Num mergulho nos tempos da minha idade infantil, que já vão
longe, guardo com saudade as histórias que me contavam mamãe ou a ama de leite,
nossa Tatá, de nome verdadeiro Gertrudes.
Nesses momentos de acalanto ouvia histórias de Trancoso. Com
o continuar dos tempos e a curiosidade intelectual, fiquei interessado em saber
quem tinha sido esse tal Trancoso, cujas histórias competiam com os Contos
da Carochinha.
Trancoso fazia parte do nome completo de Gonçalo Fernandes
Trancoso, um dos primeiros contistas portugueses, que, para aplacar as dores
pela perda da esposa, de uma filha de 24 anos, de um filho estudante e de um
neto, em virtude da peste que assolou Lisboa em 1568, resolveu escrever sobre a
necessidade de uma cultura sólida para os jovens da época, principalmente as
moças, dentro da ética eclesiástica. Assim, em 1575 surgiram as duas primeiras
partes dos Contos e histórias de proveito e exemplo, completadas com uma
terceira depois da 4.ª edição.
O livro teve sucesso entre os séculos XVI e XVIII, época em
que entrou em quase completo silêncio até o século XX, quando pesquisadores de
outros campos do saber, como ética, cultura geral, reciprocidade e educação
exemplar, procuraram nas histórias infantis informações preciosas nem sempre
recolhidas em outros trabalhos literários.
No ano 2000, o professor Fernando Ozório Rodrigues, colega
da Universidade Federal Fluminense que desde a dissertação de mestrado
mergulhou nas informações e na necessidade de uma edição criteriosa sobre
Trancoso, concluiu sua tese de doutorado “Trancoso e as histórias de proveito e
exemplo: o texto, a língua e o léxico”. A tese, defendida na UFRJ depois de
quase dez anos de pesquisa no Brasil e no estrangeiro, culminou com a edição n.o 9
da Coleção Estante Medieval, publicada pela editora da UFF, em 2013.
Evanildo Bechara - Quinto ocupante a Cadeira nº 33 da ABL,
eleito em 11 de dezembro de 2000, na sucessão de Afrânio Coutinho e recebido em
25 de maio de 2001 pelo Acadêmico Sergio Corrêa da Costa.
Em louvor a Nossa Senhora Aparecida, neste dia em que
celebramos a Rainha do Brasil, segue trecho de um artigo de Plinio Corrêa de
Oliveira, publicado no “O Legionário” de 17-12-1939.
“Lembro-me invencivelmente de Aparecida do Norte, e das
impressões profundas que tenho colhido sempre que ali vou rezar aos pés de
Nossa Senhora.
Onde, no Brasil inteiro, um lugar para o qual, com tanta e
tão invencível constância, se voltam os olhos de todos os brasileiros? Qual a
palavra que tem entre nós o dom de abrir mais facilmente os corações? Qual a
evocação que mais ardentemente do que a Aparecida nos fala de toda a
sensibilidade brasileira retificada em seu curso e nobilitada em seus fins
sobrenaturais?
Quem, ao ouvir falar em Nossa Senhora Aparecida, pode não se
lembrar das súplicas abrasadoras de mães que rezam por seus filhos doentes, de
famílias que choram no desamparo e na miséria o bem-estar perdido e se voltam
para o Trono da Rainha da clemência, de lares trincados pela infidelidade, de
corações ulcerados pelo abandono e pela incompreensão, de almas que vagueiam
pelo reino do erro à procura do esplendor meridiano da Verdade, de espíritos
transviados pelas veredas do vício, que procuram entre prantos o Caminho, de
almas mortas para a vida da graça, e que desejam encontrar nas trevas de seu
desamparo as fontes de uma nova Vida?
Onde se pode sentir de modo mais vivo o calor ardente das
súplicas lancinantes, e a alegria magnífica das ações de graças triunfais?
Onde, com mais precisão, se pode auscultar o coração brasileiro que chora, que
sofre, que implora, que vence pela prece, que se rejubila e que agradece, do
que na Aparecida? E sobretudo, onde é mais visível a ação de Deus na constante
distribuição das graças, do que na vila feliz, que a Providência constituiu
feudo da Rainha do Céu?
