O arraial
do Salobrinho era realmente um lugar assaz divertido. O seu povo era alegre e
folgazão, tendo na expressão a singeleza das coisas imaculadas. Tudo ali estava
bem, e as pessoas viviam individualmente, livres do fantasma do medo, da inveja
e da arrogância. Ninguém criticava, discriminações não havia, tudo era belo e
risonho.
Havia brincadeiras
das mais variadas, sem agressões e desprovidas da maldade. A alegria de viver
era a tônica principal, e as festas tradicionais eram comemoradas com mais
vida, mais calor e mais entusiasmo, a exemplo dos ternos-de-reis, promovidos
por Dona Pureza, uma sergipana muito alegre e descontraída. Havia os ensaios,
os preparativos para que tudo ficasse direitinho e, no dia de santos reis, lá estava
Dona Pureza e família arrastando a multidão às ruas.
Quantas recordações
das festas juninas! Fogueiras enormes crepitavam por toda a noite, iluminando
as ruas escuras do arraial, além dos balões que coloriam o céu ante os olhares
fascinados das crianças.
No período
carnavalesco, cordões e batucadas tomavam conta do lugar. Blocos disputavam
entre si o primeiro lugar, porque cada qual queria melhor mostrar o seu
trabalho, por isso havia sempre algumas brigas sem maiores consequências. Certa
ocasião, o encontro de dois blocos, na Rua do Zinco, redundou numa grande
confusão. As porta -bandeiras aproveitaram
o ensejo para extravasarem uma antiga rixa. Nunca vi tamanha balbúrdia... E o
saldo daquela parafernália foi muita gente com a cara quebrada, pois a briga
envolveu quase todos os foliões.
Os blocos pertenciam a Amândio Arouca e a Dona
Dudu. Apesar dos incidentes desagradáveis que às vezes aconteciam, tudo era
considerado como natural, porque só se verificavam estas coisas em épocas
festivas, assim mesmo quando alguém se excedia na bebida, para provocar
desordens. No mais, tudo transcorria normalmente, sem nenhum problema. As
festas natalinas eram promovidas com muito esmero e cuidado: ao longo das
pracinhas, viam-se dezenas de barracas, que vendiam adereços, bolas de soprar e
uma variedade de brinquedos, enquanto outras sorteavam objetos domésticos.
No ar, uma
música lenta se fazia ouvir... Era o serviço de alto-falante “A Voz do
Salobrinho” que, sob o comando do Mestre Leal , tocava uma música suave do Natal e anunciava aos quatro ventos,
convidando o povo para a missa do galo. Aquele serviço de comunicação foi um
marco importantíssimo na história do Salobrinho. Através dele, conseguiram-se
inúmeros benefícios em prol da comunidade.
No que se
refere às datas comemorativas, creio que foi válida a nossa modesta participação, porque muitas
vezes promovemos festinhas alusivas aos dias das mães, das crianças e dos namorados.
Em frente ao Grupo Escolar Herval Soledade, alegrávamos as crianças do arraial
com programas de calouros, à proporção em que distribuíamos presentes para a
meninada.
O anoitecer
ali era sereno e mais bonito, porque através do serviço de alto-falante ,
podíamos retransmitir A VOZ MARIANA, um programa religioso que havia na Rádio
difusora Sul da Bahia, da cidade de Itabuna e que era levado ao ar todos os
dias às dezoito horas. Aos domingos, moças e rapazes solicitavam músicas
apaixonadas; quando havia aniversários, casamentos, batizados, aumentavam os
pedidos musicais, que deixavam o Salobrinho embevecido.
(SALOBRINHO - ENCANTOS E DESENCANTOS DE UM POVOADO)
Machado de Assis leu,
com certeza, Octave Feuillet e Gustave Flaubert, Balzac e Zola, mas, enquanto
romancista, sua pátria espiritual era a Inglaterra, “o país do romance”, como
a denominou Edmond Jaloux, insuspeito por ser francês. Isso contrariava as
expectativas por assim dizer automáticas do leitor brasileiro oitocentista,
desorientando boa parte dos críticos, muitos não sabendo o que fazer com
aquele corpo estranho que, a partir de “Ressurreição” (1872), caía-lhes de
repente sobre a mesa e as idéias feitas. É história interessantíssima, como
diria José Dias, ordenada por Ubiratan Machado em livro igualmente
interessantíssimo (“Machado de Assis: roteiro da consagração”. Crítica em
vida do autor. Rio: EdUERJ, 2003).
