Pupitre na sede do Instituto Plinio Corrêa de Oliveira,
decorada pelo próprio Prof. Plinio. O leão à esquerda está lutando contra uma
serpente bicéfala simbolizando o orgulho e a sensualidade, as duas molas
propulsoras da Revolução. E o da direita está enfrentando uma serpente com três
cabeças, em recordação das três Revoluções. Ao centro, a frase “Residuum
revertetur” (O resto voltará). O ano de 1571 evoca a vitória da Cristandade em
Lepanto.
Pe. David Francisquini *
Enquanto processo multissecular de destruição paulatina da
civilização cristã nascida na Idade Média, a Revolução atua em todos os campos
da atividade humana para corroer os fundamentos dessa civilização. Quem o
afirma é o intelectual católico Plinio Corrêa de Oliveira em seu livro Revolução
e Contra-Revolução: “Claro está que um processo de tanta profundidade, de
tal envergadura e tão longa duração não pode desenvolver-se sem abranger todos
os domínios da atividade do homem, como por exemplo a cultura, a arte, as leis,
os costumes e as instituições”.
Para o mestre da Contra-Revolução “Este inimigo
terrível tem um nome: ele se chama Revolução. Sua causa profunda é uma explosão
de orgulho e sensualidade que inspirou, não diríamos um sistema, mas toda uma
cadeia de sistemas ideológicos. Da larga aceitação dada a estes no mundo
inteiro, decorreram as três grandes revoluções da História do Ocidente: a
Pseudo-Reforma, a Revolução Francesa e o Comunismo”.**
A causa mais profunda da baldeação ideológica de fiéis para
as hostes contrárias à Igreja reside em larga medida na ignorância religiosa e
doutrinária que grassa nos meios católicos. A propósito, recordo-me de que nos
idos de 1960 um jornalista muito arguto, mas pouco fiel à nossa santa fé,
chegou a afiançar que o Brasil não tardaria a se transformar no maior país
ex-católico do mundo.
São Pio X ensina que a debilidade das almas, da qual derivam
os maiores males, provém sobretudo da ignorância das coisas divinas. As obras
da ignorância religiosa são a paganização da sociedade, a germinação de
doutrinas contrárias à fé e a adoção de costumes hostis à nossa santa religião.
Tal ignorância é o resultado da educação deficiente em matéria de moral e
religião, que desde a infância prepara o homem contemporâneo para a aceitação
de doutrinas errôneas. Haja vista a maldita ideologia de gênero que tenta
relativizar uma das maiores obviedades existentes na natureza, a diferença
entre homem e mulher.
Sabemos pelo profeta Isaías que o caminho do ímpio e seus
iníquos pensamentos e obras agridem o Senhor. Deus é generoso para perdoar, mas
desde que haja arrependimento e contrição, pois tão-só aí a alma encontrará a
felicidade, existente apenas dentro da lei divina. Os que se afastam dela e
promovem a iniquidade, seus pensamentos e caminhos não são os de Deus, cujas
cogitações e vias se elevam muito acima deles. O profeta Isaías diz ainda que
assim como a chuva e o orvalho caem do céu para irrigar a terra e fazer
germinar a semente, a palavra de Deus produz o efeito de reconduzir o homem ao
caminho do bem, fazendo frutificar nele os efeitos da virtude.
A mídia revolucionária vomita diuturnamente as mais
escabrosas blasfêmias contra Deus e Nossa Senhora. O mesmo acontece com as
chamadas exposições de “arte”, com filmes e programas de televisão, com escolas
de sambas, com obras literárias etc. Com efeito, a presente etapa da Revolução
não se limita apenas em implantar o socialismo, mas vai muito além, agindo na
alma do homem com a intenção de destruir todos os valores cristãos existentes
nele e na família. De onde o ódio e blasfêmia, cujo fim é o culto ao próprio
demônio.
Não pensem os teimosos revolucionários que conseguirão
implantar o reino satânico desejado pelo príncipe das trevas; não creiam que a
implantação de leis iníquas conseguirá vencer as leis e a obra divinas, porque
paira sobre a Igreja a promessa de que as portas do inferno não prevalecerão.
______________
* Sacerdote da Igreja do Imaculado Coração de Maria –
Cardoso Moreira (RJ).
** Cfr. Leão XIII, Encíclica “Parvenus à la Vingt-Cinquième
Année”.