Nada, no ambiente de Aparecida, impressiona a imaginação
pela grandeza das linhas arquitetônicas ou pela riqueza do acabamento. Mas o ar
está tão saturado de eflúvios de prece e de orvalhos de graça, que qualquer
pessoa sente perfeitamente que Aparecida foi designada pela Providência para
ser a capital espiritual do País”.
Em 14 de novembro de 2018 divulguei artigo intitulado “Hora
de observar o panorama”. Era momento de analisar o que vinha pela frente no
País, ponderar possibilidades, alimentar esperanças e, em especial, evitar
ilusões. Jair Bolsonaro eleito formava o governo, três semanas depois do
segundo turno.
O antipetismo que determinou a eleição de Jair Bolsonaro
abriga em seu bojo variadas correntes. Alguns exemplos em fieira. Ali se
destaca o conservador em matéria de costumes, porém apático em relação à
economia muito estatizada. Boa parte constituída de gente simples, representa
enorme força eleitoral. Existe o liberal [privatista] em economia, libertário
nos costumes, comum nos setores letrados. A ele em geral impacta pouco a
ideologia do gênero, a generalização do aborto, o “casamento” entre pessoas do
mesmo sexo, a agenda LGBT. Temos o homem de hábitos antissocialistas, mas que
admite sociedade nivelada para seus netos ou bisnetos. São influentes setores
organizados da burocracia estatal, que com certeza espernearão quando da aprovação
das reformas que ora se anunciam. A lista é maior, muita gente ficou de fora.
No verso da moeda, um gigantesco contingente popular, de
hábitos e até princípios conservadores, pouco instruído, votou em Fernando
Haddad por temer a perda de apoios assistenciais, caso vencesse Bolsonaro. Com
propostas e trabalho inteligente, pode mudar o voto. Se a economia andar bem, a
frente eleitoral que elegeu Bolsonaro tem condições de se manter sem fissuras
destrutivas. Caso marche mal (e aqui pode influir muito a situação
internacional, sobre a qual nada podemos), tal frente corre risco de
desagregação rápida. Paro por aqui. Quem avisa, amigo é.
No Natal de 1971, 26 de dezembro, o Prof. Plinio Corrêa de
Oliveira publicou na “Folha de S. Paulo” artigo intitulado “Luz, o grande
presente”. Dirigia-se a todos os autênticos homens de boa vontade para que
vigiassem nas trevas da situação e, como os pastores, refletissem e esperassem.
Na presente escuridão, espero que o artigo, bico de lamparina, possa para
alguns leitores ser um presente (um pouco de luz) e assim facilite a subida em
elevações para observar o panorama. Depois, passos para frente no rumo certo.
Agir com desídia trará retrocessos, a perda do que foi conquistado com enorme
esforço.
Vou fazer o mesmo agora; estamos, de novo em situação de
encruzilhada, de perplexidades, hora de observar o panorama, no qual tanta
gente, eu também, vê nuvens negras; claro; não só cumulonimbus; existem
algumas do tipo cumulus.
O conservador espancado.
Primeiro, passarei o olhar rapidamente
por partes do horizonte e depois me fixarei em um só assunto: “o conservador em
matéria de costumes, […] gente simples, representa enorme força eleitoral”. É o
foco de hoje, o conservador de costumes, homem simples, religioso. Lembro o que
disse acima, se a economia andasse bem, a frente que elegeu Bolsonaro poderia
permanecer unida. Se andasse mal, viriam fissuras e desagregação. Vieram,
explodiu a frente, a economia está em frangalhos. E sentem-se espancados os
conservadores em matéria de costumes. Abaixo, vou falar a respeito.
O enigma da 2ª turma.
Antes, partes preocupantes do
horizonte. O pessoal conservador tremeu nas bases com a indicação do
desembargador Kássio Nunes Marques para a vaga aberta no STF pela aposentadoria
do ministro Celso de Mello. Ele substituirá o decano do STF na 2ª turma que,
parece, passará a ser constituída pelos ministros Cármen Lúcia, Edson Fachin,
Ricardo Lewandowski, Gilmar Mendes, Kássio Nunes. Por esta turma passarão
matérias importantes, agora um tanto esvaziadas pela votação oportuna
determinada pelo ministro Luiz Fux, que fez com que voltassem para a decisão do
plenário da corte inquéritos e ações penais antes submetidos ao crivo em geral
complacente da dupla Gilmar Mendes-Ricardo Lewandowski. Um terceiro voto constituiria
maioria vencedora. E se temia, pela publicação na imprensa de indícios
preocupantes, que a dupla Gilmar Mendes-Ricardo Lewandowski se transformasse em
repetidas ocasiões numa trinca, pela adesão do novo ministro, Kássio Marques.
