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segunda-feira, 28 de setembro de 2020

A COLCHA DE RETALHOS - Catulo da Paixão Cearense


A Colcha de Retalhos

(Dos “URUPÊS”)

                                                 A Monteiro Lobato

 

Naquela manhã nevada,

de neve toda caiada,

banquei-me em cima do Crista,

e fui propor meu negócio

ao Tio Amâncio Queimada.

 

Para as bandas do Mojeiro,

eu tinha uns lotes de terra,

de boa terra, eu sabia,

mas tão cobertas de mato,

que não havia uma aberta

que deixasse ver um trecho

do chão, entre a mataria.

 

Seis léguas de caminhada,

eu tinha de cavalgar,

para chegar à Fazenda

do Tio Amâncio – o roceiro.

 

Tio Amâncio há muitos anos

abandonara a cidade

pelos trabalhos do campo

de vida laboriosa,

mas de vida em que se goza,

vivendo com a liberdade.

 

O negócio era o seguinte:

 

Eu dava todo o terreno

para o Tio cultivar,

e, depois de cultivado,

a fim de o recompensar,

seria dele somente

todo o dinheiro ganhado

no decorrer de dez anos,

com o produto do roçado.

 

Findo o prazo combinado,

seria o lucro, depois,

igualmente, meio a meio,

dividido por nós dois.

 

Era uma bela proposta,

que o velho amigo Queimada

chamaria: - uma surpresa!

 

Assim, montado no Crista,

n’um doce carrego-baixo,

para a vivenda do velho

lá me botei de jornada,

namorando a natureza.

 

O meu cavalo, vaidoso,

mais alvo que a luz do dia,

marchava todo garboso,

pisando a terra tão leve,

que quem passasse, diria,

que era um cavalo de leite,

rasgando a espuma da neve.

 

No princípio da viagem,

a nevada que caía,

cobria toda a paisagem

com a branquidão do seu véu.

 

Mas, enquanto pelos bosques

e florestas eu seguia,

a neve em subtil transporte,

como um velário, ascendia

brancamente para o céu.

 

Depois....................................

 

Como se muda um cenário,

sem dissensão de velário,

houve por todo o sertão

uma transfiguração!

 

O sol, que vinha brotando

lento e lento resfolgando,

fogoso, como um titã,

parecia, assim tão louro,

um sabão feito de ouro,

lavando toda a manhã.

 

Porque o sol, que era a alegria,

o sol, cheirando a sol novo,

era tal e qual um ovo

que a Ave Preta da noite

tivesse posto e chocado

no cimo da serrania,

um ovo, de onde saía,

de orvalho todo orvalhado,

um pássaro branco: - o Dia!

 

Os galhos, festivamente,

como os clarins da floresta,

saudavam o sol nascente!

 

Balançando-se na rede

de um galho todo enflorado

de uma bela Floriana,

a sabiá, doidivana,

abria a flor penarosa

do hino matutinal,

enquanto a rola, extremosa,

despenava-se, queixosa,

sob as palmas verdorosas

de um nervoso bambual.

 

Dos ramos se desnastrando,

sacudidas pelas brisas,

que vinham saudando os ninhos,

as folhas, mumificadas,

rolavam pelos caminhos,

como se fossem sambando,

ao som das cordas magoadas

das violas dos passarinhos.

 

Agora, um rio cheiroso

que, rumoroso, carpia

a sua melancolia,

e onde o meu Crista bebia,

como se fosse uma pia

d’agua benta de um Jordão!

 

Parece que aquelas águas

iam fluindo, medrosas,

(quem sabe?!...) talvez saudosas

De todo aquele sertão.

 

Viajor! Acaso já viste

coisa que seja mais triste

do que a saudade de um rio,

que em procissão, lentamente,

num coro fresco de mágoas,

vai refletindo nas águas

o céu luzente ou sombrio?!

 

Quem perlustrou solitário

pelos recessos das matas,

no que eu penso, já pensou!

 

Quem sabe se essa amargura,

que nas águas mais se apura,

não procede das endechas,

das dores, mágoas e queixas,

de tudo que em seu transcurso

o rio cristalizou?!!

 

Mas esse, que, por momentos,

foi meu guia e companheiro,

era um rio prazenteiro!...

