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segunda-feira, 24 de maio de 2021

ITABUNA CENTENÁRIA UM SONETO: O Povo Esse Desconhecido - Luiz Gonzaga Dias



O POVO, ESSE DESCONHECIDO

 

É o povo, o indivíduo coletivo,

Alma versátil, corpo de gigante,

Que tem rugidos de leão cativo,

Ou servilismo torpe, repugnante.

 

Vezes heroico, humilde, bom, passivo,

Outras vezes feroz e flamejante.

Tendo gestos de escravos redivivo,

Tendo assomos fúria apavorante.

 

Nem bom, nem mau, vivendo da esperança,

De um mundo melhor, como a criança

Sempre no anelo de melhor brinquedo.

 

Gênio complexo que ninguém entende,

O povo que a própria liberdade vende,

Desperta pena, provocando medo...

 


(IMAGENS MUTILADAS)

Luiz Gonzaga Dias


* * *

domingo, 23 de maio de 2021

NEGRINHA BENEDITA – Cyro de Mattos



Negrinha Benedita

Cyro de Mattos

 

Por causa

dum frasco

de cheiro

apanhou

de chibata.

Os outros

assombrados

não puderam

fazer nada.

 

Sem andar

dias ficava.

Quando sarou,

falou ao vento

que ia embora.

Pelo mato

foi voando,

escapou

da cachorrada.

Teve sede,

teve fome,

levou espinho

pela cara.

 

Para trás

não olhava.

Com uma

espada afiada

que lhe deu

uma mão oculta

um dia viu

no quilombo

que ali era

a sua morada.

 

Aconteceu

que depois

a cabeça

da sinhá

amanheceu

decepada.

Ninguém viu

como se deu

na escuridão

daquela noite

a revanche

assim marcada.

Por causa

dum frasco

de cheiro

que ela pegou

pra ser cheirada.

 

Cyro de Mattos é escritor e poeta. Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual de Santa Cruz. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia, Academia de Letras de Ilhéus e Academia de Letras de Itabuna. Comendador da Ordem do Mérito do Governo da Bahia.

* * *

PALAVRA DA SALVAÇÃO (232)

 


Solenidade de Pentecostes | domingo, 23 de maio de 2021


Anúncio do Evangelho (Jo 20.19-23)

— O Senhor esteja convosco.

— Ele está no meio de nós.

— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo João.

— Glória a vós, Senhor.

Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas, por medo dos judeus, as portas do lugar onde os discípulos se encontravam, Jesus entrou e, pondo-se no meio deles, disse: “A paz esteja convosco”. Depois dessas palavras, mostrou-lhes as mãos e o lado. Então os discípulos se alegraram por verem o Senhor. Novamente, Jesus disse: “A paz esteja convosco. Como o Pai me enviou, também eu vos envio”. E, depois de ter dito isso, soprou sobre eles e disse: “Recebei o Espírito Santo. A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados; a quem não os perdoardes, eles lhes serão retidos”.

— Palavra da Salvação.

— Glória a vós, Senhor.

 

https://liturgia.cancaonova.com/pb/

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Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Padre Roger Araújo:



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Pentecostes: livres como o vento

 


“Soprou sobre eles e disse: ‘recebei o Espírito Santo’” (Jo 20,22)

 

Corre pela rede este relato: uma pessoa idosa e com recursos econômicos contraiu o Covid; os médicos, temendo por sua vida, aconselharam a colocar-lhe um respirador; e ele começou a chorar. A enfermeira que o cuidava lhe perguntou: “O senhor está chorando porque não tem dinheiro para pagar o respirador?”. “Não – respondeu o ancião – choro porque estive respirando gratuitamente toda a minha vida e só agora me dou conta do valor desse grande presente”.

As circunstâncias desse enfermo e a dos apóstolos fechados são semelhantes, pois eles se encontram confinados, um com a Covid e os outros estão fechados no Cenáculo. Em ambos os casos está presente o medo da morte: um, por um vírus maligno e outro, pelas autoridades romanas, que querem acabar com o movimento de vida iniciado por Jesus. Também coincide o método curativo: para o ancião infectado, um respirador que lhe injeta oxigênio nos pulmões; para os discípulos de Jesus, a chegada do sopro divino que fortalece seu espírito. A grande diferença é que o hospital cobra enquanto que o Espírito é gratuito.

O relato nos ajuda a tomar consciência da presença do Espírito em nossas vidas pois Ele, como o oxigênio, sempre esteve ao nosso lado, mas nos acomodamos no habitual e esquecemos desse “ar vital” que nos mantém sempre criativos, inspirados e sonhadores. O Espírito é nosso “respirador” existencial. Por isso, é preciso, de tempos em tempos, uma sacudida – interna e externa – para que nos recordemos dessa presença, muitas vezes silenciosa como uma brisa, outra vezes como um vento impetuoso.

A liturgia cristã é muito sábia dividindo o ano com festas que indicam os marcos mais importantes de nossa fé: a encarnação, ressurreição e agora Pentecostes, que são como “toques” para despertar nossa atenção. 

Espírito Santo é o “oxigênio” que nos faz respirar.

Descobrir, no dia-a-dia, que o Espírito é essa Presença forte e terna ao mesmo tempo, e que, como o oxigênio para respirar, nos envolve, nos habita e nos constitui; despertar-nos para essa realidade é muito libertador. Mesmo estando em confinamento, essa Presença percebida como silêncio, como proximidade, como força, como alegria..., se converte em caminho, em Vida amassada com nossa vida, e nos “levanta-ressuscita” do sonho quase apagado para conectar-nos com o Sonho de Deus, seu Reinado.

A festa de Pentecostes vem acompanhada de muitos símbolos. Um vento que levanta e dispersa o pó que estava sedimentado em nossas vidas, um fogo que aviva as brasas que estavam apagadas em nosso interior; uma luz benfazeja que nos possibilita ver com claridade o caminho que se abre diante de nós: a senda que Jesus indicou para seus seguidores(as); uma força que afasta nossos medos e derruba as paredes que dão a falsa sensação de segurança; o Espírito é a Vida mesma de Deus: na bíblia, é sinônimo de vitalidade, de dinamismo e novidade. Vento, fogo, luz, força, vida... tudo grátis, ao alcance de nossa mão; basta abrir-nos à presença inspiradora e mobilizadora do Espírito.

É o Espírito dos mil nomes..., nas religiões, na arte, nas grandes descobertas, nos momentos de inspiração, nas experiências fundantes de nossa vida. “A minha direção é a pessoa do Vento” (M. Barros). 

