Total de visualizações de página

Mostrando postagens com marcador Nídia Costa Reis. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Nídia Costa Reis. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 15 de setembro de 2020

ESPLÊNDIDA MANSÃO - Nídia Costa Reis


                                                 Esplêndida Mansão

 

15 de setembro - dia do Colégio Nossa Senhora das Dores.

Escrevi esse poema para o Colégio Nossa Senhora das Dores, onde me formei em Magistério, em 1951.


Passou a carruagem pela estrada,

segui novo caminho sem parada,

só ficou solidão!

Sobre minha memória vão passando

as fímbrias de um véu e, recordando,

escuto o coração.

 

Já tão infrene chegas, ó saudade!

Pois sinto sob os golpes de impiedade

minh`alma estremecer.

Oh!, deixa-me a visão deste castelo

que embora longe se conserva belo

e nobre ante o meu ver.

 

Se eu te dissesse: ”Eis lá o Paraíso,

um turbilhão de festas e de riso,

de mágico esplendor!”

“-No céu há anjos”, - responder-me- ias;

e lá os tem! E mais: tem harmonias

e puro e santo amor.

 

As brisas matutinas vão beijá-lo,

os fogos do arrebol sentem deixá-lo,

com medo de o toldar.

E um átomo de luz sempre se avista

brilhando, eternamente, em sua crista,

guardando-o com o olhar.

 

Se um anjo do Senhor do céu baixasse

e um ramo de jasmins eu lhe entregasse,

poria em sua mão!

O!, meu Colégio! Embora já distante

eu o tenho tão presente neste instante!...

Esplêndida Mansão!

 .................


Nídia Maria da Costa Reis (Prados MG)
- Educadora, escritora, soma mais de cem pequenas histórias e poemas catalogados, além da coleção 12 provérbios e suas histórias que chegou à quarta edição e concorreu ao Prêmio Jabuti de Literatura.


* * *

quarta-feira, 10 de junho de 2020

A CAMISETA VERMELHA – Nídia Costa Reis

Meu nome é Magno.

Depois de ficar viúvo, fui morar com minha filha e meu neto em um bairro aprazível e sossegado de uma cidade do interior do Paraná.

Sou como um Cravo que perdeu a Rosa, mas continua no jardim. Vivo das boas lembranças e gosto de ser útil sempre que me é possível. Nunca fui de muitas letras, mas leio a Bíblia, gosto de livros de aventuras e faço palavras cruzadas com o dicionário por perto, naturalmente.

No princípio, era interessante observar a rua, o trânsito de pessoas e veículos, os estudantes com seus fardos escolares, o ruído de uma cidade maior. Hoje, prefiro o sossego de meu quarto a buzinas e vozes na calçada.

Da porta da cozinha de nossa casa, eu via uma igreja e várias casas a uns sessenta metros de distância. Entre elas, um sobradinho com duas janelas e uma chaminé que soltava fumaça o dia inteiro e me trazia boas lembranças do antigo fogão a lenha da fazenda de meus pais. Enquanto esperava a hora do almoço, de vez em quando eu olhava a fumaça, ora espessa, ora quase imperceptível e, por isso, podia calcular a quantidade de lenha que ardia na boca daquele fogão.

Certo dia, além da fumaça, vi uma camiseta vermelha dependurada em uma das janelas do sobradinho. Às vezes, ela balançava e parecia que ia cair a qualquer momento. Com certeza, a vizinhança também estava de olho nela, não pela cor, mas pelo varal improvisado, na janela, onde ficou o dia inteiro. Ao anoitecer, ela continuava no mesmo lugar. Se fosse para secar já estaria seca, pensei. Por que não a recolheram? Percebi que minha curiosidade estava fora de controle e, por isso, decidi deixar a camiseta sossegada, embora estivesse morto de vontade de saber a opinião de alguém de minha família sobre o assunto. Eu tinha fama de ser curioso, portanto, se perguntasse à minha filha, ouviria de novo a mesma frase: “deixa pra lá, papai. Já vem o senhor de novo?”

Mas quem não seria capaz de observar uma camiseta vermelha na janela o dia inteiro? Calculei que o dono da camiseta se tratava de um torcedor de algum time de futebol ou de algum carnavalesco que exibia sua camiseta de escola de samba, guardada durante um ano, dentro do guarda-roupa.

