Total de visualizações de página

domingo, 28 de junho de 2020

RETROCESSOS MONSTRUOSOS – Péricles Capanema

28 de junho de 2020
Péricles Capanema

Temos às pencas regressões sociais desconhecidas da maior parte das pessoas, às vezes esquecidas, por vezes subestimadas. São fracassos medonhos, lesivos ao bem comum. E assim, ao longo das décadas e séculos, empobreceram a sociedade, dificultaram a inclusão, a mais de fechar horizontes da promoção (perfeição) social. Por imperativo de justiça, reclamam resgate do olvido imerecido, que começa pelo conhecimento. Reitero, convém trazê-los de volta à luz, para fruição, instrução e proveito popular. Bem vista, essa revivescência é benemérito ativismo social. Todos perdem com tais esquecimentos (qualificação benévola, existem ocultações e deformações intencionais).

Vou falar em especial de um deles, hoje perdido em desvãos da História. Antes, poucas linhas de útil recordação sobre a relevância da exemplaridade. Tratei faz pouco, pela rama embora, do papel social dos “role models”, exemplos e padrão para milhões. Bafejando comportamentos, são fundamentais para formar mentalidades, favorecer doutrinas, promover condutas. Governam no mais alto sentido da palavra. Pois governar não é sobretudo abrir estradas e construir pontes; é em primeiro lugar dirigir pessoas. Dirige-as quem influi nas convicções, mentalidades e hábitos morais.

É difícil a tradução de “role model” para o português; seria modelo ou modelo social. Aliás, é exatamente esse o papel de um santo canonizado, servir de modelo, padrão, sugerir rumos, trabalhar mentalidades. O “role model” dos nossos dias em regra é versão apequenada, desnaturada, laicizada e aguada do santo.

Assim define o “Business Dictionary” [Dicionário dos Negócios] o “role model”: “São pessoas para as quais se olha e se reverencia. Um modelo social é alguém que os outros desejam imitar, seja agora, seja no futuro. Um modelo social pode ser alguém que você conheça, relacione-se normalmente com ele, ou alguém que você nunca encontrou, como uma celebridade. Modelos sociais podem ser atores conhecidos, figuras públicas, políticos, professores, policiais, pessoas importantes da família”.

Modelos sociais são ou foram Gandhi, os Beatles, Elvis Presley, Che Guevara, Bill Gates, Pelé, a princesa Diana e ainda numerosos influencers atuais. Um tio seu, leitor, admirado na família. Uma prima, leitora. “Quero ser como fulano”, é grito interior de sem-número de pessoas. Modelos sociais influem no caminhar da sociedade (involuções ou avanços), cada um a seu modo e título, cada um atuando em especial sobre certa faixa do público. Seu tipo humano se torna objetivo atraente naquela faixa da realidade. É corrente, a irradiação de sua personalidade, ligada ao fascínio que exercem, muitas vezes ultrapassa a influência de chefes de governo ou de Estado, mesmo de grandes potências. Podem atrair para o bem, hoje pouco comum, podem puxar para o mal, o que é mais frequente.


Luís XIV (1638-1715) é considerado a personificação do monarca absoluto. Dele teria sido a frase, pronunciada em 1655, “L’État, c’est moi” (o Estado sou eu). Nunca a disse; pelo contrário, pouco antes de falecer, afirmou: “Morro, mas o Estado permanece”. Ninguém nega, contudo, Luís XIV governou com autoridade, exerceu com desembaraço o mando. “Le métier du roi est grand, noble et délicieux”. Essa é dele; para o monarca o ofício do rei era grande, nobre e delicioso. Marcou a França, marcou sua época, foi modelo para soberanos. Não analisarei sua política, nem seus acertos e erros. Meu foco é aspecto pouco destacado, facetas de seu tipo humano, inspiradoras de comportamentos e formadoras de mentalidade. A descrição de que me valho é de Hyppolite Taine (1828-1893), dos maiores historiadores franceses, está nas páginas do seu livro “Les origines de la France contemporaine” [capa acima]; dela vou retirar apenas as referências para tornar mais fluente a leitura. Hoje é fácil encontrar a obra na rede e baixá-la — está no domínio público.

“Luís XIV tinha todas as qualidades de um mestre de casa, o gosto da representação e da hospitalidade, a condescendência e a dignidade; a arte de não ferir o amor-próprio das pessoas, a arte de ficar sempre em seu lugar, a galanteria nobre, o tato, o atrativo do espírito e da linguagem. Falava perfeitamente bem; quando era preciso tinha a linguagem leve; quando necessário, o gracejo. Se narrava uma história, fazia-o com enorme encanto, um tom nobre e fino, que só vi nele. Nunca houve homem mais naturalmente polido, nem com uma polidez tão bem medida, tão bem graduada, ninguém distinguia melhor nas respostas e na maneira de ser a idade, a condição social e o mérito. Suas reverências, mais ou menos marcadas, sempre discretas, tinham uma graça e uma majestade incomparáveis. Era admirável pela forma diferenciada de receber homenagens à frente das tropas e ainda nas revistas. Sobretudo no tratamento das mulheres, nada havia de semelhante. Nunca passou diante da mais simples empregada de quarto sem tirar o chapéu e sabia a quem cumprimentava. Nunca disse nada depreciativo para ninguém. Nunca em sociedade comentou alguma coisa fora do lugar ou deslocada. Até no menor gesto, no caminhar, no porte, na postura, tudo medido, decente, nobre, grande, majestoso e, contudo, muito natural”.

