da decisão, pergunta qual das nossas beletristas (!) deve ser a primeira a envergar o fardão – perdão, o robe. Em minha opinião, digo ao repórter, nenhuma das nossas confrades merece mais a consagração, os pechisbeques (!) da Academia do que a poetisa - naquele tempo dizia-se poetisa, hoje poetisa é xingo  - Gilka Machado, figura singular em nossa literatura. Poetou sobre o desejo da mulher, a tesão pelo homem, o amor sem peias quando as outras reservaram o coito para os confessionários das igrejas: ousou quando a ousadia significava discriminação, repulsa, abjeção. Sugeri que as prováveis candidatas assinassem manifesto propondo aos acadêmicos o nome de Gilka Machado: mais que outra qualquer merece ser a primeira mulher a ingressar no fatal cenáculo. A sugestão caiu no vazio das vaidades, tampouco eu acreditava fosse avante, sou ingênuo, mas não tanto. As impacientes andavam pelos alfaiates, de figurino em punho, estudando o robe: ainda mais solene e triste do que o fardão.

*Academia Brasileira de Letras

**Austregésilo de Athayde, Presidente da ABL
***Osvaldo Orico (1901/1981), escritor
****Emílio de Menezes (1866/1918), poeta
*****Júlia Lopes de Almeida (1862/1934), romancista


Jorge Amado
(NAVEGAÇÃO DE CABOTAGEM)

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(Rio de Janeiro, 1968 – os mabaças)

            O filme de Fernando Sabino e David Neves, A Casa do Rio Vermelho, um dos doze documentários que a dupla dedicou a escritores brasileiros, tem vinte minutos de duração dos quais os senhores Carybé e Dorival Caymmi desperdiçam uns seis ou sete a dizer mal de mim, o mocinho da película.           

            Fernando e David foram à Bahia para a filmagem, os dois figurantes não estavam, exibiram-se depois, no Rio. Disseram horrores, que eu fazia e acontecia, inventada e produzia, pintava o diabo, amarrava o bode, criticaram-me as bengalas, os bonés e o bigode, as camisas coloridas, as bermudas, as sandálias.

           Assisto o filme, vejo os dois compadres fazendo minha caveira, no entanto sou o terceiro a formar com eles a trinca dos doutores do povo da Bahia, três obás de Xangô, senhores respeitáveis. Meus dois mabaças, Caymmi e Carybé, não merecem confiança, não são pessoas sérias, línguas de trapo, corações de ouro, a voz e a face da Bahia.

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JORGE AMADO - Quinto ocupante da Cadeira 23 da ABL, eleito em 6 de abril de 1961, na sucessão de Otávio Mangabeira e recebido pelo Acadêmico Raimundo Magalhães Júnior em 17 de julho de 1961. Recebeu os Acadêmicos Adonias Filho e Dias Gomes.



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sexta-feira, 9 de agosto de 2019

10 DE AGOSTO: DIA DE JORGE AMADO – a poeta e a fundação

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(Paris, 1992 – a poeta e a fundação)


            Da Bahia Rosane me envia o livro de poemas de Myriam Fraga, Os Deuses Lares, ilustrações de Calasans Neto. A dupla é imbatível, Calá nasceu para ilustrar a poesia de MYriam, os poemas e as monotipias são da mesma matéria, visceral.

            Leitor cativo de Myriam Fraga, tomo do livro e constado que seu canto atingiu a madureza, a densidade dramática, a sabedoria da palavra precisa e mágica. Que poeta, meu Deus! Que Deus a abençoe, o Deus da Fundação, o compadre Exu. Fuso e roca / roca e roca/ /tinjo e lavo /lavo com água e /mornos sais /o corpo /as feridos /na fímbria /no remoto  - vou parar senão transcrevo o livro todo, verso a verso.

           Nós o lemos juntos, Zélia e eu, não sei de prazer maior que o de ler poesia com a namorada, em conluio. Invadido de remorsos, acuso Zélia: a culpa é tua, foste tu a inventar a Fundação onde Myriam se encerra dia e noite no trabalho, na luta, na estafa, no planejamento, na realização, na busca mesquinha e heroica de dinheiro para poder levar avante a cultura , no afã de criar condições para a literatura e a arte na Bahia, para o estudo do romance brasileiro, pauta de afazeres pejada de problemas.

