“A paisagem segue cada vez mais polarizada. Com a esperança
de terminar rapidamente 2020, apresso-me a comemorar os 200 anos de
Dostoiévski, ano que vem. Porque um clássico é sempre um divisor de águas. Um
acontecimento impressionante. Incêndio e terremoto. Ou tudo, ou nada.
Assim aconteceu quando fui atropelado pelo “O idiota”, de
Dostoiévski, e meu sono, e minhas vísceras, e minhas lágrimas foram convocadas
de mim para mim. Tinha treze anos de idade.
Não era apenas um capítulo da literatura, mas era a Literatura
em sua potência extrema. A “nuvem-Dostoiévski” começou a habitar meus olhos. E
mal desconfiava que minha vocação estava toda em seus romances. Que minha vida
seria tocada pela chama de sua grandeza atormentada.
Li todos os seus romances até completar dezoito anos.
Comecei a aprender russo, mais tarde, com minha saudosa professora Zoé
Stepanov. Devo-lhe parte de meus sonhos adolescentes.
Guardo um punhado de versos nas fibras do meu coração.
Contemplei o “Cristo de Holbein”, que comoveu Dostoiévski, e o apartamento em
Florença, onde terminou “O idiota”, enquanto ele, Dostoiévski, e eu,
passeávamos pelo jardim de Boboli, numa conversa que não termina.
Marco Lucchesi - Sétimo ocupante da cadeira nº 15 da ABL,
eleito em 3 de março de 2011, na sucessão de Pe. Fernando Bastos de Ávila, foi
recebido em 20 de maio de 2011 pelo Acadêmico Tarcísio Padilha. Foi eleito Presidente
da ABL para o exercício de 2018.
Leitores podem acompanhar o evento virtual via o zoom
literário
A escritora, tradutora e doutora em literatura Heloísa
Prazeres e a Scortecci Editora promovem no dia 24 de setembro de 2020
(quinta-feira), das 19h30 às 21h, a live de lançamento do livro de poemas Tenda
acesa, através do Zoom “Literário” (Id da reunião: 725 467 5353).
Ilustrado com a reprodução de pinturas do artista visual
Jamison Pedra e arte da capa de Daniel Prata Prazeres, “Tenda acesa”
é o terceiro livro de poemas da autora e reúne composições dispostas em
quatro divisões. Constituem os temas do livro a essência do viver, os
riscos dos contextos contemporâneos, ao longo da atual pandemia, a
convivialidade e trânsitos (viagens curtas ou prolongadas).
Por meio da linguagem lírica Heloísa Prazeres aborda a
incomunicabilidade, o luto moral, as relações possíveis no mundo
contemporâneo. A partir de uma perspectiva da vivência social e
intelectual feminina. “A metáfora TENDA é uma imagem feminina, da qual me
aproprio, ampliando-a. A obra destina-se ao público cuja insatisfação com
a realidade o leve a buscas complementares na arte da palavra. Creio que as
leitoras se beneficiarão”, expressa a autora, acrescentando ainda que há um
forte apelo de imagens femininas na obra.
Tenda acesa (PRAZERES, 2020) é um retorno à escrita poética,
atividade impactada, contemporaneamente, por contextos acentuados de crise e
dispersão − ainda mais provocadores, desde o início deste segundo decênio do
século, quando o mundo sofre os efeitos de uma pandemia de âmbito global. O
título da obra é, por isso, a afirmação da palavra poética, por meio do signo
“tenda”, associado a fragilidades e abrigos efêmeros, mas vivo, aceso.
A obra está dividida em quatro partes, compreendendo, 1, a
teimosia da amorosidade, “O ouro da vida”; 2, a afirmação do sentimento de
companhia e união sustentável entre humanos, “poesiasemprepossível”; 3,
percepção subjetiva da experiência existencial, “Olhos capitais”; e uma quase
separata, 4, intitulada ”Trânsitos”, celebração momentânea à liberdade, à
viagem real, aos deslocamentos seguros, inclusive para outros hemisférios e
continentes. “Tema que se deve à minha peculiar biografia, ou seja, família
dispersa, quando as fronteiras do mundo se pulverizaram. Em contraponto,
exploro a geografia afetiva, os lugares de origem, que reclamam por exaltação,
citações a pessoas referenciais e a topônimos de origem”, diz a escritora.