Foi o Espírito que impulsionou a missão de Jesus e que agora se encontra também na raiz da missão da grande comunidade de seus seguidores e seguidoras.

A imagem do Ressuscitado “soprando” sobre os discípulos contém uma riqueza instigante: significa parti-lhar o que é mais “vital” de uma pessoa, sua própria “respiração”, seu mesmo espírito, todo seu dinamismo...

Na sua conversa noturna com Nicodemos Jesus tinha dito que “o vento sopra onde quer e ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai. Assim é também todo aquele que nasceu do Espírito” (Jo 3,8). O vento é livre; e tem tanta liberdade que ninguém pode segurá-lo. O que Jesus destaca é a “liberdade” do vento, que não se deixa escravizar, submeter ou dominar. É o símbolo perfeito da liberdade indomável; uma liberdade que está ali onde está o Espírito.

O evento de Pentecostes nos remonta ao coração mesmo da experiência cristã e eclesial: uma experiência de vida nova com dimensões universais.

O dia da festa de Pentecoste é, de verdade, a festa dos homens e mulheres livres como vento, festa do novo nascimento. E, neste mundo, começará a ser possível a harmonia da liberdade com a igualdade, a comunhão com o respeito à diversidade, a verdade com a acolhida do novo... 

Viver uma “vida segundo o Espírito” é deixar-nos recriar, deixar-nos mover, transformar, alargar.

Soltar as asas nos momentos mais petrificados e pesados de nossa vida é sinal de sua silenciosa Presença. 

De imediato, nos sentiremos livres do peso que fomos arrastando durante tanto tempo e, por uns instantes, nos atreveremos a “viver como filhos e filhas do Vento”.

O Santo Espírito é o sopro que vivifica, anima, restaura e congrega. Pela linguagem do amor, Ele acende a luz da paixão e permite desenvolver os dons da alegria, do entusiasmo, da compaixão, do cuidado, da esperança e da fé inabalável. Tais atitudes construtivas não são obra nossa, mas dom e fruto do Espírito, que se revela como algo agradável, fascinante, belo, alegre, espontâneo, saboroso como um fruto.

Nós as vivemos, sim, mas é a “Ruah” que as desperta em nós, pois elas estão presentes como “reservas de humanidade” em nosso interior. 

Somos “filhos e filhas do Vento”, a Ruah de Deus.

Homens e mulheres do vento somos todos nós, quando nos deixamos mover de acordo com os movimentos do coração de Deus e da paixão pela humanidade. Movidos pelo Espírito de Deus, acreditamos e construímos mediações libertadoras que promovem, incentivam e enobrecem o espírito humano. Passamos a preferir a proximidade à distância, o dinamismo à inércia, a criatividade à normose...

Nosso tempo pede que sejamos homens e mulheres do Vento, que ajudam o mundo a respirar e sentir a vida palpitar; que buscam, na terra, viver o sonho do Reino; que alimentam as chamas da esperança nos corações sonhadores; que se reconhecem humildes ante a misericórdia e o infinito de Deus; que acreditam na força dos pequenos e dos gestos simples; que vibram com as conquistas justas e que se compadecem da miséria do humano; que cuidam de tudo e de todos com ternura e carinho.

Como “filhos e filhas do Vento” basta deixar-nos envolver, escutar o Sopro daquela voz que habita a dimensão mais profunda da vida e que se aninha nas cavidades mais secretas de nossa existência.

É o Sopro que nos faz viver, e viver em plenitude.

Texto bíblico:  Jo 20,19-23 

Na oração: Precisamos do Sopro que verdadeiramente nos agite, nos empurre, nos arranque de nossa vida estreita e estéril.

O Espírito é um dom para os fundamentos, não para a maquiagem.

- Abra seus pulmões e deixe o “oxigênio” da Vida chegar até às dimensões mais profundas de sua vida, talvez ainda não bem integradas; deixe que Vento levante a poeira da acomodação, do medo, da insegurança... para o despertar de um novo impulso vital., criativo e aberto.


Pe. Adroaldo Palaoro sj

https://centroloyola.org.br/revista/outras-palavras/espiritualidade/2333-pentecostes-livres-como-o-vento

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sábado, 22 de maio de 2021

VIRGEM MILAGROSA INABALÁVEL EM FURACÃO COLOMBIANO

 


No arquipélago colombiano de San Andrés, no Caribe, o furacão Iota, de máximo furor, arrasou 98% das casas no final do ano passado. Só resistiu uma imagem de Nossa Senhora das Graças [fotos], de 1,80m, montada sobre um alto pedestal, num relevo junto ao mar de onde veio o furacão.

O presidente da Colômbia, Iván Duque, visitou o local e falou na TV: “É impactante que, após a passagem de um furacão de categoria 5, ela ficasse de pé. […] O certo é que essa imagem é poderosa”.

O Pe. Alexander García, do vicariato de San Andrés, afirmou que “a imagem em pé da Virgem Maria é um sinal da presença de Deus. […] Em horas amargas e dolorosas a fé nos conforta e nos encoraja a seguir em frente. É a presença da Mãe que cuida de seus filhos nos momentos de dificuldade”.







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sexta-feira, 21 de maio de 2021

AS BEM-AVENTURANÇAS E A GLÓRIA CELESTE – Plinio Maria Solimeo



“As bem-aventuranças” (1436-1443), Fra Angelico, afresco do convento de San Marco, em Florença.

Plinio Maria Solimeo

Diz São Mateus em seu Evangelho que Nosso Senhor Jesus Cristo “percorria toda a Galileia […] grandes multidões seguiam-no da Galileia e da Decápole, e de Jerusalém e da Judeia”. O Divino Salvador, “vendo a multidão, subiu ao monte, e quando se sentou, aproximaram-se dele os discípulos. E, abrindo a boca, Ele os ensinava dizendo, bem-aventurados…” (4, 23-25; 5, 1 e ss.), iniciando assim o que ficou conhecido como o famoso Sermão da Montanha.

São Lucas põe esse episódio logo depois de Nosso Senhor ter escolhido seus 12 discípulos e, descendo do monte em que estavam, curou muitos doentes e expulsou vários demônios. Em seguida, “levantando os olhos sobre os discípulos, Ele dizia: bem-aventurados…”.

