Total de visualizações de página
domingo, 18 de abril de 2021
PALAVRA DA SALVAÇÃO (228)
3º Domingo da Páscoa – 18/04/2021
Anúncio do Evangelho (Lc 24,35-48)
— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo, + segundo Lucas.
— Glória a vós, Senhor.
Naquele tempo, os dois discípulos contaram o
que tinha acontecido no caminho, e como tinham reconhecido Jesus ao partir o
pão. Ainda estavam falando, quando
o próprio Jesus apareceu no meio deles e lhes disse: “A paz esteja convosco!”
Eles ficaram assustados e cheios de medo, pensando que
estavam vendo um fantasma. Mas Jesus disse: “Por que
estais preocupados, e por que tendes dúvidas no coração? Vede minhas mãos e meus pés: sou eu mesmo! Tocai em mim
e vede! Um fantasma não tem carne, nem ossos, como estais vendo que eu tenho”.
E, dizendo isso, Jesus mostrou-lhes as mãos e os pés.
Mas eles ainda não podiam acreditar, porque estavam muito
alegres e surpresos. Então Jesus disse: “Tendes aqui alguma coisa para comer?” Deram-lhe um pedaço de peixe assado. Ele o tomou e comeu diante deles.
Depois disse-lhes: “São estas as coisas que vos falei
quando ainda estava convosco: era preciso que se cumprisse tudo o que está
escrito sobre mim na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos”.
Então Jesus abriu a inteligência dos discípulos para
entenderem as Escrituras, e lhes disse: “Assim está
escrito: ‘O Cristo sofrerá e ressuscitará dos mortos ao terceiro dia, e no seu nome serão anunciados a conversão e o perdão
dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém’. Vós sereis testemunhas de tudo isso”.
— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor.
https://liturgia.cancaonova.com/pb/
---
Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Pe. Roger
Araújo:
---
Ressurreição: a
arte de recompor o que foi quebrado
“Vede minhas mãos e meus pés: sou eu mesmo!” (Lc
24,35-48)
Há uma arte milenar que consiste em recompor cerâmicas
quebradas; quando uma peça se rompe, os mestres desta arte concertam-na com
ouro, deixando a cicatriz da reconstrução completamente à vista e sem nenhuma
dissimulação, pois para eles uma peça reconstruída é um símbolo perfeito que
alia fortaleza, fragilidade e beleza.
Os primeiros cristãos decidiram também conservar e
transmitir os relatos das aparições do Ressuscitado sem ocultar as muitas
rupturas, feridas e marcas que o acompanharam durante sua vida, sobretudo
aquelas que lhe foram infligidas durante sua paixão e morte. Poderiam ter
adocicado, suavizado ou omitido diretamente os aspectos mais polêmicos de seus
ensinamentos ou os elementos mais humilhantes de seu dramático final. Pelo
contrário, deixaram as cicatrizes de suas feridas completamente à vista e sem
nenhuma dissimulação. Mas, fizeram isso não só para serem fiéis à história,
mas, sobretudo, para mostrar a fortaleza, a fragilidade e a beleza da
reconstrução realizada por Deus na ressurreição. Convinha mostrar o ouro que
preenche as fendas entre os membros feridos de Jesus, as marcas de sua entrega
nas cicatrizes do seu corpo.
O Pai, como experiente artesão, depois de enviar Jesus e de
sustentá-lo ao longo de sua missão, o eleva, o reconstrói e o ressuscita.
Essa é a razão pela qual, para os cristãos, o compromisso
com a restauração do mundo quebrado é um modo de atualizar a experiência da
ressurreição e de viver sua vocação. O(a) seguidor(a) de Jesus escuta o chamado
para unir-se ao labor do Deus-criador que, na ressurreição, recria de novo a
humanidade ferida.
Somente a ação criativa e contínua de Deus é capaz de
costurar novamente os pedaços de nossa história; ao mesmo tempo ela nos faz
descobrir a beleza e a harmonia desses mesmos pedaços. Tal qual o oleiro, o
Senhor nos cria e nos recria continuamente. Nada é desperdiçado. Suas mãos de
artista não jogam fora nenhum pedaço de nossa existência vivida, e sim, compõe
e recompõe continuamente, num desenho novo, o que nos foi dado viver. A
experiência de nossa própria fragilidade pode converter-se em
experiência de Deus, do Deus rico em misericórdia, e até o passado mais
fragmentado está aí para dizer que Ele desenhou nosso ser na palma de suas mãos
(cf. Is. 49, 14-26).