A autora – Heloísa Prazeres é natural de Itabuna, BA,
possui textos publicados com produtores de Artes Visuais (Cinema e Fotografia).
Citada no Dicionário de Autores Baianos. Salvador: SECULT, 2006, e no
Dicionário de Escritores Contemporâneos da Bahia, CEPA, 2015. Seu primeiro
livro, ensaios, data do início dos anos 2000, o segundo, poemas, Pequena
história (PRAZERES, 2014), O terceiro, poemas, Casa onde habitamos (2016), o
quarto, ensaios, Arco de sentidos, literatura, tradução e memória cultural
(2018).
Publicou, em livro, Temas e teimas em narrativas baianas do
Centro-Sul. FCJA; UNIFACS; SECULT, 2000; Pequena História, poemas selecionados.
Salvador: Quarteto, 2014; Antologia Outros Riscos do Prêmio DamárioDaCruz de
Poesia. Salvador: FPC/ SecultBA e Quarteto, 2013; Poetas da Bahia, III.
Salvador: Expogeo, 2015 e Antologia 5º Prêmio Literário de Poesia, Portal
Amigos do Livro, São Paulo: Scortecci, 2015 Medalha de Bronze do I Concurso
Literário da AECALB, Rio de Janeiro, 2016.
Bacharel e Mestre em Letras pela UFBA. Cumpriu doutorado em
Literaturana Universityof Cincinnati, OH. EUA. Professora Adjunta, aposentada
do IL da UFBA. Foi titular na Universidade Salvador, UNIFACS. Coordenou o
Núcleo de Referência Cultural da Fundação Cultural do Estado da Bahia.
.................
Serviço:
O quê: Live de lançamento do livro ‘Tenda acesa, de Heloísa
Prazeres.
Onde: Através do Zoom “Literário” (Id da reunião: 725
467 5353).
Quando: Dia 24 de setembro de 2020 (quinta-feira),
das 19h30 às 21h.
Editora: Scortecci Editora – Poesia – Formato
14 x 21 cm – 1ª edição – 2020 – 152 páginas. R$ 35,00
Livro disponível para pré-venda no site da livraria Asabeça:https://www.asabeca.com.br/
Três dias
depois, numa expansão íntima com o boticário Crispim Soares, desvendou o
alienista o mistério do seu coração.
– A caridade, Sr. Soares, entra
decerto no meu procedimento, mas entra como tempero, como o sal das coisas, que
é assim que interpreto o dito de São Paulo aos Coríntios: “Se eu conhecer
quanto se pode saber, e não tiver caridade, não sou nada”. O principal nesta
minha obra da Casa Verde é estudar profundamente a loucura, os seus diversos
graus, classificar-lhe os casos, descobrir enfim a causa do fenômeno e o
remédio universal. Este é o mistério do meu coração. Creio que com isto presto
um bom serviço à humanidade.
– Um
excelente serviço, corrigiu o boticário.
– Sem este
asilo, continuou o alienista, pouco poderia fazer; ele dá-me, porém, muito
maior campo aos meus estudos.
– Muito
maior, acrescentou o outro.
E tinha
razão. De todas as vilas e arraiais vizinhos afluíam loucos à Casa Verde. Eram
furiosos, eram mansos, eram monomaníacos, era toda a família dos deserdados do
espírito. Ao cabo de quatro meses, a Casa Verde era uma povoação. Não bastaram
os primeiros cubículos; mandou-se anexar uma galeria de mais trinta e sete. O
Padre Lopes confessou que não imaginara a existência de tantos doidos no mundo,
e menos ainda o inexplicável de alguns casos. Um, por exemplo, um rapaz bronco
e vilão, que todos os dias, depois do almoço, fazia regularmente um discurso
acadêmico, ornado de tropos, de antíteses, de apóstrofes, com seus recamos de
grego e latim, e suas borlas de Cícero, Apuleio e Tertuliano. O vigário não
queria acabar de crer. Quê! um rapaz que ele vira, três meses antes, jogando
peteca na rua!