Temos um enigma agora; poderá virar pesadelo; poderá também se dissolver. O
tempo dirá.
Esfriamento de Washington. Aproximação com Pequim?
Vamos adiante. Segundo as pesquisas divulgadas pela mídia, a vitória de Joe
Biden na eleição norte-americana parece segura, com previsível esfriamento das
relações entre Brasília e Washington e fortalecimento dos laços entre Pequim e
Brasília como contrapartida. E aí, noto de passagem, os setores nacionalistas
que hoje emperram as privatizações, empilhando entre outras alegações que não
podemos entregar blocos estratégicos ao capital internacional (sobretudo
norte-americano), suspeito, vão silenciar, quando estatais chinesas começarem
(começarem, não; continuarem) a abocanhar partes da infraestrutura nacional.
Tal caminhada, a lógica nos empurra para lá, tem um destino final ainda oculto
nas sombras de um futuro mal disfarçado, é o Brasil passar à condição
inconfessada de protetorado, se nossa diplomacia agir com inépcia e/ou traição
aos verdadeiros interesses nacionais.
Surto de chavismo.
O site “O Antagonista” transcreveu
opiniões do Sr. Kássio Nunes Marques sobre a situação venezuelana. Segundo suas
surpreendentes reflexões, chamemo-las assim, não parecem infelicitar a
simpática nação nortenha as delirantes experiências do “socialismo do século
XXI”, impostas tiranicamente por Chávez e Maduro, mas tão-somente as quedas dos
preços do petróleo. É, aliás, o despautério divulgado com descoco pelos
maiorais petistas. Kássio Nunes Marques afivela nele suas convicções: a baixa
do preço do barril do petróleo levou a Venezuela a “níveis de decréscimo
econômico jamais vistos”. Constato cm tristeza, o douto magistrado desembesta
na mesma bernardice: “Isso se refletiu da economia para a política e da
política para as questões humanitárias”. E parte para fantasias sem
amarras — relevem o português e a lógica: “Com a alta do barril, a
Venezuela experimentou níveis de prosperidade jamais vistos. Houve uma política
de transferência e distribuição de renda, uma infraestrutura do setor de saúde
e educação”.
Ampliação dos casos de aborto legal.
Chego, por fim, ao que
é mais momentoso, coloco-o em destaque; tratei dele pela rama acima: “o
conservador em matéria de costumes, […] gente simples, representa enorme força
eleitoral”. A deputada mais votada no Brasil, Janaína Paschoal (2.060.780
votos), que foi cotada para vice-presidente na chapa de Jair Bolsonaro,
prestigiada professora de Direito na USP, escreveu com autoridade que, pelo que
está defendido na tese de mestrado do Sr. Kássio Nunes Marques, poderemos em
futuro próximo amargar no Supremo sucessivos votos favoráveis à ampliação do
aborto, como decorrência da sustentação da “interrupção da gravidez” como
direito da mulher.
Vejamos o que afirma a professora Janaína Paschoal: “Acabo
de ler a Dissertação de mestrado do desembargador Kássio Nunes Marques. […] Um
ponto me preocupou. O […] candidato, citando Dworkin, diz que o Judiciário pode
ser acionado para fazer frente à maioria conservadora. Ilustra com o caso do
aborto. [NB O Judiciário impõe legalmente o aborto contra o desejo da
maioria popular conservadora]. […] O magistrado traz como exemplo justamente o
caso Roe v. Wade, aduzindo que o direito ao aborto foi garantido nos EUA.
[…] Conheço bem a ideia de que aborto é apenas questão de saúde da mulher. […] Não
esperava encontrar tal posicionamento em jurista indicado por Presidente eleito
como conservador! […] Como eu, a esmagadora maioria dos eleitores de Bolsonaro
é contrária à legalização do aborto, defendida pelo PSOL. Justamente a maioria
‘conservadora’, que o Judiciário não deve ouvir, conforme Dworkin, citado por
Dr. Kassio Nunes Marques, sem nenhuma ressalva. […] Os eleitores de Bolsonaro
não votaram nele para ter decisões típicas de um governo Haddad!”
