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sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

O DESPERTAR DE UMA REAÇÃO SADIA – Pe. David Francisquini

 


Pe. David Francisquini*

 

            O demônio nunca dá o que promete. Como ele é o pai da mentira, este dito popular antigo será sempre atual, pelo menos enquanto o diabo for diabo, ou seja, para sempre. Como sacerdote, tenho testemunhado ao longo dos anos quão árduo tem sido o apostolado, sobretudo nos últimos tempos, pois são tantas lantejoulas a brilhar e tantos pratos de lentilhas a comer!

            Em seu livro Revolução e Contra-Revolução, Plinio Corrêa de Oliveira trata do homem revolucionário, aquele moldado pela Revolução várias vezes secular, que se julga autossuficiente e agnóstico, mas idolatra a ciência e a técnica. Nelas ele espera e crê poder resolver todos os seus problemas, eliminar a dor, a pobreza, a ignorância, a insegurança, enfim tudo aquilo a que chamamos efeito do pecado original.

            Não podendo se autoproclamar Deus, o revolucionário afirma que Ele não existe. Nega a redenção de Nosso Senhor Jesus Cristo, mas vai procurá-la na ciência e na técnica à espera de tempos cada vez melhores, e, quiçá, um dia poder vencer a morte. Com essa vã expectativa ele quer trabalhar cada vez menos e se divertir desbragadamente tanto quanto lhe for possível.

            Então, ele faz uma espécie de bloqueio mental para qualquer cogitação sobre a vida sobrenatural, sobre um pensamento no Sagrado Coração de Jesus, fonte de vida e santidade; sobre o Imaculado Coração de Maria, por meio do qual obtemos as graças suficientes e necessárias para nos manter nas vias traçadas por Deus, ou nos reconduzir à verdadeira paz e à reconciliação com Ele por meio da Confissão.

            Por outro lado, constato também algo de muito novo, ou seja, um estado de espírito, um sentimento de reação à Revolução igualitária que amadurece e se transforma em ideias, que por sua vez desemboca em ação contra a degringolada moral da sociedade. É de causar regozijo a um espírito reto, e amargura àqueles que não temem a Deus, ver o lado polêmico e ideológico desta reação.

            Esta reação profunda na opinião pública, que não se cinge apenas ao Brasil, vem sendo ostentada com galhardia no mais das vezes por pessoas jovens, demonstrando que Deus em sua infinita misericórdia vem em socorro dos homens. Pelas atitudes dos revolucionários diante desta sadia reação, vê-se que ela não é vã, pois se fundamentada em princípios da lei natural e da religião.

            Uma coisa é considerar as ideias em tese, outra é avaliá-las de perto, num indivíduo ou num grupo de pessoas, analisar as suas metas, métodos, modos e procedimentos. Costuma-se dizer que o ‘discurso’ da esquerda — religiosa ou não — é bonito, mas não passa de uma utopia. Basta ver o resultado da aplicação dessas ideias esquerdistas e socialistas nos países onde elas foram ou são aplicadas. Só produzem miséria e desolação.

            O que foi e vem sendo feito no Brasil tanto nos meios religiosos quanto públicos — no executivo, legislativo e judiciário — não foi pouco. De mãos dadas esses poderes, somados à grande mídia e aos adeptos da teologia da libertação, já pintaram e bordaram a fim de implantar aqui os seus propósitos despóticos, prepotentes e ditatoriais, dilapidatários, subvertendo toda ordem. Infelizmente, não cessaram…

            Por que desejam eles, por exemplo, a legalização do aborto, do incesto, da libertinagem, da poligamia, do divórcio, da eutanásia e das piores sem-vergonhices? Por que no campo social e econômico visam sempre a abolição da propriedade privada com a velha política da Reforma Agrária, acrescida de outros ardis recentes como a questão indígena, quilombola e trabalho escravo? 

            Na verdade, eles não visam o bem comum, mas o caos e a instabilidade em todos os campos da vida social. Com essas iniciativas antinaturais, pretendem regular uma modalidade temperamental difusa, a fim de discriminar os que defendem a família monogâmica e natural estabelecida pelo Criador e assim implantar a libertinagem que acabará o que ainda resta de civilização cristã. Eis a agenda da esquerda.

            Contrariando a lei natural, os fautores revolucionários parecem não ter calculado bem os seus passos, e em sua ânsia de destruir a estrutura social vigente avançaram muito depressa, o que causou nas forças vivas do País uma reação ordeira, saudável e eficaz em sentido contrário, provocando como consequência, uma polarização ideológica na opinião pública, por eles tão temida.

            Em minha opinião, esta luta se estabeleceu como um bem para a causa católica, pois deixa manifesta a esperança em um futuro melhor para as almas e para o País. Este fenômeno de opinião pública não ocorreu sem a graça divina, que ajudou as almas a conhecer o mal enquanto tal, refletido na falta de piedade e na compreensão da caridade cristã, ou seja da bondade que norteia a vida em sociedade.

            Alguém poderia perguntar se eles realmente amam os pobres, que eles propalam defender e dar suas vidas. Acontece que as Escrituras afirmam o contrário, ou seja, os ímpios são impiedosos em relação aos pobres, eles fazem perecer os indigentes da terra, roubam deles, e se servem deles apenas para se enriquecer e tirar vantagens. Portanto, não nos iludamos.

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(*) Sacerdote da Igreja do Imaculado Coração de Maria – Cardoso Moreira (RJ).

https://www.abim.inf.br/o-despertar-de-uma-reacao-sadia/

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quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

ORFANDADE - Péricles Capanema

9 de dezembro de 2020


Órfãos (1885), pintura de Thomas Benjamin Kennington (1856-1916)

 

Péricles Capanema

Fiquei órfão de pai aos cinco anos. Esconderam-me a perda, era natural não me quisessem ciente, evitavam sofrimentos de um toquinho de gente despreparado para o choque. Estava viajando, voltaria logo, diziam. Menino acredita em tudo. Um primo, seis meses mais novo, revelou-me a verdade no meio da rua. Ele nunca se deu conta que dele veio a revelação atroz. Até hoje tenho nítida a cena, navalha na carne, das dilacerações mais traumáticas da vida. Contudo vou tratar hoje de outra orfandade, também dilacerante e trágica, não a de um menino desconhecido do interior mineiro, que afeta multidões mundo afora.

Fernando Haddad, calculista como todo político de muita estrada, vem se posicionando como intelectual com tintas de moderação, procura atrair a atenção no palco por desvestir em ocasiões escolhidas a capa do PT e enfiar no lugar a toga do professor; sob aspectos de um Fernando Henrique uns 30 anos mais moço. O prócer petista falou sobre as últimas eleições e, no meio de enxurrada de reflexões carregadas de segundas intenções, veio o que ninguém ou quase ninguém quis dizer: “Houve um deslocamento do eleitorado para direita e para a extrema direita”. Haddad também em tais declarações tinha segundas intenções, mas não julgo o momento de destacá-las. Em política, nada é ocioso.

