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domingo, 4 de novembro de 2018

DO TRABUCO À PALAVRA - Cid Seixas


Do trabuco à palavra


          São duas armas, uma é mortal; a outra vislumbra a imortalidade. A escolha se impõe. Vamos ao texto.

          Cyro de Mattos é um dos muitos escritores baianos da região do cacau – e um dos poucos cujo trabalho constante e associado ao necessário talento, é capaz de assegurar-lhe um lugar de destaque no quadro da Literatura Brasileira.

          Sua produção remonta aos emblemáticos anos sessenta, quando publicou Berro de Fogo, seu primeiro livro, ainda marcado por imperfeições e outros traços de início de uma aprendizagem. Consciente da falibilidade do artista, Cyro exclui o livro da sua bibliografia para aproveitar o conto-titulo e publicar, já em plena maturidade, em 1997, pela Editus e Fundação Jorge Amado, uma das suas obras clássicas: Berro de Fogo e Outras Histórias.

          Alceu Amoroso Lima, crítico e pensador dos mais respeitados, que adotou o pseudônimo de Tristão de Ataíde, deu-nos um testemunho essencial para a inclusão do nome do grapiúna no quadro da literatura brasileira do século vinte:

“Extraordinária capacidade de dar aos aspectos mais típicos da realidade nacional, em estilo profundamente impregnado da nossa fala brasileira, a revelação de um escritor visceralmente nosso... admirável ficcionista”.

        Convém lembrar que foi em 1968 que Cyro de Mattos viu seu nome ser incluído entre os bons contistas, quando a narrativa “Inocentes e Selvagens” – selecionada para figurar neste e-book – recebeu o Prêmio Internacional Cervantes, da Casa dos Quixotes, para autores portugueses, africanos e brasileiros de língua comum.

          É ele quem revela, em correspondência de outubro de 2018, ao organizador deste volume:

– “Concorri com mais de 100 autores. Como era um concurso  expressivo na época,  lançou-me como autor de ficção curta no circuito nacional. Eu era desconhecido, estava dando os primeiros passos,  hesitantes, em minhas atividades literárias. Havia publicado Berro de Fogo, contos, livro riscado de minha bibliografia; nasceu imaturo, cheio de vícios.”

          A atitude consciente do contista, rigoroso a ponto de abandonar um livro que não mais respondia ao rigor da sua obra, nos remete ao escritor português Miguel Torga, cujo primeiro volume das suas obras publicadas no Brasil, pela Nova Fronteira, em 1996, tive a oportunidade de fazer uma introdução crítica, por sugestão da família do autor. Como foi observado, não apenas vários contos, mas alguns livros torguianos, na sua forma original, foram reescritos, repetidamente, em novas e constantes reedições. Nesse particular, o nosso Cyro de Mattos adota o procedimento do autor português da geração de presença, diferentemente do que fez o também grapiúna Jorge Amado, fundador e figura de topo do ciclo do cacau na Literatura Brasileira.

          Amado não volta aos seus romances da juventude para reescrevê-los. Ao contrário, deixa essas obras na forma original, mesmo quando revelam uma escrita em processo de amadurecimento ou quando traduzem uma perspectiva ideológica que se modificou ao longo do tempo, especialmente ao descobrir – com traumas e assombro – as incoerências da prática comunista de Stálin, contrárias à sua concepção humanista da socialização dos bens e dos valores.

          Voltando ao juízo feito por Cyro de Mattos das suas narrativas, convém transcrever mais um trecho da já referida correspondência:

– “O conto “Os Recuados”, pungente e denso, é a história de uma mãe miserável, coitada, que mata o filho por amor, pois não suportava mais vê-lo chegar em casa bêbado. Ele bebia muito porque se via rejeitado como um índio pelos humanos, na feira. Deixo que isso seja visto nas entrelinhas.”

          Em 1983, a Editora Tchê, de Porto Alegre, deu a lume o livro Os Recuados, de onde foi retirado o conto título, para compor este livro digital agora publicado na coleção “Teal” da E-Book.Br. Estes dois contos já citados são fundamentais na obra do autor e, coincidentemente, ouvindo-o sobre suas preferências, ele destacou as duas narrativas que ao lado de outras já tínhamos em vista para integrar este volume.

