Depois de longo período de pessimismo, todos nós, uns mais,
outros menos, vivendo entre o medo e a solidão, entre o mistério e a angústia,
sem saber o que aconteceria não somente com nossas pessoas e famílias, mas
também com o mundo, surge, embora de maneira tênue, um primeiro raio de
esperança, com a possibilidade de entrarmos num período que todos esperávamos
há tanto tempo: o início do processo de se imunizar a população e afastar o
temor de se ser vítima de uma doença que surgiu como um mistério, que ninguém
sabia o que era exatamente, quais suas consequências, até onde ela podia chegar
e se a Humanidade estava numa ameaça que podia a levar a sua destruição total,
ou ao menos a impor uma nova e diferente forma de viver em sociedade.
A primeira adaptação, a do relacionamento. Não se conhecia
outro método de prevenção senão o isolamento, que por sua vez nos obrigava a
não ter contato com as pessoas, inclusive as mais próximas, as mais ligadas
pela amizade e pelo carinho. Usar máscara, tirar o prazer de ver os rostos
queridos, lavar as mãos, excluir cumprimentos e evitar qualquer contato de
grupo.
Por outro lado, todos sentimos o impacto sobre a economia,
com a perda de empregos, de trabalhos, o fechamento das lojas, dos mercados e a
disseminação do receio da contaminação.
O desconhecimento de quaisquer formas de tratamento fez com
que estas fossem sendo descobertas à custa de muitas vidas, ao lado dos
fantasmas dos medicamentos promovidos como eficazes sem respaldo científico e
em total descompromisso com suas consequências e seus efeitos colaterais.
Acompanhamos o esforço gigantesco das autoridades sanitárias
para enfrentar os perigos e a perda de tantas vidas de profissionais de saúde,
verdadeiros heróis, que desafiaram — e desafiam — a morte e deram o máximo de
solidariedade e conforto aos doentes e a seus entes queridos, no sofrimento da
espera e do desconhecido. Continuamos a viver nesse clima, mas até agora não
chegava a nós, concretamente, qualquer forma de enfrentamento deste mal.
Nos resgata a ciência e a determinação do homem em colocar o
seu saber a serviço do próximo e de todos os povos. Nunca houve um esforço
científico da magnitude do que foi feito para encontrarmos os caminhos de
salvação.
Enquanto isso, paralelamente, assistíamos à disputa desumana
de grupos econômicos, pensando nos lucros que adviriam a quem encontrasse
sucesso em suas pesquisas, e até de países pensando em geopolíticas. Nada de
pensar na Humanidade, no sofrimento, na morte dos atingidos e sim nas
oportunidades que a miséria podia gerar.
Depois da escuridão, da longa angústia e do sofrimento,
surge um raio de luz com o anúncio de que já no início do próximo ano haverá
alternativas de vacinação para proteger a humanidade. Estamos mais uma vez num
ponto de inflexão — aqui mesmo o País cresceu 7,7% no último mês, aquém do que
era esperado, mas nos dando um sinal de que em algum momento vamos retomar
nosso crescimento — e sentimos a esperança voltar ao mundo, no que para nós é o
caminho cristão, marcado pelo Natal do Menino Jesus. Que, com Ele, não nos
faltem a fé e a esperança.
José Sarney - Sexto ocupante da Cadeira nº 38 da ABL, eleito
em 17 de julho de 1980, na sucessão de José Américo de Almeida e recebido em 6
de novembro de 1980 pelo Acadêmico Josué Montello. Recebeu os Acadêmicos Marcos
Vinicios Vilaça e Affonso Arinos de Mello Franco.
O
ícone de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro não é associado ao Natal, mas deveria
Depois de
anos sem prestar muita atenção a ele, o ícone de Nossa Senhora do Perpétuo
Socorro se tornou minha imagem favorita de Natal neste Advento.
A imagem é,
de fato, um ícone bizantino do século 13, que atualmente instalado na Igreja de
Santo Afonso em Roma. Ele retrata a A Virgem Maria e o Menino Jesus ao centro,
além dos arcanjos Miguel e Gabriel em cada lado.