            Myriam teria escrito e publicado nesses anos pelo menos três  livros de poemas, sem falar no lazer abandonado, a casa de praia em Mar Grande, os fins de semana na fazenda, já não lhe sobra tempo para nada, vive amarrada às cadeias de mil dificuldades, carrega nas costas essa tal de Fundação, a tua Fundação. Zélia não se abala, diz estar certa que Myriam o faz com prazer, além de poeta é combatente, as dificuldades não a assustam, ao contrário, a seduzem. Quanto a poesia, que eu não me incomode, a poesia brota e resplandece, vive dentro de Myriam e nada a impedirá.

            Quando digo que Zélia é a responsável pela existência da fundação cultural estabelecida no Pelourinho, nascida da doação do de meu acervo literário leva meu nome, digo a verdade. Não fosse Zélia o acervo estaria a essa hora em universidade norte-americana.  

            Começara por me desfazer de minha biblioteca, nunca foi grande, mas eu já não tinha, fosse na Bahia, fosse no Rio, onde botar tantos livros. Passei a doá-los a bibliotecas públicas, muitos volumes foram para Lençóis Paulista onde funciona a Biblioteca Orígenes Lessa. A partir de certo momento, atendendo sugestão feita por Carlos Cunha, venho doando os livros a Biblioteca da Academia de Letras da Bahia. Guardo apenas uns poucos tomos, de minha preferência absoluta, mestres que me marcaram, amigos a quem quero, uns quantos álbuns, poucas centenas de volumes, bastam e sobram. Também o acervo se acumulava, onde guardar tanta papelada?

            Pesava eu propostas recebidas de universidades americanas, da Pensilvânia e de Boston, desejavam receber o acervo em doação, propunham-me zelar por ele, colocá-lo à disposição dos interessados em pesquisá-lo, criando para tanto, verbas e espaços. Eu testemunhara durante minha estada na Penn State University*, como tais universidades trabalham com eficiência e dedicação. Eu estava quase a decidir-me, Zélia se opôs com determinação a minha ideia de oferecer à organização estrangeira documentos, correspondência, livros, fotos, diplomas, a massa dos guardados: esse acervo só sairá do Brasil, da Bahia, se passarem por cima de meu cadáver, tem de ficar aqui, é o seu lugar. No decorrer de quase meio século de coabitação aprendi que não adianta discutir com Zélia, perco sempre, até agora não ganhei uma.

            O escritor José Sarney, na época Presidente da República, em cerimônia no Palácio do Planalto** instituiu a Fundação. Ao agradecer eu disse esperar que a casa não se transformasse num 
museu, fosse realmente centro de cultura para o estudo da literatura baiana e do romance brasileiro, trabalhasse em conjunto com os outros organismos culturais. Acrescentei que sendo na Casa apenas personagem, não me envolveria em sua administração nem no planejamento das tarefas. Por fim, referindo-me à doação por James Amado de escultura de Tati Moreno, coloquei a fundação sob a proteção, os cuidados de Exu, entregue ao seu desvelo.

           Sob a grande placa das três raças que se misturaram, os índios, os negros e os brancos, arte de Carybé, erguido diante da Casa, Exu preside o destino da Fundação, ali foi plantando o fundamento na noite de inauguração. Dos diversos axés e ilês vieram as mães e as filhas-de-santo para o canto e a dança em seu louvor. Antes o Presidente da República, acompanhado pelo Ministro da Cultura, Celso Furtado, pelo Ministro das Comunicações, Antônio Carlos Magalhães, pelo Governador do Estado, João Durval Carneiro, declara a Fundação inaugurada. Dom Timóteo aspergiu a água benta da Igreja Católica, o babalorixá Luiz da Muriçoca soltou a pomba branca do culto do candomblé, Casa do sincretismo e da miscigenação. No palco armado no largo desfilam à noite os músicos e intérpretes que, de uma ou de outra maneira, estão ligados a meu trabalho de escritor, foram comandados por Nilde Spencer, minha amiga, grande dama do teatro da Bahia. Mais de vinte mil pessoas lotavam o Pelourinho na noite da inauguração***. Ao lado de Waldir Pires, governador eleito, e de José Aparecido de Oliveira, governador de Brasília, assisti de uma janela ao começo da festa, não tive condições de ficar até o fim, o coração tem seus limites.

