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sexta-feira, 18 de setembro de 2020

DOSTOIÉVSKI, SAUDADES DO BRASIL E DAS GRANDES IDEIAS - Marco Lucchesi


“A paisagem segue cada vez mais polarizada. Com a esperança de terminar rapidamente 2020, apresso-me a comemorar os 200 anos de Dostoiévski, ano que vem. Porque um clássico é sempre um divisor de águas. Um acontecimento impressionante. Incêndio e terremoto. Ou tudo, ou nada.

Assim aconteceu quando fui atropelado pelo “O idiota”, de Dostoiévski, e meu sono, e minhas vísceras, e minhas lágrimas foram convocadas de mim para mim. Tinha treze anos de idade.

Não era apenas um capítulo da literatura, mas era a Literatura em sua potência extrema. A “nuvem-Dostoiévski” começou a habitar meus olhos. E mal desconfiava que minha vocação estava toda em seus romances. Que minha vida seria tocada pela chama de sua grandeza atormentada.

Li todos os seus romances até completar dezoito anos. Comecei a aprender russo, mais tarde, com minha saudosa professora Zoé Stepanov. Devo-lhe parte de meus sonhos adolescentes.

Guardo um punhado de versos nas fibras do meu coração. Contemplei o “Cristo de Holbein”, que comoveu Dostoiévski, e o apartamento em Florença, onde terminou “O idiota”, enquanto ele, Dostoiévski, e eu, passeávamos pelo jardim de Boboli, numa conversa que não termina.

Saudades do Brasil. E das grandes ideias”.

 

O Globo, 09/09/2020

 https://www.academia.org.br/artigos/dostoievski-saudades-do-brasil-e-das-grandes-ideias

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Marco Lucchesi - Sétimo ocupante da cadeira nº 15 da ABL, eleito em 3 de março de 2011, na sucessão de Pe. Fernando Bastos de Ávila, foi recebido em 20 de maio de 2011 pelo Acadêmico Tarcísio Padilha. Foi eleito Presidente da ABL para o exercício de 2018.

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quinta-feira, 17 de setembro de 2020

HELOÍSA PRAZERES REALIZA LIVE DE LANÇAMENTO DO LIVRO TENDA ACESA

Leitores podem acompanhar o evento virtual via o zoom literário


A escritora, tradutora e doutora em literatura Heloísa Prazeres e a Scortecci Editora promovem no dia 24 de setembro de 2020 (quinta-feira), das 19h30 às 21h, a live de lançamento do livro de poemas Tenda acesa, através do Zoom “Literário” (Id da reunião: 725 467 5353).

Ilustrado com a reprodução de pinturas do artista visual Jamison Pedra e arte da capa de Daniel Prata Prazeres, “Tenda acesa” é o terceiro livro de poemas da autora e reúne composições dispostas em quatro divisões. Constituem os temas do livro a essência do viver, os riscos dos contextos contemporâneos, ao longo da atual pandemia, a convivialidade e trânsitos (viagens curtas ou prolongadas).

Por meio da linguagem lírica Heloísa Prazeres aborda a incomunicabilidade, o luto moral, as relações possíveis no mundo contemporâneo. A partir de uma perspectiva da vivência social e intelectual feminina. “A metáfora TENDA é uma imagem feminina, da qual me aproprio, ampliando-a. A obra destina-se ao público cuja insatisfação com a realidade o leve a buscas complementares na arte da palavra. Creio que as leitoras se beneficiarão”, expressa a autora, acrescentando ainda que há um forte apelo de imagens femininas na obra.

Tenda acesa (PRAZERES, 2020) é um retorno à escrita poética, atividade impactada, contemporaneamente, por contextos acentuados de crise e dispersão − ainda mais provocadores, desde o início deste segundo decênio do século, quando o mundo sofre os efeitos de uma pandemia de âmbito global. O título da obra é, por isso, a afirmação da palavra poética, por meio do signo “tenda”, associado a fragilidades e abrigos efêmeros, mas vivo, aceso.

