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terça-feira, 21 de junho de 2022

DIA DE ELEIÇÃO – Helena Borborema



            Já muito cedo a vila de Itabuna apresentava um movimento desusado. Naquele dia, as famílias preferiam nem sair de casa, com medo do que pudesse acontecer. Nas estreitas ruas, indivíduos ostensivamente armados, montando fogosos cavalos, clavinote a tiracolo, desfilavam com ares intimidativos. Era a jagunçada que circulava, arregimentando eleitores e provocando adversários. A votação era para eleger o governador do Estado e, por isso, tornava-se sanhuda, pois daquela autoridade ia depender a força do coronel da região. Além das arrobas de cacau que colhia e do número de jagunços quer possuía, era da política que o coronel tirava maior prestígio, o que aumentava a sua vaidade de aristocrata rural e lhe dava maior força nos mandos e desmandos. Assim, a cata pelos votos era disputa violenta.

            No dia marcado, mal rompia o sol, começavam a chegar os eleitores. Vinham dos arredores e sobretudo das roças. Estas se esvaziavam, dando ocasião ao desfile dos roceiros: pés descalços, os borzeguins iam amarrados um pé no outro pelos cadarços e pendurados numa vara carregada no ombro; no braço, ia a roupa nova, presente do chefe, envolvida numa toalha para ser mudada na vila. A grande caminhada dentro dos matos cheios de carrapichos e atoleiros não dava condição a esses eleitores de já chegarem enfarpelados à casa de seus chefes. Os que vinham dos lados de Ferradas, contavam com um riacho, o Lava-pés, na entrada da vila, onde se limpavam da lama antes de calçarem as botinas.

            Dias antes, as lojas de sapatos, chapéus e roupas estavam franqueadas a seus eleitores, pelos coronéis.

            Chegado o dia do voto, nas pensões o caldeirão de feijoada já amanhecia pronto; no fogão a lenha, fumegavam panelas de galinha, cujo cheiro se misturava com o dos perus assados no forno. Este banquete era para os eleitores e a jagunçada. Todos os eleitores tinham comida de graça, os vivos é evidente, porque os mortos  só apareciam nas listas de votação. Tudo podia acontecer num dia de eleição: tiros, mortes, ameaças, pancadaria, burla. Os capangas tinham carta branca. Daí o receio das famílias de se aventurarem a sair com tamanho perigo.

            Num desses dias de votação, um grupo de jagunços de determinado partido político lançou mão de um dos muitos recursos que usavam para impedir que os adversários votassem. Em pontos estratégicos na entrada da vila, prostraram-se eles à espera  dos tabaréus que chegavam das roças. Não tardou que, um a um, fossem aparecendo.

            - Menino! De quem você é eleitor?

            - Eu sou eleitor do coronel  fulano.

            - Pode passar. Tá direito. É dos nossos.

            Perguntavam a outro que chegava mais tarde:

            - Você, menino, de quem é eleitor?

            A resposta vinha meio desconfiada, pois não sabiam a que partido pertenciam os desconhecidos. Mas aventurava:

            - Eu sou eleitor do coronel beltrano...

            - Você não vota, não. Você vai é voltar pra casa, senão lhe cortamos a ponta da orelha!

            E a bainha do facão caía de rijo no lombo do pobre coitado que voltava mesmo, correndo, ainda dando graças a Deus por salvar a orelha e a vida.

            Era o início as noite. A eleição tinha chegado ao fim. Dois cavaleiros meio encobertos pelos grossos palas que  que lhes desciam até o meio das pernas e as largas abas dos chapéus protegendo-lhes os rostos, pararam à porta de uma vendola na beira da estrada que ia dar em Ferradas. Ao desmontar, deixaram à mostra as pistolas que cada um portava, além de compridos punhais trazidos presos à cintura.

            Os dois estranhos aproximaram-se do pequeno balcão e pediram cachaça.

            - O amigo não foi votar?

            - Não. – respondeu o vendeiro, moço novo chegado há pouco ao lugar. – Vim de Sergipe sabendo que aqui tem muitos assassinatos e eu não quero me envolver em política.

            - E quem são os assassinos aqui? O que vosmecê tá querendo insinuar?