Ele caminhou na contramão das opiniões em geral divulgadas: “Houve um deslocamento do eleitorado para a direita e para a extrema direita”. É natural, nada poderia irritar mais um político de esquerda. E por isso procura macular tal migração. Não embarco aí, meu foco é outro. Concordo com Fernando Haddad em um ponto. Apesar de todas as decepções, apesar de todas as contrafações, apesar de todas e piores surpresas, o sentimento conservador resiste. Permanece um substrato na opinião pública que recusa a desordem, antipatiza com a desonestidade, anseia por rumo estável de decência e crescimento. É a parte que mais presta, a parte mais saudável, a sanior pars; e boa parte dela hoje está órfã. Não tem em quem confiar, nem vê perspectivas no horizonte. Provavelmente continuará órfã, é longo e difícil trabalho resgatá-la da orfandade; ou, pior, temo muito, a experiência anterior me deixa escaldado, embarque em algum momento em alguma nova aventura destrutiva, engolindo utopias, que intoxicarão esperanças sadias.

Os órfãos (órfãos políticos, fique claro) do Brasil, assim como os órfãos da Argentina, os órfãos dos Estados Unidos, os órfãos mundo afora, em geral sentem faltam de ideal sistematizado e alcançável; e em decorrência de tal ausência, de um programa e de um caminho. Em duas palavras, não está claro o ponto de chegada; digo logo, deveria ser a ordem temporal cristã. E não enxergam quem a ele deverá conduzir.

E então, muitas vezes no passado, na correria irrefletida e atabalhoada em busca da solução (espécie de pai mítico), agarraram-se a uma pessoa ou movimento que lhes parecia ter pelo menos um ponto favorável em relação a todo o resto: com ele podia dar certo, podiam conseguir pelo menos parte do que almejavam. A aparente eficácia encobria em geral defeitos que depois se revelariam, acabariam destruindo o personagem fictício, tornariam inviável a obtenção das soluções esperadas e lançariam descrédito, desânimo e dúvidas sobre o movimento.

Terrível e repetido desfecho, filme que se assiste desde pelo menos o começo do século XIX. De passagem deixa ver a profundidadedo enraizamento conservador. Desde o século XIX? Sim, desde o começo. Pelo menos. Exemplo? Com Napoleão já foi assim, talvez tenha sido o maior exemplo. O vivido chefe militar aproveitou-se do horror que a Revolução Francesa tinha provocado, o povo estava exausto de sangue e anarquia. Puxou para si as simpatias de grande parte dos que queriam reagir. O Corso era forte e próximo, Luís XVIII era distante e fraco; o Corso não mostrava escrúpulos, prendia e arrebentava, Luís XVIII ainda tinha hábitos da corte do Ancien Régime; o Corso sabia mandar, Luís XVIII parecia indeciso. A comparação deprimente continuava sem fim. Em resumo, no jovem e enérgico general se farejavam vitórias, Luís XVIII, liderança mofada, cheirava a naftalina. O bonapartismo triunfante impôs sua concepção de ordem, estatizante e autoritária rescendendo a solução genial. Por alguns anos fez delirar parte da França, despertou admiradores no exterior, formou imitadores. Depois vieram as decepções, a derrota, a humilhação da França invadida, a juventude sacrificada nas batalhas, as famílias destroçadas. Luís XVIII assumiu, ainda arrumou um pouco a casa. A transposição com adaptações para outros personagens ao longo da história não será difícil.

Realço um dos motivos dessa anomalia mortal. Talvez seja o verso mais famoso do “Cantar de Mio Cid”: “Dios, qué buen vassalo, si oviesse buen señor”. O vassalo ansiava por bom senhor, via nele ocasião de ótimos serviços e aperfeiçoamentos. Empurro de lado as disputas eruditas a respeito e jogo para o primeiro plano a importância central do bom senhor naquela canção de gesta. O anelo, o sonho, o sebastianismo avant la lettre, aqui e em tantos outros lugares, evidenciam um lado louvável, a disposição da adesão fácil e entusiasmada a uma liderança que leva a bom porto. De outro lado, no reverso da medalha, muitas vezes tal postura esconde deficiências, entre os quais desponta a preguiça demolidora de desconfiar das soluções fáceis e de olhar de frente, riscados nas testas de supostos salvadores, os sintomas preocupantes, na verdade claros sinais precursores de desastres futuros. É penoso sondar autenticidade e rumo certo em chefes aclamados que irradiam atmosfera de vitória.

Um rumo certo, um sintoma de autenticidade. Lembrei acima, um teste do tornassol para reação conservadora salutar: a defesa da ordem temporal cristã, fundada na família, no princípio de subsidiariedade, (entre outras instituições e princípios); enfim, buscar a continuidade e aperfeiçoamento do que a Civilização Cristã produziu no Ocidente. Na presente quadra histórica, não vejo outro bom começo. Sem o trânsito por este vestíbulo, repetiremos fracassos do passado, passando da ilusão para a orfandade, da orfandade para a ilusão; serão descaminhos e derrotas. Pensemos todos nisso neste fim de ano. Feliz e Santo Natal, bom ano novo para todos.

https://www.abim.inf.br/orfandade/

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domingo, 11 de outubro de 2020

NUVENS NEGRAS – Péricles Capanema

11 de outubro de 2020


Péricles Capanema

Em 14 de novembro de 2018 divulguei artigo intitulado “Hora de observar o panorama”. Era momento de analisar o que vinha pela frente no País, ponderar possibilidades, alimentar esperanças e, em especial, evitar ilusões. Jair Bolsonaro eleito formava o governo, três semanas depois do segundo turno.

O antipetismo que determinou a eleição de Jair Bolsonaro abriga em seu bojo variadas correntes. Alguns exemplos em fieira. Ali se destaca o conservador em matéria de costumes, porém apático em relação à economia muito estatizada. Boa parte constituída de gente simples, representa enorme força eleitoral. Existe o liberal [privatista] em economia, libertário nos costumes, comum nos setores letrados. A ele em geral impacta pouco a ideologia do gênero, a generalização do aborto, o “casamento” entre pessoas do mesmo sexo, a agenda LGBT. Temos o homem de hábitos antissocialistas, mas que admite sociedade nivelada para seus netos ou bisnetos. São influentes setores organizados da burocracia estatal, que com certeza espernearão quando da aprovação das reformas que ora se anunciam. A lista é maior, muita gente ficou de fora.