A obra está dividida em quatro partes, compreendendo, 1, a teimosia da amorosidade, “O ouro da vida”; 2, a afirmação do sentimento de companhia e união sustentável entre humanos, “poesiasemprepossível”; 3, percepção subjetiva da experiência existencial, “Olhos capitais”; e uma quase separata, 4, intitulada ”Trânsitos”, celebração momentânea à liberdade, à viagem real, aos deslocamentos seguros, inclusive para outros hemisférios e continentes. “Tema que se deve à minha peculiar biografia, ou seja, família dispersa, quando as fronteiras do mundo se pulverizaram. Em contraponto, exploro a geografia afetiva, os lugares de origem, que reclamam por exaltação, citações a pessoas referenciais e a topônimos de origem”, diz a escritora.


A autora – Heloísa Prazeres é natural de Itabuna, BA, possui textos publicados com produtores de Artes Visuais (Cinema e Fotografia). Citada no Dicionário de Autores Baianos. Salvador: SECULT, 2006, e no Dicionário de Escritores Contemporâneos da Bahia, CEPA, 2015. Seu primeiro livro, ensaios, data do início dos anos 2000, o segundo, poemas, Pequena história (PRAZERES, 2014), O terceiro, poemas, Casa onde habitamos (2016), o quarto, ensaios, Arco de sentidos, literatura, tradução e memória cultural (2018).

Publicou, em livro, Temas e teimas em narrativas baianas do Centro-Sul. FCJA; UNIFACS; SECULT, 2000; Pequena História, poemas selecionados. Salvador: Quarteto, 2014; Antologia Outros Riscos do Prêmio DamárioDaCruz de Poesia. Salvador: FPC/ SecultBA e Quarteto, 2013; Poetas da Bahia, III. Salvador: Expogeo, 2015 e Antologia 5º Prêmio Literário de Poesia, Portal Amigos do Livro, São Paulo: Scortecci, 2015 Medalha de Bronze do I Concurso Literário da AECALB, Rio de Janeiro, 2016.

Bacharel e Mestre em Letras pela UFBA. Cumpriu doutorado em Literaturana Universityof Cincinnati, OH. EUA. Professora Adjunta, aposentada do IL da UFBA. Foi titular na Universidade Salvador, UNIFACS. Coordenou o Núcleo de Referência Cultural da Fundação Cultural do Estado da Bahia.

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Serviço:

O quê: Live de lançamento do livro ‘Tenda acesa, de Heloísa Prazeres.  

Onde: Através do Zoom “Literário” (Id da reunião: 725 467 5353).

Quando: Dia 24 de setembro de 2020 (quinta-feira), das 19h30 às 21h.

Editora: Scortecci Editora – Poesia – Formato 14 x 21 cm – 1ª edição – 2020 – 152 páginas. R$ 35,00

 

Livro disponível para pré-venda no site da livraria Asabeça:https://www.asabeca.com.br/

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quarta-feira, 16 de setembro de 2020

O ALIENISTA CAP. II – Machado de Assis




TORRENTES DE LOUCOS

 

            Três dias depois, numa expansão íntima com o boticário Crispim Soares, desvendou o alienista o mistério do seu coração.

             – A caridade, Sr. Soares, entra decerto no meu procedimento, mas entra como tempero, como o sal das coisas, que é assim que interpreto o dito de São Paulo aos Coríntios: “Se eu conhecer quanto se pode saber, e não tiver caridade, não sou nada”. O principal nesta minha obra da Casa Verde é estudar profundamente a loucura, os seus diversos graus, classificar-lhe os casos, descobrir enfim a causa do fenômeno e o remédio universal. Este é o mistério do meu coração. Creio que com isto presto um bom serviço à humanidade.

            – Um excelente serviço, corrigiu o boticário.

            – Sem este asilo, continuou o alienista, pouco poderia fazer; ele dá-me, porém, muito maior campo aos meus estudos.

            – Muito maior, acrescentou o outro.

            E tinha razão. De todas as vilas e arraiais vizinhos afluíam loucos à Casa Verde. Eram furiosos, eram mansos, eram monomaníacos, era toda a família dos deserdados do espírito. Ao cabo de quatro meses, a Casa Verde era uma povoação. Não bastaram os primeiros cubículos; mandou-se anexar uma galeria de mais trinta e sete. O Padre Lopes confessou que não imaginara a existência de tantos doidos no mundo, e menos ainda o inexplicável de alguns casos. Um, por exemplo, um rapaz bronco e vilão, que todos os dias, depois do almoço, fazia regularmente um discurso acadêmico, ornado de tropos, de antíteses, de apóstrofes, com seus recamos de grego e latim, e suas borlas de Cícero, Apuleio e Tertuliano. O vigário não queria acabar de crer. Quê! um rapaz que ele vira, três meses antes, jogando peteca na rua!