 

Porque o rio caminhava

tão buliçoso e tão lindo,

que, pelas brisas beijado,

com o rosto todo frisado,

quem visse o rio, jurava

que o rio estava-se rindo!

 

Sob um zimbório de mato,

um riozinho, um regato

rezava uma prece d’agua,

muito baixinho e sonora!

 

Era assim tão carinhoso,

tão suave e religioso,

porque os anjos uma tarde

lavaram nas suas águas

os pés de Nossa Senhora!

 

Nas alcovas de esmeraldas

noivavam as juritis!...

 

Numa velha Timbaúba

gritava, saudosamente,

um bando de bem-te-vis.

 

Brancas, verdes, amarelas,

pardas, rubras, azuladas,

as borboletas viajavam,

como flores tresloucadas!

 

Um papagaio palreiro,

petulante e senhoril,

tagarelando, parece

que dizia, prazenteiro:

“não há manhãs tão mimosas,

como as manhãs do Brasil.”

 

Um cardeal, paramentado,

fitando o sol redourado,

com a sua lâmpada acesa,

em seus cantos, suplicava

a Deus, pela Natureza!

 

No palácio esplendoroso

de uma enorme perobeira

ouvia-se a voz da flauta

de um sabiá laranjeira.

 

Um caburé, solitário, 

gemendo dentro da moita

sua eterna “ladainha”,

ouvindo o poema das aves,

dizia em soluços graves:

“Todos cantam sua terra!

 Também vou cantar a minha!”

 

E o sapo lhe respondia:

- e eu, o cantor dos pantanos,

- que a fealdade apadrinha,

- por ser também brasileiro,

- nas débeis cordas da lira,

- hei de fazê-la rainha! –

 

Um tico-tico, que é feio,

mas que em sã brasilidade

nenhum passarinho o vence,

proclamava, com vaidade: -

eu sou um pobre violeiro,

mas sou cantor brasileiro

como o Catulo Cearense!!

 

Na cerrada mataria,

uma araponga batia

numa sonora bigorna

com o duro ferro do malho,

a Deus, alegre, saudando,

e ao mesmo tempo entoando

uma oração ao trabalho!

 

As trepadeiras floridas,

feridas nos seus verdores,

quando o Crista galopava,

sobre nós dois atiravam

a sua bênção de flores!

 

A capelinha do monte,

muito longe, esbranquiçada,

era a imagem da tristeza

de uma casa abandonada.

 

Janelas, portas, fachada,

dessa igreja pequenina,

tudo, tudo ameaçava

cair um dia em ruína.

 

Mas, na coroa do monte,

naquela hora em que vinha

o sol já se aproximando

para sondar o horizonte,

quem fosse na capelinha,

lá dentro dela ouviria

a voz de um órgão chorando

e um peito humano cantando

a prece final do dia.

 

Pois bem. Aquela igrejinha,

em cuja nave reboava

um canto de litania,

tal qual se me afigurava

a imagem triste do Poeta,

que é um templo em ruinaria!

 

Por fora, - a dor, a pobreza,

a mágoa, a luz da tristeza,

que é mãe da filosofia!

 

Por dentro, - as vozes perenes

das nove musas solenes,

cantando em órgãos celestes,

no grande altar da Poesia.

 

O sino da capelinha

em seis pancadas floria.

 

E a tarde foi fenecendo,

foi morrendo, foi morrendo,

serenamente morria,

até que, afinal, morreu,

como morre em lábios tristes

um soluço de agonia.

 

No alto de uma esplanada,

já se avistava a vivenda

do velho Amâncio Queimada.

 

Por detrás da penedia,

como uma rosa afogueada,

o sol desaparecia.

 

Tirei meu chapéu de feltro,

e fiz a minha oração,

ao som da prece que a aragem

gorjeava no templo verde

da profunda mataria.

 

Para não ser surpreendido

pela noite, dei um tope

no meu Crista vigoroso,

que, relinchando, fogoso,

pelas veredas e atalhos

se desmanchou num galope.

 

E, enfim cheguei. “Ô de casa!”

já no terreiro exclamei.

“Pode chegar!” responderam...

E eu para a casa encristei.