          Surpreendentemente, para mim, Cyro de Matos destacou textos por ele intitulados de “contos de gente jovem”. O primeiro deles é “História do Galo Clarim”, que eu não conhecia e creio continuar ainda inédito, e o segundo é “O Menino e o Boi do Menino”, que completam este volume intitulado Nos Tempos do Trabuco. Esse último texto saiu em 2007 como um pequeno livro para os novos leitores infanto-juvenis, através da editora Biruta, de São Paulo.

          Pela qualidade dessa faceta do escritor, a de autor de livros para jovens e crianças, e ainda mais pela natureza das narrativas de múltiplo alcance, isto é, capazes de interessar ao público adulto e a conquistar jovens andarilhos que se aventuram pelos caminhos da leitura, tais inclusões valorizam este e-book..

          Embora apenas os contos “Inocentes e Selvagens” e “Os Recuados” integrem explicitamente a sangrenta temática do ciclo do cacau na Literatura Brasileira, o leitor das obras de Cyro de Mattos tende a situar esses singelos acontecimentos da infância no mesmo cenário geográfico das suas outras narrativas ficcionais, plenas de heroísmo e vilania que marcam a saga do cacau.

          Convém observar que “Inocentes e Selvagens”, além de ter aberto espaço para esse escritor nascido em 1939, na cidade de Itabuna, veio a integrar o livro Duas Narrativas Rústicas, editado no Rio de Janeiro, em 1985, pela editora Cátedra.

          Jorge Amado foi um dos muitos leitores privilegiados da obra desse escritor a deixar patente a admiração pela sua escrita genuinamente brasileira:

“Cyro de Mattos possui uma personalidade vigorosa e original, a condição humana dos personagens que surgem do seu conhecimento e da sua emoção nada tem de artificialismo... O autor de Os Brabos pisa chão verdadeiro, toca a carne e o sangue dos homens, entre sombras e abismos.”

          Diplomado em Direito pela Universidade Federal da Bahia, ele foi atraído pela força e pelo encanto da palavra escrita. Seguindo o caminho da maioria dos escritores brasileiros da região Nordeste, Cyro também se fez retirante, levando seu gibão de couro, cheio de histórias pra contar, até a ex-capital do país, o Rio de Janeiro. Para encontrar audiência, trabalhou como redator do Diário de Notícias, do Jornal do Comércio e de O Jornal, de 1966 a 1971; colaborando ainda com artigos e contos na revista A Cigarra e nos Cadernos Brasileiros e Leitura, além do Suplemento Literário do Jornal do Brasil e d’O Jornal do Escritor.

          Como o bom filho quase sempre retorna à casa paterna, o escritor Cyro de Mattos voltou a morar em Itabuna, onde exerceu a advocacia e também encontrou tranquilidade para fazer frondosa a sua obra de mil e uma facetas.


Cid Seixas é poeta,  ensaísta e Doutor em Letras pela USP. Editor da Editora Digital Universitária. O texto  “Do Trabuco à palavra” é a apresentação do livro “Nos Tempos do Trabuco”, do baiano Cyro de Mattos, publicado pela e-book Editora Digital Universitária, Salvador, 2018.

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PALAVRA DA SALVAÇÃO (103)


31º Domingo do Tempo Comum - Solenidade de todos os Santos – 04/11/2018

Anúncio do Evangelho (Mt 5,1-12a)

— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Mateus.
— Glória a vós, Senhor.

Naquele tempo, vendo Jesus as multidões, subiu ao monte e sentou-se. Os discípulos aproximaram-se, e Jesus começou a ensiná-los:
“Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus.
Bem-aventurados os aflitos, porque serão consolados.
Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra.
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados.
Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia.
Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus.
Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus.
Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus.
Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem, e, mentindo, disserem todo tipo de mal contra vós, por causa de mim. Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus”.

— Palavra da Salvação.

