A vigilância como virtude necessária para a conquista do
Reino do Céu está contida na lição do Divino Mestre sobre o chefe de família
que não sabe a hora em que virá o ladrão. O fiel cristão deve, pois, estar
sempre vigilante em relação aos inimigos que o cercam, pois nunca sabe quem o
espreita, nem quando será atacado.
E o inimigo está com frequência nos lugares menos
imagináveis. Com efeito, infelizmente, como se tornou comum vê-lo — muitas
vezes com naturalidade e indiferença — nos verdadeiros absurdos que acontecem
nos templos sagrados, nas celebrações litúrgicas, onde Nosso Senhor é tratado
indevidamente na recepção da Eucaristia.
Além da ofensa a Ele, esse estado de espírito displicente
acaba por abalar a fé e a devoção na presença real de Jesus Cristo Eucarístico.
Temos ainda a brutalidade e o ódio contra o sublime Sacramento instituído por
Jesus Cristo, verdadeiras profanações dos lugares santos.
— Não constituiriam um desdobramento sinistro do que neles
ocorre no dia a dia? Para avaliarmos a sua gravidade, recorramos rapidamente à
explicação dada por Orígenes, um dos grandes teólogos do início do
cristianismo, às palavras do Evangelho.
Ele nos ensina que o pai de família representa o
entendimento do homem; sua casa, a sua própria alma; e o ladrão, o demônio.
Esse inimigo se utiliza de discursos lisonjeiros, eivados de falsidades,
mentiras e traições para iludir os corações, perverter-lhes o entendimento,
saquear suas energias e abalar suas convicções.
O ladrão vem e mina a casa, pois o pai de família dorme sem
o cuidado de guardá-la. Em seguida, mata-o sem resistência, pois o surpreendeu
dormindo, em vez de vigilante, que deveria ser a sua atitude habitual. O estado
generalizado de indolência e torpor das almas torna o terreno propício a todo
tipo de profanação.
Circulam pela internet pequenas filmagens com exemplos do
que vem ocorrendo em muitas igrejas, ou seja, de pessoas que entram na fila de
comunhão, recebem a hóstia na mão e não a consome… Lembro-me a propósito de uma
notícia proveniente da histórica cidade de Trento, no norte da Itália, em que
um comungante ao receber do celebrante a hóstia na mão, partiu-a e deu metade
para seu cachorro que o acompanhava na igreja! Em outra ocasião, um gato subiu
ao altar, na hora da comunhão, e passou a comer as partículas consagradas.
Notícias assim nos deixam estupefatos! Não há por trás de
tudo isso uma rota do crime do sacrilégio e da profanação investindo contra o
que há de mais sagrado em nossas igrejas, que é o Santíssimo Sacramento?
Sacrários são destruídos ou jogados nas ruas com as hóstias; estas são também
roubadas, incendiadas, lançadas ao chão ou em rios; vestes e objetos litúrgicos
profanados; altares quebrados, imagens destruídas…
Quem estaria por trás dessas manifestações furiosas de ódio
contra Aquele que está verdadeiramente presente na Sagrada Eucaristia sob as
espécies de pão e vinho? Sem dúvida, satanás, por meio de seus sequazes, pois a
fúria é verdadeiramente satânica.
O mesmo ódio que levou Jesus Cristo a ser condenado e
conduzido ao alto do Calvário se repete em nossos dias com as profanações dos
sacrários de nossas igrejas. O sacrilégio constitui uma cacofonia sinistra que
reverbera nas profundezas infernais, pois tanto ódio só pode provir do demônio,
o eterno derrotado.
Pretendo voltar ao assunto.
_____________
(*) Sacerdote da Igreja do Imaculado Coração de Maria –
Cardoso Moreira (RJ).
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo
Lucas.
— Glória a vós, Senhor.
Naquele tempo,os publicanos e pecadores
aproximavam-se de Jesus para o escutar. Os fariseus, porém, e os mestres
da Lei criticavam Jesus. “Este homem acolhe os pecadores e faz refeição com
eles”. Então Jesus contou-lhes esta parábola: “Se um de vós tem cem
ovelhas e perde uma, não deixa as noventa e nove no deserto, e vai atrás
daquela que se perdeu, até encontrá-la? Quando a encontra, coloca-a nos
ombros com alegria, e, chegando em casa, reúne os amigos e vizinhos, e
diz: ‘Alegrai-vos comigo! Encontrei a minha ovelha que estava perdida!’
