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sábado, 14 de agosto de 2021

‘OS VENTOS GEMEDORES’: SAGA DO BRASIL ARCAICO‘

 


‘Os Ventos Gemedores’: Saga do               Brasil Arcaico

Adelto Gonçalves*

I

No Brasil, sempre foi assim: a luta pela terra invariavelmente produziu heróis falsos e mártires verdadeiros. E o Estado sempre esteve ao lado dos mais fortes, aqueles que conseguiam pela força subjugar os demais. Para aqueles que venciam, nunca faltou a falsa pena dos escribas para legalizar suas conquistas nos papéis dos cartórios e incensá-los na História. Ainda hoje é assim: os mandões do sertão ganham placas e viram nome de fundações ou de ruas, avenidas ou rodovias. Já para os derrotados sobram – quando muito – uma vala sem lápide e o esquecimento eterno.

Sempre foi assim, desde os tempos dos chamados bandeirantes, homens mestiços, filhos de mães indígenas ou miscigenadas, que largavam tudo na cidade de São Paulo ou em vilas como Santana do Parnaíba e Taubaté para, a partir de Araritaguaba (hoje Porto Feliz), seguirem em canoas à frente de uma legião de índios carijós, mulatos e negros em busca de indígenas que pudessem ser escravizados, de ouro e pedras preciosas e mais terras. Como arrastaram as fronteiras do Brasil para além do Tratado de Tordesilhas, hoje, alguns desses régulos são homenageados com estátuas e monumentos em que aparecem como homens de feições brancas, bem trajados. Provavelmente, seguiam para os sertões descalços e quase semi-nus, como os indígenas  e africanos que comandavam.

Ainda hoje é assim. Volta e meia, algum parlamentar é acusado de manter trabalhadores sob regime escravo em suas fazendas. De outros dizem que, em suas terras, ninguém entra sem autorização: se alguém entrar, ainda que involuntariamente, será recebido à bala por modernos jagunços bem armados, enquanto o mandão desfila sua onipotência em Brasília ou mesmo em congressos lusófonos em Lisboa. Os mandões modernos já não são grosseiros como os de outros tempos: afáveis, conquistam o interlocutor com muita simpatia e salamaleques.

E, assim, o mundo arcaico convive com o Brasil moderno sem maiores sobressaltos. É esse Brasil arcaico que o leitor vai encontrar no romance Os ventos gemedores, de Cyro de Mattos (1939), da editora LetraSelvagem, de Taubaté-SP, em sua coleção Gente Pobre (narrativas). Ambientada nas terras do Sul da Bahia em época que se supõe que seja a de meados do século 20, a trama se dá no condado imaginário de Japará, à la William Faulkner (1897-1962), região onde a mata até então impenetrável começa a dar lugar às primeiras roças de cacau e pastos para bois e vacas. É o cenário de Terras do Sem Fim (1943), clássico romance de Jorge Amado (1912-2001), que, a rigor, inaugura a saga cacaueira do Sul da Bahia.

II

Aqui, a luta pela terra coloca, de um lado, Vulcano Brás, um régulo do sertão acostumado a mandar bater e até matar; de outro, o vaqueiro Genaro, escolhido como líder pelos explorados, gente envelhecida precocemente que traz a pele engelhada pelo trabalho de sol a sol. Como Almira, moradora de um casebre, que procura entender, numa espécie de monólogo interior, como o vaqueiro Genaro encontrou coragem para chefiar os homens no levante:

“(…) Ele havia dito que os homens estavam dispostos a enfrentar o despotismo de Vulcano Brás, “não tenha medo, dessa vez, a gente vai tirar o freio da boca, a argola da venta, o chicote das costas e a espora da barriga”. Deu-lhe em seguida a notícia de que os homens queriam ele como chefe do levante, ela então teve medo, pensou na morte a espreitar pelos cantos todos eles, de dia e de noite”.

Depois, Almira questiona: “Que adianta fazer esta revolta, Genaro? O lado de Vulcano Brás sempre foi mais forte”. Mas ele responde “A pior derrota é daquele que não luta”, acrescentando que “onde ninguém faz nada contra Vulcano Brás só a vontade dele é a única que impera, e os que se agacham permanecem assim mesmo o tempo inteiro, trabalhando, trabalhando, sem nunca ter nada na vida”.

