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domingo, 13 de setembro de 2020

PALAVRA DA SALVAÇÃO (201)


24º Domingo do Tempo Comum – 13/09/2020

 

Anúncio do Evangelho (Mt 18,21-35)

— O Senhor esteja convosco.

— Ele está no meio de nós.

— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Mateus.

— Glória a vós, Senhor.

 Naquele tempo, Pedro aproximou-se de Jesus e perguntou: “Senhor, quantas vezes devo perdoar, se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes?”

Jesus respondeu: “Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete. Porque o Reino dos Céus é como um rei que resolveu acertar as contas com seus empregados. Quando começou o acerto, levaram-lhe um que lhe devia uma enorme fortuna. Como o empregado não tivesse com que pagar, o patrão mandou que fosse vendido como escravo, junto com a mulher e os filhos e tudo o que possuía, para que pagasse a dívida.  O empregado, porém, caiu aos pés do patrão e, prostrado, suplicava: ‘Dá-me um prazo, e eu te pagarei tudo!’ Diante disso, o patrão teve compaixão, soltou o empregado e perdoou-lhe a dívida. Ao sair dali, aquele empregado encontrou um dos seus companheiros que lhe devia apenas cem moedas. Ele o agarrou e começou a sufocá-lo, dizendo: ‘Paga o que me deves’.

O companheiro, caindo aos seus pés, suplicava: ‘Dá-me um prazo, e eu te pagarei!’ Mas o empregado não quis saber disso. Saiu e mandou jogá-lo na prisão, até que pagasse o que devia.  Vendo o que havia acontecido, os outros empregados ficaram muito tristes, procuraram o patrão e lhe contaram tudo. Então o patrão mandou chamá-lo e lhe disse: ‘Empregado perverso, eu te perdoei toda a tua dívida, porque tu me suplicaste. Não devias tu também ter compaixão do teu companheiro, como eu tive compaixão de ti?’

O patrão indignou-se e mandou entregar aquele empregado aos torturadores, até que pagasse toda a sua dívida. É assim que o meu Pai que está nos céus fará convosco, se cada um não perdoar de coração ao seu irmão”.

— Palavra da Salvação.

— Glória a vós, Senhor.

 https://liturgia.cancaonova.com/pb/

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Ligue o vídeo abaixo a acompanhe a reflexão do Pe Roger Araújo:



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A força reconstrutora do perdão



Senhor, quantas vezes devo perdoar, se meu irmão pecar contra mim?” (Mt 18,21)


O Evangelho deste domingo também faz parte do chamado “discurso comunitário”, cap.18 de Mateus.

Hoje, o tema principal é o do perdão. Mateus recolhe as instruções de Jesus sobre a maneira como os irmãos devem proceder dentro da comunidade cristã. Sem o perdão mútuo torna-se impossível qualquer tipo de comunidade. O perdão é a mais alta manifestação do amor; o perdão é superlativo do amor. Reinhold Niebuh descreveu o perdão como a “forma final do amor”.

Em outras palavras, é impensável um verdadeiro amor que não traga consigo o perdão.

Nesse sentido, o perdão deve ser, não um ato, mas uma atitude que se mantém durante toda a vida e diante de qualquer ofensa. Por isso, a expressão “setenta vezes sete” quer dizer que é preciso perdoar sempre. Os rabinos mais generosos do tempo de Jesus falavam em perdoar as ofensas até quatro vezes.

Pedro se sente muito mais generoso e acrescenta outras três. Sete, já era um número que indicava plenitude, mas Jesus quer deixar muito claro que não é suficiente, porque corre-se o risco de contabilizar o perdão. Ele se deixa guiar pela “lógica da superabundância” e não pela lei da reciprocidade, da equivalência...; revela também que o perdão é amor superando a justiça, a misericórdia divina superando a lei humana.

À vingança, Jesus opõe o perdão; à exigência do revide, Ele opõe a atitude de reconciliação além de qualquer fronteira. Assim, o perdão revela-se como uma experiência “subversiva”, pois subverte as tendências naturais do ser humano em revidar, vingar, “pagar com a mesma moeda...

