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quinta-feira, 20 de maio de 2021

PLEBISCITO – Artur Azevedo



Plebiscito

Artur Azevedo

 

          A cena passa-se em 1890.

          A família está toda reunida na sala de jantar.

          O senhor Rodrigues palita os dentes, repimpado numa cadeira de balanço. Acabou de comer como um abade.

          Dona Bernardina, sua esposa, está muito entretida a limpar a gaiola de um canário belga.

          Os pequenos são dois, um menino e uma menina. Ela distrai-se a olhar para o canário. Ele encostado à mesa, os pés cruzados, lê com muita atenção uma das nossas folhas diárias.

          Silêncio.

 

          De repente, o menino levanta a cabeça e pergunta:

          - Papai, o que é plebiscito?

          O senhor Rodrigues fecha os olhos imediatamente para fingir que dorme.

          O pequeno insiste:

          - Papai?

          Pausa:

          - Papai?

          Dona Bernardina intervém:

          - Ó seu Rodrigues, Manduca está lhe chamando. Não durma depois do jantar que lhe faz mal.

          O senhor Rodrigues não tem remédio senão abrir os olhos.

          - Que é? Que desejam vocês?

          - Eu queria que papai me dissesse o que é Plebiscito.

          - Ora essa, rapaz! Então tu vais fazer doze anos e não sabes ainda o que é plebiscito?

          - Se soubesse não perguntava.

          O senhor Rodrigues volta-se para dona Bernardina, que continua muito ocupada com a gaiola:

          - Ó senhora, o pequeno não sabe o que é plebiscito!

          - Não admira que ele não saiba, porque eu também não sei.

          - Que me diz?! Pois a senhora não sabe o que é plebiscito?

          - Nem eu, nem você; aqui em casa ninguém sabe o que é plebiscito.

          - Ninguém, alto lá! Creio que tenho dado provas de não ser nenhum ignorante!

          - A sua cara não me engana. Você é muito prosa. Vamos: se sabe, diga o que é plebiscito! Então? A gente está esperando! Diga!...

          - A senhora o que quer é enfezar-me!

          - Mas, homem de Deus, para que você não há de confessar que não sabe? Não é nenhuma vergonha ignorar qualquer palavra. Já outro dia foi a mesma coisa quando Manduca lhe perguntou o que era proletário. Você falou, falou, e o menino ficou sem saber!

          - Proletário, acudiu o senhor Rodrigues, é o cidadão pobre que vive do trabalho mal remunerado.

          - Sim, agora sabe porque foi ao dicionário; mas dou-lhe um doce, se me disser o que é plebiscito sem se arredar dessa cadeira!

          - Que gostinho tem a senhora em tornar-me ridículo na presença destas crianças!

          - Oh! Ridículo é você mesmo quem se faz. Seria tão simples dizer: -  Não sei, Manduca, não sei o que é plebiscito; vai buscar o dicionário, meu filho.

          O senhor Rodrigues ergue-se de um ímpeto e brada:

          - Mas se eu sei!

          - Pois se sabe, diga!

          - Não digo para não me humilhar diante de meus filhos! Não dou o braço a torcer! Quero conservar a força moral que devo ter nesta casa! Vá para o diabo!

          E o senhor Rodrigues, exasperadíssimo, nervoso, deixa a sala e vai para o seu quarto, batendo violentamente a porta.

          No quarto havia o que de mais precisava naquela ocasião: algumas gotas de água de flor de laranja e um dicionário...

 

          A menina toma a palavra:

          - Coitado de papai! Zangou-se logo depois do jantar! Dizem que é perigoso!

          - Não fosse tolo – observou dona Bernardina – e confessasse francamente que não sabia o que é plebiscito!

          - Pois sim – acode Manduca, muito pesaroso por ter sido o causador involuntário de toda aquela discussão – pois sim, mamãe; chame papai e façam as pazes.

          - Sim! sim! Façam as pazes! – Diz a menina em tom meigo e suplicante. – Que tolice! Duas pessoas que se estimam tanto zangarem-se por causa do plebiscito!

         - Dona Bernardina dá um beijo na filha, e vai bater à porta do quarto:

         - Seu Rodrigues, venha sentar-se; não vale a pena zangar-se por tão pouco.

          O negociante esperava a deixa. A porta abre-se imediatamente. Ele entra, atravessa a casa, e vai sentar-se na cadeira de balanço.

 

          - É boa! – brada o senhor Rodrigues depois de largo silêncio; - é muito boa! Eu! Eu ignorar a significação da palavra plebiscito! Eu!...

