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terça-feira, 25 de abril de 2017

MISTÉRIOS DE CURITIBA - Merval Pereira


Mistérios de Curitiba


O possível adiamento do depoimento de Lula ao Juiz Sérgio Moro decorre do receio de manifestações populares em Curitiba ou sinaliza que Lula pode ser preso a qualquer momento? A Polícia Federal pediu esse adiamento por que, como alega oficialmente, quer mais tempo para organizar o esquema de segurança na cidade, ou está juntando mais provas contra o ex-presidente? Foi uma vitória de Lula? Foi uma demonstração de medo de Moro?

Nenhuma explicação oficial faz sentido. Desde março a data está marcada, e os organismos de segurança tiveram tempo suficiente para organizar seus esquemas preventivos. Se foram surpreendidos com uma movimentação acima do normal dos militantes petistas, serviços de informação e segurança não são.

Difícil entender a comemoração dos petistas e aliados, pois a situação de Lula fica cada vez mais fragilizada a cada depoimento, como os de João Santana e Monica Moura dados ontem no processo do Tribunal Superior Eleitoral, ou do próprio ex-presidente da OAS Léo Pinheiro, que demonstrou uma intimidade com Lula e sua família que não pode ser negada, pois quando foi levado coercitivamente para depor, o próprio ex-presidente admitiu que era amigo de Léo Pinheiro.

Evidentemente são ex-amigos agora, mas Lula procura atenuantes para as acusações, alegando que o ex-presidente da OAS as fazia por que está negociando uma delação premiada. Claro que com isso procura também deslegitimar as palavras de Léo Pinheiro, mas as evidências são muitas.

A possibilidade de Lula vir a ser preso nos próximos dias existe, diante da denúncia de que ele orientou seu amigo a destruir qualquer prova que ligasse o pagamento de propinas ao triplex do Guarujá. Aconteceu assim com o ex-senador Delcídio do Amaral, diante de uma gravação explosiva em que relatava as manobras para impedir que Nestor Cerveró denunciasse Lula.

O fator surpresa, naquela ocasião, foi fundamental para que o Senado aprovasse sua prisão. Já no depoimento de Léo Pinheiro, a divulgação do vídeo tirou o impacto da revelação, feita diante de advogados diversos e procuradores do Ministério Público. Creio que só se surgirem novas provas – será isso que a Polícia Federal busca? – se justificaria a prisão de Lula neste momento.

Assim como não acredito que o Juiz Sérgio Moro esteja preparando a prisão do ex-presidente para o dia do depoimento, a não ser que Lula perca o controle e afronte sua autoridade, no que também não acredito. Seria uma atitude irresponsável que não o ajudaria em nada, ao contrário.

O comportamento da defesa do ex-presidente é muito próximo, em diversas ocasiões, de uma afronta à autoridade do Juiz Sérgio Moro, que tem conseguido se manter frio diante das provocações. Fazer a mesma pergunta diversas vezes, de maneira diferente, é costumeira forma de a defesa tentar protelar a decisão final.

Arrolar 87 testemunhas de defesa é claramente um desafio e outra tentativa de ganhar tempo, e Moro caiu na esparrela ao exigir a presença de Lula em cada um dos interrogatórios. Nada indica que tenha poder para tal, e a única coisa que conseguiu foi mostrar a motivação protelatória da defesa, mas deu margem a que fosse acusado mais uma vez de perseguidor de Lula.

Para o ex-presidente, o melhor cenário é ser condenado em segunda instância a tempo de ser impedido de concorrer às eleições de 2018. Posaria de vítima e não correria o risco de ser derrotado. Ninguém leva a sério a pesquisa da CUT/Vox Populi que indica Lula como vencedor do primeiro turno. É só uma pressão política contra sua prisão.

Mesmo que fosse correta, é preciso ser muito ingênuo para acreditar que Lula, com todas essas acusações, especialmente depois das delações dos executivos da Odebrecht, conseguirá manter essa pretensa popularidade numa campanha presidencial acirrada como a que se aproxima. 

O que é grave é esse ambiente de confronto que está sendo armado para o dia do interrogatório. Afinal, Lula é intocável? Está acima das leis?  

O Globo, 25/04/2017




Merval Pereira - Oitavo ocupante da cadeira nº 31 da ABL, eleito em 2 de junho de 2011, na sucessão de Moacyr Scliar, falecido em 27 de fevereiro de 2011, foi recebido em 23 de setembro de 2011, pelo Acadêmico Eduardo Portella.

