A greve dos caminhoneiros recolocou a questão da
privatização da Petrobras e — por tabela — de todas as estatais. O tema entrou
na pauta meio de contrabando. Afinal, a questão envolvia diversas questões e o
ataque às empresas estatais foi somente mais um pretexto na longa luta em
defesa do que os liberais chamam de Estado enxuto. Os liberais brasileiros
sempre foram meio fora da curva clássica: apoiaram ditaduras, fecharam os olhos
às graves violações dos direitos humanos, à censura e, quando lhes convinham, à
presença estatal na economia.
Não é possível falar em história do desenvolvimento
econômico brasileiro no século XX sem falar do Estado. Foi ele o grande indutor
da economia. Qual empresário quis fundar a Companhia Siderúrgica Nacional? E a
Petrobras? E a Embraer e a Embratel? E a vale do Rio Doce? E Itaipu? A lista é
quilométrica e, para economizar espaço, fico somente nessas empresas.
Todas elas exigiram investimentos de longa maturação e,
inicialmente, as taxas de lucros eram baixas. Tudo o que o empresariado
brasileiro não gosta.
O lucro fácil é o seu principal objetivo e a história do
Brasil é farta em exemplos que reforçam essa afirmação. Portanto, não estamos
no terreno da ideologia, mas sim trabalhando com dados muito conhecidos e
inquestionáveis.
Ao longo do tempo — e é um problema sério — as empresas
estatais foram ocupando espaços que deveriam estar reservados à iniciativa
privada. É um fato. Também as estatais foram perdendo seus objetivos originais
e acabaram, boa parte delas, tomadas por interesses político-partidários, o que
também é um fato de conhecimento geral.
Sendo assim, a questão que se coloca não passa pela
privatização indiscriminada de todas as estatais, pelo grito inconsequente de
privatize tudo. Não! O Estado, até por razões de segurança nacional, mas não
só, tem de continuar controlando com eficiência e competência setores que são
fundamentais para o País. É urgente despartidarizar as estatais, limpá-las da
corrupção e colocá-las à serviço do desenvolvimento nacional. Essas empresas
não devem ser dirigidas com o objetivo de atender prioritariamente os
investidores. Se agirem assim é melhor que deixem de ser estatais. O grande
desafio é recolocar as estatais no seu papel de indutor do desenvolvimento.
Entregá-las de mãos beijadas para investidores — principalmente estrangeiros —
será um crime de Lesa-pátria.
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Marco Antônio Villa é historiador, escritor e comentarista
da Jovem Pan e TV Cultura. Professor da Universidade Federal de São Carlos
(1993-2013) e da Universidade Federal de Ouro Preto (1985-1993).
É Bacharel (USP) e Licenciado em História (USP), Mestre em Sociologia
(USP) e Doutor em História (USP)
A Academia Brasileira de Letras prossegue com seu ciclo de
conferências do mês de junho de 2018, intitulado A cultura em processo,
sob coordenação do Acadêmico e professor Domício Proença Filho, com palestra do
professor Muniz Sodré. O tema escolhido foi Inteligência artificial e
cultura. O evento está programado para quinta-feira, dia 14 de junho, às
17h30min, no Teatro R. Magalhães Jr., Avenida Presidente Wilson 203, Castelo,
Rio de Janeiro. Entrada franca.
A Acadêmica e escritora Ana Maria Machado,
Primeira-Secretária da ABL, é a Coordenadora-Geral dos ciclos de conferências
de 2018.
Serão fornecidos certificados de frequência.
A cultura em processo terá mais duas conferências no
mês de junho, sempre às quintas-feiras, no mesmo horário e local, com os
seguintes palestrantes e temas, respectivamente: dia 21, Acadêmico eleito
Joaquim Falcão, Aspectos da cultura brasileira contemporânea; e 28,
Acadêmico Domício Proença Filho, Língua, cultura e identidade nacional.
Muniz Sodré adiantou parte de sua palestra: “Trata-se,
inicialmente, de apresentar a noção de cultura como um fenômeno moderno,
uma forma alinhada com outras (a democracia, a escola, a mercadoria
etc.) constitutivas da sociedade contemporânea. Mais precisamente, cultura como
a forma assumida pelo conhecimento que se assenta no comum da
Modernidade. A sua singularidade está no fato de ser uma forma que passa
transversalmente por todas as outras ao modo de uma “trans-forma”, isto é, de
algo que modifica a percepção, mais do que é reconhecido ou absorvido. Cultura
não é, portanto, o mesmo que conhecimento: É, antes, um mapa, uma carta de
navegação, com balizas e faróis. Só que a inteligência artificial deixa aflorar
a sua face tecnológica, em que se desenvolvem novas formas de vida, em que a
própria realidade circundante pode ser “aumentada” por aplicativos
técnicos. Isso nos leva a conceber uma cultura do autômato”.