Adam Jan Figiel | Shutterstock
Os anjos e Nossa Senhora do Perpétuo
Socorro
O ícone me
fez lembrar que as coisas que me desencorajaram no passado são o que me atraem
agora, revelando todo o significado do Natal. Os anjos, portanto, são
lembretes do verdadeiro poder do Natal. Os dessa imagem sempre me
lembravam insetos incomodando a Mãe Santíssima. Mas é claro que não são. Ao
contrário: eles são mensageiros de Deus carregando uma cruz e pregos.
Além disso,
Eles são lembretes de que Jesus nasceu em Belém para morrer por nós no
Calvário. E sua morte não foi uma coisa fácil, porque ele era, de fato, Deus.
Foi, portanto, uma coisa dolorosa que o assustou porque ele também era homem.
E, como um verdadeiro homem, precisava de apoio e encorajamento. Ele herdou
isso de sua mãe, e nós também podemos herdar.
Jesus
Jesus se
parece com uma criança e com uma pessoa mais velha ao mesmo tempo,
lembrando-nos que o Natal é para todos. No ícone, seguindo os costumes das
Igrejas Orientais, não parece infantil. Este é um bom lembrete de duas coisas.
Primeiro, que mesmo quando adulto, seu relacionamento com a mãe perdurou.
Segundo: ele nos convida a esse relacionamento com ela, não importa nossa
idade.
Da mesma
forma, o filme A Paixão de Cristo expressa a mesma ideia quando a presença de
Maria dá a Jesus a força para enfrentar a Paixão. Isso está especificamente em
uma cena em que Maria o confortou quando criança.
No ícone ele
segura a mão dela assustado com os sinais de sua Paixão, um hábito que teria
começado na primeira noite de Natal – e um hábito que pode começar para nós
agora mesmo.
Nossa Senhora do
Perpétuo Socorro
Neste ícone,
a imagem séria de Maria nos lembra que o Natal é mais profundo do que a
superficialidade com que o vestimos.
Eu já vi,
entretanto, versões do ícone em que os artistas colocam um sorriso no rosto de
Maria. Eu entendo por que eles fazem isso. Seu rosto parece duro e desagradável
para nós, pessoas do século 21, acostumadas a celebridades sorridentes e fotos
de perfil selecionadas.
Mas as
pessoas da maioria dos tempos e lugares do mundo reconheceriam esse olhar: é a
expressão de uma mulher que sabe que a vida é difícil e que o futuro trará mais
dificuldades. Entretanto, ela olha para o céu em busca de esperança – e sabe
que ela virá.
As sandálias
A sandália
caindo do pé de Jesus me lembra que há Alguém maior do que João Batista aqui.
Além disso, o fato de a sandália estar caindo pode significar que Ele não esta
amarrado a esta terra, pois ele também é divino.
Para mim,
esta cena sempre me faz pensar em João Batista, que repetiu notoriamente
durante o Advento que não era digno de amarrar as sandálias de Jesus. Gosto de lembrar
que Maria, sim, era digna de fazer isso.
Enfim, no
Natal, esse ícone me lembra que, embora o presente mais importante que
recebemos seja um salvador glorioso, o presente secundário que recebemos é uma
ótima mãe.
O Natal,
portanto, é o tempo perfeito para nos consagrarmos a ela!
Estudo recente de uma organização de jovens britânicos
afirma que “são muito influentes na conversão de um jovem ao cristianismo
o próprio prédio físico da igreja”. Analisando esse estudo, o Telegraph cita
que “cerca de 13% dos adolescentes disseram que decidiram se tornar
cristãos depois de visitarem uma igreja ou catedral”.
Para o jornal londrino, a “influência do edifício da
igreja na conversão de adolescentes é mais significativa do que a participação
deles em um grupo de jovens, em um casamento, ou o fato de eles conversarem com
outros cristãos sobre a fé”. O estudo sugere que métodos utilizados pela
Igreja, como grupos de jovens, são menos eficazes para atrair adolescentes do
que a oração ou a visita a uma igreja.
O que atrai esses jovens ingleses nas igrejas e catedrais,
muitas delas verdadeiras joias medievais, roubadas ao culto católico durante a
apostasia e o cisma do lúbrico rei Henrique VIII? Na verdade, eles são atraídos
pela beleza da arquitetura, pelo colorido dos vitrais, pelas esguias torres e
cúpulas que desafiam os tempos. Enfim, tudo aquilo que falta nas igrejas
modernas, feias como o pecado…
Isso nos remete a uma questão filosófica. O que pode ser
realmente considerado belo? O Belo é algo subjetivo ou objetivo? Na verdade,
desde a antiguidade, filósofos — o principal deles foi Aristóteles — se
debruçaram sobre o assunto à busca de uma explicação satisfatória. São Tomás de
Aquino, seguindo os passos do filósofo grego, tratou com maestria desse tema em
sua Suma Teológica.