 

Quando o velho Tio Amâncio

viu quem era o viajor,

“disapêie”, então me disse,

e abrindo os braços nodosos,

abençoou-me com calor.

 

Depois, levando o cavalo

para as bandas do curral,

“Pingo d’Agua, Pingo d’Agua!...”

chamava alguém que já vinha

surgindo das flechas verdes

do verde canavial.

 

Era a filha do Queimada,

que eu vi, quando era criança,

e, depois de tantos anos,

via, ali, perto de mim!

 

Se os serafins são morenos,

eu juro ter visto um dia

a imagem de um serafim!

 

Era mulher só de nome!

 

Pongo d’Agua, a feiticeira,

tinha a carinha brejeira

de uma rosa carminada;

e quando se remexia,

parecia uma mangueira

moça ainda, quando sente

na frondezinha fremente

o doce pungir dos zéfiros,

que viajam de madrugada.

 

Depois de ser sertaneja,

nunca mais veio às cidades!

 

Por isso aqueles dois olhos

choravam naquele rosto,

como um casal de saudades.

 

As mãos, quando se agitavam,

transparentes, como gazas,

e uma linguagem falavam,

linguagem que eu nunca ouvi,

eram como duas asas

de um mimoso colibri.

 

Era-lhe a voz tão cadente,

tão meiga, tão redolente,

que eu só posso comparar

com a voz macia de um galo,

longínqua, terna e saudosa,

abrindo a flor sonorosa

da meia-noite, ao luar!

 

Mas eis que volta o roceiro,

que me veio interromper

 naquela contemplação.

 

Pingo d’Agua, a sua filha,

me pedindo permissão,

foi prender um cabritinho,

que estava esfolhando as flores

d’um formoso bogari.

 

Tio Amâncio convidou-me

para entrar: no que acedi.

 

Depois de uma breve pausa,

falei-lhe, sem mais demora,

sobre a proposta, em questão.

 

E ouvindo a minha proposta,

com delicada atenção,

oscilava com a cabeça,

em sinal de negação,

para, depois de falar-lhe,

responder-me, decisivo,

com esta simples frase: “Não!”

 

“Não é possível, senhor!”

 

“A mocidade esfolhou-se,

já não tenho mais vigor,

os anos, feros, tiranos,

deixaram-me sem calor!...

meus braços, debilitados,

já não podem trabalhar!

 

Noutro tempo era possível,

mas agora era risível

sua proposta aceitar.

 

Como vê, se inda trabalho

nesta Fazenda, que é minha,

(e sempre trabalharei,

enquanto a Deus aprouver...)

é por causa dessa filha,

da sua terna avozinha

e a minha boa mulher.

 

Não leve a mal a franqueza

deste rude lavrador!

cedo à lei da natureza!

não posso mais, meu senhor!”

 

 

Não insisti. Nesse instante,

Dona Branca aparecia,

Trazendo duas tigelas

Do mungunzá familiar.

 

Depois de cumprimentar

a mãe de Pingo – a formosa –

(que, pela fisionomia,

Parecia estar doente),

Sorvi semvergonhamente,

Aquela ceia gostosa,

Que veio mesmo a calhar!

 

Mas depois... Forte muxinga

tive então de suportar!

 

Mas depois... Forte muxinga

tive então de suportar!

 

Tio Amâncio, dando à língua,

não me deixou mais falar!

 

Falava-me da lavoura,

das frutas do seu pomar,

das cabras e das ovelhas,

do seu cavalo sem par,

do fino mel das abelhas,

de tanta coisa, que, enfim,

comecei a cochilar!

 

Só assim Tio Queimada

deu fim à sua eloquência,

e me deixou descansar.

 

***

A noite foi bem dormida.

 

Ao levantar-me, cedinho,

antes do nascer do dia,

quis ver a avó de Pinguinho,

que há muitos anos não via.

 

A velhinha octogenária,

que, tão velha, inda trazia

os seus cabelos grisalhos,

cosia ao pé da janela

uma colcha de retalhos.

 

E quando o velho Queimada

junto dela me levou,

depois de cumprimentá-la,

este jogo de carinhos

entre nós dois se enlaçou.

 

- Deus ajude a quem trabalha! –

 

“Deus Nosso Senhor me valha,

que inda posso trabalhar”.