– Não digo
que não, respondia-lhe o alienista; mas a verdade é o que Vossa Reverendíssima
está vendo. Isto é todos os dias.
– Quanto a
mim, tornou o vigário, só se pode explicar pela confusão das línguas na torre
de Babel, segundo nos conta a Escritura; provavelmente, confundidas antigamente
as línguas, é fácil trocá-las agora, desde que a razão não trabalhe...
– Essa
pode ser, com efeito, a explicação divina do fenômeno, concordou o alienista,
depois de refletir um instante, mas não é impossível que haja também alguma
razão humana, e puramente científica, e disso trato...
– Vá que
seja, e fico ansioso. Realmente!
Os loucos
por amor eram três ou quatro, mas só dois espantavam pelo curioso do delírio. O
primeiro, um Falcão, rapaz de vinte e cinco anos, supunha-se estrela-d’alva,
abria os braços e alargava as pernas, para dar-lhes certa feição de raios, e
ficava assim horas esquecidas a perguntar se o sol já tinha saído para ele
recolher-se. O outro andava sempre, sempre, sempre, à roda das salas ou do
pátio, ao longo dos corredores, à procura do fim do mundo. Era um desgraçado, a
quem a mulher deixou por seguir um peralvilho. Mal descobrira a fuga, armou-se
de uma garrucha, e saiu-lhes no encalço; achou-os duas horas depois, ao pé de
uma lagoa, matou-os a ambos com os maiores requintes de crueldade.
O ciúme
satisfez-se, mas o vingado estava louco. E então começou aquela ânsia de ir ao
fim do mundo à cata dos fugitivos.
A mania
das grandezas tinha exemplares notáveis. O mais notável era um pobre diabo,
filho de um algibebe, que narrava às paredes (porque não olhava nunca para
nenhuma pessoa) toda a sua genealogia, que era esta:
– Deus
engendrou um ovo, o ovo engendrou a espada, a espada engendrou Davi, Davi
engendrou a púrpura, a púrpura engendrou o duque, o duque engendrou o marquês,
o marquês engendrou o conde, que sou eu.
Dava uma
pancada na testa, um estalo com os dedos, e repetia cinco, seis vezes seguidas:
– Deus engendrou um ovo, o ovo, etc.
Outro da mesma espécie era um escrivão, que
se vendia por mordomo do rei; outro era um boiadeiro de Minas, cuja mania era
distribuir boiadas a toda a gente, dava trezentas cabeças a um, seiscentas a
outro, mil e duzentas a outro, e não acabava mais. Não falo dos casos de
monomania religiosa; apenas citarei um sujeito que, chamando-se João de Deus,
dizia agora ser o deus João, e prometia o reino dos céus a quem o adorasse, e
as penas do inferno aos outros; e depois desse, o licenciado Garcia, que não
dizia nada, porque imaginava que no dia em que chegasse a proferir uma só
palavra, todas as estrelas se despegariam do céu e abrasariam a terra; tal era
o poder que recebera de Deus.
Assim o
escrevia ele no papel que o alienista lhe mandava dar, menos por caridade do
que por interesse científico.
Que, na
verdade, a paciência do alienista era ainda mais extraordinária do que todas as
manias hospedadas na Casa Verde; nada menos que assombrosa. Simão Bacamarte
começou por organizar um pessoal de administração; e, aceitando essa ideia ao
boticário Crispim Soares, aceitou-lhe também dois sobrinhos, a quem incumbiu da
execução de um regimento que lhes deu, aprovado pela Câmara, da distribuição da
comida e da roupa, e assim também da escrita, etc. Era o melhor que podia
fazer, para somente cuidar do seu ofício.
– A Casa
Verde, disse ele ao vigário, é agora uma espécie de mundo, em que há o governo
temporal e o governo espiritual. E o Padre Lopes ria deste pio trocado, – e
acrescentava, – com o único fim de dizer também uma chalaça: – Deixe estar,
deixe estar, que hei de mandá-lo denunciar ao papa.
Uma vez
desonerado da administração, o alienista procedeu a uma vasta classificação dos
seus enfermos. Dividiu-os primeiramente em duas classes principais: os furiosos
e os mansos; daí passou às subclasses, monomanias, delírios, alucinações
diversas.