          A mulher e os filhos aproximam-se dele.

          O homem continua num tom profundamente dogmático:

          - Plebiscito...

          E olha para todos os lados a ver se há por ali mais alguém que possa aproveitar a lição.

          - Plebiscito é uma lei decretada pelo povo romano, estabelecido em comícios.

          - Ah! – suspiram todos, aliviados.

          - Uma lei romana, percebem? E querem introduzi-la no Brasil! É mais um estrangeirismo!...

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terça-feira, 18 de maio de 2021

ACADEMIA DE LETRAS JURÍDICAS DO SUL DA BAHIA ENTREVISTA O DR. LEANDRO ALVES COELHO


Entrevista com Dr. Leandro Alves Coelho

 

No 10º ano de fundação da Academia de Letras Jurídicas do Sul da Bahia (ALJUSBA), dia 20 de maio, entrevista o advogado e professor universitário Dr. Leandro Alves Coelho, um dos seus fundadores e o seu histórico primeiro presidente.

 


 

Leandro Alves Coelho – É advogado militante. Pós-graduado em Metodologia do Ensino Superior com especialização em Direito Tributário pela Unisul. Mestre em Planejamento e Gestão Ambiental com ênfase em Tributação e Meio Ambiente pela Universidade Católica de Salvador (UCSAL). Professor de Graduação e Pós-graduação. Membro-fundador e ex-presidente da Academia de Letras Jurídicas do Sul da Bahia (ALJUSBA) e autor do livro “ICMS Ecológico - Aplicável à área de influência do Complexo Intermodal do Sul da Bahia”.

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Quem são os fundadores da Academia de Letras Jurídicas do Sul da Bahia (ALJUSBA)?

 

Leandro Coelho – Sem sombra de dúvida, o idealizador da ALJUSBA, é o advogado e professor Vercil, Rodrigues, que junto comigo, Leandro Alves Coelho, Dr. José Carlos Oliveira, Dr. Cosme Reis e Dr. Paulo Bomfim fundou a Academia, no dia 20 de maio de 2011, portanto, há 10 anos, na cidade de Itabuna, apesar da "Casa das Letras Jurídicas”, pertencer aos operadores do Direito e juristas do Sul da Bahia.

 

Como surgiu ALJUSBA?

 

Leandro Coelho – Surgiu de um anseio da comunidade jurídica Sulbaiana em ter uma instituição que pudesse reunir os grandes nomes do mundo jurídico em nossa região Sul da Bahia. Sabíamos que já existia uma Academia de Letras Jurídicas da Bahia com sede em Salvador, mas a mesma não oportunizava de forma igualitária espaço de divulgação de nomes de destaques de outras regiões que não aqueles atuantes em Salvador. Sendo assim, a ALJUSBA veio para atender esse anseio de toda comunidade sul baiana em busca de espaço, reconhecimento e visibilidade.

 

Como se deu seu o processo de criação e estruturação da ALJUSBA?

 

Leandro Coelho – Inicialmente, com a ideia em mente de alguns dos fundadores, o primeiro passo foi fazer o levantamento histórico dos patronos e dos  “imortais” que iriam compor as cadeiras, bem como quais eram seus respectivos legados para a comunidade jurídica. É de bom alvitre informar que a academia contou com os préstimos de Vercil Rodrigues, pois o mesmo além de ser jurista é, antes de tudo, historiador, tal fato auxiliou demais na compilação de dados acerca daqueles que comporiam a nossa academia de letras jurídicas sulbaiana, sediada na cidade de Itabuna.

 

Como ocorreu o processo de escolha dos integrantes da academia, os imortais?

 

Leandro Coelho – Nesse aspecto tínhamos um propósito de compor a Academia com integrantes de todos os ramos de atuação do Direito, ou seja, juízes, advogados, promotores, professores universitários de cursos de Direito, delegados, servidores, desde que todos eles tivessem um ponto de convergência, qual seja, a produção literária no âmbito da ciência jurídica. E assim foi feito.

 

Com foi a recepção da ideia de formação da ALJUSBA pelos escolhidos a ocupar uma cadeira como imortais?

 

Leandro Coelho – Foi a melhor possível. Como não se empolgar com um convite desta natureza? Foi uníssona a recepção da ideia por todos escolhidos, que diga se de passagem foram democraticamente eleitos em votação secreta pelos membros fundadores da “Casa da Letras Jurídicas Sulbaiana”, pois era extensa a lista.  Me recordo que todos receberam a ideia com muito entusiasmo e empolgação.