 

- Vejo com muita alegria

– que inda pode costurar” –

 

“Graças a Deus Redentor...”

– que, por muitos, muitos anos,

- lhe conserve esse vigor. –

 

“Mas... queira-me desculpar,

se perpetro um desacato:

como se chama o senhor?!

 

- José Monteiro Lobato. –

 

“Tu és o grande escritor,

um doutor que há tempos fez

um belo livro de histórias,

que tem por nome: Urupês?

 

E a velha que remexia

nos retalhos da memória,

acrescentou: “uma glória

de todo o nosso Brasil!”

 

- Como me viu tão criança,

quer ser comigo gentil!

 

- “Monteiro, eu não me lembrava!

Quando viemos da cidade,

tu eras inda infantil”.

 

E a velhinha, abrindo os braços,

para abraçar-me, exclamou:

 

“Minha vista já cansou!

Perdão, meu filho, perdão!

Deixa matar a saudade

no abraço da gratidão!”

 

Depois de dar-lhe o abraço,

sentindo grande emoção,

pedindo ao velho Queimada

que o meu cavalo arreasse,

depus-lhe um beijo na face

e um beijo no coração.

 

Disse adeus à dona Branca,

disse adeus à Pingo d’Agua,

reabracei a avozinha,

e, dando um aperto de mão

na mão calosa e enrugada

do velho Amâncio Queimada,

do amigo velho de então,

banquei-me no meu cavalo,

excitei-o em leve tope,

e atirei-me pela estrada,

primeiro, em carrego-baixo,

depois... a todo o galope.

 

***

Três anos eram volvidos,

quando me veio aos ouvidos

uma notícia fatal!

 

Pingo d’Agua, que há três anos

eu tinha visto surgindo

do verde canavial,

fugira do lar paterno

com um tocador de viola,

depois que ouviu o runxóla

no samba de um festival.

 

Não me contive!... Inda mal!

Pingo d'Agua! Era impossível!

Que afetos o pai lhe tinha!

Que fora de Dona Branca?!

Que seria da avozinha?!

 

Uma flor tão bonitinha

com um coração insensível!

 

Então era uma serpente

o passarinho inocente,

que tinha a voz transparente,

veludosa e luminar,

como a voz terna de um galo,

que de tão longe, parece

uma dor, que a gente esquece,

e sai do peito, e, sonora,

pela boca do silêncio,

vai correndo noite afora,

sonorizando o luar!?

 

Não podia acreditar!


Um coração tão sensível!...


Pingo d’Agua!? Era impossível!

 

Banquei-me em cima do Crista

e para o Engenho do Amâncio

a rédeas soltas voei.

 

Ia cego! Na viagem

 nada vi!... Toda a paisagem

era um sudário de dores!

 

Nem na alegria das flores

nem nos pássaros cantores,

nem nos sonoros regatos,

nem nos verdores dos matos

os meus olhos descansei!

 

Nada disso me enlevava,

porque n’alma, que sangrava,

surdamente eu carregava

um peso, que não deixava

meu coração palpitar!!

 

Passei um dia tristonho,

um dia todo a viajar!!

 

Por detrás da penedia

o sol, roxo, se escondia

e o meu cavalo nitria

pela estrada, a galopar!

 

Era preciso chegar.

 

A noite já se envolvia

na escuridão virginal,

quando à Fazenda cheguei.

 

Perseguido dos cachorros,

abri com os pés a porteira,

galguei, de um surto, a ladeira,

e, já no pátio, num grito,

pelos de casa gritei.

 

Nem uma voz respondia!

 

Gritei!... Mas em vão, em vão!!

 

Um perdigueiro latia,

como se fosse um trovão.

 

Ouvi um leve rumor!

 

Era o velhinho, o Queimada,

que vinha da encruzilhada,

correndo, de tropelão.

 

- Pingo d’Agua, meu amigo,

- que é feito daquela flor?!

 

E, ele, triste e desolado,

n’um soluço estrangulado,

respondeu-me: “Evaporado!

“Foi-se embora, seu doutor!”

 

E com saudades da filha,

com os olhos rubros de mágoa,

lhe caíam pingos d’agua

pelas faces, já sem cor!