No dia seguinte, fiquei bastante assustado. A camiseta vermelha estava na janela, do mesmo jeito, no mesmíssimo lugar. Achei que havia algo de misterioso para ser explicado, antes que eu desse um ataque de histeria e fosse internado em um manicômio qualquer. Comecei a desconfiar de mim mesmo. Eu era apenas idoso, não velho, e sempre achei que minha cabeça funcionava bem, mas, naquele momento, já não tinha tanta certeza. Talvez, havia começado a caducar e ainda não percebera! Mas, que maldita camiseta seria aquela?

Saí decidido a pedir socorro à primeira pessoa que encontrasse pela casa, a fim de desvendar aquele mistério. Minha filha já havia saído para o trabalho e a empregada lavava a louça do café. Avistei meu neto na varanda e pedi-lhe que viesse me ajudar, pois eu não estava me sentido bem. Ele veio resmungando como sempre fazia quando eu lhe pedia qualquer coisa. Fomos até a porta da cozinha, criei coragem e, meio sem jeito, fingindo não ser nada muito importante, perguntei-lhe:

- Paulinho, está vendo aquela camiseta vermelha na janela daquele sobradinho, lá adiante?

- Que janela? - perguntou.

- Aquela, do sobrado. Não está vendo uma camisa vermelha balançando, balançando?

- Não vejo nenhuma camiseta vermelha, vovô. O senhor está enxergando demais e vendo coisas de uns tempos para cá. Isto é perigoso. Também nessa idade...

Fiquei parado, triste e desiludido. Eu andava vendo coisas ultimamente. Outro dia vi um gambá no muro; era um gato. Cumprimentei o soldado José; era o sargento Oliveira. Antes, podia jurar que minha cabeça funcionava muito bem, mas, agora, comecei a duvidar.

Eu não estava preparado para aceitar chacotas e conviver com as cobranças do tempo, as deficiências da idade,. Enfim, eu não admitia ser um octogenário inútil, caduco, imprestável.

Durante o almoço, percebi que meu neto estava aflito para falar sobre a camiseta do sobradinho. Então, passei-lhe um olhar de cobra venenosa e ele se conteve, mas advertiu minha filha de que ela deveria levar-me ao médico, pois achava que, na minha idade, era urgente uma consulta.

- Vovô está treslendo, meio lelé. Eu acho — disse ele.

Fiquei quieto, não disse nada, à espera da contestação de minha filha, mas ela parou de comer, olhou-me com ternura, aprovou a ideia e se dispôs a marcar um exame com um neurologista. Foi duro constatar que minha família desconfiava de minhas faculdades mentais, mas, no fundo, não era isto que eu queria?

E a camiseta vermelha? Quanto tempo eu aguentaria a visão que me atormentava dia e noite, sem poder desvendar aquele mistério?
     
No dia marcado para a consulta, entramos no carro e rumamos para o consultório do neurologista. Durante o percurso, meu neto resolveu antecipar o exame e começou a me testar, digo, me tentar:

- Vovô, que rua é esta? Aquela é a igreja de São Bento ou a de São Francisco? Meu colégio fica para cá ou para lá?

Achei suas perguntas uma falta de respeito e já ia chamar-lhe a atenção quando minha filha se antecipou e passou-lhe uma escaramuça de primeira. Coitado do Paulinho! Depois de me pedir desculpas, encolheu-se no banco de trás e não deu nem mais uma palavra. O pior era que eu não saberia responder a nenhuma de suas perguntas, pois há muito tempo, não passava por aquela parte da cidade e seria mais uma demonstração de que minha cabeça estava em péssimo estado de conservação.

No consultório, o médico deu início aos exames de rotina: mediu a pressão, auscultou-me os pulmões e o coração, revirou-me as pálpebras, olhou a língua e a garganta. Depois, pegou um martelo e bateu em meus joelhos com força. Dei um pulo na cadeira e vi que ele gostou, mas eu não achei graça nenhuma. Fiquei de pé para algumas palhaçadas: “Levante a mão esquerda, equilibre-se em uma perna só, mostre-me a orelha direita e a esquerda”. Eu obedecia às suas ordens como um robô japonês e já ia reclamar da incômoda ginástica, quando ele, amavelmente, deu-me um tapinha nas costas e mandou que me assentasse, naturalmente, para o veredicto final. Pela sua fisionomia calma e satisfeita, percebi que ia sair livre de qualquer culpa na minha saúde. Então, confessei-lhe que andava vendo coisas estranhas, trocando gambá por gato e soldado por sargento. Falei sobre a camiseta vermelha do sobradinho que só era vista por mim e afirmei-lhe que estava á beira da loucura. Ele não levou minhas queixas a sério e disse ser perfeitamente normal esses enganos na minha idade. Aconselhou-me a observar melhor antes de tirar conclusões, fazer pequenas caminhadas pelo bairro e cuidar da alimentação. Antes de sair, ele quis falar com minha filha. Pedi-lhe que não dissesse nada a ela a respeito de minhas visões para não ficar preocupada e passar a me vigiar dia e noite. 