Eu vos digo: Assim haverá no céu mais alegria por um só
pecador que se converte, do que por noventa e nove justos que não precisam de
conversão. E se uma mulher tem dez moedas de prata e perde uma, não
acende uma lâmpada, varre a casa e a procura cuidadosamente, até
encontrá-la? Quando a encontra, reúne as amigas e vizinhas, e diz:
‘Alegrai-vos comigo! Encontrei a moeda que tinha perdido!’.
Por isso, eu vos digo, haverá alegria entre os anjos de
Deus por um só pecador que se converte”. E Jesus continuou.
“Um homem tinha dois filhos. O filho mais novo disse
ao pai: ‘Pai, dá-me a parte da herança que me cabe’. E o pai dividiu os bens
entre eles. Poucos dias depois, o filho mais novo juntou o que era seu e
partiu para um lugar distante. E ali esbanjou tudo numa vida desenfreada. Quando
tinha gasto tudo o que possuía, houve uma grande fome naquela região, e ele
começou a passar necessidade. Então foi pedir trabalho a um homem do
lugar, que o mandou para seu campo cuidar dos porcos. O rapaz queira
matar a fome com a comida que os porcos comiam, mas nem isto lhe davam.
Então caiu em si e disse: ‘Quantos empregados do meu pai
têm pão com fartura, e eu aqui, morrendo de fome. Vou-me embora, vou
voltar para meu pai e dizer-lhe: Pai, pequei contra Deus e contra ti; já
não mereço ser chamado teu filho. Trata-me como a um dos teus empregados’.
Então ele partiu e voltou para seu pai. Quando ainda
estava longe, seu pai o avistou e sentiu compaixão. Correu-lhe ao encontro,
abraçou-o, e cobriu-o de beijos. O filho, então, lhe disse: ‘Pai, pequei
contra Deus e contra ti. Já não mereço ser chamado teu filho’.
Mas o pai disse aos empregados: ‘Trazei depressa a melhor
túnica para vestir meu filho. E colocai um anel no seu dedo e sandálias nos
pés. Trazei um novilho gordo e matai-o. Vamos fazer um banquete. Porque
este meu filho estava morto e tornou a viver; estava perdido e foi encontrado’.
E começaram a festa. O filho mais velho estava no campo. Ao voltar, já
perto de casa, ouviu música e barulho de dança. Então chamou um dos
criados e perguntou o que estava acontecendo. O criado respondeu: ‘É teu
irmão que voltou. Teu pai matou o novilho gordo, porque o recuperou com saúde’.
Mas ele ficou com raiva e não queria entrar. O pai,
saindo, insistia com ele. Ele, porém, respondeu ao pai: ‘Eu trabalho
para ti há tantos anos, jamais desobedeci a qualquer ordem tua. E tu nunca me
deste um cabrito para eu festejar com meus amigos. Quando chegou esse
teu filho, que esbanjou teus bens com prostitutas, matas para ele o novilho
cevado’.
Então o pai lhe disse: ‘Filho, tu estás sempre comigo, e
tudo o que é meu é teu. Mas era preciso festejar e alegrar-nos, porque
este teu irmão estava morto e tornou a viver; estava perdido, e foi
encontrado”’.
Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Padre Roger
Araújo:
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O que está perdido em meu interior?
“Encontrei a minha ovelha que estava perdida”;
“encontrei a moeda que tinha perdido”;
“este teu irmão estava perdido, e foi encontrado”
As três parábolas deste domingo (24º Dom TC), relatadas por
Lucas, condensam toda a história de nossa salvação. Elas contêm a
quinta-essência do Evangelho do Reino do Pai, proclamado por Jesus, ou seja, a
história do amor de Deus para com a humanidade. Justamente por serem o
Evangelho condensado, as parábolas contadas por Jesus devem ser incessantemente
escutadas e contempladas por todos nós. E, depois de contempladas e
experimentadas, devemos contá-las, proclamá-las e testemunhá-las, sempre de
novo, a todos os homens e mulheres que Deus ama.
