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domingo, 18 de julho de 2021

PALAVRA DA SALVAÇÃO (237)

 


16º Domingo do Tempo Comum – 18/07/2021


Anúncio do Evangelho (Mc 6,30-34)

— O Senhor esteja convosco.

— Ele está no meio de nós.

— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Marcos.

— Glória a vós, Senhor.


Naquele tempo, os apóstolos reuniram-se com Jesus e contaram tudo o que haviam feito e ensinado.

Ele lhes disse: “Vinde sozinhos para um lugar deserto e descansai um pouco”. Havia, de fato, tanta gente chegando e saindo que não tinham tempo nem para comer.

Então foram sozinhos, de barco, para um lugar deserto e afastado. Muitos os viram partir e reconheceram que eram eles. Saindo de todas as cidades, correram a pé, e chegaram lá antes deles.

Ao desembarcar, Jesus viu uma numerosa multidão e teve compaixão, porque eram como ovelhas sem pastor. Começou, pois, a ensinar-lhes muitas coisas.

— Palavra da Salvação.

— Glória a vós, Senhor.

http://liturgia.cancaonova.com/pb/

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Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Padre Roger Araújo:


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Ensinamento com a marca da compaixão

 


Imagem: Tissot

 “Jesus viu uma numerosa multidão e teve compaixão (...)começou a ensinar-lhes muitas coisas”

Os discípulos regressaram da missão à qual Jesus os tinha enviado e Herodes acabara de assassinar João Batista. Jesus se retirou para descansar com os discípulos, do outro lado do lago. Precisavam tomar distância, conversar juntos e de maneira tranquila sobre esse momento dramático, em um espaço sossegado, mais íntimo e profundo, sem a urgência permanente que a pressão do povo introduzia em suas vidas e não tendo tempo nem para comer. Não eram pessoas das cidades importantes que procuravam Jesus. Diz o texto de Marcos que saíram “de todos os povoados” e foram “correndo”, com pressa, com expectativa e esperança, ansiosas para encontrar-se com Ele.

Ao ver a multidão, Jesus se comoveu até as entranhas, porque “andava como ovelhas sem pastor”, com fome, oprimida pelos impostos, desconcertada diante do presente e com medo difuso diante do futuro ameaçador e inseguro. E Ele começou a ensinar-lhes longamente, muitas coisas, de tal maneira que as horas foram passando sem se darem conta.

Jesus não só transmite um ensinamento, senão que cria uma relação nova com o povo e de uns com outros, segundo o espírito do Reino. Todos somos feitos para nos encontrar com um Tu inesgotável, que ilumine nossa existência e nos transforme inteiramente, de tal maneira que sejamos capazes de estabelecer relações novas com nossa própria história pessoal, com os outros e com toda a criação.

O ensinamento de Jesus revela-se, antes de tudo, como um encontro inspirador que o move a se aproximar de todas as pessoas, revelando-lhes a dignidade infinita que cada uma carrega dentro de si. Trata-se de um encontro que não vem envolvido em roupagens exóticas nem em rituais frios; sua grandeza se expressa numa proximidade tão simples e humana, onde a interação de sentimentos e afetos engrandece a todos.

Nesse sentido, o novo ensinamento de Jesus tem a marca da “compaixão”.  

Um dos sintomas de desumanização, que está revelando seu triste rosto no contexto atual, é o fato de deixar-nos de vibrar com o que os outros vivem, viver como alheios uns dos outros, blindar-nos uns frente aos outros..., ou seja, incapacitar-nos para a compaixão.

A compaixão está cada vez mais ausente da esfera pública e de nossas relações com o outro diferente e com o outro distante que sofre. Aqui está a chave da incapacidade de nossa sociedade para responder aos desafios atuais.

Vivemos num contexto social onde somos ameaçados por uma forma sutil de “a-patia”. Aqui a compaixão se quebra com excessiva facilidade, se atrofia e se transforma em “sem-paixão”. Com isso, nos nossas relações se desumanizam.