No verso da moeda, um gigantesco contingente popular, de hábitos e até princípios conservadores, pouco instruído, votou em Fernando Haddad por temer a perda de apoios assistenciais, caso vencesse Bolsonaro. Com propostas e trabalho inteligente, pode mudar o voto. Se a economia andar bem, a frente eleitoral que elegeu Bolsonaro tem condições de se manter sem fissuras destrutivas. Caso marche mal (e aqui pode influir muito a situação internacional, sobre a qual nada podemos), tal frente corre risco de desagregação rápida. Paro por aqui. Quem avisa, amigo é.

No Natal de 1971, 26 de dezembro, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira publicou na “Folha de S. Paulo” artigo intitulado “Luz, o grande presente”. Dirigia-se a todos os autênticos homens de boa vontade para que vigiassem nas trevas da situação e, como os pastores, refletissem e esperassem. Na presente escuridão, espero que o artigo, bico de lamparina, possa para alguns leitores ser um presente (um pouco de luz) e assim facilite a subida em elevações para observar o panorama. Depois, passos para frente no rumo certo. Agir com desídia trará retrocessos, a perda do que foi conquistado com enorme esforço.

Vou fazer o mesmo agora; estamos, de novo em situação de encruzilhada, de perplexidades, hora de observar o panorama, no qual tanta gente, eu também, vê nuvens negras; claro; não só cumulonimbus; existem algumas do tipo cumulus.

O conservador espancado. 

Primeiro, passarei o olhar rapidamente por partes do horizonte e depois me fixarei em um só assunto: “o conservador em matéria de costumes, […] gente simples, representa enorme força eleitoral”. É o foco de hoje, o conservador de costumes, homem simples, religioso. Lembro o que disse acima, se a economia andasse bem, a frente que elegeu Bolsonaro poderia permanecer unida. Se andasse mal, viriam fissuras e desagregação. Vieram, explodiu a frente, a economia está em frangalhos. E sentem-se espancados os conservadores em matéria de costumes. Abaixo, vou falar a respeito.

O enigma da 2ª turma. 

Antes, partes preocupantes do horizonte. O pessoal conservador tremeu nas bases com a indicação do desembargador Kássio Nunes Marques para a vaga aberta no STF pela aposentadoria do ministro Celso de Mello. Ele substituirá o decano do STF na 2ª turma que, parece, passará a ser constituída pelos ministros Cármen Lúcia, Edson Fachin, Ricardo Lewandowski, Gilmar Mendes, Kássio Nunes. Por esta turma passarão matérias importantes, agora um tanto esvaziadas pela votação oportuna determinada pelo ministro Luiz Fux, que fez com que voltassem para a decisão do plenário da corte inquéritos e ações penais antes submetidos ao crivo em geral complacente da dupla Gilmar Mendes-Ricardo Lewandowski. Um terceiro voto constituiria maioria vencedora. E se temia, pela publicação na imprensa de indícios preocupantes, que a dupla Gilmar Mendes-Ricardo Lewandowski se transformasse em repetidas ocasiões numa trinca, pela adesão do novo ministro, Kássio Marques. Temos um enigma agora; poderá virar pesadelo; poderá também se dissolver. O tempo dirá.

Esfriamento de Washington. Aproximação com Pequim? 

Vamos adiante. Segundo as pesquisas divulgadas pela mídia, a vitória de Joe Biden na eleição norte-americana parece segura, com previsível esfriamento das relações entre Brasília e Washington e fortalecimento dos laços entre Pequim e Brasília como contrapartida. E aí, noto de passagem, os setores nacionalistas que hoje emperram as privatizações, empilhando entre outras alegações que não podemos entregar blocos estratégicos ao capital internacional (sobretudo norte-americano), suspeito, vão silenciar, quando estatais chinesas começarem (começarem, não; continuarem) a abocanhar partes da infraestrutura nacional. Tal caminhada, a lógica nos empurra para lá, tem um destino final ainda oculto nas sombras de um futuro mal disfarçado, é o Brasil passar à condição inconfessada de protetorado, se nossa diplomacia agir com inépcia e/ou traição aos verdadeiros interesses nacionais.

Surto de chavismo. 

O site “O Antagonista” transcreveu opiniões do Sr. Kássio Nunes Marques sobre a situação venezuelana. Segundo suas surpreendentes reflexões, chamemo-las assim, não parecem infelicitar a simpática nação nortenha as delirantes experiências do “socialismo do século XXI”, impostas tiranicamente por Chávez e Maduro, mas tão-somente as quedas dos preços do petróleo. É, aliás, o despautério divulgado com descoco pelos maiorais petistas. Kássio Nunes Marques afivela nele suas convicções: a baixa do preço do barril do petróleo levou a Venezuela a “níveis de decréscimo econômico jamais vistos”. Constato cm tristeza, o douto magistrado desembesta na mesma bernardice: “Isso se refletiu da economia para a política e da política para as questões humanitárias”. E parte para fantasias sem amarras — relevem o português e a lógica: “Com a alta do barril, a Venezuela experimentou níveis de prosperidade jamais vistos. Houve uma política de transferência e distribuição de renda, uma infraestrutura do setor de saúde e educação”.

Ampliação dos casos de aborto legal. 

Chego, por fim, ao que é mais momentoso, coloco-o em destaque; tratei dele pela rama acima: “o conservador em matéria de costumes, […] gente simples, representa enorme força eleitoral”. A deputada mais votada no Brasil, Janaína Paschoal (2.060.780 votos), que foi cotada para vice-presidente na chapa de Jair Bolsonaro, prestigiada professora de Direito na USP, escreveu com autoridade que, pelo que está defendido na tese de mestrado do Sr. Kássio Nunes Marques, poderemos em futuro próximo amargar no Supremo sucessivos votos favoráveis à ampliação do aborto, como decorrência da sustentação da “interrupção da gravidez” como direito da mulher.

Vejamos o que afirma a professora Janaína Paschoal: “Acabo de ler a Dissertação de mestrado do desembargador Kássio Nunes Marques. […] Um ponto me preocupou. O […] candidato, citando Dworkin, diz que o Judiciário pode ser acionado para fazer frente à maioria conservadora. Ilustra com o caso do aborto. [NB O Judiciário impõe legalmente o aborto contra o desejo da maioria popular conservadora]. […] O magistrado traz como exemplo justamente o caso Roe v. Wade, aduzindo que o direito ao aborto foi garantido nos EUA. […] Conheço bem a ideia de que aborto é apenas questão de saúde da mulher. […] Não esperava encontrar tal posicionamento em jurista indicado por Presidente eleito como conservador! […] Como eu, a esmagadora maioria dos eleitores de Bolsonaro é contrária à legalização do aborto, defendida pelo PSOL. Justamente a maioria ‘conservadora’, que o Judiciário não deve ouvir, conforme Dworkin, citado por Dr. Kassio Nunes Marques, sem nenhuma ressalva. […] Os eleitores de Bolsonaro não votaram nele para ter decisões típicas de um governo Haddad!”

