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domingo, 16 de abril de 2017

TEXTO COMPLETO DA HOMILIA DO PAPA NA VIGÍLIA PASCAL 2017

Na Basílica de São Pedro o Papa presidiu a solene liturgia da Ressurreição do Senhor

15 ABRIL 2017

(ZENIT – Cidade do Vaticano, 15 Abr. 2017).- O Papa Francisco presidiu neste Sábado Santo, 15 de abril, na Basílica de São Pedro, a solene Vigília Pascal da Ressurreição do Senhor. Eis a homilia do Santo Padre, na íntegra.


«Terminado o sábado, ao romper do primeiro dia da semana, Maria de Magdala e a outra Maria foram visitar o sepulcro» (Mt 28, 1). Podemos imaginar aqueles passos: o passo típico de quem vai ao cemitério, passo cansado da confusão, passo debilitado de quem não se convence que tudo tenha acabado assim. Podemos imaginar os seus rostos pálidos, banhados pelas lágrimas. E a pergunta: Como é possível que o Amor tenha morrido?

Ao contrário dos discípulos, elas ali vão, como já acompanharam o último respiro do Mestre na cruz e, depois, a sepultura que Lhe deu José de Arimateia; duas mulheres capazes de não fugir, capazes de resistir, de enfrentar a vida tal como se apresenta e suportar o sabor amargo das injustiças. Ei-las chegar diante do sepulcro, divididas entre a tristeza e a incapacidade de se resignarem, de aceitarem que tudo tenha sempre de acabar assim. E, se fizermos um esforço de imaginação, no rosto destas mulheres podemos encontrar os rostos de tantas mães e avós, os rostos de crianças e jovens que suportam o peso e o sofrimento de tanta desumana injustiça.

Nos seus rostos, vemos refletidos os rostos de todos aqueles que, caminhando pela cidade, sentem a tribulação da miséria, a tribulação causada pela exploração e o tráfico humano. Neles, vemos também os rostos daqueles que experimentam o desprezo, porque são imigrantes, órfãos de pátria, de casa, de família; os rostos daqueles cujo olhar revela solidão e abandono, porque têm mãos com demasiadas rugas.

Refletem o rosto de mulheres, de mães que choram ao ver que a vida dos seus filhos fica sepultada sob o peso da corrupção que subtrai direitos e quebra tantas aspirações, sob o egoísmo diário que crucifica e sepulta a esperança de muitos, sob a burocracia paralisadora e estéril que não permite que as coisas mudem. Na sua tristeza, elas têm o rosto de todos aqueles que, ao caminhar pela cidade, veem a dignidade crucificada. No rosto destas mulheres, há muitos rostos; talvez encontremos o teu rosto e o meu.

Como elas, podemos sentir-nos impelidos a caminhar, não nos resignando com o facto de que as coisas devem acabar assim. É verdade que trazemos dentro uma promessa e a certeza da fidelidade de Deus. Mas também os nossos rostos falam de feridas, falam de muitas infidelidades – nossas e dos outros –, falam de tentativas e de batalhas perdidas. O nosso coração sabe que as coisas podem ser diferentes; mas, quase sem nos apercebermos, podemos habituar-nos a conviver com o sepulcro, a conviver com a frustração. Mais ainda, podemos chegar a convencer-nos de que esta seja a lei da vida anestesiando-nos com evasões que nada mais fazem que apagar a esperança colocada por Deus nas nossas mãos.

Muitas vezes, são assim os nossos passos, é assim o nosso caminhar, como o destas mulheres, um caminhar por entre o desejo de Deus e uma triste resignação. Não morre só o Mestre; com Ele, morre a nossa esperança. «Nisto, houve um grande terremoto» (Mt 28, 2). De improviso, aquelas mulheres receberam um forte estremeção, algo e alguém fez tremer o solo sob os seus pés. Mais uma vez, alguém vem ao encontro delas dizendo: «Não tenhais medo», mas desta vez acrescentando: «Ressuscitou, como tinha dito». E tal é o anúncio com que nos presenteia, de geração em geração, esta Noite Santa: Não tenhamos medo, irmãos! Ressuscitou como tinha dito.

