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terça-feira, 14 de agosto de 2018

DATA-LIMITE - Merval Pereira


Data-limite

À medida que vai se aproximando a data limite para o registro das candidaturas à presidência da República no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a discussão sobre a possibilidade de o ex-presidente Lula vir a ser oficializado pelo PT como candidato provoca polêmicas em várias áreas que serão afetadas pela decisão.

O ministro Admar Gonzaga, do TSE, que já defendeu a tese de que a candidatura de Lula deveria ser recusada de ofício, isto é, sem que o tribunal fosse provocado a se pronunciar por um cidadão, um partido político ou pelo Ministério Público Federal, rejeitou ação do servidor Charbel Maroun, candidato pelo Partido Novo em Pernambuco, para vetar desde já a candidatura de Lula à Presidência.

Há uma diferença fundamental entre rejeitar liminarmente o registro e impugnar a candidatura antes do registro oficial. Os ministros do TSE consideram que uma candidatura não pode ser impugnada antes de ser registrada, o que provavelmente será feito pelo PT na quarta-feira dia 15, último dia do prazo oficial.

Escrevo “provavelmente” porque existe um grupo dentro do partido que defende a tese de que o ex-prefeito Fernando Haddad deveria ser oficializado logo como candidato do partido à presidência, sem continuar com a manobra de registrar Lula para depois ter que tirá-lo, pois a impugnação pelo TSE parece certa.

O ex-presidente é inelegível pela Lei da Ficha Limpa, que foi sancionada por ele, por ter sido condenado em segunda instância. A lei eleitoral diz que uma das razões para tornar alguém inelegível é a condenação com trânsito em julgado, ou por um órgão colegiado em segunda instância. A insistência do PT com a candidatura Lula tem o objetivo de tentar que nos primeiros dias de campanha eleitoral, que começa dia 31, ele possa participar dos programas de rádio e televisão. Tudo indica que é um esforço inútil, pois o TSE não parece disposto a permitir que a insegurança jurídica perturbe a eleição.

No limite, a defesa de Lula pretende levar os recursos contra a condenação até o dia 17 de setembro, para que sua foto apareça na urna eletrônica. Se conseguisse chegar à urna, criaria um impasse institucional, pois se, como tudo indica, for impugnado, todos os votos dados à sua chapa – que seria Lula e Haddad - serão anulados, não vão para o vice, e estarão classificados para o segundo turno os candidatos que chegarem em segundo lugar, caso Lula vencesse a eleição, ou o que estiver em terceiro, caso Lula chegasse em segundo lugar.

É claro que anular os votos do candidato vitorioso provocaria uma crise política, mas é a lei. A defesa de Lula argumenta que vários candidatos a prefeito e governador concorreram sub judice, e muitos conseguiram reverter a condenação. É uma falácia, pois a maioria esmagadora desses casos é de disputa judicial sobre improbidade administrativa ou abuso de poder econômico, nada a ver com uma indiscutível condenação em segunda instância.

É certo que, pelo menos antes da data em que as urnas são inseminadas (é assim que os técnicos chamam o ato de registrar na urna o nome e a foto dos candidatos), a candidatura estará impugnada, justamente para evitar essa incerteza política que pode prejudicar a eleição. Um estrangeiro, ou uma pessoa com menos de 35 anos que fossem apresentados por um partido não poderiam se candidatar.
A presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) ministra Cármem Lúcia, ressaltou ontem, em uma palestra em Brasília que “leis eleitorais, nacionais, da maior importância, são de iniciativa popular” e citou a Lei da Ficha Limpa. “Foi um conjunto de cidadãos que levou ao Congresso Nacional aquilo que lhe parecia próprio. Uma lei considerada pela ONU uma das melhores leis que existem”.

A única maneira de Lula poder concorrer é conseguir anular a condenação do TRF-4, em recursos para o Superior Tribunal de Justiça (STJ) ou para o Supremo, o que dificilmente acontecerá, pois até agora não foi detectado nenhum erro jurídico ou falha constitucional que permita isso. Portanto, Lula não estará sub judice, mas tentando ser candidato contra a letra da lei.