            Aqui nestas lembranças desejo apenas agradecer a todos e a cada um dos que concorreram para a existência e a atuação da Casa, são muitos. José Sarney que a instituiu, Antônio Carlos Magalhães, Celso Furtado, Waldir Pires, João Durval Carneiro, ministros e governadores, Lafayete Pondé Filho, presidente do Banco da Bahia, Renato Martins, da Odebrecht, Mario Gordilho, Germano Tabacov, reitor da UFBA****, que preside seu destino desde a instalação, os que compõem os Conselhos, os que nela trabalham: Rosane Rubim, Zilá Azevedo, Maria de Lurdes, cito apenas as que começaram com a Casa, ao poeta Claudios Portugal que inventou e dirige a revista Exu, órgão da Fundação. Quando me anunciou o projeto temi pelo futuro do organismo, a revista iria devorar-lhe o patrimônio, ser arauto da subliteratura, nunca cometi engano tamanho, a revista é uma beleza e não custa um centavo aos cofres magérrimos que Myriam administra.

            Diretor-executivo, Myriam Fraga moureja buscando solução para os problemas, não se queixa, não se abate por mais difícil pareça e seja a manutenção da Casa, a execução dos projetos. Myriam dirige a Fundação em poesia, em fuso e roca, no embruxedo, na fantasia, dona e comparsa, no esconjuro e na esperança, um ato de amor que ela repete a cada dia, a poeta Myriam Fraga.

            Agradeço também a Zélia: só passando sobre meu cadáver! Não fosse ela, a Casa não teria nascido, a papelada estaria nos States.


*em 1971
**Brasília, 1986
***maio de 1987
****Universidade Federal da Bahia


(NAVEGAÇÃO DE CABOTAGEM)

Jorge Amado

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(Rio, 1947 – semelhança)

            Médicos e doentes se atropelavam para ver passar Maria, a della Costa, esplendor de beleza: atravessa os corredores da maternidade, vem de visita a Zélia que na véspera dera à luz um menino, João Jorge.
            Enfermeiras vão buscar o infante no berçário e o trazem para o banho na presença da mãe feliz. Desnudam-no das fraldas, mergulham-no na água tépida. A atriz examina o corpo do recém-nascido, aponta:
            - Olha a piquinha dele... Igualzinha à do pai.

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JORGE AMADO - Quinto ocupante da Cadeira 23 da ABL, eleito em 6 de abril de 1961, na sucessão de Otávio Mangabeira e recebido pelo Acadêmico Raimundo Magalhães Júnior em 17 de julho de 1961. Recebeu os Acadêmicos Adonias Filho e Dias Gomes.



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quinta-feira, 8 de agosto de 2019

10 DE AGOSTO: DIA DE JORGE AMADO – as gulosas


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(Bahia, 1965 – as gulosas)


            Um ruído suspeito me acorda, apuro o ouvido, parece-me provir da sala de jantar. levanto-me evitando fazer barulho, saio do quarto, avisto luz acesa na cozinha. vou em passo de gato, surpreenderei o ladrão, a surpresa será a melhor arma, não tenho revólver em casa. Aliás nunca possuí nem usei revólver, na Câmara dos Deputados eu era o único parlamentar desarmado, me lembro do assombro de Silvestre Péricles de Góes Monteiro quando abri o paletó e ele constatou a ausência de pau-de-fogo em minha cintura: você é maluco.

            Na cozinha, o que vejo? Dona Angelina, mãe de Zélia, e minha mãe Lalu, envergando uma e outra camisolas de dormir como convém a viúvas idosas, chupam mangas - manga se chupa, não se come, caso se deseje fruir o prazer completo -, rostos lambuzados. O mel escorre dos lábios para o queixo, mancha as pulcras camisolas. Chupam as mangas com avidez e competência, o ruído que me pareceu suspeito procede das bocas das duas senhoras no gozo da fruta colhida no jardim da casa, mangas-carlotas suculentas.

            Regresso ao quarto, pé ante pé, para que as duas não me vejam, morreriam de encabulamento. Aproveitam a calada da noite para o pecado da gula, o sabor das mangas chupadas assim às escondidas torna-se divino. Lalu e Angelina estalam as línguas.

***
            Onde quer que eu chegue, nas comarcas do mundo, províncias e metrópoles, vilarejos, encontro mesa posta e escuto uma palavra amiga.

            Alguém me diz: li teu livro, companheiro, ri chorei, me comovi. Tereza Batista mudou minha vida, Pedro Arcanjo me ensinou o pensamento livre, a pensar por minha cabeça, aprendi com Quincas a não ser o outro e, sim, eu próprio, com o comandante Vasco Moscoso de Aragão troquei o medíocre pelo sonho, aprendi o amor com Gabriela e dona Flor dele me deu a medida exata: mais poderoso do que a morte. És escritor porque eu existo, teu leitor: chorei e ri, me emocionei ao ler teu livro.