            – Não digo que não, respondia-lhe o alienista; mas a verdade é o que Vossa Reverendíssima está vendo. Isto é todos os dias.

            – Quanto a mim, tornou o vigário, só se pode explicar pela confusão das línguas na torre de Babel, segundo nos conta a Escritura; provavelmente, confundidas antigamente as línguas, é fácil trocá-las agora, desde que a razão não trabalhe...

            – Essa pode ser, com efeito, a explicação divina do fenômeno, concordou o alienista, depois de refletir um instante, mas não é impossível que haja também alguma razão humana, e puramente científica, e disso trato...

            – Vá que seja, e fico ansioso. Realmente!

            Os loucos por amor eram três ou quatro, mas só dois espantavam pelo curioso do delírio. O primeiro, um Falcão, rapaz de vinte e cinco anos, supunha-se estrela-d’alva, abria os braços e alargava as pernas, para dar-lhes certa feição de raios, e ficava assim horas esquecidas a perguntar se o sol já tinha saído para ele recolher-se. O outro andava sempre, sempre, sempre, à roda das salas ou do pátio, ao longo dos corredores, à procura do fim do mundo. Era um desgraçado, a quem a mulher deixou por seguir um peralvilho. Mal descobrira a fuga, armou-se de uma garrucha, e saiu-lhes no encalço; achou-os duas horas depois, ao pé de uma lagoa, matou-os a ambos com os maiores requintes de crueldade.

            O ciúme satisfez-se, mas o vingado estava louco. E então começou aquela ânsia de ir ao fim do mundo à cata dos fugitivos.

            A mania das grandezas tinha exemplares notáveis. O mais notável era um pobre diabo, filho de um algibebe, que narrava às paredes (porque não olhava nunca para nenhuma pessoa) toda a sua genealogia, que era esta:

            – Deus engendrou um ovo, o ovo engendrou a espada, a espada engendrou Davi, Davi engendrou a púrpura, a púrpura engendrou o duque, o duque engendrou o marquês, o marquês engendrou o conde, que sou eu.

            Dava uma pancada na testa, um estalo com os dedos, e repetia cinco, seis vezes seguidas:

             – Deus engendrou um ovo, o ovo, etc.

            Outro da mesma espécie era um escrivão, que se vendia por mordomo do rei; outro era um boiadeiro de Minas, cuja mania era distribuir boiadas a toda a gente, dava trezentas cabeças a um, seiscentas a outro, mil e duzentas a outro, e não acabava mais. Não falo dos casos de monomania religiosa; apenas citarei um sujeito que, chamando-se João de Deus, dizia agora ser o deus João, e prometia o reino dos céus a quem o adorasse, e as penas do inferno aos outros; e depois desse, o licenciado Garcia, que não dizia nada, porque imaginava que no dia em que chegasse a proferir uma só palavra, todas as estrelas se despegariam do céu e abrasariam a terra; tal era o poder que recebera de Deus.

            Assim o escrevia ele no papel que o alienista lhe mandava dar, menos por caridade do que por interesse científico.

            Que, na verdade, a paciência do alienista era ainda mais extraordinária do que todas as manias hospedadas na Casa Verde; nada menos que assombrosa. Simão Bacamarte começou por organizar um pessoal de administração; e, aceitando essa ideia ao boticário Crispim Soares, aceitou-lhe também dois sobrinhos, a quem incumbiu da execução de um regimento que lhes deu, aprovado pela Câmara, da distribuição da comida e da roupa, e assim também da escrita, etc. Era o melhor que podia fazer, para somente cuidar do seu ofício.

            – A Casa Verde, disse ele ao vigário, é agora uma espécie de mundo, em que há o governo temporal e o governo espiritual. E o Padre Lopes ria deste pio trocado, – e acrescentava, – com o único fim de dizer também uma chalaça: – Deixe estar, deixe estar, que hei de mandá-lo denunciar ao papa.

            Uma vez desonerado da administração, o alienista procedeu a uma vasta classificação dos seus enfermos. Dividiu-os primeiramente em duas classes principais: os furiosos e os mansos; daí passou às subclasses, monomanias, delírios, alucinações diversas.