Ainda hoje é assim não só Sul da Bahia, mas em todo o Brasil: aqueles que trabalham na terra só costumam se aposentar aos 65 anos de idade, isso quando conseguem apresentar papelada reconhecida pelos sindicatos rurais que comprove o tempo de trabalho na roça. Para ganhar salário mínimo.

O final deste livro conta a batalha corpo a corpo entre os jagunços de Vulcano Brás e os homens de vaqueiro Genaro e – ao contrário do que normalmente se dá na vida real – a vitória dos explorados, apesar das baixas de lado a lado. A vitória maior, porém, que se registra é da Literatura Brasileira que sai desse romance mais enriquecida.

III

Nascido em Itabuna, ao Sul da Bahia, Cyro de Mattos conhece bem a região que retratou em seu romance. Foi ali que fez os primeiros estudos, concluindo o curso ginasial no Colégio dos Maristas, em Salvador. Depois, fez o curso de Direito na Universidade Federal da Bahia, concluindo-o em 1962. Hoje, é advogado aposentado, depois de militar durante mais de quatro décadas nas comarcas da região cacaueira na Bahia. Antes, atuou como jornalista no Rio de Janeiro, passando pelas redações do Diário de Notícias, Jornal do Comércio e O Jornal.

Contista, ensaísta, cronista e poeta, é autor também de livros de literatura infantojuvenil e organizador de várias antologias. Já publicou mais de 50 livros e obteve numerosos prêmios literários. O principal foi o Prêmio Nacional de Ficção Afonso Arinos, da Academia Brasileira de Letras, para o livro Os Brabos (Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1979), elogiado por Jorge Amado, Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) e Alceu Amoroso Lima (1893-1983).

Sua estreia, porém, ocorreu em 1966 com o livro Berro de fogo, em que já se anuncia a sua preocupação em denunciar “a decadente engrenagem econômica cacaueira dominada pelo coronelismo”, como observa Nelly Novaes Coelho, doutora professora titular de Literatura Portuguesa da Universidade de São Paulo (USP), autora do posfácio que constitui um texto-homenagem aos 40 anos (1966-2006) da carreira literária do autor. Para a professora, “a obra de Cyro de Mattos já conquistou seu lugar nos quadros da Literatura Brasileira contemporânea”.

Cyro de Mattos está incluído na antologia Narradores da América Latina, publicada na Rússia, ao lado do argentino Julio Cortázar (194-1984) e do uruguaio Mario Benedetti (1920-2009), entre outros. Seus poemas foram incluídos na antologia Poesia do Mundo 3, organizada por Maria Irene Ramalho de Sousa Santos, da Universidade de Coimbra, publicada em Portugal, que teve tradução para o inglês.

Em 2010, participou da Feira Internacional do Livro de Frankfurt, quando autografou a antologia poética Zwanzig von Rio und andere Gedichte, publicada pela Projekte-Verlag, de Halle, com tradução de Curt Meyer-Clason, tradutor de Guimarães Rosa (1908-1967). E em 2013, esteve presente ao XVI Encontro de Poetas Iberoamericanos da Fundação Cultural de Salamanca, na Espanha. Tem livros publicados em Portugal, França, Alemanha e Itália.

                                               ***

 

 *Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Os vira-latas da madrugada (Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1981; Taubaté, Letra Selvagem, 2015), Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Caminho, 2003), Tomás Antônio Gonzaga (Academia Brasileira de Letras/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2012), e Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2015), entre outros. O texto Saga do Brasil Arcaico foi publicado no jornal Pravda, de Moscou, na edição para a língua portuguesa.