 

Depois da compilação dos dados históricos e a escolha dos imortais e patronos, quais foram as ações realizadas pelos fundadores da ALJUSBA?

 

Leandro Coelho – Primeiro a votação do Regimento e Convenção da Academia, logo em seguida foi necessário formalizar os atos constitutivos como a criação de uma pessoa jurídica própria, bem como, a realização de todos os atos escriturários para que a ALJUSBA pudesse ter personalidade jurídica própria, de modo a atender todas as formalidades necessárias para que ela, de fato, saísse do papel. Nesse interim mais uma vez a pessoa do Dr. Vercil Rodrigues com o meu apoio, de Dr. José Carlos Oliveira, Paulo Bomfim, dentre outros, foram essenciais para a finalização dos demais detalhes formais. Após todas as burocracias, encomendamos as becas, insígnias personalizadas e logomarca para a ALJUSBA, o que não poderia faltar diante da grandiosidade da instituição.

 

Como ocorreram a posse e a instalação da ALJUSBA?

 

Leandro Coelho – A posse foi mágica e inesquecível!!! Ocorreu há 10 anos atrás. Cada imortal convidou um padrinho para a entrega das insígnias. A cerimônia ocorreu na sede da Loja Maçônica Areópago Itabunenses em um auditório lotado e teve a primeira diretoria empossada, a qual era composta por mim – Leandro Coelho, presidente, Vercil Rodrigues, vice-presidente, me recordo que estavam presentes os grandes nomes do jurídico sul baiana e da capital, Na oportunidade, diversos integrantes discursaram, sendo que meu destaque foi a presença do saudoso membro honorário da Academia, o jurista Dr. Eurípedes Brito Cunha, ex-presidente da OAB-BA e ex-conselheiro federal da OAB, que discursou e atribuiu um ar de empolgação à cerimônia. Ele sabia da grandiosidade do ato e me recordo que no alto de sua sabedoria e experiência enalteceu a atitude daqueles que ousaram fundar a ALJUSBA e das qualidades daqueles que estavam sendo empossados.

 

Em sua gestão, o que senhor destaca como principais conquistas institucionais?

 

Leandro Coelho – Destaco a realização da posse, a aquisição das indumentárias inerentes à academia. Em seguida, a criação dos site www.academiadeletrasjuidicasdosuldabahia.com que foi um grande avanço, pois foi e é através dele que pudemos reunir os dados dos patronos como principal arcabouço histórico da nossa Academia. Em seguida, não menos importante, a criação de um portfólio em homenagem a um dos patronos, o saudoso e brilhante Francolino Neto e a criação do Boletim da Academia. Por fim, destaco, ainda a divulgação dos integrantes da ALJUSBA em seus diversos eventos de natureza jurídica na nossa região e no Estado da Bahia e até mesmo fora dela.

 

Com se sente por ter sido historicamente o primeiro presidente da ALJUSBA, a “Casa das Letras Jurídicas Sulbaiana”?

 

Leandro Coelho – Me sinto muito lisonjeado, pois entendi como um referendo para a minha trajetória jurídica, a qual estava apenas se iniciando diante de todos aqueles nomes já exaltados na comunidade jurídica sulbaiana. Por isso, procurei honrar o múnus enquanto estive na presidência.

 

O que mais chamou sua atenção do ponto de vista pessoal enquanto esteve na presidência da ALJUSBA?

 

Leandro Coelho –Desde o convite, o que mais me chamou a atenção foi o fato de ocupar a cadeira 3, a qual tem como patrono o jurista JJ. Calmon Passos. Me recordo que ainda na minha graduação assisti uma palestra do mestre em um encontro baiano de advocacia e fiquei encantado com tamanha sabedoria reunida em uma única pessoa. Sendo assim, ocupar a cadeira com o nome do mesmo fez com que me sentisse ainda mais responsável por desenvolver um bom trabalho frente aos destinos da ALJUSBA.


Foto: JULAY

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segunda-feira, 17 de maio de 2021

ITABUNA CENTENÁRIA UM SONETO: Nize - Cláudio Manuel da Costa



                                                  Nize

Cláudio Manuel da Costa

 

Nize? Nize? onde estás? Aonde espera

Achar-te uma alma que por ti suspira;

Se quanto a vista se dilata, e gira,

Tanto mais de encontrar-te desespera!

 

Ah, se ao menos teu nome ouvir pudera

Entre esta aura suave, que respira!

Nize, cuido, que diz; mas é mentira,

Nize, cuidei que ouvia, e tal não era.