Taine conclui: “Eis o modelo. De perto ou de longe, foi seguido até o fim do Antigo Regime”. Sabe-se que Luis XIV morreu em 1715, o Antigo Regime acabou com o triunfo da Revolução Francesa em 1789. De fato, Luís XIV incarnou em alto grau um ideal de perfeição social, que marcou o Antigo Regime. Em especial, tal ideal social moldou a educação dos príncipes, a formação do “honnête homme”, o homem de sociedade. Tendia a se generalizar; sua perenidade e aperfeiçoamento gradual estimulariam avanços civilizatórios, dos quais o mundo se viu privado. Com o fim do Antigo Regime, atacada e vilipendiada pelas correntes revolucionárias, em análise rápida, sobraram destroços de tal padrão de convívio, ainda que por vezes enormes. Multidões durante séculos estiveram excluídas de formas mais perfeitas de vida social, acostumando-se com a degradação nas relações humanas. Decadência atroz — minimizada.

Esse mesmo espírito, aninhado no fundo da doutrina e da mentalidade das formações revolucionárias, manifestou-se repetidas vezes ao longo da História, gerando miséria e exclusão. Dois exemplos. Um grande cientista — nascido na nobreza de toga (durante a Revolução Francesa, renunciou ao uso da partícula de, própria à nobreza; aliás, pouco lhe adiantou) —, hoje por vezes chamado de “pai da química moderna”, Antoine-Laurent de Lavoisier (1743-1794) foi condenado à guilhotina por tribunal de exceção da Revolução Francesa. Pediu alguns dias de adiamento da execução, queria terminar; solicitação negada. Resposta emblemática de Jean-Baptiste Coffinhal, presidente do Tribunal Revolucionário: “A República não precisa de sábios”. Lavoisier foi guilhotinado em 8 de maio de 1794. Arremeteu irado contra o crime hediondo Louis de La Grange, dos maiores matemáticos da época: “Morreu Lavoisier, só lhes custou um segundo cortar a cabeça, cem anos talvez não sejam suficientes para que apareça uma parecida”. Quanto perdeu o mundo? Quanto perderam os pobres em qualidade de vida? Retrocesso desumano — silenciado.


Outros fatos, de mesma natureza. No Brasil, animadas pelo mesmo fanatismo, mulheres do MST (uma das vanguardas da atrofia social entre nós), em pelo menos duas ocasiões, pelo que me lembro agora, 2006 e 2015, foram discípulas modelares de Jean-Baptiste Coffinhal. Em março de 2006 em Barra do Ribeiro, a 60 quilômetros de Porto Alegre, destruíram pelo menos um milhão de mudas de eucalipto em laboratório [foto ao lado] de propriedade da Aracruz Celulose. Renato Rostirolla, gerente florestal, lastimou: “Há trabalhos de 20 anos de melhoramento genético que foram destruídos. Se fôssemos realizar todos os cruzamentos, levaria no mínimo cinco ou seis anos. Alguns nunca mais serão possíveis, porque as matrizes foram destruídas”. Vandalismo semelhante foi perpetrado em Itapetininga, março de 2015, também por mulheres capitaneadas pelo MST, agora na Futura Gene, empresa do grupo Suzano. O gerente Eduardo José de Mello lamentou: “Perdemos alguns anos de desenvolvimento tecnológico”. Segundo a empresa, 14 anos de pesquisas foram destruídos.

Os setores que espatifam com delícias intolerantes milhares e até milhões de mudinhas escolhidas de eucalipto, prenúncios de porvir melhor, de forma congruente, simpatizarão com a decapitação criminosa de Lavoisier; e não perceberão problema algum, acharão é bom, que a alta educação de Luís XIV seja depreciada e finalmente desapareça como fator de aperfeiçoamento social. Inimigos do crescimento, obstruem os caminhos da subida e o povo é a maior vítima.

Post-scriptum: tais setores não têm apenas manifestações extremadas; correntes de opinião numerosas ingeriram prazerosamente doses graduadas de tal veneno.


* * *

PALAVRA DA SALVAÇÃO (190)


Solenidade dos Apóstolos Pedro e Paulo | Domingo, 28/06/2020

Anúncio do Evangelho (Mt 16,13-19)

— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Mateus.
— Glória a vós, Senhor.

Naquele tempo, Jesus foi à região de Cesaréia de Filipe e ali perguntou aos seus discípulos: “Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?” Eles responderam: “Alguns dizem que é João Batista; outros que é Elias; outros ainda, que é Jeremias ou algum dos profetas”. Então Jesus lhes perguntou: “E vós, quem dizeis que eu sou?” Simão Pedro respondeu: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”.
Respondendo, Jesus lhe disse: “Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu. Por isso eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e o poder do inferno nunca poderá vencê-la. Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que tu ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que tu desligares na terra será desligado nos céus”.

— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor.

---
Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Pe. Paulo Ricardo:

---

El Greco

“E vós, quem dizeis que eu sou?” (Mt 16,15) “Quem és tu, Senhor?” (At 9,5)

Os acontecimentos e, sobretudo, as pessoas que encontramos ao longo da existência, são os que vão nos fazendo passar por contínuas transformações. Por isso, quando narramos nossa história de vida, quase sempre mencionamos alguém em particular que nos marcou profundamente. Já não somos mais os mesmos depois de ter conhecido certas pessoas que se tornaram especiais. Nosso olhar e nossa memória retornam a elas frequentemente, por sua constante inspiração e companhia.

Por isso, a pergunta que Jesus dirige aos discípulos não é superficial – “E vós, quem dizeis que eu sou?” Esta é a questão, a grande pergunta de Jesus que continua ressoando em todos nós, seus(suas) seguidores(as). Dependendo da resposta que damos, isso terá implicações profundas em nossa existência: a centralidade do modo de ser e de agir de Jesus em nossos compromissos, a ressonância de suas palavras em nossa vida, a sintonia com suas grandes opções, a sensibilidade diante dos mais pobres e excluídos, a nova relação com o Pai... Em outras palavras, o encontro com a identidade de Jesus des-vela nossa verdadeira identidade e, por isso mesmo, nosso modo de ser e de agir serão cristificados.

Segundo o evangelho deste domingo, só reconhecendo a identidade de Jesus estaremos capacitados para escutar o que Ele tem a nos dizer. Por isso, quando Pedro declarou quem era de verdade Aquele a quem tinham seguido, o Senhor mudou seu nome – “tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei minha Igreja”. Só Jesus conhece bem quem somos e o que podemos realizar.