O CONFERENCISTA
Muniz Sodré é Professor Emérito da Universidade Federal
do Rio de Janeiro, com mais de 36 livros publicados nos campos dos estudos de
mídia, cultura nacional e ficção. É professor-visitante de várias universidades
estrangeiras, com livros traduzidos na Itália, Espanha, Bélgica, Cuba, e
Argentina.
Livros mais recentes: A Ciência do Comum (Editora
Vozes) e Pensar Nagô (Editora Vozes). Foi presidente da Fundação
Biblioteca Nacional
(2005-2010).
Disputado por dois times, ofutebol tem como objetivo fazer entrar a bolano gol defendido pelo adversário. Como arte
nascida do pé na bola descrevelinhas e
curvas incríveis no decorrer da partida. Nos dois tempos com intervalo, ora faz
parte do jogo a ginga e o toque sutil, ora o passe preciso e o tiro certeiro.
As cenas que causam espanto aos que estão no estádio resultam do empenho e suor
gasto no esforço de cada lance. A bola rola macia no tapete verde ou salta na
grama maltratada do campo de várzea. Uma das proezas do futebol consiste em
impulsionar o coração para as zonas em que uma gente apaixonada transpira
pulsações alegres e dramáticas.
Provoca
uma febre que lateja em sua brasa verdejante e se expande por toda a extensão
dos meses no ano. Como gosta de criar apreensões, ritmos frenéticos quando se
tratade uma Copa do Mundo, até mesmo se
for uma disputa de dimensão nacional,
estadual ou municipal. Tremores,clamores, rancores. Vaias da galera formada de todas as gradações
sociais.
Surpreende quandoirrompe das gargantas no grito de gol,pura curtição da felicidade. Tamanha é uma flor nesse grito ferindo e
atordoando que ela se torna mais bela quanto mais sonora. O grito de gol
irrompido com tanta força tremula nas bandeiras com o escudo do clube ou a cara
do ídolo. Ele é carregado até as nuvens com gritos e ovações.De repente, lá do alto, derrama uma água
quemolha de amor o mundo fero e
solitário aqui embaixo.Esse mesmo mundo
que nós os humanos teimamosem forjar
com lances de tristeza, rasteiras e carrinhos impiedosos, todos os dias, no
duro embatedos dias. Assim levado pelas
nuvens,lá vai o futebol em seu percurso
de paixão do qual faz descer uma chuvaque alaga de emoção a vida, cheia de explicações duvidosas, mas feita
também de poesia, inexplicável, tão dela.
Nos textosde alguns
de nossoscraques das letras,aqui vestindo as cores de um timaço das
letras, vemos como o futebolseduz com
suas artimanhas, feitiços e sustos esplêndidos. O quanto é amoroso e
imprevisível. Cria situações inusitadas, tornando as coisas relativas, escreve
Luís Fernando Veríssimo. Maltratacom a
mesma mão que afaga. Renuncia às necessidades materiais do cotidiano. Fica
radiante de beleza nolado onde se
alojou a vitória,faça sol ou chuva. No
lado dos pesares, a turma deixa o estádio inconformada,não querendo acreditar no que viu e sentiu.
Nessa romaria de frustrações lá vai o futebol em silêncio,mastigando as amarguras da derrota.
Nesse jogo
que tantas vezes imita a vida,cheia de
calor e pressentimentos,é que o
futebol imprime em todos nós suas marcas de encantamento,entre o alegre e o triste.Assim o vemos agora,de crônica em crônica. Com Armando Nogueira,
por exemplo,um pouco da história de
nosso futebol sai dos bastidores para que se conheçao heroísmo de Vavá, o Leão da Copa de 58, nos
gramados da Suécia. Em Carlos Drummond de Andrade,de repente o ódio faz-se alegria, o futebol
afugenta mazelas, não quer saber da morte. O coração do poetaestá feliz no México e com o dele o de
milhões de brasileiros, que sente do lado de cácomo é bom chover papéis picados pelas ruas e explodir fogos de
artifícioloucos no céuquando se ganha uma copa do mundo. Melhor
ainda se o feitoé creditado a uma
seleção inigualávelde craques,comandados por Pelé, o “sempre rei
republicano”.