Tal “sem-compaixão” é uma enfermidade social, um problema coletivo, algo que vai se fechando mais e mais, de tal modo que as pessoas vibram com menos gente, em círculos íntimos, e unicamente com quem faz parte do seu “gueto”.

Acostumamo-nos com a lógica deste mundo, que esvazia nossa capacidade de nos surpreender ou de nos inquietar; impermeabilizamos o coração frente à magnitude das feridas sociais, conformando-nos em responder “não há nada que fazer”. Vão desaparecendo os horizontes de sentido que incluem a alteridade. Qualquer implicação com o outro implica suspeita, frieza, distancia, preconceito...

Não basta a sensibilidade ou o sentimento. Não ficamos indiferentes quando a dor dos outros entra em nossas salas de estar. Mas, tão rápido como chega, o sentimento se vai, e não nos mobiliza porque não tem pontos de conexão com a realidade da exclusão.

A “privatização da vida”, a sensação de impotência diante das tragédias, a distância midiática (informação fria da realidade que não nos afeta e não desperta nossa paixão), a distância física, a não-comunicação (não há tempo para falar e escutar, os eletrônicos povoam nossos silêncios, o ativismo impede dedicar-nos uns aos outros), a falta de motivação (por quê deixar o outro invadir minha vida ou encher-me de inquietação?), a dificuldade para compreender a diferença (transitamos nos círculos de iguais ou semelhantes, compartilhamos gostos, modas, inquietudes, status, temos problemas comuns e metas similares, usamos produtos parecidos, lemos os mesmos livros e vemos os mesmos filmes), etc...

Quem olha para as manchetes de notícias, as escolhas e comportamentos atuais, talvez se deixe convencer de que a compaixão está perdendo a referência no elenco dos sentimentos humanos mais nobre. Afinal, produtividade, eficiência, competitividade, revelam-se “pobres” de atitudes compassivas. 

No entanto, somos seguidores(as) do Compassivo; Jesus não passa “friamente” por nada. Ele não passa indiferente ao lado da fome, da doença, da exclusão, da morte..., não passa friamente ao lado das multidões que vivem como ovelhas sem pastor. Seu sentimento está sempre engajado: Ele é o homem da prontidão de sentimentos, que deixa transparecer uma profunda sensibilidade. Sente-se “tocado” pela dor e miséria.

E jamais fica em sentimentalismos supérfluos; sua empatia e simpatia extravasam-se em ações comandadas pela compaixão: ela flui e jorra de seu coração.

Os Evangelhos destacam os profundos sentimentos de humanidade, compaixão, empatia, ternura e solidariedade misericordiosa de Jesus.

Muitas vezes é mencionado que o Senhor foi “comovido até as entranhas” e teve “frêmitos de compaixão”; trata-se de sentimento eminentemente humano.

Até podemos fazer referência origem etimológica da palavra “compaixão”. E aqui é muito pouco o apelo ao vocábulo latino “cum-passio” (“padecer com”). É preciso um novo passo. Para “compaixão” é preciso ir até o grego antigo. Lá a compaixão está ligada às disposições maternas de conservar a vida. Naquela língua os termos “compaixão” e “útero” são equivalentes. Assim como o ventre materno acolhe a vida, envolve-a, protege-a e a faz nascer, algo semelhante fez o Senhor ao aproximar-se daquelas “ovelhas sem pastor”: suscitou-lhes a esperança com expressões de amor fraterno. Foi uma aproximação generativa, isto é, gerou impulsos para uma nova vida. 

Num mundo em que o anonimato impera e uma falta de compromisso com o outro parece predominar, é preciso ativar a compaixão, que começa pela capacidade de fixar o olhar nos rostos, desmontando os pré-juizos, ou pela possibilidade de perguntar ao outro por sua vida, seus sonhos, suas preocupações, seus desejos e sua dor. Procurar entender seus motivos sem passar logo a interpretá-los, a etiquetá-los ou a julgá-los. Aprender a escutar suas histórias e a acompanhar suas inquietações.

A moção de compaixão permite que do coração humano brote a “ex-centricidade”.