O Globo, 14/08/2018

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Merval Pereira - Oitavo ocupante da cadeira nº 31da ABL, eleito em 2 de junho de 2011, na sucessão de Moacyr Scliar, falecido em 27 de fevereiro de 2011, foi recebido em 23 de setembro de 2011, pelo Acadêmico Eduardo Portella.

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ITABUNA CENTENÁRIA UM POEMA: A Linguagem Divina – Geraldo Maia


A Linguagem Divina 


A poesia é a linguagem Divina,
Por isso é preciso se ficar em silêncio
Só a poesia fala e tudo o mais a escuta
Quando o poeta recita Deus está se expressando
O poeta é o canal de expressão e a poesia é o enigma
da Divindade em cada um de nós
O poeta então é um instrumento de Deus
e a poesia o Seu mistério.

A todo instante a poesia traz uma mensagem
da Divindade em cada lugar, em cada montanha, mar, em cada rio
em cada sombra, luar, em cada frio
em cada sol, folha, pedra, grão
em cada pássaro, pedra, em cada verme
no pão, no lixo, no risco, no corisco
no silêncio, grito, sussurro, canto.

A poesia está no riso e no amor
No frio e no calor
No louvor e na oração
A poesia é a palavra de Deus aos homens e mulheres
Com o fio da poesia Deus trama o silêncio de Sua presença
Por isso o grande momento da poesia é só silêncio
E nesse silêncio Deus nasce em você
e você dá à luz a poesia.

A poesia de Deus salta de dentro do mistério
e isso não é lógico nem racional
Apenas uma verdade Divina, sobrenatural, poética
A verdade lógica é fruto da mente comum, limitada
A verdade poética é misteriosa, extraordinária, infinita,
porque vem de Deus, portanto não dá
para argumentar com a poesia.

Poesia é arte, porque Deus é o Artista Supremo,
o Poeta Supremo, o Criador Supremo
de tudo em todos os Universos,
Poesia não é lógica e nem é ciência "in vitro"
Porque a arte não é um argumento
Não dá para argumentar com ela
Poesia é religação com a Divindade
que através dela Se manifesta.

A poesia não se incomoda com argumentos
com a lógica porque é mistério
É o desconhecido em cada obra de Deus
Você se sente absorvido para dentro da
poesia que através de Deus ressuscita
o que há de morto no seu interior.

Nesse instante a poesia de Deus nasce em você
sem que haja necessidade de convencer ninguém
O poeta não tenta convencer
apenas dá o testemunho da obra de Deus
através da poesia.

Mas se alguém fica convencido, tudo bem
Se não fica convencido, tudo bem
Deus é quem opera desse momento em diante
O Deus Espírito Santo transforma aos poucos a vida
da pessoa e nesse sentido convicção não tem muita importância
Se você for convencido através de argumentos
jamais se tornará um poeta porque a comunicação com Deus
tem uma linguagem específica chamada fé, que não tem nada a ver
com convicção, quem precisa ser convencido é quem
vai se tornar um filósofo, um político, um professor, um fanático,
mas não um poeta, a poesia é como o amor, a expressão máxima de Deus
o Amor acontece sem qualquer razão.

No amor você não precisa provar nada, não é necessário
Só é necessário provar algo se você quer um empréstimo,
ou se candidatar, ou vai prestar exames, ou está no laboratório
O amor acontece tão subitamente
que não há intervalo de tempo
O poeta se apaixona rápido
e você se apaixona rápido pelo poeta
Não há como explicar, como provar
E se alguém fala mal de um poeta
É contra um poeta, É muito fácil provar algo contra o poeta
Impossível é provar algo a favor do poeta
Não há provas concretas, científicas, materiais
Só uma relação de entrega profunda, de confiança profunda
de paixão profunda, de cegueira profunda.