É muito ruim para a democracia que o Poder Legislativo seja
tão detestado
*Por José Robherto Guzzo
Tanto faz, de certa forma, quanta gente vai ou não vai para
a rua, ou quantas vezes está disposta a ir no futuro mais próximo. Além e acima
de tudo isso, há um fato que não muda: o Congresso Nacional e todo mundo que
está lá dentro formam hoje um dos grupos de seres humanos maís odiados do
Brasil. Se fizessem uma “pesquisa de opinião” perguntando ao brasileiro qual o
ambiente que ele respeita mais – a penitenciária da Papuda ou dupla
Câmara/Senado – qual você acha, sinceramente, qual seria a opinião da maioria?
Melhor não fazer pesquisa nenhuma, não é mesmo? A Papuda, na
verdade, bem que poderia ser hoje a residência verdadeira de muitos dos nossos
parlamentares – levando-se em conta que até setembro de 2019 cerca de 100
deputados, pelo menos, respondiam a ações penais no STF.
É muito ruim para a democracia de qualquer País que o Poder
Legislativo seja tão detestado como o brasileiro. É muito pior, ainda, que os
culpados disso sejam os próprios deputados e senadores, pelos atos que cometem
e pela conduta que exibem ao público. Não é o “facismo” que está sabotando o
Congresso, nem a direita – embora existam, sim, grupos de extremistas que
querem acabar com a história toda mandando para lá um cabo e dois soldados. Mas
essa turma jamais seria capaz de derrubar um guarda noturno se tivesse como
alvo pessoas de bem.
É o caso? Não é – e não adianta fazer de conta que é. A
maioria da população, hoje, iria aplaudir se a Câmara e o Senado fossem
fechados por um ato de força, ou ficariam indiferentes. Uma democracia assim
está doente.
A verdade é que são eles mesmos que construíram, tijolo por
tijolo, a sua imagem infame junto a maioria da população. A mídia, os partidos,
as entidades que representam alguma coisa, os sociólogos, etc. se levantam
indignados em defesa do Congresso. Queriam o quê? Basta ver o que fazem, no dia
a dia da vida real, os deputados e senadores. Não é só questão criminal – estão
sendo processados por peculato, concussão, lavagem de dinheiro, corrupção
passiva e ativa, falsificação de documento. Conseguem, até mesmo, ser acusados
em ações penais por trabalho escravo. Talvez pior que isso seja a postura que,
no entender das pessoas, eles têm diante do interesse público – sempre que vêem
alguma chance, ficam contra. Escondem-se atrás de crimes coletivos, no
plenário, para saquear o País.
Os congressistas brasileiros são, eles mesmos, uma
dificuldade quase insuperável para quem, honestamente, quer defender o Poder
Legislativo. As vezes, até, nem merecem a imagem que têm. Ainda no passado, por
exemplo, aprovaram a reforma da Previdência Social, uma obra que poucos
parlamentares no mundo fizeram até hoje. Mas isso já está esquecido – o que
interessa é o que o povo acha deles agora. E agora, além do passivo criminal,
são vistos como inimigos de tudo o que o governo tenta fazer para melhorar o
País, e como bandidos que agem o tempo todo contra as mudanças que o Brasil
precisa.
Nada pode ser considerado normal quando o Presidente da
Câmara dos Deputados faz 250 viagens em jatinhos da FAB durante o único ano de
2019 – mesmo porque uma das razões alegadas para isso é o fato de que ele não
pode andar em nenhum meio de transporte público, para não ser triturado por
vaias. Temos, aí, que o chefe da Casa do Povo não pode chegar a um metro do
povo.
É aceitável uma coisa dessas? Apesar de toda sua
mediocridade, que sempre funciona como um manto protetor para qualquer
político, os presidentes da Câmara e do Senado estão hoje entre as pessoas mais
abominadas do País. Não dá para funcionar assim – com ou sem gente na rua.
*José Robherto Guzzo, colunista da Folha de São Paulo
Na cultura brasileira, Clarice Lispector é um nome
glorioso. A escritora ucraniana estaria fazendo agora 100 anos de
vida. Será muito lembrada. Mas há outra Clarice que se destaca na
nossa cultura popular: Clarice Niskier, minha sobrinha, que comemora 40 anos de
carreira, com um feito notável que foi a apresentação de “A alma amoral” por
anos seguidos de sucesso.
A filha do meu querido irmão Odilon agora volta aos palcos,
para brilhar na peça inspirada na obra poético-musical de Zeca Baleiro, com 50
músicas e fragmentos de obras de Sérgio Buarque de Holanda, Ferreira Gullar,
Eduardo Galeano, Hélio Pelegrino e Osvald de Andrade. No seu texto, que
lembra também o sucesso do escritor israelense Yuval Harari, Clarice, de
forma inspiradora, criou um roteiro teatral de suas memórias político-sociais.