Era romancista vitoriano,
oposto, por temperamento, à libertinagem literária do século anterior,
supremo artista da litotes no vocabulário e no desenvolvimento narrativo.
Adotando no “Brás Cubas” algumas inovações técnicas de Sterne, ele mesmo
desencaminhou os críticos de leitura superficial e apressada, que passaram
mecanicamente a encará-lo, não como “humorista” autêntico e nativo, mas, nas
palavras de Sílvio Romero, como “uma imitação, aliás pouco hábil, de vários
autores ingleses”. Não sendo inglês, não podia ser “humorista”, pela simples
razão de que o humour (como então se escrevia) é uma secreção orgânica
específica da “raça inglesa”, tese defendida num clássico dos estudos
machadianos. Ou, ainda no gracioso julgamento de Sílvio Romero: “O humour de
Machado de Assis é um pacato diretor de secretaria de Estado e o horrível de
seus livros é uma espécie de burguês prazenteiro, condecorado com a comenda
da Rosa... (...) O temperamento, a psicologia do notável brasileiro não são
os mais próprios para produzir o humour , essa particularíssima feição da
índole de certos povos. Nossa raça em geral é incapaz de o produzir
espontaneamente”. Ora, o primeiro erro dessa leitura está, precisamente, na
suposição todo arbitrária de encará-lo como humorista, o que não é em nenhum
dos seus livros, sem excluir o “Brás Cubas”. Os que o afirmam leram-no de
afogadilho, saltando páginas à procura de curiosidades tipográficas, sem
realmente entender o que estavam lendo. A questão foi colocada por Oliveira
Lima em gabarito intelectual mais elevado:
“É possível que Machado
de Assis tenha experimentado a influência de Sterne ou de Swift. Ele admira
os bons modelos e preza os antigos como todo homem dado às letras, mas a
razão da sua delicadeza parece-me antes estar em que o seu temperamento
corresponde ao dos citados autores do século XVII, em que a sua
característica urbanidade tão pessoal e imudável, condiz com aquela ironia
flagelada mais do que flageladora, com aquela que, se não era ainda dolorosa,
já era humana e tinha a refreá-la o respeito das normas, que o romantismo se
aprouve em destroçar”.
Para a “voracidade
insaciável dos leitores de língua inglesa”, escreve Jorge de Sena, a leitura
de romances substituía a oratória do púlpito ou parlamentar: o romance
tornou-se, acima de tudo, um veículo para o conhecimento do homem, uma lição
moral, não só pelo que pudesse ter de proveito e exemplo, mas, ainda, como
estudo da condição humana e suas paixões, não em abstrato, mas integrada na
vida social. A complexidade da intriga, as múltiplas linhas narrativas que se
cruzam, a variedade e o antagonismo dos caracteres, tudo devia transmitir a
sensação do mundo real.
É fácil perceber a
similaridade de concepção e trama narrativa entre “Iaiá Garcia”, que é de
1878, e “Middlemarch”, de George Eliot, publicado sete anos antes, romance
que, “pela amplidão da estrutura, a perspicácia das análises, a problemática
complexa, o dramatismo da ação, a serenidade da narrativa, a dignidade
intelectual, a consciência do tempo agindo sobre as vidas das personagens”,
é, não só “o mais ambicioso dos romances vitorianos” (Jorge de Sena), mas o
protótipo de todos eles. Descrição que se pode aplicar, ponto por ponto, a
“Iaiá Garcia”, romance geralmente subestimado sob a alegação todo fantasiosa
de ser o último de uma suposta “primeira fase”.
A aceitar tal dicotomia,
romance de soberba maturidade intelectual, será, antes, o primeiro da série
magistral que terá prosseguimento, justamente, com “Brás Cubas”, romance
irônico, este, que se desdobrou em romance dramático. Ao lado de “Dom
Casmurro”, que requer leitores amadurecidos e cultos, “Iaiá Garcia” será, dos
livros de Machado de Assis, o mais exposto às tresleituras, iniciadas, já no
lançamento, com o artigo de Urbano Duarte: “Foi-se também ‘Iaiá Garcia’, e
tão desenxabida como no dia em que nasceu. Inda estamos por saber que tese
quis o autor desenvolver em seu livro, sendo fora de dúvida que ele quis ali
desenvolver qualquer tese. Tratamos de descobrir o fito do pensador em meio daquele
langoroso idílio e chegamos à conclusão final de que a sua era uma tese
garciológica ”.