 

*Cyro de Mattos é premiado no Brasil, México, Portugal e Itália. Participa de mais de 40 antologias no Brasil e exterior.  Seus livros são adotados pelas escolas brasileiras, estudados em universidade e adquiridos por programas do governo e órgãos públicos, como Programa Nacional do Livro Didático, Programa Nacional de Biblioteca Escolar, Fundação Luís Eduardo Magalhães e outros. A Câmara de Vereadores do Recife adquiriu, recentemente, onze mil exemplares do livro Lorotas, Caretas e Piruetas (Prêmio da União Brasileira de Escritores-Rio), para distribuição nas escolas e bibliotecas. Seus livros são reeditados, como O Menino Camelô, doze edições, Vinte Poemas do Rio, mais de vinte mil exemplares, aprovado três anos no vestibular da Universidade Estadual de Santa Cruz, Histórias do Mundo Que Se Foi, cinco edições, O Goleiro Leleta, três edições, Cancioneiro do Cacau, duas edições, Os Brabos, duas edições, Oratório de Natal, duas edições, Palhaço Bom de Briga, três edições, O Circo do Cacareco, seis edições, e O Velho Campo da Desportiva, duas edições, dentre outros. Com Os Ventos Gemedores conquistou o Prêmio Nacional de Romance do Pen Clube do Brasil, um dos mais prestigiados do Brasil. Foram agraciados com este prêmio Gilberto Freire, Érico Veríssimo, Jorge Amado, Adonias Filho, Nélida Piñon, Carlos Nejar, Lygia Fagundes Telles, João Cabral de Melo Neto, Herberto Sales, Dalton Trevisan, José J. Veiga, Rubem Fonseca e Ignácio Loyola Brandão, dentre outros.

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sexta-feira, 13 de agosto de 2021

LANÇAMENTO DO LIVRO DAS ESCRITORAS MARIA LUIZA HEINE E SUEDE MAYNE




Nesse sábado, dia 14/08, às 16 horas, ocorre o lançamento do livro: “Memória e História: Lições de Um Vírus Assustador” por meio de live no Instagram: @ml_heine, com apresentação do professor Efson Lima.  O livro é uma produção conjunta das professoras Maria Luiza Heine e Suede Mayne.

A professora Luiza Heine tem diversos livros publicados. Ela é formada em filosofia e doutora em educação pela UNEB, com pesquisa no campo da educação ambiental. A autora Suede Mayne Pereira Araújo é formada em serviço social. Mestra em educação e especialista em saúde do trabalhador e em Psicodrama, Profissional de Serviço Social e atua no Hospital Menandro de Faria e no Instituto Federal da Bahia.

Segundo as autoras, o “livro surgiu como uma expressão da insatisfação pessoal com a vida que estamos  vivendo, com as mudanças que brotaram a partir do aparecimento da Covid 19 e com a forma como muitas pessoas do país encararam o enfrentamento da pandemia”.

O livro tem prefácio do escritor Pawlo Cidade, presidente da Academia de Letras de Ilhéus e gestor cultural.

A obra está sendo comercializada por meio do perfil da escritora Maria Luiza Heine no Instagram, bem como no site da Editora Via Litterarum: https://viaeditora.com.br/acervo-literario/memoria-e-historia-licoes-de-um-virus-assustador/ no valor de R$ 30,00 mais frete.  O livro também possui versão em e-book para comercialização.

O quê: Lançamento do  “Memória e História: Lições de Um Vírus Assustador”

Autoras:

Vendas: no Instagram @ml_heine e no site Editora Via Litterarum


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quinta-feira, 12 de agosto de 2021

ACADEMIA GRAPIÚNA DE LETRAS DÁ CONTINUIDADE A CICLO DE PALESTRAS

Por Dr. Vercil Rodrigues 

A Academia Grapiúna de Letras (AGRAL), sediada na cidade de Itabuna, sul da Bahia, realizou no último dia 7/8 (sábado), às 18 horas, reunião ordinária, através da plataforma Google Meet, em função da inviabilidade de reunião presencial, por causa das medidas restritivas acerca de distanciamento social, face à Pandemia Coronavírus (Covid – 19).

O acadêmico Samuel Leandro Oliveira de Mattos, presidente da entidade, abriu os trabalhos agradecendo a presença maciça dos acadêmicos e convidados. E em seguida falou da importância do ciclo de palestras da AGRAL, que foi iniciado em abril e continuará durante a sua gestão, cumprindo com isso um dos papéis de uma academia de letras, que é fomentar a cultura lato sensu.