 

- E Dona Branca? – “Morreu!”

 

- E a avozinha – “Emudeceu!”

 

E estas palavras dizendo,

 lá foi pelo mato afora,

chamando pela filhinha,

que o lar paterno esqueceu!

 

Amarrando o meu cavalo

no tronco de um calumbi,

fiz volta pelo terreiro,

que rodeava toda a casa,

e já no portão trazeiro,

levantei a taramela,

abri a velha cancela,

e entrei, com os olhos em brasa,

pela sala de jantar.

 

A velhinha estava ao lado

de um oratório enfeitado,

com os olhos postos n’um Cristo,

que parecia falar!

 

Chegando ao canto da sala,

a fim de não assustá-la,

lhe disse aflito: - sou eu!

 

- É o velho amigo Lobato,

que inda guarda, mui grato,

aquelas doces palavras

com que há três anos volvidos

nesta sala o recebeu.

 

- É o velho amigo da casa,

 que já conhece a desgraça

do mal, que lhes sucedeu!

 

- Dizei-me, por caridade, 

se, por ventura, é verdade... - 

 

Mas a velhinha, dorida,

com uma vozinha entupida,

minha palavra cortou!

 

“Pingo d’Agua nos deixou!

 

Obedecendo os arrancos

de uma voz que se adivinha,

teve medo deste inverno...

destes cabelos tão brancos,

e, vendo um' outra andorinha,

bateu asas... Emigrou!

 

A vida é triste, tão triste,

que a morte um bem nos parece!

 

Não são os anos!... A dor

é que nossa alma envelhece!

 

O coração é o primeiro

que na desgraça fenece!

 

Parece que faz dois meses

que o senhor esteve aqui!

 

Senhor, como em poucos dias

na amargura envelheci!!!

 

Agora, que mais me resta,

se a filha e a netinha ingrata

pra todo sempre perdi!”

 

E mostrando um bauzinho

de folha, ao pé do oratório,

mais triste continuou:

 

“E a colcha? O senhor se lembra?!

 

Guardo ali, como a saudade

de meu pingozinho d’Agua

que a desventura secou!”

 

E ao perguntar-lhe se tinha

terminado a colchazinha,

mais triste me respondeu:

“Nem ficou pela metade!...”

 

E um lausperene de estrelas,

como lírios de martírios,

em seus olhos floresceu!

 

E abrindo a caixa de folha,

para a colcha me mostrar,

desdobrou-a sobre a mesa,

abrindo-a, de par em par.

 

“Estes retalhos de chita...”

me disse, “têm uma história,

seu doutor, muito bonita,

mas hoje muito tristonha,

porque a desgraça enfadonha

essa história interrompeu!

 

Meu senhor: começa a história

desde que Pingo nasceu”.

 

Depois, sempre soluçando,

os pedacinhos de pano,

um a um foi apontando.

 

“Este aqui, de azul violeta,

eu tirei da camiseta,

da primeira que vestiu!

 

Estou vendo-a nos meus braços,

quando em beijinhos e abraços

para a Minh ’alma sorriu!

O outro, o de ramazinha,

foi presente da madrinha,

que Deus levou! Faz um ano!

Nesse tempo já reinava;

dia e noite traquinava

com aquele amigo – o Bichano!

 

E mostrou-me na parede

a pelezinha do gato,

ao lado do seu retrato.

 

“Este, (veja como é lindo!!)

cor da flor do tamarindo,

foi um presente do tio:

com ele, um dia, brincando,

Pinguinho caiu no rio!

Quando a vi toda molhada,

dei a primeira palmada

naquela coisinha ruim!

E enquanto eu triste chorava,

 ela de mim caçoava,

sorrindo alegre pra mim!

 

Este outro, de cacundê,

foi um presente maior,

quando ela disse de cor

toda a carta do á-bê-cê!!!

Este aqui, todo de flores,

quem lhe deu foi seu padrinho

no dia em que o ladrãozinho

sete agostos completou!

 

Vestiu no dia de Reis,

no mesmo dia em que fez

um tutu tão gostosinho,

que ela mesma temperou!