A experiência cristã não nos imuniza contra a contaminação do “amor próprio, querer e interesse”; mas a pulsão solidária e compassiva para com o pobre e excluído, permanente e profunda, se converte na fornalha que purifica a insaciável auto-afirmação e interesses que todos temos, e vai gestando, pouco a pouco, personalidades excêntricas, livres do domínio despótico do “ego”.

Texto bíblico:  Mc 6,30-34

Na oração: Ser compassivo implica buscar e ativar uma disposição em sair das fronteiras do conhecido e do habitual, dos circuitos familiares e das dinâmicas mais rotineiras, para entrar em sintonia com as pessoas que são vítimas de estruturas sociais e políticas que geram miséria, dor e exclusão.

- Compaixão ou indiferença? Eis o desafio! Qual delas se manifesta com mais constância em seu dia-a-dia?


Pe. Adroaldo Palaoro sj

 

https://centroloyola.org.br/revista/outras-palavras/espiritualidade/2366-ensinamento-com-a-marca-da-compaixao

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sexta-feira, 16 de julho de 2021

COM PALESTRA A ACADEMIA GRAPIÚNA DE LETRAS PROMOVE REUNIÃO ORDINÁRIA



A Academia Grapiúna de Letras (AGRAL), entidade fundada em 4 de abril de 2011, no último dia 9/7 (sexta-feira), às 19 horas, realizou reunião ordinária, através da plataforma Google Meet, em função da inviabilidade de reunião presencial, por causa das medidas restritivas acerca de distanciamento social, face à Pandemia Coronavírus (Covid – 19).

Além do acadêmico-presidente Samuel Leandro Oliveira de Mattos, que presidiu os trabalhos, a reunião foi prestigiada por significativa parcela dos acadêmicos que compõem a “Casa das Letras Grapiúna” e de inúmeros convidados.

Na oportunidade, Samuel Leandro agradeceu a presença dos confrades/confreiras e convidados (as) e em seguida, proferiu breve mais importantes considerações sobre a importância do mês de julho para a história da Bahia e, assim, citou o historiador Cid Teixeira (1924) que afirma que o Dois de Julho é a data da Independência do Brasil na Bahia – o 2 de julho –. A independência do Brasil, pois, somente se consolida com a derrota das tropas portuguesas na Batalha de Pirajá (em 8/11/1822). 

Em seguida, o acadêmico e professor Jailton Alves, declamou o poema intitulado “Bahia”, de autoria da confreira e poetisa Zélia Possidônio.

A palestra da noite, que virou tradição na atual gestão, ficou a cargo do professor-universitário, que além de membro da AGRAL, preside a Academia de Letras Jurídicas do Sul da Bahia (ALJUSBA), Paulo Sérgio dos Santos Bonfim, sob o título “Da solidão do 'cogito' à ética da alteridade: uma nova dimensão axiológica de 'ser' humano”, que pela qualidade do tema e do palestrante, mereceu elogios dos acadêmicos e convidados.


(Ascom da AGRAL)

quinta-feira, 15 de julho de 2021

ITABUNA CENTENÁRIA UM SONETO: Cigarra /Dualismo – Luiz Gonzaga Dias


                                             Cigarra

Luiz Gonzaga Dias

 

Para cantar nasceste! Alma inquieta,

Sempre vibrando em gozos e torturas.

Tua canção – lirismo de poeta,

Tem sons de tédio e brados de amargura!

 

Em pleno campo a tua voz afeta,

Algo de brando e muito de ternura.

Contudo dentro em nós, mágoa secreta,

Desperta ao teu cantar cheio de agrura.

 

Ah! Cigarra boêmia peregrina!

Ao poeta comparo a tua sina,

Quando te encontro assim preludiando...

 

Fado tão belo e igual não pode haver,

Pois teu destino é de cantar morrer,

E o do poeta é de morrer cantando!

 

........................

 


                                               Dualismo

Luiz Gonzaga Dias

 

Entre a cigarra boêmia e vagabunda,

E a previdente e prática formiga,

Eu admiro a primeira e da segunda

Imito a vida cheia de fadiga.