 Jesus sabe que somos frágeis como o barro; sabe também que com o barro de nossas vidas é possível fazer obras de arte.

Contam que uma pessoa tinha um vaso de barro precioso e de grande valor. Alguém curioso o tomou em suas mãos e, por um descuido, escorregou de suas mãos e se fez pedaços ao cair no chão. Podemos imaginar a dor do dono do vaso. Mas ali havia um artista que prontamente se ofereceu para acalmar os ânimos e refazer o vaso quebrado. Levou-o para sua casa e foi unindo os pedaços com fios de ouro. Alguns dias depois, devolveu-o ao dono. Era uma preciosidade. Impossível imaginar aquela obra de arte. Aqueles que a contemplavam ficavam assombrados. E não faltaram entendidos de arte que começaram a elevar o preço da obra; um preço muito superior ao que tinha antes.

Este é o sentido e a missão do perdão. Com frequência, a comunidade cristã se faz pedaços com as ofensas fraternas. Pode dar a impressão que ela se quebrou para sempre. Mas, aparece a capacidade de tornar a soldar o que estava quebrado, com os fios de ouro do perdão. E a comunidade que se havia quebrado, agora volta a ser uma comunidade nova; uma comunidade de amor, de fraterna caridade, muito mais evangélica.

O amor que perdoa, é esse o fio de ouro capaz de reconstruir o vaso de nossa comunidade e torná-lo mais belo e formoso que antes. Porque o perdão recria e re-constrói vidas quebradas.

O perdão só pode nascer de um verdadeiro amor. Não é fácil perdoar, como não é fácil amar. Vai contra todos os nossos instintos egoístas. Por isso, a partir de nossa consciência de indivíduos fechados em nosso ego, é impossível entender o perdão do evangelho. O ego tem necessidade de enfrentar-se com o outro para sobreviver e potenciar-se, inclusive aproveitando-se do próprio perdão. Ser bom, sentir-se justo, fraterno, solidário, honesto, tudo isso - embora exija esforços - é relativamente fácil e, muitas vezes, alimenta o próprio ego. Difícil é perdoar o agressor, não apenas desculpando-o, mas sendo capaz de amá-lo na totalidade do seu ser. Esse é o traço característico da comunidade cristã.

Por isso, a originalidade do cristianismo está na descoberta da grandeza do ser humano, no exercício da única força capaz de mudar o mundo: o amor real. Não há revolução maior. 

Embora não negue o que possa ter havido um comportamento maldoso, quem perdoa distingue entre ofensor e seu comportamento e considera o verdadeiro valor do outro como pessoa humana que, tal qual ele próprio, vive num mundo imperfeito, cheio de tensões e conflitos diversos. Apontando para o valor do outro, o perdão é uma “atitude revelatória”, de si mesmo e do outro

Perdoar supõe reconhecer a grandeza do ser humano; para além da fragilidade, a pessoa que perdoa ou acolhe o perdão encontra-se com o melhor de si mesma. Afirma que nela “há sempre mais coisas dignas de admiração e de respeito”.

A virtude cristã do perdão também traz consigo a dignificação da relação com o outro no mais elevado grau, a ponto de transformar ódio em amor e o inimigo em irmão.

Quando alguém perdoa, mobiliza a outra pessoa, suscitando nela um retorno à autenticidade no universo relacional consigo mesma, com os outros, com o mundo e com Deus.

Deixemos claro que o perdão não é negar, nem esquecer, nem forçar os sentimentos. Pelo contrário, o ponto de partida do perdão é o pleno reconhecimento da ofensa que rompeu a relação. Mas, quem perdoa, não se deixa conduzir pela “memória mórbida”, ou seja, não fica “remoendo” o que de mal aconteceu; pelo contrário, reconstrói, através de uma memória sadia, a identidade do outro, deixando de ver nele o mero causador da ofensa para captar sua dignidade mais profunda como ser humano valioso que é, apesar das fraquezas e limitações.