Claro, José Veríssimo
situava-se acima dessa indigência mental: “‘Iaiá Garcia’, como ‘Ressurreição’
e ‘Helena’, é um romance romanesco, talvez o mais romanesco dos que escreveu
o autor. Não só o mais romanesco, como talvez o mais emotivo. Nos livros que
se lhe seguiram, é fácil notar como a emoção é, diríeis, sistematicamente
realçada pela ironia dolorosa do sentimento realista de um desabusado”. Veríssimo
percebeu por instinto de leitor familiarizado com “homens e coisas
estrangeiras”, que “Iaiá Garcia” era um romance vitoriano — até o
protagonista Jorge tinha “um nome romanesco”, nome de harmônicas inglesas
mais do que evidentes.
Formados na escola
descritiva de Alencar, os leitores da época, sem excluir os melhores,
viram-se, de repente, em face de uma nova concepção do romance, custando a
reconhecê-la e, mais ainda, a aceitá-la. Caberia a Capistrano de Abreu
refletir a perplexidade geral diante do exemplo mais desafiador: “As
‘Memórias póstumas de Brás Cubas’ serão um romance? Em todo o caso são mais
alguma coisa”. Essa “coisa” exigia simplesmente um novo tipo de
leitor, o leitor para quem a literatura existe nela mesma, sem considerações
de qualquer outra ordem. Com corrosiva ironia, Machado de Assis encarregou o
finado Brás Cubas de responder “que sim e que não”: era e continua sendo
romance para uns, não o sendo para outros. Em Machado, a ambiguidade era a
forma específica de afirmação: pede-se aos espíritos de geometria que se
abstenham.
Ossuário de vítimas dos comunistas do Khmer Rouge no
Combodge
A doutrina comunista é intrinsecamente má, mesmo em
suas formas mais atenuadas. Entretanto, quando levada às suas últimas
consequências, ela se torna verdadeiramente satânica. Um pavoroso exemplo disso
foi o ocorrido no Cambodge, quando o Khmer Rouge (ou Khmer Vermelho —
guerrilheiros do partido comunista daquele país) conquistaram o poder e
procuraram extirpar da nação, pelos meios mais violentos, qualquer vestígio de
civilização ocidental. O objetivo deles era criar o utópico “homem novo”, para
o qual era necessário dizimar completamente a população e recomeçar tudo do
zero.
País pobre e sofrido
O
Cambodge fica no sudoeste da Ásia e sucedeu ao Império Khmer hinduísta
e budista, que reinou praticamente em toda a península da Indochina. Tem
fronteiras com a Tailândia, o Laos e o Vietnã. Com 96% de sua população formada
por seguidores do budismo — religião oficial do Estado —, possui uma pequena
comunidade muçulmana, outra católica, e algumas tribos das montanhas.
O país vive principalmente da agricultura (57,6% da
população ativa), do turismo e da indústria de confecções. Há pouco tempo foram
descobertos petróleo e gás natural em suas águas territoriais. Embora no final
dos anos 90 tenha havido um forte desenvolvimento econômico, graças ao afluxo
de investimentos internacionais e ao turismo, o país é muito pobre: 31% de sua
população vivem abaixo do limite da pobreza.
Essa pobreza foi muito acentuada a partir do ano de 1975,
com a tomada do poder pelo Khmer Rouge, formado por comunistas da
linha maoísta mais radical. É dessa época que vamos tratar.
Radicalidade no mal
Antigo protetorado
francês, o Cambodge ganhou sua independência em novembro de 1953, quando se
tornou uma monarquia constitucional com o rei Norodom Sihanouk [foto ao lado].
Muito bem armados pela China comunista, membros do movimento
guerrilheiro Khmer Rouge iniciaram no fim da década de 60 uma
bem-sucedida investida terrorista. Em 1975 tomaram Phnom Penh, capital do país,
bem como algumas de suas cidades principais, nas quais instalaram um regime de
terror. Sem Deus nem entranhas, eles evacuaram violentamente as cidades —
inclusive os hospitais — e obrigaram todos os seus habitantes a marchar, quase
sem água nem alimento, rumo à floresta ou a campos de trabalho forçado. Para
que não pensassem em voltar, muitas vezes queimavam suas casas.
Milicianos de um movimento profundamente igualitário, eles
simplesmente eliminavam, ou mandavam executar os trabalhos mais servis, os
“parasitas da sociedade” que tivessem aparência de intelectual ou de
pertencerem à elite.Desse modo liquidaram sumariamente quase todos os médicos,
engenheiros, advogados, professores e membros da administração anterior.