 

Grutas, troncos, penhascos da espessura,

Se o meu bem, se a minha alma em vós se esconde

Mostrai, mostrai-me a sua formosura.

 

Nem ao menos o eco me responde!

Ah, como é certa a minha desventura!

Nize? Nize? onde estás? aonde? aonde?

 

(OBRAS POÉTICAS)

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CLÁUDIO MANUEL DA COSTA

          Um dos mais justamente célebres poetas brasileiros, pertencente ao período clássico da língua. Nasceu em Mariana a 05/06/1729. Estudou em Coimbra, onde se doutorou em Cânones em 19/04/1753. Exerceu cargos durante o Governo Provincial (1762 e 1769). Participou da Inconfidência Mineira, vindo, em consequência, ser preso (25/05/1789) e interrogado pela Alçada encarregada da devassa (02/07/1789). Apareceu morto na prisão em 04/07/1789), dizendo uns que se enforcou e outros que foi sufocado pelos adversários políticos. Na Arcádia adotou o nome de Glauceste Satúrnio. Há quem com forte e justificada razão lhe atribua a autoria das Cartas Chilenas, o mais famoso documento em verso da literatura nacional. Suas Obras foram pela primeira vez editadas em Coimbra em 1768 e mais tarde reunidas por João Ribeiro e publicadas em 1903, em dois volumes. Ficou famoso o seu poema “Vila Rica”, editado após sua morte, em 1839, bem assim a sua “Memória Histórica e Geográfica da descoberta de Minas”. É considerado pelos críticos como um dos mais notáveis sonetistas da língua portuguesa.

                                JOSÉ SCHIAVO (em “Os 150 Mais Célebres Sonetos da Língua Portuguesa” EDIÇÕES DE OURO, 1963).

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domingo, 16 de maio de 2021

CLAVE DA SOLIDÃO EM FERNANDO PESSOA - Cyro de Mattos



Clave da Solidão em Fernando Pessoa*

 Cyro de Mattos



            Fernando Pessoa é um poeta de grave meditação.  Sua poesia possui acuradas interpelações, o pensamento argumentativo refere-se ao que somos, fomos e imaginamos ser no futuro. De sua voz escorre a angústia, o delírio do sonho e o milagre que a poesia rara externa quando cumpre saber o mistério que nos cerca na existência. Poeta essencial do pensamento, dotou a Europa de poderosa razão no poema, com a   carga de uma lírica das mais importantes no século vinte. Visões nos versos que se fixam na vertigem das solidões imaginárias são produzidas através de raciocínios inteligentes. Convergem perplexidades no discurso que se estende para solidões do fim do mundo em cada um de nós, seus versos são como mãos que nos tocam no enleio de respostas para as mesmas incógnitas.

            Pessoa escreve versos com magistral domínio da rima e da métrica. Muito de seu espantoso fazer poético é visto como resultado de vivências de estados imaginários. Nas intenções que empreende para alcançar o sonho, conhecimento de que na vida tudo é ilusão, sonhar é sabê-lo, tenta decifrar as formas invisíveis. O poeta de personalidade complexa chega a conclusões que reduzem as visões da existência ao nível de ideias altas. Sentimentos tornam-se sedimentados em conceitos merecedores de uma leitura que não se compraz com o deleite para a mística do ornamento. Ressoam no discurso feito com a tristeza de coisas reais, sob o convívio de vagos receios e fortes anseios.

            Há uma conexão de ricas construções poéticas com vibrantes razões e saídas de uma loucura lúcida servindo de análise da existência. Um vínculo de gravidade e grandeza no que ele sabe dizer sobre o enigma do mundo com os outros, nas partes em que alcança com sua criativa marca pessoal, apoiada em imagística superior, pungentes visões oblíquas. Às vezes seus versos iluminam o ser com uma música finda que fere, mas que continua acordada no contínuo movimento da vida. Essa música que emana do sonho é para Pessoa a vida em si e contra si mesma, intensa do sim e do não.

            O poeta conhece depressões, passeia por ínvios caminhos, vê as coisas se transformarem ou permanecerem duradouras, sem perdas, em cada estar no mundo. Sabe que nesta independência é que repercute com a sua voz neutra o enigma de tudo. Vozes contrárias existem no que o poeta tenta escutar, tornadas alheias aos que vivem e morrem na vida breve. Há momentos críticos, e são inúmeros, em que o poeta se perde por entre os caminhos do tempo ido. Nesta tristeza que numa ordem absoluta faz o céu sem luz e não cura a alma de seus males profundos. Roça no poeta a verdade de que lhe é impossível decifrar as formas sem formas, “essas coisas lindas que nunca existirão...”