O ser humano é um ser chamado. Chegamos a ser nós mesmos graças ao chamado, ao olhar, à palavra de outro. E na palavra e no chamado que nos vem de Jesus, vamos percebendo que o mistério de Deus, totalmente outro e absolutamente íntimo, nos envolve e nos fundamenta. 
Não podemos definir Jesus com dogmas e doutrinas, mas também não podemos deixar de nos fazer a per-gunta: “quem é este homem Jesus”? Toda tentativa de responder com fórmulas fechadas não solucionará o problema. A resposta deve ser vivencial, não teórica: “quê dizes tua vida de mim?”, pergunta Jesus.

Nossa vida, enquanto seguidores(as), é a que deve dizer quem é Jesus para nós. Do esforço dos primeiros cristãos por compreender a Jesus devemos fazer nossas as perguntas que foram feitas, não as respostas que deram. Por mais informações que recebamos sobre Ele, por mais normas morais e ritos que aprendamos e pratiquemos, se ninguém nos convida, com sua vida, a prolongar o estilo de vida de Jesus, tudo permanecerá superficial e em nada nos enriquece.

Dar por definitivas as respostas dos primeiros concílios acabam nos afundando na rotina da repetição de fórmulas. O decisivo é descobrir a qualidade humana de Jesus e deixar que Ele desvele o que há de mais humano em cada um de nós. Afinal, o centro da missão do Mestre de Nazaré está em nos ajudar a sermos um pouco mais humanos, sobretudo nas relações com os outros e com o Pai.

Se cremos que o importante é a resposta, que já está dada, todos permanecemos em paz e acomodados; isso é grave. Hoje sabemos que o importante é que continuemos fazendo-nos a pergunta; a resposta nos paralisa; a pergunta nos mantém acesos e criativos, pois esta tem impacto no modo cristificado de viver.

Uma fé, vivida sem perguntas, acaba se esvaziando daquele mesmo impulso vital de Jesus. Somos segui-dores(as) de uma Pessoa (Jesus Cristo) e não de respostas teológicas.

Nossa fé cristã hoje é a mesma de Pedro e de Paulo: seguir Jesus Cristo e, em nossa maneira de viver, oferecer o Evangelho a todos. Assim se compreende que a Igreja celebre Pedro e Paulo numa única festa. E, por isso, não devemos nos escandalizar se, com frequência, na Igreja aflore o “Simão”, ao invés de Pedro: as ânsias de triunfalismos, busca de poder, medos na hora da perseguição... Também não podemos nos escandalizar se, com frequência, aflore o “Saulo”, ao invés de Paulo: fechamento nas próprias ideias e convicções, desembocando na intolerância, no dogmatismo e na violência, inclusive física.

Estes dois grandes personagens (Simão e Saulo) passaram por uma profunda transformação, a partir do encontro com a pessoa de Jesus Cristo; foi um processo lento, sendo lapidados pela graça de Deus até redescobrirem uma nova identidade escondida debaixo das cinzas do auto-centramento e da prepotência; identidade que agora se expressa em novos nomes: Pedro e Paulo.

Como distinguir, na Igreja, “Simão” de “Pedro”?; como distinguir “Saulo” de “Paulo”? Onde estão as fronteiras, se, ao mesmo tempo, Simão é Pedro e Pedro é Simão? Onde estão os limites, se, ao mesmo tempo, Saulo é Paulo e Paulo é Saulo?

Estes dois personagens nos fazem ter acesso à nossa condição humana: somos barro, frágeis, inconstantes...

mas carregamos um tesouro que nos dignifica. Nas profundezas de nosso ser, há um “pedro” e um “paulo” escondidos, esperando uma oportunidade para se manifestar. Exteriormente, talvez tenhamos sido muito mais “simão” e “saulo”, mas, o que decide nossa vida, é a nossa interioridade, morada do “Pedro” e do “Paulo”. É ali que a Graça de Deus trabalha em nós, fazendo emergir, junto a estes dois personagens, o que é mais nobre e mais divino em nós. Deus, na sua eterna paciência, espera momentos especiais para dar o seu “toque” em nosso eu profundo, e assim despertar o “pedro” e “paulo” que ainda dormem.

Diante de nós está Jesus Cristo para nos dar a “chave” como a deu a Pedro; ela nos facilitará o acesso ao mistério insondável da Vida. Na perspectiva bíblica “céus” significa vida em profundidade, vida expansiva, vida que nunca se acaba. Como dinamismo humanizador, a chave da interioridade é mola mestra que movimenta grandes intuições e sonhos, retira-nos do individualismo, cultiva a solidariedade, corrige rotas de vida, excita a imaginação, realça o poder criativo...

Temos em nossas mãos as chaves da vida. O que fazemos com elas? Podemos abrir ou fechar, ligar ou desligar, atar ou desatar.... “Ter a chave da vida”: abrir ou fechar as portas do futuro, das relações, dos sonhos, da missão... Dar direção à vida. Atar e desatar os nós que bloqueiam o fluir da vida.... Aqui está o grande desafio: abrir-nos ou fechar-nos; abrir-nos à vida, ao novo, ao outro, ao desafiante ou diferente... ou fechar-nos no medo, no conhecido, no rotineiro...

Deus confiou e colocou em nossas mãos a “chave da vida”. Ele não impõe, não obriga. Corre o risco de nos criar livres. Aqui está nossa grandeza, enquanto seres humanos: optar por uma vida aberta ou fechada, ser nó ou desatar, ligar ou desligar, expandir ou retrair...
Sempre há o perigo de construir, dentro de nós, um condomínio onde portas se fecham, chaves se perdem, segredos são esquecidos... e, com isso, mergulhamos na mais profunda solidão.