Do mesmo modo, quem perdoa ativa uma memória sadia na percepção de si mesmo, deixando de considerar-se vítima ou magoado e percebendo-se como pessoa capaz de elevar-se acima da mágoa ou da ofensa. Em última análise, o perdão é um ato de fé na bondade fundamental do ser humano

No processo de reconstrução de si mesmo e dos outros, o perdão também proporciona, àquele que perdoa, uma ocasião para rever as ilusões, as idealizações infantis, a busca do perfeccionismo... que orientavam sua vida. Quem perdoa está diante de uma situação propícia para discernir como as falsas expectativas em relação ao comportamento dos outros podem ter preparado o terreno para uma frustração profunda.

É uma ocasião privilegiada para a pessoa defrontar-se com seus sentimentos agressivos, suas expectativas e a história passada. No encontro com a verdade, quem perdoa pode conquistar maior liberdade para relações pessoais mais profundas e duradouras. A vida de cada dia atesta que exatamente onde se vive o perdão abre-se um novo futuro de paz.

No gesto do perdão, a pessoa pode chegar a uma compreensão mais realista de si mesma. 

Os recursos do verdadeiro perdão são infinitos. Eles jamais acabam. Uma pessoa que perdoa algumas vezes e se recusa a perdoar outras vezes, não conhece o significado do perdão.

O perdão não é uma operação do tipo “de vez em quando”. É um estilo de vida. É uma disposição permanente. Na verdade, no nível mais profundo, o “perdão não é algo que a pessoa faz, é algo que a pessoa é”. O perdão precisa ser um gesto repetido muitas vezes até se tornar um “hábito do coração”.

O Evangelho fala 77x7 vezes.

Texto bíblico:  Mt 18,21-35

Na oração: Jesus colocou no perdão fraterno uma das características do ser cristão; ao perdoar-nos, Deus cria em nós um coração novo, feito de acordo com o Seu, capaz de perdoar à sua maneira; não pode dar o perdão quem não tem consciência de tê-lo recebido; a capacidade de perdoar é diretamente proporcional à experiência de ser perdoado.

- Re-visitar experiências de ter vivenciado o perdão de Deus; trazer à memória situações em que você “entrou no fluxo do perdão divino” e foi presença visível desse perdão nas relações com as pessoas.


 Pe. Adroaldo Palaoro sj

https://centroloyola.org.br/revista/outras-palavras/espiritualidade/2144-a-forca-reconstrutora-do-perdao


* * *


terça-feira, 13 de novembro de 2018

ITABUNA CENTENÁRIA, UM POEMA: O PERDÃO – Catulo da Paixão Cearense


O Perdão
(A Bastos Tigre)


João Carreiro era um carreiro,
proprietário de um carro
e de uma junta de bois.
Com a dona Chica Constança,
com quem se casou depois,
recebeu-os como herança,
do falecido Ramalho,
seu padrinho e seu avô.
(“Avô? Mas avô de quem?
Já estou contando na certa
com a tua interrogação!)

A pena não se explicou.

Mas tudo fica explicado
numa breve explicação: -
o velho, o avô falecido,
era o da moça!... (Percebe?
Não era avô do João!)
O velho, que já sabia
que o rapaz gostava dela,
e ela, - do rapagão,
não tendo mais que deixar,
morrendo, deixou-lhe a neta
e mais os bois e o carrão.

A Constança, com franqueza,
a neta do Zé Ramalho,
não era a flor da beleza,
mas era a flor do trabalho.

Todo o tesouro, a fortuna,
todo o bem do João Carreiro,
desse homem trabalhador,
todo o afeto, o seu amor,
todo o seu grande ideal,
era a Constança, o seu carro,
a bela junta de bois
que estava lá no curral,
e o seu templo – a sua choça
a casa mais conhecida
de toda gente da roça.

Dizem mesmo algumas bocas
que o nosso belo carreiro
foi um tanto interesseiro,
porque se casou, primeiro
pelo carro e pelos bois...
- Mas não amava a Constança?!
- Amava... Mas todos dizem
que o amor veio depois.