Elas são as parábolas da nossa vida, da nossa história, de
cada um dos nossos caminhos. Elas são as parábolas da nossa origem e do nosso
destino. As três parábolas da misericórdia são, na verdade, as “parábolas dos
perdidos”. O que Jesus quis proclamar, ao contá-las, foi revelar a nova imagem
do Deus Pai/Mãe que, movido pelo seu amor, misericórdia, perdão, sai ao
encontro dos que estão “perdidos”. As três parábolas expressam, com uma força
insuperável, dois temas particularmente caros a Lucas e vinculados entre si: o
tema da misericórdia e do perdão oferecidos por Deus aos pecadores, a todos os
“perdidos”, e o tema da alegria do mesmo Deus quando os perdidos são
encontrados.
A trama das três parábolas é a expressão de que vivemos
permanentemente banhados pela misericórdia reconstrutora de Deus, e que se
expressa no perdão contínuo. Jesus, nestas parábolas, nos revela que Deus vai
aonde nunca antes ninguém se atrevera ir, acompanhando-nos com sua presença,
aproximando-se de nós e nos convidando à festa do seu perdão, com uma
misericórdia sem fim.
As três parábolas também revelam o caráter de defesa, feito
pelo próprio Jesus, do seu modo de vida, do seu comportamento, particularmente
do seu relacionamento com os extraviados e excluídos. O Evangelho que Jesus
proclama com palavras e ações é a Boa Nova da salvação para os perdidos; e é,
ao mesmo tempo, apelo à conversão dirigido aos que se consideravam “justos”,
mas se fechavam ao amor e ao perdão.
O que escandalizava os destinatários das três parábolas, que
se consideravam justos e cumpridores exemplares da lei de Deus, não era
propriamente a conduta dos pecadores, mas a conduta do próprio Jesus com
relação a eles: permitia que os pecadores se aproximassem dele, recebia-os de
coração aberto, tomava a iniciativa de ir ao encontro deles e sentava-se com
eles à mesma mesa.
O comportamento de Jesus é uma “parábola viva” do
comportamento de Deus com os pecadores. Os escribas e fariseus não podiam
suportar que Jesus proclamasse o Deus que acolhe e perdoa incondicionalmente a
todos, que tem um carinho especial e um amor de predileção pelos perdidos; um
Deus que sai ao encontro dos perdidos e que transborda de alegria quando os
encontra. Esse Deus “novo” anunciado por Jesus era um Deus “desconcertante”,
“escandaloso”, totalmente incompatível com o “deus legalista” dos escribas e
fariseus. Por isso, a pregação e o comportamento de Jesus eram intoleráveis
para eles.
As três parábolas nos revelam os sentimentos e as ações do
“Abba de Jesus” com relação aos filhos perdidos. Revelam-nos um Deus cheio de
ternura e de misericórdia que vai ao encontro dos perdidos, libertando-os da
exclusão e do isolamento; um Deus que exulta de alegria quando os reencontra e
que convida a todos para a festa da comunhão e da alegria pelo seu retorno.
As três parábolas de Lucas nos permitem também fazer uma
leitura em “chave de interioridade”, ou seja, “o quê está perdido, rejeitado,
escondido... dentro de mim”? Os entendidos em restauração de obras de
arte sabem que não se trata de voltar a pintar de novo a obra em questão. Nem
sequer refazê-la, com outras cores, o que parece que está perdido. Um bom
restaurador procura limpar com delicadeza e paciência cada detalhe do quadro,
com a única pretensão de trazer de novo à luz o mais original da obra. Isto é o
que Deus faz conosco, através de sua misericórdia. Limpa-nos com delicadeza em
cada esquina e dobra de nosso coração. A misericórdia de Deus atua para que
venha à luz o mais original que há em nós. Somos filhos(as) de um Deus que é
todo bondade e amor. Somos obras de arte restauradas pelo amor ativo de Deus.
Viver a experiência da misericórdia é deixar-nos reconstruir por um amor que
nos oferece a possibilidade de sentirmos novamente como filho e filhas de Deus.
Precisamos, como Deus, tomar iniciativa, aprender a
nos aproximar daquilo que está perdido e desgarrado em nós, sem julgamentos e
sem moralismos. Aproximar-nos, acolher, abraçar, colocar nos ombros, tudo o que
foi rejeitado e excluído, para pacificar nossa interioridade. Tudo aquilo
que consideramos “perdido” (fragilidades, feridas, traumas, fracassos,
crises...) tem algo a nos revelar. Nada pode ser rejeitado, tudo deve ser
acolhido pois tudo compõe a nossa história de vida. Precisamos fazer as pazes
com o que foi reprimido e afastado e que continua gerando um mal-estar
interior.