Volto ao tema. A nomeação do desembargador Kássio Nunes Marques para o STF, se ele lá votar consoante as opiniões que cita sem reserva em sua tese de mestrado, seus votos eventualmente contribuirão para formar maioria a favor da ampliação dos casos de aborto permitidos no Brasil. O povo não os quer? Pouco importará, o Judiciário os imporá por via judicial, tornar-se-ão leis. É retrocesso civilizatório, temor da Profª Janaína Paschoal. Tal involução democrática constituirá bofetada no que intitulei “conservador em matéria de costumes, […] gente simples, que representa enorme força eleitoral”. Espero que não aconteça, rezo para que não aconteça, mas compartilho o receio da deputada Janaína Paschoal. Em suma, meu maior anseio é estar inteiramente errado em meus receios aqui expressos.

Por fim, o que tem a dizer a respeito neste momento crucial a CNBB, que tem manifestado posição contrária à ampliação do aborto no Brasil? Não irá, em defesa da vida, reclamar esclarecimentos inequívocos ao desembargador Kássio Nunes Marques, ao Senado e ao Executivo? Ou se esconderá no silêncio nesta questão central para nosso futuro de nação cristã? Silêncio envergonhado, pensarão muitos. Fuga do dever, pensarão outros. Um forte brado de zelo pastoral da entidade dissiparia nuvens negras se adensando no horizonte. De tais nuvens negras sobre nós despencarão, por décadas e décadas, chuvas ácidas.

 https://www.abim.inf.br/nuvens-negras/

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domingo, 27 de setembro de 2020

NOTÍCIA MUITO ALENTADORA PARA TODAS AS FAMÍLIAS

27 de setembro de 2020


Paulo Roberto de Campos


Neste sábado (26 de setembro) o Presidente Donald Trump indicou a juíza Amy Coney Barrett [foto] para a mais alta Corte dos Estados Unidos.

“Hoje tenho a honra de nomear para a Corte Suprema uma das mentes jurídicas mais brilhantes e talentosas de nossa nação. Ela é uma mulher de realização incomparável, intelecto imponente, ótimas credenciais e lealdade inflexível à Constituição”, disse o presidente americano durante a cerimônia realizada hoje nos jardins da Casa Branca.

Agora apenas resta a aprovação do Senado norte-americano, o que facilmente deve ocorrer, pois conta com maioria republicana (53 senadores republicanos X 47 democratas).


Amy Coney Barrett, 48 anos, nascida em New Orleans, é católica, mãe de sete filhos [foto], Emma, Vivian, Tess, John Peter, Liam, Juliet e Benjamin (dois deles são adotados) — será na história do país a primeira mãe de crianças em idade escolar a atuar na Corte Suprema dos EUA. Ela graduou-se pela Rhodes College e, em primeiro lugar da classe, pela Faculdade de Direito da Universidade de Notre-Dame (Indiana), onde lecionou por 15 anos.

Um renomado e muito respeitado professor de direito em Notre-Dame escreveu: “Amy Coney é a melhor aluna que já tive”. Atualmente é Juíza da Corte de Apelações Federal de Chicago. Ela substituirá Ruth Bader Ginsburg, falecida recentemente aos 87 anos, que era de tendência esquerdista.

Graças a Deus, com esta escolha de hoje, a Suprema Corte americana se tornará mais conservadora (6 conservadores X 3 esquerdistas), o que poderá auxiliar muito na defesa dos valores da instituição familiar, como a proibição do comércio de drogas, do aborto, da eutanásia, do “casamento” homossexual e do absurdo ensino nas escolas da “teoria de gênero” às crianças.


Claro, e não nos causa nenhuma surpresa, a mídia esquerdista (e intolerante) está bufando de ódio, denominando a juíza como ultraconservadora etc. Não nos surpreende também que líderes feministas — que deveriam comemorar a eleição de uma mulher para a mais alta Corte da nação mais poderosa do mundo —, estejam igualmente encolerizadas. Por quê? — Certamente pela mesma razão pela qual as mulheres autenticamente femininas e mães de família estão comemorando…

 

https://www.abim.inf.br/noticia-muito-alentadora-para-todas-as-familias/


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domingo, 14 de junho de 2020

ONDA CONSERVADORA MANIFESTA OPOSIÇÃO A UM GOVERNO MUNDIAL - Adolpho Lindenberg

7 de junho de 2020
Por trás da pandemia vai surgindo o espectro de uma ditadura para implantar uma “nova ordem mundial”. Simultaneamente cresce a oposição à globalização, bem caracterizada no Brasil, nos EUA e na Igreja.

·    Adolpho Lindenberg
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A atual pandemia está sendo utilizada pelos agentes da globalização para alegar que, por serem universais, os grandes males que nos atingem precisam ser sanados por uma entidade supranacional. Algo parecido com uma ONU, só que com mais poderes. A globalização, em seu início, apresentou-se como mero processo político de integração de países, mas recentemente tornou-se um instrumento para os que almejam uma nova ordem mundial orquestrada por um governo supranacional.

Esse intuito, porém, está sendo contestado por um movimento ético-político recente, diversificado, difícil de ser definido, que muitos classificam como “onda conservadora”. Na Europa, as pessoas não suportam mais as ingerências descabidas da União Europeia nos governos de seus países. E multiplicam-se nos Estados Unidos as reações contra o movimento globalizante e os intuitos reformistas do Papa Francisco. Talvez possam auxiliar a compreensão do fenômeno os qualificativos “saturação” e “inconformidade” da população, em relação às propostas revolucionárias.

Até recentemente, a globalização, por ser incentivada pela mídia e pelo establishment, parecia incoercível. Mas hoje ela tem despertado reações dos que a julgam uma ameaça às soberanias nacionais e à privacidade das pessoas. No Brasil, temos um exemplo na intenção de entidades ligadas à ONU — no caso a OMS (Organização Mundial da Saúde) — de se sobreporem ao nosso governo, obrigando-o a aceitar suas diretrizes no combate ao coronavírus.