 

Sou a cigarra cujo canto inunda

De regozijo a criatura amiga;

E sou também formiga na fecunda

Luta insana a que a vida nos obriga.

 

Vibrar pelas campinas! Ser cigarra!

Prados cheios de luz, manhã festiva,

Liberdade... Prazer que ninguém narra!

 

A luta mata o sonho... A vida obriga,

À lida pelo pão. Alma cativa

Eu retorno tristonho a ser formiga.


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SÃO ROQUE - PATRONO CONTRA EPIDEMIAS E DOENÇAS CONTAGIOSAS - Plinio Maria Solimeo



Modelo de caridade e confiança, o santo muito auxiliou e operou milagres junto a pessoas infectadas durante uma epidemia na época medieval.

Plinio Maria Solimeo


          No final do século XIII e início do XIV a cidade de Montpellier, hoje francesa, pertencia ao reino de Mallorca, da casa real de Aragão. O governador da cidade, João, cuja esposa Libéria era também de ilustre família, gozava de todo o prestígio do cargo e de boa fortuna. Mas não tinham filhos. Com muita fé, importunaram os Céus para obtê-los, e foram ouvidos. Roque, o menino que lhes nasceu, trazia impressa no peito uma cruz vermelha, sinal de sua predestinação.

Busca da perfeição

         Herdeiro de uma família que dera ao conselho da cidade vários membros, Roque era de natural bondoso, afável e cordato, conquistando facilmente os corações. Amando a Deus sobre todas as coisas, é natural que tivesse também caridade extrema para com o próximo, e os pobres eram seus preferidos. Socorrê-los, ampará-los, fazer-lhes bem era sua maior alegria, pois neles via o Divino Salvador.

          Roque perdeu o pai aos 19 anos, e a mãe quase em seguida. Único herdeiro da considerável fortuna da família, herdava também o cargo de governador da cidade. Entretanto, de há muito vinha meditando o conselho evangélico: “Se queres ser perfeito, vai, vende teus bens, dá-os aos pobres, e terás um tesouro no Céu. Depois, vem e segue-me” (Mt 19, 21). E ele queria ser perfeito, por isso vendeu tudo o que conseguiu e distribuiu o produto aos pobres. Deixou a seu tio paterno a administração do que restou, cedendo-lhe também o direito de sucessão.

Atendendo as vítimas


         Com traje de peregrino e um bastão na mão, Roque partiu com destino a Roma, para visitar os lugares santos e decidir seu futuro.

          Andando sempre a pé, e alimentando-se com o que recebia de esmola, chegou a Aquapendente, nos Estados Pontifícios. Ali grassava a peste, causando grandes danos especialmente entre os pobres. Inspirado por Deus, deteve-se na cidade com o desejo de assistir os empestados. Para isso dirigiu-se ao hospital local. O administrador, vendo-o tão jovem e delicado, mostrou-lhe os inconvenientes do ofício, inclusive a probabilidade de contágio. Roque insistiu, acabando por ser aceito.

          Percorrendo as salas onde estavam os empestados, lavava-lhes as feridas, fazia-lhes o leito e prestava-lhes os serviços mais repugnantes. Suas palavras tinham a virtude de inundar de alegria aquelas almas tão provadas, devolvendo-lhes a esperança da salvação neste mundo e principalmente no outro. Fazia sobre as chagas o sinal da cruz, curando milagrosamente a muitos.

          Visitava as casas onde havia pessoas atingidas pela peste, e ali desempenhava o mesmo papel, com igual sucesso. Logo correu pela cidade a notícia de que um “anjo” tinha descido do Céu para socorrer os flagelados pela epidemia. Todos queriam vê-lo, tocá-lo, ter alguma coisa sua.

         Não procurando sua glória, mas a de Deus, Roque fugiu dessa popularidade, abandonando furtivamente a cidade.