Segundo o Prof. Gabriel Ferreira, ao comentar o Doutor
Angélico, esclarece que ele aponta três condições da beleza: a primeira delas
é integridade ou perfeição do ente. Ou seja, quanto mais o ser for
completo e íntegro de sua natureza; quanto menos lhe faltar para que seja
aquilo que é; portanto, quanto mais perfeito, mais belo será tal ente.
A segunda das condições é o que Santo Tomás chama de proporção
ou harmonia. Que seja proporcional entre suas diversas partes, ordenadas para o
fim que lhe é próprio. Por último, São Tomás acrescenta um traço pouco
explorado, isto é, o brilho, a claridade ou o esplendor. Pois o que é belo
exibe uma espécie de halo que coroa seu grau de perfeição e está de acordo com
ele.
A beleza portanto se encontra naquilo que os sentidos e o
intelecto encontram satisfação e nossos apetites são aplacados. A experiência da
beleza conjura a unidade dos nossos desejos — do intelecto e da vontade — e as
satisfaz, uma vez que o bom e o belo são o mesmo. É essa “satisfação” em
encontrar esse “bom e o belo” que atualmente atrai muitos jovens. Pretendo
voltar ao tema. Até breve.
2021 está na esquina. Quantas diferenças em um
ano! Sobre um ponto quero abaixo compartilhar reflexões. Quase mais nada existe
da generalizada atmosfera de superficial otimismo que perpassava dezembro de
2019. Em linhas muito gerais, a economia crescia, Trump tinha a reeleição
provável, a via de novas conquistas parecia aberta para grande parte da
população. O que gerava a sensação de segurança, de rumo e de perspectivas
realizáveis, condições favoráveis ao equilíbrio emocional. Dava para caminhar.
De repente se fechou o carreiro ascensional, o mundo afundou, apareceram
abismos antes encobertos pelo otimismo generalizado. Já em fevereiro a pandemia
do COVID-19 veio forte, logo depois as cidades foram fechadas e as ruas ficaram
desertas. Empresas faliram, explodiu o desemprego, milhões e milhões
despencaram na pobreza. Os governos abriram as burras para auxílios
emergenciais e o déficit fiscal disparou. De outro lado, a pandemia provocou
intensas disputas entre grupos políticos, o choque das opiniões esgarçou ainda
mais a sociedade. A recuperação, se vier, será difícil. E não deveria ser
apenas econômica. Comentarei abaixo a respeito.
Joe Biden ganhou nos Estados Unidos à frente de coligação que inclui
correntes radicalizadas, socialistas e libertárias. Ele terá que satisfazê-las
(e já as está contemplando na alta administração) ao cumprir compromissos
assumidos na campanha. O que virá dali? É ponto que exige atenção e preocupa.
Observei que a recuperação econômica, se vier, será difícil. Como todos sabem,
suporá a aplicação de vacinas seguras, fazendo realidade a imunidade de
rebanho. Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central, advertiu que os
investimentos em vacinas contra a COVID-19 são muito mais baratos que as
aplicações em auxílios emergenciais. Deseja aplicações maiores e urgentes. É
preocupação do mercado, lembrou ainda: “Há uma disputa por vacinas.
Quem terá a vacina primeiro e como a logística será feita muda todos os dias.
Estamos concentrados nas vacinas e o mercado também”. Na mesma direção,
advertiu Marcelo Pacheco, secretário executivo do ministério da Fazenda: “Com
a vacina a população vai se sentir mais segura e, com isso, a economia vai se
recuperar. Temos feito de tudo para prover os recursos necessários para a
vacinação”.
População protegida, disseminação controlada, é o objetivo. Canadá,
Estados Unidos, Alemanha e Inglaterra já estão vendo luz na boca do túnel.
Outros países vão no mesmo rumo. Nós também, só que com passos lerdos. Ainda
preparamos a caminhada; brigas, desleixo, obsessões, cegueira, incompetência,
impediram-nos de atender populações expostas, como, por exemplo, agora o fazem
Estados Unidos, Inglaterra e tantos outros. Quando tal fato se dará no Brasil?