Isto
feito, começou um estudo aturado e contínuo; analisava os hábitos de cada
louco, as horas de acesso, as aversões, as simpatias, as palavras, os gestos,
as tendências; inquiria da vida dos enfermos, profissão, costumes,
circunstâncias da revelação mórbida, acidentes da infância e da mocidade,
doenças de outra espécie, antecedentes na família, uma devassa, enfim, como a
não faria o mais atilado corregedor. E cada dia notava uma observação nova, uma
descoberta interessante, um fenômeno extraordinário. Ao mesmo tempo estudava o
melhor regímen, as substâncias medicamentosas, os meios curativos e os meios
paliativos, não só os que vinham nos seus amados árabes, como os que ele mesmo
descobria, à força de sagacidade e paciência. Ora, todo esse trabalho
levava-lhe o melhor e o mais do tempo. Mal dormia e mal comia; e, ainda
comendo, era como se trabalhasse, porque ora interrogava um texto antigo, ora
ruminava uma questão, e ia muitas vezes de um cabo a outro do jantar sem dizer
uma só palavra a D. Evarista.
..................
Fonte:
MINISTÉRIO DA CULTURA
Fundação Biblioteca Nacional
Departamento Nacional do Livro
............
Machado de Assis (Joaquim Maria Machado de Assis), jornalista,
contista, cronista, romancista, poeta e teatrólogo, nasceu no Rio de Janeiro,
RJ, em 21 de junho de 1839, e faleceu também no Rio de Janeiro, em 29 de
setembro de 1908. É o fundador da cadeira nº. 23 da Academia Brasileira de
Letras.
15 de setembro - dia do Colégio Nossa Senhora das Dores.
Escrevi esse poema para o Colégio Nossa Senhora das Dores,
onde me formei em Magistério, em 1951.
Passou a carruagem pela estrada,
segui novo caminho sem parada,
só ficou solidão!
Sobre minha memória vão passando
as fímbrias de um véu e, recordando,
escuto o coração.
Já tão infrene chegas, ó saudade!
Pois sinto sob os golpes de impiedade
minh`alma estremecer.
Oh!, deixa-me a visão deste castelo
que embora longe se conserva belo
e nobre ante o meu ver.
Se eu te dissesse: ”Eis lá o Paraíso,
um turbilhão de festas e de riso,
de mágico esplendor!”
“-No céu há anjos”, - responder-me- ias;
e lá os tem! E mais: tem harmonias
e puro e santo amor.
As brisas matutinas vão beijá-lo,
os fogos do arrebol sentem deixá-lo,
com medo de o toldar.
E um átomo de luz sempre se avista
brilhando, eternamente, em sua crista,
guardando-o com o olhar.
Se um anjo do Senhor do céu baixasse
e um ramo de jasmins eu lhe entregasse,
poria em sua mão!
O!, meu Colégio! Embora já distante
eu o tenho tão presente neste instante!...
Esplêndida Mansão!
.................
Nídia Maria da Costa Reis (Prados MG) - Educadora,
escritora, soma mais de cem pequenas histórias e poemas catalogados, além da
coleção 12 provérbios e suas histórias que chegou à quarta edição e
concorreu ao Prêmio Jabuti de Literatura.
A cada dia, recebemos melhores notícias sobre a queda no
número de vítimas da Covid-19. Mesmo que a vacina ainda demore, estamos
aprendendo a lidar com os meios de controle parcial da pandemia. Com algum
sucesso, tentamos descobrir modos de sobreviver ao vírus, sem nos deixarmos
imobilizar pelo terror que sua existência nos provoca. As conversas privadas e
os debates públicos sobre como seremos, nós e o mundo, depois da pandemia se
multiplicam e são um sinal saudável de que o pânico passou, com o pessimismo
que poderia nos paralisar. Agora sabemos que o mundo não vai acabar, embora se
torne outra coisa. E discutimos planos para seu futuro, em cada uma de nossas
atividades.
Embora novinho, inventado há apenas 125 anos, o cinema é o
velho patriarca, o avozinho da família do audiovisual que inaugurou no final do
século XIX. O mundo virtual, assim como qualquer outra novidade no gênero, tem
sido um resultado do que ele começou em dezembro de 1895. Do som à cor, da
televisão ao streaming, tudo o que, nesse universo, apareceu depois da
invenção do cinema foi gerado por ele ou é uma consequência do que ele foi.