Esse evangelista cita apenas quatro das oito bem-aventuranças mencionadas por São Mateus. Sobre isso comenta a revista Permanência: “[São] Lucas narra que o sermão do Senhor foi feito às turbas. Por isso enumera as bem-aventuranças conforme a capacidade delas, que só conheciam a felicidade voluptuosa, temporal e terrena”. As quatro citadas por ele são: “Bem-aventurados os pobres, porque vosso é o reino de Deus; Bem-aventurados os que agora padeceis fome, porque sereis fartos; Bem-aventurados os que agora chorais, porque rireis; Bem-aventurados sereis quando vos odiarem os homens, vos excomungarem, e vos maldisserem e proscreverem vosso nome como mau, por amor do Filho do Homem. Alegrai-vos naquele dia e regozijai-vos, pois grande será a vossa recompensa no Céu”.

Entretanto, vamos comentar as oito bem-aventuranças citadas por São Mateus, porque elas englobam também as acima.

Sobre as bem-aventuranças ou a felicidade que elas supõem, afirma o erudito diácono e teólogo Douglas Mcmanaman, do Catholic Education Resource Center:

“O filósofo grego Aristóteles apontou que a felicidade genuína (eudaemonia) é completa e suficiente em si mesma. Isto é, não é precária e depende de fatores externos como o clima ou o mercado de ações. Assim, a verdadeira felicidade perdura. Mas a felicidade não era possível para todos, segundo Aristóteles, e aquela sobre a qual ele fala é a felicidade natural, o resultado da estabilidade emocional proporcionada pelas virtudes e a alegria da contemplação natural das coisas mais elevadas. Mas Jesus é Deus em carne, e Deus se fez homem para que o homem pudesse ‘se tornar’ Deus, por assim dizer, isto é, para que ele pudesse ser elevado pela graça divina, que é uma participação na vida sobrenatural de Deus; é entrando na Pessoa de Cristo que entramos em sua alegria”.

O saudoso arcebispo de São Paulo D. Duarte Leopoldo e Silva, comentando em sua célebre Concordância dos Santos Evangelhos essa passagem de São Mateus, diz:

“O Sermão da Montanha é chamado o epítome, ou resumo do Cristianismo, o símbolo do Evangelho, o texto da Nova Lei. Ele é para a Igreja o que são as tábuas do Sinai para a Sinagoga. É a lei do amor sucedendo à lei do temor. O Deus feito homem a promulga sobre uma montanha verdejante, cercado de seus discípulos e de grande multidão de povo. A palavra de Deus escapa-lhe dos lábios fluente e acessível ainda aos mais ignorantes. Ela diz toda a verdade que os homens devem saber, ensina tudo o que é preciso fazer para a salvação, anima, fortifica, dirige e eleva. Ocupa-se dos pequeninos e dos pobres, tem consolações e esperanças ainda para os mais abandonados. É profunda, e ao mesmo tempo simples e suave. É o mais belo e mais tocante ensinamento que ainda ouviram os homens. Enfim, para assinalar um lugar no reino do Céu com a autoridade com que o faz Jesus neste belíssimo discurso, é preciso ter descido do Céu, é preciso ser Deus”.

As oito bem-aventuranças que constam nesse apóstolo e evangelista no início do Sermão da Montanha, segundo o Catecismo da Igreja Católica, “nos ensinam o fim último, ao qual Deus nos chama: O Reino de Deus, a visão de Deus, a participação na natureza divina, a vida eterna, a filiação divina e o repouso em Deus”. E o Catecismo chamado de São Pio X acrescenta: “Jesus Cristo propôs-nos as Bem-aventuranças para nos fazer detestar as máximas do mundo, e para nos convidar a amar e praticar as máximas do seu Evangelho”.

Passamos a apresentar essas bem-aventuranças, segundo os comentários de vários teólogos e estudiosos do assunto.

 

Primeira bem-aventurança: Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus. (Versículo 3)

Em sua edição da Bíblia, o Pe. Matos Soares comenta que a expressão “pobres de espírito” traduzir-se-ia melhor como “pobres pelo espírito”, pois para ele “são os pobres voluntários e os que têm o coração desapegado das riquezas, E, segundo o sentido da Sagrada Escritura no Antigo Testamento, os humildes, os que confiam unicamente em Deus”.

Ao que D. Duarte Leopoldo acrescenta: “Pobres de espírito não são os tolos, os idiotas, os ignorantes etc., como erradamente entendem alguns. São os humildes, os que não têm apego aos bens da Terra, os que voluntariamente renunciaram a ele para mais de perto seguirem a Jesus Cristo. Assim, pois, um pobre mal satisfeito com a sua sorte, dominado pela ambição e pelo orgulho, é um rico de espírito; não é para ele o reino do Céu. Do mesmo modo, no seio da abundância e na prosperidade, pode um rico ser pobre de espírito pelo nenhum apego aos bens da fortuna, pelo espírito de caridade e submissão à vontade de Deus. O santo homem Jó é um dos mais belos exemplos desta verdade”. Porém, “não basta produzir frutos; é preciso produzi-los na paciência. A paciência é a vida de provação, não é o sentimento de uma hora, mas a perseverança na força, nascida de um princípio permanente e sobrenatural: é um ato repetido até o fim da vida, é a virtude em estado de hábito”.

O Terceiro Catecismo da Doutrina Cristã, conhecido como Catecismo de São Pio X, diz a respeito da primeira bem-aventurança: “Os pobres de espírito, segundo o Evangelho, são aqueles que têm o coração desapegado das riquezas; fazem bom uso delas, se as possuem; não as procuram com solicitude, se não as têm; e sofrem com resignação a perda delas, se lhes são tiradas”.

Pelo que afirma o teólogo e diácono Mcmanaman: “Essa é a primeira e mais fundamental condição para pertencer a Cristo e, portanto, a primeira condição para entrar na alegria do Reino de Deus. Aqueles que são pobres em termos de riqueza material estão profundamente cientes de sua carência. Da mesma forma, aqueles que são pobres de espírito estão cientes de sua carência espiritual, isto é, estão cientes de sua necessidade absoluta de Deus; assim, eles se abrem para Ele. O resultado desse simples ato de abertura é o presente do reino dos céus”.

Por sua vez, a respeito dessa primeira bem-aventurança, diz o célebre jesuíta Cornélio a Lápide: “A fim de que o espírito, ocupado tão somente com os bens temporais, não ponha menos cuidado em possuir os bens eternos, o cristão deve ter tanta confiança na divina Providência, diz São Gregório, que, ainda quando não se possa procurar o necessário para a vida, deve estar bem convencido de que o necessário nunca lhe haverá de faltar”.

