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sexta-feira, 14 de junho de 2019

UM FATO INESQUECÍVEL - Sherney Pereira


           Inácio Mendonça chegara para fixar residência no arraial: era um cidadão muito gentil, e de repente passaria a conquistar a amizade de todos. Figura por demais simpática, apesar de ser um sexagenário notava-se que era um homem saudável, e com muita disposição para o trabalho.

            Tinha por companheira dona Laura, uma senhora muito bonita, ainda no esplendor da sua juventude. Em companhia do casal, moravam duas lindas mocinhas: a mais nova chamava-se Ana e era filha do casal; Ângela, a mais velha, embora gozasse do mesmo carinho de Inácio, viera para sua companhia, ainda pequena. Ao chegar ao arraial, ele solicitou de Antônio de Arcanjo, um terreno para construir uma casa, no que foi prontamente atendido, pois o caboclo jamais negara um pedaço de terra alguém.

            Num curto espaço de tempo, construiu uma casa tipo chalé, onde passou a viver, na mais absoluta tranquilidade, com a sua família. Mais tarde, vendo que a tendência natural da fazenda era tornar-se um povoado, sentiu a necessidade de implantar um armazém de secos e molhados, que atenderia aos moradores do lugar, tirando-os do incômodo de terem que fazer as compras em Ilhéus ou Itabuna. Inácio logo modificou o aspecto da sua casa: abriu três   portas de frente, e fez dali um grande ponto comercial.  A partir daquele instante, estava surgindo a primeira casa de negócios na Fazenda Boa Vista, realmente uma grande iniciativa.

            Havíamos chegado naquela localidade, não fazia muito tempo. O meu pai logo tornou-se um dos seus assíduos fregueses, ganhou a credibilidade de Inácio, e passou a comprar fiado no seu armazém. Confesso, saudoso, que eu era fã incondicional do negociante: aos sábados íamos fazer as compras. Eu fazia questão de acompanhar o meu irmão mais velho, porque na verdade eu gostava do seu jeito simples e prestativo; admirava-o pelo zelo com que ele tratava os seus clientes. Havia outro detalhe que me empolgava: era quando ele pegava a sua pena para fazer as devidas anotações. Cidadão assaz instruído, sabia contar e escrever muito bem, o que me deixava boquiaberto pela habilidade com que o fazia, mergulhando intermitentemente a velha pena no tinteiro.

            Tenho certeza de que Inácio também gostava de mim, e digo isso porque, quando eu ia a sua venda, saía de lá com os bolsos cheios de caramelos. Inácio jamais mereceu ser traído, no entanto, qualquer descuido era fatal: eu roubava-lhe as bananas, para comê-las com farinha no caminho de casa, e por sorte minha ele nunca desconfiou. Se porventura ele descobrisse as minhas artimanhas, a nossa amizade estaria rompida para sempre. Seria uma calamidade.

              Vale registrar aqui um episódio, que, se não tem algo de fascinante, no entanto marcou bastante a vida pura e imaculada do arraial, porque esse fato, - para muitos desagradável, - envolveu a família de Inácio Mendonça.

                Lá prás bandas do Japu, - distrito de Ilhéus, - havia um pequeno fazendeiro por nome de José Laudelino. Um jovem simpático, bastante educado, e de família tradicional que, a exemplo de outros posseiros daquela região, escoava o produto da sua fazenda no lombo dos animais, passando pelo arraial da Fazenda Boa Vista. Na época das “cheias”, a coisa tornava-se mais difícil e penosa, poiso o Rio Cachoeira dificultava o comércio dos fazendeiros, e, consequentemente, afetava diretamente os moradores do Salobrinho, que ficavam impedidos de usarem a farinha de mandioca e congêneres. Inácio comprava a farinha e o cacau de José Laudelino, e foi através das negociações, que se tornaram grandes amigos. Tamanhas eram as afinidades, que o rapaz de já tinha acesso livre à sua residência e paralelamente gozava do prestígio e confiança da família. A cada dia que passava, o relacionamento aumentava: eis que num lampejo, o jovem percebera que estava apaixonado pela mulher do amigo e, para maior ilusão, viu também que estava sendo correspondido na sua paixão desenfreada.

            Os dias passavam, e Inácio continuava indiferente àquele romance, porque sempre acreditou na fidelidade da sua mulher e jamais passaria por sua cabeça que a companheira de tantos anos lhe trocasse por outro homem de uma hora para outra.  Um dia, porém, desconfiado do tratamento delicado e excessivo que Laura dedicava José Laudelino, Inácio pôs-se a duvidar da sua fidelidade. Entre ambos existiria mais do que uma simples amizade, pensou ...

            Assim, depois de uma meticulosa investigação, usando a todo momento a discrição que lhe era peculiar, ele chegou à conclusão de que já não mais havia motivos para duvidar de nada.

            Era uma manhã de sábado. Sob um sol escaldante, José Laudelino chegava do Japu, sem dar demonstrações, mas cheio de saudade da mulher amada. Estava cansado da longa viagem. Fatigado do sol verão, apeou do cavalo, e depois de atrelar os animais ao mourão, subiu célere as escadas do armazém. Sempre sorridente, foi logo saudando os fregueses que ali estavam, e penetrou no lar de Inácio. Com toda serenidade disponível, Inácio atendeu tranquilamente aos seus clientes e, em seguida, foi ter com o “galã”, que àquela altura encontrava-se confortavelmente sentado na sala de espera conversando com Laura.