Volto ao tema. A nomeação do desembargador Kássio Nunes
Marques para o STF, se ele lá votar consoante as opiniões que cita sem reserva
em sua tese de mestrado, seus votos eventualmente contribuirão para formar
maioria a favor da ampliação dos casos de aborto permitidos no Brasil. O povo
não os quer? Pouco importará, o Judiciário os imporá por via judicial,
tornar-se-ão leis. É retrocesso civilizatório, temor da Profª Janaína Paschoal.
Tal involução democrática constituirá bofetada no que intitulei “conservador em
matéria de costumes, […] gente simples, que representa enorme força eleitoral”.
Espero que não aconteça, rezo para que não aconteça, mas compartilho o receio
da deputada Janaína Paschoal. Em suma, meu maior anseio é estar inteiramente
errado em meus receios aqui expressos.
Por fim, o que tem a dizer a respeito neste momento crucial
a CNBB, que tem manifestado posição contrária à ampliação do aborto no Brasil?
Não irá, em defesa da vida, reclamar esclarecimentos inequívocos ao
desembargador Kássio Nunes Marques, ao Senado e ao Executivo? Ou se esconderá
no silêncio nesta questão central para nosso futuro de nação cristã? Silêncio
envergonhado, pensarão muitos. Fuga do dever, pensarão outros. Um forte brado
de zelo pastoral da entidade dissiparia nuvens negras se adensando no
horizonte. De tais nuvens negras sobre nós despencarão, por décadas e décadas,
chuvas ácidas.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo
Mateus.
— Glória a vós, Senhor.
Naquele tempo, Jesus voltou a falar em parábolas aos
sumos sacerdotes e aos anciãos do povo, dizendo: “O Reino dos Céus é como
a história do rei que preparou a festa de casamento do seu filho. E mandou
os seus empregados para chamar os convidados para a festa, mas estes não
quiseram ir. O rei mandou outros empregados, dizendo: ‘Dizei aos
convidados: já preparei o banquete, os bois e os animais cevados já foram
abatidos e tudo está pronto. Vinde para a festa!’
Mas os convidados não deram a menor atenção: um foi para o
seu campo, outro para os seus negócios, outros agarraram os empregados,
bateram neles e os mataram. O rei ficou indignado e mandou suas tropas
para matar aqueles assassinos e incendiar a cidade deles. Em seguida, o
rei disse aos empregados: ‘A festa de casamento está pronta, mas os convidados
não foram dignos dela. Portanto, ide até as encruzilhadas dos caminhos e
convidai para a festa todos os que encontrardes’.
Então os empregados saíram pelos caminhos e reuniram todos
os que encontraram, maus e bons. E a sala da festa ficou cheia de convidados. Quando
o rei entrou para ver os convidados, observou aí um homem que não estava usando
traje de festa e perguntou-lhe: ‘Amigo, como entraste aqui sem o traje de
festa?’ Mas o homem nada respondeu.
Então o rei disse aos que serviam: ‘Amarrai os pés e as mãos
desse homem e jogai-o fora, na escuridão! Aí haverá choro e ranger de
dentes’. Porque muitos são chamados, e poucos são escolhidos”.
“Ide às encruzilhadas dos caminhos e convidai para a festa
todos os que encontrardes” (Mt 22,9)
Mais uma vez nos encontramos diante de outra parábola
luminosa e inquietante. Há um banquete para todos, o banquete da fraternidade,
da vida partilhada, do mundo convertido em Reino. Mas muitos querem sua própria
refeição, seu lugar à parte, para não se misturar com os outros, para não se
“contaminar”.
É uma parábola que desmascara nosso contexto atual, onde o
mundo se divide em banquetes de alguns e misérias de outros, em luta por um pão
que cria guerras em vez de alimentar abraços e mesas partilhadas.
É típico do Evangelho comparar o Reino de Deus com uma festa
de casamento. Jesus nos revela a imagem de um Deus festeiro, que organiza um
surpreendente banquete, convidando a todos “bons e maus”.