Ninguém sabe ao certo; é triste, chapinamos no pântano dos palpites.
Duas características que provavelmente permanecerão: o “home office” e o
aumento dos pagamentos e compras pela rede. Não tratarei aqui de modificações
psicológicas, morais, políticas, tema muito vasto.
Falei de equilíbrio emocional, sensação de segurança, sensação de rumo,
perspectivas realizáveis. Acabaram, veio a desorientação. E há motivos. Será
dura a recuperação, tempos difíceis pela frente, o déficit fiscal vai pesar por
anos. Empregos melhores e rendas em aumento, se vierem, chegarão em
conta-gotas. Medidas que poderiam ajudar a retomada do crescimento, com o
consequente alívio, em especial para os mais pobres, comportariam enérgico
programa de privatizações, diminuição do tamanho do Estado, cancelar programas
malucos como a reforma agrária. Mas temos tumores de estimação no corpo social,
parece que não podem ser tocados. E aqui se unem pessoas de todas as correntes,
congregadas pelo objetivo de preservar dentro do corpo social os tumores de
estimação. As advertências melancólicas do Dr. Salim Mattar são apenas um
sintoma, significativo embora, de tal realidade desoladora.
Agora, o ponto que pretendo destacar tem relação com o equilíbrio
emocional. Seria trágico repetirmos o que aconteceu nos anos 20 do século
passado, “les années folles”, os anos loucos. O povo, cansado da guerra,
cansado da gripe espanhola, jogou pela janela o sofrimento, não fez dele
pedestal para a formação do caráter e raiz de vida temperante; e lançou-se na
folia, quis esquecer tudo o que havia passado. Poucos anos depois o sofrimento
e as privações voltaram multiplicadas, era a 2ª Guerra Mundial. Não lancemos
nós agora o sofrimento pela janela. Não passou ainda, pode demorar algum tanto
a volta à normalidade e 2021 começa com a sensação de falta de rumos.
Desorientação. Um ponto deveria estar sendo cogitado: não desperdiçar o
confinamento, o sofrimento e as privações, mas fazer desse depósito pedestal
para a formação do caráter. Nutrimento da temperança. Já será grande coisa. Que
Deus nos ajude. Bom Ano Novo a todos.
O futebol de Itabuna, digno de seu passado amador brilhante,
quando era vencedor constante, dava orgulho à cidade. De uns tempos para cá se
tornara em grande frustração, abatendo o torcedor de gerações passadas,
acostumado a comparecer ao velho Campo da Desportiva para torcer com entusiasmo
pelo seu time do coração. A frustração que esse torcedor saudoso carrega
dentro dele hoje força que acenda o coração no sentimento de amor e saudade. De
grandeza, autoestima. Lembre-se do tempo em que esse futebol amador foi pródigo
em oferecer partidas memoráveis, portadoras da verdade como reflexo da vida,
dizendo que nela existe a alegria dos que vencem, a tristeza dos que perdem,
conformismo ou não dos que empatam em cada batalha.
Eram quatro irmãos, quatro craques do nosso
futebol amador. Os quatro irmãos Riela formaram um capítulo à parte nas
partidas disputadas no Campo da Desportiva. Eram conhecidos como os quatro
mosqueteiros do rei, pois constante era o sentimento de união entre eles no
relacionamento com a vida. Fernando, Carlos, Leto e Lua eram inseparáveis. A
separação somente acontecia quando iam defender as cores de seu clube. Carlos e
Fernando jogaram no Fluminense, Leto no Flamengo e Lua no Janízaros. Quando se
enfrentavam, o sentimento de irmandade ficava de lado, cada um dava o melhor
para defender o seu time. Os quatro eram jogadores dotados de recursos técnicos
invejáveis. Cada um com a sua característica na intimidade com a bola.
Fizeram história no Campo da Desportiva. Fernando como um
ponta-esquerda que driblava numa velocidade espantosa, deixava o marcador para
trás, batido pelo chão, e o torcedor incrédulo ante a investida impetuosa,
fundamental na conclusão da jogada perfeita pela beirada do campo. O
meia-direita Carlos tinha boa visão de jogo, não olhava para a bola, de
cabeça erguida via o companheiro e o campo para o lançamento preciso. Era
um médio armador elegante. Leto jogou no Flamengo e se sagrou campeão pela
seleção de Itabuna, médio-esquerdo implacável na marcação, com
uma eficiência exemplar anulava o ponta-direita, que pouco pegava na bola
durante os lances acirrados da partida.