Assim, o passado em pedaços adquire um significado
totalmente diferente, e cada acontecimento se torna fragmento de um plano
amoroso, escrito no coração do Criador. O ato divino de costurar os pedaços de
nossa história não significa somente juntar os cacos, como se no passado
existissem somente derrotas e fracassos a serem anotados e aceitos. Deus acolhe
e dá um sentido novo a todas as vivências e experiências; só Ele consegue
juntar até as contradições e inconsistências da vida, dando coerência e unidade
ao todo existencial e, com isso, fortalecendo a identidade e originalidade de
cada um.
É um contínuo renascer; é um prolongamento da Criação: “faça-se
a luz”, “façamos o ser humano”.
Repetir o gesto criativo de Deus significa tomar nas mãos
os “fragmentos” daquilo que foi vivido, trazê-los das
profundezas onde sempre estiveram confinados, colocá-los à nossa frente,
tocá-los, revirá-los, contemplá-los, aceitá-los, revivê-los, recriá-los... Com
o ouro de nossa existência, aquecida pelo calor do Espírito de Deus,
podemos transformar nossas feridas, fracassos, crises, rupturas... em material
de uma nova experiência de vida. Não se trata de sufocar a vida, mas de
torná-la leve e luminosa, mantendo límpida a sua fonte, livrando-a da camada de
sentimentos negativos.
A experiência de encontro com o Ressuscitado nos dá força e
tranquilidade para empreender um mergulho dentro de nós mesmos. Ela vai
reordenando fatos, completando os vazios, corrigindo distorções, revivendo situações paralisadas,
conferindo sentimentos...
Ao nos situar na luz da ressurreição ampliamos o horizonte
de leitura de nossa vida; isso possibilita uma recomposição da nossa própria
vida e dá um novo significado aos acontecimentos vividos. As experiências do
passado não podem ser mudadas, mas a nova “releitura” pode mudar a
interpretação dada a elas. Tal experiência reconstrutora é para corajosos,
persistentes, vitais, amantes da verdade...
A experiência de encontro com o Ressuscitado é muito
positiva para o crescimento interior e nos mobiliza para retomar a “escrita” de
nossa história, agora com um olhar compassivo e acolhedor.
Deus colocou sua “assinatura” divina ali, nas
dobras do coração, mas só quem lê o interior descobre isso. Nas páginas
fragmentadas da nossa existência poderemos ler uma história de amor
profundo, uma história imortal O que não foi bem escrito no passado poderá ser
escrito de outra maneira no futuro...
Mas tudo é reconstruído e, com toda certeza, será publicado pela “editora
da vida”.
No evangelho deste 3o domingo da Páscoa, Jesus aparece
repentinamente aos discípulos; a primeira reação é de “medo pela surpresa” e
até “acreditavam ver um fantasma”.
Como se credencia Jesus para justificar sua identidade? De
uma maneira que deveria ser também a nossa. O que melhor define Jesus diante
dos discípulos medrosos é: em primeiro lugar, a “saudação de paz” (“a paz
esteja convosco”).
Em segundo lugar: mostra-lhes suas mãos e
seus pés; mãos e pés com o sinal dos cravos na Cruz. Recorda a eles
que é o mesmo Crucificado, agora Ressuscitado; mostra-lhes as mãos feridas como
marcas do amor que se doa, cura, abençoa, eleva... ; mostra-lhes os pés feridos
pelos caminhos que andou, pelos deslocamentos em direção aos últimos, e que terminaram
cravados na cruz.
A “carteira de identidade” de Jesus não é um cartão nem
papéis, mas suas mãos e pés chagados. É curioso que os grandes sinais que
tornam possível acreditar que Jesus está vivo sejam suas mãos e seus pés. É
curioso que os grandes sinais que nos fazem acreditar na Páscoa sejam as mãos e
os pés feridos e chagados.
Se nossas entranhas se compadecem, se nossas mãos se abrem,
se em nosso desalento levantamos os pés, se voltamos a confiar no outro, se o
nosso olhar se amplia..., então ressuscitamos como Jesus, como a Vida que se
expande, como a semente que se rompe...