 

Olhe! Veja!... Este, roxinho,

foi de uma saia comprida,

que a seu pedido eu lhe fiz!

ficou tão envaidecida,

tão ancha e tão presumida,

que, por vesti-la, pensava

que fosse uma imperatriz!

Com aquele cor de pinhão,

 em vinte e quatro de Junho,

dançou pela vez primeira,

na noite de São João!

Foi o vovô quem lhe deu,

no dia em que recebeu

a primeira comunhão!”

 

“Aquele, de azul celeste,

ela o vestiu... (sabe quando?!)

no dia do meu natal!

Encheu-o todo de flores

e como uma flor, sorriu,

e, quem a visse, diria

que Pingo era um roseiral.”

 

Fingindo que me lembrava,

eu lhe afirmei: - este, róseo,

é da blusa com que estava,

quando a vi, noutra visita,

formosa, fresca e bonita,

como uma tarde estival! –

 

“Enganou-se!...” E assim dizendo,

deixava cair dos olhos

sementeiras de cristal!

 

“Quando o senhor, há três anos,

- respondeu-me – “esteve aqui,

o senhor viu-a com este,

que é da cor do buriti!

Eu já estou muito velhinha,

mas inda não me esqueci!”

 

- E estezinho, este amarelo? –

 

“Este aqui, de cor funesta?!

Foi o vestido da festa

em que ela viu o bengola,

o tocador de viola,

causa desta desventura!”

 

E pondo as mãos sobre o peito,

suspirou: “Desde essa noite

aquela viola maldita

abriu-me aqui dentro d’alma

esta amargura infinita,

que há de levar-me, bem cedo,

ao fundo da sepultura!

 

E, agora, meu senhor!...

Este, veja, - o derradeiro,

 foi mais cruel!... mais traidor!...

 

Foi com este verde-claro

que ela fugiu com o violeiro!”

 

E assim dizendo, chorava,

e com a colchinha enxugava

o rosto, que era um chuveiro!!

 

“Seu doutor, esse vestido,

macio, como um veludo,

ficou-lhe tão ajustado,

que às vezes chego a pensar

que, por tão bem lhe ficar,

esse vestido encantado,

esse vestido malvado

foi o culpado de tudo!!”

 

Depois, abrindo o oratório,

e tirando o Crucifixo

e dando um beijo em Jesus,

ajoelhou-se aos pés da cruz,

soluçando estas palavras

com os lábios cheios de luz:

 

“Agora eu peço a Jesus,

que me ampare, que me valha,

e deste presentezinho,

que ficou inacabado,

deste mimo de noivado

me faça, em breve, a mortalha!”

 

E com a colchinha abraçada,

em convulsões sufocada,

pelos olhos soluçando,

hóstias d’alma derramando,

foi, pouco a pouco, inclinando

a cabeça enluarada,

para em lágrimas se ungir!

 

Relembrando-lhe a agonia

da Santa Virgem Maria,

beijei-lhe a fronte gelada

de profundas comoções.

 

Crista, com a noite fria,

 lá fora, ansioso, nitria,

com desejos de partir!

 

Banquei-me no meu cavalo

cheio de ardor e coragem,

e dei começo à viagem

por aquelas solidões,

depois de lançar, primeiro,

um triste olhar de viageiro,

para nunca mais revê-las!

 

O céu estava impregnado

 de funda melancolia!!

Mas Deus, nos céus, estendia

A sua colcha de retalhos!!

 

***

 

Vós, artistas, escultores,

poetas, músicos, pintores,

vós, ó grandes sonhadores,

argonautas do Ideal,

que, de retalho em retalho,

andais cosendo uma colcha

de quimeras... ilusória...

para o tálamo da Glória,

a vossa Noiva imortal,

haveis de ver, sonhadores,

um dia, sem dor, sem mágoa,

que ela – a Glória, a Pingo d’Agua,

(nos braços do desengano,

desse Violeiro Tirano,

o Proxeneta rufião...)

vos deixará, solitários,

como eternos visionários,

com uns farrapos de sudários,

para enxugardes as lágrimas

da vossa Desilusão!

 

(POEMAS BRAVIOS)

Catulo da Paixão Cearense

* * * 

domingo, 27 de setembro de 2020

NOTÍCIA MUITO ALENTADORA PARA TODAS AS FAMÍLIAS

27 de setembro de 2020


Paulo Roberto de Campos


Neste sábado (26 de setembro) o Presidente Donald Trump indicou a juíza Amy Coney Barrett [foto] para a mais alta Corte dos Estados Unidos.