Não é um convite a uma vida sem alegria; não é um convite a
uma vida amarga, a uma vida onde tudo está proibido. Deus convida sempre à
festa; o Evangelho é convite à festa de Deus com a humanidade.
Diante da recusa de muitos em participar do banquete, Deus
nunca fracassa; a festa de casamento será celebrada; Ele sabe que mesmo aqueles
que não receberam o cartão de convite estão dispostos a participar do evento. E
Deus não gosta de ver cadeiras vazias; Ele quer “ver sua casa cheia”.
E dá a impressão de que quanto mais a sala do banquete se
enche de convidados, mais aumenta o espaço; porque “ainda havia lugares”. No
coração do Pai cabem todos. Ainda há lugares para aqueles a quem ninguém
convida; sobram lugares para os excluídos; sobram lugares para esses a quem nós
marginalizamos; ainda há lugares para esses que nunca encheram seu estômago;
ainda há lugar para esses que nós julgamos como maus; ainda há lugar para esses
que nunca ouviram falar do Reino.
A sala do banquete estará cheia. Os empregados serão
enviados para as encruzilhadas dos caminhos da vida para convidar a
todos. E o curioso: “maus e bons”. Também os maus são convidados à
festa de Deus.
Deus convida aqueles que ninguém convida; Deus convida não
aqueles que tinham preferência; agora os convidados não têm nome, são todos,
são todos os nomes.
Convite, casamento, festa, banquete... tudo está
maravilhoso. Mas não se pode estar de qualquer maneira na festa; é preciso
estar vestido festivamente, ou seja, estar vestidos do amor e da graça daquele
que convidou. Trata-se do traje da alegria, do amor, da graça.
O Reino não é um lugar, mas um novo espaço de
relações fundadas na gratuidade e na doação. Isto depende da nossa decisão
pessoal de preferi-lo a outras coisas, de confiar na bondade em excesso que nos
é revelada. Este salto no vazio não é fácil. Preferimos as seguranças daquilo
que conquistamos com nosso próprio esforço. Não confiamos naquilo que não
depende de nossos méritos, de nossa conta de crédito e débito. Por isso mesmo,
muitos rejeitam o convite que aqui se desenha como uma festa de casamento.
Talvez o que mais impede nossa adesão ao Reino seja a perda
da capacidade de surpresa diante do que nos é proposto. Parece que já temos
tudo sabido, que conhecemos de antemão a vontade de Deus que pedimos todos os
dias no Pai-Nosso. Por isso, o rei envia os empregados a que saiam pelos
caminhos e convidem aqueles que não esperam o convite para a festa, aqueles que
não se sentem dignos ou à altura de tal honra.
Talvez, agora seja o tempo propício para deixar as
seguranças dos negócios, daquilo que trazemos nas mãos sem contar com Deus nem
com os irmãos e sair pelos caminhos da surpresa, do inesperado, do presenteado.
Só a partir daqui poderemos receber o convite ao banquete da abundância. Porque
só aos buscadores do Reino e de sua justiça lhes é oferecido este dom precioso.
O centro da mensagem do Evangelho de hoje está em que o Pai
convida a todos: “bons e maus”; o banquete é o mesmo para
todos. A resposta é a que marca a diferença entre uns e outros; quem
prefere as “terras” ou os “negócios”, indica o que de verdade lhe interessa.
Em torno da mesa comum, reúnem-se as pessoas que,
de algum modo, se sentem convidadas ou convocadas. Esta convocação compromete o
convidado, porque ele aceita e, aceitando o convite, aceita participar, e,
aceitando a participação, aceita tomar parte ativa na vida daqueles com quem
vai assentar-se à mesa. Entra, assim, na comunidade.
O apego aos bens e aos negócios podem nos impedir de
escolher o caminho da vida expansiva; uma vida bem-sucedida é o maior inimigo
da transformação. Quem se acomoda no sucesso não prosseguirá em sua caminhada
interior e ficará parado em sua imaturidade humana. Quem confia demais em seus
próprios negócios ou em seu sucesso pode romper o vínculo com o coração e
renegar seu verdadeiro eu.
Os sentimentos de “apego” vão se avolumando e vão
nos fixando “às margens da vida que flui”. As “coisas” nos
fazem sentir em segurança, protegidos e importantes: nosso emprego, nossas
posses, nossas ambições, ideias fixas, status...