— Glória a vós, Senhor.


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Ligue o link abaixo e acompanhe a reflexão do Evangelho:

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Amor é o que diz "sim" em nós

 “...amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração... amarás o teu próximo como a ti mesmo” 

Há perguntas que realmente não despertam nada; há perguntas maliciosas e capciosas que só buscam complicar o outro; mas há perguntas essenciais que despertam nosso “eu profundo”. 

No evangelho deste domingo (31º Dom TC) nos encontramos com alguém sincero que, como outros muitos, se vê enredado em meio a tantos mandamentos e preceitos que já não sabe por onde começar a caminhar. Finalmente, alguém quer pôr as coisas em seu lugar; não quer ficar nos ramos, mas quer ir à raiz, ao verdadeiramente essencial. “Qual é o primeiro de todos os mandamentos”? Jesus também não é daqueles que soluciona os problemas vitais multiplicando mandatos, leis, preceitos. Jesus também vai as raízes da fé. 

Possivelmente é a única vez que Jesus responde diretamente à pergunta, porque a considera interessante e sincera. Significativamente, Jesus não apela aos dez mandamentos, mas à atitude central da experiência religiosa judaica: “Escuta, Israel! Amarás o Senhor teu Deus...” Ele não começa pelo sexto mandamento, nem pelo nono, que são mandamentos fundamentais para a imensa maioria dos cristãos; nem sequer pelo quinto (não matar) ou pelo sétimo (não roubar). 

Jesus entende muito bem o que aquele homem sente. Quando na religião vão se acumulando normas e preceitos, costumes e ritos, é fácil viver dispersos, sem saber exatamente o que é fundamental para orientar a vida de maneira sadia. Algo disto acontece muito entre nós cristãos. Jesus, diante da pergunta do escriba, atreveu-se a ir mais longe: há uma realidade em nossas vidas capaz de fazer emergir o melhor que há em todos nós, e é simplesmente o amor. E não há outra experiência de que mais necessitamos e que mais nos realiza como humanos como essa: “amar e ser amado”.

Comecemos pela experiência básica: no princípio não está o “faça isso”, nem o “amarás”, mas o “escuta”: acolha a voz de Deus! Só a partir dessa “escuta” se pode falar de amor a Deus e ao próximo. “Escuta”: este é o princípio de todo mandamento. No fundo, esta expressão quer dizer: “não te feches, não faças de tua vida um espaço enclausurado, onde só se escutam tuas vozes e as vozes de teu mundo”. Para além do que fazemos ou pensamos, daquilo que desejamos e buscamos, estende-se o amplo campo da manifestação de Deus; abrir-nos à sua voz, manter ativa a atenção à sua presença, ser receptivos frente sua Palavra..., esse é o princípio e sentido do qual brota toda vida e todo mandamento.

Cada ouvinte é um “tu” de Deus, chamado a responder-lhe com amor. Este amor que aqui se pede deve surgir como resposta: não é uma “obra” que o ser humano possa suscitar por si mesmo, mas um dinamismo pleno que brota ali onde cada ser humano acolhe a voz de Deus. Não pode responder quem não escutou; não pode amar quem não entrou no fluxo do amor de Deus, eleito por sua graça. Só porque Deus o chamou e o amou primeiro, é que o ser humano pode lhe responder.

Quando entramos em sintonia e escutamos o verdadeiro Deus, desperta-se naturalmente em nós uma atração para o amor. O “mandamento do Amor” não é propriamente uma ordem ou imposição. É o que brota em nós ao abrir-nos ao Mistério último da vida. “Amarás”. O mandamento do Amor não é lei que se impõe a partir de fora; ele “emana” (mandamento) do nosso próprio interior, pois o Amor tem como Fonte o coração do próprio Deus. Amar Aquele que é a Fonte e a origem da vida é viver amando a vida, a criação e, sobretudo, as pessoas. Jesus fala do amar “com todo o coração, com toda a alma, com todo o ser”: sem mediocridade nem cálculos interesseiros, mas de maneira generosa e confiada.