A vida arrancada, destruída, aniquilada na cruz despertou e volta a palpitar de novo (cf. R. Guardini, Il Signore, Milão 1984, 501). O palpitar do Ressuscitado é-nos oferecido como dom, como presente, como horizonte. O palpitar do Ressuscitado é aquilo que nos foi dado, sendo-nos pedido para, por nossa vez, o darmos como força transformadora, como fermento de nova humanidade. Com a Ressurreição, Cristo não deitou por terra apenas a pedra do sepulcro, mas quer fazer saltar também todas as barreiras que nos fecham nos nossos pessimismos estéreis, nos nossos mundos conceptuais bem calculados que nos afastam da vida, nas nossas obcecadas buscas de segurança e nas ambições desmesuradas capazes de jogar com a dignidade alheia.

Quando o sumo sacerdote, os chefes religiosos em conivência com os romanos pensaram poder calcular tudo, quando pensaram que estava dita a última palavra e que competia a eles estabelecê-la, irrompe Deus para transtornar todos os critérios e, assim, oferecer uma nova oportunidade. Uma vez mais, Deus vem ao nosso encontro para estabelecer e consolidar um tempo novo: o tempo da misericórdia. Esta é a promessa desde sempre reservada, esta é a surpresa de Deus para o seu povo fiel: alegra-te, porque a tua vida esconde um germe de ressurreição, uma oferta de vida que aguarda o despertar.

Eis o que esta noite nos chama a anunciar: o palpitar do Ressuscitado, Cristo vive! E foi isto que mudou o passo de Maria de Magdala e da outra Maria: é o que as faz regressar à pressa e correr a dar a notícia (Mt 28, 8); é o que as faz voltar sobre os seus passos e sobre os seus olhares; regressam à cidade para se encontrar com os outros. Como entramos com elas no sepulcro, assim vos convido a irmos também com elas, a regressarmos à cidade, a voltarmos sobre os nossos passos, sobre os nossos olhares.

Vamos com elas comunicar a notícia, vamos… a todos aqueles lugares onde pareça que o sepulcro tenha a última palavra e onde pareça que a morte tenha sido a única solução. Vamos anunciar, partilhar, revelar que é verdade: o Senhor está Vivo. Está vivo e quer ressurgir em tantos rostos que sepultaram a esperança, sepultaram os sonhos, sepultaram a dignidade. E, se não somos capazes de deixar que o Espírito nos conduza por esta estrada, então não somos cristãos. Vamos e deixemo-nos surpreender por esta alvorada diferente, deixemo-nos surpreender pela novidade que só Cristo pode dar. Deixemos que a sua ternura e o seu amor movam os nossos passos, deixemos que o pulsar do seu coração transforme o nosso ténue palpitar.



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sábado, 15 de abril de 2017

A FALTA DE SENSIBILIDADE NAS REDES, ATRAVÉS DOS CONTEXTOS SOCIAIS




Estamos vivendo um momento conturbado em diversos segmentos da atualidade.
Agressões verbais, terminam por desqualificar pessoas que, não tem o devido e necessário cuidado em relacionar-se com seus semelhantes.
Seria realmente necessário ferir, sem que exista algum motivo aparente que justifique tais atitudes maliciosas?


É realmente complicada a falta amabilidade na forma de abordar o universo do outro, onde tenho notado que agredir é a forma que permeia o relacionar-se, em alguns contextos sociais. Tenho visto, em algumas páginas de crônicas, onde alguns leitores agridem, de forma desrespeitosa, alguns colegas escritores espalhados pelas redes sociais em conjuntura.

É um tal de criticar, de desdenhar, de agredir pretensiosamente que sinto-me muitas vezes, ferida por tabela, mesmo que a desqualificação não seja direcionada a minha pessoa.

Concordo que, as pessoas devem manifestar suas opiniões e, muitas vezes, indignação quando algo desagrade a si próprio. Mas me pergunto, qual seria a verdadeira intenção de uma pessoa que não tem o menor cuidado em ser gentil e generoso ao tocar o universo do outro?

Será que essas pessoas agem dessa forma com os seus vínculos grupais? Ou será que são pessoas reprimidas que fingem na frente de terceiros e derramam seu veneno nas redes, muito provavelmente porque são oprimidas em seus trabalhos ou em seus lares? Sei que, como disse sabiamente Renato Russo: “Todos tem suas próprias razões”, mas não existe razão que justifique uma atitude maldosa.