            Isto feito, começou um estudo aturado e contínuo; analisava os hábitos de cada louco, as horas de acesso, as aversões, as simpatias, as palavras, os gestos, as tendências; inquiria da vida dos enfermos, profissão, costumes, circunstâncias da revelação mórbida, acidentes da infância e da mocidade, doenças de outra espécie, antecedentes na família, uma devassa, enfim, como a não faria o mais atilado corregedor. E cada dia notava uma observação nova, uma descoberta interessante, um fenômeno extraordinário. Ao mesmo tempo estudava o melhor regímen, as substâncias medicamentosas, os meios curativos e os meios paliativos, não só os que vinham nos seus amados árabes, como os que ele mesmo descobria, à força de sagacidade e paciência. Ora, todo esse trabalho levava-lhe o melhor e o mais do tempo. Mal dormia e mal comia; e, ainda comendo, era como se trabalhasse, porque ora interrogava um texto antigo, ora ruminava uma questão, e ia muitas vezes de um cabo a outro do jantar sem dizer uma só palavra a D. Evarista.

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Fonte:

MINISTÉRIO DA CULTURA

Fundação Biblioteca Nacional

Departamento Nacional do Livro

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Machado de Assis
 (Joaquim Maria Machado de Assis), jornalista, contista, cronista, romancista, poeta e teatrólogo, nasceu no Rio de Janeiro, RJ, em 21 de junho de 1839, e faleceu também no Rio de Janeiro, em 29 de setembro de 1908. É o fundador da cadeira nº. 23 da Academia Brasileira de Letras.

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terça-feira, 15 de setembro de 2020

ESPLÊNDIDA MANSÃO - Nídia Costa Reis


                                                 Esplêndida Mansão

 

15 de setembro - dia do Colégio Nossa Senhora das Dores.

Escrevi esse poema para o Colégio Nossa Senhora das Dores, onde me formei em Magistério, em 1951.


Passou a carruagem pela estrada,

segui novo caminho sem parada,

só ficou solidão!

Sobre minha memória vão passando

as fímbrias de um véu e, recordando,

escuto o coração.

 

Já tão infrene chegas, ó saudade!

Pois sinto sob os golpes de impiedade

minh`alma estremecer.

Oh!, deixa-me a visão deste castelo

que embora longe se conserva belo

e nobre ante o meu ver.

 

Se eu te dissesse: ”Eis lá o Paraíso,

um turbilhão de festas e de riso,

de mágico esplendor!”

“-No céu há anjos”, - responder-me- ias;

e lá os tem! E mais: tem harmonias

e puro e santo amor.

 

As brisas matutinas vão beijá-lo,

os fogos do arrebol sentem deixá-lo,

com medo de o toldar.

E um átomo de luz sempre se avista

brilhando, eternamente, em sua crista,

guardando-o com o olhar.

 

Se um anjo do Senhor do céu baixasse

e um ramo de jasmins eu lhe entregasse,

poria em sua mão!

O!, meu Colégio! Embora já distante

eu o tenho tão presente neste instante!...

Esplêndida Mansão!

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Nídia Maria da Costa Reis (Prados MG)
- Educadora, escritora, soma mais de cem pequenas histórias e poemas catalogados, além da coleção 12 provérbios e suas histórias que chegou à quarta edição e concorreu ao Prêmio Jabuti de Literatura.


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segunda-feira, 14 de setembro de 2020

DEPOIS DA PANDEMIA - Carlos Diegues


A
cada dia, recebemos melhores notícias sobre a queda no número de vítimas da Covid-19. Mesmo que a vacina ainda demore, estamos aprendendo a lidar com os meios de controle parcial da pandemia. Com algum sucesso, tentamos descobrir modos de sobreviver ao vírus, sem nos deixarmos imobilizar pelo terror que sua existência nos provoca. As conversas privadas e os debates públicos sobre como seremos, nós e o mundo, depois da pandemia se multiplicam e são um sinal saudável de que o pânico passou, com o pessimismo que poderia nos paralisar. Agora sabemos que o mundo não vai acabar, embora se torne outra coisa. E discutimos planos para seu futuro, em cada uma de nossas atividades.