Os guerrilheiros khmers rouge [foto
ao lado] aboliram a propriedade privada e não davam qualquer importância ao
dinheiro, que era jogado nas ruas como coisa sem valor. Os doentes dos
hospitais que não podiam acompanhar a marcha forçada para a floresta se
arrastavam pelas ruas e morriam pelo caminho, sem atendimento médico nem
remédios.
Phnom Penh transformou-se numa cidade fantasma, enquanto
milhares de pessoas morriam de fome ou doenças nos campos de concentração,
quando não eram simplesmente assassinadas.
O Khmer Rouge destruía de modo sistemático
todas as fontes de alimento que não podiam ser controladas facilmente pelo
Estado; cortou árvores frutíferas, proibiu a pesca, interditou o plantio e a
colheita do arroz silvestre que dava nas montanhas. Sua sanha levou-o a abolir
até mesmo os remédios e os hospitais. Apesar da penúria em que ficou o povo,
exportava os alimentos e recusava as ofertas de ajuda humanitária. Também destruiu bibliotecas, templos, eliminando tudo aquilo
que pudesse lembrar o Ocidente ou ser obstáculo ao regime.
Desse modo, segundo estimativas, as vítimas fatais do Khmer Rouge chegaram
aproximadamente a três milhões, ou seja, cerca de um quarto da população.
Invasão dos vietnamitas
Esse regime maoísta era tão cruel, que o seu vizinho Vietnã,
apesar de comunista, temendo que o caos provocado se instalasse em seu
território, invadiu o Cambodge e derrubou o regime dos khmers vermelhos,
que passou para a clandestinidade e a luta de guerrilhas.
Entretanto, para o sofrido país quase não houve alteração,
pois o regime de “Lúcifer” apenas fora mudado pelo de “Satanás”, sendo os
comunistas vietnamitas apenas um pouco menos radicais que os do Khmer Rouge.
Durante toda a década dos 80, sob o jugo comunista do
Vietnã, o Cambodge continuou a ser arruinado e dividido segundo o resultado dos
combates. A falta de alimentação e de remédios provocou devastações, e as
epidemias milhares de mortos. Nesses nefastos anos, centenas de milhares de
refugiados cambojanos fugiram para a Tailândia.
Volta a uma seminormalidade
Com a retirada dos vietnamitas em 1989 e o envio de forças
da ONU no princípio dos anos 90, aos poucos a normalização começou a voltar,
embora persistissem muitas violações da lei e arbitrariedades.
O atual primeiro-ministro do Cambodge é Hun Sem. Ele foi
colocado pelos vietnamitas e vem se mantendo no poder graças a três eleições
duvidosas, realizadas em clima de violência política. Sihanouk voltou ao poder
em 1993, mas abdicou em 2004 em favor de seu filho mais novo, Norodom Sihamoni.
A Igreja Católica no Cambodge tem atualmente 23 mil fiéis,
num país de quase 16 milhões de habitantes (0,14% da população). Eles eram 65
mil em 1970, mas foram sucessivamente exterminados pelo regime do Khmer Rouge:
primeiramente de 1975 a 1979, e depois durante a ocupação vietnamita
(1979-1989). Em 1990 só restavam cinco mil, pois 92% haviam sido assassinados
ou fugiram.
Com a volta de uma relativa normalidade, no Domingo de
Páscoa de 1990 — pouco depois do fim do comunismo vietnamita — foi novamente
possível celebrar uma missa pública nesse tão dilacerado país.
Museu do Genocídio Tuol Sleng contêm milhares de
fotos tiradas pelo Khmer Vermelho de suas vítimas.
Os 35 mártires do Cambodge
Durante a diabólica ocupação dos khmers rouge,
muitos católicos, como dissemos, foram martirizados. Está em curso o processo
de beatificação de 35 deles — entre os quais um bispo, missionários
estrangeiros, sobretudo franceses, sacerdotes locais e catequistas leigos —,
mortos de fome ou de exaustão, ou simplesmente assassinados.
Dom Joseph Chmar Salas, bispo de Phnom Pen, que encabeça a
lista desses mártires, morreu de fome aos 40 anos, num campo de concentração.
Seus pais recolheram sua cruz peitoral, em torno da qual os prisioneiros
católicos se reuniam para fazer suas orações.