Na volta, perguntei-lhe se estava tudo bem comigo. Disse - lhe que eu não havia gostado nem um pouco da consulta porque ele não me dera muita atenção e não me levara a sério. Minha filha, como sempre, não poupou esforços para me acalmar. Eu não tinha nada grave, mas seria bom procurar um oculista. Protestei, argumentando não ter dinheiro para tantas consultas, que minha aposentadoria, em breve, iria virar salário mínimo e meu plano de saúde não me garantia quase nada. Ela me afirmou que não seria por falta de recursos que eu deixaria de ir ao oculista. Já fazia muitos anos que eu usava os mesmos óculos e, depois dos oitenta, é comum ter catarata. Fiquei comovido pela preocupação de minha filha e já ia agradecer quando Paulinho saiu-se com esta:

- Eu quero ajudar o vovô. De hoje em diante o senhor não precisa me dar os cinquenta centavos do picolé. De cinquenta em cinquenta...

Tratei de mudar de assunto a fim de não dar oportunidade a meu neto de falar sobre a camiseta vermelha. Foi em vão. Parece que, de propósito, ele resmungou:

- Eu sei que o senhor anda vendo coisas esquisitas, não é verdade, vovô? E aquela história de camiseta ver...

Interrompi sua pergunta, virei para trás e fulminei-o com um olhar de cachorro bravo. Ele me entendeu e passou o resto do trajeto em silêncio. Preocupada na direção do carro, minha filha nada percebeu e o assunto foi encerrado.

Ao entrar em casa, fui direto à porta da cozinha, antes de ir ao banheiro, tal era a minha aflição e curiosidade. Lá estava ela, do mesmo jeito, tremulando como uma bandeira ameaçadora de piratas. Absorto pela visão aterradora, nem percebi a chegada do Paulinho que, cheio de malícia, falou baixinho:

- Aí, vovô, procurando a camiseta, não é? O senhor não desiste dessa história!

Assustado, repreendi-o mais baixo ainda.

- Quieto, menino tagarela. Não vê que sua mãe está ali na copa? Deixe-me em paz! Vá lavar as mãos para o lanche. Vá logo!

Durante o lanche, ficou resolvido que eu iria ao oculista assim que recebesse o pagamento de minha aposentadoria. Era minha última esperança de me livrar daquela maldita camiseta vermelha na janela do sobradinho.

Não admitia estar fraco de ideia, sei lá, de miolo mole, como insinuava meu neto. Agarrei-me à possibilidade de ter mesmo a catarata para conseguir esperar o dia da consulta. Prometi a mim mesmo não chegar à porta da cozinha com intuito de satisfazer minha curiosidade.

Passei a frequentar a cadeira da varanda onde ficava horas e horas lendo, pensando ou cochilando até a hora das novelas. Os dias tornaram-se mais longos, quase insuportáveis. Paulinho, que não era bobo, percebeu minha mudança de hábitos e, uma noite, assentou-se bem perto de mim e cochichou:

- Vovô, não fica nervoso. Mamãe já marcou a consulta. Aposto que é só uma operaçãozinha de nada e o senhor nunca mais vai ver aquela camiseta, está bem?                                                       

Quinze dia depois, fui submetido a uma cirurgia de catarata. Fiquei algum tempo de “quarentena”, à espera dos novos óculos como um náufrago perdido em alto mar, à espera de um navio salvador que o livrasse dos tormentos da fome, da sede e da impiedade do sol.

Finalmente, uma bela tarde, minha filha, ao chegar do trabalho, trouxe a caixinha com meu socorro visual. Ela e meu neto fizeram questão de presenciar o teste. Eu não reclamei por educação, mas detesto ser observado e analisado, porque não sou mais um galã e meu nariz é maior que o desejado.

Meio sem jeito, coloquei os óculos diante do espelho e fiquei parado sem saber o que dizer, tentando enxergar meu rosto e verificar o resultado da cirurgia. Esperei que um deles dissesse alguma palavra e não sabia mais o que fazer, se olhava de lá para cá, de cima para baixo. Nada acontecia, e o silêncio era total para meu desespero e aflição. Finalmente, meu neto resolveu dar o ar da graça e disse:

- Ó, vovô! Legal! O senhor está parecendo o Rui Barbosa!