No teatro Petra Gold (Sala Marília Pêra), no Leblon, o
público entenderá as razões do amor de Clarice pelo Brasil e as suas ponderadas
razões para abraçá-lo. Ela não apenas escreve muito bem, como interpreta
de maneira maravilhosa, como aconteceu durante os 14 anos de apresentação de “A
alma imoral”, uma adaptação do livro de mesmo nome do rabino Nilton Bonder, sob
a competente direção de Amir Haddad. A nova peça tem o sugestivo título
de “A esperança na caixa de chicletes Ping-Pong”.
Não estranho o sucesso de Clarice. Tenho por ela
enorme admiração, desde os tempos em que, bem jovem ainda, começou a
carreira jornalística como repórter e fotógrafa do “Jornal do
Brasil”. Ali já revelava o seu agudo interesse pelas notícias e suas
consequências na vida brasileira. Ela confessa que o seu novo
trabalho nasceu há aproximadamente 20 anos, quando ouviu o “Samba do approach”,
apresentado pela irmã Joice, que havia escolhido a música para uma audição de
canto: “As letras do Zeca refletem o meu pensamento. É uma coisa
bem-humorada e profunda.”
Assim, aborda temas ligados à solidão, medo e amor, por
exemplo. Ela critica a atualidade, em que há ódio dos dois lados:
“Gosto muito de falar na língua portuguesa, tem tudo a ver com a minha
identidade.”
Clarice Niskier não quer ter razão em tudo: “Quero apenas
que o público me compreenda. Como artista, tenho o dever de compreender o
outro, para depois, se for o caso, poder discordar.” Por isso mesmo,
condena a ideologização da cultura, no momento degradante em que vive o
país. Quanto à peça, não há dúvida, repetirá o êxito dos trabalhos
anteriores da nossa Clarice.
Arnaldo Niskier - Sétimo ocupante da Cadeira nº 18 da ABL,
eleito em 22 de março de 1984, na sucessão de Peregrino Júnior e recebido em 17
de setembro de 1984 pela acadêmica Rachel de Queiroz. Recebeu os acadêmicos
Murilo Melo Filho, Carlos Heitor Cony e Paulo Coelho. Presidiu a Academia
Brasileira de Letras em 1998 e 1999.
Derrotada nas eleições, a esquerda pretende tornar o Brasil
inviável para voltar ao Poder.
Os acontecimentos dos últimos anos são motivos de
esperanças, mas também de apreensões.
Livramo-nos de uma seita vermelha, socialista, profundamente
contrária à índole cristã de nosso povo, que estava nos conduzindo para uma
situação semelhante à da Venezuela.
Derrotada nas últimas eleições, a esquerda não descansa um
minuto em seu afã de tornar o Brasil inviável, de criar uma crescente
instabilidade e de propalar em todo o mundo uma suposta deriva autoritária
decorrente da eleição do atual presidente Jair Bolsonaro.
Em sucessivos estrondos publicitários, somos continuamente
caluniados por entidades internacionais, em palestras e jornais de grande
tiragem, e até mesmo em certos púlpitos e sacristias.
Contrariando a realidade, boa parte da imprensa nacional
interessada em reconduzir a esquerda ao Poder faz eco contínuo a tais
acusações, numa verdadeira campanha para impedir o reerguimento moral e
material de nossa Pátria.
Nenhuma menção é feita ao gradual desaparelhamento do
Estado, ao processo de desburocratização, ao espetacular sucesso do agronegócio,
à melhoria dos índices econômicos e da segurança pública, à tranquilidade das
ruas marcada pela natural bonomia do brasileiro. Nada disso interessa aos
“profetas do fracasso”.
Para tais “profetas”, o alvo não é apenas o atual governo,
mas também toda a reação conservadora surgida na última década no Brasil.
Há mais de 60 anos o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, grande
líder católico, homem de pensamento e ação, iniciou uma cruzada ideológica em
defesa dos valores básicos de nossa civilização ocidental e cristã — a
tradição, a família e a propriedade —, a qual se difundiu rapidamente pelos
cinco continentes, tornando-se a maior reação anticomunista de inspiração
católica do mundo.
O Instituto Plinio Corrêa de Oliveira, que assume hoje
no Brasil esses ideais, continua sempre presente nas ruas e nas redes sociais,
alertando a opinião pública, denunciando a esquerda e conclamando os
brasileiros para uma reação autenticamente anticomunista em nossa Pátria.