Lua, o mais
novo, era dos quatro o que mais encantava, fazia o torcedor ficar com a boca
larga, de tanto que sorria com os seus dribles desconcertantes. Parecia flutuar em campo na condução da bola,
um pássaro que se desvencilhava do obstáculo e no chão voava? Gingava,
driblava, enganava, aquele jogador franzino transvestido em um artista que
desenhava a jogada como num sonho. Fazia a tabelinha com o companheiro,
deslizava, bailarino ou vento ligeiro que fazia o espetáculo pontilhado de riso
e gozo?
Os
admiradores de Lua não cansavam de dizer que dos irmãos Riela ele era o melhor,
o que tinha mais recursos técnicos, o pequeno maior. Jogou no Janízaros e na
seleção amadora de Itabuna quando esta começou o declínio para não mais
conquistar o Intermunicipal. O seu futebol era de tão boa qualidade que
foi aproveitado no time profissional do Itabuna. Tinha recursos para jogar em
qualquer time grande do Rio ou São Paulo. Se fosse hoje, não tenho dúvida,
melhor preparado fisicamente, estaria atuando até em equipes europeias de ponta.
Por que não? Quem viu, sabe do que estou falando, não me deixa mentir.
Aquele
jogador franzino, travesso em cada drible que dava, deixou-nos há pouco, está
em outras dimensões fazendo os anjos não parar de sorrir com os seus dribles cheios
de molecagem.
Cyro de Mattos é contista, poeta, cronista, ensaísta,
romancista, organizador de antologia, autor de livros para crianças e jovens.
Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia. Doutor Honoris Causa pela
Universidade Estadual de Santa Cruz. Premiado no Brasil, Portugal, Itália e
México. Tem livro publicado em Portugal, Itália, França, Alemanha, Espanha e
Dinamarca. Detentor de prêmios importantes
Sagrada Família: Jesus, Maria e José | Domingo, 27/12/2020
Anúncio do Evangelho (Lc 2,22-40)
— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo
Lucas.
— Glória a vós, Senhor.
Quando se completaram os dias para a purificação da mãe e do
filho, conforme a Lei de Moisés, Maria e José levaram Jesus a Jerusalém, a fim
de apresentá-lo ao Senhor. Conforme está escrito na Lei do Senhor: “Todo
primogênito do sexo masculino deve ser consagrado ao Senhor”. Foram também
oferecer o sacrifício — um par de rolas ou dois pombinhos — como está ordenado
na Lei do Senhor. Em Jerusalém, havia um homem chamado Simeão, o qual era
justo e piedoso, e esperava a consolação do povo de Israel. O Espírito Santo
estava com ele e lhe havia anunciado que não morreria antes de ver o
Messias que vem do Senhor.
Movido pelo Espírito, Simeão foi ao Templo. Quando os pais
trouxeram o menino Jesus para cumprir o que a Lei ordenava, Simeão tomou o
menino nos braços e bendisse a Deus: “Agora, Senhor, conforme a tua
promessa, podes deixar teu servo partir em paz; porque meu olhos viram a
tua salvação, que preparaste diante de todos os povos: luz para
iluminar as nações e glória do teu povo Israel”.
O pai e a mãe de Jesus estavam admirados com o que diziam a
respeito dele. Simeão os abençoou e disse a Maria, a mãe de Jesus: “Este
menino vai ser causa tanto de queda como de reerguimento para muitos em Israel.
Ele será um sinal de contradição. Assim serão revelados os pensamentos de
muitos corações. Quanto a ti, uma espada te traspassará a alma”.
Havia também uma profetisa, chamada Ana, filha de Fanuel, da
tribo de Aser. Era de idade muito avançada; quando jovem, tinha sido casada e
vivera sete anos com o marido. Depois ficara viúva, e agora já estava com
oitenta e quatro anos. Não saía do Templo, dia e noite servindo a Deus com
jejuns e orações. Ana chegou nesse momento e pôs-se a louvar a Deus e a
falar do menino a todos os que esperavam a libertação de Jerusalém.