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AI DE TI, BRASIL – Arnaldo Jabor

Depois deste texto Arnaldo Jabor não precisa escrever mais nada. Se eu fosse ele, jamais redigiria qualquer coisa - este seria o texto definitivo.
Ao término da leitura, não se acanhem. Levantem-se de onde estejam e, de pé, aplaudam sem constrangimentos. Tenho a certeza de que o que foi escrito é tudo aquilo que gostaríamos de dizer em rede nacional.

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AI DE TI, BRASIL 


Ai de ti, Brasil, eu te mandei o sinal, e não recebeste. Eu te avisei e me ignoraste, displicente e conivente com teus malfeitos e erros. Ai de ti, eu te analisei com fervor romântico durante os últimos 20 anos, e riste de mim.

 
Ai de ti, Brasil! Eu já vejo os sinais de tua perdição nos albores de uma tragédia anunciada para o presente do século XXI, que não terá mais futuro.

 
Ai de ti, Brasil – já vejo também as sarças de fogo onde queimarás para sempre! Ai de ti, Brasil, que não fizeste reforma alguma e que deixaste os corruptos usarem a democracia para destruí-la. Malditos os laranjas e as firmas sem porta.

Ai de ti, Miami, para onde fogem os ladrões que nadam em vossas piscinas em forma de vagina e corcoveiam em “jet skis”, gargalhando de impunidade. Malditas as bermudas cor-de-rosa, barrigas arrogantes e carrões que valem o preço de uma escola. Maldita a cabeleira do Renan, os olhos cobiçosos de Cunha, malditos vós que ostentais cabelos acaju, gravatas de bolinhas e jaquetões cobertos de teflon, onde nada cola. Por que rezais em vossos templos, fariseus de Brasília? Acaso eu não conheço a multidão de vossos pecados?

Ai de vós, celebridades cafajestes, que viveis como se estivésseis na Corte de Luís XIV, entre bolsas Chanel, gargantilhas de pérola, tapetes de zebra e elefantes de prata. Portais em vosso peito diamantes em que se coagularam as lágrimas de mil meninas miseráveis. Ai de vós, pois os miseráveis se desentocarão, e seus trapos vão brilhar mais que vossos Rolex de ouro. Ai de ti, cascata de camarões!

Tu não viste o sinal, Brasil. Estás perdido e cego no meio da iniquidade dos partidos que te assolam e que contemplas com medo e tolerância?

Cingiram tua fronte com uma coroa de mentiras, e deste risadas ébrias e vãs no seio do Planalto. Ai de vós, intelectuais, porque tudo sabeis e nada denunciais, por medo ou vaidade. Ai de vós, acadêmicos que quereis manter a miséria “in vitro” para legitimar vossas teorias. Ai de vós, “bolivarianos” de galinheiro, que financiais países escrotos com juros baixos, mesmo sem grana para financiar reformas estruturais aqui dentro. Ai de ti, Brasil, porque os que se diziam a favor da moralidade desmancham hoje as tuas instituições, diante de nossos olhos impotentes. Ai de ti, que toleraste uma velha esquerda travestida de moderna. Malditos sejais, radicais de cervejaria, de enfermaria e de estrebaria – os bêbados, os loucos e os burros –, que vos queixais do país e tomais vossos chopinhos com “boa consciência”. Ai de vós, “amantes do povo” – malditos os que usam esse falso “amor” para justificar suas apropriações indébitas e seus desfalques “revolucionários”.

Ai de vós, que dizeis que nada vistes e nada sabeis, com os crimes explodindo em vossas caras.

Ai de ti, que ignoraste meus sinais de perigo e só agora descobriste que há cartéis de empresas que predam o dinheiro público, com a conivência do próprio poder. Malditas sejam as empresas-fantasma em terrenos baldios, que fazem viadutos no ar, pontes para o nada, esgotos a céu aberto e rapinam os mínimos picuás dos miseráveis.

Malditos os fundos de pensão intocáveis e intocados, com bilhões perdidos na Bolsa, de propósito, para ocultar seus esbulhos e defraudações. Malditos também empresários das sombras. Malditos também os que acham que, quanto pior, melhor.

A grande punição está a caminho. Ai de ti, Brasil, pois acreditaste no narcisismo deslumbrado de um demagogo que renegou tudo que falava antes, que destruiu a herança bendita que recebeu e que se esconde nas crises, para voltar um dia como “pai da pátria”. Maldito esse homem nefasto, que te fez andar de marcha à ré.