É espantoso notar que, apesar de todas essas abominações e
morticínios (calcula-se que um quarto da população foi exterminado), o Khmer Rouge obteve
na época o reconhecimento de 63 países como verdadeiro governo do Cambodge e
indicação para ter assento na ONU!
Epilogo
David Roberts, especialista em Direitos Humanos no sudeste
asiático, descreve muito bem o atual Cambodge: “Um Estado de livre mercado
vagamente comunista, com uma coalizão relativamente autoritária governando uma
democracia superficial”.
Entretanto, apesar desse trágico quadro, a Igreja Católica
está progredindo. Só na Vigília Pascal deste ano, 300 cambojanos nela
ingressaram pelo Santo Batismo.
- Piedade! Elas veem tudo entre as moitas escuras…
Piedade! Esse impudor ofende o olhar gelado
Das que viveram sós, das que morreram
puras!
Olavo Bilac
Poesias, pag. 162
----
Olavo Brás Martins da Silva dos Guimarães Bilac, considerado, já no seu tempo, “o
príncipe dos poetas brasileiros”, foi, efetivamente, dos maiores da língua.
Pertenceu à escola parnasiana, de que foi um dos chefes. Nasceu
no Rio de Janeiro em 16/12/1865 e aí faleceu em 28/12/1918.
Jornalista, ensaísta, conferencista, deixou também livros
didáticos, crônicas e versos humorísticos.
Reuniu todos os seus versos sob a denominação de Poesias (1ª ed.
1888), obra aumentada em 2ª ed. (1902) e várias vezes reeditada (23ª ed. 1949).
Deixou, além desse, um mimoso livro dePoesias infantis, muito lido e
divulgado, cuja 16ª ed. Data de 1946, e também:Crítica e fantasia(1904),Conferências literárias(1906),Últimas conferências e discursos(1924) eIronia e Piedade(1916).
Seus sonetos são dos mais célebres da língua portuguesa e
distinguem-se pelo apuro e casticismo da forma.
Foi um dos membros fundadores da Academia Brasileira de Letras,
tendo escolhido por patrono a Gonçalves Dias (Cadeira nº 15), e como sucessor
Amadeu Amaral.
Não é novidade que todas as pessoas que vêm ao mundo, nas
suas passagens, deixam suas marcantes passagens, quer sejam benéficas ou,
muitas vezes, até desagradáveis e tristes!
Claro que para esse segundo grupo, temos que ser
benevolentes e perdoa-las, pois, talvez pelas faltas de oportunidades, tenham
tido orientações desajustadas e até nem orientação tiveram. Mas, com relação ao
primeiro grupo, temos que valorizar e reconhecer que suas passagens, deixaram
marcas deslumbrantes e maravilhosas que servirão sempre de bons e invejáveis
exemplos! Nessa categoria, obrigatoriamente, não torna-se exagero dizer-se que
tratam-se de pessoas superespeciais e, uma delas, posso dizer de cátedra que
foi uma lição de vida, pouco vista nos dias atuais: LETY GUIMARÃES DE AQUINO!
Essa pessoa que refiro-me, que tive o privilégio de conviver
em torno da sua família por meio século, absorvendo em seus atos e
procedimentos, os carinhos e afetividades que para todos ela dedicava,
principalmente aos familiares e amigos. Sempre presente nas horas de servir,
ombros normalmente disponíveis para choros ou lamentações e, como respostas,
bons conselhos pela sua experiência de vida.
Não foi de muitos estudos, pois, na sua época, as moças eram
mais criadas para serem prendadas donas de casas, esposas dedicadas e mães
protetoras e cuidadosas e, nesses particulares ela fez um mestrado perfeito,
tornando uma esposa maravilhosa, mãe de quatro filhos que foram muito bem
educados e tratados com um carinho inigualável, pois, como uma ave, colocava
todos embaixo das suas asas, dando uma proteção impecável e bendita! E, pela
sua personalidade de solidária, ainda aconchegava seus irmãos caçulas, genros,
noras e uma grande fatia de amigos!
Com os netos? Ave Maria! Quem quisesse que fosse bulir em um
deles! Esses eram intocáveis e cheios de dengos e vontades!
Na vertente religiosa era uma verdadeira fiel aos seus
princípios católicos, participando diuturnamente em todos os eventos. Amiga
calorosa de todos os padres e, de quebra, ainda fazia e mandava um lanchinho
para o Bispo! Nas decorações do templo, sempre estava presente não só
ofertando, como trabalhando para dar brilho aos acontecimentos!