O importante não é conhecer preceitos e cumpri-los. O decisivo é nos deter a escutar o Deus que nos fala ao coração, ativando a “faísca de amor” que aí está presente. Nesta experiência, não há intermediários religiosos, não há teólogos nem moralistas. Não precisamos que alguém nos diga a partir de fora. Sabemos que o essencial é amar. E isto basta! 

De fato, só merece o nome de Amor aquele que brota a partir da mais profunda liberdade e sem outra motivação que a atração desse mesmo amor. “Palavra grande, realidade maior”, dizia S. Agostinho a respeito do amor. 

Nas duas tradições, judaica e cristã, o centro da pessoa é o coração. Amar é fazer tudo com o coração. Falamos do Amor Ágape que transborda, que nada pede em troca, que ama sem ter nada de particular para amar. É amor de pura gratuidade, como dom total de si mesmo. Não é motivado pelo valor do outro, ou pela recompensa que o outra possa trazer. Com efeito, neste caso não se ama o outro porque ele é bom, mas para que seja bom, já que o amor quer o bem do amado. “O amor é comunicação mútua de dons” (S. Inácio) 

O amor ágape é expansivo: nos alarga através dos nossos membros, mãos e pés. O Amor Ágape não é o amor que sacia nossa sede, pois ele não nasce da nossa sede, mas ele nasce da nossa fonte que corre. Não é o amor da falta, da carência, mas é o amor da plenitude. 

Podemos dizer que o amor tem mãos e pés: mãos que cuidam, curam, abençoam... e pés que nos arrancam de nossos lugares rotineiros e nos deslocam para as margens, junto aos mais excluídos. Uma das maiores razões para o Amor ser uma experiência de expansão se deve à sensação de imortalidade e eternidade que nos proporciona. Quem ama vê o tempo se alargar e a vida ganhar mais sentido.  Em outras palavras, o Amor traz em si a marca da eternidade, pois se trata da “faísca de Javé” colocado por Ele no coração do ser humano, impregnando toda a sua vida. 

Quando o Amor nos habita tudo se torna sagrado. Não há “Terra Santa”, há uma maneira santa de caminhar sobre a terra. “O amor é o que diz sim, em nós”: sim à vida, sim ao compromisso, sim à compaixão... É preciso encontrar dentro de nós este estado de “sim” ao que é. É necessário que descubramos em nosso interior, o sim mais profundo que se faz visível no amor oblativo. 

Quando o amor nos habita, tudo se torna sagrado; nossos olhos se tornam contemplativos, ou seja, o olhar que libera o que há de melhor em nós e nos outros. Transformamo-nos naquilo que olhamos e tornamo-nos aquilo que amamos. O amor é uma irradiação do nosso ser. 

A originalidade de Jesus é a de nos revelar um amor horizontal no qual o movimento do eu em direção ao outro é reprodução e prolongamento do movimento de Deus em direção ao ser humano. Este amor a Deus é inseparável do amor ao próximo. Só se pode amar a Deus amando o próximo; do contrário, o amor a Deus é falso. Como vamos amar o Pai sem amar os seus filhos e filhas?

O texto de hoje não só reafirma o amor ao próximo, mas, ao mesmo tempo, realça sua modalidade: “ame a seu próximo como a si mesmo”. O que significa amar o próximo “como a si mesmo”? É como se dissesse: “ame seu próximo, é você mesmo”; “esse amor ao próximo é você mesmo”; “ame o seu próximo, tudo isso é você mesmo”; “ame o seu próximo, porque o seu próximo é justamente como você mesmo”. 

A medida do amor de Deus é não ter medida, ou seja, experiência de abertura infinita, pois Deus ultrapassa os limites e normas da humanidade. “Como a ti mesmo”: a medida do amor ao próximo é agora a do próprio amor: amar o outro como a mim mesmo, ou seja, senti-lo como “outro eu” a meu lado, fazendo de sua vida espaço e centro de minha própria vida. 