Nossa própria interioridade é a rocha consistente e firme (“tu és Pedro”), bem talhada e preciosa que cada um de nós tem, para encontrar segurança e caminhar na vida superando os desafios e as inevitáveis resistências na vivência do seguimento de Jesus.

É no “eu mais profundo”  que as forças vitais se acham disponíveis para nos ajudar  a crescer dia-a-dia, tornando-nos aquilo para o qual fomos chamados a ser. Trata-se da dimensão mais verdadeira de nós mesmos, a sede das decisões vitais, o lugar das riquezas pessoais, onde vivemos o melhor de nós mesmos, onde se encontram os dinamismos do nosso crescimento, de onde partem as nossas aspirações e desejos fundamentais, onde percebemos as dimensões do Absoluto e do Infinito da nossa vida.

Texto bíblico:  Mt 16,13-19

Na oração: A oração nos torna-nos diáfanos (transparentes); ela deixa transparecer o “simão” e o “pedro” de nossa interioridade; ela des-vela o “saulo” e o “paulo”  que atuam em nós.
A interioridade é espaço aberto, onde, a intimidade com Deus não anula nossa personalidade, mas nos capacita a fazer uma contínua passagem do “simão para o Pedro”, do “saulo para o Paulo”.
- O que tem predominado em sua vida: “simão ou Pedro”? “saulo ou Paulo”?

Pe. Adroaldo Palaoro sj


* * *

sábado, 27 de junho de 2020

PESADELO – Ariston Caldas

 
          Cecílio estava quase decidido, abandonaria Mildes; para isso ele fez indagações, comparativos, hipóteses; mediu os prós e os contras e não encontrou outra saída. Certeza sobre alguma coisa grave, nenhuma, mas uma dúvida renitente cavava seu juízo, dando-lhe quase a certeza, a justificativa para sua desconfiança. Sobre o quê? Perguntava-se às vezes. Ora, de verdade, só a indiferença de Mildes para com ele, notadamente naqueles momentos; ela embuchava, cobria-se cabeça e tudo, inventava lorotas, dizia-se cansada, isso e aquilo; nem conversava mais na hora de dormir, como fazia antes. Quando tudo começou assim, Cecílio deu até seus descontos, “coisas de mulher”, pensou. As cenas foram-se repetindo e um dia ele desconfiou. Doença, não era, Mildes continuava forte e rosada, bonita e disposta o dia inteiro. Em algumas oportunidades ele tentava fazer mão boba. “Me deixe, homem”, ela repelia. Vinham os resmungos e ele perdia as estribeiras; sem outro jeito ele calava a boca e ficava de olho duro para o telhado, articulando pensamentos.

            Antes de outras providências, iria para a casa da mãe dele, depois cuidaria da separação judicial. Em casa da mãe teria que arrumar uma empregada pala lavar pratos, e outros afazeres miúdos. Dona Elza estava idosa, cansada, cheia de mazelas.

            Enquanto tudo isso passava por sua cabeça, Mildes respirava encolhida a um canto da cama, virada para a parede; o rosto dele queimava, o miolo se alvoroçava, os nervos rebentando; o telhado parecia-lhe opressivo, as paredes manchadas lembravam-lhe um quarto de bordel e Mildes se assemelhava a uma prostituta; até o perfume exalando do corpo dela lembrava isso; ele sentia o cheiro subindo, ativo, ordinário, diferente do bom perfume que ela usava sempre. Por uma greta da janela ele sentia a noite clara, lembrou que era lua cheia.

            Recordou do casamento com Mildes, ela toda de branco, grinalda; a igreja do bairro iluminada a gosto, os convidados, os amigos, o coral. Mildes havia mudado muito, e agora, com aquela mania, virou uma peste. Quando aproximava-se a hora de dormir, parecia-lhe um suplício. “Que devo fazer?” Arriscava uma futucada de leve, cheio de acanhamento. “Chegue pra lá”, era a reação dela. Andava, virava, ele enchia-se de resmungos, ficava bruto, pronunciava-se aos berros. Mildes espreguiçava-se, virava para a parede, e o que seria bom ficava para outra vez.

            A partir da constância desse episódios, ele passou a maldar coisas, chegando à certeza de que estava sendo traído. Como passaria sem Mildes? Chegavam-lhe ideias absurdas, como a de praticar um crime. Mataria qualquer sujeito. Depois afastava essa possibilidade. A separação seria bem melhor, mesmo sabendo difícil suportá-la. Várias noites nessa angústia, o juízo embaralhado entre hipóteses absurdas. Lembrava de um punhal antigo que pertencera a um avô de Mildes, guardado como relíquia. Vez por outra ele via o punhal numa gaveta do guarda-roupas, prateado, inoxidável, numa bainha de couro bordada a fogo. Numa dessas noites ele levantou-se cheio de perturbações lembrando do punhal; Mildes, de sono solto, respirava tranquila, um seio descoberto e branco entre a turvação do quarto, os olhos fechados às vezes vibrando levemente, a boca ainda com a pintura de depois do banho. Sem resistir ao quadro, Cecílio passou a farejar os cabelos dela derramados pelas bordas do travesseiro; o fez receoso temendo que Mildes se assustasse. Depois, saiu devagar, macio, em direção ao guarda-roupas; apanhou o punhal na gaveta e lembrou do avô de Mildes que teria sido um sujeito com bigode de pontas viradas, sisudo, cabelo anelado partido ao meio. Ela continuava dormindo, respirando tranquila, um peito branco de fora, os cabelos espalhados pelo travesseiro, exalando perfume ordinário. “Tá ficando doido, homem, me solta!” Ela exclamou assim num balbucio estridente e confuso, dando uma cotovelada no peito dele que acordou de supetão, todo embaralhado. “Você viu onde deixei minha carteira de cigarro?” Disse ele ainda atordoado, e afastou-se zonzando, conseguindo dormir novamente.

            Voltou a sonhar, agora trocando tiros com um sujeito cabeludo parecido com um tal Miranda, dono de uma academia de ginástica, que morava em frente e gostava de andar numa moto vermelha. No sonho o sujeito empunhava um revólver e tinha à cintura um punhal igualzinho ao que pertencera ao avô de Mildes.