Tal reação – cuja expressão mais característica pode ser
sintetizada no brado em uníssono “quero o meu Brasil de volta”, ouvido
nas manifestações multitudinárias —, é a recusa de uma sociedade desfigurada
pela agenda da esquerda, que incluía, entre outras propostas, a aprovação do
aborto, do “casamento homossexual”, da ideologia de gênero… Os brasileiros de
bem se sentiam discriminados e perseguidos por aqueles mesmos que tanto falavam
contra a “discriminação”.
O que nosso povo realmente quer é um Brasil fiel a si mesmo,
ao seu passado glorioso, que realize o futuro promissor que lhe está destinado
pela Divina Providência, progredindo sempre na obediência à Lei Natural, isto
é, àquela lei que, segundo o Apóstolo São Paulo, está “escrita pelo dedo
de Deus na alma do homem”.
O Instituto Plinio Corrêa de Oliveira é
apartidário, mas não pode omitir-se quando a esquerda — com o apoio de
políticos, de boa parte da mídia e de líderes socialistas estrangeiros —
pretende impor a “velha política”, chegando a aventar um absurdo impeachment do
Presidente da República. Para isso procuram criar o desânimo e a divisão
entre aqueles que se levantaram em defesa do País.
“Vigiai e orai, para não cairdes em tentação” (Mt 26,
41), é o que ensina nosso Divino Salvador. O Brasil se livrou de um regime que
caminhava para o fim da família e o desrespeito dos valores mais caros ao
Cristianismo. Incumbe-nos agora consolidar a reconquista ocorrida, confiando
sempre na Divina Providência, que nunca nos faltou.
Nascido sob o Cruzeiro do Sul, tendo como primeiro ato
oficial uma Santa Missa e como primeiro nome Terra de Santa Cruz — não é por
acaso que o Cristo Redentor no alto do Corcovado é o monumento mais expressivo
dessa realidade —, o Brasil saberá, como sempre soube, ser fiel a si mesmo e,
acima de tudo, ser fiel a Deus Nosso Senhor.
Não cederemos, não recuaremos! Essa reação conservadora não
veio para ser uma onda passageira, mas para marcar os séculos futuros; para
denunciar e desmascarar a esquerda em todas as suas formas; e para combater, de
modo firme e claro, dentro da lei e da ordem, todos os desvios que os
socialistas tentaram — e continuam tentando — impor ao nosso País.
Que Nossa Senhora Aparecida, Rainha e Padroeira do Brasil,
nos mantenha firmes nesse propósito.
Clique sobre a foto, para vê-la no tamanho original:
Ferradas
Cyro
de Mattos
Uma das povoações mais antigas da Bahia. Em 1815 recebeu a
visita do príncipe alemão Maximiliano Alexandre Felipe. Recebeu também as
visitas dos naturalistas Spix e Martius. Teve no início da civilização
cacaueira baiana nome aristocrático: Vila de Dom Pedro de Alcântara.
Reconhecida como bairro mãe de Itabuna, sua história está
ligada à catequese dos índios, sobressaindo-se a figura do capuchinho Frei
Ludovico de Livorno, que era tido pelos desbravadores e conquistadores da terra
como alguém que possuía poderes sobrenaturais. Antes de exercer missão
evangelizadora entre os índios, Frei Ludovico de Livorno serviu como capelão no
exército de Napoleão.
Em Ferradas, na fazenda Auricídia, nasceu Jorge Amado, o
escritor mais popular do Brasil, o mais traduzido no mundo. É também berço do
poeta Telmo Padilha. Na época do desbravamento, havia em Ferradas um comércio
ativo, com armazéns de portas largas e tropas de burro que chegavam carregadas
de cacau. A luta pela posse da terra, que acenava com as suas léguas férteis,
fez do povoado cenário de crimes praticados por jagunços. Jorge Amado mostra no
romance “Terras do Sem Fim” essa paisagem violenta de Ferradas, um dos domínios
do coronel Horácio.
Naqueles idos, o povoado era uma rua comprida e sem
calçamento. Ali tropeiros e viajantes ferravam os animais, burros e mulas, que
enfrentavam estradas estreitas e perigosas, veredas pedregosas no verão,
lamacentas no inverno. Dirigiam-se em suas marchas incansáveis para a Vila de
Vitória da Conquista, no alto sertão. Surgiu depois do povoado o bairro de
Ferradinhas. Muito depois. Há pouco menos de trinta anos surgiu outro bairro, o
de Nova Ferradas, com casas populares em ruas mal traçadas e sem calçamento.