É desagradável termos que nos deparar com essas situações que amargam um pouco o nosso dia, onde muitas vezes não é fácil lidarmos com isso e, fico me perguntando, qual seria a verdadeira intenção de uma pessoa em espalhar o fel pela internet, uma vez que as cortinas estão todas escancaradas...

Será que necessitam de aplausos?

Mais desgastante ainda, é adentrar-se em algumas páginas, quando o assunto é política e você, por desventura, observa muitas vezes, calado, a desqualificação chula de vocabulários que interferem no bem-estar de muitos que entraram ali, por algum descuido descuidado.

As pessoas precisam se conscientizar que estamos vivendo em um mundo que encontra-se beirando o caos e que a ponta do iceberg é justamente onde essas pessoas podem descuidosamente derrapar em seus próprios despreparos nos percalços que dispenderam aos demais.

Sabemos que, tudo neste mundo funciona na base de energia, tudo que proliferamos, por certo, terá uma enorme influência negativa, contaminando a atmosfera que perfaz o conjunto de uma obra inteira. Saibamos ocupar prudentemente o lugar que nos foi fornecido, para que possamos cumprir com nossas obrigações societárias sadiamente.

É preciso sim, que alguém escancare essa janela, onde muitos se escondem, depois de jogar o famoso balde de água fria em pessoas inocentes. É preciso que falemos abertamente sobre esse agravante que assola o momento presente e isso nos trará a sensação de que precisamos nos unir, se quisermos vencer essa grande batalha, que é a vida.

Que possamos refletir sobre tudo isso, e agirmos com mais cautela, cada vez que nosso ímpeto for maldizer o nosso semelhante, seja ele quem for, seja em nossa casa, na web, ou em nosso trabalho. As proporções sempre serão de desarmonia e sempre atingirão o quadro em sua totalidade.

Reflitamos e sigamos em linha reta, sem nos esquecer que juntos seguiremos seguros e firmes, nessas estradas da vida, que sempre nos impulsionará rumo a minha, a sua e a edificante evolução de nosso semelhante…

Sejamos sempre cautelosos ao trocarmos experiências com o universo do outro. Saibamos ser luz, quando a escuridão não conseguir mais nortear os nossos princípios.


Escritora por paixão, aventureira por conexão, e admiradora de tudo que nos remeta a uma possível felicidade... Insisto em acreditar na bondade que habita dentro de cada pessoa. Acompanhem-me em minha página: (https://www.facebook.com/amantesfecundosdotempo/).


http://obviousmag.org/o_infinito_e_logo_ali/2017/a-falta-de-sensibilidade-nas-redes-atraves-dos-contextos-sociais.html


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SHOFAR

Shofar


Palavra de origem hebraica  que significa Trombeta – Instrumento de Sopro.


Qual o significado do toque do Shofar?

O toque do shofar nos acorda da letargia mental pelas coisas terrenas e nos desperta para as verdadeiras necessidades de nossa alma.

Ouvir o toque do Shofar inspira a alma e provoca vibrações extraordinárias no coração, reativando o sentimento de arrependimento e humildade.

Vivemos num mundo físico, sujeitos aos estresses e desafios da vida na terra e subjugados pelas incessantes exigências de nosso corpo e nosso ego.

Não estamos sequer conscientes de nosso verdadeiro potencial interior. Nossa alma, com toda a sua limitada criatividade, conscientização, amor e poder, está encurralada e suprimida. Porém quando nossas defesas se rompem, quando ficamos frente a frente com nossa pequenez essencial e nossa vulnerabilidade dentro deste vasto universo, clamamos a Deus.

E este clamor, esta intensa percepção de nossas próprias limitações, é que nos liberta. Um grito vindo do coração partido pode libertar nossa alma de sua prisão e deixá-la aberta a algo completamente novo.

Esta liberdade, não por coincidência, também está conectada com o sopro do shofar, semelhante à trombeta cujo toque trará nossa suprema liberdade e transformação. Entre duas maneiras de ser...

Há sempre um espaço vazio, um espaço de transição. Neste espaço temos a oportunidade de deixar para trás o antigo, a mesquinharia, o ressentimento, os erros passados, falhas e temores.

Podemos adotar um jeito de ser totalmente novo; um senso de propósito mais apaixonado, Podemos nos comprometer com um novo nível de bondade, respeito e compaixão pelas pessoas que nos cercam, aquelas que já amamos e aquelas que poderíamos amar se deixássemos para trás a ira, a defensiva ou o medo.