          Onde quer que eu chegue tenho mesa posta e alguém me diz uma palavra amiga. esse o prêmio, a razão e o compromisso.


(NAVEGAÇÃO DE CABOTAGEM)
Jorge Amado

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JORGE AMADO - Quinto ocupante da Cadeira 23 da ABL, eleito em 6 de abril de 1961, na sucessão de Otávio Mangabeira e recebido pelo Acadêmico Raimundo Magalhães Júnior em 17 de julho de 1961. Recebeu os Acadêmicos Adonias Filho e Dias Gomes.

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quarta-feira, 7 de agosto de 2019

10 DE AGOSTO: DIA DE JORGE AMADO – singularidade


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(Pequim, 1987 - singularidade)


           Em Pequim, Fan Weixin, tradutor para o chinês de livros de língua portuguesa, de brasileiros traduziu José de Alencar e Herberto Salles, traz-me exemplar de tradução de Dona Flor e seus dois maridos, edição modesta, porém decente, Fan está contente com a repercussão do romance da moça baiana.

            Folheio o volume, relembro cenas de amor, dona Flor e Vadinho, os dois na cama, a rosa-chá e a pimenta malagueta, desconfiado pergunto a Fan Weixin:

            - Como traduziste as patifarias de Vadinho?

            Os lábios do tradutor abrem-se num sorriso malandro, quase brasileiro:

            - Ao pé da letra.

            No fim desse mesmo ano hospedamos na casa do Rio vermelho um jovem casal de amigos chineses. Ele é Ho-Ping, filho de Eva e Emi Siao (Siao Sam), Eva fotógrafa alemã, Emi um dos poetas mais famosos da China, foi íntimo amigo de Maiakowski*, deputado, biógrafo de Mao, durante vários anos representante da China no secretariado do Conselho Mundial da Paz, na Tchecoslováquia. Ho-Ping, dito Pupsik, nasceu em praga, alguns meses antes de Paloma: pais bobocas, inventávamos no Castelo dos Escritores* futuro noivado entre os dois infantes. Eva e Emi regressaram à China, gramaram dezesseis anos de prisão durante a mal denominada Revolução Cultural, Emi saiu da cadeia muito enfermo, logo faleceu.

            Ela é Ting-Li, esposa de Ho-Ping, filha de Liu Chao Shi, que foi Presidente da República Popular da China, Secretário-Geral do Partido Comunista, liquidado politicamente e assassinado durante os anos infelizes do domínio da Banda dos Quatro – os assassinos inventaram que Liu Chao Shi morrera num desastre de avião.

            Jovem casal encantador, trocam pernas nas ruas da Bahia, adoram a cidade, o casario, a culinária, os mercados, o povo alegre cordial. Nos intervalos dos passeios, no Jardim da casa do Rio Vermelho, Ting Li lê Dona Flor e seus dois maridos em chinês e em inglês. Pergunto e o que acha das duas traduções. Pensa um pouco, responde:

            - Ambas são boas, gostei das duas. Em inglês a história é mais picante, em chinês é mais romântica. Para você ter uma ideia dá singularidade de cada uma: em chinês dona Flor chama Vadinho de volta com o coração, em inglês ela o chama com aquilo o que tem debaixo das calcinhas.

            - E como se diz em chinês aquilo o que ela tem debaixo das calcinhas?

            Tim lê sorri, encabulada, pronuncia uma palavra, soou-me linda, um trino de pássaro, me esqueci, que pena.


*Maiakowski (18903/1930, poeta soviético.
**Castelo de Dobris, perto de Praga, onde J.A. viveu com a família de 1950 a 1952.


(NAVEGAÇÃO DE CABOTAGEM)
Jorge Amado
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            “Nenhum de meus detratores, esses tantos que não perdem vaza para dizer mal de mim, sabichões cuja missão crítica é negar qualquer valor a meus livros, nenhum deles conhece tão bem minhas limitações de escritor quanto eu próprio, deles tenho plena consciência, não permito que me iludam os oropéis e os confetes.

            Sei também, de ciência certa, existir nas páginas que escrevi, nas criaturas que criei, algo imperecível: o sopro de vida do povo brasileiro. Não carrego vaidade, presunção, e sim, orgulho.”

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JORGE AMADO - Quinto ocupante da Cadeira 23 da ABL, eleito em 6 de abril de 1961, na sucessão de Otávio Mangabeira e recebido pelo Acadêmico Raimundo Magalhães Júnior em 17 de julho de 1961. Recebeu os Acadêmicos Adonias Filho e Dias Gomes.