 No rio ao pé de salgueiros

 Passaram as águas em vão,

Com tristezas de estrangeiros

Passaram pelos salgueiros

As ondas, sem ter razão.


            Na alquimia própria do poeta eterno, que detém o tempo, a inaugurar novos sentidos, seus versos transformam sentimentos em pensamentos cristalizados. Plasmam tudo que vê e sente na decorrência de quem reconhece a terra e o céu na beleza de ser em si, mas que não dependem de quem durante a vida “perdeu a alma p’ra os ter.” No céu amplo de desejo, o homem retraído, preso à solidão de tudo, faz de Pessoa um poeta de penetrante enfrentamento elucidativo do ser. Ele nos diz que é amante da beleza, embora reconheça que tudo é em vão. Mostra ter saudade do poeta da alma alheada, que ficou para trás em dado momento, escrevendo os versos que chegavam sem lhe exigir nada. Em contrapartida, o seu ser profundo é tomado de confusão absurda quando começa a saber que a terra é feita de céu.  Aparece dentro dele como se fosse de outra vida, dizendo-lhe que a morte chega cedo nessa substância oculta, que não se desvenda. Breve é toda a vida, confessa. Como numa espécie de andaime, que lhe é posto pelo eu poético, seus versos ecoam da vida breve por entre grandes mistérios, assombrosos abismos. 

      As ondas atormentadas do mundo habitam as zonas da imaginação alimentadas pela razão de viver desse poeta incrível.

 

O que me dói não é

O que há no coração

Mas essas coisas lindas

Que nunca existirão...


            Neste mundo, que ele não sabe se é sonho, realidade, onde tudo é deixado, só temos a certeza única de que passamos como sombras do que fomos. Conflitos que na alma geram a terra e o céu, por onde passam as mesmas sombras, não deixam que o poeta mude o hábito de escrever versos fingidos como vínculo de interiores graves diante do mundo, os quais quase sempre trazem essas coisas vestindo nadas

            A lembrança do passado dá ao poeta a consciência de que só teve a vida mentida, feita de mágoas que não cessam, no rio que flui sem volta, e trégua. Rio subterrâneo, que relacionado com outros símbolos o poeta não sabe de quais terras vem e para onde vai. A vida vivida incerta, na esperança que pouco alcança, não apreende o tédio dessa substância oculta. Em tudo isso consiste a energia que alimenta o poeta na construção de seus versos, suas verdades e dúvidas, cheias de argumentos dotados de questões sérias.

            A vida, por ser complicada, faz com que Pessoa tenha olhos para ver por meio da razão, que lhe deram como guia. Se a razão é guia que ilumina a obstinada fé e a ciência cega, reflete-se de seus versos uma voz brilhante numa espécie de loucura lúcida. É pouco chamar de talentosa essa maneira de se comportar o eu poético, pois sem dúvida é formada de altíssimo pensamento de horas fundas, profundas, singularíssimas, solitárias, mas a um só tempo plurissignificativas como aferição da existência. Diferentes no poeta que tem olhos para ver, separar, distinguir, juntar, compelido para que tente decifrar a existência no exterior em que ele se vê perdido como num deserto. Passageiro confuso, vê a noite vinda como nada, a vida como sonho. Na clave da solidão, para alcançar as sombras sem formas, Pessoa urde o artifício do caminho, e é também como ele esquece um pouco dele mesmo.

            Para além de conhecer esta vida breve, fingidos os seus versos soam neste cancioneiro por onde as coisas escoam com o seu ritmo para coisa nenhuma. A alma do poeta remoinha nas portas do enigma, a vontade deseja penetrar muros. Isso o força a reviver, ler o que está em si e diante de si, exprimir em silêncio e com intensidade o tempo que teve sonhado e o perdeu nos anos.

            Ter alguma certeza nas coisas desta vida, nessa loucura do querer compreender, o poeta acha ser difícil, há uma solidão imensa em tudo. E ele só acredita que se sente assim quem na existência caminha enganado.

 

  Se ver é enganar-me,

  Pensar um descaminho,

  Não sei. Deus quis dar-me

  Por verdade e caminho.