             - Nada não. É que ouvi histórias dos jagunços que matam de tocaia.

            - Aqui nesta terra só tem é macho valente!

            - Valente é quem enfrenta homem cara a cara.

            - O que tá querendo dizer?

            - Esses jagunços são todos uns covardes. Eu gostaria de ver um deles enfrentar um homem frente a frente.

            - Olha que ainda vai ver.

            - No dia em que isso acontecer, eu vou ser padre e celebrar missa, porque nunca vai acontecer.

            - A conversa já foi longe demais, homem.

           As últimas talagadas de cachaça foram tomadas e as derradeiras cusparadas ficaram no chão de terra batida.

            Jogando sobre o balcão alguns níqueis, os dois desconhecidos montaram nos seus cavalos e partiram a galope sumindo na escuridão da noite.

            O tagarela imprudente apagou o fifó da vendinha e foi dormir.

            No outro dia, o sol já se levantara a um bom pedaço de tempo, quando três indivíduos entraram na bodega e intimaram o dono para uma pescaria. Era um domingo silencioso, como todos os domingos de roça.

            Reconhecendo os dois visitantes da véspera, o apavorado vendeiro logo sentiu o pior.

            - Pelo amor de Deus, o que vocês querem de mim?

            - Você vai pescar – disse um. Enquanto falava, foi arrancando o pobre coitado de detrás do balcão. Agarrado de um lado e de outro, em pânico, trêmulo, sem ter para quem apelar, foi sendo levado em direção ao rio. O lugar era deserto. Além disso, o alto barranco e as moitas que cresciam nas encostas deixavam o local longe das vistas dos passantes na estrada.

            Num trecho cheio de pedras baixas e lisas pararam.

            - Agora se benza e ajoelhe – disse um dos bandidos – porque você virou padre e vai celebrar missa. – Dizendo isto, foi lhe vibrando em cima o chicote de umbigo de boi.

            - Levante! – gritou o outro – Vire de frente, nos dê a bênção e se ajoelhe. – O chicote estava caindo.

            - Você não disse que homem aqui não tem coragem de matar cara a cara? Pois vamos lhe mostrar. – E o chicote foi caindo... caindo...

            Era meio-dia. O sol já estava a pino.

            Com as carnes rasgadas, o sangue escorrendo no lajedo quente, a pobre vítima gritava e implorava por socorro e misericórdia, mas os seus gritos de dor e depois os gemidos de moribundo se perdiam na amplidão do espaço. Dentro de poucas horas estava morto e o seu corpo foi rolado para a correnteza do rio.

           Além dos três assassinos, a única testemunha muda desse bárbaro crime, foi o tranquilo e silencioso Rio Cachoeira.

 

(TERRAS DO SUL)

Helena Borborema

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Helena Borborema - Nasceu em Itabuna. Professora de Geografia, lecionou muitos anos nos colégios Divina Providência, Ação Fraternal e Colégio Estadual de Itabuna. Formada em Pedagogia pela Faculdade de Filosofia de Itabuna, exerceu o cargo de Secretária de Educação e Cultura do Município. 

Filha do Dr. Lafayette Borborema, o primeiro advogado de Itabuna. É autora de ‘Terras do Sul’, livro em que documento, memória e imaginação se unem num discurso despretensioso para testemunhar o quadro social e humano daqueles idos de Tabocas. Para a professora universitária Margarida Fahel, ‘Terras do Sul’ são estórias simples, plenas de "emoção e humanidade, querendo inscrever no tempo a história de uma gente, o caminho de um rio, a esperança de uma professora que crê no homem e na terra". 

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21 DE JUNHO - DIA DE MACHADO DE ASSIS

 

 


Discurso de Inauguração da Academia (20/07/1897)

DISCURSO DE MACHADO DE ASSIS


Pronunciado na sessão inaugural da Academia Brasileira de Letras em 20 de julho de 1897, ao empossar-se Presidente.