A instauração de um governo mundial tem sido denunciada por numerosos autores católicos como um projeto de inspiração revolucionária. Entre eles figura o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, que assim se expressa num de seus magistrais ensaios: “Como prefigura de um Governo Mundial, a ONU almeja a mistura de todas as raças, de todas as nações e de todas as línguas para formar um tipo humano já anunciado — o homem pardo da ONU. O homem pardo professará também uma religião que será ecumênica, uma mistura sincrética e eclética de todas as religiões”.
“Nova ordem mundial”, pretexto para uma ditadura global

Voltaram a figurar na lista dos best-sellers os livros que desde o século XIX vêm sendo publicados na Europa, em especial na França, alertando para o perigo da instauração de um governo mundial com poderes ditatoriais — o tão comentado big brother. Os mais recentes deixaram de acusar a maçonaria e passaram a denunciar as poderosas fundações norte-americanas. Ao lado dos grandes bancos e de pessoas como o bilionário George Soros, elas dão suporte financeiro aos programas globalizantes. O compêndio Nova Ordem Mundial, de Alexandre Costa, enumera mais de 100 obras com esse intuito.
Temáticas referentes à criação de um governo mundial com poderes ditatoriais começaram a ser discutidas por jornalistas em seus programas televisivos, despertando grande interesse entre o público. Com algum alívio, pode-se constatar que a maioria deles é contrária à sua instauração.
Está tendo grande sucesso o livro Sociedade do cansaço, do filósofo sul-coreano Byung-Chul Han. Destaca os poderes cada vez maiores que o Estado chinês utiliza para saber de cada indivíduo o que ele pensa, qual seu posicionamento político, quanto ganha, quais são seus hábitos. Embora o artigo se limite a descrever o crescente poder do governo chinês, sua leitura nos permite prever quais meios um eventual governo mundial terá à sua disposição para restringir a privacidade e a autonomia das pessoas. Chul Han assim descreve o que está ocorrendo no país mais populoso do mundo:
 “A China introduziu um sistema de crédito social inimaginável aos europeus, que permite uma avaliação exaustiva das pessoas. Cada um deve ser avaliado em consequência de sua conduta social. Na China não há nenhum momento da vida cotidiana que não esteja submetido à observação. Cada compra, cada clique, cada contato, cada atividade nas redes sociais é controlado pela vigilância virtual. Quem atravessa com o sinal vermelho, quem tem contato com críticos do regime, perde pontos. Quem compra pela internet alimentos saudáveis e lê jornais que apoiam o governo, ganha pontos.

“Na China existem 200 milhões de câmeras de vigilância, muitas delas com reconhecimento facial. Essas câmeras dotadas de inteligência artificial podem observar e avaliar qualquer espaço público: lojas, ruas, aeroportos. A vida pode chegar a se tornar muito perigosa. Na China essa vigilância social é possível, porque ocorre uma irrestrita troca de dados entre os usuários da Internet e dos smartphones com as autoridades. No vocabulário dos chineses não há o termo ‘esfera privada’. Todo esse aparelhamento, segundo se divulgou, mostrou-se muito eficaz para controlar a epidemia do coronavírus”.
Câmeras vigiam continuamente as ruas de Londres

Revigoramento de reações contra-revolucionárias


O senador democrata Bernie Sanders perdeu o apoio para disputar a Presidência por causa de suas posições acentuadamente esquerdistas

Nos Estados Unidos de modo especial, mas também em outros países, o público conservador saturou-se com a exuberância com que os movimentos ditos sociais — ecológico extremado, LGBT, pró-imigração, tribalismo e dezenas de outros — atuam com o apoio do establishment e da mídia.

Concomitantemente, o aborto, a ideologia de gênero, o “casasamento” homossexual, os pseudo-direitos humanos estão sendo legalizados na maior parte dos países ocidentais, sem que contra isso o Papa Francisco se manifeste. Essas mazelas, tendo atingido excessos inacreditáveis, estão despertando nos católicos tradicionais as mais diversas reações — protestos, marchas, abaixo-assinados, terços rezados em público, entre outras sadias reações.

O Prof. Plinio Corrêa de Oliveira afirmava que a velocidade do processo revolucionário, visando eliminar os últimos vestígios da Cristandade, é limitada pelo perigo de a opinião pública conservadora acordar de sua letargia e expressar sua inconformidade. E isso é exatamente o que está acontecendo nestes últimos anos. Boa parte do público, que até havia pouco dava as boas-vindas às reformas progressistas, nos dias atuais começou a reagir, a se organizar politicamente e a querer que os antigos valores éticos voltem a pautar o comportamento humano.

Essas reações tomaram corpo, revigorando os partidos de direita na Europa e o Republicano nos EUA. O orgulho nacional, a defesa da família e uma política mais firme em relação à socialização interna, vistos até pouco tempo atrás como frutos de um nacionalismo malsão, tornaram-se nos EUA o hit do momento.

O Partido Democrata americano adotou uma agenda progressista acentuada, a ponto de um líder socialista como o senador Bernie Sanders ser escolhido para disputar a Presidência; e está perdendo seu prestígio junto aos eleitores devido a essa posição. O apoio a Trump, ao contrário, está se consolidando.

A esquerda, após décadas, parece ter encontrado um adversário à sua altura. Até alguns anos atrás, ninguém se atrevia a dizer-se “de direita”, reacionário, conservador, mas agora esses termos deixaram de ser pejorativos. Com a derrota dos sociais-democratas nas eleições europeias recentes, e o desligamento da Inglaterra da União Europeia, consolidou-se a chamada “onda conservadora”. Por falta de outra denominação adequada, seus seguidores passaram a ser denominados “populistas”, pelo fato de estarem em sintonia com as aspirações do povo.

Abrindo um parêntese, é impossível deixar de apontar o paradoxo de o establishment e a mídia estarem acusando os populistas de serem antidemocráticos, quando na verdade são estes que auscultam os anseios da opinião pública, utilizando para isso as redes sociais. Com efeito, o povo influencia o governo com mais autenticidade por meio do universo virtual do que pelo sistema pouco confiável de eleições dos representantes, realizadas de quatro em quatro anos.
Muito sintomático nessa “onda conservadora” foi a marcante presença de jovens, como estes que rezam de joelhos nas adjacências de Notre-Dame de Paris no dia do trágico incêndio. Alguns deles portavam o terço em suas mãos

“Onda conservadora” comprovada entre brasileiros
establishment não poupa críticas aos líderes populistas por pregarem um patriotismo e uma moralidade fora de moda. Acusa-os de caipiras, evangélicos de carreira ou de fascistas. Essas críticas são de tal modo unilaterais e agressivas, que o público deixou de levá-las a sério. O que está ocorrendo agora no Brasil comprova o acima dito: o presidente Bolsonaro está suportando um inferno astral especialmente midiático, acusado pelo que disse e pelo que não disse, sendo denegrido por sua postura popular e moralizante. Uma coisa é certa, certíssima: se ele deixasse de se opor à ideologia de gênero e ao aborto, de enaltecer o patriotismo e os valores do “antigo Brasil”, as críticas seriam substituídas por aplausos da mídia, e ele seria apontado como um grande presidente.

A onda conservadora não foi planejada por políticos nem é fruto da iniciativa de um líder carismático. Nasceu concomitantemente em quase todos os países, de modo espontâneo e com surpreendente vigor. Algo parecido com o que ocorre quando a vegetação, adormecida por uma longa estiagem, renasce após as primeiras chuvas com uma vitalidade a toda prova.