O ciclo palestras começou com o acadêmico Jairo Xavier Filho, médico-cardiologista, que falou sobre “COVID 19: Fatos e boatos. Ciência e política”. Seguido do professor-doutor em educação física Samuel Macêdo Guimarães, “Acentuações Terapêuticas Corporais na Saúde Mental: Uma Contemporaneidade de Saúde Pública em tempos de Pandemia”. E a do professor-mestre Paulo Sérgio dos Santos Bonfim, “Da solidão do "cogito" à ética da alteridade: uma nova dimensão axiológica de 'ser' humano”.

Nessa reunião, coube ao acadêmico-presidente Samuel Leandro que proferiu palestra intitulada “Legado Cultural Árabe-Islâmico na Bahia”. Ao final, foi aberto o momento para perguntas e discussões. Então, comentaram, pontos da palestra, os confrades Claudio Zumaeta, que mencionou aspectos econômicos e comerciais relacionados à expansão Islâmica, a partir da influência do profeta Maomé na Arábia, Kleber Torres, que citou o livro de Jorge Amado, “A descoberta da América pelos turcos”, cujo tema se irmana com o da palestra e ratifica questões abordadas e Samuel Guimarães, que abordou aspectos da histórica dominação cultural de um povo sobre outro e, ainda, observou que o brasileiro conhece pouco da sua própria história. Após a apresentação, houve manifestações de apreço ao palestrante, pela riqueza cultural apresentada na sua explanação, sobre um capítulo da história do Brasil e da Bahia que não é conhecido pela maioria dos brasileiros.

(Ascom /AGRAL)

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CÃES MUDOS – Péricles Capanema


Péricles Capanema

 

O brado por liberdade e pão. Poucas semanas atrás o povo cubano exprimiu sua indignação pela tirania de décadas que o oprime. Falta de alimentos (fome, em português simples) e de vacinas foram o estopim próximo para a explosão da revolta popular. Manifestantes que lutavam por liberdade e pão acabaram presos, ameaçados, surrados. No mundo inteiro, para vergonha da gente que presta, governos e personalidades se manifestaram não a favor do povo, mas na defesa do governo opressor.

Favorecimento dos torcionários. Destaco quatro reações muito significativas. Lula aprovou o regime e escreveu: “O que está acontecendo em Cuba de tão especial pra falarem tanto? Houve uma passeata. Inclusive vi o presidente de Cuba na passeata, conversando com as pessoas. Cuba já sofre 60 anos de bloqueio econômico dos EUA, ainda mais com a pandemia, é desumano”. O PT secundou as manifestações do seu morubixaba. Cuba continua inspiração, tumor de estimação, para o PT.

Nicolás Maduro, presidente da Venezuela, elogiou também o governo cubano: “Se os Estados Unidos e a oposição extremista querem realmente ajudar o povo cubano, levantem imediatamente todas as sanções e o bloqueio contra o povo cubano. Ofereço todo o apoio da República Bolivariana da Venezuela ao povo de Cuba, ao governo revolucionário de Cuba.”

Por seu lado, a China se apressou em sustentar a tirania em Cuba. Entre outras manifestações, em Brasília a embaixada chinesa divulgou comunicado: “A China se opõe à interferência estrangeira nos assuntos internos de Cuba e apoia o que Cuba tem feito na luta contra a Covid-19″.

Finalmente, declarou o ministro das Relações Exteriores da Rússia: “Vamos continuar apoiando Cuba em tudo, não apenas moral, ou politicamente, não apenas por meio do desenvolvimento da cooperação técnico-militar, mas também promovendo ativamente o comércio, projetos econômicos que permitam à economia deste país ser mais firme diante de ataques externos. Acredito que vamos conseguir”.

Uma poderosa voz de consolo. Em sentido contrário, o governo dos Estados Unidos colocou-se ao lado do povo cubano: “Estamos com o povo cubano e seu apelo alto e claro por liberdade e alívio”. Condenou as “décadas de repressão e sofrimento econômico a que foi submetido pelo regime autoritário cubano”. E aduziu: “O povo cubano está reivindicando com bravura seus direitos fundamentais e universais”.

A mão que apaga e a voz que adormece. Nesse ambiente, o Papa Francisco decepcionou os católicos cubanos com declaração ambígua: “Estou muito próximo do povo cubano nesses momentos difíceis, em particular das famílias que sobretudo sofrem. Rezo ao Senhor para que ajude a construir na paz, diálogo e solidariedade uma sociedade cada vez mais justa e fraterna”.