Ai de ti Brasil, porque sempre te achaste à beira do abismo ou que tua vaca fora para o brejo. Esse pessimismo endêmico é uma armadilha em que caíste e que te paralisa, como disse alguém: és um país “com anestesia, mas sem cirurgia”.

Ai de vós, advogados do diabo que conseguis liminares em chicanas que liberam criminosos ricos e apodrecem pobres pretos na boca do boi de nossas prisões. Maldita seja a crapulosa legislação que vos protege há quatro séculos. Malditos os compradiços juízes, repulsivos desembargadores, vendilhões de sentenças para proteger sórdidos interesses políticos. Malditos sejam os que levam dólares nas meias e nas cuecas e mais ainda aqueles que levam os dólares para as Bahamas. Ai de vós! A ira de Deus não vai tardar...

Sei que não adianta vos amaldiçoar, pois nunca mudareis a não ser pela morte, guerra ou catástrofe social que pode estar mais perto do que pensais.  
Mas, mesmo assim, vos amaldiçoo. Ai de ti, Brasil!

Já vejo as torres brancas de Brasília apontando sobre o mar de lama que inundará o Cerrado. Já vejo São Paulo invadida pelas periferias, que cobrarão pedágio sobre vossas Mercedes. Escondidos atrás de cercas elétricas ou fugindo para Paris, vereis então o que fizestes com o país, com vossa persistente falta de vergonha. Malditos sejais, ó mentirosos, vigaristas, intrujões, tartufos e embusteiros! Que a peste negra vos cubra de feridas, que vossas línguas mentirosas sequem e que água alguma vos dessedente. Ai de ti, Brasil, o dia final se aproxima.

Se vossos canalhas prevalecerem, virá a hidra de sete cabeças e dez chifres em cada cabeça e voltará o dragão da Inflação. E a prostituta do Atraso virá montada nele, segurando uma taça cheia de abominações. E ela estará bêbada com o sangue dos pobres, e em sua testa estará escrito: “Mãe de todas as meretrizes e mãe de todos os ladrões que paralisam nosso país”. 


Ai de ti, Brasil! Canta tua última canção na boquinha da garrafa.



ARNALDO JABOR



Enviado do meu smartphone Samsung Galaxy.

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segunda-feira, 24 de abril de 2017

DIÁRIO DE VIAGEM – Francisco Benício dos Santos (3)


BORDO DO PEDRO II
3º DIA

O sol batendo em cheio sobre a vidraça da minha cabine dá-me o bom dia:
- Levanta-te preguiçoso.
Lembrei-me de meu pai.
Saudades... sempre as saudades apertando-me o coração, estrangulando-me a alma.
Passamos frente a Vitória.
A costa Sul ostenta-se eriçada de picos azuis, como se misteriosa fada a tivesse bordado à renda.
Belo, muito belo! Maravilhoso espetáculo.
Aviões passam velozes sobre o navio, como se fossem gigantescos albatrozes...
Atrás... ficaram as raias da Bahia.
Radiógrafo:
“Castro para Cel. Márcio”.
Saudades, lembranças, abraços. Isauro.
Dra. Nísia – Embaixada /acadêmica – Bordo Bagé – Viagem América.
Saudades muitas saudades abraços. Isauro.
O sol lançando labaredas de fogo brune a superfície marinha de tonalidades viláceas.
E os picos azulinos eretos para o céu de turquesa límpido, puríssimo, sem uma nuvem que lhe empane a beleza e a poesia.
O farol de São Mateus salta ainda lampejos fracos por entre a névoa da mataria costeira.
Os picos vão se sucedendo, eriçados e pontiagudos com a característica das costas sulinas.
Volto ao tombadilho e leio:
“Viagem pelo Pacífico” e vou ficando acamaradado com as cidades e particularidades desta região.
As moças:
- Francamente, estamos intrigadas com o senhor e com o seu mutismo.
- Não dança, não joga, não conversa. Precisamos traze-lo ao nosso convívio.
- Certamente que o farei com prazer e muito gosto, mas, é que me falecem os requisitos exigidos para uma convivência tão gentil e cativante; não danço, não jogo, não canto...
- Haveremos de ensinar-lhe tudo isto  e algo mais importante.
- Terei imenso prazer e serei discípulo atento.
Por enquanto leio apenas, depois, depois...
Desce a noite.
A lua surge do mar, redonda, vermelha, lançando sobre o negror das águas atlânticas réstias prateadas de uma luz macia e baça.
Ao sul, o cruzeiro estende os braços e piscam e piscam...
A via láctea ponteia o céu de focos de luz e, como uma esteira de prata, branqueia os espaços sidéreos.
Vênus e Marte surgem irmanadas, emparelhadas, ofuscadas e trêmulas com a claridade da lua que vai tomando conta do céu, escorraçando todos os planetas, constelações e estrelas, ficando solitária, iluminando a Terra, a sua companheira de jornada pelo infinito.
Um vento frio e gostoso passa sibilante e mansinho, fazendo correr um frescor agradável pelo corpo.
O jazz está na sala estrangulando o espaço e perturbando a quietude da natureza com a brutalidade de sua música canalha.
Bandos de corpos enlaçados passam bamboleando aos remelexos do samba e aos rufos do pandeiro malandro.
Bebedores e jogadores de pôquer estragam o organismo e as bolsas bebendo, jogando.
Eu cismo: admiro a beleza do céu e a inconstância do mar e o brilho da via láctea que como um pálio aberto cintila.