Até pouco tempo atrás o establishment menosprezava sua existência, crendo ser fruto de mentalidades retrógradas ou de heranças fascistas. Mas agora foi obrigado a reconhecer que parte da opinião pública a está vendo com simpatia — digamos mesmo, com alívio — por ter encontrado um movimento alinhado com suas convicções e disposto a combater em sua defesa. Um combate do qual muitos gostariam de participar, mas que não dispõem de meios ou de coragem para fazê-lo.
Jovens participantes da Marcha pela Vida, realizada anualmente em Washington, exibem cartazes e bradam slogans contra o assassinato de inocentes. Cenas como esta são cada vez mais frequentes em muitos países e têm indiscutível repercussão no mundo político.

Nos EUA polarizado, preeminência do polo mais tradicional

Uma análise de como eclodiu a onda conservadora nos Estados Unidos pode nos auxiliar a ver como as pessoas reagem quando seus modos de vida e suas convicções herdadas dos antepassados ficam ameaçados pela Revolução. De início manifestam seu desagrado, depois partem para protestos os mais variados, e finalmente organizam-se em movimentos ou partidos políticos.

Nos EUA, é de longa data uma oposição latente entre as mentalidades e os modos de viver dos habitantes das costas Leste e Oeste (Nova York, Washington, Los Angeles, São Francisco), e do outro lado os equivalentes americanos do Centro e Oeste. Dir-se-ia que um muro de discordância passou a dividir os democratas e os republicanos. Essa oposição é antiga, mas recentemente acentuou-se e passou a assemelhar-se a um conflito infindável.

Os democratas e o establishment liberal (esquerdista, no sentido americano) possuem um estado de espírito que outrora era descrito como sendo o American way of life. Consiste numa visão otimista da realidade, descompromissada e na crença de que o progresso e o conhecimento solucionarão todas as mazelas que nos afligem. Além dessa concepção rósea do mundo, são simpáticos aos movimentos sociais e indulgentes quanto às reivindicações das minorias; são globalizantes, enquanto julgam inevitável um governo mundial; e estão convictos de que a tão almejada paz entre os EUA e os países comunistas só será obtida por meio da boa vontade e de concessões recíprocas. São críticos ao uso de armas pelo público, restringem as verbas para as Forças Armadas e são defensores convictos do Obama care e de outros atendimentos sociais pelo Estado.

Pessoas típicas dessa mentalidade são os líderes políticos democratas e os participantes do jet-set internacional — artistas, escritores, figuras de proa do movimento ecologista —, todos enaltecidos pela mídia e por membros do establishment.

A onda conservadora nos EUA é formada por dois públicos diferentes: o primeiro inclui os americanos fiéis às suas tradições cristãs, que cultivam os valores típicos do tempo em que foram pioneiros — honestidade, trabalho árduo, consumo morigerado. Desconfiam do governo e ficam desagradados com as extravagâncias de seus conterrâneos da costa leste. É devido a eles que o Partido Republicano tem conseguido vencer as eleições.

O segundo público participante da onda conservadora é formado por aqueles que defendem a liberdade econômica e são contrários à assistência social estatal. Empresários e banqueiros de grande porte se alinham aos moradores das pequenas cidades do Meio Oeste, de mentalidade conservadora, com o objetivo de proteger o país das novidades socializantes vindas da Europa logo após o fim da guerra, tão caras aos democratas. Dir-se-ia uma conjunção esdrúxula, inviável à primeira vista, mas que provou sua viabilidade ao participarem lado a lado da “onda conservadora”.

Quem viaja pelo interior dos Estados Unidos fica admirado com o número de casas com a bandeira nacional hasteada, mesmo nos estados com predomínio democrata. O derrotismo vigente nos anos da guerra do Vietnam foi submergido pelas primeiras ondas conservadoras, e Trump não só venceu as eleições como também se tornou o ponto de referência para os governos populistas do mundo inteiro.

O apoio popular a Trump é devido, em parte, à insatisfação dos americanos ao verem que o individualismo empreendedor, tão caro a eles e tão bem descrito nos livros de Anna Ryan, estar sendo contestado pelos que julgam que a solidariedade entre as pessoas é mais importante do que a competição. Por outro lado, explica-se por ter ressuscitado o “orgulho nacional”, sintetizado no lema America first, por ter acabado com o desemprego e contrabalançado o poderio comercial da China.

Crise na Igreja e onda conservadora católica

A densidade revolucionária, presente na atual crise pela qual a Igreja está passando, não tem comparação com a de qualquer outro cisma ou heresia do passado. O Papa Francisco, aparentando simplicidade evangélica, mostra desagrado em relação ao esplendor ostensivo da corte pontifícia; preferência pelas vítimas de um sistema que visa ao enriquecimento, e não à partilha; e assim tornou-se uma figura simpática a vários setores da opinião pública no início de seu pontificado. Com o tempo, no entanto, começou a revelar sua verdadeira face de um reformador convicto, intencionado em transformar a Igreja Católica num simulacro do modelo criado por Jesus Cristo.

Seu hábito de expor seus planos enquanto retorna das viagens ao exterior permitiu-lhe apresentar-se como sendo um humilde devoto de São Francisco, incompreendido pelos “poderosos”, indulgente com as fraquezas humanas, protetor dos pobres e oprimidos. Ele sorri, mostra-se confortado por estar conversando com seus companheiros de viagem, cria um ambiente informal, acolhedor, distendido. Quem poderá acusá-lo de desdém pelo ensino tradicional, vituperado como se fosse fruto de um dogmatismo rígido já superado?

Tal imagem edulcorada, no entanto, é frequentemente contrariada pela rispidez com que trata os prelados que não partilham de seus projetos, transformando-se em amargura e desencanto revelados em suas fotografias.

Suas palavras dúbias, pouco ortodoxas, seu modo popularesco de se apresentar em público e seu alinhamento com a esquerda vêm suscitando reações de cardeais, teólogos e fiéis católicos, e até mesmo de não católicos.     Exemplos dessas reações são as Marchas pela Vida, os abaixo-assinados, os protestos contra peças de teatro satânicas e blasfemas, o Terço rezado em praças públicas, todas iniciativas promovidas ou apoiadas pela TFP americana (American Society for the Defense of Tradition, Family, and Property) [foto acima]. Tão significativo quanto essas iniciativas é o apoio entusiasta encontrado no público jovem. A essas se acrescentam as publicações do Instituto Plinio Corrêa de Oliveira e do Pan-Amazon Synod Watch, bem como a atuação do Prof. Roberto de Mattei e dos publicistas José Antonio Ureta e Julio Loredo, que ao longo do Sínodo Amazônico alertaram os fiéis para as heresias presentes nos movimentos ambientalista e indigenista.