Quem visse aqueles carinhos
com que tratava o seu gado,
ficava desconfiado!

Os bois não eram crianças,
mas também não eram velhos,
pois quando inchavam nas pernas,
para fazerem aparro,
e arrancavam do lameiro
as duas rodas do carro,
com os nervos dos seus pescoços...
eram bem moços... bem moços!...

Um chamava-se Laranjo,
e era um boi arreliado,
forçudo, mas preguiçoso:
o outro era o Beija-Flor,
que era também de vigor,
mas muito manso e amoroso.

Para pegar o Laranjo
e botá-lo no varão,
era um trabalho estupendo,
eram horas de canseiras;
pois quando o boi pressentia
que o dono vinha agarrá-lo,
corria, como um cavalo,
pelas matas e capoeiras.

Ao passo que o Beija-Flor,
carinhoso, terno e leal,
bastava ouvir o seu grito,
acorria logo aflito,
para encostar-se ao varal.

Enquanto para o Laranjo
fazer uma simples coisa
era preciso que o dono
se esfalfasse de gritar,
o Beija, sempre fagueiro,
obedecia ao carreiro
por um simplíssimo olhar.

Tudo o que o dono dizia,
gesticulando ou falando,
o Beija-Flor entendia.

Quando a carroça caía
num caldeirão do caminho,
o Beija-Flor já sabia
o que tinha de fazer,
sem auxílio do varão.

E quando o outro fingia
que estava fazendo força
para arrancar a carroça
de dentro do caldeirão,
num gemido que soltava,
parece que assim falava:

“O Laranjo está fingindo!
“Não está puxando, nhôr, não!”

Então o cabra levava
tanta varada e ferrão,
que o sangue logo espirrava,
a ensanguentar todo o chão.

À noite daquele dia,
o Laranjo recebia
metade só da ração.
E ainda mais: por pirraça,
na noite daquele dia,
O Beija-Flor só comia
o raro capim mimoso,
que é o novinho e o mais gostoso!

Mas o boi não se emendava,
porque gostava da turra!
Já tinha o ventre lanhado
e o pescoço encalombado
de chupitar tanta surra!

De uma feita, numa luta,
num combate desastrado,
o Laranjo ia matando
o pobre Beija!... Que horror!!!

O diabo tinha ciúme
té mesmo do Beija-Flor!

Foi um combate horroroso!...
Foi um prélio desigual!...

Em menos de dois minutos,
era uma vez um curral!

João que estava sesteando
lá dentro, em sua tapera,
ouvindo aqueles gemidos,
veio saber  que era.

Ao ver os dois animais
com os chifres emaranhados,
como dois alucinados,
e vendo que o Beija-Flor
não lhe levava vantagem,
e já ia, pouco a pouco,
arrefecendo a coragem...
ficou tão doido, tão louco,
que dando um murro tremendo
no vazio do rival,
recebeu, como resposta,
do Laranjo renegado
uma chifrada fatal!!

O golpe foi tão violento
que o homem titubeou,
e, como se fosse um morto,
quase morto ali ficou.

Quando, mais tarde, a mulher
deu ali com o seu marido,
com a rigidez de um cadáver,
naquele chão estendido,
num berreiro abriu a boca,
e lá foi dona Constança,
correndo, como uma louca,
em altos gritos aflitos,
alarmando a vizinhança!

Foi, sem exageração,
qual se tivesse explodido
a cratera de um vulcão!
Pois tanta gente saía
de toda parte a gritar,
que até parece que o mundo,
num incêndio pavoroso,
ia de vez se acabar!

Nos braços dos seus amigos,
num abrir e fechar de olhos,
João Carreiro, inanimado,
foi pra casa carregado,
enquanto foram chamar
a toda pressa o doutor,
o médico do lugar.

Em menos de dez minutos,
já se via a tigelinha,
a brivana do doutor,
muito bem arreadinha,
na porta do vitimado,
pataleando, a rinchar.