Mas essa cegueira exterior se torna
uma profunda visão interior da Divindade em si
Os poetas não podem ser aceitos em qualquer lugar
Os poetas só podem ser aceitos no coração amoroso
O poeta não pode ser absorvido por qualquer coisa estabelecida
Só um envolvimento pessoal, um coração amante e muito louco
pode se tornar o lugar do poeta
Porque o poeta cria o caos no coração das pessoas
O poeta está interessado em demolir
a estrutura morta existente no interior de cada pessoa.

O poeta quer conectar cada ser humano
com o seu único Deus Todo Poderoso Criador dos Universos
O poeta quer afundar a pessoa no poço Divino
que vai torná-la à tona outra vez transformada
no louvor silencioso da poesia.

Para o poeta tudo que existe é expressão da obra de Deus
Ele sente e reflete a beleza da obra de Deus
Presente na terra, no ar, na água no fogo, no éter,
nas folhas, nos olhos, nas mãos, no sorriso
Para o poeta toda a obra de Deus é perfeita e bela
e prenhe de significado, de essência, de
um sentido intrigante, agudo, encantador, profundo,
encantador e misterioso como a graça da salvação
concedida misteriosamente por Deus, e Seu filho
amado, o Salvador, o Remidor, o Redentor, o Poeta do
Novo Tempo, Jesus, o Cristo.

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Geraldo Maia
Estudou Jornalismo na instituição de ensino PUC-RIO (incompleto) Estudou na instituição de ensino ESCOLA DE TEATRO DA UFBACoordenou Livro, Leitura e literatura na empresa Fundação Pedro CalmonTrabalha na empresa Folha NotíciasFilho de Itabuna/BA/BRASIL, reside em Louveira /SP.

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ÓDIO COMUNISTA EXTERMINOU A FAMÍLIA ROMANOV - Paulo Corrêa de Brito Filho

14 de agosto de 2018

Capa da revista Catolicismo, Nº 812, agosto/2018

O extermínio da Família Imperial russa, perpetrado pelo ódio do comunismo igualitário, hoje disfarçado na defesa dos direitos humanos…

♦  Paulo Corrêa de Brito Filho

Cem anos se passaram desde o brutal extermínio da família imperial russa. Mas a lembrança de tal barbárie, que muitos procuram encobrir, nunca passará. Devemos tê-la bem presente a fim de jamais alimentarmos ilusões sobre tirânicos ditadores, como os que planejaram e executaram esse monstruoso crime.


O comunismo igualitário não podia suportar a existência de uma família nobre, que governara a imensa Rússia por diversas gerações. Alguns meses após a tomada do poder, Lenin ordenou esse massacre, um dos mais vergonhosos da longa lista de crimes contra a humanidade perpetrados pelo comunismo.

Para manter aceso o ódio de seus sequazes, os chefes bolcheviques de 1918 precisavam praticar atos radicalmente sanguinários, como a execução do Tzar Nicolau II e de sua família. Registrando tal necessidade revolucionária, Leon Trotsky escreveu em suas memórias: “A severidade da punição [a chacina da família imperial] mostrou a todos que continuaríamos a lutar sem piedade, sem nos determos diante de nada. Não se tratava apenas de amedrontar, aterrorizar e infundir o senso de desesperança no inimigo, mas também de sacudir nossas fileiras, demonstrando que não havia outra saída: vitória total ou ruína definitiva”.

Este foi o início de uma história escrita com sangue, a qual prosseguiu do mesmo modo e acrescentando muitos outros instrumentos, como prisões, torturas, fome e guerras fratricidas. Não só na Rússia, mas também nos diversos países que tiveram suas populações subjugadas pela tirania comunista. E o sangue continua a ser derramado ainda hoje, onde quer que se insista em implantar ditaduras semelhantes à soviética.