O fato de o conteúdo revolucionário estar ficando cada vez mais visível nos movimentos reformistas — LGBT, feministas, imigração, tribalismo, ecologia extremada, patrocinados pela ONU e apoiados pelo Papa — deixou os católicos conservadores alarmados e dispostos a participar das reações que estão eclodindo por toda parte. Em razão da espontaneidade de cada uma dessas reações, e de se insurgirem contra este ou aquele contrassenso sem estarem interconectadas, não é fácil a formação de uma onda conservadora religiosa semelhante às existentes no campo político. Se em determinado momento, porém, os cardeais e bispos de orientação conservadora formarem uma frente única com os fiéis perplexos com o que está ocorrendo na Igreja, as reações crescerão, tomarão corpo e se transformarão num movimento de proporções universais. Terão eles, num futuro próximo, o poder de inverter a marcha dos acontecimentos? Decorrem de uma graça especial as atuais ondas conservadoras, tanto as políticas quanto a religiosa? São elas instrumentos de Nossa Senhora para congregar os fiéis num confronto final com os revolucionários? Seja como for, a desproporção de forças é assustadora. Os revolucionários contam com o apoio do atual Papa e da maioria dos cardeais e bispos, da mídia internacional e das entidades que se pretendem supranacionais. O que fazer? Rezar, continuar a participar dos movimentos contra-revolucionários? Sim, e cada vez mais, pois Nossa Senhora prometeu em Fátima que o seu Imaculado Coração triunfará. Mas Ela depende para isso do nosso esforço, e o tem implorado repetidamente para que possa cumprir o que prometeu.
  

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segunda-feira, 16 de março de 2020

A ESQUERDA QUER A INSTABILIDADE, MAS O BRASIL NÃO!


16 de março de 2020
Comunicado do Instituto Plinio Corrêa de Oliveira

Derrotada nas eleições, a esquerda pretende tornar o Brasil inviável para voltar ao Poder.

Os acontecimentos dos últimos anos são motivos de esperanças, mas também de apreensões.

Livramo-nos de uma seita vermelha, socialista, profundamente contrária à índole cristã de nosso povo, que estava nos conduzindo para uma situação semelhante à da Venezuela.

Derrotada nas últimas eleições, a esquerda não descansa um minuto em seu afã de tornar o Brasil inviável, de criar uma crescente instabilidade e de propalar em todo o mundo uma suposta deriva autoritária decorrente da eleição do atual presidente Jair Bolsonaro.

Em sucessivos estrondos publicitários, somos continuamente caluniados por entidades internacionais, em palestras e jornais de grande tiragem, e até mesmo em certos púlpitos e sacristias.

Contrariando a realidade, boa parte da imprensa nacional interessada em reconduzir a esquerda ao Poder faz eco contínuo a tais acusações, numa verdadeira campanha para impedir o reerguimento moral e material de nossa Pátria.

Nenhuma menção é feita ao gradual desaparelhamento do Estado, ao processo de desburocratização, ao espetacular sucesso do agronegócio, à melhoria dos índices econômicos e da segurança pública, à tranquilidade das ruas marcada pela natural bonomia do brasileiro. Nada disso interessa aos “profetas do fracasso”.

Para tais “profetas”, o alvo não é apenas o atual governo, mas também toda a reação conservadora surgida na última década no Brasil.

Há mais de 60 anos o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, grande líder católico, homem de pensamento e ação, iniciou uma cruzada ideológica em defesa dos valores básicos de nossa civilização ocidental e cristã — a tradição, a família e a propriedade —, a qual se difundiu rapidamente pelos cinco continentes, tornando-se a maior reação anticomunista de inspiração católica do mundo.

O Instituto Plinio Corrêa de Oliveira, que assume hoje no Brasil esses ideais, continua sempre presente nas ruas e nas redes sociais, alertando a opinião pública, denunciando a esquerda e conclamando os brasileiros para uma reação autenticamente anticomunista em nossa Pátria.

Tal reação – cuja expressão mais característica pode ser sintetizada no brado em uníssono “quero o meu Brasil de volta”, ouvido nas manifestações multitudinárias —, é a recusa de uma sociedade desfigurada pela agenda da esquerda, que incluía, entre outras propostas, a aprovação do aborto, do “casamento homossexual”, da ideologia de gênero… Os brasileiros de bem se sentiam discriminados e perseguidos por aqueles mesmos que tanto falavam contra a “discriminação”.

O que nosso povo realmente quer é um Brasil fiel a si mesmo, ao seu passado glorioso, que realize o futuro promissor que lhe está destinado pela Divina Providência, progredindo sempre na obediência à Lei Natural, isto é, àquela lei que, segundo o Apóstolo São Paulo, está “escrita pelo dedo de Deus na alma do homem”.

O Instituto Plinio Corrêa de Oliveira é apartidário, mas não pode omitir-se quando a esquerda — com o apoio de políticos, de boa parte da mídia e de líderes socialistas estrangeiros — pretende impor a “velha política”, chegando a aventar um absurdo impeachment do Presidente da República. Para isso procuram criar o desânimo e a divisão entre aqueles que se levantaram em defesa do País.

“Vigiai e orai, para não cairdes em tentação” (Mt 26, 41), é o que ensina nosso Divino Salvador. O Brasil se livrou de um regime que caminhava para o fim da família e o desrespeito dos valores mais caros ao Cristianismo. Incumbe-nos agora consolidar a reconquista ocorrida, confiando sempre na Divina Providência, que nunca nos faltou.

Nascido sob o Cruzeiro do Sul, tendo como primeiro ato oficial uma Santa Missa e como primeiro nome Terra de Santa Cruz — não é por acaso que o Cristo Redentor no alto do Corcovado é o monumento mais expressivo dessa realidade —, o Brasil saberá, como sempre soube, ser fiel a si mesmo e, acima de tudo, ser fiel a Deus Nosso Senhor.

Não cederemos, não recuaremos! Essa reação conservadora não veio para ser uma onda passageira, mas para marcar os séculos futuros; para denunciar e desmascarar a esquerda em todas as suas formas; e para combater, de modo firme e claro, dentro da lei e da ordem, todos os desvios que os socialistas tentaram — e continuam tentando — impor ao nosso País.

Que Nossa Senhora Aparecida, Rainha e Padroeira do Brasil, nos mantenha firmes nesse propósito.

São Paulo, 15 de março de 2020
Instituto Plinio Correa de Oliveira



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sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

O QUE MUDOU NO BRASIL? – Péricles Capanema


Publicado em 17 de janeiro de 2020

Péricles Capanema

Quase 60 anos atrás, 1961, Nelson Rodrigues escreveu: “Hoje em dia, chamar um brasileiro de reacionário, é pior do que xingar a mãe. Não há mais direita, nem centro — só há esquerda neste país. Perguntem ao professor Eugênio Gudin: — ‘Você é reacionário?’. Sua resposta será um tiro. Insisto: — o brasileiro só é direitista entre quatro paredes e de luz apagada. Ao contrário de setenta milhões de patrícios, eu me sinto capaz de trepar numa mesa e anunciar gloriosamente: — Sou o único reacionário do Brasil. E, com efeito, agrada-me ser xingado de reacionário. Por toda parte, olham-me, apalpam-me, farejam-me como uma exceção vergonhosa.”