Anoto em Ferradas a paisagem monótona. Tudo é natural.
Mulher janeleira como uva na parreira. Gente velha sentada na cadeira, no
passeio da casa. O céu de almofadas. Casas que cochicham e espiam as ruas
sonolentas. O silêncio gordo em tudo. A abelha nas flores do jardim pequeno da
única praça. O ar verde das árvores nos quintais frutíferos. Passarinhos em
alarido bicam a manhã luminosa. Vento morno da manhã aquece os passos do homem
barbudo que entra no açougue. Longe das avenidas, ruas que não têm fim,
viadutos e túneis, carros velozes que cantam no asfalto, meus passos
compartilham com essa proposta de vida em andamento vagaroso.
Acho agradável o menino a brincar com os pombos no passeio
da igrejinha. Todos os dias, vejo o burro que está pastando agora na praça.
Cyro de Mattos é ficcionista e poeta. Também editado no
exterior. Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México. Membro efetivo da
Academia de Letras da Bahia. Doutor HonorisCausa da UESC.
O sol se manifesta à maneira de Deus, e a lua à maneira de
Nossa Senhora. Recebendo a luz forte e variegada do sol, a lua a devolve
atenuada, como consolação para os que lamentam a retirada do astro-rei.
Plinio Corrêa de Oliveira
O percurso feito por um homem durante a vida pode ser
comparado ao curso do sol ao longo de um dia.
Na aurora o sol emite raios suaves, que contemplamos com
encanto, e seu brilho se intensifica gradativamente à medida que ilumina todo o
panorama. Da mesma forma que o sol, a criança de tenra idade irradia frescores
primaveris, reluzentes de encantos que lembram os da aurora. São graciosos
atrativos, que não mais se repetem ao longo das idades.
Ao se aproximar o meio-dia, o sol brilha em seu auge.
Persistente e imutável, dardeja sem nenhum esforço aparente, parecendo tirar de
si todas as energias, para iluminar todas as regiões do universo aonde sua luz
deve chegar. Sem parecer fatigar-se com esse esforço colossal, ele se empenha
em mostrar uma generosidade imensa. Sua potência incomparável parece fazer a
oblação de si mesmo, e nisto simboliza metaforicamente o esforço, a operosidade
e a glória de um homem na maturidade.
Quando o sol começa a se pôr, vai aos poucos perdendo o
brilho, o que pode ser comparado, na vida do homem, com a fase em que ele já
deu o máximo de si, já pode alegrar-se por ter atingido seus objetivos. Diante
da missão realizada, do opus factum, ele pode ir-se retirando com
dignidade e deixando as coisas deste mundo. Assume uma gloriosa diminuição de
si mesmo, como quem diz: Tendo chegado a este ponto, não consigo cessar de
repente, e de agora em diante me dedicarei à gloriosa contemplação. Vou sumindo
gradualmente, pois foi gradualmente que subi até o mais alto. Combati o bom
combate e chego à última etapa, que é a do ocaso.
Bem próximo ao anoitecer, e antes de desaparecer
completamente, o sol emite uma última luzinha, que ainda é a glória de si
mesmo. Não entra na escuridão, mas o mundo é que perde a luz por ter ele se
retirado. A vida do homem justo tem algo disso, quando vai deixando de irradiar
luz para entrar na luz da eternidade.
São estes os vários estágios do sol, e em cada um deles
temos uma representação da existência de um homem.
Na observação das inúmeras variedades de pôr-do-sol, é
interessante considerar também sua semelhança com a história dos impérios, das
culturas, da Igreja ou das eras. Sua linha histórica é parecida com a sucessão
dos dias: alguns têm suas manhãs magníficas, seguidas de variações diversas ao
longo do dia, até que vem a noite.
A noite representa aspectos inteiramente diferentes.
A lua não tem a potência iluminadora do sol. Ao subir no
horizonte, sua luz contrasta com as trevas e as trevas vão crescendo em torno
dela. Ela se destaca da escuridão, mas sem crescer em luminosidade. Não visa
destruir as trevas, não é essa a sua função. Não visa dominar, nem se impõe
como o sol. Não estando ele presente, ela devolve amigavelmente parte da sua
luz.
Diante dos homens que estão sós e órfãos do sol, o luar
entra na intimidade deles e os consola, dando uma ajuda, um lenitivo, uma
esperança. Aos que ficaram atemorizados com o esplendor do sol, a lua
tranquiliza: Você não interpretou bem o sol. Eu também sou luz, e se você
observar como é a luz em mim, amanhã entenderá melhor o brilho do sol. Graças a
essa ação benéfica da lua, de Maria Santíssima, homens assim amanhecem
reconciliados com o sol. E sob o sol benfazejo eles recomeçam suas jornadas.