(AQUARELAS E RECORDAÇÕES Capítulo XXII)
 Francisco Benício dos Santos.

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INSTIGANTE E REVELADOR SURGE "DECIFRA-ME... OU DEVORO-TE" DA AUTORA GUADALUPE NAVARRO



LILI

Entrevista com a autora Guadalupe Navarro


Guadalupe Navarro nasceu em Lima, Peru. Durante a infância, mudou-se, com os pais e os irmãos, para Londres, Inglaterra. E, numa fase posterior, para o Rio de Janeiro, Brasil, onde reside actualmente. É Bacharel em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, com Pós-Graduação em Filosofia Contemporânea.

Devoradora de livros desde criança, interessa-se por temas relacionados com Direitos Humanos, refugiados e protecção de animais. Poetisa, cronista e contista, publicou os seus primeiros poemas em 2014 e estreou-se na prosa em 2016, com a sátira “A Estátua de Sal”, na antologia lusófona “A Bíblia dos Pecadores”, da Colecção Sui Generis. Os seus textos (prosa e poesia) estão espalhados em três dezenas de obras colectivas, portuguesas e brasileiras. Em 2015, lançou “Poemas da Alma”, o seu primeiro livro de poesia. “Decifra-me... ou Devoro-te!” é o segundo livro de sua autoria; reúne crónicas e contos incluídos em diversas antologias e foi publicado recentemente, em março, com o selo Sui Generis, em Portugal e no Brasil.

“O livro contém doze textos que escrevi desde agosto de 2015 até outubro do ano passado. São contos e crônicas. Humor e drama. Mas o mais importante é que cada personagem não é o que aparenta ser.”

Boa leitura!


Escritora Guadalupe Navarro, é um prazer contarmos com a sua participação na Revista Divulga Escritor. Conte-nos em que momento se sentiu preparada para publicar o seu livro “Decifra-me... ou Devoro-te!”.

Guadalupe Navarro - Bem, antes de mais nada, gostaria de agradecer a oportunidade de falar sobre o meu livro. A ideia de juntar todos os meus textos publicados ou selecionados para posterior publicação foi de Isidro Sousa, o editor responsável pela Edições Sui Generis. Inicialmente relutei, pois sou muito crítica em relação ao que escrevo. Mas, à medida que as pessoas diziam que gostavam do que eu escrevia, senti-me segura e decidi publicá-lo.

Como foi a escolha do título para a obra?
Guadalupe Navarro - Não foi fácil escolhê-lo. Eu queria algo que tivesse alguma relação com aquilo que está em cada parágrafo, em cada linha, em cada frase das histórias que estão no livro. E quem o ler entenderá a razão desse título.

Por gentileza,  apresente-nos “Decifra-me... ou Devoro-te!”.
Guadalupe Navarro -O livro contém doze textos que escrevi desde agosto de 2015 até outubro do ano passado. São contos e crônicas. Humor e drama. Mas o mais importante é que cada personagem não é o que aparenta ser. Uma das minhas personagens favoritas é uma mulher aparentemente amalucada, muito sensual; ela envolve-se com um homem que revela-se uma fraude, quero dizer, que não tem o compartimento nem a atitude de alguém de sua posição. Também posso dizer que as protagonistas, em parte, refletem mulheres que representam de várias formas o melhor que uma pessoa tem. Com exceção de uma, que é vigarista, mas que acaba revertendo uma situação adversa. Enfim, são histórias que à primeira vista podem parecer simples e corriqueiras, mas são muito mais complexas.