"SENHORES,

            Investindo-me no cargo de presidente, quisestes começar a Academia Brasileira de Letras pela consagração da idade. Se não sou o mais velho dos nossos colegas, estou entre os mais velhos. É simbólico da parte de uma instituição que conta viver, confiar da idade funções que mais de um espírito eminente exerceria melhor. Agora, que vos agradeço a escolha, digo-vos que buscarei na medida do possível corresponder à vossa confiança.

            Não é preciso definir esta instituição. Iniciada por um moço, aceita e completada por moços, a Academia nasce com a alma nova, naturalmente ambiciosa. O vosso desejo é conservar, no meio da federação política, a unidade literária. Tal obra exige, não só a compreensão pública, mas ainda e principalmente a vossa constância. A Academia Francesa, pela qual esta se modelou, sobrevive aos acontecimentos de toda casta, às escolas literárias e às transformações civis. A vossa há de querer ter as mesmas feições de estabilidade e progresso. Já o batismo das suas cadeiras com os nomes preclaros e saudosos da ficção, da lírica, da crítica e da eloquência nacionais é indício de que a tradição é o seu primeiro voto. Cabe-vos fazer com que ele perdure. Passai aos vossos sucessores o pensamento e a vontade iniciais, para que eles os transmitam aos seus, e a vossa obra seja contada entre as sólidas e brilhantes páginas da nossa vida brasileira. Está aberta a sessão.

            Acadêmico: Machado de Assis"

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Machado de Assis (Joaquim Maria Machado de Assis), jornalista, contista, cronista, romancista, poeta e teatrólogo, nasceu no Rio de Janeiro, RJ, em 21 de junho de 1839, e faleceu também no Rio de Janeiro, em 29 de setembro de 1908. É o fundador da cadeira nº. 23 da Academia Brasileira de Letras. Velho amigo e admirador de José de Alencar, que morrera cerca de vinte anos antes da fundação da ABL, era natural que Machado escolhesse o nome do autor de O Guarani para seu patrono. Ocupou por mais de dez anos a presidência da Academia, que passou a ser chamada também de Casa de Machado de Assis.

 

Fonte: Academia Brasileira de Letras (ABL)

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segunda-feira, 20 de junho de 2022

ITABUNA CENTENÁRIA UM SONETO: Amor e Vida - Raimundo Correia


 

Amor e Vida

Raimundo Correia

 

Esconde-me a alma, no íntimo, oprimida,
Este amor infeliz, como se fora
Um crime aos olhos dessa, que ela adora,
Dessa, que crendo-o, crera-se ofendida.

A crua e rija lâmina homicida
Do seu desdém vara-me o peito; embora,
Que o amor que cresce nele, e nele mora,
Só findará quando findar-me a vida!

Ó meu amor! como num mar profundo,
Achaste em mim teu álgido, teu fundo,
Teu derradeiro, teu feral abrigo!

E qual do rei de Tule a taça de ouro,
Ó meu sacro, ó meu único tesouro!
Ó meu amor! tu morrerás comigo!


                                                            (Sinfonias, 1883.)

 


Raimundo Correia
(R. da Mota de Azevedo C.), magistrado, professor, diplomata e poeta, fundador da cadeira 5 da ABL, nasceu em 13 de maio de 1859, a bordo do navio brasileiro São Luís, ancorado na baía de Mogúncia, MA, e faleceu em Paris, França, em 13 de setembro de 1911.

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sábado, 18 de junho de 2022

POBRE RIO CACHOEIRA, Por Sione Porto

 


Pobre Rio Cachoeira

Sione Porto

 

Menina, vi o Rio Cachoeira,
Belo e veloz, descer
Em busca do mar,
Com seu verde e ondas vertiginosas,
Brilhar perto das margens,
Nos fazendo encantar!

Então, comigo pensava,
Quão magnífico, ó Rio Cachoeira,
Cheio de vida e amplexos,
Trazendo cardumes nas redes
Peixes a se multiplicar,
Para os pobres alimentar!

Menina, vi o Rio Cachoeira
Banhando as lavadeiras,
Que após lavar roupas tão alvas,
Entoando sonoros cantos ribeirinhos,
Saíam com suas trouxas na cabeça,
Nos fazendo sonhar e sonhar!