Ouvia-se o palpitar
de todos os corações,
quando o doutor se acercou
do leito do moribundo!
E quando, depois do exame,
num sorriso comovido,
disse aos íntimos: “Perdido”,
foi um silêncio profundo!!

O doutor se retirando,
e dando na brivaninha
um leve, pequeno açoite,
proferiu esta sentença: -
“Não passará desta noite”!

Desde o instante da chifrada,
o pobre do João Carreiro
tinha perdido o sentido!!...

Tinha a palavra perdido!!...

Mas, às três horas da tarde,
indo-lhe alguém perguntar
se, antes do seu trespasse,
queria que se matasse
o boi, que já estava preso
no ranchão lá do curral,
recuperando os sentidos,
em voz baixinha falando,
disse, quase soluçando:

“Deixem viver o animal!...
“Matá-lo?! Matá-lo?! Não!!
“É preciso que ele viva,
“para poder perdoar
“toda a minha ingratidão!

“Se eu quisesse me vingar
“dos coices e ponta-pés
“dos homens, desses cruéis
“que escoucearam minh’alma,
“talvez por muito os amar...
“tinha muito que matar!!

“Entre o grande racional
“e o pobre desse animal,
“qual foi mais atroz? Qual foi?!

“Amigos!... Se eu fosse boi...”

Ia dizer uma coisa,
Mas já não pôde falar!

A tarde se despedia!

A torre da Capelinha,
que em sua triste alegria
ao pé do monte floria,
sonorizava no bronze
as lágrimas soluçadas
na hora da Ave-Maria!!

Lá, no fundo do curral,
como longínquo trovão,
veio um profundo mugido,
num grito de maldição,
ou no perdão de um conforto!

O que seria?! O Perdão?!

Quem sabe?!

Só Deus e o morto!!!...


(POEMAS BRAVIOS)
Catulo da Paixão Cearense
.....................
            A musa de Catullo Cearense fala intimamente à alma e ao coração do nosso povo. Em cada estrofe desse poeta singular e milagroso, sente-se palpitar e estremecer o ideal amoroso, a tradição lírica da raça.
            Eis porque as inteligências solares, como Ruy Barbosa, exaltam com tanto carinho os versos límpidos, puros e singelos desse maravilhoso trovador do Sonho e da Beleza, que é Catullo Cearense.

                                                                                                                          Bezerra de Freitas


* * *

domingo, 17 de setembro de 2017

PALAVRA DA SALVAÇÃO (44)

24º Domingo do Tempo Comum - 17/09/2017

Anúncio do Evangelho (Mt 18,21-35)
 — O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.

— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Mateus.
— Glória a vós, Senhor.

Naquele tempo, Pedro aproximou-se de Jesus e perguntou: “Senhor, quantas vezes devo perdoar, se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes?”
Jesus respondeu: “Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete. Porque o Reino dos Céus é como um rei que resolveu acertar as contas com seus empregados. Quando começou o acerto, levaram-lhe um que lhe devia uma enorme fortuna. Como o empregado não tivesse com que pagar, o patrão mandou que fosse vendido como escravo, junto com a mulher e os filhos e tudo o que possuía, para que pagasse a dívida.
O empregado, porém, caiu aos pés do patrão e, prostrado, suplicava: ‘Dá-me um prazo, e eu te pagarei tudo!’ Diante disso, o patrão teve compaixão, soltou o empregado e perdoou-lhe a dívida.
Ao sair dali, aquele empregado encontrou um de seus companheiros que lhe devia apenas cem moedas. Ele o agarrou e começou a sufocá-lo, dizendo: ‘Paga o que me deves’.
O companheiro, caindo aos seus pés, suplicava: ‘Dá-me um prazo, e eu te pagarei!’ Mas o empregado não quis saber disso. Saiu e mandou jogá-lo na prisão, até que pagasse o que devia.
Vendo o que havia acontecido, os outros empregados ficaram muito tristes, procuraram o patrão e lhe contaram tudo.
Então o patrão mandou chamá-lo e lhe disse: ‘Empregado perverso, eu te perdoei toda a tua dívida, porque tu me suplicaste. Não devias tu também ter compaixão do teu companheiro, como eu tive compaixão de ti?’
O patrão indignou-se e mandou entregar aquele empregado aos torturadores, até que pagasse toda a sua dívida.
É assim que o meu Pai que está nos céus fará convosco, se cada um não perdoar de coração ao seu irmão”.

— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor.


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Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Padre  Paulo Ricardo:
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O perdão atrevido e criativo
  
“Senhor, quantas vezes devo perdoar...?” (Mt 18,21)

Pouca gente, mesmo entre cristãos, compreende o sentido profundo do perdão. A maioria pensa que é forma de anistia do sentimento, esquecimento, ato interno capaz de compreender o ofensor e desculpá-lo no fundo do coração misericordioso; para uns o perdão significa passar por cima de um erro ou violência; para outros, o perdão é próprio das pessoas frágeis...

De fato, o perdão não se encaixa confortavelmente dentro dos padrões naturais do comportamento humano. Ele não nasce espontâneo dentro do coração do ser humano. A capacidade de perdoar a si mesmo ou aos outros é a marca registrada de uma personalidade madura. Representa considerável avanço em relação ao mais primitivo desejo de vingança, retaliação e revide.

O perdão ataca, com todo vigor, aquilo que parece ser uma lei de nossa história. Isso porque a lógica que regula as relações inter-humanas é regida pela lei do mais forte, ou, no melhor dos casos, pela lei da reciprocidade, da equivalência, como norma de justiça.

No perdão, assume-se uma atitude que não contabiliza mesquinhamente o que se fez; deve-se ter um gesto inovador, um gesto criativo. Caso contrário, fica-se prisioneiro da lógica repetitiva da violência. Perdoar é ir além do princípio de retaliação. Por isso é uma atitude atrevida e ousada.

O perdão representa a inovação: cria espaço onde já não impera mais a lógica da norma judiciária. Perdão não é esquecimento do passado, é o risco de um outro futuro que não aquele imposto pelo passado ou pela memória ferida. É convite à imaginação. É preciso aventurar-se no encontro com o outro.

Quem perdoa sabe estar correndo um risco, abandonando o ajuste de contas pela força ou então renunciando à força do direito. Mas sabe também que, sem esse risco, a história não terá nenhum futuro e a violência irá se repetindo indefinidamente.

Sabemos que a violência não tem regra em si mesma, é pura repetição. Já o perdão quebra a lógica do “olho por olho, dente por dente” e cancela o movimento repetitivo da violência. Quem perdoa sai fora desse jogo, arriscando a própria vida. O perdão quebra a cadeia lógica própria das  relações humanas, submetidas ao sistema de equivalência da justiça (cf. Mt. 5,38-42).

O seguidor de Jesus, ao entrar em sintonia com o Deus fonte do perdão, ultrapassa toda imposição da justiça legal e abre espaço a uma nova relação com o outro. Assim, o perdão, transformando as relações humanas, possui a capacidade para revelar o rosto original de Deus.

O perdão é um ato não-humano, parece mesmo ser um ato puramente divino. Joan Chittester chama o perdão “ o mais divino dos atributos divinos”. “Perdoar - ela afirma -é ser como Deus”. Mas este ato divino nos é revelado que ele está ao nosso alcance, porque Deus nos convida a ele. O perdão é divino porque, para o ser humano, ele é verdadeiramente divino em seus efeitos e em seu próprio processo.

Por isso, Jesus insiste fortemente sobre o perdão, porque este é uma necessidade vital quando a vida foi ferida. Como presença visível do perdão, Jesus se dirige a cada um com a força da torrente que jorra para a vida eterna e quer conduzir a todos para aquela Fonte de comunhão que o Pai deseja, a fim de que toda a vida esteja exposta ao Seu Amor.
Perdão é, em última análise, uma forma de amor, um amor que acolhe o outro na sua fragilidade. Vai ao encontro do causador da ofensa com uma compaixão que brota de uma consciência das próprias limitações, abrindo um novo tempo, sem o veneno do ressentimento e da amargura.