Na Cidade Eterna

Parte do bastão de São Roque

         Dirigiu-se então para Cesena, na Lombardia, ao saber que a cidade fora também atingida pela peste. Prodigalizando aos flagelados os mesmos cuidados, conseguiu debelar a peste. Um afresco na catedral local registra essa benéfica passagem do apóstolo da caridade.

         Chegando a Roma, constatou que a epidemia a atingira da maneira mais inexorável. A cidade parecia deserta, todos temendo sair às ruas devido ao risco do contágio. O medo e o egoísmo endureciam os corações, e apenas alguns generosos cidadãos e magistrados dedicavam-se a atender os atingidos pelo peste. Os doentes em estado terminal eram postos nas ruas pelos próprios parentes, e não havia quem deles cuidasse.

         À vista desse lúgubre espetáculo, Roque pôs-se imediatamente ao trabalho, determinado a morrer, se necessário fosse. Sua caridade heroica não recuava diante de nenhum obstáculo ou perigo, por mais terrível que fosse. O mal diminuía por toda parte onde atuava, o contágio desaparecia. Viam-se doentes no estado mais desesperador voltar à vida, tão logo ele lhes fazia o sinal da cruz.

         Os empestados arrastavam-se até os locais onde o santo iria passar, para vê-lo, tocá-lo e receber a cura prodigiosa que se obtinha com sua presença. Os próprios cardeais da Santa Madre Igreja procuravam-no para que, traçando sobre eles o sinal da nossa salvação, fossem preservados do contágio da temível epidemia.

         Passado o surto da doença, permaneceu ele ainda em Roma durante três anos, pedindo esmolas nas portas dos palácios para levá-las aos tugúrios, visitando as basílicas e indo de hospital em hospital para levar o alívio a todos os contagiados que gemiam no leito de dor.

         Percorreu depois as cidades atingidas pela epidemia na campanha romana, prodigalizando os mesmos cuidados e operando os mesmos prodígios.

Vítima da caridade

         Chegando a Placência, foi logo ao hospital, onde atendeu os doentes. Mas teve que ir para o leito. Em sonho aparecera-lhe um anjo do Senhor, que lhe disse: “Servo bom e fiel, até agora suportaste grandes trabalhos por amor do Deus todo poderoso. É agora necessário que sofras também os mesmos males, para que padeças um pouco o muito que [Jesus] sofreu por ti”. Roque acordou ardendo em febre, sentindo na coxa esquerda uma dor tão violenta que era quase insuportável: fora atingido pela peste!

         Sofria tanto, que gritava de dor. Para não atrapalhar os outros doentes, arrastou-se até uma floresta vizinha, apoiado num bastão. Além da febre altíssima, devorava-o uma sede insaciável, o que o fez suplicar a Deus o socorro naquele transe. No mesmo instante surgiu uma fonte, quase a seus pés, na qual ele pôde saciar a sede, lavar suas feridas e refrescar-se.


Cachorro levava pão para São Roque doente

          Faltava-lhe o que comer, mas a Providência velava por ele. Havia perto do local umas casas de campo, nas quais se haviam refugiado habitantes da cidade para escapar do contágio que os flagelava. Numa delas, no momento em que o proprietário se punha à mesa, um de seus cães de caça pegou um pão na boca e saiu em disparada. Isso ocorreu nos dias seguintes. Intrigado, o seu dono Gotardo seguiu-o, descobrindo Roque (a quem o cão levava o alimento) estendido no solo, numa cabana abandonada. O santo pediu-lhe que permanecesse longe, para não ser contagiado.

          Gotardo voltou para casa, mas a sucessão de fatos não lhe saía da cabeça. Chegou à conclusão de que seu cão era mais caridoso que ele, pois socorria o doente, enquanto ele nada fazia. Iluminado pela graça, voltou à cabana, dizendo a Roque que estava determinado a ficar ali e a dele cuidar até que sarasse ou morresse. Vendo nisso a mão de Deus, o santo assentiu.

         Entretanto o cão não mais voltou, e agora eram duas bocas a alimentar, pois Gotardo estava determinado a não voltar para casa. O que fazer? Roque sugeriu-lhe então um ato heróico: pegasse seu manto de peregrino e fosse à cidade pedir pão de esmola para a sobrevivência de ambos, mostrando-lhe o valor que isso teria aos olhos de Deus. Resolvido a vencer-se a si mesmo, Gotardo aceitou jubiloso o conselho.