 

Segunda bem-aventurança: Bem-aventurados os mansos, porque eles possuirão a Terra. (Versículo 4)

O diácono Mcmanaman comenta a respeito desta segunda bem-aventurança: “Um espírito manso é um espírito gentil. Os pobres de espírito que choram a miséria dos outros porque realmente conhecem essa miséria e são movidos a compartilhá-la, são gentis para com os que sofrem. Os mansos não se ofendem rapidamente com os outros; são muito pacientes com eles porque sabem que Deus sempre foi paciente com eles. Os mansos são controlados, controlam suas emoções, em particular a paixão da ira. Mansidão, entretanto, não significa a supressão da ira. Lembre-se de que Jesus ficou zangado com os cambistas no templo e os expulsou. A ira que é governada pela razão e é uma resposta à verdadeira injustiça, não é pecaminosa, mas virtuosa; a decisão deliberada de manter a ira viva em um espírito de falta de perdão, entretanto, é pecaminosa”.

Pelo que o grande pregador francês do século XVII, Bossuet — citado pelo Pe. Royo Marin, O.P. em sua Teologia da Perfeição Cristã —,completa: “Podemos dizer, se observamos o que se passa dentro de nós, que nossas paixões são todas redutíveis de amor, que engloba e suscita todas as outras. O ódio por algum objeto não surge a não ser por causa do amor que temos por alguma outra coisa. Eu odeio a doença porque amo a saúde. […] Aversão e tristeza são um amor que afasta alguém de um mal que o privaria de seu bem. […] A ira é um amor que se irrita ao ver que alguém o quer privar de seu bem, e se levanta para defendê-lo. Em uma palavra, reprimi o amor, e não haverá paixões; suscite o amor, e todas as outras paixões nascerão”.

Acrescenta o Pe. Royo Marin na obra citada: “Quando nos deixamos levar por um impulso desordenado, sentimos imediatamente a dor do remorso. Se, pelo contrário, resistimos a esse impulso, experimentamos uma sensação de satisfação do dever cumprido. Isso é uma prova convincente do fato de que somos agentes livres com relação ao impulso das paixões, e que seu controle e governo está em nossas mãos. […] Não há dúvida de que há graves dificuldades e obstáculos no começo, mas gradualmente a pessoa pode obter perfeito controle de si mesmo. […] Primeiro, é necessário estar firmemente convencido da necessidade de combater as paixões desordenadas por causa da grande perturbação que causa em nós. As paixões perturbam nosso espírito, impedem a reflexão, tornam impossível formular um juízo sereno e balanceado, enfraquecem a vontade, exaltam a imaginação, provocam uma mudança nos órgãos corporais, e ameaçam destruir a paz de espírito e a tranquilidade de consciência. […] Do ponto de vista psicológico, não há dúvida de que o melhor remédio contra as paixões desordenadas é a firme e decidida vontade de vencê-las. Mas uma vontade puramente teórica ou desejo platônico não é suficiente; tem que haver uma decisão enérgica e determinada, que se traduz em ação pelo uso dos meios necessários de obter a vitória, e especialmente se é o caso de combater uma paixão que está profundamente enraizada por um longo período de mau uso”.

Nesse sentido, adverte Cornélio a Lapide: “Cuidai de que não desapareça jamais a mansidão de vosso coração, diz Santo Agostinho: De corde lenitas non recedat (Medit.).Não vos vingueis por vossa própria conta, mas dai lugar a que passe a cólera, diz São Paulo” (Rm 12, 19). Deixai passar a ira, isto é, guardai silêncio, cedei àquele que se enfurece, sede dóceis, sofrei com paciência a injúria, não digais nada até que a calma tenha modificado vosso coração para que caiba nele a doçura e a caridade. Jesus Cristo, diz Santo Agostinho, pronunciou estas palavras: ‘Aprendei de Mim’, não a fazer um mundo, não a criar as coisas visíveis e invisíveis, não a criar outras maravilhas aqui na Terra, nem a ressuscitar os mortos; mas, sim, aprendei de Mim como ser manso e humilde de coração. A mansidão e a humildade são irmãs, como a ira é irmã do orgulho. O homem não pode ser manso se não é humilde e se o sopro das paixões não se acalma em seu coração. O mar está tranquilo somente quando os ventos cessam”.

Porque, como diz D. Duarte Leopoldo: “Os mansos — isto é, os que não murmuram nem se irritam, os que evitam a discórdia, os que sabem perdoar com generosidade as ofensas alheias, aqueles, enfim, que suportam o peso da vida conformados com a vontade de Deus — possuirão a Terra, isto é, a Terra dos vivos, o Céu. Todavia, mesmo neste mundo, a paciência é uma arma poderosa para vencer ainda as maiores resistências”.

 

Terceira bem-aventurança: Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados. (Versículo 5)

O Catecismo de São Pio X diz desta bem-aventurança: “Os que choram e todavia são chamados bem-aventurados, são aqueles que sofrem com resignação as tribulações, e que se afligem pelos pecados cometidos, pelos males e pelos escândalos que se veem no mundo, pela ausência do céu, e pelo perigo de perder a fé”.

A esse respeito, comenta o diácono Douglas: “Parece um tanto paradoxal que o enlutado possa ser chamado de ‘feliz’ [bem-aventurado], mas essa bem-aventurança se refere a um tipo especial de luto. Se amamos a Deus, amaremos todos os que pertencem a Deus, e todo ser humano, sem exceção, vem de Deus e é amado por Deus com um amor incompreensível. E assim, quanto mais entramos no coração de Deus, mais descobrimos nosso próximo ali, e então somos movidos a voltar à Terra, por assim dizer, e vamos procurá-lo, porque sabemos que lá iremos encontrar o Deus que começamos a amar: descobrimos nosso próximo em Deus e redescobrimos Deus em nosso próximo. Porque os amamos como ‘um outro eu’, o sofrimento deles também se torna nosso. Choramos por eles, pois é tão difícil permanecer indiferente ao sofrimento dos outros depois que descobrimos e entramos no coração de Deus. São os pecados do homem, a fria indiferença dos outros para com Deus e o próximo que nos enchem de tristeza. Esta, porém, é uma tristeza abençoada, uma tristeza que não é incompatível com a alegria, mas existe com ela, pois é a alegria de ter sido convidado para a tristeza de Cristo, que é uma tristeza cheia de alegria”.