Paulinho sempre me constrangia por seus palpites maliciosos. Minha filha, mais interessada na qualidade de minha visão que em minha aparência, sugeriu que fôssemos até a janela para que eu pudesse ver à distância.

- Janela, não – replicou meu esperto netinho. Vamos à porta da cozinha. É melhor. O senhor pode ver o sobradinho e aquela cami...

Antes de ela terminar a frase, saí depressa, seguido por minha filha, esbarrando nas cadeiras, tropeçando no tapete, ansioso pelo momento de provar que eu não estava maluco nem tampouco com a mente deteriorada pela idade.

Paramos na soleira da porta, os três, mudos e apreensivos. Vi o sobradinho e procurei a camiseta vermelha. Minha filha, que de nada sabia, perguntou-me se eu estava enxergando melhor, mas meu neto, percebendo minha desilusão, entrou na conversa e saiu-se com esta:

- Vovô, está vendo as janelas do sobradinho? O que o senhor está vendo em uma delas? É a mesma coisa que o senhor viu naquele dia?

Eu estava em tempo de desmaiar de tanta felicidade. Minhas pernas tremiam e meu coração batia descompassado, provocando-me um pouco de falta de ar. Foi com grande alegria e alívio que lhe respondi:

- Não, Paulinho. Deus seja bendito! Quer mesmo saber o que vejo lá na janela do sobradinho? Agora estou vendo um lençol vermelho balançando pra lá e pra cá. Meu Deus! Como eu estava cego!

Meu neto explodiu numa sonora gargalhada e correu para o quintal quase morto de tanto rir. Minha filha, assustada, abraçou-me ternamente, afagou-me a cabeça e, desconsolada, disse:

- Não ligue para o Paulinho, pai. Ele anda impossível. Sua visão está ainda bem boa. O senhor quase acertou. Aquilo não é lençol, pai. É uma cortininha vermelha, esquisita, que está lá há muito tempo. De longe, para quem não enxerga bem, eu juro que até parece uma camiseta vermelha!  

                                        
                                                 Nídia Maria da Costa Reis
                                                           21 / 07 /2007
.................
Nídia Maria da Costa Reis - Educadora, escritora, soma mais de cem pequenas histórias e poemas catalogados, além da coleção 12 provérbios e suas histórias que chegou à quarta edição e concorreu ao Prêmio Jabuti de Literatura. Aventuras de Gui Omar é seu trabalho mais recente.

* * *

quarta-feira, 20 de maio de 2020

UM HOMEM DE SERIEDADE – Nídia Maria Costa Reis


Um Homem de Seriedade 
Nídia Maria Costa Reis


                     - Oi, professor, vai um dinheirinho hoje? Juro tá bão!

                    Era sempre assim. Dorneles, o agiota analfabeto, mas bom de conta, não podia ver o professor Avelar na varanda de seu bangalô, sem lhe oferecer um empréstimo, raras vezes rejeitado. Ele sabia que, mesmo sem muita necessidade, o professor sempre aceitava alguma quantia. Era uma espécie de vício, adquirido ao longo dos anos de aperto financeiro que o levava sempre aos benditos cruzeiro, cruzados e reais do Dorneles.

          Agora, o professor tinha melhorado de vida. Tinha casa própria, filhos empregados e crédito fácil no comércio porque, apesar dos miseráveis proventos de professor aposentado que, mensalmente, caíam em seu bolso, ele sempre pagava o que devia, a trancos e barrancos, mas pagava. Andava até muito saliente com um fusquinha azul, bem conservado, presente que ele havia dado a si mesmo quando ganhou na loteria, num rasgo benevolente da sorte. Mesmo sem carteira de motorista, ele aventurava-se pelas estradas de terra de seu município, sempre acompanhado de sua esposa, em busca de lagoas e peixes ariscos.