Qual é a mensagem que deseja transmitir aos leitores por meio dos doze textos apresentados no livro?
Guadalupe Navarro - Mensagem? Talvez que não se pode ter ideias preconcebidas sobre coisa alguma. As pessoas tendem a rotular tudo, a categorizar tudo. Se há um traço marcante em meu livro é que as personagens e os enredos vão contra todos os comportamentos pré-estabelecidos. Uma outra personagem, por exemplo, é um rapaz bonito, bem-sucedido, um tipo que não despertaria qualquer suspeita. Mas que carrega consigo um segredo. Algo sórdido. Que surpreende e até choca.

Se pudesse resumir o livro em duas palavras, quais seriam?
Guadalupe Navarro - Difícil, mas acho que estas duas palavras podem defini-lo: instigante e revelador.

Onde podemos comprar seu livro?
Guadalupe Navarro - Será lançado em Kindle na Amazon.com.br. A versão impressa já está à venda em Portugal, na livraria virtual da editora Euedito, que publica os livros Sui Generis (www.eudito.com/suigeneris). Aqui, no Brasil, será publicado pela Editora Garcia (editoragarcia.com.br) que o disponibilizará em várias plataformas como americanas.com.br, extra.com.br, para citar algumas. Podem também solicitá-lo à Sui Generis (letras.suigeneris@gmail.com) ou directamente comigo, através do meu e-mail (grn3006@gmail.com) ou da página no Facebook (www.facebook.com/rubionav).

Quais os seus principais objetivos como escritora?
Guadalupe Navarro - Que aquilo que escrevo seja julgado pelo seu valor literário, independentemente de qualquer outra coisa. Sou portadora de paralisia cerebral e não quero que ninguém fique constrangido ao me criticar. Não quero que ninguém sinta pena de mim. Se gostarem de meu trabalho, elogiem. Se não gostarem, critiquem.

Qual é o tipo de texto que gosta de ler?
Guadalupe Navarro - Gosto de ler tudo. Desde livros de culinária até textos filosóficos. Sou muito curiosa, gosto de saber, gosto de conhecer a origem de cada nome, palavra, lenda ou mito. Quanto a autores, os meus favoritos são Gore Vidal, Oscar Wilde e García Márquez. Mas sou apaixonada por História. E por personagens ou fatos históricos. Por isso, já li muitas biografias e livros sobre guerras ou outros acontecimentos marcantes.

O que mais a encanta na leitura deste tipo de texto?
Guadalupe Navarro - A possibilidade de conhecer, de entender mais o mundo. Por exemplo, ao ler o relato de uma sobrevivente do genocídio em Ruanda, entendi a questão das diferentes etnias e seus conflitos no contexto da colonização de África. Quando li sobre Mahatma Gandhi, pude compreender a complexidade da sociedade indiana. Ao ler uma biografia sobre Catarina, a Grande, tive a oportunidade de mergulhar a fundo na história da Rússia, que está muito ligada ao fato de como um povo pode ter sido dominado pelo totalitarismo durante tantas décadas. Enfim, pode-se aprender muito lendo biografias ou livros sobre certos personagens que viveram situações relacionadas a acontecimentos históricos.

Pois bem, estamos chegando ao fim da entrevista. Muito bom conhecer melhor a escritora Guadalupe Navarro. Agradecemos sua participação na Revista Divulga Escritor. Que mensagem você deixa aos nossos leitores?
Guadalupe Navarro - Que leiam tudo o que chegar às suas mãos. Sem nenhum preconceito. Se não gostarem, poderão criticar com argumentos. Mas nunca deixem de ler por qualquer que seja o motivo. E quero, mais uma vez, agradecer esta oportunidade de falar um pouco sobre o meu trabalho.

CONTACTOS

por Shirley M. Cavalcante (SMC)


Divulga Escritor, unindo Você ao Mundo através da Literatura

Revisão ortográfica: Josias A. de Andrade




(Recebi por e-mail)


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domingo, 23 de abril de 2017

O SILÊNCIO DE PLÁSTICO – Geraldo Maia


O silêncio de plástico


Mensalões, cartéis, propinas, caixas 2, lavagens de grana, fuga de capitais, trafico de influências, drogas, contrabandos, delações envolvendo os bilionários escândalos envolvendo a Petrobras, construção de metrôs e obras públicas federais, estaduais e municipais, inclusive no INSS, nos ministérios, secretarias e no emaranhado burocrático público-privado estão deixando para a população pagar um rombo nas contas públicas estimado pelo aplicativo 'corruptômetro' em torno de R$ 920 bilhões contabilizados por meio de superfaturamentos, ações de cartéis, concorrências fraudadas e montadas. 