Texto bíblico:  Mc. 12,28-34 

Na oração:

- entoar um hino de louvor e gratidão a Deus pelo Seu “amor em excesso” que se revela no cotidiano da vida;

 - ter sempre presente na memória que fomos criados para viver em relação de amor e solidariedade com todos;

- considere que toda a Criação saiu das mãos do Criador como presente especial e gratuito, como uma mensagem de Amor a cada um de nós.

Pe. Adroaldo Palaoro sj

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sábado, 3 de novembro de 2018

CARTA ABERTA AO JUIZ SERGIO MORO EMOCIONA O BRASIL


Posted on : novembro 3, 2018 By Da Redação


Caro Juiz Sergio Moro, queremos primeiramente  lhe parabenizar pelo seu trabalho no combate a corrupção e a tirania em nosso querido país, se não fosse vossa excelência e com sua inteligencia e honestidade no cumprimento ortodoxo da lei, nossa nação não teria dado o passo tão grande quanto o que foi dado pela Operação Lava Jato e nós teríamos sucumbido a uma verdadeira ditadura como acontece na Venezuela.

Juiz Moro, gostaria de dizer em nome de milhões de Brasileiros, o senhor não estará sozinho nesta nova empreitada no Ministério da Justiça. Nós sabemos que para o senhor foi uma decisão difícil deixar a sua longa carreira como magistrado para trás, por este motivo e ainda mais , será uma honra sem tamanho ter o senhor como parte de nosso novo governo.

Escrevo este texto emocionado, pois sei que o senhor é a esperança para o nosso Brasil. Tenha certeza que não estará sozinho nesta luta, o povo brasileiro está ao seu lado e sempre estará disposto a lutar em sua defesa e em defesa da Lei e da Ordem.

Juiz Moro, que o senhor seja muito abençoado nesta nova etapa e que possa colocar muito mais corruptos atrás das grades, porque o povo não aguenta mais sofrer nas mãos deste tipo de criminoso. Oraremos todos os dias pela sua vida e por sua família, que Deus o abençoe o guarde e o Ilumine, amém!

Autor – O povo Brasileiro!



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HISTÓRIA DE UM NINHO – Tancredo do Amaral

História de um ninho



            Saíra cedo, muito cedo, ao romper do dia, trinando alegremente pelo espaço de fora, caminho da mata, onde ia buscar alimentos para os filhinhos.

            E partira despreocupadamente, naquela formosa manhã de primavera, quando o sol começava a iluminar a terra,  espalhando suaves e doces reflexos de luz na relva dos caminhos e por sobre a verde folhagem dos arvoredos, onde se dependuravam prenhes de cintilações prismáticas, as gotas de orvalho, as brilhantes lágrimas da madrugada.

            Os camponeses dirigiam-se para o trabalho, ferramenta ao ombro, entoando uma cantiga simples, repassada de tons bucólicos, fresca e alegre.

            Ouvia-se o balir das ovelhinhas, o mugir prolongado do gado nos currais, de onde se levanta um vapor enfumaçado, bom e sadio, sadio e agradável, que tonificava os pulmões e a todos dava um  grande bem estar.

            Os carros de bois chiavam cadencialmente pelos caminhos, em demanda das roças, onde iam carregar-se dos produtos das colheitas.

            Das árvores do pomar e do centro da mata virgem partia o trinar da passarada e o canto sonoro e distinto do inhambu a reboar ruidosamente pelo ar...

            Ouvia-se todo esse ruído poético que anuncia a vida do campo ao amanhecer.

            E ela que partira tão cedo em busca de alimento para os filhinhos, não adivinhara talvez que se ia separar para sempre deles, naquele dia tão azul e tão cheio de luz.

            Dirigira-se para a entrada da mata, e ali, descuidosamente, revolvia a terra úmida, os pequenos seixos e gravetos que encontrava pelo chão, as folhas secas e orvalhadas...

            Súbito ouviu-se um estampido...

            Rápido, abriu ela as asas, distendeu-as, pretendendo alçar o voo, procurando fugir.