Quando nos abrimos para a vida, criamos a maior abertura possível para um tempo bom e doce no sentido mais verdadeiro.

O mundo espera no limiar da Redenção. Nestes tempos sem precedentes um intenso nível de escuridão paira sobre a terra. Nosso mundo está estremecendo. Terror, guerra, desastres naturais chocantes e crises mundiais lançam uma sombra ameaçadora sobre nossas vidas.

Estes tempos são assustadores e representam um desafio. Porém essa escuridão nada mais é que uma passagem para uma realidade inteiramente nova. 

Podemos escolher ficar inconscientes, engaiolados na prisão de nossos temores, ressentimentos e anseios, continuando vítimas passivas das circunstâncias, ou podemos usar esta oportunidade para começar a voar, a entrar em sintonia com nosso destino, aprendendo a ser livres.

A liberdade é um conceito elevado, mas é vivida nas escolhas que fazemos a cada momento. Nos relacionamentos. Na espiritualidade. No compromisso com uma vida de realização. Na consciência sobre a presença acalentadora de Deus nos detalhes mais íntimos de nossa vida diária.

Ao lembrarmos que estamos aqui para um propósito, faremos algo todo dia para que este propósito ganhe vida. Se você pudesse criar um novo futuro, que não fosse baseado em seus temores e fracassos do passado, quem você seria? Como iria se comportar? O que ousaria criar? A quem agradeceria? A quem daria ouvidos? O que gostaria de compartilhar? O que você sonharia? Que sonhos você poderia transformar em realidade?

Paradoxalmente, é apenas ao percebermos nossa fraqueza e solidão, os limites de nossa existência baseada no ego, que criamos uma abertura para irmos além dos nossos limites e nos tornarmos quem realmente nascemos para ser.



Enviado por: " Gotas de Crystal" gotasdecrystal@gmail.com


(Autor não mencionado)

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O SANTO SEPULCRO — “Composição de lugar”

14 de abril de 2017
Agência Boa Imprensa

O texto que segue foi extraído de uma conferência de Plinio Corrêa de Oliveira durante a Semana Santa de 1981 e publicado na edição de março de 2012 da revista Catolicismo. Ele — como aconselhava Santo Inácio de Loyola em seus “Exercícios Espirituais” — faz uma “composição de lugar”. No caso, um lugar sacrossanto: o Sepulcro de Nosso Senhor Jesus Cristo. O conferencista aconselha e justifica tal método de meditação. E comenta que se todos os católicos, desde o princípio do mundo até o fim dos tempos, refletissem sobre o núcleo da realidade objetiva do grandioso acontecimento da Ressurreição, haveria unidade de pensamento entre eles. E isto apesar de cada católico poder individualmente imaginar aspectos diferentes da Ressurreição, ocorrida três dias após a morte d’Aquele que veio ao mundo para nos salvar.

Vislumbrando no Santo Sepulcro
a arte gótica medieval

Plinio Corrêa de Oliveira

Quem visse o Santo Sepulcro, escavado na rocha, sabendo que Nosso Senhor Jesus Cristo na sua humanidade ali esteve sepultado, teria certa impressão. Em nossos dias, estando o sagrado lugar encimado por uma igreja (a Basílica do Santo Sepulcro) — portanto, em que todo o ambiente encontra-se mudado —, gostaríamos de saber que impressão causaria, antes da Basílica, aquele abençoado lugar.

Para isso, é legítimo fazer o que Santo Inácio de Loyola recomenda nos “Exercícios Espirituais”: a “composição de lugar”. Reconstituir o local — o Sepulcro — e a cena da Ressurreição. Assim, vou imaginar que impressão eu teria se lá estivesse.

Foi pensando nisso que encontrei explicação para os portais de pedra das catedrais góticas: uma enorme pedra na qual em oblíquo se tivesse talhado os contornos de um arco gótico. Também talhadas na pedra as coluninhas, encimadas por pequenas imagens de santos com seus respectivos dosséis.
Quem vê os portais góticos, fica com uma ideia mítica da pedra sagrada que envolve o altar e o tabernáculo que guarda o Santíssimo Sacramento, o Homem-Deus.