            Inácio, calmamente, sentou-se ao lado de José Laudelino, passou a mão ainda suja de pó de farinha pelos cabelos e, dando um tapinha amistoso na nas costas do mancebo, disse taxativo: “Zé, sei que estás apaixonado... Farei o teu casamento com Laura”. Surpreso, ante a atitude inusitada do comerciante, Zé ficou estático, fingindo não haver entendido nada que ele dissera. Procurou controlar-se, porque devido ao susto, sentira que havia perdido a fala e, só depois de alguns instantes, quando reunira condições de se pronunciar, foi aproximando-se da porta que dava acesso à rua e, um tanto desconcertado, perguntou em tom desesperador:

            - O que está acontecendo, sêo Inácio? Está ficando maluco?

            - Calma, companheiro! - disse Inácio procurando tranquilizá-lo, - não tenha receio, pois não vejo nisto nenhum absurdo: já estou velho, e seria para mim a maior felicidade, esta união.

            Laudelino, visivelmente nervoso, respirou mais aliviado, e agora, tentando fugir do assunto, aproximou-se do balcão e, esboçando um sorriso sem graça, foi perguntando: quantos sacos de farinha vai querer, ‘sêo’ Inácio? Entendendo o embaraço do Zé, ante tal situação, o velho resolveu deixá-lo à vontade, porque tinha a certeza de que aquela história não terminaria ali.

            Não demorou muito para o dia do casamento. O povo do arraial, ao tomar conhecimento do fato, passou a lançar críticas das mais contundentes em forma de repúdio à atitude daquele homem, e até teciam comentários sobre o seu excesso de calma, e mormente a maneira com que aceitava tamanho escândalo. Ninguém aprovou o comportamento de Inácio, ao entregar, sem nenhuma repulsa, sem qualquer resquício de violência, a sua mulher a um aventureiro qualquer. Aquele era um caso inédito na vida pacata do Salobrinho, e representava um desrespeito, um ato sórdido e covarde para as famílias puritanas dali.

            Foi dessa maneira que Laura deixou a companhia do seu marido, sem constrangimento e sem remorso de ambas as partes. Ele aceitara tudo aquilo com a maior naturalidade, e depois de ter participado do casamento da sua própria mulher, passou a viver sozinho, lutando pela sobrevivência, como se nada tivesse acontecido. Acossado pela doença, viria a falecer, depois de muitos anos, num dos hospitais de Ilhéus. De qualquer forma, Inácio foi uma figura importantíssima no desenvolvimento do Salobrinho, por ter sido um dos seus fundadores. A ele rendamos póstumas homenagens, pelos relevantes serviços prestados à comunidade. Quanto à José Laudelino e dona Laura, eles formaram um casal muito feliz, e atualmente residem no mesmo distrito. A casa que outrora pertenceu a Inácio Mendonça, ainda existe, como reminiscência de um passado que já vai distante. Ressalte-se que esta casa sofreu grande reforma e está atualmente transformada numa moderna residência.

(SALOBRINHO – ENCANTOS E DESENCANTOS DE UM POVOADO)
Sherney Pereira
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Sherney de Souza Pereira nasceu a 11 de outubro de 1948 no eixo Ilhéus/Itabuna, mais precisamente no município de Ilhéus. É cordelista, com vários trabalhos publicados e autor do Hino da Universidade de Santa Cruz, premiado em concurso público por ocasião do 4º aniversário da FESPI.
          
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terça-feira, 19 de junho de 2018

A ILHA DE CÍCERO - Sherney Pereira


A ilha de Cícero


            Havia uma pequena ilha  no Rio Cachoeira, nas imediações do Salobrinho, e nela habitava um preto velho por nome de Cícero. Vivia ele na mais completa solidão, tendo apenas por companhia,  o canto dos pássaros e o ritmo das correntezas. Ali resolvera cultivar a terra fértil, plantando cana-de-açúcar, laranjeiras e abacateiros; somente ia ao povoado em caso de necessidade. Aos sábados fazia as suas compras e aproveitava para tomar alguns pileques, mas logo rumava para o seu cantinho, sempre preocupado com os vândalos, que normalmente invadiam o seu sítio para roubar.

            Muita gente temia o velho Cícero, pois se acreditava ser ele dotado de poderes sobrenaturais, e até havia quem o chamasse de feiticeiro, por causa das artimanhas que se ouvia contar a seu respeito.

            Realmente, não se sabe ao certo a respeito dos poderes mágicos daquele homem, entretanto vários fatos levaram o povo a acreditar na sua periculosidade, a exemplo da sua obstinada permanência na ilha, mesmo quando havia sérias ameaças de enchentes. Se alguém o advertia sobre as cheias ele retrucava ironicamente: “Não tenho medo, sei muito bem me defender”. Durante todo o tempo em que ali viveu alguém jamais testemunhou que ele abandonasse a sua ilha por causa das águas e, quando o Cachoeira amanhecia abarrotado, todos ironizavam: “Desta vez o velho Cícero foi pro inferno”. Quando o rio voltava ao seu curso normal, lá estava o velho são e salvo, cuidando normalmente das plantações, para a surpresa de todos.