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terça-feira, 6 de agosto de 2019

10 DE AGOSTO: DIA DE JORGE AMADO – os anarquistas


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(Rio de Janeiro, 1954 – os anarquistas)


            Deslumbra-me a conversa dos dois velhos anarquistas, o escritor e a operária: o mundo liberto das injustiças e dos preconceitos, nem o poder do Estado, nem a lei fosse qual fosse. Trinta anos depois escreverei um romance, Tocaia Grande, nascera naquele dia quando dona Angelina chorou de emoção ao abraçar Thomas da Fonseca*.

            Tomas da Fonseca, prosador ilustre, em Portugal mais do que ilustre, uma legenda viva, símbolo da resistência ao fascismo, da audácia do pensamento livre: o sonho da sociedade sem fronteiras de qualquer espécie. Angelina D’Acol Gattai, imigrante italiana, tinha quatro anos de idade quando desembarcou no Brasil, a família de camponeses vênetos de Pieve di Cadore veio trabalhar nas fazendas de café de São Paulo após a abolição da escravatura. Aos nove anos Angelina entrou de operária têxtil numa fábrica do Brás, na pauliceia desvairada. Fez-se anarquista ao conhecer Ernesto, os Gattai vieram de Florença, atravessaram o mar nos porões imundos para realizar o sonho do agrônomo Giovanni Rossi: fundar nas selvas do Paraná a Colônia Cecília, experiência de sociedade anarquista na América, sob o patrocínio de Dom Pedro II, Imperador  - já então era o Brasil um país surrealista.

            A colônia durou quatro anos, a mesquinhez do cotidiano a liquidou, mas as ideias libertárias afirmaram- se e floresceram na cidade de São Paulo das primeiras indústrias e dos grêmios das classes laboriosas. Angelina namorou o mecânico Ernesto nas reuniões e festas operárias - imigrantes italianos, espanhóis e portugueses encontravam-se, discutiam, discursavam, declamavam, encenavam peças. As poesias e as canções anarquistas da península, as peças de Pietro Gori: Angelina, primeira-dama do palco proletário. Ressoava o canto da Catalunha em fogo: donde vas com paquetes y listas / que tan pronto te veo correr/ voy al Congreso de las anarquistas/ que reclaman um derecho: vivir/ Escúchame um momento se quieres / Anarquista, que quiere decir? / Es la imensa falange obrera / que reclama um derecho: vivir! Os poemas de Guerra Junqueiro, os livros de Thomas da Fonseca, a italiana Angelina, anarquista brasileira, declamava o vate português, sabia de memória trechos incendiários do prosador. Mesmo quando o marido Gattai subiu na vida, de motorista dos Prado, paulistas quatrocentões, passou a agente dos automóveis Alfa Romeo, de libertário virou militante do Partido Comunista, Angelina manteve intacta a quimera, o sonho.

            Ancião, as barbas brancas desciam-lhe sobre o peito, de passagem pelo Rio, Thomas da Fonseca veio me visitar, ao escritor como ele também proibido em Portugal, amigo de seu filho Branquinho*, eu o recebi no alvoroço da admiração, abertos os braços do bem-querer: jamais uma visita me honrara tanto. Enquanto conversávamos política e letras, Zélia saiu correndo em busca de dona Angelina, por feliz acaso também no Rio, em nossa casa, para comunicar que seu ídolo, dela, Angelina, estava na sala tomando cafezinho.

            Dona Angelina, não acreditou: Thomas da Fonseca, ali em pessoa? Impossível. Repreendeu a ousadia da filha, que, com tal atrevimento, lhe faltava ao respeito, levando na chalaça suas ideias e seus mitos. Fez-se necessário que eu a fosse buscar para que viesse à sala e, em lágrimas, beijasse as mãos ossudas do Ancião. Ficaram a conversar.

            Dona Angelina declamou trechos dos livros de Thomas da Fonseca, sabia páginas inteiras de memória, agora era os olhos do escritor que se iluminavam. A tertúlia prosseguiu em utopia, Zélia e eu ouvintes deslumbrados.

*Thomas da Fonseca (1877/1968), escritor português, líder anarquista.
**Branquinho da Fonseca (1905/1974), escritor português.