            Fora, porém, certeira, a pontaria do bárbaro caçador. Mas, lembrando-se dos filhotes, ela, ferida, quase agonizante, fez um supremo esforço um esforço heroico de que só as mães são capazes e... Voou.

           Recordando o azul em voo incerto, caindo aqui, depois levantando-se acolá, correndo por entre os espinheiros para voar de novo, atravessando com dificuldade os moitais ou as touceiras de capim, uns felpudos, outros cortantes, foi cair por fim exânime ao lado do ninho – uma laranjeira copada no centro do pomar, coberta de flores e de orvalho, dourada pelo sol. Os filhotes, num pipio triste e desesperado, viram a carinhosa mãe com as penas empastadas de sangue, o peito arfando, os olhos semicerrados, cheios de terra como um cristal embaciado, já sem luz, - viram-na exalar o último suspiro, entreabrindo o pequeno bico de onde caíram alguns vermes e insetos – o alimento que fora buscar para eles, para a sua prole estremecida.

            ... No dia seguinte cedo, muito cedo, logo ao romper do dia, quando o sol começava de iluminar a terra espalhando suaves e doces reflexos de luz na relva dos caminhos, as avezinhas implumes foram encontradas frias, inteiriçadas, no pequeno ninho de filamentos de capim e penugens brancas e acinzentadas da laranjeira copada no centro do pomar.

            E do fundo da mata virgem partia o trinar da passarada, o chilrear dos pequenos passarinhos e o canto sonoro e distinto do inhambu a voar ruidosamente pelo ar.

            Ao longe, na quebrada dos caminhos orvalhados,  chiavam os carros de bois, ouvia-se a cantiga simples, alegre e fresca dos aldeões e o balido das ovelhas e o mugir prolongado do gado nos currais...


 (LÍNGUA PORTUGUESA  Luso=Brasileira
ANTOLOGIA F. T. D. – livro de leitura
Organizado por Mário Bachelet)

LIVRARIA FRANCISCO ALVES
1944
.................
Tancredo do Amaral - nasceu na cidade de São Paulo em 18 de fevereiro de 1866. Era filho do Comendador Manuel Leite do Amaral e de Dona Josefa Gaudie Leroy do Amaral.  Escreveu diversos livros didáticos, entre os quais O Livro das Escolas, Geografia Elementar, História de São Paulo ensinada pela biografia de seus vultos mais notáveis O Estado de São Paulo, todos aprovados oficialmente e adotados nas escolas públicas. Tancredo foi ainda nomeado Inspetor Escolar, chegando a ser interinamente Diretor Geral da Instrução Pública do Estado.

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sexta-feira, 2 de novembro de 2018

ITABUNA CENTENÁRIA UM POEMA: Sem motivo – Geraldo Maia


Sem motivo
  
Dei pra você todos os motivos

para desistir de mim e eu agradeço
por você partir e me deixar sem
um motivo pra tentar lhe esquecer.

Eu dei pra você toda minha vida
jogada no lixo como coisa inútil,
mas reconheço que tudo fiz pra
você me tratar com tanto desprezo.

Eu errei com você
só te fiz tanto mal
Te amar te deixou
muito mais infeliz
afinal o amor não
é como se diz
um negócio de amantes
com juros e correção
juras sem coração
investimento afetivo.

E por nada pedir
apenas te ver sorrir
meu amor foi punido
por nada querer em troca
nem mesmo a tua volta
meu amor foi chacota;
e eu queria saber
se você me humilhar
e se zombar de mim
e se me abandonar
foi o seu butim
sua forma de se vingar
provar que foi muito ruim
te amar sem motivo.


Geraldo Maia, poeta 
Estudou Jornalismo na instituição de ensino PUC-RIO (incompleto)
Estudou na instituição de ensino ESCOLA DE TEATRO DA UFBA
Coordenou Livro, Leitura e literatura na empresa Fundação Pedro Calmon
Trabalha na empresa Folha Notícias,
Filho de Itabuna/BA/BRASIL, reside em Louveira /SP.