No governo Collor bastaram alguns milhões desviados criminosamente para tirar o presidente do cargo. Foi quase um rito sumário, povo nas ruas, votação no Congresso, e tchau presidente 'play boy'. Mas nos governos do PT, são doze anos na tela, o mensalão correu solto, até hoje estão soltos, agora é a Petrobrás com 1 bilhão de prejuízo, e não acontece nada, depois chegam as delações, milhões são dedurados, e ainda assim não acontece nada.

A presidente reeleita chora no vídeo como se ditadura e tortura fossem monopólio da 'direita', sem se importar em chorar também pelos milhões de torturados e mortos pelas ditaduras militares implantadas nos países soacilistas considerados de 'esquerda'. Para esses a verdade continua sendo explicada na bala, na vala comum, nos campos de extermínio que só no Cambodja resultou na morte de 2/3 da população pelo 'bonzinho', porque de 'esquerda', Kmher Vermelho.

Mas por que Collor caiu logo e Lula , Dilma, Dirceu, etc, etc, continuam no poder, mesmo com as ruas gritando 'fora Lula', 'fora Dilma', 'fora PT'? Saiu quase despercebida e pouca gente notou, no auge na mais sórdida campanha eleitoral que se tem notícia no Brasil, uma declaração do Pedro Stédile, líder vitalício dos movimentos dos Sem Terra, Sem Teto, Sem Comida, sem Voz, sem Cabeça, sem Vontade, sem opinião, sem Decisão, sem liberdade para andar por seus próprios pés, pensar com o próprio cérebro, decidir segundo sua própria vontade. 

Pedro Stédile disse que se a presidente Dilma perdesse haveria guerra civil no país. Não usou outra palavra, foi guerra mesmo. Baseado em que Stédile, o monarca dos sem teto, fez tal afirmação? Observem um assentamento dos Sem Terra. A maravilhosa organização de caráter militar que ali existe. Geralmente liderados por mulheres, a organização dos Sem Terra no seu dia a dia não encontra similar no país ou no planeta. Dotados que são de disciplina digna de fazer inveja a qualquer dos mais bem treinados grupamentos das forças armadas. 

O MST também é extremamente organizado no que tange às suas ações produtivas, que são bem diversificadas. Agricultura, criatório, artesanato, cooperativas são utilizadas para produzir alimentos. O MST coordena mais de 100 cooperativas e mais de 1,9 mil associações situadas nos assentamentos trabalhando a construção de 96 agroindústrias. Os assentamentos do MST impactam a vida de um município tanto na esfera social como econômica. Em primeiro lugar, a terra ganha uma função social. Em segundo lugar, um conjunto de famílias ganha instrumentos para a sua sobrevivência. Depois de um período, constroem a casa, conquistam a escola e começam a produzir. A produção garante o abastecimento de alimentos aos moradores das pequenas cidades e gera renda às famílias assentadas. Mas o que existe por trás dos barracos de plástico preto que vai ser utilizado por Stédile em uma guerra civil? Alimentos Orgânicos? Armas automáticas? Munições de grosso calibre, veículos de combate, helicópteros e aviões. Misseis interestaduais? Tanques de lavar roupa ou tanques de guerra? Como Dilma ganhou o silêncio permeia os assentamentos dos Sem Terra.
  
Aguarda-se as próximas eleições. Quase um Bilhão foi tirado dos cofres públicos. Para comprar arsenal? Mas guerra contra quem, irmãos contra irmãos? Esquerda contra direita? Norte nordeste contra o sul sudeste? Ricos contra pobres? Luta entre as classes? Capitalismo contra comunismo? Muito bem, até agora do que valeram essas guerras ao redor do mundo?

Mais guerras, mais violência, mais intolerância, mais fome, miséria, doenças, abandono, indiferença. Dentro do plástico preto ecoa o silêncio impregnado nos paus de arara armados nos porões da direita e da esquerda. Qual deles tortura melhor? Qual tortura venceu condenando a outra a 'nunca mais'?


Geraldo Maia, poeta

Estudou Jornalismo na instituição de ensino PUC-RIO (incompleto)
Estudou na instituição de ensino ESCOLA DE TEATRO DA UFBA
Coordenou Livro, Leitura e literatura na empresa Fundação Pedro Calmon Trabalha na empresa Folha Notícias,
Filho de Itabuna/BA/BRASIL, reside em Louveira /SP.


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ENTREVISTA COM O PRESIDENTE DA ACADEMIA GRAPIÚNA DE LETRAS - AGRAL

O entrevistado dessa edição do DIREITOS, é o presidente da Academia Grapiúna de Letras (Agral), Ramiro Soares de Aquino.