Em memória deste centenário, cerca de cem mil russos fizeram em 17 de julho último uma peregrinação na cidade de Yekaterinburg   [foto ao lado]. Eles passaram pelo local da casa-presídio onde a família Romanov e alguns de seus servidores foram chacinados, e percorreram 21 quilômetros até o lugar onde, em 1918, os comunistas dissolveram os cadáveres em ácido e os incineraram, antes de enterrarem os restos mortais.

Tais fatos não podem cair no esquecimento, sob pena de nos deixarmos surpreender futuramente pela multiplicação de perversidades semelhantes. A revista Catolicismo, na sua missão de relembrar verdades esquecidas, narrar grandes fatos silenciados, publicar crimes que seus autores pretendem ocultar, não poderia deixar passar o centenário do massacre da família Romanov sem recordar as atrocidades então praticadas. Com esse objetivo, nosso colaborador Renato Murta de Vasconcelos elaborou a matéria de capa da edição deste mês [foto no topo]. Aconselho a todos sua aquisição ou sua leitura por meio de nosso site ( http://catolicismo.com.br/ ).

Movimentos que se apresentam como “sociais”, agindo em nome dos “direitos humanos”, das “minorias” ou dos “marginalizados”, com muita frequência partem para a criminalidade. Eles não têm a menor clemência em relação aos sofrimentos humanos, praticam qualquer tipo de violência para alcançar seus objetivos. “Bons sentimentos” nunca se coadunaram com a “ditadura do proletariado”, que sempre foi o objetivo comunista, mesmo quando alegam a defesa de “direitos humanos”. Deus não tem permitido que o solo brasileiro seja atingido por essas desgraças, mas não faltam agitadores organizados com o objetivo político de tomar o poder e nele se perpetuar. Deus continuará a nos proteger contra esses sanguinários, desde que façamos por merecê-lo.

http://www.abim.inf.br/odio-comunista-exterminou-a-familia-romanov/#.W3MF5s5KjIU

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segunda-feira, 13 de agosto de 2018

ABL:ACADÊMICO ANTONIO CARLOS SECCHIN FALA NA ABL SOBRE CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE



A Academia Brasileira de Letras dá continuidade ao seu ciclo de conferências do mês de agosto de 2018, intitulado Cadeira 41, com palestra do Acadêmico, ensaísta e poeta Antonio Carlos Secchin. A coordenação será da Acadêmica e escritora Ana Maria Machado. O tema escolhido foi Drummond: poesia e aporia.

Serão fornecidos certificados de frequência.

Secchin adiantou um pequeno resumo do que será sua apresentação: “A rosa do povo (1945) é dos livros mais populares de Carlos Drummond de Andrade, contendo muitos poemas de teor político e de grande comunicabilidade. Um pequeno poema, todavia, surge aparentemente deslocado do conjunto, e enigmático já a partir do título: “Áporo”. Na conferência, esse texto será minuciosamente analisado e inserido no contexto geral da obra, na qual parece soar como peça dissonante, e no contexto literário e social da década de 1940”.

Cadeira 41 terá mais duas palestras, às quintas-feiras, no mesmo local e horário, com os seguintes dias, conferencistas e temas, respectivamente: dia 23, Luís Camargo, Cem anos de “Urupês”, de Monteiro Lobato: o primeiro best-seller nacional; e 30, Hugo de Almeida, Osman Lins, 40 anos depois, mais atual.

O CONFERENCISTA

Antonio Carlos Secchin nasceu no Rio de Janeiro, em 1952. Doutor em letras e professor emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro, desde 2004 ocupa a cadeira 19 da Academia Brasileira de Letras.

Poeta e ensaísta, Secchin publicou, entre outras obras, João Cabral: a poesia do menos (1985), Poesia e desordem(1996), Todos os ventos (poemas reunidos, 2002, ganhador dos Prêmios da ABL, da Biblioteca Nacional e do Pen Clube), Escritos sobre poesia & alguma ficção (2003), 50 poemas escolhidos pelo autor (2006), Memórias de um leitor de poesia (2010), Eus & outras (antologia poética, 2013).