Aquele conjunto forma um arco gótico lindo que atravessa várias espessuras da pedra. Transpondo o arco gótico, fica-se com a impressão de que se atravessam vários séculos de História; várias fases do pensar e do sentir da Igreja; atravessam-se mil acontecimentos. Mas que a pessoa não se dá bem conta de quais acontecimentos — e nisso está o mais interessante.

Em Lourdes, a XIV Estação da Via Crucis, Nosso Senhor Jesus Cristo é colocado no Sepulcro

O Santo Sepulcro — a primeira ogiva gótica da História

Nesse sentido, eu imaginaria o Santo Sepulcro aberto na pedra, por ordem de José de Arimatéia, mas de um modo tosco. Alguém que já conhecesse o gótico, olhando para a abertura na pedra, perceberia um arco prodigioso. Quem não conhecesse o gótico — por exemplo, um homem do tempo de Nosso Senhor — não perceberia. Mas um homem do período medieval perceberia, e vendo a abertura do Sepulcro exclamaria: “É o gótico! É a primeira ogiva da História!”.

E isto apesar de aquela pedra bruta, na qual fora cavado o Santo Sepulcro, não ter a beleza, o aspecto leve e nem charme de um portal gótico.

De um lado, no gótico pode-se perceber a ogiva louvando o Filho de Deus, mas de outro lado, na lápide do Sepulcro, percebe-se a morte, a tragédia do deicídio. É um contraste que alguém poderia dizer que é feio. Mas é a justaposição da beleza e da morte, da virtude e do pecado.

Um cortejo para o sepultamento do Divino Redentor

Como se poderia imaginar a câmara funerária onde esteve sepultado Nosso Senhor?

Para exprimir isso, seria preciso imaginar uma rocha muito grande — mas não uma montanha tipo Himalaia —, ainda coberta de terra e plantas. Entrando pela abertura cavada na rocha, haveria um corredor profundo, sem luz. Tudo inerte, dando ideia do âmago da morte.

Poder-se-ia imaginar um cortejo entrando naquele corredor levando o Sagrado Corpo de Nosso Senhor. No cortejo, as pessoas levando archotes. A fumaça marcando o teto e as paredes daquela escavação ainda um tanto escura e tenebrosa. No fundo, o lugar onde depositaram o Corpo Divino.

Pode-se imaginar Nossa Senhora, em cujo claustro esteve o Redentor, que O contempla morto e pensa no crime satânico que se cometeu com a Crucifixão. Na aparência, a vitória fulgurante da impiedade, da vulgaridade, do pecado. O Corpo de seu Filho ali está, aromatizado, mas isolado naquela escuridão. Do Sagrado Corpo emana uma discretíssima claridade. Uma luz mantida por um anjo brilhava como um vitral de catedral gótica, mas apenas num dos cantos, deixando todo o resto na penumbra.

Com o tempo a luminosidade aumentaria, desdobrando-se em fosforescências cada vez mais bonitas, lembrando os tormentos da Paixão, mas também toda a vida do Redentor. Primeiramente, Ele junto à Sagrada Família, depois os três anos de sua vida pública, o período de glória, os dias de perseguição, as apreensões, o Horto das Oliveiras. Enfim, toda Vida, Paixão e Morte do Salvador desdobrando-se em luzes como numa narração. Nossa Senhora percebia tudo isso enquanto adorava o Sagrado Cadáver. Legiões de Anjos também O adoravam.

Ressurreição: Sepulcro transformado numa catedral feita de luzes

Ainda, nesta “composição de lugar”, podemos conceber, três dias após o trágico sepultamento, que algo de novo se passou dentro do Santo Sepulcro. Em certo instante o corpo adorável daria sinais de vida. Aparece uma luminosidade extraordinária. Nosso Senhor se levanta com uma majestade indizível. O Santo Sepulcro estaria transformado numa catedral feita de luzes. A montanha como que se racha; os anjos rolam a pedra que fechava o Sepulcro; o ambiente torna-se festivo e triunfal. É a Ressurreição!

Nosso Senhor sai do Sepulcro com o braço direito levantado e os dedos em posição de quem ensina e abençoa, com ar de desafio vitorioso! Ele aparece para Santa Maria Madalena. Mas é lícito imaginar que antes tenha aparecido ressurrecto para sua Santíssima Mãe.

Justificativa desse método de meditação

Esta seria uma modalidade de meditação, imaginando como transcorreu a Ressurreição. Conforme a piedade e o modo de ser de cada um, poder-se-ia imaginá-la de modos diversos.