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DOIS DE NOVEMBRO — Dia de Finados, vida eterna após a morte


2 de novembro de 2018

Como Nosso Senhor Jesus Cristo nos advertiu, a morte virá de repente, como um ladrão, oculto e de noite (I Tes. 5, 2) e como nos ensina e reafirmamos no Símbolo dos Apóstolos: “Creio na ressurreição da carne, na vida eterna. Amém”.

 ♦  Paulo Corrêa de Brito Filho

Em nossos dias impregnados de materialismo e ateísmo, procura-se evitar a lembrança da morte, embora seja ela a única coisa que nos acontecerá com absoluta certeza.

Causa-nos temor recordar essa verdade, a ponto de muitos evitarem passar pelo cemitério até mesmo por ocasião de algum enterro, e outros procuram eliminar os aspectos trágicos, pungentes e tristes da morte. Chega-se ao extremo de tornar festivos os ambientes dos funerais, parecidos a lugares para encontros sociais mundanos.

Contrapondo-se a essa tendência materialista, a Santa Igreja nos faz lembrar de uma vida eterna após a morte. Incentiva-nos a meditar os “novíssimos do homem” — morte, juízo final, céu e inferno — e aconselha: “Em todas as tuas obras, lembra-te dos teus novíssimos, e jamais pecarás (Ecl. 7, 40).

Como mãe, a Igreja associa-se às nossas lágrimas e consola nossas dores na perda de um ente querido. Também nos incentiva a tributar todo respeito aos mortos, participar de funerais, sepultar dignamente os cadáveres, visitar as famílias enlutadas, rezar, oferecer sacrifícios e assistir à Missa em sufrágio das almas dos falecidos, para que sejam libertadas das penas do Purgatório e conduzidas ao Céu.

No dia de Finados, é especialmente louvável recordar as almas dos fiéis defuntos, de modo particular de nossos parentes e conhecidos, rezar por eles e visitar seus restos mortais nos cemitérios.

Para que nossos leitores possam medir quanto o mundo moderno se encontra distante de uma atitude varonil e católica perante o luto e a morte, a revista Catolicismo reproduz na edição de novembro um conjunto de oportunas considerações do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira sobre o luto — os costumes tradicionais, as honras fúnebres, as manifestações e a concepção cristã de luto — e como esses valores vão sendo esquecidos e abandonados, devido ao conceito materialista de viver como se nunca fôssemos morrer. Como Jesus nos advertiu, a morte virá de repente, como um ladrão, oculto e de noite (I Tes. 5, 2).

Desejo aos prezados leitores uma proveitosa leitura de tal matéria, peço à Sagrada Família, Jesus, Maria e José, que nos conceda a todos a graça de uma boa morte. E peço também que aumente em nós a esperança da ressurreição, conforme nos ensina e reafirmamos no Símbolo dos Apóstolos: “Creio na ressurreição da carne, na vida eterna. Amém”.




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quinta-feira, 1 de novembro de 2018

DIA DE TODOS OS SANTOS: “NOSSO SENHOR NÃO NOS QUER MEDÍOCRES E SUPERFICIAIS”


Redação da Aleteia | Out 31, 2018

Arcebispo emérito enfatiza: "A Igreja recorda a santidade à qual todos são chamados"

Dom Geraldo Lyrio da Rocha, arcebispo emérito de Mariana (MG) e presidente da Comissão Especial para a Causa dos Santos da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), recordou em entrevista ao site da própria CNBB o sentido da festa litúrgica de Todos os Santos, celebrada em 1º de novembro.

Ele ressalta que, “numa só festa, celebramos os méritos de todos os santos e santas” venerados ao longo do ano, bem como de todos os que não são oficialmente recordados pelo calendário litúrgico, mas fazem parte da imensa multidão dos que estão na glória do céu.

Dom Geraldo lembra ainda que todos os cristãos são chamados à santidade, conforme reafirmado pelo Papa Francisco na exortação apostólica Gaudete et Exultate:

“O Senhor nos quer santos e espera que não nos resignemos com uma vida medíocre, superficial e indecisa”.

A mensagem é curta – mas mais do que suficiente.

Ligue o vídeo abaixo:





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