“Nova diretoria promete reestruturar entidade” 

A nova diretoria da Academia Grapiúna de Letras (AGRAL), empossada em 14 de março passado, promete reestruturar a academia cultural, segundo informa, em entrevista concedida ao Jornal DIREITOS, o presidente eleito, Ramiro Soares de Aquino, um dos fundadores da entidade e o segundo no cargo. O novo presidente é democrático, costuma dizer que “fica rouco de ouvir” e não toma decisões que não sejam por consenso. 

Experimentado jornalista, com vivência de cinquenta e quatro anos no ramo, completados neste mês de abril, Aquino fez algumas exigências para aceitar o cargo: 
1- Respeitar todas as decisões do seu antecessor, Ivann Krebs Montenegro, que dirigiu a entidade nos cinco primeiros anos; 2- Submeter à diretoria, sob consulta aos interessados, a destituição de todos os membros que não frequentam as reuniões, alguns somente comparecendo às suas posses; 
3- Admitir novos sócios exigindo um rígido controle de frequência e propondo a estes a possibilidade de assumir cargos diretivos, inclusive a presidência; 
4- Criar a categoria de Sócios Honorários Fundadores e
5- Manter relacionamento de alto nível com as entidades similares. Eis a íntegra da entrevista:

DIREITOS - O que o levou a aceitar essa incumbência, que para muitos é tão espinhosa?
Ramiro Aquino - O comprometimento do grupo. Perguntei a cada um se aceitava o cargo na diretoria, se topava trabalhar e demonstrei minhas exigências dizendo que o não atendimento a elas me dava o direito de renunciar. Todos foram unânimes em me apoiar, tudo isso de forma democrática. Isso me deu a segurança necessária para aceitar a presidência.

DIREITOS - Quando você fala de reestruturação isso significa que, mesmo fazendo parte da diretoria, não estava satisfeito com os rumos que a AGRAL estava tomando?
Ramiro Aquino - Pelo contrário. Aprendi muito com os companheiros que compõem a AGRAL, especialmente com Ivann Montenegro, um líder inconteste, ficando inclusive com a recém-criada Presidência de Honra. O que eu não me conformava era com a tese da imortalidade, que nos tornava vitalícios na entidade. Ora, ninguém foi forçado a aceitar o seu ingresso. Sempre quisemos a contribuição que todos poderiam oferecer. Se tomou posse e não frequenta ou pede para sair ou será afastado. Estou propondo a saída de oito confrades e o que é curioso, quatro desses foram indicação minha. Isso não quer dizer que todos eles poderão ser afastados. Se resolverem se enquadrar, serão mantidos. Se reincidirem nas faltas cumpriremos os estatutos.

DIREITOS - Quais as suas propostas?
Ramiro Aquino – Além das exigências fundamentais, a frequência às reuniões, a programação em cima de um calendário de eventos consistente, a participação ou o apoio da entidade a todas as atividades artístico-culturais da cidade, admissão de novos sócios (já temos 5 em vista) e nos tornarmos, não só a primeira, mas a mais ativa Academia de Letras da região.

DIREITOS - E a sede não se inclui em seus planos?
Ramiro Aquino - Não considero a sede social, no momento, como uma prioridade. O Ivann Montenegro já colocou a casa dele à nossa disposição, o Lions Grapiúna também, estamos em entendimentos com a FICC para reocupar a Sala Zélia Lessa, se quisermos construir a Confreira Eglê Santos Machado nos doou um terreno. A falta de teto ainda não é um problema para a AGRAL.

DIREITOS - E como sobrevive uma Academia?
Ramiro Aquino - Toda instituição dessa natureza tem que sobreviver com a contribuição dos seus confrades e confreiras. É um valor mínimo de apenas R$ 30,00, que multiplicados por 39 (quadro atual depois do falecimento da Confreira Jasmínea Benicio Midlej) representam uma receita mensal de R$ 1.170,00. Sem considerar uma pequena inadimplência de 15%, temos considerável saldo mensal em caixa. Avalie bem: na nossa posse fizemos uma festa com despesas mínimas, onde só pagamos a filmagem, apenas um dos quatro fotógrafos, só os ingredientes do buffet (o Saborearte doou o serviço) e o vigilante. O local foi cedido pela Loja 28 de Julho, a MM Studios forneceu o som e o Coral Cantores de Orfeu nos brindou com a música.