Ao que acrescenta Cornélio a Lapide: “A compaixão e uma terna amizade são um bem que está em contrapeso ao mal causado pela dor. Aquele que se compadece proporciona ao coração lastimado um alívio proporcionado a seus sofrimentos: toma a metade das aflições que pesam sobre o desgraçado; e este, fortificado, sofre com mais facilidade e resignação aquelas provas a que está sujeito. Uma carga dividida faz-se menos pesada. […] Quem está enfermo que eu não esteja enfermo com ele? — pergunta aquele grande Apóstolo aos Coríntios: ‘Quis infirmatur, et ego non infirmor?’ (2 Cor 2, 29). Se um membro padece, todos os membros se compadecem: ‘Si quid patitur unum membrum, compatiuntur omnia membra’(1 Cor 12, 26).Sede todos, diz São Pedro, de um mesmo coração, compassivos, amorosos para com todos os irmãos, misericordiosos, modestos, humildes, não pagando mal com mal, nem maldição com maldição, antes, pelo contrário, bens ou bênçãos, porque a isto sois chamados, a fim de que possuais a herança da bênção celestial (cf. 1 Pd 3, 8-9)”.

D. Duarte Leopoldo observa: “Bem-aventurados os que choram os seus pecados e os dos seus irmãos. Santas lágrimas que tanta consolação merece no Céu. Também as lágrimas que, todos os dias e com tanta abundância, caem dos olhos dos pobres, dos aflitos, dos doentes e abandonados têm bem-aventurança. ‘Lázaro só teve males na vida’, diz Abraão ao mau rico, ‘agora ele é consolado’”.

Falando sobre a razão pela qual devemos chorar e sofrer por nossos pecados, diz o Pe. Royo Marin: “Cada pecado, mesmo que pareça insignificante, é uma desordem, e por isso mesmo é uma deformidade e feiúra da alma, uma vez que a beleza da alma consiste no esplendor da ordem. Consequentemente, qualquer coisa que por sua natureza tenda a destruir o pecado ou apagar sua marca na alma deve, por isso mesmo, embelezá-la. Por essa razão o sofrimento purifica e embeleza a alma. […] É impossível medir o poder redentor do sofrimento oferecido à justiça divina com uma fé viva e um ardente amor através das Chagas de Cristo”.

 

Quarta bem-aventurança: Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça porque eles serão saciados. (Versículo 6)

Comenta o Pe. Royo Marin: “A palavra justiça é frequentemente usada na Escritura como sinônimo de santidade; mas como uma virtude especial é um hábito sobrenatural que inclina a vontade constantemente e perpetuamente a render a cada qual o que lhe é estritamente devido. […] Sua importância tanto na vida social quanto pessoal é evidente. Ela põe as coisas em sua reta ordem, e desse modo prepara o caminho para a verdadeira paz, que Santo Agostinho define como a tranquilidade da ordem, e a Escritura como obra da justiça”.

D. Duarte explica que “fome e sede de justiça é a necessidade que sente toda alma boa e reta, todo coração bem formado, de fazer a vontade de Deus, essa vontade de que Jesus fazia o seu alimento. O meu alimento é fazer a vontade daquele que Me enviou. Bem-aventurados os que devoram com prazer o pão que Jesus lhes apresenta, e bebem com delícia a água que Ele ofereceu à Samaritana”.

O diácono Mcmanaman observa: “Os indiferentes não sofrem pelas feridas dos outros. […] Muitos, na verdade, se deleitam secretamente com os infortúnios dos outros, razão pela qual as más notícias se espalham rapidamente. Muitos simplesmente não se irritam com as injustiças ao seu redor e, embora eles sejam muito apaixonados por seus objetivos, essas ambições geralmente têm pouco a ver com tornar este mundo mais justo, e mais a ver com sua própria realização individual. Aqueles que entraram em Cristo sofrerão muita fome e sede, porque há muita injustiça ao nosso redor. Quanto mais intenso for o seu amor, mais intensa será a sua fome e sede; bem-aventurado se você vive com este tipo de fome e sede, porque isso significa que você entrou na fome e sede de Cristo”.

 

Quinta bem-aventurança: Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia. (Versículo 7)

Comenta o saudoso Arcebispo de São Paulo, “Os misericordiosos, isto é, os que perdoam, os que se compadecem das misérias do próximo, os que choram com os que choram, os que curam as feridas do corpo e da alma daqueles que sofrem; enfim, os justos, bons e dedicados, no último dia Nosso Senhor será também misericordioso para com eles”.

“Um dos modos de se ser misericordioso é praticando a tão esquecida virtude da afabilidade”, como diz o Pe. Royo Marin: “Há numerosos atos ou manifestações da virtude da afabilidade, e todos eles derivam da amizade por nossos próximos. Benignidade, polidez, simples louvor, indulgência, sincera gratidão, hospitalidade, paciência, mansidão, refinamento de palavras e atos etc. Essa preciosa virtude é de extrema importância, não somente na associação com amigos, vizinhos e estranhos, mas de um modo especial dentro do círculo da própria família, onde é muitas vezes negligenciada”.

A isso acrescenta o diácono teólogo: “Cristo revelou Deus como misericórdia absoluta. Ele veio para morrer por nós e cancelar a dívida do pecado, que não pudemos pagar. A palavra latina para misericórdia é ‘misericordia’ (miser, cor, dia). A palavra significa o coração (cor) de Deus, tocando nossa miséria (de avarento). Deus entra em nossa miséria tornando-se homem na Pessoa de Cristo. Ele o faz para injetar o conforto de sua presença nas profundezas de nossas trevas para que, quando a vida se torna escura para nós, não tenhamos que sofrer sozinhos. Quando somos tocados por sua misericórdia, também nos tornamos misericordiosos; segui-lo é nos tornarmos canal da sua misericórdia”.

Comentando a virtude da concórdia, afirma Cornélio a Lapide: “Em três coisas compraz-se o meu coração, diz o Eclesiástico, as quais são da aprovação de Deus e dos homens: a concórdia entre os irmãos e parentes, o amor dos próximos, e um marido e mulher bem unidos entre si (Pr 25, 1-2). A concórdia entre irmãos é a paz, diz São Agostinho; a concórdia entre irmãos é a vontade de Deus, a alegria de Jesus Cristo, a perfeição da santidade, a regra de justiça, o fundo da doutrina, a zeladora dos costumes, e em todas as coisas um a disciplina digna de louvor: ‘Pax concordia fratrum, concordia fratrum voluntas Dei est, juncunditas Christi, perfectio sanctitatis, justitiae regula, matéria doctrinae, morum custodia, atque in rebus omnibus laudabilis disciplina (Sentent.)’. Ali onde há a concórdia, ali está Jesus Cristo, ali está Deus, ali está toda a Santa Trindade, formando, de certo modo, naqueles que vivem bem unidos, uma trindade na unidade, isto é, a união dos espíritos, dos corações e das ações”.