Depois de cumprirem tudo, conforme a Lei do Senhor, voltaram
à Galileia, para Nazaré, sua cidade. O menino crescia e tornava-se forte,
cheio de sabedoria; e a graça de Deus estava com ele.
“Maria e José levaram Jesus a Jerusalém, a fim de
apresentá-lo ao Senhor” (Lc 2,22)
É profundamente inspirador que a liturgia cristã uma
intimamente estas duas realidades: família e Natal. Nestes
dias, todas as pessoas, mesmo que a situação sanitária não permita, tem a
instintiva necessidade de agrupar-se, encontrar-se e celebrar. Brota em todos
nós uma compaixão solidária para com aqueles que, no tempo natalino, não tem
com quem compartilhar. Natal e solidão são conceitos contraditórios.
Naquela noite de Belém, Deus não só se humanizou, mas entrou
em uma família humana; “Deus se fez família”. Com sua presença, diviniza a
família. E toda família é divina se é verdadeiramente humana.
A família de Nazaré é a escola do Filho do Homem,
rodeado de gente comum, com sua paisagem natal, como um entre tantos; sua
linguagem, seu modo pessoal, sua conduta, sua fé...
Para Jesus, Nazaré é um tempo de aprendizagem: observar o
que acontece ao seu redor: cala, vê, escuta nesta escola. Exercício de
preparação diante das urgências do Reino. “Tempo de guardar no coração”.
Sabemos muito da vida pública de Jesus: nazareno, filho de
um carpinteiro, pobre, livre, compassivo, comprometido com a vidar, que fazia
milagres e falava com uma autoridade inegável, que anunciava a utopia do Reino,
que logo foi crucificado como o pior dos criminosos, e cujos seguidores
asseguraram que tinha ressuscitado... Não podemos negar que Ele mudou a
história da humanidade.
Mas, antes de tudo isto, houve 30 anos de vida desconhecida,
escondida, silenciosa.
Temos poucos dados sobre grande parte de sua vida no seio de
uma família humilde em Nazaré, um povoado que não gozava de boa fama. Assim
viveu Jesus, aprendendo a ser humano na escola da família e da comunidade. Se
não entendemos que Jesus foi plenamente humano é que não aceitamos a
encarnação.
Mas, há algo que podemos trazer à luz daqueles 30 anos
“ocultos”: que na lentidão do dia-a-dia, da monotonia e do lar, Deus preparava
o caminho. Pouco a pouco, a fogo brando. Em meio à rotina de uma vida simples,
Jesus foi fazendo-se perguntas, esperando as respostas, ouvindo o que seu
coração lhe dizia e discernindo o que o Pai queria dele. Ano após ano, em um
pequeno lugar, detrás de uma vida que nada tinha de diferente das outras vidas.
Até que chegou o momento de Deus.
Cozinhar a fogo lento é bem difícil neste mundo de pressas e
imediatismos. E hoje, mais do que nunca, se fazem necessários os “tempos de
Nazaré”, esses tempos de aparente rotina nos quais se alimentam os sonhos, onde
se forjam as vontades, se domam as impaciências, se aclaram os caminhos, se
discerne a Voz, se dissipam as névoas do caminho... Em definitiva, esse
tempo onde nosso canto e o de Deus se afinam juntos para formar uma única
melodia e fazê-la soar no mundo.
As grandes histórias são tecidas na trama do cotidiano; os
“tempos” de Deus não são os da eficácia, da produção, do ritmo estressante...
Também são os tempos do silêncio, da rotina inspirada e da aprendizagem
silenciosa. Todo crescimento pessoal demanda previamente tempo, ritmo,
reconhecimento e aceitação da própria verdade, sólidos fundamentos sobre os
quais podemos construir nossa pessoa.
Jesus desenvolveu sua vida humana como qualquer outro ser
humano. Como homem, precisou passar pelo processo do amadurecimento lento,
lançando mão de todos os recursos que encontrou em seu próprio interior e ao
seu redor. Foi um homem inquieto que passou a vida buscando, procurando
descobrir quem ele era em seu ser mais profundo. Sua experiência pessoal o
levou a descobrir onde o Espírito do Pai estava fazendo brotar o “novo” da
Salvação, e entrou por esse caminho de libertação.