Embora novinho, inventado há apenas 125 anos, o cinema é o velho patriarca, o avozinho da família do audiovisual que inaugurou no final do século XIX. O mundo virtual, assim como qualquer outra novidade no gênero, tem sido um resultado do que ele começou em dezembro de 1895. Do som à cor, da televisão ao streaming, tudo o que, nesse universo, apareceu depois da invenção do cinema foi gerado por ele ou é uma consequência do que ele foi.

Não compreendo as críticas radicais, quase histéricas, de gente como Martin Scorsese ao streaming. Não compreendo por que um grande cineasta, com quem tantos jovens aprenderam tanto, se posiciona contra o desenvolvimento de sua atividade. Lembra os intelectuais reacionários que, em 1927, se negaram a assistir a “O cantor de jazz”, como uma manifestação contra o som no cinema. A mesma tradição que lamentou a cor (um disfarce da realidade, criado para nos esconder o mundo real) e amaldiçoou a tela larga (os mais espirituosos diziam que o Cinemascope só servia para filmar procissão religiosa e desfile militar). O streaming é uma multiplicação de resultados obtidos pelo cinema, seja na criação, seja na difusão, num formato doméstico que pode vir a ser o destino social do ser humano. O que ficou claro durante a crise mundial provocada pela pandemia.

O coronavírus jogou o ser humano nos braços de dois estados de espírito morais que andavam esquecidos ou abandonados: a solidão e a solidariedade. É possível que nunca mais voltemos a ser a humanidade tensa destes últimos tempos, em busca de resultados imediatos por meio de disputas acirradas, sem ordem de sentimentos ou princípios comuns. Uma humanidade que nunca esteve satisfeita porque, por falta de consistência e significância, nada lhe era suficiente. A pandemia nos revelou um mundo em que somos obrigados a nos organizar sozinhos, sabendo entretanto que, sem o outro, nunca seremos nada. Solidão e solidariedade são, por acaso, as circunstâncias humanas originais do espectador de cinema.

Não sei prever se a sala de cinema vai desaparecer, em razão do crescimento do streaming ou do que for. Mas é claro que, com as novas, claras e imensas telas de nossos receptores de TV, teremos menos vontade de sair de casa para ver um filme na rua cheia de atropelos. Imagino, mas não sei dizer com total clareza, como essa economia se organizaria, porque é sempre muito difícil prever tendências que não são exatas. Ainda não sabemos nem como a pandemia há de terminar, com que costumes novos, quais e quantos serão os mortos e suas qualidades. Ninguém é capaz de controlar tais cifras.

Sempre pensei o cinema como a mais clara e bela expressão de uma cultura, de um povo, de um país. Por intermédio dele, descobrimos o que somos e o que queremos ser. Mas o cinema não é uma necessidade primária, sem a qual não se pode viver. Ele se estrutura a partir de circunstâncias aleatórias, em que o fator principal será sempre o gosto de seus frequentadores. Entendendo por gosto a soma de elementos que vão da emoção ao conhecimento, do saber ao sentir etc. Não ouso prever esse gosto, nem mesmo no curtíssimo prazo.

Quando o cinema surgiu como espetáculo popular, se pensou que os teatros fechariam. E, quando a televisão tomou conta de nosso tempo de lazer, se dizia que o cinema tinha acabado. Não aconteceu nem uma coisa, nem outra. O novo não é necessariamente o fim do que havia antes; ele pode ser também uma consequência ou uma recuperação do que precisava mudar no que havia antes.

 

O Globo, 14/09/2020

https://www.academia.org.br/artigos/depois-da-pandemia

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Carlos Diegues - Décimo ocupante da Cadeira 7 da ABL, eleito em 30 de agosto de 2018 na sucessão do Acadêmico Nelson Pereira dos Santos e recebido pelo Acadêmico Geraldo Carneiro em 12 de abril de 2019.


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OS HUMANOS DESUMANOS! – Antonio Nunes de Souza


F
alar sobre os comportamentos humanos é tão difícil quanto você acertar sozinho na mega sena. As possibilidades de acertos são tão remotas e passivas de mudanças constantes, assim como as numerações sorteadas semanalmente, pois se estuda a mente humana há centenas de anos, fazem-se milhares de pesquisas científicas e, sempre somos surpreendidos com atitudes e reações descabidas e fora dos propósitos, somente em função de um grupo pré-determinado que para ele até o errado seja o que passará a ser certo, apenas para agradar os gostos daqueles que prepararam e executaram as ações!