Hoje, procuro o Rio Cachoeira,
De tanta beleza de outrora,
Mas apenas vejo sujeira,
dentro e nos seus arredores,
povoado de garças sorrateiras,
Que triste é o Rio Cachoeira!

Será que ninguém ver o seu penar?
Antes tão absoluto e majestoso,
A deslizar nas ondas fortes
Na sólida terra grapiúna,
Que hoje geme e sangra,
Querendo se recuperar?

Bravo Rio Cachoeira,
Estrela brilhante,
Daqueles que o amam,
Certamente uma voz,
Falará mais alto para o salvar,
E, como aquele que não foge à luta, sobreviverá!

 

Sione Maria Porto de Oliveira, poetisa.

Membro da Academia de Letras de Itabuna (Alita)

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A Percepção Poética de Heloísa Prazeres

Cyro de Mattos (*)  


            

             Depois da estreia com a Pequena história, antologia pessoal, a baiana (de Itabuna) Heloísa Prazeres retoma seu processo poético com um segundo volume, Casa onde habitamos (2016), formado de consistente união entre inspiração e transpiração, intuições e reflexões, imaginações e registros. Nesse segundo volume, com a ilustração de fotografia de  Jamison Pedra, a poeta usa a palavra simbolizada para metamorfosear o discurso da vida como resultado de trabalhos de bastidor, achados nas zonas suspensas do sonho, fiações de interiores sob o teto da terra, memórias para alcançar o  entendimento no mesmo chão de suas origens.

            Há nos oitenta e dois poemas que compõem essa casa, tecida com o labor do sonho, um ritmo que conduz a ideia através de versos bem construídos para o preenchimento dos vazios no mundo. Assim, nos domínios onde a atribuição a um autor consiste na  boa literatura mesclada com instrumental crítico suficiente, o emprego de linguagem eficaz deixa  ver que aqui estamos diante de uma construção poética  segura, de signo adornado pelo som na cadência musical própria do poema,  que diz de emoções chegando da  memória ou da razão, como se fossem sensações que na imagem iluminam o ser.   

        Numa lírica moderna ressoa o uso do vocábulo estrangeiro, a boa referência a poetas e escritores de predileção pessoal, mas em especial o tempo que, na alma enlaçando afetos e afinidades, busca outro tempo, marcado através de experiências, revelações tantas perante a existência.  Dividido em quatro partes, “Trabalhos de bastidor”, “Antessala de sonho”, “Sob o teto da terra” e “Mesmo chão”, podemos dizer que, nessa casa onde o eu lírico traça projetos efêmeros ante o eterno que perdura, a chave para o seu conhecimento, distribuído em compartimentos delimitados pelo assunto ou tema, o qual homenageia a vida, está na epígrafe de Sophia de Mello Breyner Andresen, tão esplêndida poeta portuguesa quanto luminosa contista, quando diz:

 

Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco

E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo

               

         Quando a reconstrução do mundo no verso é convincente, faz pensar logo como a vida é falha, repleta de contradições dentro de certo peso que impõe suas vozes agudas permeadas da ambiguidade na passagem do tempo. Sendo falha, para equilibrar-se nos vazios, o poeta recorre à   linguagem literária para inaugurar novos sentidos, lembrando assim que na quimera e na divagação, na pureza de dicção superior, criativa, a vida torna-se viável. Utiliza por isso lições plasmadas em linguagem específica para discorrer sobre o espanto da vida e assim prosseguir na litania do verso,  que em si mesmo se sustenta e encanta. 

              O poeta quer dizer com isso que o seu gesto de ler o mundo põe claridade nas partes escuras que ocultam o mundo. O verso supre a deficiência crítica, repleta de limitações, impossibilidades que envolvem aos humanos perante a experiência da vida em que entra a solidão, o tédio, o azar e a tristeza.  Embora existam as flores, sabe-se que elas somem, mal surgem. Ao poeta Heloísa Prazeres, o milagre para que sempre sobrevivam consiste em vê-las com a sua teimosia no deserto, em tácito entendimento com as altiplanas montanhas de Nevada, como as encontramos no afetuoso “Poema para os meus amigos”. Lembre-se então que, ressoando larguras e profunduras, em mínimas cosmovisões de ternuras, disse Neruda que a flor da alma na alma flora.