O futebol chega a ter sabor de obra-prima quandoé descritoporFernando Sabino em Iniciada a
Peleja. Se impõe nesse momentode
reunião importante dos executivos para tratar de assunto sério. Fala mais
altoem cada lance vibrante,chegando ao ouvido do torcedor atento e
nervoso, através de um pequeno rádio de pilha. Já Carlos Heitor Cony
mostracomo ofutebol é muito perigoso. Tem dessas coisas
que ultrapassam o óbvio ululante de qualquer criatura sensata quando se trata
de salvar a pele.Abala uma nação
inteira que quer ver o diabo em sua frente do que o bandeirinha brasileiro que
marcou um impedimento dos mais graves e tirou o título de campeão
sul-americanodos nossos “hermanos”, em
território argentino, favorecendoos
arquirrivais uruguaios, no último minuto.
Na trama que prende do princípio ao fim, aqui está, nestas
referênciasdealguns cronistas bons de bola,nossa maior paixão popular. Esses craques das
letras brasileiras mostram, em breves passagens,como o futebolé tão íntimo da vida. Se possui seus
imprevistos sob os instantes do sol ou da chuva,depende do carinho para sobreviver naquele
espaço verde que encanta.Com frequência
está a dizer que vencer torna a vida leve. Quando se perde, meu Deus, como
machuca.
De qualquer maneira, com sorte ou azar, seu refrão diz que
vale como paixão e diversão.
......
Cyro de Mattos é contista, poeta, cronista, ensaísta,
romancista, organizador de antologia,autor de livros para crianças e jovens. Membro efetivo da Academia de
Letras da Bahia.Doutor Honoris Causa
pela Universidade Estadual de Santa Cruz. Premiado no Brasil, Portugal, Itália
e México. Tem livro publicado em Portugal, Itália, França, Alemanha, Espanha e
Dinamarca.
Por favor, não fale comigo sobre "consciência" ou
entidades de luz.
Eu quero ver como você trata seu parceiro seus filhos, seus
pais, vizinhos e precioso corpo.
Por favor, não me faça uma palestra sobre "todos somos
UM" ou como você descobriu seu animal de poder ou mesmo as mandalas que
viu numa trip.
Eu quero sentir um calor genuíno irradiando do seu coração.
Eu quero saber o quão bem você sabe ouvir.
Eu quero ver como você lida com a vida quando tudo acontece
exatamente como você não gostaria e suas expectativas no relacionamento se
frustraram.
Não me diga como você está desperto, como você é livre do
ego.
Eu quero te conhecer por detrás das palavras.
Quero saber como você é quando os problemas e desafios
visitam você ferozmente.
Se você puder permitir totalmente sua dor e não fingir ser
invulnerável.
Se você pode sentir sua raiva e ainda não ser seu escravo.
Se você puder conceder passagem segura para a sua tristeza e
a tratar como convidado de honra.
Quem é você? Eu quero conhecer é você. Antes do tal
"espiritual".
Antes de todas as palavras inteligentes e textos e falas de
outros que você decorou.
Quero saber é se você pode sentir sua vergonha, ser humilde
e pedir desculpas.
Se você realmente é forte e guerreiro e admitir isso.
Se você pode dizer "desculpe", e realmente quer
dizer isso.
Se você pode ser totalmente humano em sua gloriosa
divindade.
Se consegue estar entrelaçado ao mundo da mesma forma que ama
ao espírito.
Não fale comigo sobre sua espiritualidade, amigo.
Eu realmente não estou tão interessado nisso.
Eu só quero conhecer você.
Conheça seu precioso coração.
Conheça o belo ser humano lutando pela luz que você É.
Quero conhecer você antes de sua “história espiritual".
Antes de todas suas desculpas.
Antes de todas as palavras inteligentes.
Eu quero conhecer você.
- Sahaj Kaliman -
Abodha Prem - Sw.
Prem Abodha é um dos coordenadores do Centro de Meditação Osho Sukul, do
Rio de Janeiro. Ele tem conduzido um trabalho cujo propósito básico é o acesso
à criança interior através do eneagrama. O Eneagrama é um conhecimento milenar
precioso no processo de compreensão da realidade humana.