Queres conhecer alguém? Olhe suas mãos e seus pés. Queres
conhecer o(a) verdadeiro seguidor(a? Olhe as chagas das mãos e dos pés; mãos e
pés que revelam o amor crucificado; mãos e pés que revelam o amor fiel até o
fim; mãos e pés que revelam uma vida doada para que outros possam viver.
“Mais vale uma chaga em nossas mãos e em nossos pés que
mil explicações sobre o amor”.
Texto bíblico: Lc 24,35-48
Na oração: O Cristo Ressuscitado nos mostra suas
mãos e pés glorificados, com as “marcas” de sua própria história de paixão
e de uma vida entregue em favor do Reino do Pai. Ele pede nossas mãos para que
sejam prolongamento das suas: mãos que abençoam, partilham, elevam, curam...Ele
pede nossos pés para que sejam o prolongamento dos seus: pés peregrinos que
quebram distâncias sociais, pés que rompem as fronteiras da indiferença e da
intolerância, pés que ativam presença solidária...; Ele pede nosso coração
“atravessado” pela lança do amor oblativo para contagiar a grande esperança e
combater o vírus da morte.
- Como ser presença “ressuscitada” no contexto atual onde
imperam o “genocídio” e a “cultura da morte”?
- Seu modo de ser e proceder é portador da paz pascal neste
ambiente social e religioso carregado de tanto ódio?
Pe. Adroaldo Palaoro sj
* * *
sábado, 17 de abril de 2021
A VISÃO DE UM ÍNDIO PARA O MOMENTO ATUAL
“Esse momento que a humanidade está vivendo agora pode ser encarado tanto como um portal quanto como um buraco.
A decisão de cair no buraco ou atravessar o portal cabe a vocês.
Se ficarem apenas lamentando o problema, consumindo as notícias 24 horas por
dia, com a energia baixa, nervosos o tempo todo, com pessimismo, irão cair no
buraco.
Mas se aproveitarem essa oportunidade para olharem para si,
repensarem a vida e a morte, cuidando de si e dos outros, aí estarão
atravessando o portal. Cuidem da casa de vocês, cuidem do corpo de vocês. Se
conectem ao lado espiritual de vocês.
Se conectem à egrégora espiritual de vocês.
Quando você está cuidando de um, está cuidando de todo o resto.
Não percam a dimensão espiritual dessa crise, tenham o olhar da águia, que lá
de cima, vê o todo, enxerga de forma mais ampla.
Existe uma demanda social nessa crise, mas existe também a
demanda espiritual.
As duas andam de mãos dadas. Sem a dimensão social, caímos no
fanatismo.
Mas sem a dimensão espiritual, caímos no pessimismo e na falta
de sentido.
Vocês foram preparados para atravessar essa crise.
Peguem a caixa de ferramenta de vocês e usem todas as
ferramentas que vocês têm ao seu dispor.
Aprendam sobre resistência com os povos indígenas e africanos:
nós sempre fomos e continuamos sendo exterminados.
Mas nem por isso paramos de cantar, dançar, fazer fogueira e
festa.
Não se sintam culpados por estarem alegres durante esse período
difícil.
Vocês não ajudam em nada ficando tristes e sem energia.
Vocês ajudam se emanarem coisas boas para o Universo agora.
É através da alegria que se resiste. Além disso, quando a
tempestade passar, vocês serão muito importantes na reconstrução desse novo
mundo.
Vocês precisam estar bem e fortes. E, para isso, não há outro
jeito senão se manter uma vibração bonita, alegre e luminosa.
Isso não tem nada a ver com alienação.
Isso é estratégia de resistência.
No xamanismo, existe um rito de passagem chamado busca da
visão.
Você fica alguns dias sozinhos na floresta, sem água, sem comida,
sem proteção.
Quando você atravessa esse portal, você adquire uma visão nova
do mundo, por ter enfrentado seus medos, suas dificuldades…
É o que está sendo solicitado a vocês.
Que aproveitem esse tempo para realizarem os seus rituais de
busca da visão.
Que mundo vocês querem construir para vocês?
Por hora, é o que vocês podem fazer: serenidade na tempestade.
Se acalmem e rezem.
Todos os dias. Estabeleçam uma rotina de encontro com o sagrado todos
os dias.
Emanem coisas boas, o que vocês emanam agora é o mais
importante".
E cantem, dancem, resistam através da arte, da alegria, da fé e
do amor.”