A validade desse método imaginativo é inegável, porque como esses acontecimentos constituíram fatos perfeitos, tinham eles todas as excelências que estamos imaginando e ainda muitas outras.

Se todos os católicos da Terra até o fim do mundo meditassem sobre a Ressurreição, haveria uma prodigiosa unidade de pensamento em torno do magno acontecimento da História Universal, apesar de cada um individualmente meditar o mesmo fato central, porém imaginando as cenas de modo diferente.

Podemos assim, conservando o núcleo da realidade objetiva do sublime acontecimento, enriquecê-lo com um misto de imaginações, reflexões, deduções da fé, bem como de revelações de santos e de pessoas virtuosas.



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sexta-feira, 14 de abril de 2017

PASSAGEIRO É ARRASTADO DO AVIÃO DA UNITED POR OVERBOOKING: QUAL A POSTURA LIBERAL?

11 de abril de 2017


As imagens viralizaram: um passageiro da United Airlines foi arrastado para fora do avião após overbooking. A empresa tentou oferecer $400 para quem desistisse de ir e cedesse o lugar para os funcionários da United, mas ninguém aceitou. Depois, ela aumentou a oferta para $800, ainda sem adesões. Então, resolveu sortear aleatoriamente quatro lugares, mas um dos passageiros, que alegava ser um médico e que tinha de atender pacientes no dia seguinte, recusou-se a sair. Foi, então, puxado à força:
Ligue o vídeo abaixo:

O caso gerou muita polêmica nas redes sociais, cada um com uma opinião diferente. Houve até libertários defendendo o direito da empresa de praticar o overbooking, o que não feriria o direito de propriedade, segundo eles. Bernardo Santoro, ex-presidente do Instituto Liberal, escreveu um ótimo texto refutando essa posição, com argumentos liberais:

Já li três liberais, amigos meus, afirmando que o “overbooking” (prática onde a companhia aérea vende mais bilhetes dos que assentos) não deveria ser proibido porque seria intervenção do Estado no mercado aéreo e porque isso “aumentaria os custos das passagens”.

Eu vou discordar de ambos os argumentos para dizer que sim, overbooking é uma prática que deve ser coibida por ser fraudulenta, no cunho mais liberal possível.

Em uma sociedade liberal, o direito de propriedade é sim um direito fundamental. Rothbard e Hoppe chegam a argumentar que todos os demais direitos se derivam do direito de propriedade, inclusive a liberdade.

Uma companhia aérea que vende uma cadeira em um avião, por período limitado de tempo, com o fim de transportar alguém de um lugar para outro, está exercendo sua propriedade privada. Quando esse contrato é fechado, a não ser por motivo de força maior, ele deve ser cumprido, caso contrário isso é fraude e desrespeito aos direitos de propriedade do contratante.

Rothbard, inclusive, chega a conceituar fraude como “o não cumprimento deliberado de uma troca após a propriedade de outro ter sido tomada”. É exatamente o que uma companhia aérea faz no overbooking, não cumprindo o serviço contratado após tomar os recursos do contratante. E a excludente contratual da força maior não vale para overbookings, pois força maior é um evento extraordinário não previsível, o que não é o caso do previsível e, infelizmente, ordinário caso do overbooking.

O argumento de aumento dos custos da passagem é totalmente incabível. Se a passagem está barata porque você está vendendo mais passagens do que pode oferecer, então o valor dessa passagem não é verdadeiro, é fraudulento.

Justificar overbooking é como justificar alguém vendendo duas vezes o mesmo imóvel. Direitos de propriedade tem sua razão de ser justamente pelo fato de ser o melhor regulador da escassez. Usar seu sistema para justificar o uso duplo de uma mesma propriedade, onde o uso de um importa no não-uso de outrem, é exatamente a negação do sistema de propriedade privada, e não sua confirmação.

Overbooking é fraude ao sistema de propriedade e desrespeito à santidade dos contratos em estado bruto e deve sim ser considerado ilegal e punido financeiramente, justamente por ser uma medida de cunho liberal.


Não há muito como discordar: overbooking é uma prática fraudulenta, pois engana o consumidor, que comprou uma coisa, mas não a tem como garantida. João Luiz Mauad, colaborador do Instituto Liberal, apresenta um ponto de vista interessante sobre outro aspecto do caso:

O incidente de ontem, num avião da United, viralizou na internet e chocou o mundo. Um homem foi espancado e arrastado para fora do avião pela polícia, no aeroporto O’Hare de Chicago, pelo “crime” de querer usar o assento pelo qual havia pago.