Angústia corajosa e lúcida.
Ninguém expressou melhor a decepção que dona Maria Victoria Olavarrieta [foto], cubana exilada em Miami, em mensagem ao Papa Francisco, carta amplamente divulgada (está na rede), da qual coloco aqui alguns trechos: “Os católicos cubanos, desde que começaram os protestos em Cuba, estamos esperando que o senhor levante sua voz. Dói muito que, enquanto reprimem o povo que saiu às ruas pedindo liberdade, o senhor tenha palavras para felicitar o triunfo da Argentina na Copa América. Nossa Igreja foi perseguida, ameaçada, vigiada, invadida pelos agentes de segurança do Estado. O senhor disse aos jovens: ‘Lutem por seus sonhos, mas sonhem em grande, não deixem de sonhar’.Os jovens cubanos que nasceram na ditadura e foram doutrinados, educados em escolas ateias, em uma sociedade de partido único, que cresceram — alguns comendo e se vestindo com as ajudas de seus familiares no exílio, e outros na miséria mais absoluta —, estão sonhando em ver seu país livre. O senhor os convidou a sonhar, e agora que os estão matando por gritarem seus sonhos, o senhor guarda silêncio! Tive diversos alunos venezuelanos e vi o sofrimento de seus pais, porque o senhor guardou silêncio quando assassinavam os estudantes nas ruas de Caracas. As pessoas morrem de fome na Venezuela, e o senhor não condena publicamente os responsáveis. O sangue correu na Nicarágua. O Papa fala de tudo, mas dos crimes dos ditadores e dessas três tiranias irmãs o senhor não opina. O Vigário de Cristo na Terra não deve discriminar suas ovelhas. As ovelhas vítimas dos regimes comunistas, sentimo-nos como se fôssemos suas ovelhas negras. Hoje quero ser a voz das mães cubanas que estão vendo seus filhos passar fome, que não têm remédio; quero lhe apresentar a dor das avós cujos netos foram fuzilados gritando ‘Viva Cristo Rei!’, a vergonha dos pais que não conseguem sustentar os filhos com o fruto de seu trabalho, e vivem mal, esperando as remessas enviadas por seus familiares do exterior. Apresento-lhe a tortura dos presos políticos; o ódio de irmão contra irmão que os Castros semearam; os idosos que viram partir a família que criaram, e morreram sem nunca mais verem seus filhos e netos! Nós, cubanos, nos sentimos abandonados, órfãos do Papa”.

Cães mudos. Nem há o que comentar, o texto fala mais que qualquer glosa. Enquanto lia a mensagem da angustiada e abandonada católica cubana, vinham-me à mente trechos bíblicos, sua elevação e ensino fortalecerão os católicos cubanos em seu desamparo. “As suas sentinelas estão todas cegas, todas se mostraram ignorantes; são cães mudos, que não podem ladrar, que veem coisas vãs, que dormem, e que amam os sonhos” (Is 56, 9-10). “E, se algum de vós pedir pão a seu pai, porventura dar-lhe-á ele uma pedra? Ou, se lhe pedir um peixe, porventura, dar-lhe-á ele, em vez de peixe, uma serpente? Ou se lhe pedir um ovo, porventura dar-lhe-á um escorpião?” (Lc 11, 11-12). “Eu vi a aflição do meu povo no Egito, e ouvi o seu clamor causado pela crueza daqueles que têm a superintendência das obras. E, conhecendo a sua dor, desci para o livrar das mãos dos egípcios” (Ex 3, 7-8).


https://www.abim.inf.br/caes-mudos/

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quarta-feira, 11 de agosto de 2021

O INESQUECÍVEL IRMÃO ODILON - Arnaldo Niskier


Tive na vida irmãos (três) maravilhosos, o Sylvio, o Odilon e o Júlio. Todos mais velhos, que nasceram ainda na Polônia, mas cedo vieram para o Brasil, ajudando os meus pais nas tarefas de educação dos irmãos mais moços, o Arnaldo e a Rachel. Não os decepcionei, fazendo do estudo a razão de ser da minha vida.