          Na geografia íntima da casa abandonada, Heloísa Prazeres não sabe “dizer se havia/consentimentos, apelos/de viagens dominavam/ vontades. Seguro apenas/ o mandato da aventura.”  E, porque o desafio consiste em ultrapassar a aventura do viver, o tempo dos legítimos poetas é outro. Decide-se com os reclamos da alma, rumores urdidos com “mala fixa e estética”, emoções e conceitos mesclados com a permanência de surpresas, cismas e perplexidades.  É o que percebemos, por exemplo, no discurso singular do poema “Trópico do capricórnio.”

         Até mesmo no poema “Familiar”, os versos livres de Heloísa Prazeres, de um ritmo quase automático, de incrível rapidez e visibilidade, síntese e concisão, como quer Italo Calvino,  fixam-se na  cena com assunto moderno, extraído do mundo internético de hoje, o qual, instalado  no grupo, faz com que cada um fique hipnotizado no seu recurso, na cerimônia ao deus TIC - Tecnologia da Informação e Divulgação.

        Esse modo de estruturar o verso nos tempos de hoje, embalado do eletrônico que não se ajusta ao sol na manhã com esperança, só comprova que nessa casa de Heloísa Prazeres, aqui e agora, com leveza e graça, densidade e clareza, a poesia está em tudo.

            O poema não engole o poeta quando provido de linguagem adequada e percepção do mundo.

 

Leitura Sugerida

PRAZERES, Heloísa. Casa onde habitamos, Editora Scortecci, São Paulo, 2016.

 


*Cyro de Mattos
é autor premiado no Brasil e exterior.

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quarta-feira, 15 de junho de 2022

A POLÊMICA - Artur Azevedo


A Polêmica

 

            O Romualdo tinha perdido, havia já dois ou três meses, o seu lugar de redator numa folha diária; estava sem ganhar vintém, vivendo sabe Deus com que dificuldades, a maldizer o instante em que, levado por uma quimera da juventude, se lembrava de abraçar uma carreira tão incerta e precária como a do jornalismo.

            Felizmente era solteiro, e o dono da “pensão” onde ele morava fornecia-lhe casa e comida a crédito, em atenção aos belos tempos em que nele tivera o mais pontual dos locatários.

            Cansado de oferecer em pura perda os seus serviços literários a quanto jornal havia então no Rio de Janeiro, o Romualdo lembrou-se, um dia, de procurar ocupação no comércio, abandonando para sempre as suas veleidades de escritor público, os seus desejos de  consideração e renome.

            Para isso, foi ter com um negociante rico, por nome Caldas, que tinha sido seu condiscípulo no colégio Vitório, a quem jamais ocupara, embora ele o tratasse com muita amizade e o tuteasse, quando raras vezes se encontrava na rua.

           

            O negociante ouviu-o, e disse-lhe:

            - Tratarei mais tarde de arranjar um emprego que te sirva; por enquanto preciso da tua pena. Sim, da tua pena. Apareceste ao pintar! Foste a sopa que me caiu no mel! Quando entraste por aquela porta, estava eu a matutar, sem saber a quem me dirigisse para prestar-me o serviço que vou te pedir. Confesso que não me tinha lembrado de ti... perdoa...

            - Estou às tuas ordens.

            - Preciso publicar amanhã, impreterivelmente, no “Jornal do Comércio”, um artigo contra o Saraiva.

            - Que Saraiva?

            - O da rua Direita.

            - O João Fernandes Saraiva?

            - Esse mesmo.

            - E queres tu que seja eu quem escreva esse artigo?

            - Sim. Ganharás uns cobres que não te farão mal algum.

            A essa palavra “cobres”, o Romualdo teve uma estremeção de alegria; mas caiu em si:

            - Desculpa, Caldas; bem sabes que o Saraiva é, como tu, meu amigo... como tu, foi meu companheiro de colégio...

            - Quando conheceres a questão que vai ser o assunto desse artivo, não te recusarás a escrevê-lo, porque não admito que sejas mais amigo dele do que meu. Demais, nota uma coisa: não quero insultá-lo, não quero dizer nada que o fira na sua honra, quero tratá-lo com luva de pelica. Sou eu o primeiro a lastimar que uma questão de dinheiro destruísse a nossa velha amizade. Escreves o artigo?