Sempre foi um esteio para o abrigo de S. Francisco. Cuidava
dos velhinhos com carinho e devoção, como também preocupada com as dificuldades
e as necessidades na parte arquitetônica. Foi uma das montadoras do Bazar e,
por sua vez, dava seus plantões nas modestas vendas que ajudavam ao humilde
abrigo!
Essa pessoa inesquecível e marcante partiu para estar ao
lado de Deus e, tenho absoluta certeza, que foi recebida com tapete vermelho
pelos anjos, tocando harpas e gritando Aleluia, pois, naquele momento, chegava
alguém muito especial: LETY GUIMARÃES DE AQUINO!
Saudades? Até que poderemos ter! Mas, como já disse em um
dos meus poemas: “Como poderemos sentir saudades por alguém ter partido, se
esse alguém estará sempre em nosso coração partido?”
Interessante observar que uma das propriedades psicológicas
doentias mais presentes na estrutura rebelde da arrogância é a incapacidade
para percebê-la. O efeito mais habitual de sua ação na mente humana. Basta
destacar que dificilmente aceitamos ser adjetivados de arrogantes. Entretanto,
um estudo minucioso nos levará a concluir que, raríssimas vezes na Terra,
encontraremos condutas livres dessa velha patologia moral.
Relacionemos outros efeitos dessa doença:
1- Perda do autodomínio.
2- Apego a convicções pessoais.
3- Gosto por julgar e rotular a conduta alheia.
4- Necessidade de exercício do poder.
5- Rejeição a críticas ou questionamentos.
6- Negação de sentimentos.
7- Ter resposta para tudo.
8- Desprezo aos esforços alheios.
9- Imponência nas expressões corporais.
10- Personalismo.
11- Autossuficiência nas decisões.
12- Bloqueio na habilidade da empatia.
13- Incapacita para a alteridade.
14- Turva o afeto.
15- Acreditar que pode mais do que realmente é capaz.
16- Buscar mais de que necessita.
17- Querer ir além de seus limites.
18- Exigir mais do que consegue.
19- Sentir que somos especiais pelo bem que fazemos.
20- Supor que temos a capacidade de dizer o que é certo e errado para os
outros.
21- Sentir-se com direitos e qualidades em função do tempo de doutrina e da
folha de serviços.
22- Acreditar que temos a melhor percepção sobre as responsabilidades que nos
são entregues em nome do Cristo.
23- Julgar-se apto a conhecer o que se passa no íntimo de nosso próximo.
24- Desprezar o valor alheio.
A ausência de consciência sobre esse sentimento e suas
manifestações de rebeldia tem sido responsável por inúmeros acidentes da vida
interpessoal. Mesmo entre os seguidores das orientações do Evangelho, solapam
as mais caras afeições, levando muita vez a tomar os amigos como autênticos
adversários.
Ter autoconsciência é uma das habilidades da inteligência emocional. Saber dar
nome aos nossos sentimentos é fundamental no processo de crescimento e reforma
interior. A arrogância que costumamos rejeitar como característica de nossa
personalidade é responsável por uma dinâmica metamorfose dos sentimentos.
A ignorância de seus efeitos em nossa vida é explorada pelos gênios astutos da
perversidade no planeta.
Do livro: ESCUTANDO SENTIMENTOS – a atitude de amar-nos como
merecemos.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo
Mateus.
— Glória a vós, Senhor.
Naquele tempo, vendo Jesus as multidões, compadeceu-se
delas, porque estavam cansadas e abatidas, como ovelhas que não têm pastor.
Então disse a seus discípulos: ”A Messe é grande, mas os trabalhadores são
poucos. Pedi pois ao dono da messe que envie trabalhadores para a sua
colheita!” Jesus chamou os doze discípulos e deu-lhes poder para
expulsarem os espíritos maus e para curarem todo tipo de doença e enfermidade. Estes
são os nomes dos doze apóstolos: primeiro, Simão chamado Pedro, e André, seu
irmão; Tiago, filho de Zebedeu, e seu Irmão João; Filipe e Bartolomeu; Tomé
e Mateus, o cobrador de impostos; Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu; 4imão, o
Zelota, e Judas Iscariotes, que foi o traidor de Jesus. Jesus enviou estes
Doze, com as seguintes recomendações: “Não deveis ir aonde moram os pagãos, nem
entrar nas cidades dos samaritanos! Ide, antes, às ovelhas perdidas da
casa de Israel! Em vosso caminho, anunciai: ‘O Reino dos Céus está próximo’. Curai
os doentes, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demônios.
