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domingo, 11 de abril de 2021

VACINA CONTRA MALDIÇÃO BRASILEIRA – Péricles Capanema



Variante perigosa. O Brasil padece uma espécie de bruxedo (falo abaixo dele) entre vários, e para quem quer bem ao país, é bom conhecê-los. Com efeito, em qualquer âmbito, saber das debilidades constitui prudência indispensável para a ação eficaz. O cardeal Mazzarino (1602-1661), grande político, começa seu livro “Breviário dos Políticos” apontando como primeira providência o discernimento das próprias fraquezas — físicas, mentais, morais. Mapeá-las e então neutralizá-las no possível. “Pergunta-te em que ocasiões tens tendência a perder o controle sobre ti mesmo, a deixar-te levar para desvios de linguagem e de conduta”. Vale para o indivíduo, vale para famílias, vale para nações (para o Brasil, naturalmente).

Curas na raiz. Falava de uma espécie de maldição, sortilégio potente que está na raiz de persistentes desgraças nossas. Vem de longe, aqui está ele: temos o vezo de escolher mal nossos representantes. E depois, povo, imprensa e academia se dedicam ao esporte nacional de malhar o Judas, no caso, os políticos. Na próxima eleição, comporta-se igual o eleitorado, escolhe mal de novo. Ou piora, para lembrar a lamentação desiludida de Ulysses Guimarães: “Se você acha que o atual Congresso é ruim, espere pelo próximo, vai ser pior”. Inescapável, pelo menos boa parte da culpa respinga no representado que passou descuidado a procuração para o representante errado. Vai mudar? Dá para exorcizar seus efeitos? Difícil. Referida situação permanecerá a menos que mude a postura do público, aconteça o saneamento das raízes para então os galhos crescerem saudáveis e a árvore dar bons frutos. Que venha a maturidade, generalize-se uma educação qualificada, sejam cultivados a honestidade e os hábitos de reflexão. Nada disso será possível sem famílias revigoradas por forte senso religioso. A solução vai por aí. Quem descura do aperfeiçoamento das famílias, impulsiona o retrocesso social. O “Estado de S. Paulo” (21-3-21) traz comentário a respeito da mencionada situação. Ouvido pela reportagem, influente deputado federal do PL, partido do Centrão, disse “de São Paulo para baixo, o PL é Bolsonaro, para cima é Lula”. Situações assim, sinais prenunciativos de desgraças futuras, pejadas de descarado oportunismo, ovante primarismo ideológico e deprimente falta de princípios, repetem-se Brasil afora.



Francisco Luís da Silva Campos  (1891-1968)

Critérios de seleção. Trata-se em especial de critérios políticos, mas se refletem em outras áreas. Recordo aqui um político, Francisco Campos (1891-1968), o Chico Ciência, destacada presença no Brasil décadas atrás e cuja figura, por contraste, evidencia o enorme tombo na representação que sofremos ao longo do tempo. Pertencia, é certo, ao Brasil que contava (e quais são os critérios decisivos para contar no Brasil de hoje?). Teria defeitos e virtudes da época, foi homem de posições até hoje combatidas e com bons motivos, mas representou com traços fortes um tipo de personalidade que ascendia à direção do país. Outros homens públicos poderiam igualmente servir de ilustração; aconteceu, contudo, cair sob meus olhos discurso do prócer mineiro.

Gente com cabedal relevante e autêntico era chamada ao governo, sufragada, eleita. Oswaldo Aranha foi ainda exemplo entre muitos. É um primeiro critério, nascido de bom senso milenar, sobre o qual se pode construir solidamente. É, em suma, a atração para a vida pública dos mais capazes nos espaços da inteligência, elite autêntica com amplas condições de trabalhar pelo bem comum e assim promover a inclusão social com viés de alta — ascensão judiciosa, enérgica e ampla. Foi outrora amplamente o caso no Brasil. Quando, pelo contrário, pululam nos postos de mando figuras sem nenhuma qualidade para relevo real, hoje tantas vezes nosso caso, não há governo que preste e possa dar certo. Inexiste até mesmo a possibilidade da consciência objetiva dos problemas mais importantes e urgentes. “O grande acontecimento do século foi a ascensão espantosa e fulminante do idiota”, escreveu Nelson Rodrigues.