O perigo está em ter ouvidos para os cantos das sereias, e
não para o convite que vem do mais profundo de nosso ser, que nos chama a uma
plenitude humana.
Esse mesmo chamado a uma vida festiva, que pede saída de si
e abertura ao encontro, fica ofuscado pelo “ego” fechado em seus negócios e
apegos aos bens. Aqui, as recusas bloqueiam o fluir da vida.
Nesse sentido, as encruzilhadas da vida se revelam
como o lugar da gestação do novo.
Dizia o teólogo Karl Rahner que o melhor da vida sempre vem
a nós como “presente”, como algo inesperado, surpreendente. Somos envolvidos
permanentemente pela Graça..., e nem sempre estamos atentos. São as
oportunidades vitais e únicas que aparecem de maneira inesperada. “Não
peças a Deus maravilhas, mas a capacidade de maravilhar-te”.
É preciso estar em sintonia profunda com a vida. Quando
menos esperamos, ela nos chega como oportunidade inédita, como possibilidade
que excede a tudo o que imaginamos.
Em chave de interioridade, o evangelho deste
domingo também nos ajuda a des-velar por onde flui a vida, onde é possível a
celebração festiva do casamento. O convite à festa é dirigido a todas as dimensões do
nosso ser. Causa-nos surpresa que é justamente nas encruzilhadas dos caminhos
interiores onde o convite tão generoso do Senhor encontra ressonância.
Geralmente são os aspectos de nossa vida que estão à margem, as nossas feridas
e fragilidades, as nossas limitações..., que são mais sensíveis para escutar e
acolher o chamado à mesa do Reino.
O ser humano é o único ser que, sendo limitado, é totalmente
aberto ao infinito.
É da fragilidade e da limitação que
nasce também a criatividade.
Podemos, então, afirmar que a vida está nas encruzilhadas de
nossa existência; afirmando de outro modo: as encruzilhadas estão também
carregadas de vida. É das encruzilhadas existências que pode nos surpreender
com o surgimento do novo. É ali que o convite à plenitude de vida ressoa com
mais intensidade.
Nossa razão, nosso “eu perfeccionista”, nosso “ego inflado”,
nossas “afeições desordenadas”... não se deixam impactar pelo convite para a
festa da vida. Estão seguros de si mesmos, atrofiados e petrificados em nossos
mundos estreitos e estéreis.
Construímos ao nosso redor um micromundo que parece
permanente e sólido.
Andamos enredados e sem tempo para o essencial e perdemos a
conexão com o centro de nosso corpo, de nossa vida, e esse centro é o coração,
ali onde está oculto o mistério de cada um. Cada um de nós tem suas próprias
feridas e seus tesouros no mesmo lugar.
Texto bíblico: Mt 22,1-14
Na oração: Vida nova é aceitar o que é fragilidade e limite em
nós mesmos (nossa encruzilhada). Não existe subida para a luz sem a
aceitação e a travessia de nossa sombra.
- Dê nomes às suas “afeições desordenadas” (apegos) que o(a)
tornam insensível à Voz d’Aquele que convida ao festim do Reino.
Bráulio Bessa nasceu no município de Alto Santo, no Sertão
do Ceará, no ano de 1986. Com 14 anos aprendeu a amar a poesia de seu
conterrâneo Patativa do Assaré (1909-2002), depois que uma professora passou um
trabalho escolar de pesquisa sobre o grande poeta de cordel
Então, um
pedreiro aproximou-se e disse: “Fala-nos das habitações”.
E ele
respondeu e disse:
“Construí
com vossos sonhos um abrigo no deserto, antes de construir uma moradia no
recinto da cidade.
Porque, da
mesma forma por que voltais para casa no crepúsculo, assim faz o viajante que
vive em vós, o sempre distante e solitário.
Vossa casa
é vosso corpo mais largo.
Cresce ao
sol e dorme no silêncio da noite, e ela também tem sonhos. Vossa casa não sonha
e, sonhando, escapa da cidade para o bosque ou a colina?
Ah! Se eu
pudesse enfeixar vossas casas na minha mão e, como um semeador, dispersá-las
nas florestas e nas campinas.