          Certa vez, numa dessas pescarias improdutivas, viram-se numa enrascada dos diabos. Foi num cenário poético, junto à ponte da rodovia. Uma colina de cada lado, o rio no meio, barulhento, sobre um leito de rochas. Estacionaram o fusquinha em um pequeno acostamento e aproveitaram a parada para um cafezinho quente, já antegozando o “tête à tête” com os peixes. Eram três horas da tarde e fazia muito calor. O sol, inclinado, castigava-os sem dó nem piedade e aquecia excessivamente a atmosfera. De repente, surgiram cabriolando e atacando de rijo as primeiras abelhas. Umas tantas ferroadas aqui e ali, e, depois, o dilúvio do zumbido de asas malignas, dos golpes certeiros de ferrões aguçados e venenosos. O pobre professor e sua esposa precipitaram-se por barrancos e capinzais, desferindo taponas e esfregadelas na cabeça e no pescoço. Com o rosto coalhado de abelhas, tropeçando nas pedras e nas touceiras de capim, finalmente avistaram, à margem da rodovia, uma casinha onde se refugiaram e receberam os primeiros socorros.

          Sua esposa jurou por tudo que é sagrado jamais voltar a pescar, mas o professor, que enfrentara o desafio de inserir a tabuada na cabeça de seus alunos, durante vinte e cinco anos, não ia desistir tão facilmente. Passado o susto e a recuperação, voltaram às pistas, aos peixes e às abelhas.

          Certa manhã de domingo, o Dorneles voltava da missa todo enfatiotado, aflito para chegar a seu sítio e apartar as vacas. Para aproveitar a viagem, resolveu dar uma passadinha diante da casa do professor. Encontrou-o, como de costume, assentado no canto da varanda.

          - Bom dia, professor! Pegando um solzinho, né? Até que é bão, mas escuta, professor, queria ter um malemaleque com o senhor, posso?

          - Que história é essa, homem? Quanta falta de respeito!

          - Deus me livre, professor. Sou um homem de seriedade. É só um dedinho de prosa, gente! Só isso! Olhe, professor, fim do mês tá chegando. Aqueles quinhentos com mais sete por cento... fico preocupado. E o senhor? Ah!, mudando de assunto, outro dia eu ouvi a banda tocar na procissão uma música animada pra caramba. O Roque, aquele que toca prato, disse que foi o senhor que fez, é verdade? Eu sempre tive vontade de tocar um instrumento na banda. Se eu pudesse queria aquele fininho e preto. É bacana.

          - Deve ser a clarineta. Você tem bom gosto, mas, antes, é preciso aprender teoria musical e solfejo.

          - Quem me dera! Sou meio turrão, professor. Só alisei o banco da escola.

          Aproveitando a deixa, o professor animou-se com o assunto, falou bastante sobre música e a conversa parou por aí. O Dorneles seguiu caminho e deixou o coitado do professor bastante preocupado com a história dos quinhentos reais. Mais dia, menos dia, ele teria de barrar a escalada da dívida antes de recorrer ao FMI. O pior é que não sobrava nem um centavo depois de pagar o açougue, a padaria, a farmácia...

          Apesar da preocupação, o professor Avelar achou interessante aquele sujeito rude, sovina e ignorante ser sensível à arte de Euterpe. O Dorneles não era assim tão bronco como pensava. Ele gostava de música e apreciara seu último dobrado que, aliás, era mesmo uma criação de mestre. Homem culto, violinista, poeta, compositor e maestro, o professor, naquele momento, preferia uma carteira recheada a tantos dotes intelectuais. Na verdade, estava mesmo numa boa enrascada. Foi, então, que lhe veio a feliz ideia de trocar lições de solfejo pelos juros da dívida. Seria um bom negócio para os dois. Proposta feita, proposta aceita. Nos fins de semana, o Dorneles passou a vir religiosamente ao bangalô do professor Avelar para as lições de solfejo e teoria musical. O professor cada vez mais se entusiasmava com o talento e a notável aplicação de seu aluno que seguia, à risca, seus ensinamentos em troca dos juros dos quinhentos reais.

          Alguns meses se passaram e, após as lições sobre “andamento e ornamentos”, o professor, a contragosto, deu por encerradas as aulas e admitiu o recomeço do pagamento dos juros. A não ser que...

          - Desistiu da clarineta, Dorneles?

          - Eu? Quá! Quem sou eu, professor? Nem clarineta eu tenho.

          - Isto a gente dá um jeito. Posso ajudar.

          - É, mas quem vai me ensinar? O Roque não sabe. Ele só toca prato.

          - Eu ensino, se quiser. Acho que aprende em pouco tempo.

          - O senhor sabe tocar clarineta também? Puxa! O senhor é danadinho, professor.