O significado da confissão de Marcelo Bretas a Luiz Inácio
Lula da Silva
09/06/2018
Não raro vemos relato de pessoas que acreditaram e se
decepcionaram com a possibilidade de que um simples metalúrgico, calejado pela
vida e conhecedor da mais absoluta pobreza, pudesse fazer a diferença. E, sem
dúvida, poderia.
Infelizmente, o metalúrgico que escolhemos, não era detentor
de uma boa índole, havia se deteriorado no meio da politicagem sindical e não
soube transformar as dificuldades que havia passado na vida em coisas boas para
a sua alma.
Muito pelo contrário, alimentou uma ganância cega pelo
poder. O poder pelo poder, custe o que custar.
Em audiência com Sérgio Cabral, um outro criminoso, comparsa
de Lula, o juiz Marcelo Bretas confessou que em 1989 havia usado boné com o
nome do petista e votado nele.
Antes porém, o próprio juiz Sérgio Moro, certa ocasião,
havia dito que deu o seu primeiro voto para o homem que condenou por ter
roubado a nação.
Quem escreve esse texto, ainda não era eleitora em 1989, mas
torceu por Lula.
Bretas, Moro e eu, somos três das milhões de pessoas que se
decepcionaram com este canalha.
"Caro Tonzinho, estou em Paris, num hotel com sacada
sobre uma praça, que dá para toda solidão do mundo e diz:
Procura-se um amigo. Não precisa ser homem, basta ser humano,
ter sentimento, ter coração.
Precisa saber falar e saber calar no momento certo.
Sobretudo, saber ouvir.
Deve gostar de poesia, da madrugada, de pássaros, do sol, da
lua, do canto dos ventos e do murmúrio das brisas. Deve sentir amor, um grande amor
por alguém, ou sentir falta de não tê-lo.
Deve amar o próximo e respeitar a dor alheia. Deve guardar
segredo sem sacrifício.
Não precisa ser puro, nem totalmente impuro, porém, não deve
ser vulgar. Deve ter um ideal e sentir medo de perdê-lo. Se não for assim, deve
perceber o grande vazio que isso deixa. Precisa ter qualidades humanas. Sua
principal meta deve ser a de ser amigo. Deve sentir piedade pelas pessoas
tristes e compreender a solidão.
Que ele goste de crianças e lastime as que não puderam
nascer e as que não puderam viver. Que goste dos mesmos gostos. Que se emocione
quando chamado de amigo. Que saiba conversar sobre coisas simples e de
recordações da infância.
Precisa-se de um amigo para se contar o que se viu de belo e
triste durante o dia; das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve gostar
de ruas desertas, de poças d’água, de beira de estrada, do cheiro da chuva e de
se deitar no capim orvalhado.
Precisa-se de um amigo que diga que a vida vale a pena, não
porque é bela, mas porque já se tem um amigo. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo.
Deve ser Dom Quixote sem contudo desprezar Sancho.
Precisa-se de um amigo para se ter consciência de que ainda
se vive.”
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo
Marcos.
— Glória a vós, Senhor.
Naquele tempo, Jesus voltou para casa com os seus
discípulos. E de novo se reuniu tanta gente que eles nem sequer podiam
comer. Quando souberam disso, os parentes de Jesus saíram para agarrá-lo,
porque diziam que estava fora de si.Os mestres da Lei, que tinham vindo de
Jerusalém, diziam que ele estava possuído por Belzebu, e que pelo príncipe dos
demônios ele expulsava os demônios.Então Jesus os chamou e falou-lhes em
parábolas: “Como é que Satanás pode expulsar a Satanás? Se um reino se
divide contra si mesmo, ele não poderá manter-se. Se uma família se divide
contra si mesma, ela não poderá manter-se. Assim, se Satanás se levanta
contra si mesmo e se divide, não poderá sobreviver, mas será destruído.Ninguém
pode entrar na casa de um homem forte para roubar seus bens, sem antes o
amarrar. Só depois poderá saquear sua casa. Em verdade vos digo: tudo será
perdoado aos homens, tanto os pecados, como qualquer blasfêmia que tiverem
dito. Mas quem blasfemar contra o Espírito Santo, nunca será perdoado, mas
será culpado de um pecado eterno”.
Jesus falou isso, porque diziam: “Ele está possuído por um
espírito mau”.
Nisso chegaram sua mãe e seus irmãos. Eles ficaram do lado
de fora e mandaram chamá-lo. Havia uma multidão sentada ao redor dele.