 

            Evocação do homem através do verbo mágico, discurso instigante em usual pensamento do real vestido de sonho, dotado de arguta argumentação da inteligência, tudo mais Fernando Pessoa revela no seu Cancioneiro (Obra poética, Brasil, 1960).  Mostra o quanto experimenta sua natureza de poeta eterno, diferente e sozinho, no exercício da literatura de excepcional qualidade. Emissário da vida a morrer e a iludir, transmite, como uma fonte que não cessa, o quanto ausculta através da imaginação, questiona por meio dos abismos da razão. Como um ser solitário, que a certa altura vê no outro “um cadáver ambulante que procria.”

            Sentir esse poeta genial, que à vida dá assomos e esgares, sinta quem lê o seu célebre poema “Autopsicografia”:

 

O poeta é um fingidor.

Finge tão completamente

Que chega a fingir que é dor

A dor que deveras sente.

 

E os que leem o que escreve,

Na dor lida sentem bem,

Não as duas que ele teve,

Mas só a que eles não têm.

 

E assim nas calhas de roda

Gira, a entreter a razão,

Esse comboio de corda

Que se chama coração.

 

 

*In “Encontros com Fernando Pessoa”, do livro Kafka, Faulkner, Borges e Outras Solidões Imaginadas, Cyro de Mattos, no prelo da EDUEM, editora da Universidade Estadual de Maringá, Paraná.

PESSOA, Fernando.  Obra poética, Editora José Aguilar, Rio de Janeiro, 1960.

 

Cyro de Mattos é ficcionista, poeta, cronista, ensaísta e autor de literatura infantojuvenil. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia. Doutor Honoris Causa da UESC (Bahia).  Possui prêmios importantes. Publicado no exterior.

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Vamos compartilhar! Exército Brasileiro, Marinha do Brasil e FAB.

O MAR — Uma esplêndida imagem do absoluto

Plinio Corrêa de Oliveira


O que é a verdade absoluta? Seria a verdade óbvia? Não necessariamente. Trata-se de uma verdade tão fundamental, que está na base de todas as verdades. Ela pode ser conhecida pelo espírito humano com tanta clareza, que produz nele uma impressão semelhante à de ter tocado num mar eterno; de ter tocado em algo fixo, perfeito, que nunca o abandonará, nunca o trairá, nunca será diverso, e que satisfaz a mente humana inteiramente. Isto se poderia traduzir pela palavra absoluto. Por quê? Porque exprime com perfeição a própria personalidade.

O mar é uma imagem esplêndida desse absoluto. Ele foi criado com todas as contingências da matéria; mas tão verdadeiro, tão grande, tão completo, que contém em si a imagem de tudo que se pode passar no espírito humano. É abrangente, renova-se continuamente, e mantém sua estabilidade até mesmo durante uma tempestade.

O mar abrange muitos paradoxos aparentes. Por exemplo, quando entramos na Baía de Guanabara encontramos o mar imenso, no entanto limitado por diversas ilhas e enseadas, podendo-se dizer que ali sua imensidade está limitada de mil modos. Vendo aquela grandeza, entretanto nos encantamos com seus movimentos graciosos. Depois, quando entramos para o alto-mar, nos encantamos de outra maneira, com outros aspectos. Ele contém todos os paradoxos em estado de harmonia, contém todos os movimentos em forma de estabilidade.

Poderíamos ficar horas olhando para o mar, sem cessar de nos entretermos com ele. Poderíamos passar a vida inteira contemplando o mar na Baía de São Sebastião, por exemplo — ora andando de um lado para outro, ora num veleiro ou noutra embarcação — e ainda assim considerarmos ter preenchido a nossa vida.

Das imagens de ordem natural, o mar é para mim a que melhor me faz lembrar de Deus. Mesmo um céu muito bonito não lembra tanto o Criador quanto o mar. Diante de todos esses aspectos, eu o considero a imagem mais exata do absoluto.

 

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Excertos da conferência proferida pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em 24 de maio de 1989. Esta transcrição não passou pela revisão do autor.

https://www.abim.inf.br/o-mar-uma-esplendida-imagem-do-absoluto/

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PALAVRA DA SALVAÇÃO (231)


Ascensão do Senhor | Domingo, 16 de maio de 2021


Anúncio do Evangelho (Mc 16,15-20)

— O Senhor esteja convosco.

— Ele está no meio de nós.

— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Marcos.

— Glória a vós, Senhor.

Naquele tempo, Jesus se manifestou aos onze discípulos, e disse-lhes: “Ide pelo mundo inteiro e anunciai o Evangelho a toda criatura! Quem crer e for batizado será salvo. Quem não crer será condenado. Os sinais que acompanharão aqueles que crerem serão estes: expulsarão demônios em meu nome, falarão novas línguas; se pegarem em serpentes ou beberem algum veneno mortal, não lhes fará mal algum; quando impuserem as mãos sobre os doentes, eles ficarão curados”.