Esses despropósitos e fatos que demonstram tolas atitudes constantemente são tão comuns perante os noticiários, que esses se aproveitando do Ibope que geralmente alcançam, oferecem uma cobertura, infelizmente injustificada, se analisada friamente os propósitos esdrúxulos e simplórios, deixando de lado assuntos muito mais importantes e pertinentes a um segundo ou terceiro plano, transparecendo aos olhos de pessoas que pensam mais em termos humanísticos, que os atos praticados são completamente paradoxais, expondo sentimentos nada humanos como deveriam!

O motivo que me fez escrever a respeito, mesmo sendo e reconhecendo um completo leigo na matéria, apenas baseando-me na perspicácia e vivência de muitas dezenas de anos, vendo constantemente essas disparidades incompreensivas é a invasão de um grande e renomado laboratório na cidade de S. Roque, Estado de São Paulo, raptando mais de duzentos cães que estavam sendo usados em pesquisas científicas, sem nenhuma comprovação que estava havendo maus tratos, interrompendo trabalhos de vários anos em benefícios de industrializações de medicamentos que curarão aos humanos. E olhe que no Brasil é permitida a utilização de animais em pesquisas, principalmente, quando esses não são sacrificados inutilmente!

Assim como vi e vejo sempre atitudes similares, principalmente na defesa canina, deixa-me estarrecido e revoltado pela cegueira desses e dessas criadoras de luxo de “Poodle”, que gastam fortunas com seus animaizinhos de estimação, não fazerem levantes e protestos em benefício das crianças abandonadas que, no norte e nordeste passam fome, trabalham desde a infância para complementar a renda familiar, não estudam e são ou estão sempre doentes. Estes sim é que necessitam de protestos sociais veementes, não só junto aos governos como, principalmente, a toda sociedade, pois os benefícios que advirão, obviamente, serão de todos os envolvidos!

Não sou contra cães e gatos, nem animal algum, mas, sinceramente, deixar as crianças abandonadas e ficar simploriamente, somente condenando os governos, não deixa de ser uma atitude desumana, nada racional!

Será que esse povo não enxerga nas áreas urbanas, quando passam em seus carrões, crianças abandonadas apanhando restos de comida nas latas de lixo para se alimentarem? Esse quadro é super comum!

Esses procedimentos humanos (?) são tão estranhos que, se Freud vivesse mais 500 anos ainda morreria sem explicar!

 

Antonio Nunes de Souza, escritor 

Membro da Academia Grapiúna de Letras 

antoniodaagral26@hotmail.com-antoniomanteiga.blogspot.com 


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domingo, 13 de setembro de 2020

PALAVRA DA SALVAÇÃO (201)


24º Domingo do Tempo Comum – 13/09/2020

 

Anúncio do Evangelho (Mt 18,21-35)

— O Senhor esteja convosco.

— Ele está no meio de nós.

— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Mateus.

— Glória a vós, Senhor.

 Naquele tempo, Pedro aproximou-se de Jesus e perguntou: “Senhor, quantas vezes devo perdoar, se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes?”

Jesus respondeu: “Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete. Porque o Reino dos Céus é como um rei que resolveu acertar as contas com seus empregados. Quando começou o acerto, levaram-lhe um que lhe devia uma enorme fortuna. Como o empregado não tivesse com que pagar, o patrão mandou que fosse vendido como escravo, junto com a mulher e os filhos e tudo o que possuía, para que pagasse a dívida.  O empregado, porém, caiu aos pés do patrão e, prostrado, suplicava: ‘Dá-me um prazo, e eu te pagarei tudo!’ Diante disso, o patrão teve compaixão, soltou o empregado e perdoou-lhe a dívida. Ao sair dali, aquele empregado encontrou um dos seus companheiros que lhe devia apenas cem moedas. Ele o agarrou e começou a sufocá-lo, dizendo: ‘Paga o que me deves’.

O companheiro, caindo aos seus pés, suplicava: ‘Dá-me um prazo, e eu te pagarei!’ Mas o empregado não quis saber disso. Saiu e mandou jogá-lo na prisão, até que pagasse o que devia.  Vendo o que havia acontecido, os outros empregados ficaram muito tristes, procuraram o patrão e lhe contaram tudo. Então o patrão mandou chamá-lo e lhe disse: ‘Empregado perverso, eu te perdoei toda a tua dívida, porque tu me suplicaste. Não devias tu também ter compaixão do teu companheiro, como eu tive compaixão de ti?’