De graça recebestes, de graça deveis dar!”
Ligue o vídeo abaixo e acompanhe e reflexão do Pe. Gustavo Sampaio, mss:
----
A compaixão como fonte do chamado
“Vendo Jesus as multidões, compadeceu-se delas...;
chamou os doze discípulos” (Mt 9,36)
Uma pessoa que se define tem força para despertar, para
arrastar, para mobilizar os outros. Jesus é o homem que se definiu. Por isso,
Ele nos inspira e nos impulsiona. Inspirar e impulsionar, impulsionar a partir
da inspiração: isso é seduzir no melhor sentido da palavra. Jesus não nos seduz
simplesmente para provar sua condição divina ou a veracidade de sua mensagem.
Ele nos seduz porque foi um homem de carne e osso como nós, e porque alcançou
um grau de humanidade, de compaixão e liberdade, de sensibilidade e
compromisso..., que está em nossas mãos alcançar.
A grande novidade e originalidade de Jesus (sua subversão)
começou em sua maneira de olhar a realidade e de deixar-se afetar por ela. A
“subversão” da vida começa pela subversão do olhar e vice-versa. O coração
sente de acordo com o que os olhos veem, mas os olhos veem de acordo com o que
sente o coração. A realidade subverte o olhar, e o olhar subverte a realidade.
Olhos que não veem, coração que não sente. Mas os olhos não veem quando o
coração não sente.
Os olhos de Jesus viram muita dor, miséria, violência..., e
suas entranhas se comoveram. Viu o seu povo despojado da terra, dos direitos
mais elementares... Jesus viu e se compadeceu; compadeceu-se e indignou-se;
indignou-se e se comprometeu na transformação daquela realidade dolente;
comprometeu-se porque seus olhos viram mais a fundo, mais além, outro mundo
possível. Na raiz de sua atividade terapêutica e inspirando toda sua atuação
junto aos enfermos está sempre seu amor compassivo. Jesus se aproxima dos que
sofrem, alivia sua dor, toca os leprosos, liberta os possuídos por espíritos
malignos, os resgata da marginalização e os devolve à convivência.
O que move a vida de Jesus é a compaixão e a compaixão é
expansiva, tem impacto profundo naqueles(as) que estão ao seu redor. Compaixão
desperta compaixão pois ela é mobilizadora dos sentimentos mais nobres
presentes no interior de cada um. No calor da compaixão ativada brota o chamado
de Jesus e a resposta dos seus(suas) seguidores(as). Sem compaixão, a resposta
ao chamado se esvazia, o serviço se burocratiza, o seguimento vira lei.
Jesus não nos chama para seguir uma religião, uma doutrina,
nem faz proselitismo... Ele desencadeia um movimento e nos convoca a segui-Lo,
ou seja, identificar-nos com Ele e com sua proposta de vida. O horizonte
do chamado e do envio não é outro que o compromisso em favor da vida e das
pessoas, frente àquelas forças que tendem a travar e danificar a mesma vida. A
partir desta perspectiva, a “missão” pode reencontrar seu verdadeiro sentido.
Enviados(as) em favor da Vida, seus(suas) seguidores(as) sabem muito bem qual é
o encargo que Jesus lhes confia. Nunca O viram governando a ninguém; sempre O
conheceram curando feridas, aliviando o sofrimento, regenerando vidas, destravando
os medos, contagiando confiança em Deus.
A novidade de Jesus consiste justamente em afirmar que
existe um caminho para encontrar a Deus que não passa pelo Templo, pela pompa
dos ritos e pela observância estrita das leis. Desse modo, reconhece-se a vida
como lugar privilegiado da Sua Presença.
O(a) seguidor(a) de Jesus não é aquele(a) que, por medo, se
distancia do mundo, mas é aquele(a) que, movido por uma radical compaixão,
desce ao coração da realidade em que se encontra, aí se encarna e aí revela os
traços da velada presença d’Aquele que é a Misericórdia.
É aqui, neste mundo, que Deus nos chama a estender o seu
Reinado, trabalhando cada dia como amigos(as) de Jesus que passam, se
compadecem, curam, ajudam, transformam, multiplicam os esforços humanos.
Apaixonados(as) por Deus, apaixonam-se pelo mundo que, em sua diversidade,
riqueza, profundidade, fragilidade, sabedoria... lhes fala e lhe revela o rosto
misericordioso do Deus que se humanizou para humanizar nossas vidas.