Então lhe disseram: “Tua mãe e teus irmãos estão lá fora à tua procura”. Ele
respondeu:
“Quem é minha mãe, e quem são meus irmãos?” E olhando
para os que estavam sentados ao seu redor, disse: “Aqui estão minha mãe e meus
irmãos. Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha
mãe”.
Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a encenação do Evangelho:
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Por que temos medo de quem é
diferente?
“Os mestres da lei, que tinham vindo de Jerusalém, diziam
que Ele estava possuído por Belzebu…”
Desconcertante: exatamente assim foi Jesus; e sabemos disso
através dos evangelhos. Jesus foi um homem que viveu e falou de tal maneira que
se revelou desconcertante para aqueles que o conheceram e se aproximaram dele.
Jesus desconcertou sua família que o considerava louco; desconcertou àqueles
que o acusavam de “blasfemo”, de “Belzebu”, de “escandaloso”. Jesus
desconcertou todo mundo, até o final de sua vida, que foi o mais desconcertante
de tudo. Desconcertou porque assumiu uma postura diferente frente ao contexto
social, religioso e político no qual viveu. Jesus não se “encaixou” em nenhum
grupo e deixou transparecer sua liberdade frente às leis, às tradições de seu
povo, ao templo, aos poderes... Por isso foi incompreendido e rejeitado.
Numa sociedade corrupta e deformada, uma pessoa que se
ajusta ao modo de proceder e de pensar dos intolerantes e preconceituosos, não
desconcerta ninguém; é uma pessoa “formatada” que passa pela vida sem deixar
“marcas”, sem saber “por quê e para quê vive”, deixando tudo como está.
Jesus viveu deslocamentos contínuos; fez-se presente em
diversos lugares; teve contatos com outras culturas, raças, expressões
religiosas… Tudo isso o enriqueceu, tornando-o diferente, aberto; sua vida se
ampliou, sua mente se abriu, seu coração se expandiu… Nova visão, nova
experiência… Seu movimento de vida foi desencadeado nas casas, ao longo dos
seus percursos; Jesus desejou que também sua casa entrasse nesse movimento em
favor da vida. Mas não foi acolhido pelos seus parentes, pois não se “encaixou”
mais nos esquemas da família, da religião, da sua comunidade… Seus parentes em
Nazaré continuaram vivendo uma estreiteza de vida; Jesus não voltou mais o
mesmo, saiu da “normalidade” de vida própria de Nazaré. Voltou enriquecido,
expansivo, muito maior, mas não foi compreendido.
O deslocamento de Jesus pelos territórios vizinhos da
Galileia revela-se como um apelo e uma ocasião privilegiada para pôr em questão
nosso confinamento religioso, nossas posturas fechadas, nossas visões
preconceituosas... e abrir-nos à diversidade e ao diferente. Sem alteridade
regenerante caímos no confinamento de uma pureza de ortodoxia, de um fascismo
enrustido, de um legalismo estéril, de uma doutrina impositiva. Confinamento
que nos torna cegos aos valores e riquezas que vem de outras expressões
humanas, sociais e religiosas.
Vivemos contínuos deslocamentos geográficos, sociais,
culturais, religiosos… Tudo isso nos enriquece. Com esta riqueza voltamos às
nossas Nazarés, para ampliá-las, expandi-las. Não se trata de impor, mas de
propor; compartilhar as ricas experiências adquiridas. Não é fácil ser
diferente dos outros; não é fácil assumir uma vida alternativa frente àqueles
que estão petrificados em suas posturas e ideias; não é fácil dizer “não” onde
todos, como cordeiros, dizem “sim”; não é fácil fazer o que ninguém quer fazer.
Toda autêntica vida humana é vida com os outros, é
convivência, é encontro... Assim, o princípio de alteridade está fundado no
princípio de identidade; a diversidade reforça a identidade pessoal: podemos
nos compreender apesar de sermos diferentes, porque todos somos seres criados e
agraciados por Deus, chamados a ser habitados por uma verdade que está para
além de uma religião e uma cultura específica.
Somos humanos, seres em caminho, buscadores de sentido,
buscadores da verdade e habitados pelo mesmo Deus. E viver a “cultura do
encontro” (Papa Francisco) implica respeitar e se alegrar com a diversidade,
considerando-a riqueza. Saber conviver com as diferenças é sinal de maturidade.