Jesus, no cotidiano familiar, nos revela que Ele é o
homem das “grandes sínteses”: entre o particular e o universal, entre
o Deus da intimidade e os irmãos da convivialidade, entre os momentos de
cuidado de si e as ocasiões de solidariedade, entre sua interioridade e sua
abertura a todos sem restrição, entre ação e contemplação...
Jesus mesmo foi este personagem instigante, que fez
brilhar a “novidade” de Deus nas vilas e campos da Palestina. Ele nos
fala de “sínteses” com o vigor de alguém que é inspirador para todos
nós: Ele sintetiza a ternura de um irmão, a lucidez de um
profeta e a revolução de um Messias.
Foi no cotidiano familiar que Ele aprendeu, aos
poucos, a ampliar seus horizontes, seus interlocutores e o sentido de sua
missão. É a vida cotidiana que nos revela que Jesus foi uma pessoa
profundamente humana e humanizante, que vivenciou um
processo de maturação, de releitura de suas tradições e assimilação do novo,
até chegar à proposta original da Boa-Nova.
Ali, no ambiente familiar Jesus se destaca por sua
docilidade, discrição, familiaridade, aprendizagem, bondade, sensibilidade,
vivência da fé no Deus Providente... que aprendeu de Maria e de José.
Jesus, em Nazaré, continua sendo luminoso e inspirador
para todos nós, num momento em que as transformações são rápidas e exigem de
nós maturidade, aprendizado, diálogo, novas expressões de fé...
A família de Nazaré evoca o dia-a-dia do nosso seguimento de
Jesus, onde os acontecimentos extraordinários são pouquíssimos. Chega um
momento em que a vida cristã parece muito rotineira. Nazaré alimenta o
seguimento de Jesus no cotidiano e comum da vida. Nazaré é a escola na qual
aprendemos a descobrir a presença de Deus na vida “tal como ela é”, no trabalho
das pessoas e nos rostos daqueles que estão ao nosso lado. No lugar onde nos
cabe viver é onde o Senhor nos ama e nos convida a descobri-Lo.
São muitos os lares que vivem a dor da ruptura e separação.
No entanto, a casa familiar continua sendo o lugar entranhável, a referência
segura, a possibilidade restauradora.
Lar: lugar da surpresa, do novo, do desafio... onde a
interação pais-filhos possibilita o desenvolvimento e amadurecimento natural de
todos.
Lar: do “lugar estreito” ao “lugar
amplo” onde é possível a expansão de todos.
Regado pelo amor, o lar torna-se espaço aberto ao
futuro.
Mas Nazaré é também um alerta contra a rotina. Cada dia é
preciso renovar o seguimento. Por isso Nazaré é o lugar da perseverança, da
fidelidade, de dizer cada dia um novo “sim” ao Senhor. No cotidiano há momentos
favoráveis e momentos de crise. Mas o cotidiano é a oportunidade para ampliar o
olhar para a frente. Nazaré pode ser um lugar de esperança, de onde se pode
vislumbrar um futuro melhor.
Nazaré evoca também a comunhão dentro da diversidade. Num
pequeno povoado as pessoas são tão diferentes como numa cidade grande, mas a
vulnerabilidade delas nos faz despertar a consciência da necessidade que
temos uns dos outros. Numa comunidade pequena os problemas de um afetam os
outros. Suas fragilidades se fazem fortes quando se apoiam mutuamente; suas solidões
que se unem criam comunhão. Vivamos em nossas famílias a grandeza de sermos
plenamente humanos!
Texto bíblico: Lc 2,22-40
Na oração: - descubra o significado profundo da
sua vida cotidiana mais simples: trabalhos, relações, família...
O ambiente familiar, quando espaço humanizador, integra a
vida cotidiana de Nazaré com os desafios de Jerusalém (família
que se alarga, sai de si, se compromete, abre-se às causas humanas...)
- Como é sua família? Vive comprometida buscando
uma sociedade melhor e mais humana, ou fechada exclusivamente em seus próprios
interesses? Educa para a solidariedade, a paz, a sensibilidade para com os
necessitados... ou só ensina a viver para o consumo insaciável, o máximo lucro
e o esquecimento dos outros?
- No seu ambiente familiar cuida-se da fé, dos valores do
Evangelho... ou se favorece apenas um estilo de vida superficial, sem metas nem
ideais...? É espaço instigante, de crescimento, aberto ao novo e diferente...
ou ambiente atrofiante, sufocante...?