️
* * *
quinta-feira, 15 de abril de 2021
NOSSAS LEIS – Gibran Khalil Gibran
Nossas Leis
Então, um
advogado disse: “Que pensas de nossas Leis, mestre?”
E ele
respondeu:
“Vós vos
deleitais em estabelecer leis.
Mas vos
deleitais ainda mais em violá-las.
Tais como
crianças brincando à beira do oceano edificam, pacientemente, torres de areia
e, logo em seguida, as destroem entre risadas.
Mas enquanto
edificais vossas torres de areia, o oceano atira mais areia à praia,
E quando vós
as destruís, o oceano ri convosco.
Na verdade,
o oceano sempre ri com os inocentes.
Mas que
dizer daqueles para quem a vida não é um oceano, nem as leis baixadas pelo
homem, torres de areia,
Aqueles para
quem a vida é uma pedra, e a lei, um cinzel com o qual procuram esculpi-la à
sua própria imagem?
Que dizer do
aleijado que odeia os bailarinos?
E do boi que
gosta do seu jugo e considera o gamo e o cervo seres extraviados e vagabundos?
E da
serpente idosa que não pode mais largar a pele e qualifica todas as outras de
desnudas e impudicas?
E daquele
que chega cedo ao banquete de núpcias e, depois, saciado e esgotado, segue seu
caminho, dizendo que todo festim é uma violação da lei e todo festejador, um
culpado?
Que direi
desses todos, senão que eles também se mantêm na claridade do sol, mas de
costas para o sol?
Veem somente
suas sombras, e suas sombras são suas leis.
E que é o
sol para eles senão um lançador de sombras?
E que é
reconhecer as leis senão curvar-se e delinear essas sombras sobre a terra?
Vós, porém,
que caminhais encarando o sol, que imagens desenhadas sobe a terra vos podem
reter?
Vós que
viajais com o vento, que cata-vento orientará vosso curso?
Que lei
humana vos poderá atar quando quebrardes vosso jugo, mas não à porta de uma
prisão humana?
Que leis
temereis se dançardes sem tropeças em nenhuma cadeia de ferro feita pelo homem?
E quem vos
poderá acusar em juízo se rasgais vossas vestimentas, sem as atirar no caminho
alheio?
Povo de
Orphalese, podeis abafar o tambor e afrouxar as cordas da lira, mas quem poderá
proibir à calhandra de cantar?”
(O PROFETA)
Gibran Khalil Gibran
..................
Gibran Khalil Gibran - Poeta libanês, viveu na França e nos EUA. Também foi um aclamado pintor. Seus textos apresentam a beleza da alma humana e da Natureza, num estilo belo, místico, conseguindo com simplicidade explicar os segredos da vida, da alegria, da justiça, do amor, da verdade.
---------
VIDA E OBRA DE GIBRAN (4)
1908-1910 em Paris. Estuda na Académie Julien. Trabalha
freneticamente. Frequenta museus, exposições,
bibliotecas. Conhece Auguste Rodin, que lhe prediz um grande futuro. Uma de
suas telas é escolhida para a Exposição das Belas-Artes de 1910. Neste ínterim,
morrem seu pai e sua irmã Sultane.
* * *
quarta-feira, 14 de abril de 2021
DOSTOIEVSKI - Marco Lucchesi
Dostoievski
A narrativa em Dostoievski perde para o abismo do diálogo. A
voz das criaturas é a raiz. Intensidade radical. Como Os demônios,
extremada. 360º de partitura. Imagem especular. Fusão e simbiose.
Para Baktin, a polifonia. Para Kantor, a fronteira.
*
Na pane do sistema racional, o paradoxo é probatório. Também a teologia negativa e a reiterada floração do inatingível.
*
Viacheslav Ivanov: “Como se víssemos a tragédia numa lente
de aumento. Torna-se clara aquela lei do ritmo épico em Dostoievski, que
corresponde à essência da tragédia, lei que gradualmente adiciona o peso dos
eventos e transforma suas criações num sistema de músculos e nervos
tensionados”.
*
Sou visitado por um rosto, ubíquo e transversal. Não mais
que um rosto vazio e sem alma. A outra parte que de mim não sabe. Goliádkin!
*
Berdiaev: “Um turbilhão da natureza humana apaixonada e
ardente nos leva ao misterioso, ao profundamente enigmático e insondável
dessa natureza. Aqui Dostoievski revela a qualidade infinita e sem fundo da
natureza humana. Muito embora nas profundezas, o rosto e a imagem do homem
permanecem”.