            - Mas...

            - Não há mas nem meio mas! O Saraiva nunca saberá que foi escrito por ti.

            - Tenho escrúpulos...

            - Deixa lá teus escrúpulos, e ouve de que se trata. Presta-me toda atenção.

            E o Caldas expôs longamente ao Romualdo a queixa que tinha do Saraiva. Tratava-se de uma pequena questão comercial, de um capricho tolo que só poderia irritar um contra o outro, dois amigos que não conhecessem  o que a vida tem de áspero e difícil. O artigo seria um desabafo menos do brio que da vaidade, e, escrevendo-o, qualquer pena hábil poderia, efetivamente, evitar uma injúria grave.

            O Romualdo, que há muito tempo não pegava numa nota de cinco mil réis, e apanhara, na véspera, uma descompostura da lavadeira, cedeu, afinal, às tentadoras instâncias do amigo, e no próprio escritório deste redigiu o artigo, que satisfez plenamente.

            - Muito bem! – exclamou o Caldas, depois de três leituras consecutivas.

            - Se eu soubesse escrever, escreveria isto mesmo! Apanhaste perfeitamente  a questão!

            E, depois de um passeio à burra, meteu um envelope na mão de Romualdo, dizendo-lhe:

            - Aparece-me daqui a dias: vou procurar o emprego que desejas. A época é difícil, mas há de se arranjar.

            O Romualdo saiu, e, ao dobrar a primeira esquina, abriu sofregamente o envelope: havia dentro uma nota de cem mil réis. Exultou! Parecia-lhe ter tirado a sorte grande!

            Na manhã seguinte, o ex-jornalista pediu ao dono da “pensão” que lhe emprestasse  o “Jornal do Comércio”, e viu a sua prosa “Eu e o sr. João Fernandes Saraiva” assinado pelo Caldas; sentiu alguma coisa que se assemelhava ao remorso, o mal-estar que acomete o espirito e se reflete no corpo do homem todas as vezes que este pratica um ato inconfessável, e aquilo era uma quase traição. Entretanto almoçou com apetite.

            À sobremesa entrou na sala de jantar um menino, que lhe trazia uma carta em cujo sobrescrito se lia a palavra “urgente”.

            Ele abriu e leu:

            “Romualdo. – Preciso falar-lhe com a maior urgência. Peço-lhe que dê um pulo ao nosso escritório hoje mesmo, logo que possa. Recado do – João Fernandes Saraiva”.

            Este bilhete inquietou o ex-jornalista.

            Com certeza, pensou ele, o Saraiva soube que fui eu o autor do artigo! Naturalmente alguém me viu entrar em casa do Caldas, demorar-me no escritório... desconfiou da coisa e foi dizer-lhe... Mas para que me chamará ele?

            O seu desejo era não acudir ao chamado; alegar que estava doente, ou não alegar coisa alguma, e lá não ir; mas o menino de pé, junto à mesa do almoço, esperava a resposta... Era impossível fugir!

            - Diga ao seu patrão que daqui a pouco lá estarei.

            O menino foi-se.

            O Romualdo acabou a sobremesa, tomou o café, saiu, e dirigiu-se ao escritório do Saraiva, receoso de que este o recebesse com duas pedras na mão.

 

            Foi o contrário. O amigo recebeu-o de braços abertos, dizendo-lhe:

            - Obrigado por ter vindo! Estava com medo de que o pequeno não te encontrasse! Vem cá!

            E levou-o para um compartimento reservado.

            - Leste o “Jornal do Comércio” de hoje?

            - Não – mentiu prontamente o Romualdo – Raramente leio o “Jornal do Comércio”.

            - Aqui o tens; vê que descompostura me passou o Caldas!

            O Romualdo fingiu que leu.

            - Isso que aí está é uma borracheira, mas não é escrito por ele! – bradou o Saraiva. – Aquilo é um besta que não sabe pegar na pena senão para assinar o nome!

            - O artigo não está mau... Tem até estilo...

            - Preciso responder!