 

Sexta bem-aventurança: Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus. (Versículo 8)

Eis o comentário que faz John P. Van Kasteren em The Catholic Encyclopedia sobre essa bem-aventurança: “De acordo com a terminologia bíblica, ‘pureza de coração’ (versículo 8) não pode ser encontrada exclusivamente na castidade interior, nem mesmo, como muitos estudiosos propõem, em uma pureza de consciência geral, em oposição à pureza levítica ou legal, exigida pelos Escribas e fariseus. Pelo menos o lugar apropriado para tal bênção não parece ser entre a misericórdia (versículo 7) e a pacificação (versículo 9), nem depois da virtude aparentemente mais abrangente da fome e sede de justiça. Mas frequentemente no Antigo e no Novo Testamento (Gn 20: 5; Jó 33: 3, Sl 23: 4 (24: 4) e 72: 1 (73: 1); 1 Tm 1: 5; 2 Tm 2:22) o ‘coração puro’ é a boa intenção simples e sincera, o ‘olho são’ de São Mateus (6:22). E, portanto, oposto às consequências não confessadas dos fariseus (Mt 6: 1-6, 16-18; 7: 15; 23: 5-7, 14) Este ‘olho são’ ou ‘coração puro’ é mais do que necessário nas obras de misericórdia (versículo 7) e zelo (versículo 9) em favor do próximo. E é lógico que a bênção, prometida a esta contínua busca pela glória de Deus, deve consistir na ‘visão’ sobrenatural do próprio Deus, o último objetivo e fim do reino celestial em sua conclusão”.

A esse respeito, comenta o citado diácono Douglas que “O que é puro não se mistura. Por exemplo, falamos de xarope de bordo puro que não é misturado com qualquer outra coisa. Ser puro de coração é ter um amor indiviso por Deus, um coração não misturado com qualquer outro amor competitivo. Algumas pessoas amam a criação mais do que o Criador; eles amam as coisas; eles adoram coisas, riquezas, os prazeres da Terra, a glorificação do eu etc. Eles podem amar a Deus, mas seu amor está misturado com um amor desordenado de si mesmo”.

Por sua vez, observa D. Duarte: “Os corações puros, desprendidos dos sentimentos carnais e sensuais que mancham o corpo e a alma; os corações abertos a tudo o que é nobre, santo, justo, amável e virtuoso, a tudo o que é louvável nos bons costumes, como diz São Paulo. Esses corações verão a Deus neste mundo, através das sombras da fé, e no Céu O contemplarão face a face. Pelo contrário, a impureza de coração é o maior obstáculo, e quase sempre o único, que encontram as verdades da Religião”.

 

Sétima bem-aventurança: Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus. (Versículo 9)

Sobre esta bem-aventurança, diz o citado diácono: “A palavra latina para paz é ‘pax’, que significa unidade. Conforme profetizou Ezequiel, o Senhor reunirá seu povo de todas as nações; pois o amor une, o ódio divide. Um pacificador é aquele que se esforça para unir, para manter uma harmonia genuína entre as pessoas. Um pacificador não é um ‘pacifista’; antes, ele está disposto a ‘fazer’ a paz, a trabalhar por ela, até mesmo a lutar por ela. Um agressor injusto, que pode incluir uma nação inteira, tem a intenção de destruir a paz; portanto, um verdadeiro pacificador está até disposto a pegar em armas e lutar, talvez morrer pelo pax da nação, como fizeram nossos veteranos de guerra. Portanto, não há exigência de que alguém se torne um pacifista se for um cristão”.

Já John P. Van Kasteren afirma: “Os ‘pacíficos’ (versículo 9) são aqueles que não apenas vivem em paz com os outros, mas também fazem o possível para preservar a paz e a amizade entre a humanidade e entre Deus e o homem, e para restaurá-la quando for perturbada. É por causa desta obra piedosa, ‘uma imitação do amor de Deus pelo homem’, como São Gregório de Nissa o denomina, que eles serão chamados de filhos de Deus, ‘filhos de vosso Pai que está nos céus’ (Mt 5 : 45)”.

Por outro lado, diz D. Duarte: “Os pacíficos, os que odeiam as discussões, dissensões e demandas injustas; os que buscam, de preferência, tudo o que une e aproxima os corações; os que têm, por assim dizer, o culto dos direitos alheios. Filhos da paz, eles preferem ceder o seu direito, para não defendê-lo com quebra da caridade”.

 

Oitava bem-aventurança: Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus. (Versículo 10)

Escreve a revista Permanência: “A oitava bem-aventurança é uma confirmação e manifestação de todas as precedentes. Pois, quem está firmado na pobreza do espírito e na mansidão e nas demais bem-aventuranças, não se afasta, por isso mesmo, desses bens por nenhuma perseguição. Por outro, a oitava bem-aventurança concerne, de certo modo, às sete precedentes”.

“Esta bem-aventurança final — diz o diácono MCManaman — implica claramente que existe uma diferença real entre alegria e prazer; pois não há prazer em ser perseguido, mas encontramos uma alegria secreta nos próprios recessos da alma, pois nos demos conta de que recebemos o dom de ser atraído para o próprio coração do silêncio dele. Cristo é alegria, e é sendo perseguido por causa dele que realmente O conhecemos. O silêncio de Cristo é mais alegre do que as maiores alegrias que a Terra tem para oferecer, e é isso que a perseguição por causa de Cristo faz por nós, nos tira do barulho do mundo e nos leva ao descanso profundo de seu outro silêncio mundano . Jesus pode dar bem-aventurança àqueles que sofrem por pertencerem a ele, porque ele não é um mero homem; ele é totalmente Deus e totalmente homem, e como Deus escolheu juntar-se à natureza humana para injetar no sofrimento humano a própria alegria de sua vida sobrenatural, que é tão diferente de qualquer outra alegria que de fato nos deixa em silêncio. Nós descansamos nele; pois encontramos tudo o que o coração humano procura, mas não pode encontrar fora dele”.

Ao que afirma Van Kasteren: “Assim, por uma inclusão não incomum na poesia bíblica, a última bênção remonta à primeira e à segunda. Os piedosos, cujos sentimentos e desejos, cujas obras e sofrimentos são apresentados diante de nós, serão abençoados e felizes por sua participação no reino messiânico, aqui e no além. E visto nos versos intermediários parecem expressar, em imagens parciais da única bem-aventurança sem fim, a mesma posse da salvação messiânica. As oito condições exigidas constituem a lei fundamental do reino, a própria essência e medula da perfeição cristã. Por sua profundidade e amplitude de pensamento, e sua influência prática na vida cristã, a passagem pode ser colocada no mesmo nível do Decálogo no Antigo, e do Pai Nosso no Novo Testamento, e superou ambos em sua beleza poética de estrutura”.