Comenta ainda o dramaturgo, considerado o maior do Brasil: “Eu, com todo o meu reacionarismo, confesso e brutal, sou o único autor de teatro, o único que, até hoje, não mereceu jamais um mísero prêmio. Pois bem. O Dias Gomes, com o seu ‘Pagador de promessas’, fez um rapa de prêmios. O Flávio Rangel não dá um espirro sem que lhe caia um prêmio na cabeça. O meu amigo Augusto Boal, premiado. O Vianinha, premiadíssimo”. Dias Gomes e Vianinha foram do PCB, os dois outros são também autores de esquerda.

Em 2020, o brasileiro só se confessa direitista entre quatro paredes e de luz apagada? “Só há esquerda nesse país” continua válido? Vamos distinguir. Ponto capital: o Brasil de 1961, em boa parte, mantinha nível de moralidade privada e de moralidade pública que já não temos; melhor, moralidade e respeitabilidade, eram em larga medida penhor de futuro brilhante. Nesse sentido, sob o ponto de vista do que hoje se intitula revolução cultural, despencamos para a esquerda. Ficamos diferentes para pior, apareceram mais nítidas e mais pesadas nuvens negras no horizonte do futuro.

Faltam os prêmios. Continuam a jorrar só para a autores de esquerda? Por que naqueles anos de generalizada inibição e temor direitistas — de hegemonia cultural esquerdista na posse dos microfones —, ninguém premiava Nelson Rodrigues? Simples, os instrumentos pelos quais se exprimia na época a opinião que se publica (diferente da opinião pública) estavam a bem dizer todos na mão da esquerda, comitês, comissões, diretorias de associações, tanta coisa mais. E ela só premiava e premia gente da patota. E assim, na promoção de numerosos corifeus da esquerda por meio de ambientes eruditos e posições de destaque (as patotas prestigiam patotas), não mudou nada ou quase nada. Temos ainda atuante uma carapaça revolucionária, já bastante encarquilhada, asfixiando um miolo vivo em que existe muita coisa boa. Em resumo, o brasileiro comum em boa medida permanece refratário à pregação esquerdista.

Não nos iludamos, este mundo de letrados esquerdistas, insulado do público em redoma tóxica, representa realidade artificial, postiça, mas sedimentada. Infelizmente ainda hoje sua orientação predomina nas sacristias, na academia, nas redações, em muitos clubes grã-finos. E isso projeta visão deformada do que seja o Brasil.

Alguém, por exemplo, já ouviu falar que a CNBB, CIMI ou CPT tenham promovido para os galarins sacerdote conservador, mesmo que seja por distração? Não existe. Nos últimos anos algum autor de direita foi distinguido com prêmio literário de valor? Nas redações despontam jornalistas com traços direitistas e conservadores, é fato. Por quê? Motivo pouco enfatizado, para as direções das empresas é conveniente tê-los como colaboradores, pois atraem para suas publicações e programas leitores e ouvintes conservadores. O descolamento entre o público comum e docentes, fortíssimo na academia, aqui é bem menor.

Em um aspecto, o Brasil de nossos dias é muito diferente do Brasil de 1961, em que a patrulha ideológica marcava forte. Nas redes, com audiência, há sites direitistas e conservadores dos mais variados matizes e orientações. De alto a baixo da opinião brasileira, em especial na parte anônima, que não se publica, que tem poucos microfones à disposição, cresce um movimento de reação. Quem diz reação, diz gente que reage, reacionários. Repito, mudou o Brasil, o reacionário e o conservador se manifestam com decibéis cada vez maiores. Em numerosos setores, abrigando-se em numerosas correntes, existem conservadores e reacionários atuantes.

Falei acima de matizes e orientações diferentes. Com efeito, as discrepâncias tantas vezes eriçadas provocam choques, às vezes desagregadores e destrutivos. E aqui começo o mais importante de minhas considerações. Liberais na economia, contrários à estatização, são tantas vezes libertários em costumes. Temos conservadores nos costumes, mas com pendores estatizantes.

Vou tentar clarear parte da situação, o demônio pesca em águas turvas. Para isso olho quintal vizinho, a França. Por razões de tempo e espaço, trato do tema por cima. Lembro divisão conhecida da direita francesa (com muitas adaptações seu conhecimento ilumina a cena brasileira): legitimista, bonapartista, orleanista.

Entrada de Carlos X em Paris

A legitimista — um dia quis Luís XVIII, mais ainda, sonhou com Carlos X [foto], recusou Napoleão no trono — via de regra é tradicionalista, monárquica, católica. Valoriza elites enraizadas na História, não é estatizante, seu foco é a defesa da família, espera relativamente pouco da ação do Estado, dá mais importância ao costume que à lei. A mais, luta pelos direitos das sociedades intermediárias (princípio de subsidiariedade). Líderes com certa nota patriarcal; melhor, paternal.

A bonapartista recusa o Ancien Régime, em geral subestima quando não despreza as elites com raízes históricas, cria uma nova elite com base na burocracia estatal, em especial no elemento armado, coloca à frente de suas reivindicações não a família saudável e as sociedades intermediárias, mas a pátria (de outro modo, subestima quando não nega o princípio de subsidiariedade). Engrandecimento nacional (gigantismo), pendores centralizantes e autoritários, líderes carismáticos e populistas. Por vezes, jacobina.

A direita orleanista aceitou a Revolução Francesa, mas quer o Rei, limitado constitucionalmente, como fator de ordem e unidade. Economia liberal, moral liberal, Estado secular. Instituições nascidas dos princípios da Revolução Francesa, sociedade moldada por eles, tem algo de república coroada. Líderes pragmáticos e gestores, em geral de mentalidade girondina.

Termino. O curso da lógica traz a pergunta: para quem não é esquerdista, que tipo de direita preferir para o Brasil? Quais características o movimento conservador deveria privilegiar. Respondo. Sou católico, propugno a doutrina social da Igreja. Defendo o princípio de subsidiariedade e a ampliação da influência da família na sociedade. Recuso o estatismo, o populismo para mim é falsa solução para problemas reais. Convido-o, leitor, a alinhar as características de sua preferência. E os perigos que pretende evitar com elas. Tem motivo importante, o Brasil de hoje não é o de 1961, vergastado por Nelson Rodrigues; na sociedade começam a se generalizar sem timidez conservadores e reacionários. Os rótulos valem menos que os conteúdos. Que conteúdo terão tais correntes de opinião daqui a alguns anos?

(periclescapnema.blogspot.com)


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