O homem alegou ser médico e ter pacientes para atender na manhã seguinte, motivo pelo qual recusou uma oferta inicial de US$ 400, mais uma pernoite num hotel próximo, e posteriormente outra, de US$ 800, depois que todos já haviam embarcado. Foi então que a United escolheu quatro assentos e ordenou que os que estavam neles fossem retirados pela polícia para dar lugar a membros da tripulação que precisavam viajar.

E por que a notícia viralizou? Quem estudou jornalismo certamente conhece esta máxima: “Um cachorro morder um homem não é notícia. Mas um homem morder o cachorro, é.”
Este caso é similar ao do homem que mordeu o cachorro, pois o fato de uma empresa privada empregar a força contra seus clientes é incrivelmente raro. A Internet está cheia de exemplos semelhantes (ou muito piores) de agentes do governo abusando de sua autoridade, mas as pessoas e a mídia nem ligam. Simplesmente porque já esperamos tais abusos da parte do governo, mas não de empresas privadas.

Nessa altura, mesmo se tratando de exemplo é raro, já apareceram os intervencionistas de sempre questionando se não seria o caso de impor maiores regulamentações às empresas aéreas ou mesmo tornar ilegal o overbooking.

Definitivamente, não. Se este foi um evento raro, é porque empresas que agem como a United frequentemente experimentam uma reação muito forte do mercado. Além do marketing perverso, que vai custar-lhe muitos prejuízos, presentes e futuros, a United vai enfrentar pesadas ações judiciais de indenização e, eventualmente, a cobrança de multas governamentais. A proibição do overbooking, por outro lado, encareceria sobremaneira o preço das passagens, prejudicando justamente os consumidores.

E, realmente, a reação do CEO da empresa, de pedir desculpas pela “realocação” dos passageiros, sem reconhecer o absurdo da ação dos seguranças, comprova isso: ele não entendeu o quanto havia gerado de revolta nos consumidores, e isso significa queda de vendas para sua empresa. Assim é o livre mercado: reage aos que não conseguem atender bem a demanda. Se a United não fizer algo para recuperar sua imagem, vai sofrer as consequências. O próprio mercado é o melhor mecanismo de punição e premiação.

Leandro Ruschel comentou o caso, expondo a lógica do consumidor e do livre mercado:

O CEO da United Airlines acabou de dar a pior resposta da história da comunicação corporativa. Reagindo as cenas que correram as redes hoje, mostrando um passageiro sendo arrancado violentamente de uma aeronave da empresa para dar espaço a funcionários em trânsito para outro aeroporto, o sujeito tirou nota pedindo desculpas por ter “realocado” passageiros.

Bem, eu já liguei para a United para cancelar meu cartão de milhas, e realocarei o meu dinheiro para outras companhias aéreas.

Não sei se fico mais indignado pela falta de respeito dessa empresa com ou seus clientes ou pelo nível de burrice dos seus executivos, demonstrada pela desastrosa resposta, o que me faz pensar seriamente em vender essa ação a descoberto amanhã na Bolsa.

A resposta não é mais regulação, muito menos estatizar os serviços. Destratar o cliente é a regra quando se trata de burocratas do governo, ao contrário do que vemos na iniciativa privada. Alexandre Borges escreveu no seu Twitter:
“Se fosse estatal, a culpa seria do passageiro incomodado com pobre andando de avião”. Basta ver como era na União Soviética para saber que não é brincadeira.

Nos Estados Unidos, onde há mais concorrência, a cordialidade dos funcionários tende a ser ainda maior. Todos sorriem e agradecem pela preferência, mostram-se dispostos a ajudar, são solícitos. Bem, quase todos. Mas é sem dúvida a maioria, especialmente onde há mais concorrência.

Uma andorinha só não faz verão. Algumas empresas ou alguns funcionários sempre irão agir de forma condenável, comprovando que toda regra tem exceção. O liberalismo reage com mais livre mercado, mais concorrência, para que esses possam ser punidos pela liberdade de escolha dos consumidores.

Rodrigo Constantino

BLOG / RODRIGO CONSTANTINO  
Um blog de um liberal sem medo de polêmica ou da patrulha da esquerda “politicamente correta”.