(NAVEGAÇÃO DE CABOTAGEM)
Jorge Amado

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JORGE AMADO - Quinto ocupante da Cadeira 23 da ABL, eleito em 6 de abril de 1961, na sucessão de Otávio Mangabeira e recebido pelo Acadêmico Raimundo Magalhães Júnior em 17 de julho de 1961. Recebeu os Acadêmicos Adonias Filho e Dias Gomes.

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segunda-feira, 5 de agosto de 2019

10 DE AGOSTO: DIA DE JORGE AMADO – barba



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(Bahia, 1985 – barba)

             Márcio Tavares d’Amaral, filósofo e poeta, ilustre professor universitário, grave catedrático, letrado familiar de Joyce e de Kafka, incorrigível líder estudantil, saudoso das passeatas e das molequeiras, com as mãos sobre a boca imita sons de saxofone, as sirenes dos carros de polícia e das ambulâncias, com acento alfacinha canta músicas de protesto de Sérgio Godinho. Está hospedado na casa do Rio Vermelho com Teresa, flor dos Costa, conversamos enquanto ele faz a barba.

            Conversa longa, Márcio não leva menos de meia hora a barbear-se: um dia demorei apenas vinte e cinco minutos, mas aconteceu somente naquela vez, me diz. Eu não gasto mais de cinco minutos, admiro-me de diferença tamanha, Márcio me explica:

            - Você conhece o verbo escanhoar? É o que eu uso. Você conjuga outro: raspar a barba, para ser sincero uma xucrice.

            Conto-lhe que Graciliano Ramos fazia a barba com navalha antiga, nunca usou gilete. Os olhos de Márcio se iluminam:

            - Isso é o supra-sumo, não chego a tanto.

            Barba escanhoada, Márcio aproxima-se do muro, desata a sirena da polícia na rua Alagoinhas: vizinhos saem portas a fora a ver o que ocorre. O riso de Teresa tranquiliza os passarinhos.


(NAVEGAÇÃO DE CABOTAGEM)
Jorge Amado

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            “Sou de um tempo em que ao ouvir bater na porta se dizia: Se é de paz pode entrar. Quem bate à porta é de paz e de amizade, o ator Zé Trindade, artista de cinema e de televisão, celebridade desde os tempos das chanchadas, agora percorre o interior do país, faz a alegria das plateias das cidadezinhas.

            Com as empregadas da casa aprendo a humildade, a não me vangloriar, a importância é sempre relativa, dou-me conta. Ouço a cozinheira Agripina dizer a Eunice*, que vem lhe informar quem chamou à porta e ela fez entrar:

            - Zé Trindade? Não me diga! Seu Jorge é mesmo importante, é amigo de Zé Trindade.

             Tem razão. Zé Trindade na TV, na tela do cinema, no rádio, em pessoa é ídolo popular queiram ou não os elitistas da cultura, uns bestalhões, sua amizade me dá status, importância. Agripina, Eunice, Detinha vêm espiá-lo do corredor, a meu convite entram na sala, se aproximam deslumbradas, estendem as mãos a Zé Trindade, ele as abraça, repete um bordão de rádio, careta cômica de televisão, o riso se espraia.

 *Eunice Ferreira, arrumadeira na
 casa de JA
           
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JORGE AMADO - Quinto ocupante da Cadeira 23 da ABL, eleito em 6 de abril de 1961, na sucessão de Otávio Mangabeira e recebido pelo Acadêmico Raimundo Magalhães Júnior em 17 de julho de 1961. Recebeu os Acadêmicos Adonias Filho e Dias Gomes.

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sábado, 3 de agosto de 2019

10 DE AGOSTO: DIA DE JORGE AMADO – A rede de casal


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(São João de Meriti, 1946 – a rede de casal)


            A casa simples e agradável, situava-se no alto de pequena colina, a chácara toda media vinte e um mil metros quadrados cobertos por oitocentas laranjeiras. Pés de toranjas de duas ou três variedades, limeiras, limoeiros, pés de fruta-pão, sapotizeiros, goiabeiras, mangueiras, mamoeiros completavam o pomar. Uma louca criação de aves – galinhas de raças, patuassus, gansos, marrecos – animava o Peji de Oxóssi, nosso esconderijo, situado entre Caxias e São João de Meriti, no estado do Rio. Nele Zélia e eu curtimos enfim nossa lua-de-mel.

            Vivíamos juntos desde julho de 1945, mas não nos sobrava tempo para namorar tanto quanto desejaríamos: eu dirigia o cotidiano Paulista do Partido Comunista, o Hoje, tarefa que tomava a maior parte de meu tempo, Zélia se revelara imbatível ativista da Comissão de Finanças. Como se fosse pouco, a campanha eleitoral começara. Candidato a deputado federal, eu saía nos fins de tarde para comícios noturnos no interior, chegava pela madrugada. Resolvemos transferir a lua-de-mel para depois das eleições. 