            - Eu, no teu caso, não respondia...

            - Assim não penso. Preciso responder amanhã mesmo no próprio “Jornal do Comércio” e, se te chamei, foi para pedir-te que escrevas a resposta.

            - Eu?...

            - Tu, sim! Eu podia escrever, mas... que queres?... Estou fora de mim!...

            - Bem sabes – gaguejou Romualdo – que sou amigo do Caldas. Não me fica bem...

            - Não te fica bem, por quê? Ele com certeza não é mais teu amigo que eu! Depois, não é intenção minha injuriá-lo; quero apenas dar-lhe o troco!

            No íntimo o Romualdo estava satisfeito, por ver naquele segundo artigo um meio de atenuar, ou, se quiserem, de equilibrar o seu remorso.

            Ainda mastigou  umas escusas, mas o outro insistiu:

            - Por amor de Deus não te recuses a este obséquio tão natural num homem que vive da pena! Tu estás desempregado, precisas ganhar alguma coisa...

            O Romualdo cedeu a este  último argumento, e, depois de convenientemente instruído pelo Saraiva sobre a resposta que devia dar, pegou na pena e escreveu ali mesmo o artigo.

            Reproduziu-se então a cena da véspera, com mudança apenas de um personagem. O Saraiva, depois de ler e reler o artigo, exclamou: - Bravo! Não poderia sair melhor! – e, tirando da algibeira um maço de dinheiro, escolheu uma nota de duzentos mil réis e entregou-o ao prosador.

            - Oh! Isso é muito, Saraiva!

            - Qual muito! Estás a tocar leques por bandurra: é justo que te pague bem!

            - Obrigado: mas olha... recomendo-te que mandes copiar o artigo, porque no “Jornal” pode haver alguém que conheça a minha letra.

            - Copiá-lo-ei eu mesmo.

            - Adeus.

            - Adeus. Se o Caldas treplicar, aparece-me!

            - Está dito.

            No dia seguinte, o Caldas entrou muito cedo no quarto do Romualdo, com o “Jornal do Comércio” na mão.

            - O bruto replicou! Vais escrever-me a tréplica!

            E batendo com as costas da mão no jornal:

            - Isso não é dele... Aquilo é incapaz de traçar duas linhas sem quatro asneiras... mas, ainda assim, quem escreveu por ele está longe de ter o teu estilo, a tua graça... Anda! Escreve!...

             E o Romualdo escreveu...

 

              Durante um mês teve ele a habilidade de alimentar a polêmica, provocando a réplica, para que não estancasse tão cedo a fonte de receita que encontrara. Para isso fazia insinuações vagas, mas pérfidas, e depois, em conversa ora com um, ora com outro, era o primeiro a aconselhar a retaliação e o esforço.

            Tanto o Caldas como o Saraiva se mostraram cada vez mais generosos, e o Romualdo nunca em dias de sua vida se viu com tanto dinheiro. Ambos os contendores lhe diziam: - Escreve! Escreve! Eu quero ser o último!

 

            Por fim, vendo que a questão se eternizava, e de um momento para o outro a sua duplicidade podia ser descoberta, o Romualdo foi gradualmente adoçando o tom dos artigos, fazendo, por sua própria conta, concessões recíprocas, lembrando a velha amizade, e com tanto engenho se houve, que os dois contendores se reconciliaram, acabando amigos e arrependidos de terem dito um ao outro coisas desagradáveis em letra de forma.

            E o público admirou essa polêmica, em que dois homens discutiam com estilos tão semelhantes que o próprio estilo pareceu humanizá-los.

 

          O Caldas cumpriu a sua promessa: o Romualdo pouco depois entrou para o comércio, onde ainda hoje se acha, completamente esquecido do tempo que perdeu no jornalismo.

 

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Artur Azevedo (Artur Nabantino Gonçalves de Azevedo), jornalista e teatrólogo, nasceu em São Luís, MA, em 7 de julho de 1855, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 22 de outubro de 1908. Figurou, ao lado do irmão Aluísio Azevedo, no grupo fundador da Academia Brasileira de Letras, onde criou a cadeira nº 29, que tem como patrono Martins Pena.

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