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RECONHEÇAMOS NO CRISTO CRUCIFICADO A NOSSA HUMANIDADE POBRE, ESFACELADA, PISOTEADA


“Era desprezado como o último dos mortais, homem coberto de dores, cheio de sofrimentos; passando por ele, tapávamos o rosto; tão desprezível era, não fazíamos caso dele” (Isaías 52, 3).


Nesta Sexta-feira da Paixão de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, queremos olhar para a face desfigurada de Cristo. Sei que preferimos olhar para o Cristo belo, de olhos azuis, brilhante e assim por diante. Mas o Cristo que anunciamos e pregamos é o Cristo Jesus Crucificado!

O Cristo que, hoje, contemplamos pregado numa cruz não tem uma bela aparência; pelo contrário, a sua aparência é desprezível e repugnante de olharmos com os nossos olhos. Tão desprezível, desfigurado e amargurado encontra-se o corpo do Senhor. Ele foi castigado e desprezado pelos homens; Ele foi pisoteado e cuspido, foi de todas as formas dilacerado pela maldade humana. De modo que, aquele que está pregado na cruz, nem aparência humana tem.

O Cristo que está atrás de mim é belo, o Cristo que temos em nossa casa também. O crucifixo que carregamos é apenas a aparência melhorada pela arte, daquilo que de verdade é o Cristo que foi pregado na cruz. Aquilo que Isaías nos descreve mostra-nos em que condição Jesus encontrava-se.

Meus irmãos, não desviemos nosso olhar do Cristo Crucificado. Ele nos leva para a nossa própria humanidade para reconhecermos a nossa própria pobreza humana, reconhecermos que o ser humano nem sempre é bonito.

Reconheçamos no Cristo Crucificado a nossa humanidade pobre, esfacelada, pisoteada. Reconheçamos n’Ele o rosto de tantos desfigurados da humanidade; o rosto de tantos que passam fome, que são oprimidos pela violência, pela maldade humana. Reconheçamos o rosto de nossos doentes, daqueles que estão sofrendo, padecendo em nossos hospitais. Eles são para nós a expressão do Cristo vivo e crucificado!

Quando alguém é tomado por um doença grave, o câncer, por exemplo, a pessoa fica desfigurada. Muitas vezes, nem queremos olhar para essas pessoas porque o nosso coração não têm condições, ficamos assim tão movidos. Desculpe-me, mas mais cedo ou mais tarde, quando a “irmã morte” nos visitar o nosso corpo vai se desfigurar. Por mais que coloquemos aparências boas ou usemos uma maquiagem, quando tiramos a maquiagem somos o pó da terra.

Não tenhamos medo de encarar a realidade humana que somos. Cada realidade humana desfigurada, remete-nos ao Cristo crucificado e desprezado, que veio para resgatar, libertar e levar a plenitude àqueles que nele creem, têm vida e esperança.

Deus abençoe você!


Padre Roger Araújo
Sacerdote da Comunidade Canção Nova, jornalista e colaborador do Portal Canção Nova. Contato: mailto:padrerogercn@gmail.com – Facebook



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ITABUNA CENTENÁRIA:Um Poema - Cruz

Cruz


Uma meta a longo prazo
nos exige esforço
duro e prolongado.
Mas um cálculo
nos dá a confiança de que vale a pena.
talvez a cruz
seja somente um investimento.

Por amor a outra pessoa,
sacrificamos com gosto
tempo, força e dinheiro.
A cruz se chama
solidariedade com o outro
que sinto de algum modo
parte de mim mesmo.

Um golpe repentino,
pode fulminar-nos em um instante,
e nossa existência
fica ferida sem remédio.
Perde-se a saúde,
um ser querido,
ou a estima pública.
Arranca-se um galho verde,
uma parte viva do eu.
Quando esta mutilação
encontra seu repouso,
a cruz se chama
aceitação.

Existe a cruz livre
a que escolho
aquela da qual não fujo.
Mas uma vez nela pregado
já não posso descer
quando quero.
Entregam-se
os projetos aos cravos
a fantasia aos espinhos
o nome aos rumores
os lábios ao vinagre
e os bens à partilha.
Aqui a cruz se chama
fidelidade ao amor no amor,
que é canto e fortaleza
ressuscitando pela ferida.

Benjamin González Buelta sj 


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