A UFRJ publicou, em 2013, o livro Secchin: uma Vida em Letras, com cerca de 90 artigos, ensaios e depoimentos sobre sua atuação nos campos da poesia, do ensaio, da ficção, do magistério e da bibliofilia. Com a obra Desdizer, lançada ano passado, o autor voltou à poesia 15 anos após a publicação de Todos os ventos.

10/08/2018



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VISITA – Ariston Caldas




            Cheguei à casa de seu Raimundo numa manhã ensolarada; a residência dele fica no topo de uma ladeira disfarçada e em frente estende-se uma paisagem que é uma beleza, confrontada com o sair do sol; embaixo, junto à cerca que faz divisória com os cacauais, há uma represa ampla entre arbustos e flores silvestres. Ele, de fala mansa, recebeu-me com olhar tranquilo, sorriso leve; sua calma era de espantar, como se minha presença não fosse, assim, nenhuma novidade.

            Calculei, havia quase 15 anos encontrava-me ausente, distante, andando por este mundo de meu Deus; e ele, agora, somente com a mulher e o filho mais velho. Seu Raimundo nunca deixou a fazenda aonde chegou menino, cresceu, casou-se e, certamente, morrerá, a não ser para assistir missa vez em quando e fazer “fecha” de cacau na cidade. Os outros filhos dele andam espalhados, o mais novo formou-se em medicina e reside em Salvador; a filha casou-se com um paulista e pouco vem à Bahia; outro se meteu com pecuária para as bandas de Minas Gerais, aparece vez em quando.

            Mudanças pessoais em seu Raimundo, quase nenhuma; ainda usa chinelos de couro, cabelo desarrumado caindo sobre a testa um pouco mais ampla; camisão de mangas compridas e óculos de tartaruga num bolso debrunhado, misturados com palhas de milho para cigarro e um canivete antigo; bigode com fios embranquecidos.

            Numa parede da sala, cabide de madeira escura com roupas de campo penduradas, um chapéu de baeta de aba quebrada na frente; embaixo do cabide, umas botinas amarelas com manchas escuras. Dona Antonieta, mulher dele, não se esqueceu das saias rodadas de cós franzido, cabelo liso amarrado em  popa, com uma passadeira de metal. Lembrei-me das feijoadas, dos bolos de aipim, do café torrado na hora: “é donzelo, tome logo”, ela dizia passando-me a xícara fumegando. “E o cafezinho, dona Antonieta, nunca me esqueci”. Ela sorriu entrando para a cozinha, “vou fazer um agora mesmo”. Dona Antonieta está meio-envelhecida, mais gorda ou mais magra, andar preparando-se para ficar lento, os olhos mostrando alguma perda do fulgurante. “Ah, meu filho, tempo bom era aquele!”

            A paisagem verde da fazenda, a curvatura do céu dimensionada com o tamanho do lugar, traziam-me recordações das festas de São João com fogueiras de tronco de jequitibá incendiando; fogos de artifício iluminando as capoeiras; churrasco, milho verde assado, canjica, caças, pescaria.

            Seu Raimundo, forte naquele tempo, era fogoso para tudo isso. Bom no tiro, não perdia uma paca, uma perdiz. Nas festas, todo animado de botinas lustrosas e gravata, forrozava com dona Antonieta, com a filha, com as moças da redondeza. Minha presença  eu sua casa era uma constância ; dava-me bem com toda a família, notadamente com Juanita que casou com o paulista, e com Emanuel que formou-se em medicina.

            À direita da casa existe ainda o curral pequeno, agora meio desmantelado, com um mourão no meio, apodrecendo. Lembrei-me do garrote caramuru, de mamilo grande pendido para um lado; da vaca Suana que dava dez litros de leite por dia. Em frente à casa, no terreiro, existe ainda o tamarindeiro, agora menos frondoso, a crosta rachada; embaixo dele, num desafio, o banco todo de madeira fincado no chão limpo entremeado de folhas secas, onde os moradores iam à tardinha para conversas íntimas; vacas leiteiras pastavam vigiadas pelo garrote mugindo e cheirando o vento, de focinho para cima. Nas noites de estio e de luar, encontros para uma prosa, contar estórias, fazer serenata.