*
Raskolnikov e a transmutação dos valores. Além do bem e do
mal. Vazio de sua terrível inquietação. Nietzsche reconheceu um irmão de sangue
em Dostoievski.
*
Zossima e a tradição do monte Atos. Camadas abissais. Esplendor metafísico. Como Ésquilo e Kirkegaard, quando diz: “é terrível cair nas mãos do Deus vivo”.
*
Dostoievski, enquanto transição da modernidade equívoca e
tardia.
Revista Humanitas, 31/03/2021
https://www.academia.org.br/artigos/dostoievski
Marco Lucchesi - Sétimo ocupante da cadeira nº 15 da ABL,
eleito em 3 de março de 2011, na sucessão de Pe. Fernando Bastos de Ávila , foi
recebido em 20 de maio de 2011 pelo Acadêmico Tarcísio Padilha. Foi eleito
Presidente da ABL para o exercício de 2018.
* * *
segunda-feira, 12 de abril de 2021
A POESIA COM AFETO DE AFONSO MANTA - Cyro de Mattos
A Poesia com Afeto de Afonso Manta
Cyro de Mattos
Antologia Poética (2013), de Afonso Manta, seleção, prefácio e organização de Ruy Espinheira Filho, é uma publicação da ALBA, editora da Assembleia Legislativa da Bahia, em parceria com a Academia de Letras da Bahia. O livro está inserido na Coleção Mestres da Literatura Baiana. Pela primeira vez um livro do poeta de Poções recebe uma publicação digna de sua lírica. Seus livros tiveram edições por gráficas e editoras pequenas do interior, fazendo com isso que sua poesia circulasse no ambiente de amigos e poucos leitores. Tornaram-se raridades bibliográficas.
Essa Antologia Poética agora faz jus ao conhecimento e
expansão de um poeta que tem um brilho inusitado, capaz de enlouquecer as
flores, aprofundar as cores, tornando-se, no trânsito da ternura, como um anjo
em voo do infinito. Chegou a nos dizer
que quando essa noite passar com o seu manto de trevas, numa “sinistra gaiola
comendo o alpiste do dono... com seus frios caracóis de angústia e
desesperança, praga dos que vivem sós... faz teu canto na manhã, que todo dia
traz luz. E não é vã, não é vã.”
É fácil perceber que a poesia de Afonso Manta flui pelos
caminhos da esperança, da ternura expressa por uma linguagem simples longe do
vulgar, ao invés disso se apresentando com a palavra tomada emprestada ao
encantamento. Toca-nos sem arroubos, nos versos simples sem pieguismo, encanta
o pensamento e o sentimento com leveza, dizendo com nitidez sobre a tristeza
diáfana. Nos momentos de sonho produz mel e ingenuidade, que confortam e
possibilitam uma carícia de brisa. Em muitos casos usa a rima, a estrofe
apoiada no verso que soa e fere a vida através das notas da contradição humana.
Mostra a alma fragilizada de um homem sensitivo, que ao se ver no espelho
flagra como está cansado de tudo.
Se a poesia no Brasil repercute no século vinte com o que
tem de melhor na clave da solidão, intensa nos conflitos, em questões
complexas, em Afonso Manta conserva-se nos ares ingênuos, embora de
interioridades profundas, como na explícita certeza desses versos:
Vale a pena viver,
mesmo sofrendo.
Eu mesmo vivo assim, triste gemendo,
Escravo da ilusão e da beleza.
Essa é a maneira do poeta estar na vida com sinceridade, ter
como base, apesar da dor, as construções de conteúdo inocente, guardadas pela
alma de um cantor prisioneiro do menino, bebedor de umas doses de
extravagância, mas sem maldades, a exalar a consciência do dever cumprido,
banhar-se com as luzes de uma musa portadora de canários verdes na varanda.
Entre a ordem e a vertigem, do viajante que transita para o último gemido,
Afonso Manta tece seus poemas de versos harmoniosos. Escreve uma poesia clara, com
a alma de um poeta que só precisa de um pouco de sonho para equilibrar-se em
seus rumos e rumores loucos, de “estrelas na testa de rapaz” para que suas
angústias fiquem serenas. Só assim, com a mansidão das amargas, o poeta se dará
por contente.