          As aulas recomeçaram, desta vez ao som de uma clarineta emprestada. O aprendizado ia de vento em popa enquanto os juros permaneciam estacionados para a felicidade do professor Avelar. No início, eram só os primeiros sopros desafinados, seguidos das notas soltas e de escalas ascendentes e descendentes. Depois, o professor compunha umas lições fáceis, com mínimas e semínimas, diversificava os compassos, introduzia colcheias, semicolcheias e pausas. Dorneles assimilava tudo com a maior facilidade, a ponto de o professor escrever para ele uma valsinha cheia de quiálteras e apogiaturas, valsinha que foi digerida num átimo. O aluno tinha parte com o sopro e a palheta.

          Nada mais havendo para ser ensinado e aprendido, para a alegria do aluno e a tristeza do professor, encerraram-se as atividades musicais. Poucos dias depois, o Dorneles apareceu na porta do bangalô do professor com a finalidade de reativar os juros dos quinhentos reais. Apesar de todos os benefícios recebidos, ele não estava disposto a perdoar um centavo sequer. Conversa vai, conversa vem, o Dorneles deixou transparecer sua desilusão com a clarineta. O estudo fora perda de tempo, pois não tinha músicas para executar em seu instrumento e não conseguia tocar sem ver as notas na pauta, com compasso e tudo mais. O professor, imaginando uma proposta interessante, arriscou:

          - Não seja por isso. Tenho algumas partituras de valsa, dobrados e marchas fúnebres que compus e nunca foram executados por aí. Se quiser aproveitá-las, posso emprestar-lhe algumas se ...

          - Aceito. Dois meses sem os juros, conforme a quantidade.

          O professor não esperou mais nada. Saiu às pressas para o quartinho da sala onde guardava o violino, o trompete, aposentado por falta de fôlego, e as benditas partituras musicais de sua autoria, um calhamaço de fazer inveja a J Strauss, a J F Sousa, e a João da Mata, uma preciosidade.

          Quando voltou, tratou de apresentar a obra, exagerando nos elogios e atenuando as dificuldades. O Dorneles, de queixo caído diante daquele precioso acervo, não teve dúvidas de que se tratava de um negócio da China. Afinal, ele jamais compraria tamanha coleção pelos juros de dois meses, uns setenta reais.

          Feliz da vida, o Dorneles se foi, levando consigo três valsas, dois dobrados e duas marchas fúnebres, obras inéditas da melhor qualidade. Foi-se e desapareceu por algum tempo. O professor, assentado em sua cadeira, na varanda do bangalô, respirava aliviado por ter feito o melhor negócio de sua vida. Mas a felicidade durou apenas alguns meses. Um belo dia, ou melhor, um dia sinistro, o Dorneles apareceu com as mãos nos bolsos da calça e um sorriso maroto de quem havia levado a melhor em alguma transação.

          - Oi, professor, que tempão, hem? Tomei chá de sumiço, não tomei? O senhor, com certeza, achou que eu morri, não achou?

          - Morrer? Você não morre assim tão fácil, meu amigo. É jovem e cheio de vida. Eu é que já estou na fila... Mas, que aconteceu? Ah, já sei. Os quinhentos, não é?

          - Que nada! é só um malemaleque sem importância. Eu vim passando e... Ah, quer saber? pra falar a verdade é sobre eles mesmo. Só que o negócio agora é outro.

          - Aumentou os juros. Eu já esperava. Coitado de quem pede dinheiro a qualquer um.

          - Que é isso, professor? Sou um homem de seriedade. Pra provar que sou um sujeito sério, fiz um negocião pra nós dois. Pra mim e pro senhor.

          - Negocião? Bom para mim?

          - Não é, professor? Escute. Eu não sou bobo nem nada. Já percebi, há muito tempo, que o senhor nunca vai me pagar os quinhentos que me deve. Então, resolvi tomar minhas providências.

          - Providências?

          - É isso mesmo. Outro dia, fui levar umas encomendas lá em Brojocó e fiquei sabendo que a cidade tinha uma bandinha de música, uma bandinha de nada, muito mixuruca. Aí, eu procurei o músico maestro e fiz a oferta.

          - Oferta?

          - Ele topou na hora. Vendi as partituras do senhor por seiscentos reais e ainda me convidou para tocar clarineta na banda dele. Tirei meus quinhentos e vim trazer o troco de cem pro senhor. Aqui, tome. Cem reais. Tudo resolvido. Um negocião! Sou ou não sou um homem de seriedade?

.................
Nídia Maria da Costa Reis - Educadora, escritora, soma mais de cem pequenas histórias e poemas catalogados, além da coleção 12 provérbios e suas histórias, que chegou à quarta edição e concorreu ao Prêmio Jabuti de Literatura. Aventuras de Gui Omar é seu trabalho mais recente.



** *