            Almocei com seu Raimundo e passamos a tarde conversando sobre cacau, chuva, estiagem, pragas e outros assuntos interessantes para gente do campo. Ele me deu notícia de todos seus familiares distantes. Nosso diálogo, a momentos, desvanecia. A boquinha da noite vinha caindo quando nos despedimos. A represa em frente, como um painel cinza-escuro,  formava uma mancha no meio do gramado verdejante.

            Deixei seu Raimundo em pé, encostado ao gradil da varanda, enrolando um cigarro de palha.


(LINHAS INTERCALADAS – 2ª Edição 2004)
Ariston Caldas
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Ariston Caldas nasceu em Inhambupe, norte da Bahia,  em 15 de dezembro de 1923. Ainda menino, veio para o Sul do estado, primeiro Uruçuca, depois Itabuna. Em 1970 se mudou para Salvador onde residiu por 12 anos. Jornalista de profissão, Ariston trabalhou nos jornais A Tarde, Tribuna da Bahia e Jornal da Bahia e fundou o periódico Terra Nossa, da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado da Bahia; em Itabuna foi redator da Folha do Cacau, Tribuna do Cacau, Diário de Itabuna, dentre outros. Foi também diretor da Rádio Jornal.

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DR. HÉLIO MARTINS: RESPOSTA


O Dr. Hélio Martins da comarca de São João del Rei recebeu um convite do deputado Reginaldo Lopes do PT para o lançamento de Lula-2018. A resposta foi estupenda, disse exatamente o que todos deveriam dizer:


"Exmo. Senhor Deputado Reginaldo Lopes, em que pese o profundo respeito que tenho pela atuação parlamentar de V. Exa., não é hora de lutar para salvar pessoas, mas sim o País, atolado no caos econômico, na recessão, no desemprego, na violência e na vergonha internacional onde agentes políticos e públicos protagonizam o maior caso de corrupção de que se tem notícia na história da humanidade.
Quero, como tantos outros brasileiros com capacidade de discernimento e compreensão, que se faça justiça!

Que todos aqueles que se apropriaram de recursos públicos paguem por tão grave crime, além de devolver o que indevida e criminosamente levaram, privando o cidadão de saúde, educação, segurança, infraestrutura dentre outros. Todos, indistintamente, como republicanamente deve ocorrer, sejam do PT, do PMDB, do PSDB ou de qualquer outro partido político devem responder pelos crimes cometidos. Lugar de ladrão é na cadeia!

Lula foi processado, julgado e condenado no primeiro processo, sob a égide dos princípios constitucionais do devido processo legal e da ampla defesa.

Sou juiz de primeira instância, ou de piso, como gostam de dizer. Juiz de carreira, com muito orgulho! Submetido, como em todos os concursos públicos para membros da Magistratura e do Ministério Público, a provas de conhecimento de elevadíssimo nível de dificuldade, além de exames psicológicos, e rigorosa investigação social. Aqui não tem princípio de presunção de inocência não, senhor Deputado. Qualquer “derrapada”  na vida social tira o candidato do certame. Não somos escolhidos por agentes políticos. Somos independentes, como manda a Constituição. A Magistratura e o Ministério Público brasileiro, a que me refiro, merecem, pois, absoluto respeito!

Desta forma, falar em “golpe” e envolver o judiciário nesta trama é, no mínimo menosprezar inteligência das pessoas.