            Os moradores mais antigos contam um episódio envolvendo Cícero e um pescador conhecido pela alcunha de “Pepita”. Como a ilha era cheia de uma variedade de árvores frutíferas, aquele lugar, efetivamente, consistia num convite irresistível aos olhos dos que por ali passavam. Apesar da rígida vigilância, os pescadores conseguiam burlar a atenção do velho, penetravam na chácara e roubavam as apetitosas laranjas, para em seguida saírem zombando, chamando-o de velho caduco.

            Foi assim que, numa certa manhã, o jovem pescador se encontrava pescando nas proximidades da ilha, talvez não resistindo à fome, invadiu os pertences de Cícero e dali levou algumas laranjas. Terminada a pescaria, o jovem ganhou o caminho de casa. Na estrada, porém, sentiu que algo estranho estava lhe acontecendo: uma sensação nervosa, aos poucos foi tomando conta do seu corpo, e a sua cabeça pôs-se a girar, a girar... Entrementes, um conhecido que também pescava por ali, o encontrou em estado lastimável. “Pepita” estava aluado: rodopiava, falava asneiras e cantava assim: “O batalhão tá me chamando/ estou aqui seu coroné”. O rapaz estava tresloucado, e muito lhe custou a recuperação. Cícero ficou sabendo do acontecido e sempre que ia ao povoado, comentava para os mais íntimos: “Bem feito!  Nunca mais ele terá a petulância de roubar as minhas laranjas”.

            O velho Cícero viveu por muitos anos naquela ilhota, “Ilha de Cícero”.


(SALOBRINHO - Encantos e Desencantos de um Povoado)
Sherney Pereira

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sexta-feira, 11 de maio de 2018

A PRIMEIRA TELEVISÃO – Sherney Pereira


                         
Na década de 70 ainda não havia energia elétrica no Salobrinho, e por ocasião da copa do Mundo, o povo dali se deslocava para Itabuna, a fim de assistir pela televisão, os jogos da Seleção Brasileira.

            Na partida decisiva, em que jogaram Brasil e Itália, o proprietário do bar da Estação Rodoviária, colocara um aparelho de TV, para que todos pudessem assistir ao jogo, e aí foi realmente uma festa. Com a vitória do Brasil, muita gente do arraial não conseguiu voltar para casa; uns, porque naquela confusão  terminaram perdendo o último transporte, e outros preferiram ficar lá mesmo, comemorando a vitória, no carnaval que se seguiu, e que varou noite adentro, sob o pipocar de fogos de artifícios e do barulho infernal das buzinas dos automóveis.

            Com o advento do sistema energético, o arraial tomou grande impulso, e as coisas foram melhorando acentuadamente. A primeira televisão que apareceu ali, era de propriedade de um rapaz que tinha o prenome  de Carlito. Há quem afirme que ele perdeu o sossego, depois que instalou o aparelho em sua casa. Quando aconteciam jogos de futebol, especialmente entre Flamengo e Vasco, sua residência superlotava de desportistas, que danavam a tecer comentários em torno do jogo, numa tremenda algazarra. Carlito persistia calado, e jamais reclamou, mesmo se sentindo prejudicado. Nada dizia porque, na maioria, todos eram seus amigos, e não gostaria de ser indelicado. 

            Tentando solucionar o impasse resolveu deixar de lado a amizade e passou a cobrar o ingresso, estipulando um precinho “camarada”. Quem quisesse assistir ao jogo teria que desembolsar a quantia de CR$10,00 (dez cruzeiros), sem direito a pechinchar. O dinheiro já não mais tinha valor, ante a paz e a tranquilidade perdidas, o que Carlito queria  mesmo, era se ver livre do assédio do povo. A sua jogada não surtiu o efeito esperado, porque aqueles mais fanáticos tomavam até dinheiro emprestado, faziam sacrifícios, porém jamais deixaram de assistir televisão na sua casa.

(Salobrinho - ENCANTOS E DESENCANTOS DE UM POVOADO)
Sherney Pereira

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quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

UM GRANDE IMPASSE - Sherney Pereira

Um grande Impasse

          Caminhava livre pelas ruas do arraial, uma vaca muito bonita, que atendia pelo nome de “Beleléu”.

            Era um animal arisco, de propriedade de Manoel Ramos, e andava pregando susto, dando carreira em quem encontrasse pela frente. Todos temiam aquela “fera”. As crianças saíam às ruas sob as recomendações dos pais: “Tenham cuidado com  Beleléu!” O povo vivia revoltado com aquela situação. Um dia, encetaram um movimento, que visava pedir a prisão da vaca.

            Homens, mulheres e criança, reuniram-se na casa de Manoel Ramos e fizeram ver a ele o quanto era prejudicial a permanência de “Beleléu” vagando solta no arraial. Haveria de se dar um jeito no problema, o que não podia continuar era aquele clima de pavor que se instalara ali, simplesmente por causa de uma vaca. Sentindo-se pressionado, Manoel Ramos caçou a cabeça e diante do povo fez o seguinte juramento:

           - Calma, minha gente! Eu exijo apenas que vocês me deem um tempo, para que eu providencie um lugar onde prender minha vaquinha. Dentro de vinte e quatro horas, todos estarão livres da Beleléu. Eu prometo.