Depois de falar com os discípulos, o Senhor Jesus foi levado ao céu, e sentou-se à direita de Deus.

Os discípulos então saíram e pregaram por toda parte. O Senhor os ajudava e confirmava sua palavra por meio dos sinais que a acompanhavam.

— Palavra da Salvação.

— Glória a vós, Senhor.

https://liturgia.cancaonova.com/pb/

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Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Padre Roger Araújo:



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Ascensão: quando céus e terra se tocam

Imagem: Fernando Alves


“...o Senhor foi levado ao céu, e sentou-se à direita de Deus” (Mc 16,19)

O Mistério que estamos festejando neste domingo é o mesmo que celebramos cada dia deste tempo de Páscoa ou que celebraremos em Pentecostes: a certeza de que nosso Deus é um Deus Vivo e um Deus de Vida, que não permite que a morte tenha a última palavra e que se empenha para que nós sejamos, junto a Ele, doadores de vida.

Já se passaram 40 dias desde que celebramos a Páscoa, o acontecimento inspirador e alegre da Ressurreição de Jesus. Talvez seja um bom momento para tomarmos o pulso de como temos vivenciado este tempo pascal. Também a nós, como seguidores(as), a liturgia nos apresentou Jesus Vivo e Ressuscitado durante quarenta dias: Ele nos falou de paz, de esperança, de fortaleza, do imenso amor com que nos ama, do sentido de sua morte e de sua paixão... Conhecendo em profundidade nossos medos e debilidades, nos prometeu com insistência que sempre permanecerá entre nós através do alento e da força do seu Espírito, da “Ruah” criativa e transformadora. 

Na Ascensão, Jesus não nos abandona, pois realizou uma comunhão definitiva com a humanidade, garantindo a ela um destino de plenitude. Ele subiu ao céu para abrir-nos o caminho, mas agora é o Espírito aquele que nos move e nos conduz ao Pai. Cabe a nós esforçar-nos em fazer o nosso êxodo, sob a ação do mesmo Espírito e confiantes na fidelidade de Deus.

Depois destes 40 dias de preparação é tempo de nos mover, de sair, de pôr-nos a caminho. É preciso colocar em prática tudo o que foi escutado e experimentado. É tempo de “expulsar demônios, de curar enfermos, de falar linguagens novas...”. Cada um de nós pode dar nome a esses “demônios” que somos chamados a expulsar, às enfermidades que devemos curar ou à linguagem de devemos praticar com insistência.

Agora, através do seu Espírito, o Senhor nos coloca em movimento com um envio apaixonante: que a Boa Notícia, aquela que nós já temos recebido, chegue ao mundo inteiro. 

Ao mistério da Ascensão corresponde ao mistério da Kénosis (esvaziamento) do Verbo; Ele que se despojou de sua glória e majestade e se fez homem, agora é elevado aos céus e com Ele toda a humanidade redimida e divinizada. Em Cristo, a humanidade inteira já se encontra envolvida por Deus; em Cristo, céus e terra se encontram.

A Ascensão nos revela que a terra termina no céu, o tempo na eternidade, o ser humano termina em Deus. Mas o céu, a esperança, o horizonte, estão já presentes em nosso hoje, dando sentido. O futuro sonhado e esperado é a alegria do presente. O céu não pode esperar!

Frequentemente, a festa da Ascensão é explicada utilizando a mentalidade grega que distingue e separa “céu” e “terra”, que vê estas duas realidades como espaços contrapostos e, de certa forma, separados por um imenso abismo. Como consequência, neste domingo faríamos memória da grande “desconexão”: Jesus Ressuscitado ascende ao céu, abandona a terra e a nós, seus discípulos, sua comunidade; deixa-nos tristes e órfãos.

No entanto, a chave está aqui: “tudo está entrelaçado, inter-conectado, inter-dependente...”

A cosmologia bíblica não é dualista. Céu e terra não são duas realidades separadas, opostas, desconectadas, senão que existe entre elas uma permanente inter-relação; são realidades inter-conectadas. “Céu” (Deus e seus anjos) e terra estão em permanente relação. E tanto os humanos como os animais, as plantas, os planetas, experimentam sempre o “toque” e a “influência do céu”. Assim se expressam os Salmos, os Profetas, os Sábios... Para o pensamento bíblico há salvação ali onde céus e terra se tocam.