“Hoje tenho a honra de nomear para a Corte Suprema uma das mentes jurídicas mais brilhantes e talentosas de nossa nação. Ela é uma mulher de realização incomparável, intelecto imponente, ótimas credenciais e lealdade inflexível à Constituição”, disse o presidente americano durante a cerimônia realizada hoje nos jardins da Casa Branca.

Agora apenas resta a aprovação do Senado norte-americano, o que facilmente deve ocorrer, pois conta com maioria republicana (53 senadores republicanos X 47 democratas).


Amy Coney Barrett, 48 anos, nascida em New Orleans, é católica, mãe de sete filhos [foto], Emma, Vivian, Tess, John Peter, Liam, Juliet e Benjamin (dois deles são adotados) — será na história do país a primeira mãe de crianças em idade escolar a atuar na Corte Suprema dos EUA. Ela graduou-se pela Rhodes College e, em primeiro lugar da classe, pela Faculdade de Direito da Universidade de Notre-Dame (Indiana), onde lecionou por 15 anos.

Um renomado e muito respeitado professor de direito em Notre-Dame escreveu: “Amy Coney é a melhor aluna que já tive”. Atualmente é Juíza da Corte de Apelações Federal de Chicago. Ela substituirá Ruth Bader Ginsburg, falecida recentemente aos 87 anos, que era de tendência esquerdista.

Graças a Deus, com esta escolha de hoje, a Suprema Corte americana se tornará mais conservadora (6 conservadores X 3 esquerdistas), o que poderá auxiliar muito na defesa dos valores da instituição familiar, como a proibição do comércio de drogas, do aborto, da eutanásia, do “casamento” homossexual e do absurdo ensino nas escolas da “teoria de gênero” às crianças.


Claro, e não nos causa nenhuma surpresa, a mídia esquerdista (e intolerante) está bufando de ódio, denominando a juíza como ultraconservadora etc. Não nos surpreende também que líderes feministas — que deveriam comemorar a eleição de uma mulher para a mais alta Corte da nação mais poderosa do mundo —, estejam igualmente encolerizadas. Por quê? — Certamente pela mesma razão pela qual as mulheres autenticamente femininas e mães de família estão comemorando…

 

https://www.abim.inf.br/noticia-muito-alentadora-para-todas-as-familias/


* * *

PALAVRA DA SALVAÇÃO (203)


26º Domingo do Tempo Comum – 27/09/2020


Anúncio do Evangelho (Mt 21,28-32)

— O Senhor esteja convosco.

— Ele está no meio de nós.

— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Mateus.

— Glória a vós, Senhor.

Naquele tempo, Jesus disse aos sacerdotes e anciãos do povo: “Que vos parece? Um homem tinha dois filhos. Dirigindo-se ao primeiro, ele disse: ‘Filho, vai trabalhar hoje na vinha!’ O filho respondeu: ‘Não quero’. Mas depois mudou de opinião e foi. O pai dirigiu-se ao outro filho e disse a mesma coisa. Este respondeu: ‘Sim, senhor, eu vou’. Mas não foi. Qual dos dois fez a vontade do pai?”

Os sumos sacerdotes e os anciãos do povo responderam: “O primeiro”.

Então Jesus lhes disse: “Em verdade vos digo que os cobradores de impostos e as prostitutas vos precedem no Reino de Deus. Porque João veio até vós, num caminho de justiça, e vós não acreditastes nele. Ao contrário, os cobradores de impostos e as prostitutas creram nele. Vós, porém, mesmo vendo isso, não vos arrependestes para crer nele”.

— Palavra da Salvação.

— Glória a vós, Senhor.

https://liturgia.cancaonova.com/pb/

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Ligue o vídeo abaixo, e acompanhe a reflexão do Pe. Roger Araújo:



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Crer é tecer a vida

 


“João veio até vós, num caminho de justiça, e vós não acreditastes nele” (Mt 21,32) 

 

É muito fácil ter fé em Jesus. Hitler se considerava católico e dizia que tinha fé em Jesus; são muitos os que fazem opção em favor da morte e se dizem cristãos. A questão não é ter fé em Jesus, é ter a fé de Jesus. E a fé de Jesus está intimamente vinculada à justiça do Reino, ou seja, comprometida com a vida.