É maravilhoso que haja raças, costumes, cultura, gênero, religiões, tradições,
línguas, formas de pensar... diferentes. Assim, ser seguidores(as) de Jesus nos
converte em seres abertos, acolhedores da diferença.
As diferenças mobilizam a energia e a fertilidade criadora;
elas provocam intercâmbio entre as pessoas. A diversidade é uma forma de
aproximação entre os seres humanos. A diferença do “outro” deve ser
motivo para o encontro e para o enriquecimento mútuo. A diferença é rebelde,
quebra o uniformismo, convulsiona a quietude, sacode a rotina. É a diferença
que gera alteridade. O outro é diversificado e não repetitivo. Massificar as
pessoas é uma forma de silenciá-las e dominá-las. Perverter a diferença é uma
atitude que degrada a pessoa. Diferença é originalidade, é o inédito, é o que
excede a medida comum, é o que distingue uma personalidade de outra. A
humanidade é profundamente diversificada em seus talentos, valores originais e
em sua vitalidade; seu tesouro está precisamente em sua diversidade criadora.
Daí a importância e a urgência de aprender a valorizar o que
é próprio e também o que é diferente, esforçando-se para não transformar as
diferenças normais (geográficas, culturais, de raça, de gênero...) em
desigualdades. É preciso educar e preservar as diferenças humanas.
Deveríamos pensar mais sobre a importância das diferenças
que nos humanizam. Deveríamos admirar as diferenças pessoais e grupais, e
não lamentá-las. É necessário evitar tudo o que reprime as diferenças e
desenvolver a verdadeira coexistência pessoal, social, científica, religiosa,
ética. Deveríamos remover abusos e vícios que anulam a diferenças. Perverter a
diferença é uma atitude que degrada a pessoa. Valorizar a diferença e os
diferentes implica tratar com cortesia, saber interagir, trabalhar juntos,
respeitar...
Segundo o modo de ser e proceder de Jesus, o que mais nos
desumaniza é viver com um “coração fechado” e endurecido, um “coração de
pedra”, incapaz de amar e de abrir-se ao novo. Quem vive “fechado em si mesmo”,
não pode acolher o Espírito de Deus, não pode deixar-se guiar pelo Espírito de
Jesus, pois acredita que quem é diferente “está possuído por um espírito mau”
(3,30).
Quando nosso coração está “fechado”, em nossa vida não há
mais compaixão e passamos a viver indiferentes à violência e à injustiça que
destroem as relações entre as pessoas. Passamos a viver separados da vida,
desconectados. Uma fronteira invisível nos separa do Espírito de Deus que tudo
dinamiza e inspira; é impossível sentir a vida como Jesus sentia. Quem assume
atitudes de indiferença tem medo do diferente, e a vida vai se
atrofiando...
Num coração petrificado o Espírito não tem liberdade de
atuar; dessa resistência à ação do Espírito brotam as doentias divisões
internas. São os dinamismos “diabólicos” (aquilo que divide) que se instalam em
nosso interior, atrofiam nossas forças criativas e nos distanciam da comunhão
com tudo e com todos.
Não podemos permanecer trancados em redutos que rejeitam as
diferenças existenciais. Daí a importância de aprender a ver o melhor de cada
pessoa e de cada povo, superando as visões estreitas e fundamentalistas e todo
tipo de racismo, xenofobia, desprezo, mixofobia, preconceito, dominação...
A “Ruah de Deus” nos move a construir uma Comunidade
fraterna, capaz de abrir suas portas e derrubar seus muros, para que ninguém se
sinta excluído. É missão específica da Ruah integrar as diferenças numa grande
comunhão universal. Não podemos matar a presença e a ação original do
Espírito.
Texto bíblico: Mc 3,20-35
Na oração: “E olhando para os que estavam sentados ao
seu redor…” Estar em círculo supõe uma postura de acolhida e comunhão com os
outros, respeitando sua diversidade. Tal atitude quebra toda pretensão de
imposição, de poder, de violência... Isso só é possível quando Jesus se faz o
centro.
Trata-se de uma imagem espacial do discipulado que pode nos
ajudar a entender melhor nossas posturas vitais, tanto no nível pessoal como no
comunitário ou na missão.
- “Estar em círculo” também quer dizer que estamos
vinculados a outros numa postura corporal que tem Jesus como centro. A imagem
do círculo é a que melhor expressa o modo de seguir Jesus e não a “hierarquia”
que dá margem ao carreirismo e à busca de poder.