Concluímos com D. Duarte Leopoldo: “A justiça é a causa de Deus. Os perseguidos combatem por Ele, e Ele se encarrega de os recompensar como merecem, e ainda mais do que merecem”.

https://www.abim.inf.br/as-bem-aventurancas-e-a-gloria-celeste/

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quinta-feira, 20 de maio de 2021

PLEBISCITO – Artur Azevedo



Plebiscito

Artur Azevedo

 

          A cena passa-se em 1890.

          A família está toda reunida na sala de jantar.

          O senhor Rodrigues palita os dentes, repimpado numa cadeira de balanço. Acabou de comer como um abade.

          Dona Bernardina, sua esposa, está muito entretida a limpar a gaiola de um canário belga.

          Os pequenos são dois, um menino e uma menina. Ela distrai-se a olhar para o canário. Ele encostado à mesa, os pés cruzados, lê com muita atenção uma das nossas folhas diárias.

          Silêncio.

 

          De repente, o menino levanta a cabeça e pergunta:

          - Papai, o que é plebiscito?

          O senhor Rodrigues fecha os olhos imediatamente para fingir que dorme.

          O pequeno insiste:

          - Papai?

          Pausa:

          - Papai?

          Dona Bernardina intervém:

          - Ó seu Rodrigues, Manduca está lhe chamando. Não durma depois do jantar que lhe faz mal.

          O senhor Rodrigues não tem remédio senão abrir os olhos.

          - Que é? Que desejam vocês?

          - Eu queria que papai me dissesse o que é Plebiscito.

          - Ora essa, rapaz! Então tu vais fazer doze anos e não sabes ainda o que é plebiscito?

          - Se soubesse não perguntava.

          O senhor Rodrigues volta-se para dona Bernardina, que continua muito ocupada com a gaiola:

          - Ó senhora, o pequeno não sabe o que é plebiscito!

          - Não admira que ele não saiba, porque eu também não sei.

          - Que me diz?! Pois a senhora não sabe o que é plebiscito?

          - Nem eu, nem você; aqui em casa ninguém sabe o que é plebiscito.

          - Ninguém, alto lá! Creio que tenho dado provas de não ser nenhum ignorante!

          - A sua cara não me engana. Você é muito prosa. Vamos: se sabe, diga o que é plebiscito! Então? A gente está esperando! Diga!...

          - A senhora o que quer é enfezar-me!

          - Mas, homem de Deus, para que você não há de confessar que não sabe? Não é nenhuma vergonha ignorar qualquer palavra. Já outro dia foi a mesma coisa quando Manduca lhe perguntou o que era proletário. Você falou, falou, e o menino ficou sem saber!

          - Proletário, acudiu o senhor Rodrigues, é o cidadão pobre que vive do trabalho mal remunerado.

          - Sim, agora sabe porque foi ao dicionário; mas dou-lhe um doce, se me disser o que é plebiscito sem se arredar dessa cadeira!

          - Que gostinho tem a senhora em tornar-me ridículo na presença destas crianças!

          - Oh! Ridículo é você mesmo quem se faz. Seria tão simples dizer: -  Não sei, Manduca, não sei o que é plebiscito; vai buscar o dicionário, meu filho.

          O senhor Rodrigues ergue-se de um ímpeto e brada:

          - Mas se eu sei!

          - Pois se sabe, diga!

          - Não digo para não me humilhar diante de meus filhos! Não dou o braço a torcer! Quero conservar a força moral que devo ter nesta casa! Vá para o diabo!

          E o senhor Rodrigues, exasperadíssimo, nervoso, deixa a sala e vai para o seu quarto, batendo violentamente a porta.

          No quarto havia o que de mais precisava naquela ocasião: algumas gotas de água de flor de laranja e um dicionário...

 

          A menina toma a palavra:

          - Coitado de papai! Zangou-se logo depois do jantar! Dizem que é perigoso!

          - Não fosse tolo – observou dona Bernardina – e confessasse francamente que não sabia o que é plebiscito!

          - Pois sim – acode Manduca, muito pesaroso por ter sido o causador involuntário de toda aquela discussão – pois sim, mamãe; chame papai e façam as pazes.

          - Sim! sim! Façam as pazes! – Diz a menina em tom meigo e suplicante. – Que tolice! Duas pessoas que se estimam tanto zangarem-se por causa do plebiscito!

         - Dona Bernardina dá um beijo na filha, e vai bater à porta do quarto:

         - Seu Rodrigues, venha sentar-se; não vale a pena zangar-se por tão pouco.

          O negociante esperava a deixa. A porta abre-se imediatamente. Ele entra, atravessa a casa, e vai sentar-se na cadeira de balanço.

 

          - É boa! – brada o senhor Rodrigues depois de largo silêncio; - é muito boa! Eu! Eu ignorar a significação da palavra plebiscito! Eu!...

          A mulher e os filhos aproximam-se dele.

          O homem continua num tom profundamente dogmático:

          - Plebiscito...

          E olha para todos os lados a ver se há por ali mais alguém que possa aproveitar a lição.

          - Plebiscito é uma lei decretada pelo povo romano, estabelecido em comícios.

          - Ah! – suspiram todos, aliviados.

          - Uma lei romana, percebem? E querem introduzi-la no Brasil! É mais um estrangeirismo!...

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terça-feira, 18 de maio de 2021

ACADEMIA DE LETRAS JURÍDICAS DO SUL DA BAHIA ENTREVISTA O DR. LEANDRO ALVES COELHO


Entrevista com Dr. Leandro Alves Coelho

 

No 10º ano de fundação da Academia de Letras Jurídicas do Sul da Bahia (ALJUSBA), dia 20 de maio, entrevista o advogado e professor universitário Dr. Leandro Alves Coelho, um dos seus fundadores e o seu histórico primeiro presidente.

 


 

Leandro Alves Coelho – É advogado militante. Pós-graduado em Metodologia do Ensino Superior com especialização em Direito Tributário pela Unisul. Mestre em Planejamento e Gestão Ambiental com ênfase em Tributação e Meio Ambiente pela Universidade Católica de Salvador (UCSAL). Professor de Graduação e Pós-graduação. Membro-fundador e ex-presidente da Academia de Letras Jurídicas do Sul da Bahia (ALJUSBA) e autor do livro “ICMS Ecológico - Aplicável à área de influência do Complexo Intermodal do Sul da Bahia”.

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Quem são os fundadores da Academia de Letras Jurídicas do Sul da Bahia (ALJUSBA)?