            Cecílio passou a noite assim entre pesadelos medonhos. No dia seguinte teria que resolver sua vida, encostaria Mildes à parede, decidindo tudo. Não fez isso no dia seguinte nem mais nunca. Ninguém sabe como ele conseguiu normalizar a situação. O casal reside na mesma rua, em frente à casa onde morou o dono da academia.

           
(LINHAS INTERCALADAS – 2ª Edição, 2004)
Ariston Caldas

* * *

sexta-feira, 26 de junho de 2020

DESEJO DO SUBLIME RECONDUZ A ALMA AO CRIADOR - João Carlos Leal da Costa

26 de junho de 2020

João Carlos Leal da Costa


Sempre foi razão de conflito entre os homens a perpétua luta entre o desejo de liberdade individual e as normas religiosas, que parecem circunscrever essa liberdade. Esse conflito nasce do aparente desejo de transformar o ser humano num joguete sem livre iniciativa, o que seria contrário à natureza humana racional. Na aparência, o homem se transformaria assim num boneco nas mãos de um “deus” déspota e inacessível. Mas a realidade é bem outra, pois Deus criou o Universo como uma imagem de Si mesmo, e o homem, síntese dessa imagem, une o espiritual e o material. Ao mesmo tempo Deus colocou no fundo da alma humana as regras fundamentais da lógica e a noção da diferença entre o bem e o mal.

A fundamental noção de diferença entre o bem e o mal pôde ser comprovada cientificamente alguns anos atrás, pela doutora Karen Wynn, especialista em psicologia infantil da Universidade de Denver, no Colorado (EUA). Ela fez experiências com crianças de apenas três a oito meses, tentando verificar se elas reconheciam, num puppet show (teatrinho de bonecos), qual era o personagem bom e qual era o mau. Surpreendentemente, mais de 80% das crianças acertaram na escolha.

A carruagem de ouro do príncipe Joseph Wenzel I de Liechtenstein (Salão térreo do Museu Liechtenstein)

Isso confirma a teoria do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, de que todo ser humano nasce com o que ele chamou de “inocência”, isto é, uma aptidão inata para reconhecer os reflexos de Deus na criação, e de modo especial naquilo que o cerca: “No espírito humano as regras básicas da lógica são subconscientes. A lógica, enquanto disciplina, apenas explicita essas regras para o homem. Se ele não tivesse essas regras invisceradas, como coisas conaturais a seu espírito, seria um louco”.

A “inocência” da pessoa leva-a a perceber aos poucos que o universo é ordenado, e que essa ordem universal se coaduna com sua ordem interna. Na Epístola aos Romanos, São Paulo ensina que as perfeições invisíveis de Deus se tornaram visíveis após a criação do mundo, pela compreensão das coisas criadas (cfr. Rom. 1, 20). Eis um ensinamento extremamente importante, porque o comportamento humano reto, racional, tem que corresponder a essa ordem universal e à sua própria ordem interna.

Uma tradição de mais de mil anos na Mongólia: 
criação de águias reais

São Tomás de Aquino explica que o homem está situado em um nível entre o reino angélico e o reino animal, isto é, entre a esfera espiritual e a esfera física. Em outras palavras, Deus concebeu o ser humano como um microcosmo que contém em si, ao mesmo tempo, espiritualidade e materialidade. Existe portanto um macrocosmo (o universo) e um microcosmo (o homem). Macrocosmo e microcosmo são palavras de origem grega, onde macro e micro significam grande e pequeno, respectivamente, e kósmos significa o mundo ordenado. Não significa apenas que é ordenada a totalidade do universo, mas também que este é ordenado com harmonia e equilíbrio.

Portanto, aproximando as palavras macrocosmo e microcosmo entendemos que há uma semelhança de padrão, natureza ou estrutura entre os seres humanos e o universo. Essa similitude entre o macrocosmo e o microcosmo mostra que, para sobreviver, a sociedade humana não somente deve se reger por certas normas pré-estabelecidas por Deus no Universo, mas que esta é a única forma de se obter, depois do pecado original, o grau possível de felicidade nesta vida, uma vez que o homem nasce com essas normas dentro de si.

Muitos se desencaminham por achar que a liberdade humana está acima das normas morais que regem a ordem do Universo. Mas essa correlação foi posta por Deus, que premia já nesta Terra, e depois no Céu, a obediência a esses princípios.

Menino extasiado com a Coroa imperial inglesa. Feita de ouro, platina e prata, ela é ornada com diamantes, rubis, esmeraldas, safiras, espinélio, pérolas, veludo e arminho

No livro Revolução e Contra-Revolução, Plinio Corrêa de Oliveira mostra que o demônio não poderia deixar as coisas como Deus as quer, e engendrou então um processo de corrosão da sociedade estabelecida com base nos princípios católicos. Esse processo vem, desde o final da Idade Média, tentando evitar que se realize na sociedade o reconhecimento da correspondência entre o macrocosmo e o microcosmo. Com isso ele procura impedir que o homem conheça e admire o seu microcosmo, e que admire também o macrocosmo, ambos criados por Deus. Pois se ele o faz, aproxima-se de Deus, preparando sua alma para o Céu, e isso o demônio não quer.

Muitos aspectos da sociedade moderna encaminham os homens ao contrário disso. Por exemplo, a mentalidade pragmática do “vale quem produz” afastou a ideia de um Ser criador, interessado em devolver-lhes o “controle sobre si mesmos”; e assim minguou neles a capacidade de considerar a sua existência segundo a perspectiva do macrocosmo.

John Horvat, vice-presidente da TFP norte-americana, escreveu sobre este assunto o livro Return to Order (Retorno à Ordem), no qual mostra como escapar das garras dessa sociedade baseada apenas no materialismo produtivista e na intemperança frenética do ganhar, ganhar, ganhar, que é oposta aos altos ideais medievais.