Como consoladora, a meia-luz da lua também atenua o que é
feio, tosco, defeituoso, bem ao modo de Nossa Senhora. E o sol prossegue sua
ação grandiosa, à maneira de Deus Nosso Senhor.
_______________________________________________
Excertos da conferência proferida pelo Prof. Plinio Corrêa
de Oliveira em 12 de junho de 1981. Esta transcrição não passou pela revisão do
autor. Fonte: Revista Catolicismo, Nº 830, Fevereiro/2020.
- Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo +, segundo São
João.
- Glória a você, Senhor.
Assim, ele chegou a uma cidade em Samaria, chamada
Sicar, perto da herança que Jacó deu a seu filho José. Havia o poço
de Jacó. Jesus, cansado da estrada, estava sentado junto ao poço. Foi
por volta da sexta hora. Uma mulher de Samaria vem tirar
água. Jesus disse-lhe: "Dê-me uma bebida".
Pois seus discípulos foram à cidade comprar
comida. Ele diz à mulher samaritana: "Como você, sendo
judia, me pede para beber, como eu sou uma mulher
samaritana?" (Porque os judeus não lidam com os samaritanos.)
Jesus respondeu: «Se você conhecesse o dom de Deus, e
quem é que lhe diz:" Dá-me para beber ", você o teria perguntado, e
ele lhe daria água viva." A mulher diz-lhe: «Senhor, nada tens
com o que atrair, e o poço é profundo; Onde, então, você tem essa água
viva? És tu mais do que nosso pai Jacó, que nos deu o poço, e ele e
seus filhos e seu gado beberam dele? "
Jesus respondeu: “Todo aquele que bebe desta água terá
sede outra vez; Mas quem beber da água que eu lhe der nunca terá
sede, mas a água que eu lhe der se tornará nele a fonte de água que brota para
a vida eterna. "
A mulher disse-lhe: "Senhor, dá-me essa água,
para não ter mais sede e não ter que vir aqui para tirá-la". Ele lhe disse:
"Vá, chame seu marido e volte aqui". A mulher respondeu:
"Não tenho marido". Jesus lhe disse: «Você disse bem que não tem
marido, porque teve cinco maridos e o que você tem agora não é seu
marido; em que você falou a verdade. A mulher lhe disse:
«Senhor, vejo que você é profeta. Nossos pais adoraram nesta
montanha e você diz que Jerusalém é o lugar onde você deve adorar. "
Jesus disse a ela: “Acredite em mim, mulher, está
chegando a hora em que nem neste monte nem em Jerusalém você adorará o
Pai. Você adora o que não sabe; adoramos o que sabemos, porque
a salvação vem dos judeus.
Mas chegou a hora (já estamos nele) em que os
verdadeiros adoradores adoram o Pai em espírito e em verdade, porque é assim
que o Pai quer que eles sejam aqueles que o adoram. Deus é espírito,
e os que adoram devem adorar em espírito e verdade. " A mulher
lhe diz: «Sei que o Messias, chamado Cristo, está chegando. Quando ele
vier, ele nos explicará tudo.
Jesus lhe disse: "Eu sou o que falo com
você".
Nisto vieram seus discípulos e ficaram surpresos ao
falar com uma mulher. Mas ninguém lhe disse: "O que você
quer?" ou "O que você está falando com ela?" A
mulher, deixando o jarro, correu para a cidade e disse ao povo:
«Venha ver um homem que me contou tudo o que fiz. Não poderia ser o
Cristo?
Eles deixaram a cidade e foram até ele. Enquanto
isso, os discípulos insistiram para ele dizer: "Rabi, coma". Mas
ele lhes disse: Tenho comida para comer, que você não conhece. Os
discípulos disseram um ao outro: "Alguém lhe trouxe algo para comer?"
Jesus lhes diz: «A minha comida é fazer a vontade
daquele que me enviou e realizar a sua obra. Você não diz: Mais
quatro meses e a colheita chega? Bem, eu lhe digo: levante os olhos e veja
os campos que já estão brancos para a colheita. E que ceifa
recebe galardão, e ajunta fruto para a vida eterna, para que o semeador está
contente como o ceifeiro.