 

Leandro Coelho – Sem sombra de dúvida, o idealizador da ALJUSBA, é o advogado e professor Vercil, Rodrigues, que junto comigo, Leandro Alves Coelho, Dr. José Carlos Oliveira, Dr. Cosme Reis e Dr. Paulo Bomfim fundou a Academia, no dia 20 de maio de 2011, portanto, há 10 anos, na cidade de Itabuna, apesar da "Casa das Letras Jurídicas”, pertencer aos operadores do Direito e juristas do Sul da Bahia.

 

Como surgiu ALJUSBA?

 

Leandro Coelho – Surgiu de um anseio da comunidade jurídica Sulbaiana em ter uma instituição que pudesse reunir os grandes nomes do mundo jurídico em nossa região Sul da Bahia. Sabíamos que já existia uma Academia de Letras Jurídicas da Bahia com sede em Salvador, mas a mesma não oportunizava de forma igualitária espaço de divulgação de nomes de destaques de outras regiões que não aqueles atuantes em Salvador. Sendo assim, a ALJUSBA veio para atender esse anseio de toda comunidade sul baiana em busca de espaço, reconhecimento e visibilidade.

 

Como se deu seu o processo de criação e estruturação da ALJUSBA?

 

Leandro Coelho – Inicialmente, com a ideia em mente de alguns dos fundadores, o primeiro passo foi fazer o levantamento histórico dos patronos e dos  “imortais” que iriam compor as cadeiras, bem como quais eram seus respectivos legados para a comunidade jurídica. É de bom alvitre informar que a academia contou com os préstimos de Vercil Rodrigues, pois o mesmo além de ser jurista é, antes de tudo, historiador, tal fato auxiliou demais na compilação de dados acerca daqueles que comporiam a nossa academia de letras jurídicas sulbaiana, sediada na cidade de Itabuna.

 

Como ocorreu o processo de escolha dos integrantes da academia, os imortais?

 

Leandro Coelho – Nesse aspecto tínhamos um propósito de compor a Academia com integrantes de todos os ramos de atuação do Direito, ou seja, juízes, advogados, promotores, professores universitários de cursos de Direito, delegados, servidores, desde que todos eles tivessem um ponto de convergência, qual seja, a produção literária no âmbito da ciência jurídica. E assim foi feito.

 

Com foi a recepção da ideia de formação da ALJUSBA pelos escolhidos a ocupar uma cadeira como imortais?

 

Leandro Coelho – Foi a melhor possível. Como não se empolgar com um convite desta natureza? Foi uníssona a recepção da ideia por todos escolhidos, que diga se de passagem foram democraticamente eleitos em votação secreta pelos membros fundadores da “Casa da Letras Jurídicas Sulbaiana”, pois era extensa a lista.  Me recordo que todos receberam a ideia com muito entusiasmo e empolgação.

 

Depois da compilação dos dados históricos e a escolha dos imortais e patronos, quais foram as ações realizadas pelos fundadores da ALJUSBA?

 

Leandro Coelho – Primeiro a votação do Regimento e Convenção da Academia, logo em seguida foi necessário formalizar os atos constitutivos como a criação de uma pessoa jurídica própria, bem como, a realização de todos os atos escriturários para que a ALJUSBA pudesse ter personalidade jurídica própria, de modo a atender todas as formalidades necessárias para que ela, de fato, saísse do papel. Nesse interim mais uma vez a pessoa do Dr. Vercil Rodrigues com o meu apoio, de Dr. José Carlos Oliveira, Paulo Bomfim, dentre outros, foram essenciais para a finalização dos demais detalhes formais. Após todas as burocracias, encomendamos as becas, insígnias personalizadas e logomarca para a ALJUSBA, o que não poderia faltar diante da grandiosidade da instituição.

 

Como ocorreram a posse e a instalação da ALJUSBA?

 

Leandro Coelho – A posse foi mágica e inesquecível!!! Ocorreu há 10 anos atrás. Cada imortal convidou um padrinho para a entrega das insígnias. A cerimônia ocorreu na sede da Loja Maçônica Areópago Itabunenses em um auditório lotado e teve a primeira diretoria empossada, a qual era composta por mim – Leandro Coelho, presidente, Vercil Rodrigues, vice-presidente, me recordo que estavam presentes os grandes nomes do jurídico sul baiana e da capital, Na oportunidade, diversos integrantes discursaram, sendo que meu destaque foi a presença do saudoso membro honorário da Academia, o jurista Dr. Eurípedes Brito Cunha, ex-presidente da OAB-BA e ex-conselheiro federal da OAB, que discursou e atribuiu um ar de empolgação à cerimônia. Ele sabia da grandiosidade do ato e me recordo que no alto de sua sabedoria e experiência enalteceu a atitude daqueles que ousaram fundar a ALJUSBA e das qualidades daqueles que estavam sendo empossados.

 

Em sua gestão, o que senhor destaca como principais conquistas institucionais?

 

Leandro Coelho – Destaco a realização da posse, a aquisição das indumentárias inerentes à academia. Em seguida, a criação dos site www.academiadeletrasjuidicasdosuldabahia.com que foi um grande avanço, pois foi e é através dele que pudemos reunir os dados dos patronos como principal arcabouço histórico da nossa Academia. Em seguida, não menos importante, a criação de um portfólio em homenagem a um dos patronos, o saudoso e brilhante Francolino Neto e a criação do Boletim da Academia. Por fim, destaco, ainda a divulgação dos integrantes da ALJUSBA em seus diversos eventos de natureza jurídica na nossa região e no Estado da Bahia e até mesmo fora dela.

 

Com se sente por ter sido historicamente o primeiro presidente da ALJUSBA, a “Casa das Letras Jurídicas Sulbaiana”?

 

Leandro Coelho – Me sinto muito lisonjeado, pois entendi como um referendo para a minha trajetória jurídica, a qual estava apenas se iniciando diante de todos aqueles nomes já exaltados na comunidade jurídica sulbaiana. Por isso, procurei honrar o múnus enquanto estive na presidência.

 

O que mais chamou sua atenção do ponto de vista pessoal enquanto esteve na presidência da ALJUSBA?

 

Leandro Coelho –Desde o convite, o que mais me chamou a atenção foi o fato de ocupar a cadeira 3, a qual tem como patrono o jurista JJ. Calmon Passos. Me recordo que ainda na minha graduação assisti uma palestra do mestre em um encontro baiano de advocacia e fiquei encantado com tamanha sabedoria reunida em uma única pessoa. Sendo assim, ocupar a cadeira com o nome do mesmo fez com que me sentisse ainda mais responsável por desenvolver um bom trabalho frente aos destinos da ALJUSBA.


Foto: JULAY

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