Segundo Horvat, uma nova visão da vida se torna necessária. Isso pode ser feito se nos voltarmos para a fonte de cultura cristã, da qual a civilização ocidental nasceu. Nessa fonte a sociedade tem uma perspectiva vertical. As pessoas são atraídas para cima, para um único ponto, do mesmo modo como as linhas de uma torre de catedral medieval conduzem os olhares para cima, para o cume da agulha onde está a Cruz.

Essa fonte acende no homem um desejo espontâneo de plenitude, voltado ao sublime, que a sociedade bafejada pelo demônio não pode satisfazer. O sublime consiste exatamente naquelas coisas de excelência transcendente, que constituíram a base da civilização medieval inspirada pela Igreja. Uma sociedade baseada no desejo do sublime será muito melhor, espiritual e materialmente, e só numa sociedade assim se pode encontrar a solução para a crise moderna.



  * * *

quinta-feira, 25 de junho de 2020

O SILÊNCIO É A VOZ DAS DITADURAS - Percival Puggina

23.06.2020

Quer dizer, senhores ministros, senhores congressistas, senhores da imprensa, que democrático, no seu ponto de vista, é o mal nascido e mal criado “Inquérito do fim do mundo”, ilimitado nos objetivos e raivoso na condução, sem limites, sem borda e sem tampa?

Quer dizer que democrático é o explosivo coquetel ideológico dos grupos Antifa, só porque proclamam, contra os fatos e a história, ser “pela democracia”, apesar de justificarem a violência que habitualmente praticam?

Quer dizer que democrático é o senador Davi Alcolumbre, com conivência da Casa que preside, sentar-se sobre os insistentes pedidos de impeachment contra ministros do STF? Será por democrática simetria que um terço dos senadores é investigado ou responde ação penal no STF em processos que se arrastam a passos de jabuti, enquanto o inquérito das fake news, que interessa particularmente ao STF, anda a galope?

Quer dizer que usar a mão pesada do Judiciário para inibir as manifestações populares de desagrado com a conduta belicosa do STF é conduta democrática?

Quer dizer que o ministro Celso de Mello se credencia como magistrado guardião da democracia e do equilíbrio quando compara o Brasil à Alemanha de Hitler e afirma que bolsonaristas “odeiam a democracia" e pretendem instaurar uma "desprezível e abjeta ditadura"?

Quer dizer que democrático é o silêncio das ruas bloqueadas para evitar manifestações populares diante de um Congresso Nacional omisso, surdo aos legítimos anseios expressos nas urnas de 2018?

Quer dizer que é antidemocrático apontar a chantagem com que parlamentares de má fama constrangem o governo?

Quer dizer que é antidemocrática a inconformidade popular com o fato de o Congresso, em um ano e meio, não haver votado a PEC que permite a prisão após a condenação em segunda instância? Será, então, democrático desatender a esse clamor pelo fim da impunidade determinada por uma preceito que só agrada bandidos e seus advogados?

Será democrático o STF quando, em eloquentes votos, rejeita o ideário conservador e liberal que venceu a eleição presidencial?

Será democrático o STF preservar a mentalidade política e as posições ideológicas próprias da era Lula, quando a maioria da nação já lhe disse não nas urnas?

Serão democráticos, por fim, o doce e dolente sossego dos poderosos, o monótono papaguear da grande imprensa, embalados pelo silêncio da sociedade? Mas não é esse desejado silêncio a própria voz das ditaduras?

_______________________________
* Percival Puggina (75), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular do site www.puggina.org, colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+.


* * *

quarta-feira, 24 de junho de 2020

O MAGNIFICAT E O ÍCONE DO PERPÉTUO SOCORRO POR PE. JOSÉ GRZYWACZ, C.SS.R.

 EM ARTIGOS 22 JUN 2020 - 16H00
 Thiago Leon

No contexto do XVIII Congresso Eucarístico Nacional 2020, com o tema: “Pão em todas as mesas” e do Jubileu dos 100 anos da Novena Perpétua, apresento essa contribuição: “A centralidade do Filho e a importância da Mãe”: Meditações comparativas entre o Magnificat de Maria e o ícone de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro (NSPS).

 (I) Comparação geral

O Magnificat e o ícone do Perpétuo Socorro

O Magnificat é chamado de perfume do Evangelho, prelúdio das Bem Aventuranças, modelo de catequese, exemplo da oração, resumo das Sagrada Escritura, cântico revolucionário, o hino de Maria, cântico da Virgem de Nazaré, o salmo novo, o poema de Maria, o cântico profético, o cântico sagrado. O ícone do Perpétuo Socorro é chamado de venerável, sacrossanto, venerado, sagrado, dourado, belo, ícone do amor, ícone da Redenção, ícone do Magnificat, o resumo da Mariologia.

LEIA MAIS

O ícone é o Evangelho pintado,
O ícone é uma teologia visual,
O ícone “respira” oração,
O ícone é uma sarça ardente.

2. O trecho bíblico mariano mais longo e mais conhecido é o Magnificat - o cântico de Maria. A invocação e o quadro (ícone) mariano mais conhecido do mundo é o de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro.

3. O Magnificat é um mosaico feito de retalhos das citações bíblicas. É um modelo de oração cristã e de catequese. O ícone do Perpétuo Socorro é uma pintura oriental feita de cores, gestos, letras e símbolos cheios de significado tornando-se uma catequese da redenção e o resumo de Mariologia. O ícone é uma representação de um mistério, e uma forma pedagógica, uma pregação, não por palavras, mas pelo uso da imagem.

4. O Magnificat é um exemplo da relação adequada da criatura para com o Criador. A Bem-Aventurada, a serva do Senhor reconhece as grandes coisas que o Senhor fez. O ícone do Perpétuo Socorro é uma síntese dos maiores mistérios da fé: a Encarnação; a Redenção e a Ressurreição. A relação entre o filho, a Mãe e os arcanjos.