Não compreendo as críticas radicais, quase histéricas, de
gente como Martin Scorsese ao streaming. Não compreendo por que um grande
cineasta, com quem tantos jovens aprenderam tanto, se posiciona contra o
desenvolvimento de sua atividade. Lembra os intelectuais reacionários que, em
1927, se negaram a assistir a “O cantor de jazz”, como uma manifestação contra
o som no cinema. A mesma tradição que lamentou a cor (um disfarce da realidade,
criado para nos esconder o mundo real) e amaldiçoou a tela larga (os mais
espirituosos diziam que o Cinemascope só servia para filmar procissão religiosa
e desfile militar). O streaming é uma multiplicação de resultados obtidos pelo
cinema, seja na criação, seja na difusão, num formato doméstico que pode vir a
ser o destino social do ser humano. O que ficou claro durante a crise
mundial provocada pela pandemia.
O coronavírus jogou o ser humano nos braços de dois estados
de espírito morais que andavam esquecidos ou abandonados: a solidão e a
solidariedade. É possível que nunca mais voltemos a ser a humanidade tensa
destes últimos tempos, em busca de resultados imediatos por meio de disputas
acirradas, sem ordem de sentimentos ou princípios comuns. Uma humanidade que
nunca esteve satisfeita porque, por falta de consistência e significância, nada
lhe era suficiente. A pandemia nos revelou um mundo em que somos obrigados a
nos organizar sozinhos, sabendo entretanto que, sem o outro, nunca seremos
nada. Solidão e solidariedade são, por acaso, as circunstâncias humanas
originais do espectador de cinema.
Não sei prever se a sala de cinema vai desaparecer, em razão
do crescimento do streaming ou do que for. Mas é claro que, com as novas, claras
e imensas telas de nossos receptores de TV, teremos menos vontade de sair de
casa para ver um filme na rua cheia de atropelos. Imagino, mas não sei dizer
com total clareza, como essa economia se organizaria, porque é sempre muito
difícil prever tendências que não são exatas. Ainda não sabemos nem como a
pandemia há de terminar, com que costumes novos, quais e quantos serão os
mortos e suas qualidades. Ninguém é capaz de controlar tais cifras.
Sempre pensei o cinema como a mais clara e bela expressão de
uma cultura, de um povo, de um país. Por intermédio dele, descobrimos o que
somos e o que queremos ser. Mas o cinema não é uma necessidade primária, sem a
qual não se pode viver. Ele se estrutura a partir de circunstâncias aleatórias,
em que o fator principal será sempre o gosto de seus frequentadores. Entendendo
por gosto a soma de elementos que vão da emoção ao conhecimento, do saber ao
sentir etc. Não ouso prever esse gosto, nem mesmo no curtíssimo prazo.
Quando o cinema surgiu como espetáculo popular, se pensou
que os teatros fechariam. E, quando a televisão tomou conta de nosso tempo de
lazer, se dizia que o cinema tinha acabado. Não aconteceu nem uma coisa, nem
outra. O novo não é necessariamente o fim do que havia antes; ele pode ser
também uma consequência ou uma recuperação do que precisava mudar no que havia
antes.
Carlos Diegues - Décimo ocupante da Cadeira 7 da ABL, eleito
em 30 de agosto de 2018 na sucessão do Acadêmico Nelson Pereira dos Santos e
recebido pelo Acadêmico Geraldo Carneiro em 12 de abril de 2019.
Falar sobre os comportamentos humanos é tão difícil quanto
você acertar sozinho na mega sena. As possibilidades de acertos são tão remotas
e passivas de mudanças constantes, assim como as numerações sorteadas
semanalmente, pois se estuda a mente humana há centenas de anos, fazem-se
milhares de pesquisas científicas e, sempre somos surpreendidos com atitudes e
reações descabidas e fora dos propósitos, somente em função de um grupo pré-determinado
que para ele até o errado seja o que passará a ser certo, apenas para agradar
os gostos daqueles que prepararam e executaram as ações!