         Quando os conhecidos de Gotardo o viram na cidade vestido daquele modo e pedindo esmola, ficaram estupefatos. Uns riam-lhe na cara, outros lhe viravam o rosto, de modo que no fim da jornada só tinha conseguido de esmola dois pãezinhos. E assim foi até que Deus, nos seus desígnios insondáveis, curou o santo, inspirando-lhe também o desejo de voltar para sua cidade natal. Partiu depois de ver Gotardo instalado numa cabana como eremita. Ele também vendera todos os seus bens e distribuíra o produto aos pobres, determinado a procurar a perfeição. A respeito desse Gotardo tão generoso, muitos afirmam que morreu também em odor de santidade, embora se ignore a data de sua morte.

Rejeitado pelos seus


Relíquia do santo

         Quando Roque chegou a Montpellier, a cidade estava em guerra. Vestido pobremente como estava, e não querendo informar quem realmente era, foi tido como espião. Por ordem do governador da cidade — seu próprio tio, que não o reconheceu, tão mudado estava pela doença e privações — foi condenado à prisão perpétua. Permaneceu numa enxovia por cinco anos, acrescentando aos naturais sofrimentos outros que a penitência e a piedade lhe sugeriam. No fim desse tempo, entregou a Deus sua bela alma, purificada e embelezada pela caridade, no dia 16 de agosto de 1327, com apenas 32 anos de idade.

         Ao removerem seus restos mortais, os carcereiros descobriram a cruz em seu peito, por meio da qual foi revelada sua identidade. Foi extremo o pesar do governador, ao saber que daquele modo tão ignominioso morrera quem tinha o seu mesmo sangue, e que tão generosamente lhe dera o cargo que ocupava. Preparou-lhe os mais honrosos funerais.

         A fama das virtudes desse santo singular ultrapassaram as fronteiras da França, espalhando-se por toda a Europa. Passou a ser invocado como o patrono contra a peste e as feridas incuráveis.

         Narra-se que durante o Concílio de Constança (novembro de 1414 a abril de 1418, na Alemanha) uma terrível epidemia ameaçava interromper os trabalhos da magna assembléia. Por sugestão de um de seus membros, que deu como exemplo o que se fazia na França, foram prescritas rogativas e jejuns em honra do então venerável Roque. Uma imagem sua percorreu as ruas da cidade, e quase imediatamente cessou a epidemia.

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Fonte : Revista Catolicismo, Agosto/2010.

Obras Consultadas:

● Les Petits Bollandistes, Vies des Saints, Bloud et Barral, Paris, 1882, tomo IX, pp. 645 ss.

● Fr. Justo Perez de Urbel, O.S.B., Año Cristiano, tomo III, Ediciones Fax, Madri, 1945, pp. 369 ss.

● Edelvives, El Santo de Cada Dia, Editorial Luis Vives, Saragoça, 1948, tomo IV, pp. 473 ss.

● Gregory Clearly, Saint Roch, The Catholic Encyclopedia, Online version, www.newadvent.com.

https://www.abim.inf.br/sao-roque-patrono-contra-epidemias-e-doencas-contagiosas/

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terça-feira, 13 de julho de 2021

ELEVAÇÃO A CIDADE – Carlos Pereira Filho


Elevação a cidade

 

          Comércio, lavoura, desdobravam-se numa progressão vertiginosa, fazendo convergir para o município as atividades produtoras da vizinhança pois já naquele tempo, a cidade itabunense se esboçava como o centro do movimento da região cacaueira.

          Uma festa extraordinária se realizou com a elevação de Itabuna à categoria de cidade. Deixou de ser Tabocas para ser vila de Itabuna e passava de vila para cidade pela Lei número 807, de 28 de julho de 1910, graças à iniciativa dos senadores Arlindo Leone, Batista de Oliveira e da assinatura do Governador João Ferreira de Araújo Pinho.