            Agora, sozinho, Manoel Ramos se pôs a matutar, procurando uma solução. A quem recorrer? Eis que de repente, lembrou-se do seu compadre Valmir Félix, um dos filhos de Manoel Félix Cardoso, somente ele poderia solucionar o problema, aceitando “Beleléu” na sua propriedade. Tudo foi feito conforme Manoel  pensou. Foi ter com o compadre que o autorizou  colocar a vaca junto ao seu gado. Tudo voltou ao normal, o povo passou a ter tranquilidade, Manoel Ramos também se viu livre da pressão popular e,  melhor para Beleléu, que agora tinha outras condições de vida, na pastagem verdejante de Valmir Félix.

            Naquela ocasião, eu e meu irmão Alfredo, que morreria afogado aos vinte anos de idade, no Rio Cachoeira, estudávamos na Escola Aloísio de Carvalho, em terras de Manoel Félix  Cardoso.

            Um dia, eu tive que ir sozinho à escola, porque o meu irmão estava doente. O dia amanhecera muito lindo, e o sol matinal rutilava pelas castanheiras. Peguei os livros e segui rumo à escola, temendo tão somente o encontro com Beleléu: eram exatamente sete horas da manhã, e ao abrir a cancela que dava acesso à fazenda, logo vi que eu seria o primeiro aluno a chegar, mas pude ver, também, que o meu caminho estava obstruído pelo gado que se concentrava no meio da estrada.

            Um pouco mais distante estava a vaca de Manoel Ramos, vigilante, pois havia dado cria a um lindo bezerro. E agora, o que fazer? Retornar para casa, ou aguardar que o gado se dispersasse? Eu teria que encontrar uma solução, pois passar por ali era impossível, seria realmente uma grande aventura.

            Estava eu absorto nos meus pensamentos quando, de súbito,  surgiu de dentro do mata uma figura esquálida, portando um estilingue, pendurado no pescoço, e uma capanga do lado. Era meu compadre Valdir – compadre de fogueira  -, pelo qual, ainda hoje, tenho profunda  admiração. Ele se aproximou de mim e, ao perceber a minha preocupação, foi logo indagando:

            - O que é que há, compadre; algum problema? Compadre, já faz quase meia hora que estou aqui, esperando que o gado saia da estrada para que eu possa passar. E o pior de tudo, é que o diabo da Beleléu está parida, e deve estar virado no demônio!

            - “Mas que bobagem, meu compadre! -  disse-me ele – já viu homem ter medo de vaca? Venha comigo...” Com uma pedra na mão, ele seguiu na frente, e eu o acompanhava um tanto desconfiado, morrendo de medo,  tinha certeza da grande carreira que íamos levar. Ao aproximar-nos, o gado levantou-se e “Beleléu”, que já estava de prontidão, ergueu o rabo, baixou a cabeça,  e investiu com fúria demoníaca, querendo acabar com a gente. Eu, que me mantinha à distância, saí em desabalada carreira e, em poucos segundos, pude alcançar a cerca, preferindo trepar na cancela para maior segurança. Quando corri,  ouvi um estalo seco, e fiquei mais apavorado, ao imaginar que “Beleléu” tivesse quebrando os ossos do meu compadre. Enganei-me, porque foi tudo  ao contrário: Valdir havia arremessado uma pedra certeira,  e tal foi o ímpeto com que o fizera,  que a vaca não conseguira o seu intento, pois ficara com a perna balançando no ar.

            Ainda trêmulo, desci da cancela e fui procurar os livros que haviam caído durante a carreira. Enquanto os procurava, ouvia as lamentações do “super-homem”. Olhei nos seus olhos, vi que as lágrimas escorriam pela face pálida do magricela, enquanto fazia um apelo patético:

            - “Pelo amor de Deus, meu compadre! Ninguém pode saber do acontecido. Se os meus pais souberem  de uma desgraça dessas, eles me matam”.

            Prometi não revelar  nada para ninguém, pois, apesar de ter repudiado o comportamento perverso do meu compadre, também fui capaz de reconhecer que ele agira daquela maneira na tentativa de proteger-me.

            No dia seguinte, a confusão estava generalizada. Manoel Ramos, ao tomar conhecimento do incidente, ficou indignado, e logo atribuiu a culpa  a Valmir Félix; foi à sua casa e deu-lhe uma xingadela, exigindo indenização, sob a alegação de que ele quebrara a perna da sua vaca, ao tentar ordenhá-la.

            Originou-se uma grande confusão. Manoel Ramos e Valmir Félix ficaram inimigos por muitos anos. Com a perna quebrada e ainda amamentando, Beleléu foi aos poucos perdendo a beleza de vaca saudável que era, e Manoel Ramos, desgostoso,  resolveu vendê-la  a Zé Barcaceiro que ainda a aproveitou para o abate.

            Assim, desaparecia para sempre a vaca mais famosa que já “pintou” na história do Salobrinho. Houve quem gostasse do
seu desaparecimento, pois com a sua morte, acabaria de uma vez por todas o  pavor daquela gente, que muitas vezes ficara impossibilitada  de andar nas ruas.