Se tudo isso aqui onde vivemos é ilusão, para quem queira
ler e ouvir a poesia de Afonso Manta vai saber como esse poeta foi um homem
digno de seu estar no mundo, corajoso conforta-nos quando assume sua maneira de
andar sozinho com os seus versos delicados para o alimento da alma, intenso de
saberes, sustentando-o como um homem real, que transita na vida pela rua da
solidão e do sonho com matizes do lilás. Vai senti-lo em dado momento aos
frangalhos, mas consciente de que não precisa ser rico, nem ter crédito na praça,
pois convive com o vento que o agita interior e largado. No poema “O Realejo do
Vinho”, esse poeta sabe como a vida é falha, mas basta quando o torna com os
cabelos devastados, rosto, sorriso e palavra.
Na fatura do soneto Afonso Manta é modelar, raro inventor de
sentimentos na frase iluminada. Qualquer
um deles surpreende pela simplicidade da rima, condução nítida da ideia, o
fluxo espontâneo que nos torna cúmplice da palavra simulada com emoção e
simbolismo. Libertos de sua camisa de
força imposta pelo formato clássico, vemos como tamanha é a habilidade de sua
elaboração por um mestre, que não se veste com a roupa compositiva de sua
estrutura fixa. Faz com fluência que transmitam sentimentos doloridos, os ares
do que é triste, que se encontrará sempre na paz do espírito redimido. Assim o poeta procede em “O Rei Afonso”.
Aqui, o rei Afonso, o Derradeiro,
Vê naus que não são mais as naus do porto.
São já as naus febris do sonho morto
No mar tão vasto como traiçoeiro.
Aqui, o mesmo rei, também chamado
Restaurador do Império Agonizante,
Perde para o inimigo, doravante,
O reino duramente conquistado.
O rei, flor-de-lis santa e vulnerável
Ferido pela dor inevitável,
Perdoa a punhalada do assassino
E morre sem palavra de desgosto,
Mostrando paz até o fim no rosto,
A mesma paz dos tempos de menino...
Louco esse poeta vestido do pôr do sol, mas que tinha uma
rosa na cabeça? Bicho estranho que não
queria morrer enquanto existisse estrelas cintilando no céu e o pássaro
cantando? Homem da lua, triste divagando pelas ruas da Bahia? O que tocava o
violino nas solidões de sua cidade natal com as cordas do sorriso? Ousado
guerreiro, dispersivo, que tudo arriscava num momento veloz e passageiro? Um
detentor de humanas paixões, que morreu sereno e forte?
Era poeta que tinha
um olhar vago, de mendigo e sonhador, de aspecto excessivo de profeta. Banhava-se nas águas da esperança. Não há
quem não desperte enriquecido quando se entra em contato com a sua lírica de
alto nível, não se deixe encantar com o prontuário iluminado onde não morre a
solidão solidária, imaginada nos toques do amor. Quanta simplicidade em versos que enleiam,
rumorejam com generosidade, primam por relâmpagos que nos mostram da vida
verdades. Poeta de alma com doces soluços, brilhantes abraços da cor dos
lírios, dos jasmins com seus inebriantes perfumes. Oferta, na chuva que bate
nas orelhas, incandescentes ternuras naquele lugar onde a esperança não
morre.
No poema “De Um Rabisco”, de fino humor, os versos como se
fossem para serem lidos em dia de riso, Afonso Manta alerta:
Há que deixar em paz o poema.
Ou o poema nos afeta.
O poema há de ser perfeito.
Ou ele come o poeta.
No seu caso, o poema, por ser perfeito, alimenta a alma, comete a catarse de curar como o melhor alento.
Leitura Sugerida
*Antologia Poética, Afonso Manta, Editora da Assembleia
Legislativa do Estado da Bahia – ALBA, em parceria com a Academia de Letras da
Bahia, Coleção Mestres da Literatura Baiana, organização, seleção e prefácio de
Ruy Espinheira Filho, Salvador, 2013.
Cyro de Mattos é escritor e poeta. Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México. Publicado nos Estados Unidos, Dinamarca, Rússia, Portugal, Espanha, Itália, França e Alemanha. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia. Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual de Santa Cruz - UESC.