O perdão é superlativo do amor. Reinhold Niebuh descreveu o perdão como a “forma final do amor”. Perdão é amor que reconstrói o passado. Só quem doa amor ao ofensor dá-lhe as condições profundas de contrição, compunção, compaixão e arrependimento, as quatro vias através das quais o ser humano pode renascer de si mesmo e das trevas, trocando a morte pela vida.

Por ser o gesto mais difícil e elevado, o perdão é a única forma de permitir ao ofensor a entrada de amor no seu coração. Qualquer forma de cobrança, punição e vingança reforça a crueldade do ofensor e, de certa forma, vai fazê-lo sentir-se justificado. Por isso, a originalidade do cristianismo está na descoberta da grandeza do ser humano, no exercício da única força capaz de mudar o mundo: o amor real. Não há revolução maior.

O perdão, então, resitua as pessoas na grande corrente da vida; busca restabelecer um vínculo positivo entre vidas feridas, vidas que se ferem e a vida que as rodeia. O perdão é uma experiência forte que reconecta com a vida; ele quer abrir uma porta à vida, em um muro fechado de dores, de sentimentos feridos, de autoagressividade. O perdão busca estabelecer uma aposta pela vida. É um ato de realismo, em profundidade e a longo prazo.

Podemos falar, então, que o perdão ativo é terapêutico pois desencadeia um processo de conversão, mobiliza todas as dimensões da pessoa, reestrutura o universo relacional e abre a interioridade à alteridade.  O perdão reconstrutor, libera em nós as melhores possibilidades, riquezas escondidas, capacidades, intuições... e nos faz descobrir em nós, nossa verdade mais verdadeira de pessoas amadas, únicas, sagradas, responsáveis... É ele que “cava” no nosso coração o espaço amplo e profundo para desvelar nossa própria interioridade.

A força criativa do perdão põe em movimento os grandes dinamismos da vida; debaixo do modo paralisado e petrificado de viver, existe uma possibilidade de vida nova nunca ativada.  Por isso, o perdão é expansivo, ele abre um novo futuro e desata ricas possibilidades latentes em cada um. Ele não se limita ao erro, mas impulsiona cada um a ir além de si mesmo; ele destrava a vida, potencia o dinamismo do “mais” e o coloca em movimento em direção a um amplo horizonte de sentido. É gesto gratuito e positivo de encontro, de acolhida, de cordialidade, que se torna hábito de vida: até “setenta vezes sete”.

O perdão é aquele que melhor revela a natureza do Deus Pai e Mãe de infinita bondade. É a que revela igualmente o lado mais luminoso da natureza humana. Por isso é a que mais humaniza as relações entre as pessoas. Não apenas afetivo, mas efetivo. Não apenas implica mudança na disposição da pessoa que perdoa, mas leva também a modificar a situação da pessoa perdoada. O perdão liberta as pessoas para poderem cuidar de outras questões importantes na vida; é uma obra de amor para com o outro e para consigo mesmo.

O ser humano é quebradiço por dentro e por fora. Mas o perdão o redime, depositando nele algo que é maior que sua fragilidade. Trata-se de um dinamismo que o ressuscita, o vivifica e o resgata. O que era sucata, torna-se material para a construção do ser humano novo; o que era motivo de vergonha, agora é impulso confiante e esperançoso; o que era sinal de morte, agora ressurge para uma vida nova. A novidade interior se dinamiza para fora e configura, por sua vez, a modalidade do comportamento diante dos outros.

Em última análise, o perdão é um ato de fé na bondade fundamental do ser humano.

Texto bíblico:  Mt 18,21-35

Na oração: O caminho para a libertação, a conversão e a reconciliação conduz a uma nova identidade. Esta se revelará e será experimentada no “colóquio de misericórdia”, com os olhos fixos no Crucificado: que fiz? que faço? que farei por Cristo?

- Fazer “memória” dos momentos em que você experimentou a força criativa do perdão do outro, ou foi presença por onde fluiu o verdadeiro perdão.

Pe. Adroaldo Palaoro sj



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