            Manoel Ramos, depois deste episódio, ainda viveu muitos anos no Salobrinho. Fez as pazes com Valmir Félix, nunca mais teve dúvidas quanto à culpa do compadre no caso “Beleléu”, e morreu tendo a certeza de que foi ele o responsável  direto por tão grande prejuízo.../

 (Salobrinho - ENCANTOS E DESENCANTOS DE UM POVOADO)
Sherney Pereira

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segunda-feira, 19 de junho de 2017

UM ARRAIAL ALEGRE – Sherney Pereira


Um Arraial Alegre


            O arraial do Salobrinho era realmente um lugar assaz divertido. O seu povo era alegre e folgazão, tendo na expressão a singeleza das coisas imaculadas. Tudo ali estava bem, e as pessoas viviam individualmente, livres do fantasma do medo, da inveja e da arrogância. Ninguém criticava, discriminações não havia, tudo era belo e risonho.

            Havia brincadeiras das mais variadas, sem agressões e desprovidas da maldade. A alegria de viver era a tônica principal, e as festas tradicionais eram comemoradas com mais vida, mais calor e mais entusiasmo, a exemplo dos ternos-de-reis, promovidos por Dona Pureza, uma sergipana muito alegre e descontraída. Havia os ensaios, os preparativos para que tudo ficasse direitinho e, no dia de santos reis, lá estava Dona Pureza e família arrastando a multidão às ruas.

           Quantas recordações das festas juninas! Fogueiras enormes crepitavam por toda a noite, iluminando as ruas escuras do arraial, além dos balões que coloriam o céu ante os olhares fascinados das crianças.

            No período carnavalesco, cordões e batucadas tomavam conta do lugar. Blocos disputavam entre si o primeiro lugar, porque cada qual queria melhor mostrar o seu trabalho, por isso havia sempre algumas brigas sem maiores consequências. Certa ocasião, o encontro de dois blocos, na Rua do Zinco, redundou numa grande confusão. As porta -bandeiras  aproveitaram o ensejo para extravasarem uma antiga rixa. Nunca vi tamanha balbúrdia... E o saldo daquela parafernália foi muita gente com a cara quebrada, pois a briga envolveu quase todos os foliões.

            Os blocos pertenciam a Amândio Arouca e a Dona Dudu. Apesar dos incidentes desagradáveis que às vezes aconteciam, tudo era considerado como natural, porque só se verificavam estas coisas em épocas festivas, assim mesmo quando alguém se excedia na bebida, para provocar desordens. No mais, tudo transcorria normalmente, sem nenhum problema. As festas natalinas eram promovidas com muito esmero e cuidado: ao longo das pracinhas, viam-se dezenas de barracas, que vendiam adereços, bolas de soprar e uma variedade de brinquedos, enquanto outras sorteavam objetos domésticos.

            No ar, uma música lenta se fazia ouvir... Era o serviço de alto-falante “A Voz do Salobrinho” que, sob o comando do Mestre Leal , tocava uma música suave  do Natal e anunciava aos quatro ventos, convidando o povo para a missa do galo. Aquele serviço de comunicação foi um marco importantíssimo na história do Salobrinho. Através dele, conseguiram-se inúmeros benefícios em prol da comunidade.

            No que se refere às datas comemorativas, creio que foi válida  a nossa modesta participação, porque muitas vezes promovemos festinhas alusivas aos dias das mães, das crianças e dos namorados. Em frente ao Grupo Escolar Herval Soledade, alegrávamos as crianças do arraial com programas de calouros, à proporção em que distribuíamos presentes para a meninada.

            O anoitecer ali era sereno e mais bonito, porque através do serviço de alto-falante , podíamos retransmitir A VOZ MARIANA, um programa religioso que havia na Rádio difusora Sul da Bahia, da cidade de Itabuna e que era levado ao ar todos os dias às dezoito horas. Aos domingos, moças e rapazes solicitavam músicas apaixonadas; quando havia aniversários, casamentos, batizados, aumentavam os pedidos musicais, que deixavam o Salobrinho embevecido.

(SALOBRINHO - ENCANTOS E DESENCANTOS DE UM POVOADO)

Sherney Pereira

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terça-feira, 2 de maio de 2017

DE ARRAIAL A POVOADO - Sherney Pereira


De arraial a povoado


            A exemplo de Irineu Mendonça, outras pessoas instalaram-se na Fazenda Boa Vista, desbravando o matagal ali existente. Eram capoeiras habitadas por grandes quantidades de animais silvestres tais como: capivara, preá, raposa, sariguê, preguiça, papa-mel, ouriço caixeiro, guaxinin e algumas espécies de macacos, guariba, sagui e jupará.

            Aquela gente simples caminhava pelas matas através de caminhos estreitos, ou simplesmente veredas abertas pelas formigas-de-mandioca. Havia enormes formigueiros, que consistiam em sérios problemas para os horticultores, que desesperadamente lutavam para exterminá-los e defender as suas plantações das insaciáveis formigas.

            Em 1927, construía-se a estrada de rodagem, interligando Ilhéus e Itabuna. A rodagem passava no centro da fazenda e, vinte anos depois, ela viria a sofrer grande reforma. Não temos certeza se a reforma foi geral, porém, no eixo Ilhéus-Itabuna houve correções, talvez por a estrada apresentar-se cheia de defeitos topográficos, com curvas em excesso, bastante acidentada. Pode parecer estranho, mas esta reforma muito contribuiu para que, no futuro, surgisse na Fazenda mais uma ruazinha, que o povo passou a chamar de “Rodagem Velha”.