O patrão indignou-se e mandou entregar aquele empregado aos torturadores, até que pagasse toda a sua dívida. É assim que o meu Pai que está nos céus fará convosco, se cada um não perdoar de coração ao seu irmão”.

— Palavra da Salvação.

— Glória a vós, Senhor.

 https://liturgia.cancaonova.com/pb/

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Ligue o vídeo abaixo a acompanhe a reflexão do Pe Roger Araújo:



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A força reconstrutora do perdão



Senhor, quantas vezes devo perdoar, se meu irmão pecar contra mim?” (Mt 18,21)


O Evangelho deste domingo também faz parte do chamado “discurso comunitário”, cap.18 de Mateus.

Hoje, o tema principal é o do perdão. Mateus recolhe as instruções de Jesus sobre a maneira como os irmãos devem proceder dentro da comunidade cristã. Sem o perdão mútuo torna-se impossível qualquer tipo de comunidade. O perdão é a mais alta manifestação do amor; o perdão é superlativo do amor. Reinhold Niebuh descreveu o perdão como a “forma final do amor”.

Em outras palavras, é impensável um verdadeiro amor que não traga consigo o perdão.

Nesse sentido, o perdão deve ser, não um ato, mas uma atitude que se mantém durante toda a vida e diante de qualquer ofensa. Por isso, a expressão “setenta vezes sete” quer dizer que é preciso perdoar sempre. Os rabinos mais generosos do tempo de Jesus falavam em perdoar as ofensas até quatro vezes.

Pedro se sente muito mais generoso e acrescenta outras três. Sete, já era um número que indicava plenitude, mas Jesus quer deixar muito claro que não é suficiente, porque corre-se o risco de contabilizar o perdão. Ele se deixa guiar pela “lógica da superabundância” e não pela lei da reciprocidade, da equivalência...; revela também que o perdão é amor superando a justiça, a misericórdia divina superando a lei humana.

À vingança, Jesus opõe o perdão; à exigência do revide, Ele opõe a atitude de reconciliação além de qualquer fronteira. Assim, o perdão revela-se como uma experiência “subversiva”, pois subverte as tendências naturais do ser humano em revidar, vingar, “pagar com a mesma moeda...

 Jesus sabe que somos frágeis como o barro; sabe também que com o barro de nossas vidas é possível fazer obras de arte.

Contam que uma pessoa tinha um vaso de barro precioso e de grande valor. Alguém curioso o tomou em suas mãos e, por um descuido, escorregou de suas mãos e se fez pedaços ao cair no chão. Podemos imaginar a dor do dono do vaso. Mas ali havia um artista que prontamente se ofereceu para acalmar os ânimos e refazer o vaso quebrado. Levou-o para sua casa e foi unindo os pedaços com fios de ouro. Alguns dias depois, devolveu-o ao dono. Era uma preciosidade. Impossível imaginar aquela obra de arte. Aqueles que a contemplavam ficavam assombrados. E não faltaram entendidos de arte que começaram a elevar o preço da obra; um preço muito superior ao que tinha antes.

Este é o sentido e a missão do perdão. Com frequência, a comunidade cristã se faz pedaços com as ofensas fraternas. Pode dar a impressão que ela se quebrou para sempre. Mas, aparece a capacidade de tornar a soldar o que estava quebrado, com os fios de ouro do perdão. E a comunidade que se havia quebrado, agora volta a ser uma comunidade nova; uma comunidade de amor, de fraterna caridade, muito mais evangélica.

O amor que perdoa, é esse o fio de ouro capaz de reconstruir o vaso de nossa comunidade e torná-lo mais belo e formoso que antes. Porque o perdão recria e re-constrói vidas quebradas.

O perdão só pode nascer de um verdadeiro amor. Não é fácil perdoar, como não é fácil amar. Vai contra todos os nossos instintos egoístas. Por isso, a partir de nossa consciência de indivíduos fechados em nosso ego, é impossível entender o perdão do evangelho. O ego tem necessidade de enfrentar-se com o outro para sobreviver e potenciar-se, inclusive aproveitando-se do próprio perdão. Ser bom, sentir-se justo, fraterno, solidário, honesto, tudo isso - embora exija esforços - é relativamente fácil e, muitas vezes, alimenta o próprio ego. Difícil é perdoar o agressor, não apenas desculpando-o, mas sendo capaz de amá-lo na totalidade do seu ser. Esse é o traço característico da comunidade cristã.