O diálogo com as ovelhas desgarradas, as moedas perdidas e o
filho pródigo, significa dirigir a atenção para as áreas reprimidas de nossa
condição humana e que foram excluídas porque centramos forças em alimentar
nossas imagens aureoladas e ideais exagerados, dominados pelo desejo de sermos
perfeitos e infalíveis (fariseus e mestres da lei). Acolher e integrar tudo o
que é humano (também o que está afastado dentro de nós) é a condição para a
verdadeira experiência de Deus.
O encontro com o que está perdido em nosso interior é
oportunidade para nos lançarmos por inteiros nos braços misericordiosos de
Deus. Pois Ele vem ao nosso encontro em nossas carências e fraquezas; Ele nos
procura através de nossos fracassos, de nossas feridas, de nossas limitações...
Deus serve-se do que está perdido em nós para abraçar-nos carinhosamente.
Portanto, o caminho para a integração e alegria interior passa pelo encontro e
acolhida de tudo aquilo que foi rejeitado, reprimido e excluído dentro de nós,
consumindo muita energia.
A espiritualidade das parábolas de Lucas nos mostra que é
exatamente em nossas feridas onde Deus encontra mais facilidade para entrar em
nossas vidas e reconstruir nossa identidade verdadeira: filhos e filhas
amados(as) com um “amor em excesso”.
“Lá onde nós fomos feridos, onde nos quebramos, aí nós
também nos abrimos para Deus” (H. Nouwen)
Poderíamos nos interrogar: o que é que Deus deseja nos
revelar por meio daquilo que está “perdido” em nós? Procurar e buscar o que
está “perdido” em nossa casa interior significa “buscar e encontrar a Deus”
exatamente em nossas paixões, em nossos traumas, em nossas feridas, em nossos
instintos, em nossa impotência e fragilidade...
Viver uma nova espiritualidade significa, então, não buscar
“ideais de perfeição”, mas dialogar com a “vida perdida” e que deseja retornar
ao lar, espaço do amor misericordioso. A partir da experiência da misericórdia
podemos reunir em nosso redil, em nossa casa, tudo o que se afastou e se
perdeu. Daqui poderá brotar nova possibilidade de vida, mais leve e mais
humana.
Texto bíblico: Lc 15
Na oração: Qual é a ovelha desgarrada do seu interior
que é preciso ir atrás dela, acolhê-la e integrá-la ao redil? Qual é a moeda
que ali se perdeu?
- apresente a Deus suas ovelhas e moedas perdidas, para que,
na luz da sua misericórdia, tudo adquira novo brilho e nova vida.
Benditos sejam os que chegam em nossa vida em silêncio,
com passos leves para não acordar nossas dores, não
despertar nossos fantasmas, não ressuscitar nossos medos.
Benditos sejam os que se dirigem a nós com leveza, com
gentileza, falando o idioma da paz para não assustar nossa alma.
Benditos sejam os que tocam nosso coração com carinho, nos
olham com respeito e nos aceitam inteiros com todos os erros e imperfeições.
Benditos sejam os que podendo ser qualquer coisa em nossa
vida, escolhem ser doação.
Benditos sejam esses seres iluminados que nos chegam como
anjo, como flor ou passarinho, que dão asas aos nossos sonhos e tendo a
liberdade de ir escolhem ficar e ser ninho.
A maioria das vezes chamamos essas pessoas de
"AMIGOS"!
O
desenvolvimento da criança é, sem dúvida, uma das maiores preocupações dos
psicólogos no seu afã diário com esta ciência complexa, que nos desafia a cada
passo. Para compreender os segredos, é inevitável tanto para os leigos e também
psicólogos, a leitura do livro DIBS: Em Busca de Si Mesmo, de autoria da
psicóloga Virgínia M. Axline, através da tradução modelar da Professora Célia
Soares Linhares, que, apaixonada pelo conteúdo do livro encantador,
transportou-o para o nosso vernáculo a fim de que todos, de maneira indistinta, tivéssemos conhecimento da vida de Dibs, - uma criança excêntrica
que não se conhecia a si mesma, sendo, ainda extremamente indócil na
convivência com os seus semelhantes. Conseguiu, então, graças ao tratamento que
a moderna Psicologia oferece, safar-se da escuridão para a vida plena de luz, e
tornar-se um homem sedutor e líder estudantil. Quem operou tal milagre foi a
autora, Virgínia M. Axline, que pontifica na Universidade Estadual de Ohio e em
Columbus exerce a sua clínica particular, servindo a todos que a procuram,
especialmente as crianças, que a atraem de maneira particular, pois, no decurso
de seus estudos e trabalho, descobriu na ludoterapia o método plausível de
debelar os complexos infantis.
