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segunda-feira, 16 de março de 2020

FERRADAS – Cyro de Mattos


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Ferradas
 Cyro de Mattos


Uma das povoações mais antigas da Bahia. Em 1815 recebeu a visita do príncipe alemão Maximiliano Alexandre Felipe. Recebeu também as visitas dos naturalistas Spix e Martius. Teve no início da civilização cacaueira baiana nome aristocrático: Vila de Dom Pedro de Alcântara.

Reconhecida como bairro mãe de Itabuna, sua história está ligada à catequese dos índios, sobressaindo-se a figura do capuchinho Frei Ludovico de Livorno, que era tido pelos desbravadores e conquistadores da terra como alguém que possuía poderes sobrenaturais. Antes de exercer missão evangelizadora entre os índios, Frei Ludovico de Livorno serviu como capelão no exército de Napoleão.

Em Ferradas, na fazenda Auricídia, nasceu Jorge Amado, o escritor mais popular do Brasil, o mais traduzido no mundo. É também berço do poeta Telmo Padilha. Na época do desbravamento, havia em Ferradas um comércio ativo, com armazéns de portas largas e tropas de burro que chegavam carregadas de cacau. A luta pela posse da terra, que acenava com as suas léguas férteis, fez do povoado cenário de crimes praticados por jagunços. Jorge Amado mostra no romance “Terras do Sem Fim” essa paisagem violenta de Ferradas, um dos domínios do coronel Horácio.

Naqueles idos, o povoado era uma rua comprida e sem calçamento. Ali tropeiros e viajantes ferravam os animais, burros e mulas, que enfrentavam estradas estreitas e perigosas, veredas pedregosas no verão, lamacentas no inverno. Dirigiam-se em suas marchas incansáveis para a Vila de Vitória da Conquista, no alto sertão. Surgiu depois do povoado o bairro de Ferradinhas. Muito depois. Há pouco menos de trinta anos surgiu outro bairro, o de Nova Ferradas, com casas populares em ruas mal traçadas e sem calçamento.

Anoto em Ferradas a paisagem monótona. Tudo é natural. Mulher janeleira como uva na parreira. Gente velha sentada na cadeira, no passeio da casa. O céu de almofadas. Casas que cochicham e espiam as ruas sonolentas. O silêncio gordo em tudo. A abelha nas flores do jardim pequeno da única praça. O ar verde das árvores nos quintais frutíferos. Passarinhos em alarido bicam a manhã luminosa. Vento morno da manhã aquece os passos do homem barbudo que entra no açougue. Longe das avenidas, ruas que não têm fim, viadutos e túneis, carros velozes que cantam no asfalto, meus passos compartilham com essa proposta de vida em andamento vagaroso.

Acho agradável o menino a brincar com os pombos no passeio da igrejinha. Todos os dias, vejo o burro que está pastando agora na praça.



Cyro de Mattos é ficcionista e poeta. Também editado no exterior. Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia. Doutor Honoris  Causa da UESC.

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sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

HISTÓRIA DE ITABUNA:História de Ferradas

História de Ferradas


          João Pereira virou-se para Carlos Sousa e lembrou-lhe a promessa de contar a história de Ferradas.

          - Isto aqui, iniciou Carlos Sousa, que era homem meio letrado e escrevia alguns artigos no violento jornal do farmacêutico Tourinho, é uma terra que tem uma história bonita; nasceu do ideal cristão de um missionário chamado frei Ludovico de Liorne. Antes, porém,  da vinda do missionário passou uma estrada em direção ao sertão. Quem a mandou abrir foi um senhor de engenho de Ilhéus.
Chamava-se Felisberto Caldeira Brant, futuro Marquês de Barbacena. Resolveu fazer a estrada para abastecer a cidade de Ilhéus de carne de boi, dos rebanhos que existiam lá pelas bandas do sertão de Minas.