Fossem os
vales vossas ruas e as veredas verdejantes vossas aleias, para que pudésseis
procurar-vos um ao outro através dos vinhedos e voltar com a fragrância da
terra nas vossas roupas.
Porém, o
tempo dessas coisas ainda não chegou.
No seu
temor, vossos pais juntaram-vos demasiadamente perto uns dos outros. E este
medo sobreviverá algum tempo ainda. E durante esse tempo, as muralhas de vossas
cidades separarão vossos campos de vossos lares.
E dizei-me,
povo de Orphalese, que possuís vós nessas habitações? E que objetos guardais
atrás dessas portas trancadas?
Acaso possuís
a paz, esse impulso tranquilo que revela vossa potência?
Possuís as
recordações, essas abóbadas cintilantes que amarram os cumes do espírito?
Possuís a
beleza que conduz o coração dos objetos confeccionados com madeira e pedra para
a montanha sagrada?
Dizei-me,
possuís tudo isto em vossas casas?
Ou tendes
somente o conforto, e a cobiça do conforto – esse desejo furtivo que entra em
casa como visita, e depois torna-se hóspede, e depois dono?
Sim, e
torna-se também domador e, com forcado e açoite, reduz a títeres vossos desejos
mais amplos.
Embora suas
mãos sejam de seda, seu coração é de ferro.
Ele embala-vos
até dormirdes, só para rondar vosso leito e zombar da dignidade de vosso corpo.
Zomba também
de vossos sentidos normais e deita-os na penugem macia como um vaso frágil.
Na verdade,
vossa paixão pelo conforto assassina as paixões mais nobres de vossa alma e,
depois, zombeteira, marcha no seu enterro.
Mas vós,
filhos do espaço, vós, os inquietos no repouso, vós não caireis em armadilhas
nem sereis domesticados.
Vossa casa não será uma âncora, mas um
mastro.
Não será
uma fita reluzente que recobre um ferimento, mas uma pálpebra que protege o
olho.
Não dobrareis
as asas para poder atravessar as portas, nem curvareis a cabeça para não bater
nos tetos, nem retereis vossa respiração para não sacudir e abalar as paredes.
Não morareis
em tumbas feitas pelos mortos para os vivos.
E apesar
de sua magnificência e esplendor, vossa casa não conterá vosso segredo nem
abrigará vossa nostalgia.
Pois aquilo
que é ilimitado em vós mora no castelo do céu, cuja porta é a bruma da aurora e
cujas janelas são os cânticos e os silêncios da noite.”
(O PROFETA)
Gibran Khalil Gibran
----------
Gibran Khalil Gibran - Poeta libanês, viveu na
França e nos EUA. Também foi um aclamado pintor. Seus textos apresentam a
beleza da alma humana e da Natureza, num estilo belo, místico, conseguindo com
simplicidade explicar os segredos da vida, da alegria, da justiça, do amor, da
verdade.
..................
“UMA APAIXONADA RECRIAÇÃO”
É por todos
esses motivos que O Profeta desperta tanto interesse: Lendo-o, o leitor
sente-se transportado nas asas da poesia e da fé a um mundo encantado, e
entretanto real, onde sabe que não poderá viver, mas aonde gosta de retornar de
tempos em tempos, como gostamos de visitar os cimos das montanhas para nos
refrescarmos e fortificarmos, embora saibamos que não poderemos residir nessas
alturas.
Numa invocação
do tempo da juventude, em que definia sua missão e predizia seu futuro, Gibran
afirmava:
“Vim para
viver na glória do amor e na luz da beleza... Vim para exprimir o que adormece
no coração de cada um de nós... O que hoje sinto na minha solidão, o futuro o
exibirá para todos. E o que digo numa só voz, o futuro o repetirá em cem vozes.
A profecia
realizou-se textualmente para O Profeta. À parte os milhões de exemplares da
edição inglesa, a voz é repetida em muitas línguas e muitos países, desde a
Noruega até a China.
A ambição
do autor da presente tradução é de lhe ter conservado, nesta nova forma, a
chispa sagrada que é o fundamento de sua popularidade através do mundo. Pois como
disse Bárbara Young, “a tradução de Gibran nunca será mera tradução, mas
apaixonada recriação”, através da qual a mensagem feita de amor e de beleza
deve continuar a irradiar seu calor e sua luz.