Esses despropósitos e fatos que demonstram tolas atitudes
constantemente são tão comuns perante os noticiários, que esses se aproveitando
do Ibope que geralmente alcançam, oferecem uma cobertura, infelizmente
injustificada, se analisada friamente os propósitos esdrúxulos e simplórios,
deixando de lado assuntos muito mais importantes e pertinentes a um segundo ou
terceiro plano, transparecendo aos olhos de pessoas que pensam mais em termos
humanísticos, que os atos praticados são completamente paradoxais, expondo
sentimentos nada humanos como deveriam!
O motivo que me fez escrever a respeito, mesmo sendo e
reconhecendo um completo leigo na matéria, apenas baseando-me na perspicácia e
vivência de muitas dezenas de anos, vendo constantemente essas disparidades
incompreensivas é a invasão de um grande e renomado laboratório na cidade de S.
Roque, Estado de São Paulo, raptando mais de duzentos cães que estavam sendo
usados em pesquisas científicas, sem nenhuma comprovação que estava havendo
maus tratos, interrompendo trabalhos de vários anos em benefícios de
industrializações de medicamentos que curarão aos humanos. E olhe que no Brasil
é permitida a utilização de animais em pesquisas, principalmente, quando esses
não são sacrificados inutilmente!
Assim como vi e vejo sempre atitudes similares,
principalmente na defesa canina, deixa-me estarrecido e revoltado pela cegueira
desses e dessas criadoras de luxo de “Poodle”, que gastam fortunas com seus
animaizinhos de estimação, não fazerem levantes e protestos em benefício das
crianças abandonadas que, no norte e nordeste passam fome, trabalham desde a
infância para complementar a renda familiar, não estudam e são ou estão sempre
doentes. Estes sim é que necessitam de protestos sociais veementes, não só
junto aos governos como, principalmente, a toda sociedade, pois os benefícios
que advirão, obviamente, serão de todos os envolvidos!
Não sou contra cães e gatos, nem animal algum, mas,
sinceramente, deixar as crianças abandonadas e ficar simploriamente, somente
condenando os governos, não deixa de ser uma atitude desumana, nada racional!
Será que esse povo não enxerga nas áreas urbanas, quando
passam em seus carrões, crianças abandonadas apanhando restos de comida nas
latas de lixo para se alimentarem? Esse quadro é super comum!
Esses procedimentos humanos (?) são tão estranhos que, se
Freud vivesse mais 500 anos ainda morreria sem explicar!
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo
Mateus.
— Glória a vós, Senhor.
Naquele tempo, Pedro aproximou-se de Jesus e perguntou:
“Senhor, quantas vezes devo perdoar, se meu irmão pecar contra mim? Até sete
vezes?”
Jesus respondeu: “Não te digo até sete vezes, mas até
setenta vezes sete. Porque o Reino dos Céus é como um rei que resolveu acertar
as contas com seus empregados. Quando começou o acerto, levaram-lhe um que
lhe devia uma enorme fortuna. Como o empregado não tivesse com que pagar,
o patrão mandou que fosse vendido como escravo, junto com a mulher e os filhos
e tudo o que possuía, para que pagasse a dívida. O empregado, porém,
caiu aos pés do patrão e, prostrado, suplicava: ‘Dá-me um prazo, e eu te
pagarei tudo!’ Diante disso, o patrão teve compaixão, soltou o empregado e
perdoou-lhe a dívida. Ao sair dali, aquele empregado encontrou um dos seus
companheiros que lhe devia apenas cem moedas. Ele o agarrou e começou a
sufocá-lo, dizendo: ‘Paga o que me deves’.
O companheiro, caindo aos seus pés, suplicava: ‘Dá-me um
prazo, e eu te pagarei!’ Mas o empregado não quis saber disso. Saiu e
mandou jogá-lo na prisão, até que pagasse o que devia. Vendo o que
havia acontecido, os outros empregados ficaram muito tristes, procuraram o
patrão e lhe contaram tudo. Então o patrão mandou chamá-lo e lhe disse:
‘Empregado perverso, eu te perdoei toda a tua dívida, porque tu me
suplicaste. Não devias tu também ter compaixão do teu companheiro, como eu
tive compaixão de ti?’