            Naquela rua residiram pessoas que hoje talvez já nem mais existam. Lembro-me, por exemplo, de um velho sapateiro que se chamava Rosalvo. A sua casinha ficava tão escondida, em meio às plantações, que era quase impossível vê-la à distância. Era mestre Rosalvo quem confeccionava calçados para o povo dali. O meu pai encomendava-lhe botinas para toda a família e, em dias de festa saíamos às ruas, vaidosos, ostentando as botinas rangideiras que, para nós, eram calçados de primeira qualidade.

            O primeiro açougue no Salobrinho, foi implantado por Ascendino. Ele tinha quatro filhas lindíssimas, de olhos verdes, e morou no arraial por pouco tempo, exercendo o ofício de magarefe, para depois partir, tomando rumo ignorado.

            Apesar das pessoas acreditarem no desenvolvimento do arraial, explorando diversos tipos de negócios, o lugar ainda dormia um sono profundo. As crianças cresciam sem escolas e sendo os pais, na sua maioria analfabeta, não reuniam condições de ensinar pelo menos as primeiras letras aos seus filhos. Então a criançada ficava tão somente restrita às peladas e aos banhos contínuos, nas águas do Rio Cachoeira, que, ainda hoje continua sendo uma das principais áreas de lazer.

            Em 1963, no governo do prefeito Herval Soledade, o Salobrinho viu nascer o seu Grupo Escolar. Em seguida, também chegava  o MOBRAL, Movimento Brasileiro de Alfabetização, cuja escola passou a funcionar à noite, no salão do “clube”, ao lado da Igreja Católica.

            A CEPLAC teve um papel relevante no impulso do Salobrinho, no que se refere à área social. Aquela gente que vivia sofrendo, trabalhando em roças particulares, pessoas que aventuravam a vida pescando no rio, apegaram-se a ela e, hoje, muitos são funcionários gabaritados daquele importante órgão, onde gozam de todos os direitos a que fazem jus.

            A CEPLAC foi, certamente, a mola propulsora que veio garantir a sobrevivência de centenas de pais de família que, outrora viviam naquele povoado, sem ter de onde tirar o indispensável para a vida. O homem do campo nela encontrou o reconhecimento da importância do seu trabalho. Com o seu advento, um outro grande acontecimento selava a felicidade dos moradores: era a aura branda da cultura que soprava na sua direção. Estava se concretizando a maior aspiração da Região Cacaueira, estava nascendo a Universidade de Santa Cruz, instituída de acordo com o Artigo nº 8, da Lei 5.540.

            Portanto, nas propriedades de Manoel Fontes Nabuco, divisando com o Salobrinho, foi colocada a pedra fundamental que daria origem à FESPI, Federação das Escolas Superiores de Ilhéus e Itabuna. Havia a necessidade de se adquirir mais espaço para o campus universitário e, no ensejo, a CEPLAC procurou os herdeiros, a fim de propor-lhes a desapropriação de 10 ha. de terra. A CEPLAC construiria catorze casas dentro do povoado, além da indenização dos moradores da Rua da Mangueira, que optaram também pela construção de casas, numa área que o próprio órgão beneficiaria.

            A Rua da Mangueira era arborizada. Havia nela pouquíssimas casas, na maioria casinhas toscas, cobertas de zinco e em ruínas, porque os seus proprietários não tinham recursos para repará-las. Houve o seu desaparecimento. Das suas cinzas, ergue-se, imponente e majestosa, a UNIVERSIDADE DE SANTA CRUZ, para a glória de toda a Região do Cacau.  

            Em 1974, dava-se início a uma importante obra, que iria beneficiar cerca de duas mil pessoas. Um convênio firmado entre a CEPLAC, Secretaria da Saúde e Prefeitura Municipal de Ilhéus, implantaria o Sistema de abastecimento d’água, levando o precioso líquido a todos os lares do povoado. O complexo hidráulico consistia de um poço perfurado, uma casa de bomba com conjunto elevatório, motor elétrico, reservatório de capacidade de quinze mil litros e quatro chafarizes. Este investimento custaria ao convênio o montante de CR$16.182,67, cabendo à Prefeitura a importância de CR$14.500,86.

            Recentemente, um novo convênio, firmado entre o FSESP e a Prefeitura Municipal de Ilhéus, recuperou e ampliou aquele sistema, porque já não mais atendia aos reclamos do povo. Foi construído um novo reservatório no topo da Rua do Ouro, com capacidade para abastecer todo o povoado.

            O Salobrinho, atualmente, conta com um número de oitocentas casas, e o seu índice demográfico já atinge a casa de quatro mil habitantes. Na área de Educação, está relativamente bem servido, pois conta com sete escolas, além da extensão do 1º grau, níveis II e III, do Instituto Municipal de Educação de Ilhéus, o qual funciona nas dependências da Universidade de Santa Cruz, num convênio firmado entre a FESPI e a Prefeitura de Ilhéus, respectivamente. Este convênio veio, efetivamente, beneficiar os estudantes do Salobrinho, Banco da Vitória e adjacências.