            As eleições realizaram-se em novembro, deputado eleito deixei com a direção do partido minha carta de renúncia, partimos de viagem eu e Zélia. Viagem de núpcias, já era tempo.

            Apenas começávamos a sentir o sabor da lua de mel, passáramos alguns dias no Rio Grande do Sul, na chácara de Henrique Sclair, estávamos no Uruguai, devíamos ir a Buenos Aires, quando chegou o telegrama urgente de Prestes reclamando minha presença no Rio daí a três dias. comuna enquadrado, tomei o primeiro avião para o Brasil, Zélia comigo, ansioso para saber o motivo da intempestiva convocação.  

            Outro não era que o de tomar posse da cadeira de deputado. Ora, eu condicionara a aceitação de minha candidatura - escritor já bastante popular, meu nome traria votos para a legenda do Partido – à garantia de que, se eleito, renunciaria ao mandato dando lugar a convocação do suplente. queria retornar a meu trabalho literário, já bastante comprometido pela atividade de militante. Recordei a Prestes o compromisso assumido pela direção. Antes de viajar entrega a Arruda Câmara o documento de renúncia. Prestes estava a par, salientou que fora ele quem levara a direção a admitir a minha exigência  - podia um militante por acaso fazer naquele então qualquer exigência, justa, mínima, fosse qual fosse, ao Partido? Por isso mesmo sentia-se no direito de apelar para minha consciência de comunista responsável: que iriam dizer aqueles eleitores que tinham votado em mim, sobretudo os não comunistas, se eu não assumisse? Iriam acusar o Partido de ter usado meu nome para obter votos, é estratagema sujo, malandragem, os inimigos se aproveitariam para fazer a maior exploração e por aí afora, aquela argumentação. Propôs-me assumir o mandato por três meses e então efetivar a renúncia. Três meses, nem um dia a mais, assegurou-me Prestes.

            Resolvemos não alugar apartamento no Rio onde certamente o Partido me sobrecarregaria de tarefas, além das decorrentes do trabalho parlamentar, e ocuparia o tempo de Zélia, a Comissão Nacional de Finanças ameaçava requisitá-la. Na intenção de escrever um romance já amadurecido na cabeça, Seara Vermelha, preferi ficar o mais longe possível do Comité Central. Assim adquirimos o sítio de Laranjeiras e nele vivemos durante ano e meio: um caseiro bastava para cuidar das plantações e das aves: as aves merecem capítulo à parte. Nina, sua filha, se ocupava da casa.

            O casal húngaro que plantara o terreno e elevara a casa tinha o gosto europeu do conforto e, ao lado da vivenda, à sombra das árvores, construíra uma espécie de pátio, local de lazer, sítio de repouso. Enredadeiras subiam pelos pilares de alvenaria, flores explodiam em cada recanto, mesa rústica onde pousar pratos e copos, garrafas, sobre as lajes do chão espreguiçadeiras estendidas, penduradas dos galhos das mangueiras redes cearenses, brancas e amplas, de varandas bordadas, redes de casal. Assim era o Peji de Oxóssi, pequeno paraíso.

            Ali transamos, indóceis, adoidados, nossa tão adiada lua de mel. Zélia parecia uma menina; o alemão, nosso vizinho, pensava que ela fosse minha filha, aliás passei a vida ouvindo a mesma repetida pergunta sobre Zélia: é sua filha?

            Acordava cedíssimo, trabalhava no romance boa parte da manhã, por vezes a ele voltava à noite - ah, o bom tempo em que varava a noite batucando na máquina cenas e capítulos. Após o almoço, às treze horas, tomava um carro de aluguel, contratado por mês para me levar e trazer do Peji a Caxias  - os dez por cento dos proventos de deputado que o Partido me deixava davam exatos para pagar esta condução: eu devia viver de meus direitos autorais, segundo  a direção. Em Caxias embarcava no ônibus que me depositava na Praça Mauá, daí trotava até o Palácio Tiradentes onde funcionava a Assembleia Nacional Constituinte formada pela Câmara e pelo Senado reunidos. A sessão começava às quatorze horas, eu assistia, participava - extremamente ativo na Comissão de Educação e Cultura -, quando os trabalhos se encerravam fazia o caminho de volta, em geral chegava em casa entre sete e oito horas da noite. Por vezes, em dias de sessão noturna, não tinha hora de chegar.