O patrão indignou-se e mandou entregar aquele empregado aos
torturadores, até que pagasse toda a sua dívida. É assim que o meu Pai que
está nos céus fará convosco, se cada um não perdoar de coração ao seu irmão”.
Senhor, quantas vezes devo perdoar, se meu irmão pecar
contra mim?” (Mt 18,21)
O Evangelho deste domingo também faz parte do chamado
“discurso comunitário”, cap.18 de Mateus.
Hoje, o tema principal é o do perdão. Mateus
recolhe as instruções de Jesus sobre a maneira como os irmãos devem proceder
dentro da comunidade cristã. Sem o perdão mútuo torna-se impossível qualquer
tipo de comunidade. O perdão é a mais alta manifestação do amor; o perdão é
superlativo do amor. Reinhold Niebuh descreveu o perdão como
a “forma final do amor”.
Em outras palavras, é impensável um verdadeiro amor que não
traga consigo o perdão.
Nesse sentido, o perdão deve ser, não um ato, mas
uma atitude que se mantém durante toda a vida e diante de qualquer ofensa. Por
isso, a expressão “setenta vezes sete” quer dizer que é preciso
perdoar sempre. Os rabinos mais generosos do tempo de Jesus falavam em perdoar
as ofensas até quatro vezes.
Pedro se sente muito mais generoso e acrescenta outras três.
Sete, já era um número que indicava plenitude, mas Jesus quer deixar muito
claro que não é suficiente, porque corre-se o risco de contabilizar o perdão.
Ele se deixa guiar pela “lógica da superabundância” e não pela lei da
reciprocidade, da equivalência...; revela também que o perdão é amor
superando a justiça, a misericórdia divina superando a lei humana.
À vingança, Jesus opõe o perdão; à exigência do revide, Ele
opõe a atitude de reconciliação além de qualquer fronteira. Assim, o perdão revela-se
como uma experiência “subversiva”, pois subverte as tendências
naturais do ser humano em revidar, vingar, “pagar com a mesma moeda...
Jesus sabe que somos frágeis como o barro; sabe também
que com o barro de nossas vidas é possível fazer obras de arte.
Contam que uma pessoa tinha um vaso de barro precioso e de
grande valor. Alguém curioso o tomou em suas mãos e, por um descuido,
escorregou de suas mãos e se fez pedaços ao cair no chão. Podemos imaginar a
dor do dono do vaso. Mas ali havia um artista que prontamente se ofereceu para
acalmar os ânimos e refazer o vaso quebrado. Levou-o para sua casa e foi unindo
os pedaços com fios de ouro. Alguns dias depois, devolveu-o ao dono. Era
uma preciosidade. Impossível imaginar aquela obra de arte. Aqueles que a
contemplavam ficavam assombrados. E não faltaram entendidos de arte que
começaram a elevar o preço da obra; um preço muito superior ao que tinha antes.
Este é o sentido e a missão do perdão. Com
frequência, a comunidade cristã se faz pedaços com as ofensas fraternas. Pode
dar a impressão que ela se quebrou para sempre. Mas, aparece a capacidade de
tornar a soldar o que estava quebrado, com os fios de ouro do perdão. E a
comunidade que se havia quebrado, agora volta a ser uma comunidade nova; uma
comunidade de amor, de fraterna caridade, muito mais evangélica.
O amor que perdoa, é esse o fio de ouro capaz de reconstruir
o vaso de nossa comunidade e torná-lo mais belo e formoso que antes. Porque o
perdão recria e re-constrói vidas quebradas.
O perdão só pode nascer de um verdadeiro amor. Não
é fácil perdoar, como não é fácil amar. Vai contra todos os nossos instintos
egoístas. Por isso, a partir de nossa consciência de indivíduos fechados em
nosso ego, é impossível entender o perdão do evangelho. O ego tem necessidade
de enfrentar-se com o outro para sobreviver e potenciar-se, inclusive
aproveitando-se do próprio perdão. Ser bom, sentir-se justo, fraterno,
solidário, honesto, tudo isso - embora exija esforços - é relativamente fácil
e, muitas vezes, alimenta o próprio ego. Difícil é perdoar o
agressor, não apenas desculpando-o, mas sendo capaz de amá-lo na
totalidade do seu ser. Esse é o traço característico da comunidade cristã.