Exemplo entre muitos. Professor de Direito Constitucional, Chico Campos foi deputado estadual, deputado federal, secretário, ministro. Logo depois da Revolução de 1930, no governo provisório, ocupou a pasta da Educação entre 1930 e 1932 — o primeiro ministro da Educação do Brasil. Nesta condição, recebeu convite para paraninfar turma da Faculdade de Ciências Econômicas em Salvador. Falou longamente sobre administração e economia, era o prato de resistência, mas antes apresentou, e era simples discurso de paraninfo, rápida visão de conjunto sobre características da Bahia e sua inserção no Brasil. Aqui temos perfume civilizador que se dispersou, fruto de ambiente que continha princípios ativos de aperfeiçoamento. Sumiu por inteiro dos rarefeitos ares oficiais e de outros ares a cortesia superior, constatada a seguir, esteada na observação luminosa do real — impulso de progresso benéfico. Vinha de Minas o ministro e encontrava na Bahia “a mesma simplicidade, o mesmo acolhimento, a mesma doçura, amenidade e gentileza de maneiras”. Percebia, contudo, uma nota diferente: “a graça e o sabor”. Os frutos “são na Bahia mais doces, mais saborosos e mais belos”.

Prossegue: “Aqui raiou a madrugada do Brasil. No berço da Bahia embalou-se a sua infância”. Amplia: “Os brasileiros revemos na Bahia o Brasil, os seus traços característicos e significativos, aqueles que as mãos e o espírito baianos imprimiram no Brasil, os traços que nos definem como nação, as linhas da inteligência e do caráter”. Caminha para o fim da abertura: “Nessa terra de bênçãos e de paz”, de “gênio pacífico”, ele via “as tradicionais virtudes de sobriedade, de reflexão e de firmeza”, “ancoradas nesse misterioso e insondável subsolo da alma baiana”. E a conclui: “Aqui, nessa luminosa Bahia, é onde se sente, em toda a amplitude de sua onda, a vibração da alma brasileira, no ritmo da língua, no compasso da música, na expressão dos sentimentos cívicos, de maneira a se poder dizer que a Bahia é o padrão do Brasil”. Realçou: “Nela se encontram, nas suas formas típicas, as categorias espirituais, por cujo intermédio se exprimem e se traduzem inteligência e coração do Brasil”.

Algum dos leitores leu ou ouviu algum dia texto ou discurso de político atual que se aproxime dessa introdução de Francisco Campos em simples discurso de paraninfo? Falava em perfume civilizatório; é mais, é impulso civilizatório; vidas de pensamento com tônus desse naipe não só aperfeiçoam personalidades; levam, em ondas cada vez mais extensas, ao aproveitamento das qualidades e oportunidades jacentes na população. Sua perda, evaporação trágica, dentro do desapreço amazônico, representou no Brasil retrocesso intelectual e baixa na educação social.

Desorientação. “Quos Jupiter vult perdere dementat prius” — Júpiter enlouquece primeiro os que deseja perder. Um país que tem dirigentes com o gosto do escangalho, arrogantemente toscos, useiros e vezeiros de expressões chulas, mesmos nos mais solenes ambientes, está virtualmente enlouquecido por Júpiter, pisa estrada que desemboca em abismo.

Estrada abandonada. Coetâneo de Francisco Campos na vida pública foi Gilberto Amado (1887-1969), também escol da inteligência nacional. Ele coloca como condição fundamental da democracia representativa, a escolha dos melhores. Só assim o governo pode agir com energia na prossecução do bem comum. Leciona o político sergipano: “É um axioma de ciência política, verdadeiro em todos os regimes — no regime democrático como nos demais — que a sociedade deve ser dirigida pelos mais avisados (sages), pelos mais inteligentes, pelos mais capazes, pelos melhores, em uma palavra pela elite”. Estuda então os meios para que tal elite “possa aceder à direção da sociedade”. Não é o caso de deles tratar aqui, iria muito longe.

O deslumbramento beócio por concepções falseadas de democracia, contrafações tóxicas do conceito, na prática cadinho contínuo para toda sorte de contubérnios demolidores, nos fez retroagir. Um avanço, começo, seria noções mais claras do problema: conceitos e realidades na vida social. Já estivemos a respeito em situação bem melhor, nos anos do Império e em épocas do período republicano. Em rápidas pinceladas um exemplo vai acima. Foi minha intenção, no presente texto, pôr um grãozinho em tal esforço.