            Existem no povoado setenta e quatro casas comerciais, sendo que 70% são botequins improvisados, de onde os pequenos comerciantes retiram o sustento para a sua sobrevivência, vendendo cachaça, cigarros, balas e congêneres. O aspecto urbano é por demais desolador, deixando muito a desejar. O crescimento demográfico trouxe sérios transtornos porque, à proporção que aumenta o índice populacional, agrava-se o problema sanitário, deixando os seus habitantes desassistidos. A inexistência de rede de esgotos, água tratada e posto médico constitui numa ameaça constante, um verdadeiro atentado à saúde pública. As crianças – as que conseguem sobreviver – são doentes, indispostas e crescem debilitadas, sem nenhuma motivação para enfrentar a realidade da vida lá fora. Os casos de verminose são uma constante, porque os esgotos ali correm a céu aberto, pelo meio das ruas, invadindo as residências.

            Contudo, apesar da vida sofrida e subumana que levam os moradores do Salobrinho, em termos de assistência social, pode-se ver no semblante de cada um, o desejo e a esperança de que, um dia, seja a curto ou a longo prazo, tudo ali se transforme e que, de Fazenda Boa Vista, passe a ser um grande povoado, uma Vila Universitária, digna de acolher satisfatoriamente, os estudantes de nível superior, que para ali convergem, procedentes dos municípios da Região Cacaueira, com o objetivo único e exclusivo de tornarem mais fácil o acesso à cultura.

 (SALOBRINHO – ENCANTOS E DESENCANTOS DE UM POVOADO - 1984)
Sherney Pereira

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            "Li, com interesse o livro de Sherney – Salobrinho – Encantos e desencantos de um Povoado, por sua riqueza de carinho com o tempo, esse relicário inesgotável. Como é bom existirem desses garimpeiros fascinados, que desenterram da ganga do passado a gema da história. Que surjam outros para relatar o que sabem ou sentiram desde o surgimento de seus bairros: Pontal, Malhado, Outeiro, e mais. E que o façam como Sherney: sem olvidar a linha sentimental. O mal da vida não é passar, mas esquecer".

 Dorival de Freitas


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segunda-feira, 13 de março de 2017

OS VELÓRIOS DO POVOADO – Sherney Pereira

Os velórios do povoado

            Os velórios no Salobrinho sempre foram ambientes de algazarra e confusão, especialmente quando se tratava do falecimento de pessoas humildes. Logo a notícia corria levando pesar aos mais sensíveis e contentamento a outros, que encaravam o episódio com naturalidade, porque viam naquilo uma opção para uma noitada alegre, já que a presença de contadores de lorotas era certeza.

            Ao anoitecer, as pessoas iam chegando, e as mais curiosas se aproximavam do ataúde com certa inibição, suspendiam timidamente o lençol que envolvia o corpo, olhavam rapidamente a cara do finado, e ficavam por ali aguardando a chegada dos potoqueiros. Os homens, notadamente ficavam no terreiro e se acomodavam em qualquer lugar. As mulheres, na cozinha, preparavam o café que normalmente era servido com bolacha; os fiéis à cachaça preferiam tomar repetidas doses de aguardente, que servia de estímulo para abrir o repertório de piadas, e as mulheres rezadeiras, quando ficavam desinibidas, danavam-se a cantar benditos em sufrágio da alma do defunto, num canto triste, que ressoava como um agouro por todo o povoado e, varando madrugada a dentro ia até à manhã.

            Os inveterados se realizavam: eram atraídos aos velórios mais pela certeza de que não faltaria cachaça, que propriamente por solidariedade e os mais assíduos frequentadores eram: João Paulo, Mestre Vitorino, Manoel Crispim, Pedro Lagoa, Eugênio, José Pinto, Gaudêncio – este era pedinte, e “trabalhava” em Itabuna - , Pedro Pôia, Raimundo Francisco da Hora (Cardeal), o último morreu na mais completa miséria há pouco tempo. Eram tantos, que relacioná-los seria impossível.

            Em relação aos contadores de estórias, podemos citar aqui dois nomes célebres na matéria: João Paulo e Alberto. Foi justamente num velório, que ouvimos de Alberto, sertanejo destemido, uma série de casos engraçados, e o mais interessante é que ele os contava com uma seriedade incrível que realmente pareciam verdadeiros.

            “Foi lá pras bandas de Xique-Xique”, assim começava a sua estória... Contou-nos que um certo dia, ao cair da tarde, deixou o acampamento e, pegando a sua espingarda, saiu para uma rápida caçada. Penetrou a caatinga a procura de uma caça qualquer porém sem lograr êxito, resolveu retornar; eis que de repente uma musiquinha suave soou aos seus ouvidos. Parou... Estava surpreso com o que ouvia. Olhando para os lados não viu nenhum sinal de presença humana: como explicar tal fenômeno? Por ali não havia nada que comprovasse existência de aparelho sonoro. Alberto, ficava cada vez mais estarrecido, todavia procurou certificar-se de que realmente não estava delirando e calmamente foi andando em direção a um mandacaru que ficava perto dali. O vento forte quebrava a quietude com  o farfalhar dos arbustos tostados pelo sol. O caçador estranhando aqueles acordes, aos poucos,  foi se aproximando da árvore e aí sentiu que a música ficava cada vez mais audível e, ao olhar para o alto, viu, com surpresa, que tratava-se de um antigo LP, rotação 78, preso entre os galhos do velho mandacaru. Segundo Alberto, à proporção que o vento balançava o arbusto, o espinho corria suave nos sulcos do disco, emitindo baixinho uma velha e conhecida canção: “olê mulher rendeira/olê mulher rendá/tu me ensina a fazer renda/ que eu te ensino a namorar”. Assim era demais. Não havia quem não sorrisse ante tamanho absurdo: até mesmo os parentes do falecido, por um momento esqueciam o dissabor, pois quando davam conta de si, estavam também, participando do festival de gargalhadas. Menos “sêo” Alberto, que acendendo mais um cigarro já se preparava  para dar início a mais um potoca. Na verdade, eram realmente assim os velórios do povoado.