Por isso, a originalidade do cristianismo está na descoberta
da grandeza do ser humano, no exercício da única força capaz de mudar o mundo:
o amor real. Não há revolução maior.
Embora não negue o que possa ter havido um comportamento
maldoso, quem perdoa distingue entre ofensor e seu comportamento e considera o
verdadeiro valor do outro como pessoa humana que, tal qual ele
próprio, vive num mundo imperfeito, cheio de tensões e conflitos
diversos. Apontando para o valor do outro, o perdão é uma “atitude
revelatória”, de si mesmo e do outro
Perdoar supõe reconhecer a grandeza do ser humano; para
além da fragilidade, a pessoa que perdoa ou acolhe o perdão encontra-se com o
melhor de si mesma. Afirma que nela “há sempre mais coisas dignas de
admiração e de respeito”.
A virtude cristã do perdão também traz consigo a
dignificação da relação com o outro no mais elevado grau, a ponto de
transformar ódio em amor e o inimigo em irmão.
Quando alguém perdoa, mobiliza a outra pessoa, suscitando
nela um retorno à autenticidade no universo relacional consigo mesma, com os
outros, com o mundo e com Deus.
Deixemos claro que o perdão não é negar, nem
esquecer, nem forçar os sentimentos. Pelo contrário, o ponto de partida do
perdão é o pleno reconhecimento da ofensa que rompeu a relação. Mas, quem
perdoa, não se deixa conduzir pela “memória mórbida”, ou seja, não fica
“remoendo” o que de mal aconteceu; pelo contrário, reconstrói, através de uma
memória sadia, a identidade do outro, deixando de ver nele o mero
causador da ofensa para captar sua dignidade mais profunda como ser humano
valioso que é, apesar das fraquezas e limitações.
Do mesmo modo, quem perdoa ativa uma memória sadia na
percepção de si mesmo, deixando de considerar-se vítima ou magoado e
percebendo-se como pessoa capaz de elevar-se acima da mágoa ou da
ofensa. Em última análise, o perdão é um ato de fé na bondade
fundamental do ser humano.
No processo de reconstrução de si mesmo e dos outros,
o perdão também proporciona, àquele que perdoa, uma ocasião para
rever as ilusões, as idealizações infantis, a busca do perfeccionismo... que
orientavam sua vida. Quem perdoa está diante de uma situação propícia para
discernir como as falsas expectativas em relação ao comportamento dos outros
podem ter preparado o terreno para uma frustração profunda.
É uma ocasião privilegiada para a pessoa defrontar-se com
seus sentimentos agressivos, suas expectativas e a história passada. No
encontro com a verdade, quem perdoa pode conquistar maior liberdade para
relações pessoais mais profundas e duradouras. A vida de cada dia atesta que
exatamente onde se vive o perdão abre-se um novo futuro de paz.
No gesto do perdão, a pessoa pode chegar a uma
compreensão mais realista de si mesma.
Os recursos do verdadeiro perdão são infinitos.
Eles jamais acabam. Uma pessoa que perdoa algumas vezes e se recusa a perdoar
outras vezes, não conhece o significado do perdão.
O perdão não é uma operação do tipo “de vez
em quando”. É um estilo de vida. É uma disposição permanente. Na
verdade, no nível mais profundo, o “perdão não é algo que a pessoa faz, é
algo que a pessoa é”. O perdão precisa ser um gesto repetido
muitas vezes até se tornar um “hábito do coração”.
O Evangelho fala 77x7 vezes.
Texto bíblico: Mt 18,21-35
Na oração: Jesus colocou no perdão fraterno uma
das características do ser cristão; ao perdoar-nos, Deus cria em nós
um coração novo, feito de acordo com o Seu, capaz de perdoar à
sua maneira; não pode dar o perdão quem não tem consciência de tê-lo recebido;
a capacidade de perdoar é diretamente proporcional à experiência
de ser perdoado.
- Re-visitar experiências de ter vivenciado o perdão de
Deus; trazer à memória situações em que você “entrou no fluxo do perdão divino”
e foi presença visível desse perdão nas relações com as pessoas.