          A estrada saiu de Ilhéus com o rumo ao arraial de Conquista; custou naquele tempo um dinheirão, dois mil cruzados. Em 1812, ainda estava no rio Salgado. O trabalho da estrada foi realizado por um português brutamontes, de nome Felisberto Gomes Caldeira, parente do senhor de engenho. Esse português, naquele tempo tenente-coronel, dono da terra, metido com negras e mulatas escravas, pintou e bordou com os pobres índios. Fez tanta malvadez, bateu tanto, espancou tanto, que até as feras das matas se amedrontaram dele.

          Anos mais adiante, nas guerras da Independência, meteu-se a gente e foi trucidado pelo célebre batalhão dos periquitos, recebendo, assim, na própria carne, as dores que os aborígines sofreram com as suas perversidades.

          A notícia, porém, das atrocidades praticadas contra os selvagens chegou ao conhecimento das autoridades e dos missionários.

          Imediatamente tomaram providências e trataram de corrigir os excessos. Baltasar Lisboa, comendador, dono da sesmaria de Ferradas movimentou-se e aproveitou a oportunidade para localizar, nos seus domínios, a antiga aldeia dos Gueréns, do Almada. Em seguida, chegou frei Ludovico de Liorne, que pôs termo à intranquilidade reinante, provocada pelo empreiteiro da estrada, e ergueu logo a cruz de Cristo, como símbolo da civilização.

          Esse frade, continuou a contar Carlos Sousa, segundo as crônicas, era cheio de bondade e devoção. Seu olhar, brando como a luz da tarde, infundia respeito enorme. Não só os civilizados, também os índios tinham por ele consideração semelhante, a que um bom filho dispensa ao pai.

          Viveu em Ferradas mais de trinta anos, civilizando os índios camacãs, pataxós, gueréns, e estendeu a sua ação ao Boqueirão, ao Colônia, até ao rio Pardo.

          Homem santo, esse frade,  toda a sua vida dedicou-a ao bem da humanidade. Na sua terra, na Itália, foi capelão do exército de Napoleão Bonaparte.

          Nunca teve medo da maldade humana, porque tinha fé e acreditava em Deus. Servia aos homens pelo amor de Deus.
Contavam dele que, na mais terrível batalha, quando os soldados caíam mortalmente feridos ele os assistia com as suas orações, até o último suspiro. E nunca uma bala feriu o seu corpo, mais de santo que mesmo de homem pecador.

          Foi esse homem quem fundou Ferradas, quem lançou, aqui, a semente do trabalho e da civilização que se espalhou pelo município.

          Ferradas teve dias grandiosos. Hospedou gente muito boa. Acolheu cientistas. Estiveram visitando-a o Príncipe Maximiliano, Spix e Martius.

          Nessa ocasião os cientistas bávaros condecoraram o arraial com o título de Vila de São Pedro de Alcântara, em honra ao primeiro Imperador do Brasil.

          Mas tudo passou. Frei Ludovico, velho e enfermo, foi morrer no seu convento, em Salvador.

          As colônias se acabaram e as plantações de cacau começaram a aparecer e a despertar a ambição nos homens brancos. Enquanto os índios recuavam para as matas, levas e levas de desbravadores se apoderavam das terras boas para o cacau, vindos de Ilhéus e do norte.

          E assim Ferradas mudou logo. Saiu do poder dos índios e dos padres e entrou na posse dos civilizados do cacau. Num instante, as suas casinhas de barro, os seus barracões de índios, a sua igreja tosca se transformaram. Casas melhores foram aparecendo, fazendas foram plantando, umas  depois das outras. E a nova povoação, de homens de nova fibra, com outra mentalidade se espalhava pela mata, com a mentalidade do cacau, que é a da riqueza, que absorve o homem, que fanatiza o homem, despertando nele a ambição, que é a mola do progresso.

          A riqueza, companheiro, é assim, boa, mas audaciosa, fascinante, mas atrevida. Por ela os homens brigam, fazem a guerra, ofendem a Deus.

          No tempo de frei Ludovico era diferente. Havia a pobreza, que é mansa como os cordeiros. Os fazedores de riqueza, são diferentes, respeitam a cruz, mas não largam a espingarda, amam até o próximo, quando ele não perturba os seus interesses.



(TERRAS DE ITABUNA – Cap. III)
Carlos Pereira Filho

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