Me causa total estranheza ver V. Exa. se referir às “elites” como posto em seu texto. Afinal o PT se aliou às “elites” para alcançar o poder. Foram integrantes da ala da “elite” mais elevada deste país que proporcionaram o desvio de dinheiro público em benéfico não só do partido, mas daqueles que já estão condenados ou sendo processados. Basta verificar as doações para campanhas eleitorais passadas.
Então a “elite” que abastece de recursos, é a mesma elite “golpista”? Não há uma gritante incoerência na sua proposição? Não há uma incoerência ideológica por parte daqueles agentes políticos e públicos já condenados ou processados, que pregam distribuição de renda, mas se enriquecem à custa do trabalho alheio das “elites” através do achaque? Este comportamento é moralmente aceitável? Para mim isso tem uma definição: bandidagem! 

Desculpe-me a franqueza, senhor Deputado, mas Lula, assim como aqueles que já estão condenados e aqueles que estão sendo processados, não estão nem aí para o Estado Democrático! De fato querem poder. Só poder. Poder eterno sobre tudo e todos. E poder a todo custo é sinônimo de tirania! Basta! Basta! Basta!

Quem conhece realmente história  sabe muito bem que os criminosos anistiados do passado, não praticaram ações violentas em nome de democracia, mas para impor o regime que entendiam ideologicamente adequado. Ditadura! Igualmente ditadura!

Ainda que compreenda seu alinhamento político partidário, senhor Deputado, não se permita, em homenagem à sua história de vida, descer ao nível da excrescência das mentiras deslavadas, como as protagonizadas publicamente pelo ex-presidente Lula, e tantos outros, desprovidos de dignidade e decoro, sustentando o insustentável.

Desejo ao senhor e sua família um 2018 abençoado. 

Que sua luta seja de fato  pelo povo e não por pessoas!"


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domingo, 12 de agosto de 2018

SE ELAS NÃO SABEM... - Zuenir Ventura


Se elas não sabem... 



...imagine nós, homens. Falo por mim, que consulto a minha sobre qualquer coisa importante. A atual indecisão das mulheres em relação às eleições é recorde, e essa inapetência eleitoral explica muito do estado de (des) ânimo geral. Afinal, elas são 52,5% do eleitorado, ou seja, a maioria que determina o resultado final. O problema é que, segundo pesquisa do Datafolha, 80% das eleitoras ainda não escolheram um nome em quem votar: 54% estão em dúvida, e 26% se declararam a favor do voto em branco ou nulo.

Não se trata de idiossincrasia feminina, não é uma questão de gênero. Há motivos específicos de discordância, como a dissonância entre as preocupações. A saúde, por exemplo, que para elas deve ser prioridade de governo, não aparece entre os principais temas de que os candidatos prometem cuidar.

Além disso, quem não está se sentindo confuso, desconfiado, insatisfeito e descrente com o quadro atual? Quando me perguntam “o que você acha que vai acontecer?”, respondo: “se souber, me fala que também não sei”. Será que o eleitor petista entendeu a última jogada de Lula, desistindo junto ao STF do recurso em que pedia sua liberdade? Alguém é capaz de descobrir qual é a ideologia do centrão? Aliás, o que é mesmo esse ajuntamento de interesses fisiológicos? E qual é a da bela Manuela D’Ávila, sendo tratada mais como miss do que como vice, na verdade, vice de vice, isto é, de Haddad, que, segundo o próprio Lula, tem “cara de tucano”? E o general do Bolsonaro, hein, à extrema-direita do capitão?

A novidade é que, acreditando que a indefinição das mulheres não é irreversível, os candidatos desenvolveram oportuna (ou oportunista) estratégia para atraí-las, oferecendo-lhes o cargo de vice, mesmo sem considerar se elas têm ou tiveram participação nas lutas femininas.

De qualquer maneira, segundo especialistas, o quadro tende a se alterar com a propaganda no rádio e na TV, e com o acirramento da campanha na reta final. Eles acham que as mulheres serão decisivas. Eu também.

                                                                         O Globo, 08/08/2018

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Zuenir Ventura - Sétimo ocupante da Cadeira n.º 32 da ABL, foi eleito no dia 30 de outubro de 2014, na sucessão do Acadêmico Ariano Suassuna, e recebido no dia 6 de março de 2015, pela Acadêmica Cleonice Berardinelli.

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