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TERRAS DE ITABUNA - Nascimento de Tabocas

Clique sobre a foto, para vê-la no tamanho original
Nascimento de Tabocas


            Já dizia Mares de Sousa no seu almanaque de 1911: “Ponto algum do Estado, nesses últimos anos, há tido maior desenvolvimento em comércio, lavoura, aumento de população, de construções, de que Itabuna, que há quatro anos e dois meses era um simples arraial. Daí bem se pode calcular a ascensão que esta localidade tem feito ao progresso, ficando, portanto, sem razão de ser o mau juízo que porventura ainda façam aqueles que de longe somente a conhecem pelas correspondências políticas ou pelos telegramas e notícias alarmantes transmitidas à imprensa”.

            O seu primeiro nome foi Tabocas. Muitas vezes Carlos Sousa contou a sua história ao Tourinho da farmácia, que era bom para escrever desaforos, mas não possuía as letras do outro farmacêutico Artur Nilo de Santana, que fazia uns discursos bonitos nas reuniões da filarmônica e ainda o público recordava o discurso que pronunciou no dia da instalação do termo da vila e comarca em 8 de novembro de 1906.

            Tabocas começou propriamente a nascer no ano de 1860. Alguns ranchos, toscos casebres, colocados ao lado da estrada, à margem direita do rio, habitados, uns por posseiros das matas próximas, outros por pequenos comerciantes que vendiam aos boiadeiros, que desciam, ou subiam ao sertão da vila de Conquista, cinquenta léguas distante, no poente.

            Moravam no local, conhecido hoje pelo nome de Marimbeta, Félix Severino do Amor Divino, Militão Francisco de Oliveira, José Severino de Oliveira, Faustino Jovita de Santa Fé, José Alves da Silva, João Antônio do Nascimento, Maximiano de Oliveira, Manuel Apolinário Batista, João Pinheiro do Nascimento e Anacleto Alves da Silva.

            Por muitos anos esses homens trabalharam, anonimamente, humildemente, bravamente, derrubando matas, fazendo roças, plantando cacau, acumulando riquezas.

            Verdadeiros heróis das selvas, isolados do mundo, da civilização adoeciam e morriam sem remédio, sem conforto, sem assistência.

            Entravam nas matas para trabalhar e muitas vezes, delas não saíam senão mortos por picadas de serpentes venenosas.

            É a história daquele velho que disse à mulher: “vou à roça buscar uns temperos para o feijão”. Foi e não voltou. A mulher também foi e não voltou. Os filhos começaram a chorar. Choraram o dia todo, os pais não apareceram, o fogo apagou-se a comida não cozinhou. Já à tardinha chegou um vizinho, perguntou aos meninos que choravam, pelos pais, e lá se foi com os meninos ao roçado, onde encontraram, caídos e mortos, o homem e a mulher, um quase por cima do outro.

            Ficaram surpresos, ficaram espantados, não ficaram com medo, porque nas matas do cacau o homem perde o medo, cria coragem e se torna indiferente.

            De repente ouviram qualquer coisa batendo no chão, e viram qualquer coisa se movimentando, uma coisa roliça, como uma corda grossa, e gritaram: Uma cobra, duas cobras! Realmente, duas cobras enormes de remexiam, irritadas, assanhadas, agressivas. Os meninos correram, o homem atirou numa cobra e depois na outra, com uma pistola de dois canos, calibre 44. Os dois tiros ecoaram forte na mata e os seus estampidos foram de quebrada em quebrada desaparecendo. O homem aproximou-se cauteloso. Havia matado dois “surucucus pico de jaca” cobra venenosa e terrível, que cresce dois metros e mora nas selvas. Um naturalista as classificou de cascavel da terra do cacau. Sua dentada é mortífera, não tem remédio, nem a reza cura...

            Assim como aqueles, se findavam muitos desbravadores, muitos fazendeiros de roça de cacau.

            E o paludismo, o tifo, a umidade das matas, os assaltos dos índios, mas tocaias traiçoeiras?

            Carlos Sousa sabia de tudo, isso contado pelos velhos moradores da terra. Tinha assim a noção de como a riqueza daquela terra, que Mares de Sousa falava no seu almanaque, se havia construído, com sacrifício, com martírio de uma geração, com trabalho audacioso e luta sem quartel.

            Hoje tudo se apresentava diferente.

            Até um médico vindo de Minas, de nome Coriolando Antunes, fazia consultas a prestação, recebendo de cada cliente, para assisti-lo e à família vinte cruzeiros por mês.


(TERRAS DE ITABUNA Capítulo V)

Carlos Pereira Filho


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