          Rezam as crônicas que a sessão do conselho municipal para instalação se efetuou no dia 21 de agosto de 1910, com a presença dos conselheiros Tertuliano Guedes de Pinho, Antonio Gonçalves Brandão, Adolfo Maron e Américo Primitivo dos Santos. Falaram muitos oradores, depois que o presidente do conselho leu a lei e deu por instalada a cidade. Discursaram José Veríssimo da Silva Júnior, Filadelfo Almeida, Artur Nilo de Santana e dr. João Batista Soares Lopes.

          Mais de uma dezena de senhoras assistiu ao ato solene da instalação. Na rua, o povo vibrava, bebia e gritava, tendo um cidadão, de apelido “Cambucá”, cantando o Hino Nacional e dançando quadrilha à frente das filarmônicas. As filarmônicas tocaram seus dobrados e andaram em tréguas, em homenagem à grande data municipal.

          Os jornais “Correio de Itabuna”,  “A Brasa”, “O Itabuna” comemoraram o feito com artigos de fundo.

          “A Brasa”, de Genolino Amado, aproveitou a oportunidade para dizer que “aquela obra não era dos trânsfugas, dos traidores, dos hereges, dos ingratos. Aquela obra pertencia aos homens esclarecidos, que pensavam no bem público, na grandeza da terra, na independência de Itabuna”.

          O pior sucedeu lá para os lados das “Bananeiras”, rio acima. Um protegido da situação provocou um barulho e matou um empregado do Coronel Henrique Félix. Matou-o estupidamente com um tiro na cabeça e deu um viva a Itabuna.

          Dentro da vida acidentada, de intranquilidade pública, da falta de meios de comunicações, dentro de todas essas dificuldades, o município desenvolveu-se, levado, ajudado pelos seus trabalhadores, que eram os proprietários das suas terras plantadas de cacau.

          Não há na história do Estado o exemplo de um povo mais afeiçoado ao progresso. Para o itabunense não existia o perigo das doenças, dos homicídios, dos assaltos, das feras, das serpentes. Para ele só havia um objetivo: o trabalho criador da riqueza, as matas que derrubava e plantava cacau, os terrenos que coivarava e semeava o cereal, a execução, enfim, de um plano elaborado, riscado na consciência de cada cidadão que transformava a floresta infernal do cacau no paraíso das suas ambições. Assim é que o itabunense fez a riqueza da sua terra, a grandeza do seu município, lutando, desbravando, resistindo e insistindo até a vitória final. Quantos deles não morreram nessa imensa empreitada, quantos deles não sucumbiram nessa tarefa ciclópica de criar e organizar um dos mais importantes núcleos de produção e de renda do País?

          Firmino Alves estava pensando justamente no heroísmo da sua terra e do seu povo, quando recebeu de Ilhéus uma carta de Rodolfo de Melo Vieira, na qual avisava que havia chegado uma leva de sergipanos, e que, no dia seguinte a embarcaria para Itabuna. Rodolfo de Melo Vieira, comerciante conceituado no município ilheuense, era o agente consignatário de Firmino Alves na importação que fazia de sergipanos. Acabou de ler a carta e sorriu. Diante de si passavam muitos cavaleiros, montados em bons e tratados cavalos esquipando rio abaixo e rio acima, em comemoração àquele dia festivo.

          Olhou e sorriu. Entre os cavaleiros estavam Ramiro, João e Antonio, sergipanos que tinham chegado com os sacos às costas em 1904, para Tabocas. Para entrarem nas matas ele os havia suprido de carne, farinha, feijão, um machado, e um facão.

          Estavam agora afazendados, possuíam cavalos, corriam para baixo e para cima, com pose de coronéis fazendeiros, diferentes daquelas pálidas criaturas que saltaram dos barcos, amarelos e enjoados, com olhares humildes e interrogativos, em busca de trabalho e de pão, numa terra desconhecida.

 

 (TERRAS DE ITABUNA Capítulo XII)

Carlos Pereira Filho

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