O último dos três irmãos, já na idade de 94 anos, faleceu vítima da Covid-19. Senti muito a sua falta e, apesar de todas as restrições sanitárias, compareci à cerimônia de inauguração da sua sepultura, no Cemitério Israelita de Vilar dos Teles. Foi muito feliz a frase cunhada pelas suas três filhas: 'Por onde andou, soou o diálogo, a arte e a cultura.' Síntese admirável do que foi a sua vida, como profissional do Direito e como exemplar funcionário do Banco do Brasil.

No dia da cerimônia, o rabino pediu que a gente dirigisse algumas palavras aos presentes. Não podia recusar. Aproveitei para lembrar de uma das visitas feitas ao Estado de Israel, quando conheci a minha tia-avó, Mime Reisel, que tinha a cara da Golda Meir. Ela me disse uma frase inesquecível: 'Você, da nova geração, deve sempre se lembrar de que a nossa família descende diretamente do rei Davi.' Existe honra maior? E um compromisso comportamental, do qual não podemos dissociar.

Foi o que falei, no subúrbio carioca, recordando de onde viemos. E ao mesmo tempo prometendo ações que estejam sempre coerentes com essa formação. É a hora em que não importam a riqueza nem os bens materiais.

Odilon foi um líder sindical de proeminência. Graças aos seus contatos no jornalismo, especialmente na recém-lançada 'Ultima Hora', pude arranjar uma vaga de repórter no jornal de Samuel Wainer, valendo-me dos seus conhecimentos. Passei a ser repórter-esportivo, fazendo a crônica dos jogos de domingo, dentro e fora do Maracanã. Assim fiz carreira, mas nunca esqueci de agradecer ao mano querido pela providencial apresentação. E retribuí como pude, depois apresentando o doce Odilon ao João Pinheiro Neto, meu amigo da Manchete, quando foi designado ministro do Trabalho pelo presidente João Goulart. Assim ele chegou ao topo da carreira de advogado do Banco do Brasil, graças à nossa interferência. Só se faz isso por quem verdadeiramente merece.

Jornal Dois Estados, 05/08/2021

 https://www.academia.org.br/artigos/o-inesquecivel-irmao-odilon

 

Arnaldo Niskier - Sétimo ocupante da Cadeira nº 18 da ABL, eleito em 22 de março de 1984, na sucessão de Peregrino Júnior e recebido em 17 de setembro de 1984 pela acadêmica Rachel de Queiroz. Recebeu os acadêmicos Murilo Melo Filho, Carlos Heitor Cony e Paulo Coelho. Presidiu a Academia Brasileira de Letras em 1998 e 1999.

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segunda-feira, 9 de agosto de 2021

FIDELCASTRISMO SEM FIDEL CASTRO – Plinio Corrêa de Oliveira

 


A polícia cubana reprime as manifestações contra a ditadura, em Havana no dia 13 de julho último

 

Plinio Corrêa de Oliveira

 

Segundo relatório que a Comissão Especial sobre Cuba apresentou à Associação Interamericana de Imprensa, reunida [em 1969] em Washington, Fidel Castro, premido por insucessos econômicos e diplomáticos de várias ordens, cogitou — para continuar no poder — mudar sua política em relação à América latina, propondo a esta um regime de coexistência pacífica.

Segundo aviso dado pela irmã de Fidel, Juanita Castro, à referida Comissão, o comunismo cubano, apoiado em “manobras de alguns setores norte-americanos e latino-americanos” empenhados em impedir ou pelo menos retardar a libertação do povo cubano do marxismo, pensaria até mesmo, para aliviar a situação, em derrubar o periclitante ditador, substituindo-o por algum outro líder vermelho.

Como é fácil ver, essa mudança propiciaria, fora de Cuba, a impressão de que o comunismo já não é tão feroz na Ilha. Essa impressão, por sua vez, criaria um clima favorável à coexistência. E a coexistência, afrouxando as tensões que estrangulam o comunismo cubano, proporcionaria a este uma sobrevida.

Assim, com Castro ou sem Castro, é para a coexistência, forçosamente velhaca e dolosa, que caminharia a Cuba vermelha.