 

https://www.abim.inf.br/vacina-contra-maldicao-brasileira/

 

sábado, 13 de abril de 2019

"A BAHIA NÃO É RESISTÊNCIA; A BAHIA É SÍMBOLO DO ATRASO, Por Bernardo Guimarães Ribeiro



O filósofo da baianidade, o grande governador Otávio Mangabeira, gostava de dizer que “a Bahia está tão atrasada que, quando o mundo se acabar, os baianos só vão saber cinco anos depois”.
Mangabeira estava correto, só errou no cálculo. A Bahia está muito mais que cinco anos atrasada. A explicação? A expressiva votação com mais de 75% no atual governador e de mais de 60% no candidato derrotado à Presidência da República, ambos do Partido dos Trabalhadores, dá conta de que os influxos da ruptura ainda não nos atingiram. Expliquemo-nos:

No plano nacional, a Bahia, juntamente com o Piauí e Maranhão, foram os Estados que registraram maior percentual de votos em Haddad, todos com percentual acima de 60%.

Bastou esse fato para que esquerdistas, em geral, e petistas entoassem o mantra da resistência. A retórica não poderia ser mais tola – são simplesmente três dos Estados mais pobres da Federação, ocupando, os três, as seis últimas posições do índice de desenvolvimento humano – IDH.

Ademais, Maranhão e Piauí são também as unidades onde a relação entre pessoas que dependem do bolsa-família em comparação à população total é maior, respectivamente 48 e 39% , enquanto a Bahia, por seu turno, é o Estado com o maior número de beneficiários e maior aporte de recursos em termos absolutos.

Retomando o foco no Estado da Bahia, um erro de avaliação muito frequente no mundo das estatísticas é tomar o efeito pela causa. Enquanto a ampliação de programas de transferência de renda deveria ser interpretada como sintoma de atraso e subdesenvolvimento, curiosamente, em terrae brasilis, é compreendido como o contrário. Logo, a maior dependência de uma população a benefícios governamentais, ao reverso do que propõe a esquerda, apenas expõe a incompetência dos gestores em modificar o panorama socioeconômico.

No caso da Bahia, em especial, a contradição ganha contornos de esquizofrenia na medida em que diversos outros dados logram demonstrar a queda vertiginosa do Estado em índices oficiais comparativos. Em relação à Segurança Pública, temos nada menos que cinco das dez cidades mais violentas do País; na Educação, outro importante parâmetro de IDH, estamos na rabeira, tendo alcançado o inacreditável penúltimo lugar na última avaliação do MEC; no Turismo, histórico setor produtivo e arrecadador, nosso desempenho vem minguando ano a ano a olhos vistos, com o fechamento de um sem-número de hotéis tradicionais, diminuição de voos, culminando com a ruína do único centro de convenções do Estado no ano de 2016. A situação é tão vexatória, que se registrou em 2018 a Bahia como o Estado de pior desempenho no setor no Brasil; e, por fim, a saúde está na UTI. Dos 28 estados, segundo a análise de alguns dados, a Bahia ocupa a 22ª posição, sendo sucedida por nada menos que Piauí (24º) e Maranhão (28º). Há quem veja mera coincidência, mas não é.

Comecei com ele e terminarei rememorando o saudoso Otávio Mangabeira em mais uma passagem: “pense num absurdo: na Bahia tem precedentes”! Pessoas letradas e bem formadas fazem desse cenário tenebroso a construção de um arquétipo completamente irreal e delirante, tratando a Bahia como um modelo de resistência frente ao novo Brasil que desponta. Não há resistência, mas teimosia e histeria, reflexo de personalidades mimadas, que apenas aceitam as regras do jogo quando estão vencendo, além de manipuladoras, por proclamarem uma autoridade moral pela visão de mundo que defendem.

Infelizmente, 12 anos de petismo na Bahia conduziram as pessoas à completa perda do referencial. Doze anos formaram uma geração inteira de jovens percebendo o caos social como algo natural e trivial. E, diante de tantas incertezas, o bolsa-família é a única certeza de muitos de que algo pior não irá acontecer. A quem interessa a mudança quando a “resistência” escolhe um lado? A Bahia não é resistência; a Bahia é símbolo do atraso."

Texto de Bernardo Guimarães Ribeiro
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quarta-feira, 29 de março de 2017

MINH’ALMA MORA NA BAHIA – Oscar Benício dos Santos

Minh’ alma mora na Bahia


A Velha Bahia é uma gaiola,
nos prende com seu alçapão
e não mais abre a portinhola
do seu alegre coração. 

É uma mulata frajola,
parece não ter coração, 
canta como uma vitrola
naqueles seus discos de então. 

Eu, seu antigo prisioneiro
preso, só, de corpo inteiro,
mas, de espirito livre – que ironia; 

viando sozinho por todo mundo,
como tristonho vagabundo,
mas, minh’alma mora na Bahia.


 

Oscar Benicio Dos Santos
Velha Bahia (Salvador)


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