Os primeiros cristãos contemplavam a ressurreição de Jesus como o início da reconciliação entre o céu e a terra. Jesus “sobe ao céu” para que se realize sua “conexão” definitiva com a terra; Jesus sobe ao céu para que o céu venha à terra. Essa foi a oração que Ele ensinou àqueles que o seguiam: “Venha a nós o vosso Reino; seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu”.

O que dizemos da terra, o que a ciência da ecologia nos mostra cada vez com mais evidência é que tudo está inter-conectado, todas as manifestações de vida estão inter-relacionadas. Assim, com muito mais razão, é preciso dizer de uma maneira muito especial nesta celebração da Ascenção: Jesus sobe para “conectar” tudo. Esta é a “ecologia do Espírito do Ressuscitado”: o céu na terra e a terra no céu.

Esta é a ecologia integral: a ressurreição transformou absolutamente tudo, uniu tudo. Uma estupenda beleza nasceu e nós estamos integrados neste cenário.

Na Bíblia, céu e terra querem exprimir, espacialmente, a totalidade da Criação de Deus; por isso Deus é Senhor do céu e da terra.

Tudo, então, chegará à plena reconciliação: o céu terá baixado à terra e a terra terá sido elevada até o céu. E então será a plenitude: “Deus será tudo em todas as coisas” (1Cor. 15,28)

A tradição nos lembra que o Espírito Santo é o mesmo na terra e no céu, que o Amor é o mesmo, na ter-ra e no céu. Todas os atributos divinos que podemos viver no espaço-tempo são nossa realidade celeste.

Ao celebrar a Ascenção, sentimos aqui na terra como o céu se conecta com uma experiência universal, comum a todo ser humano: nosso profundo desejo de comunhão.

E, assim, muitas outras expressões humanas, sobretudo através da arte, nos convidam a olhar o céu não como algo etéreo, separado de nossa realidade, mas como algo que habita em cada um de nós. O “céu” se encontra naquelas situações e relações que fazem o ser humano apaixonar-se pela vida. Onde predominam o ódio e o desprezo pela vida, ali se encontra o “inferno”. Quantas “expressões infernais” destroem o impulso para o encontro neste nosso contexto social, político, econômico...!

Como vemos, o “céu” nos mobiliza e nos interpela, nos conduz àqueles lugares, pessoas e situações nas quais experimentamos o profundo desejo de nos unir com a humanidade; também a humanidade mais frágil e necessitada de comunhão. E aí, nesse desejo de construir o céu na terra e de encontrar-nos uns com outros, encontramos o Ressuscitado, falando-nos com paixão, ternura e amor. 

O movimento desencadeado por Aquele que Vive é um movimento que reúne para ativar a vida, para restaurar vínculos rompidos, para libertar das ataduras que escravizam...

Jesus “subiu” ao céu porque “desceu” às profundezas da terra. E assim também nos mostrou o caminho. Não podemos subir ao céu se não estivermos dispostos a descer com Cristo ao nosso “húmus”, às nossas sombras, à condição terrena, ao inconsciente, à nossa fraqueza humana.

Nós “subimos” a Deus quando “descemos” à nossa humanidade. Este é o caminho da liberdade, este é o caminho do amor e da humildade, da mansidão e da misericórdia; é o caminho de Jesus também para nós.

A vida cristã não é “subida” para fora da realidade, mas “descida” para o mais profundo da mesma.

Entramos no movimento da Ascensão quando amamos, servimos, cuidamos...; nós nos elevamos quando lutamos por uma causa, investimos a vida num projeto em favor da vida.

Texto bíblico:  Mc 16,15-20 

Na oração:  A festa da Ascensão nos ensina o caminho através do qual descemos a uma dimensão mais profunda, chegando à corrente subterrânea por onde flui a vida; aqui experimentamos a unidade de nosso ser; o impulso para a comunhão, o lugar da transcendência, onde nossa transformação realmente acontece.

Para nos realizar e desenvolver toda a nossa potencialidade, busquemos, na oração, cavar mais profundamente, até atingir as raízes de nosso ser, o núcleo original de nossa personalidade. É no mais íntimo de nós que rezamos ao Senhor. É no mais profundo de nossa interioridade que escutamos o Senhor.

Deixemo-nos invadir pela luz e pela vida d’Aquele que “armou sua tenda entre nós”. 


Pe. Adroaldo Palaoro sj


https://centroloyola.org.br/revista/outras-palavras/espiritualidade/2332-ascencao-quando-ceus-e-terra-se-tocam

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