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(Excertos do artigo de Plinio Corrêa de Oliveira na “Folha de S. Paulo”, em 9-11-1969)

https://www.abim.inf.br/fidelcastrismo-sem-fidel-castro/

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O GRAPIÚNA JORGE AMADO – Cyro de Mattos


           O Grapiúna Jorge Amado

Cyro de Mattos

 

             Em O Menino grapiúna (1981), pequeno livro de memórias, Jorge Amado destaca:

             Desbravador de terras, meu pai erguera sua casa mais além de Ferradas, povoado do jovem município de Itabuna, plantara cacau, a riqueza do mundo. Na época das grandes lutas.

             Mais adiante afirma:

           “Eu nasci em agosto de 1912 naquela mesma roça de cacau, de nome Auricídia”.

                        Nascera em 10 de agosto de 1912, na fazenda Auricídia, em Ferradas, um povoado do jovem município de Itabuna, que aparece com o seu comércio ativo no romance Terras de sem fim como um dos domínios do coronel Horácio. Neste romance, no capítulo Gestação de Cidades, quando se refere a Tabocas, Jorge Amado conta que o povoado pertencia ao município de São Jorge dos Ilhéus.

            Mas já muita gente quando escrevia cartas, não as datava mais de Tabocas e, sim, de Itabuna. E quando perguntavam a um morador dali, que estivesse de passeio em Ilhéus, de onde ele era, o homem respondia cheio de orgulho:

            - Sou de Itabuna

            Antigos fazendeiros, sobreviventes da fase heroica da conquista da terra, como Maneca Dantas e o coronel Horácio, personagens de Terras do sem fim, voltam no romance São Jorge dos Ilhéus a receber a empatia do ficcionista humaníssimo que é Jorge Amado. A figuração do Coronel Horácio já velho, quase cego, solitário, no meio dos cacaueiros, que plantara com muito sacrifício, alcança rica significação no romance.

            A recriação literária da civilização do cacau na Bahia tem sequência em Jorge Amado com o pequeno romance A descoberta da América pelos turcos ou de como o árabe Jamil Bichara, desbravador de florestas, de visita à cidade de Itabuna para dar abasto ao corpo, ali lhe ofereceram fortuna e casamento ou ainda os esponsais de Adma. Neste romance publicado em 1994, Jorge Amado volta a apresentar as marcas inconfundíveis de sua arte: fluência na escrita, facilidade de fabular e gozo pela vida. Recorre ao riso para contar a saga de sírios e libaneses no Sul da Bahia quando tinha início o plantio das roças de cacau e a construção de casas em vilarejos e pequenas cidades.

             Situações engraçadas predominam em A descoberta da América pelos turcos, romancinho armado com desventura e premonição de felicidade em seus episódios extraídos da vida real. Passagens com humor árabe acontecem na pequena cidade de Itabuna, agora aparecendo pela primeira vez com destaque na saga da civilização cacaueira baiana, definido como um dos filões ricos da novelística amadiana. Com o seu comercinho novo, o burburinho na estação do trem, igreja e capela. Hotel dos Lordes, cabarés, botequins, pensões de prostituta, fuxicaria na política, desmando dos jagunços armados, tropas carregadas de cacau nas ruas. A recente cidade de Itabuna como um burgo de penetração exibe-se sem retoques e ilusionismo, marca sua presença num cenário divertido da vidinha movimentada e turbulenta.

            Traduzido em mais de 40 idiomas, Jorge Amado é o escritor brasileiro que mais dá voz aos excluídos, os marginalizados pelo sistema organizado.  Sua prosa é prazerosa, sua mensagem de liberdade está expressa com a esperança na escrita irreverente, que faz pensar e, a um só tempo, rir. Esse grapiúna Jorge Amado, que nasceu numa fazenda de cacau, no Sul da Bahia, para se tornar um dos mais criativos contadores de histórias no mundo.

            Faleceu aos 6 de agosto de 2001, em Salvador.

 

 


Cyro de Mattos é poeta e ficcionista. Autor muitas vezes premiado, publicado também no estrangeiro. É membro das Academias de Letras da Bahia, Ilhéus e Itabuna. Na Academia de Letras de Itabuna ocupa a cadeira 6, que tem como patrono Jorge Amado.

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