5. No centro do Magnificat não está Maria, mas Deus Todo poderoso, o Salvador. No centro do ícone do Perpétuo Socorro não está Maria, mas Jesus, o nosso perpétuo Socorro, o Redentor. Maria contempla tudo com o olhar divino.

6. No MagnificatMaria canta as maravilhas de Deus, enche-se de júbilo e louvor. No belo ícone do Perpétuo Socorro, vemos Maria em silêncio, seus lábios estão cerrados.

7. No Magnificat, Maria é obediente à voz do arcanjo“Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo!” No ícone, Maria nos fala, mas por meio de sinais evidentes e bem expressivos e nos entrega o seu Filho.


LEIA MAIS

Nós devemos passar:
da "mariologia doutrinal” para a 
“mariologia do coração”
e para a “mariologia da ação e da 
missão”.

Thiago Leon


(II) Comparação parte por parte

1. “Minha alma engrandece o Senhor, e meu espírito exulta em Deus, meu Salvador” (Lc 1, 46-47). Frente ao insondável mistério da sua maternidade divina, Maria prorrompe num canto de alegria e de vitória, de esperança e de amor, de gratidão e de reconhecimento. A alegria envolve todo o ícone de NSPS. Este é o significado do dourado que envolve a imagem da Virgem e do seu Divino Filho. Maria traz em seu seio o Céu, o Messias, o Esperado de Israel, aquele que é a luz e a esperança das nações, o Amado, o Esposo da Humanidade, eis o motivo de sua alegria, e ela é infinita.

2. “Deus olhou para a humilhação de sua serva”, e fez de Maria a Mãe do Salvador (Lc 1,48). A serva do Senhor, agora na Glória, olha e acompanha a todos que a olham. O gesto de tirar as sandálias é a expressão da humildade.

3. “Doravante as gerações todas me chamarão de bem-aventurada” (Lc 1, 48). A profecia de Maria como o fundamento do culto mariano. O ícone do Perpétuo Socorro obedece à profecia do Magnificat apresenta as maravilhas feitas por Deus na vida da jovem virgem de Nazaré. O culto mariano presente durante os séculos: especialmente através da Novena Perpétua.

LEIA MAIS

4. “O Todo-poderoso fez grandes coisas em meu favor. Seu nome é santo e sua misericórdia perdura de geração em geração para aqueles que o temem” (Lc 1, 49-50). Jesus, Deus salva (este é o significado do seu nome) o seu povo, “socorre Israel, seu servo, lembrado de sua misericórdia”.

A misericórdia de Deus que é simbolizada no ícone por meio dos sinais da Paixão apresentados pelos arcanjos Miguel e Gabriel ao Menino-Deus, posicionados à esquerda e à direita do quadro, respectivamente. Por meio do seu sofrimento redentor, Jesus manifesta a misericórdia divina cantada por Maria no seu hino profético.

5. “Demostrou o poder de seu braço, dispersou os homens de coração orgulhoso” (Lc 1, 51). No ícone, vemos Maria segurar a mão direita do Menino Jesus. Na Bíblia, a destra de Deus manifesta o seu poder e a sua justiça. Ao sustentar a mão direita de Deus, Maria apresenta-se como a Mãe da Misericórdia, a Medianeira de todas as graças, a serva humilde que é capaz de interceder por todos os homens. “Derrubou os poderosos de seus tronos, e a humildes exaltou. Cumulou de bens a famintos e despediu ricos de mãos vazias” (Lc 1, 52-53). No ícone, vemos ambas as mãos de Jesus apoiadas nas mãos de Maria, manifestando confiança total em sua Mãe. Também as mãos de Maria estão ocupadas em amparar seu Divino Filho. No ícone de NSPS, vemos Maria cumulada de todos os bens porque em suas mãos traz Aquele que é o Sumo Bem.

6. "Socorreu a Israel seu servidor como prometera a Abraão e seus filhos para sempre". (Lc 1, 54-55). É o cântico dos séculos. Deus Pai com o coração de mãe cumpre as suas promessas. O Proto-evangelho - Gn 3,15 - se cumpre Naquele que é o mesmo: ontem, hoje e será para sempre. Deus é Pai das misericórdias e rico em misericórdia. Maria imita a misericórdia do Pai.

* Esse texto faz parte do livro “Magnificat: o cântico revolucionário de Maria, a mãe de Jesus” a ser editado pela editora Paulus. Mais em www.mariologiapopular.blogspot.com


Fonte: Província Redentorista de Varsóvia (Polônia)



* * * 
   

terça-feira, 23 de junho de 2020

SIMPLICIDADE – Péricles Capanema

22 de junho de 2020

Péricles Capanema

oje passo ao lado do coronavírus, sem lhe virar as costas. Não subestimo a pandemia, pelo contrário; perdi amigos, de momento são dele vítimas, alguns com gravidade, gente que me é próxima, parentes; a vacina continua esperança, incógnita envolta nas brumas do futuro. O próximo vulnerado bem poderá ser eu, estou de cheio no grupo de risco, chances menores de escapar, chances maiores de ir a óbito ou de recuperação com sequelas. Como não se alarmar?

À vera desde semanas tenho reflexões sobre pontos da situação — política, moral, psicológica — criada pela pandemia; e quando as escrever, tentarei não divulgar meras repetições do que outros mais capacitados estão espalhando aqui e lá fora. Oferecer pratos requentados, mesmo nutritivos, nunca foi o mais atraente.

Preocupa-me ponto em especial, ainda hipótese chã, que poderia vir a ter relevância; até agora não li nenhuma alusão a ele. Fica para próximo artigo. Já advirto, conjeturas, uns poderão gostar, outros terão reservas. Paciência, ainda serão meras conjeturas, nada mais corriqueiro do que aceitá-las ou recusá-las. Por outro lado, despreocupa-me a possibilidade de levar chumbo, mesmo fogo amigo, de há muito virei boi do couro grosso.