(Salobrinho – ENCANTOS E DESENCANTOS DE UM POVOADO)
Sherney Pereira

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Sherney de Souza Pereira - nasceu a 11 de outubro de 1948 no eixo Ilhéus/Itabuna, mais precisamente no município de Ilhéus.

É cordelista, com vários trabalhos publicados e autor do Hino da Universidade de Santa Cruz, premiado em concurso público por ocasião do 4º aniversário da FESPI.

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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

A FAZENDA BOA VISTA – Sherney Pereira


A Fazenda Boa Vista


            Uma velha barcaça perdida no meio do mato, e algumas casinhas feitas de sopapo. Era tudo o que havia na Fazenda Boa Vista, hoje Salobrinho. Nos idos de 1952 era quase que impossível notar-se a existência de casas naquela localidade, até que a “descoberta” de uma suposta jazida veio despertá-la de um sono letárgico, porque com aquele evento outras casas foram surgindo e espalhando-se em meio ao matagal.
           
            Tal episódio contribuiu efetivamente para atrair centenas de retirantes que, ao tomarem conhecimento do “minério”, passaram a procurar aquela fazenda em busca  de trabalho.

           Trataremos inicialmente de JOÃO FRANCISCO DE CARVALHO, ele que fora o proprietário daquela fazenda.  Dele, sabemos muito pouco, porque quando ali chegamos, já o encontramos velho e debilitado, morando inclusive numa casinha singela, localizada à margem da rodagem. Lembro-me que, certo dia, fomos informados de que ele se encontrava enfermo. Fomos visitá-lo, e lá o encontramos cercado de amigos e parentes. Naquela época, eu devia contar apenas com seis anos de idade, mas não esqueci um só detalhe da visita, e confesso que aquela foi a única, e a derradeira vez que tive a oportunidade de vê-lo, porque logo depois ele viria a falecer, deixando órfãos seis filhos.

            Não chegamos a conhecer  a sua esposa, sabemos apenas que se chamava Sabina, e que era uma cabocla de coração generoso. Como legítimos herdeiros do espólio, ficaram os filhos que se dividiam  entre três homens e três mulheres: Antônio, Domingos,  Firmino, Maria, Albertina e Vitória.

            Antônio, por ser o mais velho passou a gerir os destinos da Fazenda Boa Vista. Ressalte-se que, Salobrinho mesmo, era a fazenda de Manoel Félix Cardoso, cuja propriedade divisava com terras de João Francisco de Carvalho.


(Salobrinho - ENCANTOS E DESENCANTOS DE UM POVOADO)
Sherney Pereira

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PREFÁCIO

            Sherney de Souza Pereira é hoje conhecido em toda a Região Cacaueira em consequência de várias obras publicadas ligadas à literatura de Cordel. É trovador que pertence àquela plêiade dos chamados repentistas que recebem inspiração das musas e não está entre aqueles poetas que “vivem beliscando no tinteiro para um soneto compor”, como diria Catulo da Paixão Cearense.

            Sherney é homem simples e pai de família extremoso. Nasceu à sombra dos cacaueiros, ouvindo o crepitar das águas do Rio Cachoeira no contato constante com as pedras existentes no seu leito. Ali, na periferia do Salobrinho, ele aprendeu a cantar, na sua lira, o amor, a ternura e as belezas naturais.

            “SALOBRINHO – ENCANTOS E DESENCANTOS DE UM POVOADO” é livro que se lê com agrado pela simplicidade do estilo e com grande proveito pelas qualidades de excelente narrador que o escritor ostenta. Narrações repletas de sentimentalismo telúrico que resplende aquela visão amorosa do mundo, típica dos pequenos núcleos comunitários.

            O trabalho de Sherney não é simplesmente obra de improvisação; é trabalho de pesquisa, de diálogo constante com antigos habitantes daquela parte do Chão de Cacau. É a primeira obra específica sobre Salobrinho, recanto pitoresco que abriga, atualmente a Universidade de Santa Cruz. Naquele lugar, a Região erigiu o farol da sabedoria, fadado a iluminar a grande cultura que se forja no Sul da Bahia.

            O autor é autodidata. Não teve a oportunidade de  frequentar a Universidade que ele assistiu germinar na terra onde sempre viveu. Ele é, antes de tudo, povo. A sua obra reflete o pensamento e a vivência popular. Os diversos acontecimentos descritos falam da vida da comunidade ribeirinha, dos seus encantos,  das suas tragédias e da pureza dos seus filhos.

            Trata-se, de fato, de um Trabalho fascinante.

Prof. Arléo Barbosa

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