            Terminado o jantar Zélia e eu costumávamos descansar no pátio onde corria a brisa, eu lhe contava os acontecidos do dia, ela ouvia ávida por detalhes sobre a atuação da bancada comunista - a primeira num parlamento brasileiro. Por vezes adormecíamos no embalo da rede. Numa daquelas redes cearenses, de casal, João Jorge foi feito, em noite de lua cheia, a luz das estrelas e ao ruído dos grilos.

(NAVEGAÇÃO DE CABOTAGEM)
Jorge Amado
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(Bahia, 1990 – o porquê das coisas)

            “Meu neto Jorginho, filho de Rízia,
aquela mãe!, caçula de João Jorge, às vésperas de
completar seis anos, constata a coincidência
de nomes, parece-lhe estranha, me interpela no desejo
de entender o porquê:

            - Vô, você também se chama Jorge – como eu?
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JORGE AMADO - Quinto ocupante da Cadeira 23 da ABL, eleito em 6 de abril de 1961, na sucessão de Otávio Mangabeira e recebido pelo Acadêmico Raimundo Magalhães Júnior em 17 de julho de 1961. Recebeu os Acadêmicos Adonias Filho e Dias Gomes.


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sexta-feira, 2 de agosto de 2019

10 DE AGOSTO: DIA DE JORGE AMADO – O magnífico


Clique sobre a foto, para vê-la no tamanho original
(Bahia, 1956 – o magnífico)


            Os meninos da revista Mapa – Glauber Rocha, Fernando da Rocha Perez*, Calasans Neto, Sante Scaldaferri, Paulo Gil Soares** - decretam e promovem guerra sem quartel a Edgard Santos, reitor da Universidade Federal, a quem a cultura da Bahia tanto deve.

            Mapa expressa em suas páginas as modernas tendências da arte e da literatura, a poesia, a pintura, o cinema, a gravura, o teatro, destrói e propõe, influi mas, ah!, corre perigo, vai deixar de aparecer, não tem anunciantes, não há dinheiro para pagar papel e oficina, problemas que afligem e derrotam as publicações de vanguarda.

            Um lambe-botas qualquer, é o que mais existe, vai correndo levar, a Edgard Santos o que lhe parece ser a boa, a grata notícia: a revista da subversão não mais circulará, a gráfica já não lhe faz crédito, menos ainda o fornecedor de papel, os ataques a administração do Reitor estarão silenciados para sempre, viva, viva! Edgard Santos escuta, Agradece a informação, manda pagar imediatamente o papel e a oficina, exige apenas dos credores sigilo sobre quem está assumindo as despesas, os meninos não devem saber: poderiam recusar, pior ainda poderiam entrar em crise de consciência devido aos ataques ao Reitor.

            Risonho, na mesa do almoço comenta o episódio, estamos Odorico, Carlos Bastos e eu: essa revista Mapa é o que há de melhor na Universidade, já pensaram se desaparecesse agora o que iriam dizer de mim? Iriam me chamar de reacionário, intolerante, teriam razão. Enquanto eu for reitor a circulação da revista está garantida, só que os meninos não devem desconfiar.

            Faz uma pausa, saboreia o acarajé, sabe da Universidade, dos professores e dos alunos, Magnífico Reitor:

            - São meninos de talento, amanhã serão os mestres. Mas entre eles tem um moleque, um tal de Glauber, esse é gênio, vai deslumbrar o mundo.

 *  Fernando da Rocha Perez, escritor.
** Paulo Gil Soares, cineasta.


(NAVEGAÇÃO DE CABOTAGEM)
Jorge Amado

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“Sou deveras incompetente, inepto, a lista das coisas que todo
mundo sabe fazer e eu não sei é longa. Aqui inscrevo apenas alguns exemplos: não sei dançar, cantar, assoviar, nadar, multiplicar, dividir por mais de dois números, empregar os verbos, pronunciar corretamente, dirigir automóvel (mas já soube andar de bicicleta com razoável equilíbrio).
Não sirvo para grande coisa.” (Jorge Amado)

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JORGE AMADO - Quinto ocupante da Cadeira 23 da ABL, eleito em 6 de abril de 1961, na sucessão de Otávio Mangabeira e recebido pelo Acadêmico Raimundo Magalhães Júnior em 17 de julho de 1961. Recebeu os Acadêmicos Adonias Filho e Dias Gomes.

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