***
domingo, 11 de abril de 2021
VACINA CONTRA MALDIÇÃO BRASILEIRA – Péricles Capanema
Variante perigosa. O Brasil padece uma espécie de bruxedo
(falo abaixo dele) entre vários, e para quem quer bem ao país, é bom
conhecê-los. Com efeito, em qualquer âmbito, saber das debilidades constitui
prudência indispensável para a ação eficaz. O cardeal Mazzarino (1602-1661),
grande político, começa seu livro “Breviário dos Políticos” apontando como
primeira providência o discernimento das próprias fraquezas — físicas, mentais,
morais. Mapeá-las e então neutralizá-las no possível. “Pergunta-te em que
ocasiões tens tendência a perder o controle sobre ti mesmo, a deixar-te levar
para desvios de linguagem e de conduta”. Vale para o indivíduo, vale para
famílias, vale para nações (para o Brasil, naturalmente).
Curas na raiz. Falava de uma espécie de maldição, sortilégio
potente que está na raiz de persistentes desgraças nossas. Vem de longe, aqui
está ele: temos o vezo de escolher mal nossos representantes. E depois, povo,
imprensa e academia se dedicam ao esporte nacional de malhar o Judas, no caso,
os políticos. Na próxima eleição, comporta-se igual o eleitorado, escolhe mal
de novo. Ou piora, para lembrar a lamentação desiludida de Ulysses
Guimarães: “Se você acha que o atual Congresso é ruim, espere pelo
próximo, vai ser pior”. Inescapável, pelo menos boa parte da culpa respinga no
representado que passou descuidado a procuração para o representante errado.
Vai mudar? Dá para exorcizar seus efeitos? Difícil. Referida situação
permanecerá a menos que mude a postura do público, aconteça o saneamento das
raízes para então os galhos crescerem saudáveis e a árvore dar bons frutos. Que
venha a maturidade, generalize-se uma educação qualificada, sejam cultivados a
honestidade e os hábitos de reflexão. Nada disso será possível sem famílias
revigoradas por forte senso religioso. A solução vai por aí. Quem descura do
aperfeiçoamento das famílias, impulsiona o retrocesso social. O “Estado de S.
Paulo” (21-3-21) traz comentário a respeito da mencionada situação. Ouvido pela
reportagem, influente deputado federal do PL, partido do Centrão, disse “de
São Paulo para baixo, o PL é Bolsonaro, para cima é Lula”. Situações
assim, sinais prenunciativos de desgraças futuras, pejadas de descarado
oportunismo, ovante primarismo ideológico e deprimente falta de princípios,
repetem-se Brasil afora.
Francisco Luís da Silva Campos (1891-1968)
Critérios de seleção. Trata-se em especial de critérios
políticos, mas se refletem em outras áreas. Recordo aqui um político, Francisco
Campos (1891-1968), o Chico Ciência, destacada presença no Brasil décadas atrás
e cuja figura, por contraste, evidencia o enorme tombo na representação que
sofremos ao longo do tempo. Pertencia, é certo, ao Brasil que contava (e quais
são os critérios decisivos para contar no Brasil de hoje?). Teria defeitos e
virtudes da época, foi homem de posições até hoje combatidas e com bons
motivos, mas representou com traços fortes um tipo de personalidade que
ascendia à direção do país. Outros homens públicos poderiam igualmente servir
de ilustração; aconteceu, contudo, cair sob meus olhos discurso do prócer
mineiro.
Gente com cabedal relevante e autêntico era chamada ao
governo, sufragada, eleita. Oswaldo Aranha foi ainda exemplo entre muitos. É um
primeiro critério, nascido de bom senso milenar, sobre o qual se pode construir
solidamente. É, em suma, a atração para a vida pública dos mais capazes nos
espaços da inteligência, elite autêntica com amplas condições de trabalhar pelo
bem comum e assim promover a inclusão social com viés de alta — ascensão
judiciosa, enérgica e ampla. Foi outrora amplamente o caso no Brasil. Quando,
pelo contrário, pululam nos postos de mando figuras sem nenhuma qualidade para
relevo real, hoje tantas vezes nosso caso, não há governo que preste e possa
dar certo. Inexiste até mesmo a possibilidade da consciência objetiva dos
problemas mais importantes e urgentes. “O grande acontecimento do século
foi a ascensão espantosa e fulminante do idiota”, escreveu Nelson
Rodrigues.
Exemplo entre muitos. Professor de Direito Constitucional,
Chico Campos foi deputado estadual, deputado federal, secretário, ministro.