Pois nisto se prova que um é o semeador e o outro o
ceifador. Eu te enviei a ceifar onde você não está
cansado. Outros estão cansados e você aproveita o cansaço deles. Muitos
samaritanos daquela cidade acreditaram nele por causa das palavras da mulher
que testemunhou: "Ele me contou tudo o que eu fiz". Quando
os samaritanos chegaram a ele, imploraram que ele ficasse com eles. E ele
ficou lá dois dias.
E muitos outros acreditaram em suas palavras, e
disseram à mulher: «Não acreditamos mais em suas palavras; que nós
próprios ouvimos e sabemos que este é verdadeiramente o Salvador do mundo.
"
“Todo aquele que bebe desta água terá sede de novo” (Jo
4,13)
Diante da imagem do deserto, muito presente durante o tempo
quaresmal, a sensação é de sede.
O deserto evoca nossa sede de água e de plenitude. Onde
encontrar a água? Como saciar nossa sede?
É cada vez maior o número de restaurantes que dispõem de
“menu de águas”. Águas dos mananciais mais puros, dos aquíferos mais profundos,
das nascentes mais cristalinas... Água abundante e ao alcance daqueles que
podem pagar por ela. Uma água para cada sede e uma sede para cada água.
No entanto, no mais profundo de nosso ser, somos habitados
por uma sede que nenhuma água pode saciar: sede de sentido, de plenitude, de
vida inspirada e criativa...
Bendita sede que nos mantém abertos a Deus e aos outros! As
pessoas que fizeram diferença e mudaram o mundo foram aquelas profundamente
sedentas. Amaram essa sede de que fala Jesus: “Se tu conhecesses o dom de
Deus...” Pessoas que ativaram a sede de justiça, no deserto de uma injustiça
asfixiante; pessoas que suportaram a sede de paz sob forte pressão das fábricas
de armas; pessoas que viveram a fundo sua fé em uma Igreja que, com frequência,
as deixava sedentas e as colocava à margem. Pessoas que se encheram de Deus
porque renunciaram saciar aquela sede com qualquer água. Precisamos de pessoas,
como a samaritana, que nos deem as coordenadas d’Aquele que pode despertar
nossa sede, antes de nos dar água.
Jesus, junto ao poço de Jacó, é a viva imagem de um “Deus
sedento”, que ama a humanidade até morrer de sede por ela, e que uma esponja
molhada em vinagre não conseguirá apagá-la. Junto ao poço, nossa pequena sede e
a sede de Deus se encontram. Sua sede de justiça confrontada com nossa sede de
harmonia; sua sede de misericórdia confrontada com nossa sede de
reconhecimento; sua sede de compaixão confrontada com nossa sede de segurança.
Não para diminuir nossa sede, mas para ampliá-la; não para menosprezá-la, mas
para dignificá-la.
A vida, carregada de obrigações, compromissos, preocupações,
rotinas..., onde investimos tanta atenção e energia, pode maquiar ou bloquear
as sensações profundas, fazendo-nos perder o contato com nossa sede original e
criando um deserto existencial. Jesus assume nosso deserto; acolhe-o,
fazendo-se presente em seus recantos de dúvida, de medo, de solidão. “Dá-me de
beber”, ressoará no nosso eu mais profundo. E poderíamos lhe dizer: com a sede
que temos, nos pedes que sacie a tua sede? A resposta não se faz esperar: é
Deus quem tem sede de nós, é Jesus que nos convida a partilhar de nossa água
com Ele.
Jesus cansado e sedento, sentado à beira do poço; uma mulher
com sede que acode com seu balde para tirar água. Dois sedentos e com a água no
poço. Sedentos os dois de água, mas, possivelmente, os dois também
sedentos de algo mais que água. Jesus sedento quer encher de água viva aquele
coração cheio de “maridos”; uma mulher sedenta de algo mais que pudesse apagar
a sede que seus maridos não conseguiam.
A samaritana chega ao poço, alheia ao que ali lhe esperava e
que, na trivialidade de sua vida cotidiana, tudo fazia-se previsível: vai
somente buscar água com o cântaro vazio para retornar à sua casa com ele cheio.
Não há mais expectativas, nem outros planos, nem mais desejos. Mas o
imprevisível está esperando por ela, na pessoa daquele galileu sentado na beira
do poço, que inicia uma conversação sobre coisas banais, talvez para não
assustá-la: falam de água e de sede, de poços e de velhas desavenças entre
povos vizinhos, coisas de todos os dias.
Jesus começa como o frágil sedento que se atreve a pedir
água. A mulher, muito segura de si, sente-se dona do poço, da água e do balde.
Subitamente, irrompe a linguagem das “coisas do alto”: o dom, uma água que se
converte em manancial vivo, a promessa de uma sede saciada para sempre, um Deus
que nos busca, fora dos espaços estreitos de templos e santuários.