O artigo de hoje, passando longe do vírus, repito, por surpreendente que possa parecer, surge da arrumação de gaveta bagunçada. Foi preciso jogar muita coisa fora, e a seguir ordenar com paciência, pelo menos minimamente, o que ficou. Na papelada encontrei esquecida preciosidade, pela foto e pelo texto: o cartão de Natal do Príncipe Dom Luiz de Orleans e Bragança, de 2013. Palavras de afeto e irresignação.

Dom Luiz é o Chefe da Casa Imperial do Brasil, todos sabem. O cartão comenta a foto da avó, a Princesa D. Maria Pia (foto acima), clicada aos 19 anos — ela nasceu em 1878. Natural, a figura saída da História evocou de plano a constatação, aquela moça poderia ter sido por longos anos a Imperatriz do Brasil. Como teria se desempenhado? Que marcas deixaria na sociedade e no governo? Na história do País?

Candura, esmero, elevação, foram impressões primeiras despertadas pela foto de uma quase menina vestida de branco, olhar penetrante, um leque pendente da mão direita. Fui invadido por outras impressões: seriedade, leveza, delicadeza, bom tom, simplicidade, qualidades que nobilitavam o ar aristocrático.

Borbotou incontenível o confronto. Explico-me. A vida pública do Brasil, não é de hoje, está empanzinada de cenas sórdidas, entulhada de gente desbotada (na mais benévola e parcial das qualificações), da qual boa parte a corrompe e avilta, estadeando arrogância, imoralidade e primarismo. Aí o senso patriótico gritou forte. Amargurou-me o contraste entre a chusma desordeira que observo entristecido e a figura serena de uma moça despretensiosa, a figura indicava, provavelmente com enorme capacidade de influir e formar pelo bom exemplo.

A simplicidade de D. Maria Pia, ar modesto e tão senhora, contrastava no meu espírito com o que vejo todos os dias, no mundo oficial e na vida privada: cabotinismo, pedantismo, deboche, petulância, grã-finismo. Em vez de tanto retrocesso e obscurantismo, poderíamos ter experimentado avanços civilizatórios, com grande benefício social, impossibilitados, dói a constatação, pela subserviência irrefletida a preconceitos deformantes.

Volto à Princesa. Não custa lembrar, a grande arte de governar está na exemplaridade; acessível a todos (e, sob outro ângulo, paradoxalmente, com grande impacto, a poucos; vale muito o que hoje em geral se denomina carisma). “Verba movent, exempla trahunt”, bons exemplos cintilam e arrastam. Maus exemplos afundam. Os “role models”, cujo estudo ocupa a tantos pesquisadores, têm enorme papel formativo, potencial para promover inclusão social e impedir dilacerações nacionais.

E então, de um lado, longe, lá no século XIX, esplendia na foto o conteúdo nobre expresso na postura fidalga, tudo bem preparado para vida pública altamente favorecedora do bem comum; de outro, junto a nós, pleno século XXI, entenebrecedor o fundo cavernoso manifestado nos esgares contrafeitos de um sem-número de figuras caricatas do Brasil contemporâneo, cada vez mais debilitado e manchado por nota de abjeção em sua vida pública. Pensei cá comigo, pobres de nós, merecemos esta (má) sorte? Terá Deus se esquecido de nós? Afastei o pensamento, o débito deve cair na nossa conta.

Adiante. O nome Maria Pia, familiar, em nada rescende ao postiço e rebuscado. A postura ereta e a mirada segura mostram afavelmente o que ela é. No texto enaltecedor de Dom Luiz (foto ao lado), elegante e simples, mareja a admiração pela avó, com quem conviveu, falecida 40 anos antes, em 1973. Evola das palavras a irresignação do neto, não aceita que vá se apagando injustamente a memória da avó, tão necessária à família e até à História. “Eu e meus irmãos tivemos o privilégio de estreito contato com Vovó. […] Em extensas caminhadas ou em longos serões, ela nos comunicava seu grande afeto, transmitindo a visão do mundo e os valores”. Educação pela palavra e pelo exemplo.

Recorda Dom Luiz: “Buscou ela identificar-se com o Brasil. Aqui esteve em 1922, por ocasião do centenário da Independência, acompanhada do filho mais velho, meu pai D. Pedro Henrique […]. Sua presença foi muito solicitada então, chegando a participar do lançamento da pedra fundamental do Cristo do Corcovado, monumento cuja edificação teve origem em um pedido da Princesa Isabel”.

Deixo, por fim, ainda algumas palavras de dom Luiz: “D. Maria Pia teve a honra de avistar-se pessoalmente com o Papa São Pio X, e conservou do encontro, com profunda veneração, uma foto dedicada do Pontífice, hoje em minhas mãos”. Bonita atitude filial de dois católicos, o neto e a avó, merece registro. Com esteio em ensinamentos de São Pio X, Dom Luiz, muito oportunamente, termina a saudação de Natal reiterando sua fidelidade à civilização cristã, que deseja ver fulgurando no Brasil.

Por que o título simples deste artigo, só com a palavra simplicidade? Reconheço, pode parecer estranho, pois haveria multidão de títulos a escolher. Fiquei com simplicidade, chamou-me a atenção na foto, mas teve ainda razão mais ampla, o conceito expressa a união harmônica de virtudes. Evoco o ensinamento do Doutor Angélico. Na Suma escreveu São Tomás de Aquino: “Em sentido contrário, Agostinho [santo] afirma: ‘Deus é verdadeira e sumamente simples’. […] Para nós, os compostos são melhores do que os simples, porque a perfeição da bondade da criatura não se encontra em um único simples, mas em muitos; ao passo que a perfeição da bondade divina se encontra em um único simples, como se verá (q. 4, a.2).”

Faz falta enorme para o progresso social (para o de cada um de nós também) o tipo de personalidade da qual D. Maria Pia foi grande exemplo. Dom Luiz tem razão: a avó não deve ser esquecida.




 * * *