Jesus não fundou o clero nem quis instituir um corpo ou
estamento de “homens sagrados”, uma espécie de funcionários do templo,
constituindo-se numa “classe superior”. O que Jesus quis foi “discípulos/as”
que lhe “seguissem”, ou seja, que vivessem como Ele viveu: dedicados a curar
enfermidades, aliviar sofrimentos, acolher as pessoas mais perdidas e
extraviadas. Assim nasceu o “movimento de Jesus”.
Jesus, o “rosto misericordioso do Pai”, continua passando
diante de cada um de nós, parando e fazendo um chamado que desperta comoção e
compaixão. Sua presença provocativa e seu chamado exigente colocam em questão
nosso costume de nos refugiar no mundo asséptico das doutrinas, na
tranqüilidade de uma vida ordenada, satisfatória e entorpecida, na segurança de
horários imutáveis e de muros de proteção, longe do rumor da vida que luta para
ter um lugar ao sol, dos gritos daqueles que sofrem e morrem nas periferias
deste mundo.
Escutar e seguir Seu chamado implica abandonar a estreiteza
de nossos caminhos e deixar o nosso coração bater no ritmo dos doentes e
marginalizados, vítimas da desumanização de nossa sociedade. O importante não é
pôr em marcha novas atividades e estratégias, senão desprender-nos de costumes,
estruturas e dependências que estão nos impedindo ser livres para contagiar o
essencial do Evangelho, com verdade e simplicidade.
Como evitar que a aventura, na qual um dia nos embarcamos,
nascida de uma paixão pelo Senhor e pelo seu Reino, transforme-se num tedioso
cumprimento de normas e costumes? Estamos, talvez, experimentando a frustração
de não ter acertado na rota da busca da vida plena e transbordante na qual
quisemos investir as nossas melhores energias: sentimo-nos cansados(as) de
palavras sem significado e sentimos fome de proximidade, de presença, de
compromisso.
Como Igreja, nem sempre temos adotado o estilo itinerante
que Jesus propõe. Nosso caminhar torna-se lento e pesado; não acertamos o
passo para acompanhar a humanidade; não temos agilidade para deslocar-nos em
direção à margem sofredora; agarramos ao poder e às estruturas que tiram a
mobilidade; enredamos nos interesses que não coincidem com o Reinado de Deus.
Não estaremos desperdiçando as nossas forças para conservar
atitudes arcaicas e nos deliciamos com um estilo de vida que nos atrofia? Não
chegou, talvez, o momento de deixar de repetir aquilo que fazíamos antes, e de
abrir-nos àquilo que está diante de nós, à novidade que o Espírito está
criando?
Para Jesus, o ideal de sua mística é “viver com um pé
levantado”, isto é, sempre pronto para responder às oportunidades que são
oferecidas pela vida. O(a) seguidor(a) de Jesus vive a aventura enquanto
capacidade de estar “na frente” de situações desafiantes, superando o medo de
romper paradigmas, potencializando talentos e fomentando a criatividade... Tem
a ousadia de inovar, a coragem de arriscar e a vontade de realizar mudanças
importantes. Para isso é preciso despojar-nos de hábitos arraigados,
pré-juizos, ideias fixas, modos fechados de viver e abandonar a atitude do
“sempre fizemos assim”. Estes são os vícios que impedem uma resposta diferente
e sedutora num mundo em transformação.
A compaixão deve configurar tudo o que constitui nossa vida:
nossa maneira de olhar as pessoas e de ver o mundo; nossa maneira de nos
relacionar e de estar na sociedade, nossa maneira de entender e de viver a fé
cristã...
Texto bíblico: Mt 9,36-10,8
Na oração: Jesus, foi o homem que se definiu, tinha claro
qual era sua missão; por isso, nos apresenta uma causa muito nobre e, com seu
chamado, rompe nosso estreito mundo e desperta em nós ricas possibilidades,
reacende o que de mais nobre há em cada um(a) e amplia nosso horizonte de vida.
Seguir Jesus Cristo é aderir a Ele incondicionalmente, é
“entrar” no seu caminho, recriá-lo a cada momento e percorrê-lo até o fim. Seguir
é deixar-nos “configurar”, isto é, movimento pelo qual vamos sendo
modelados(as) à imagem de Jesus Cristo.
- Sua vivência do Seguimento de Jesus é marcada pelo “olhar
compassivo e comprometido” ou por práticas piedosas alienadas, que não o(a)
projetam em direção aos mais sofredores?