A samaritana se defende e procura manter a conversa em um
nível de trivial superficialidade, fugindo da irrupção do “novo” em sua vida.
Mas, no final da cena, o cântaro que era símbolo da pequena capacidade que está
disposta a oferecer, permanece esquecido junto ao poço, já inútil à hora de
conter uma água viva. E os dois, Jesus e a mulher, terminam esquecendo-se
da sede, da água, do poço e do balde. Duas vidas que se encontram e se
comprometem: Jesus, que vai abrindo caminho para chegar ao profundo daquele
coração feminino; a mulher que resiste, mas, aos poucos, se abre às palavras
daquele homem imprevisível; Jesus, que vai desvelando a mulher por dentro,
fazendo emergir seus profundos vazios; a mulher que co-meça a sentir o
borbulhar do manancial em seu coração, encontrando-se com a verdade de si
mesma; Jesus que vai se esquecendo do poço de Jacó e vai abrindo uma nova fonte
naquele coração de mulher; a mulher que se esquece da água e do cântaro e
regressa ao seu povoado gritando o que seu coração encontrara.
O encontro com a mulher samaritana é um belo ícone para
descobrir o Mestre da Galileia que, como um grande mistagogo, vai conduzindo-a
ao centro de si mesma, à profundidade de seu mistério pessoal e à consciência
de ser uma “mulher habitada”.
“Descer” ao fundo do poço é a oportunidade para descobrir
regiões novas e novos horizontes, para conhecer o reino interior, para
encontrar a riqueza profunda e assim experimentar a transformação.
O caminho para uma nova qualidade de vida passa pela descida
ao mais profundo do nosso próprio poço. Isso requer coragem para passar por
todas as regiões sombrias e chegar ao fundo. Mas essa descida nos possibilita
descobrir um mundo diferente que não conhecíamos, ou que havíamos perdido. Lá
no fundo, encontra-se um bem precioso que podemos levar conosco, que nos ajuda
em nosso caminho e que nos faz totalmente íntegros e sãos.
A CF deste ano, com o tema “Vida, dom e missão”, nos motiva
a despertar as potencialidades de vida que ainda permanecem adormecidas. É preciso
“descer” até às profundezas para descobrirmos uma nova riqueza que plenificará
nossa vida; é “descendo” que poderemos revitalizar a vida que se tornara vazia
e ressequida. É preciso despertar, escavar, avançar em direção ao “manancial” e
saber que este não é nossa propriedade; ele nos é oferecido. Não basta falar de
“água viva”, é também necessário “escavar” nosso “chão interior”, desbloquear e
ampliar o espaço do coração para que o manancial ali presente, encontre chance
de emergir e dar um novo sabor à nossa vida.
A vida sempre está oculta nas profundezas. A pessoa
superficial é aquela que se confunde com suas ideias, seus apegos, suas falsas
seguranças.... A pessoa do “eu profundo” é aquela que vive a partir da raiz, da
fonte mesma da vida, e deixa vir à tona todas as suas riquezas, dons,
capacidades...
O percurso quaresmal “des-vela” nosso “eu profundo”, o lugar
onde habitam os aspectos benéficos da nossa personalidade, as boas tendências,
as qualidades positivas, os dons naturais, as riquezas do ser, as beatitudes
originais, as aspirações de grande fôlego, as idéias-força, os dinamismos da
vida..., que formam o eixo de nossa existência, o melhor de nós mesmos, o
fundamento de nossa verdadeira identidade.
O “tesouro do ser” (certezas, intuições, projetos,
valores...), ainda que pareça esquecido, permanece armazenado em sua mensagem
essencial, e pode se tornar a força que orienta toda a vida, a sabedoria da
própria vida, um lugar de fecundidade, de criatividade, fonte de renovação...
Texto bíblico: Jo 4,5-42
Na oração: para realizar-se e desenvolver toda a sua
potencialidade, busque, na oração, cavar mais profundamente, até atingir as
raízes de seu ser, o núcleo original de sua personalidade.
- Diante da presença de Deus, esteja aberto(a) ao contato com
a própria realidade interior, para que venha à superfície aquilo que sustenta e
dignifica o seu viver.
- Dirija seu olhar para o mais íntimo de si mesmo(a), onde
nascem sentimentos e valores, decisões e gestos..., onde você é convidado(a) a
se alegrar com os rastros da Graça.
- Deixe-se conduzir pela “sede” de Deus que está enraizada
em seu coração.