Por isso, a originalidade do cristianismo está na descoberta da grandeza do ser humano, no exercício da única força capaz de mudar o mundo: o amor real. Não há revolução maior. 

Embora não negue o que possa ter havido um comportamento maldoso, quem perdoa distingue entre ofensor e seu comportamento e considera o verdadeiro valor do outro como pessoa humana que, tal qual ele próprio, vive num mundo imperfeito, cheio de tensões e conflitos diversos. Apontando para o valor do outro, o perdão é uma “atitude revelatória”, de si mesmo e do outro

Perdoar supõe reconhecer a grandeza do ser humano; para além da fragilidade, a pessoa que perdoa ou acolhe o perdão encontra-se com o melhor de si mesma. Afirma que nela “há sempre mais coisas dignas de admiração e de respeito”.

A virtude cristã do perdão também traz consigo a dignificação da relação com o outro no mais elevado grau, a ponto de transformar ódio em amor e o inimigo em irmão.

Quando alguém perdoa, mobiliza a outra pessoa, suscitando nela um retorno à autenticidade no universo relacional consigo mesma, com os outros, com o mundo e com Deus.

Deixemos claro que o perdão não é negar, nem esquecer, nem forçar os sentimentos. Pelo contrário, o ponto de partida do perdão é o pleno reconhecimento da ofensa que rompeu a relação. Mas, quem perdoa, não se deixa conduzir pela “memória mórbida”, ou seja, não fica “remoendo” o que de mal aconteceu; pelo contrário, reconstrói, através de uma memória sadia, a identidade do outro, deixando de ver nele o mero causador da ofensa para captar sua dignidade mais profunda como ser humano valioso que é, apesar das fraquezas e limitações.

Do mesmo modo, quem perdoa ativa uma memória sadia na percepção de si mesmo, deixando de considerar-se vítima ou magoado e percebendo-se como pessoa capaz de elevar-se acima da mágoa ou da ofensa. Em última análise, o perdão é um ato de fé na bondade fundamental do ser humano

No processo de reconstrução de si mesmo e dos outros, o perdão também proporciona, àquele que perdoa, uma ocasião para rever as ilusões, as idealizações infantis, a busca do perfeccionismo... que orientavam sua vida. Quem perdoa está diante de uma situação propícia para discernir como as falsas expectativas em relação ao comportamento dos outros podem ter preparado o terreno para uma frustração profunda.

É uma ocasião privilegiada para a pessoa defrontar-se com seus sentimentos agressivos, suas expectativas e a história passada. No encontro com a verdade, quem perdoa pode conquistar maior liberdade para relações pessoais mais profundas e duradouras. A vida de cada dia atesta que exatamente onde se vive o perdão abre-se um novo futuro de paz.

No gesto do perdão, a pessoa pode chegar a uma compreensão mais realista de si mesma. 

Os recursos do verdadeiro perdão são infinitos. Eles jamais acabam. Uma pessoa que perdoa algumas vezes e se recusa a perdoar outras vezes, não conhece o significado do perdão.

O perdão não é uma operação do tipo “de vez em quando”. É um estilo de vida. É uma disposição permanente. Na verdade, no nível mais profundo, o “perdão não é algo que a pessoa faz, é algo que a pessoa é”. O perdão precisa ser um gesto repetido muitas vezes até se tornar um “hábito do coração”.

O Evangelho fala 77x7 vezes.

Texto bíblico:  Mt 18,21-35

Na oração: Jesus colocou no perdão fraterno uma das características do ser cristão; ao perdoar-nos, Deus cria em nós um coração novo, feito de acordo com o Seu, capaz de perdoar à sua maneira; não pode dar o perdão quem não tem consciência de tê-lo recebido; a capacidade de perdoar é diretamente proporcional à experiência de ser perdoado.

- Re-visitar experiências de ter vivenciado o perdão de Deus; trazer à memória situações em que você “entrou no fluxo do perdão divino” e foi presença visível desse perdão nas relações com as pessoas.


 Pe. Adroaldo Palaoro sj

https://centroloyola.org.br/revista/outras-palavras/espiritualidade/2144-a-forca-reconstrutora-do-perdao


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