Logo depois da Revolução de 1930, no governo provisório, ocupou a pasta da
Educação entre 1930 e 1932 — o primeiro ministro da Educação do Brasil. Nesta
condição, recebeu convite para paraninfar turma da Faculdade de Ciências
Econômicas em Salvador. Falou longamente sobre administração e economia, era o
prato de resistência, mas antes apresentou, e era simples discurso de
paraninfo, rápida visão de conjunto sobre características da Bahia e sua
inserção no Brasil. Aqui temos perfume civilizador que se dispersou, fruto de
ambiente que continha princípios ativos de aperfeiçoamento. Sumiu por inteiro
dos rarefeitos ares oficiais e de outros ares a cortesia superior, constatada a
seguir, esteada na observação luminosa do real — impulso de progresso benéfico.
Vinha de Minas o ministro e encontrava na Bahia “a mesma simplicidade, o
mesmo acolhimento, a mesma doçura, amenidade e gentileza de maneiras”.
Percebia, contudo, uma nota diferente: “a graça e o sabor”. Os
frutos “são na Bahia mais doces, mais saborosos e mais belos”.
Prossegue: “Aqui raiou a madrugada do Brasil. No berço
da Bahia embalou-se a sua infância”. Amplia: “Os brasileiros revemos
na Bahia o Brasil, os seus traços característicos e significativos, aqueles que
as mãos e o espírito baianos imprimiram no Brasil, os traços que nos definem
como nação, as linhas da inteligência e do caráter”. Caminha para o fim da
abertura: “Nessa terra de bênçãos e de paz”, de “gênio pacífico”, ele via “as
tradicionais virtudes de sobriedade, de reflexão e de firmeza”, “ancoradas
nesse misterioso e insondável subsolo da alma baiana”. E a conclui: “Aqui,
nessa luminosa Bahia, é onde se sente, em toda a amplitude de sua onda, a
vibração da alma brasileira, no ritmo da língua, no compasso da música, na
expressão dos sentimentos cívicos, de maneira a se poder dizer que a Bahia é o
padrão do Brasil”. Realçou: “Nela se encontram, nas suas formas típicas,
as categorias espirituais, por cujo intermédio se exprimem e se traduzem
inteligência e coração do Brasil”.
Algum dos leitores leu ou ouviu algum dia texto ou discurso
de político atual que se aproxime dessa introdução de Francisco Campos em
simples discurso de paraninfo? Falava em perfume civilizatório; é mais, é
impulso civilizatório; vidas de pensamento com tônus desse naipe não só
aperfeiçoam personalidades; levam, em ondas cada vez mais extensas, ao
aproveitamento das qualidades e oportunidades jacentes na população. Sua perda,
evaporação trágica, dentro do desapreço amazônico, representou no Brasil
retrocesso intelectual e baixa na educação social.
Desorientação. “Quos Jupiter vult perdere dementat
prius” — Júpiter enlouquece primeiro os que deseja perder. Um país que tem
dirigentes com o gosto do escangalho, arrogantemente toscos, useiros e vezeiros
de expressões chulas, mesmos nos mais solenes ambientes, está virtualmente
enlouquecido por Júpiter, pisa estrada que desemboca em abismo.
Estrada abandonada. Coetâneo de Francisco Campos na
vida pública foi Gilberto Amado (1887-1969), também escol da inteligência
nacional. Ele coloca como condição fundamental da democracia representativa, a
escolha dos melhores. Só assim o governo pode agir com energia na prossecução
do bem comum. Leciona o político sergipano: “É um axioma de ciência
política, verdadeiro em todos os regimes — no regime democrático como nos
demais — que a sociedade deve ser dirigida pelos mais avisados (sages), pelos
mais inteligentes, pelos mais capazes, pelos melhores, em uma palavra pela
elite”. Estuda então os meios para que tal elite “possa aceder à direção
da sociedade”. Não é o caso de deles tratar aqui, iria muito longe.
O deslumbramento beócio por concepções falseadas de
democracia, contrafações tóxicas do conceito, na prática cadinho contínuo para
toda sorte de contubérnios demolidores, nos fez retroagir. Um avanço, começo,
seria noções mais claras do problema: conceitos e realidades na vida social. Já
estivemos a respeito em situação bem melhor, nos anos do Império e em épocas do
período republicano. Em rápidas pinceladas um exemplo vai acima. Foi minha
intenção, no presente texto, pôr um grãozinho em tal esforço.
https://www.abim.inf.br/vacina-contra-maldicao-brasileira/