Li o livro
com a maior atenção, pois o assunto empolgou extremamente o meu espírito de
psicólogo.
E, como
bem expôs o escritor Leonard Carmichael, "um dos grandes problemas de
nossa época tecnológica caracterizada por grandes aglomerados populacionais, é
a compreensão autêntica das técnicas que possibilitam mudanças duráveis na
personalidade e no comportamento”. Dibs: em busca de si mesmo, como estudo da
organização mental e da modificação de atitudes, é importante neste
contexto. Está certíssimo o prefaciador do notável livro cuja leitura
termino agora, embevecido e orgulhoso pelos sucessos que a
Psicologia alcança.
O
profissional desta área alcançará o seu objetivo por mais obscuro que seja, se
ao seu trabalho dedicar-se de corpo e alma, porque nada, neste mundo, está
perdido... Dibs é o exemplo.
ANTONIO BARACHO – Poeta, psicólogo.
Membro da Academia Grapiúna de Letras- AGRAL, ocupante da
cadeira nº 11.
Muito acima do peso, dentes proeminentes e usando óculos
fundo de garrafa, ou seja, gorda, dentuça e quatro olhos, sinceramente,
torna-se um prato cheio no colégio para seus colegas gozarem a vontade,
colocarem apelidos maldosos e tratarem a pessoa com desprezo constante. E,
naquele tempo, não existia esse nome americano bonito (bullying) para
caracterizar o comportamento. Era uma montanha de apelidos sacanas e
depreciativos, sem o mínimo respeito humano pela aquela menina de dezesseis
anos apenas, e outros independentes das suas idades.
Na verdade, não existiam combates punitivos com relação a
esse comportamento, já que qualquer um que tivesse um diferencial qualquer
(físico ou gestual) era logo apelidado de alguma forma. Era uma característica
dessa cidade do interior, que é muito peculiar no norte/nordeste, onde esse
comportamento faz parte dos seus folclores!
Depois de sofrer anos seguidos nas garras dos colegas
sacanas e debochados, um dia, o pai de Maria Rosa (esse era o seu nome), por
ser funcionário público federal, foi transferido através de uma boa promoção
para trabalhar em S. Paulo. Foi um grande furor dentro da família, pois, com
esse deslocamento inesperado, seus vencimentos seriam quadruplicados e, pela
sua capacidade técnica, ainda teria uma séria de benefícios complementares
(casa, carro, plano de saúde especial, além de outras coisas mais que são destinadas
aos funcionários graduados dessa bendita nação.
Como teria o prazo de quinze dias para se apresentar,
trataram todos de preparar seus paninhos de bunda e, sem despedidas maiores,
seguiram todos num voo da TAM e os apetrechos num caminhão da King Transportadora.
Chegaram e se aconchegaram numa bonita e confortável casa num condomínio
fechado e de alto gabarito, deixando todos (os pais, Maria Rosa, o irmão Luiz e
a empregada que eles levaram por ser alguém que já estava com a família há mais
de dez anos) deslumbrados com a mudança radical de status.
Todos se posicionaram em suas atividades e, Maria Rosa que
era uma aluna exemplar, matriculou-se em uma maravilhosa escola, começou a
malhar diariamente, colocou um aparelho ortodôntico para corrigir as arcadas
dentárias e, para completar, fez uma cirurgia oftalmológica, eliminando,
categoricamente, a necessidade de usar óculos. Abreviando, o fato é que depois
de cinco anos ano, Rosinha (como era chamada em casa), tornou-se uma mulher
linda, charmosa, sensual e com o semblante feliz que nunca foi visto durante a
sua vida de discriminação na sua cidade natal. Formou-se em jornalismo, fez um
teste na Globo logo foi escalada para apresentar um dos jornais, já com o
pseudônimo sofisticado de Rosana Rosenberg.
Com um ano na Plim-Plim, namorou vários galãs, viajou por
meio mundo e casou-se com Marcelo Anthony, complementando a sua realização de
ter vencido uma série de adversidades que jamais imaginou que pudesse
acontecer!
Então, nada disso adiantaria se não fosse à oportunidade de
voltar a sua cidade natal como uma mulher consagrada, vencedora e, acima de
tudo, linda e desejada. Preparou um projeto sobre o modismo atual do combate ao
“bullying” e seguiu no jatinho particular global, chegando à cidade recebida com
as maiores honras. Fez seu trabalho, viu uma porção que, no passado, lhe
criticavam, gordos, barrigudos, feios, idiotizados e com seus trejeitos
interioranos, aparecerem em sua frente, ainda com as manias de apelidos idiotas
e depreciativos. Sentiu pena de ver os olhares de inveja!
O fato é que riu muito intimamente, sentiu-se vingada e, no
fim do dia, voltou para sua maravilhosa vida em Sampa, não deixando de, no
íntimo, agradecer aquele povo que, com seus comportamentos, lhe deram forças e
coragem para dar uma volta por cima e transformar-se em outra pessoa.
Esse fictício exemplo mostra que, quando queremos...também
podemos! Jamais nos acomodarmos e achar que não temos capacidade para realizar
nossos sonhos. Lógico que temos que enfrentar uma grande luta, porém seja
sempre guerreiro meu amigo ou amiga! Se outros podem, vocês também podem, pois,
não existem pessoas mais especiais do que vocês!
A Academia Brasileira de Letras dá
continuidade ao seu Ciclo de Conferências intitulado Cadeira 41,
com palestra do Acadêmico, poeta e letrista Geraldo Carneiro. O
tema será No bar, com Tom Jobim, com a coordenação geral da
Acadêmica Ana Maria Machado. O evento está programado para
quinta-feira, dia 12 de setembro, às 17h30, no Teatro R. Magalhães Jr., Avenida
Presidente Wilson 203 - Castelo, Rio de Janeiro. Entrada franca.
A intitulação Cadeira 41 remonta aos tempos
de fundação da ABL, em 20 de julho de 1897. Criada nos mesmos moldes da
Academia Francesa, o número máximo de Acadêmicos era de 40, o que continua até
os dias de hoje. Este Ciclo, no entanto, pretende apresentar quatro nomes que
poderiam ocupar, em suas épocas, uma dessas Cadeiras e, que, por razões
diferentes e individuais, não se tornaram membros da Academia.
A Acadêmica e escritora Ana Maria
Machado é a coordenadora geral dos Ciclos de Conferências de 2019.
Os Ciclos de Conferências, com
transmissão ao vivo pelo Portal da ABL, têm o patrocínio da Light.
Serão fornecidos certificados de
frequência.
Cadeira 41 terá mais duas
palestras, às quintas-feiras, no mesmo local e horário, com os seguintes dias,
conferencistas e temas, respectivamente: dia 19, Marisa Lajolo, Na
classe, com Mestre Candido; e dia 26, Acadêmico Cacá Diegues, Com
Jorge de Lima no coração.
O Acadêmico
Geraldo Carneiro é poeta,
letrista e roteirista de televisão, teatro e cinema.
É autor dos livros de poesia Em
busca do Sete-Estrelo, Verão vagabundo, Piquenique em
Xanadu (prêmio Lei Sarney de melhor livro do ano), Pandemônio, Folias
metafísicas, Por mares nunca dantes, Lira dos
cinquent’anos e Balada do impostor.
Publicou também Vinicius de
Moraes: A Fala da Paixão e Leblon: A Crônica dos Anos Loucos,
além de alguns sonetos traduzidos de William Shakespeare, na coletânea Sonhos
da Insônia (Impressões do Brasil, 97), publicada em parceria com
Carlito Azevedo.
Escreveu letras para canções com
diversos parceiros, tais como, Egberto Gismonti, Astor Piazzolla, John
Neschling, Francis Hime, Wagner Tiso. Além de textos para cinema, teatro e TV.
Pelo último roteiro escrito, a adaptação da novela O Astro, em
parceria com Alcides Nogueira, recebeu o prêmio Emmy.
No cinema, assinou os roteiros dos
filmes Eternamente Pagu (1987), de Norma Bengell, e O
judeu (1996), escrito com Millôr Fernandes, Gilvan Pereira e o diretor
do filme, Jom Tob Azulay.
Teve diversos textos teatrais
encenados, originais e traduções, entre os quais A Tempestade, As You
Like It e Antonio & Cleópatra, de William
Shakespeare; A Bandeira dos Cinco Mil Réis (encenada em 86,
publicada em 92), Manu Çaruê (ópera pós-tudo com música de
Wagner Tiso, encenada em 88).