Para Jesus, a fé não está vinculada a um catálogo de crenças, a uma doutrina, a uma religião, e sim, a um modo de viver e agir, profundamente sintonizado com o modo de ser e agir do Pai. Quê qualidade de fé nós temos? Desperta em nós ou não uma profunda indignação contra as injustiças, violências e misérias que ferem nosso mundo? Ou ela se reduz a algumas práticas piedosas alienadas, a certos ritos vazios, a doutrinas distantes da vida?... 

 é muito mais que uma “crença”, que se restringe a uma formulação doutrinal; a fé é um modo de ver, um modo de viver, um modo de ser. Envolve a pessoa toda em todas as suas dimensões, de um modo integrado e configurador. Portanto, aquele que crê não é uma pessoa que “tem fé”, mas alguém tomado e configurado, cada vez mais plenamente, por uma experiência radical de amor que repercute e lhe faz vibrar em todo o seu ser.

Vibra também sua afetividade. Com efeito, na experiência de fé, a pessoa se percebe enraizada no Amor originário, incondicional e gratuito; um amor que não só a envolve, mas que a constitui. E, ao mesmo tempo, desperta e mobiliza nela toda sua capacidade de amar. Necessidade de ser amado e capacidade de amar: na fé, a afetividade encontra descanso, motor e canal por onde flui a vida.

Esta é a intuição que perpassa toda a Bíblia: o coração da fé é o amor e, com ele, o afeto, começando já pelo “primeiro mandamento:  “Amarás o Senhor teu Deus com todo teu coração, com toda tua alma e com todas as tuas forças” (Deut. 6,5). Portanto, crer é uma questão de amor. Isso significa que, antes de qualquer outra coisa, aquele que crê se percebe, em seu núcleo mais íntimo, ser e proceder do Amor. Aquele “em quem somos, nos movemos e existimos” (At 17,28) é Amor. 

Não podemos confundir “crer” com “crença”. Nenhuma crença é essencial, nem necessária, pois todas dependem da visão que temos da realidade em geral, dos conceitos teológicos que conhecemos, dos ritos que praticamos, da língua que falamos... O essencial do “crer” não é a crença, mas a “entrega do coração”; assim sugere a própria etimologia do termo latino “credere”, que vem de “kerd” (coração) e “dheh” (entregar). Entregar o coração: tudo o mais é acréscimo.

Se é verdade que a palavra latina “credere” provém de uma contração de “cor-dare”, a fé seria o dom do coração. Não seria uma conquista do intelecto, senão um ato de confiança amorosa, uma entrega que envolve o ser em sua totalidade, não um ato de apropriação senão uma sublime nobreza...

A fé não é algo que se “tem” ou “não se tem”; a fé é um caminho, é uma viagem entre a luz e a treva. É um desejo eternamente insatisfeito. É uma confiança continuamente renovada, um compromisso sem final. Jesus fez a desconcertante afirmação de que prostitutas e cobradores de impostos terão precedência no Reino de Deus, e não os "exemplares" sacerdotes e anciãos do povo. Isso deixa claro quem Jesus reconhecia como pessoas de fé. Não propriamente quem aceita o que prega a religião, e sim quem age por amor, solidariedade e justiça, como o bom samaritano (Lucas 10, 29-37).

Os “sacerdotes e anciãos do povo” são os “profissionais” da religião: aqueles que disseram um grande “sim” ao Deus do templo, os especialistas do culto, os guardiães da lei. Não sentem a necessidade da conversão e não se abrem à novidade trazida por Jesus.

Os “publicanos e prostitutas” são aqueles que disseram um grande “não” ao Deus da religião, aqueles que se colocaram fora da lei e do culto. No entanto, seu coração se manteve aberto à conversão e acolheram a novidade de Jesus. 

“Sacerdotes e anciãos do povo” x “publicanos e prostitutas”: revelam o lugar e o modo de viver de cada grupo na estrutura religiosa do tempo de Jesus. Mas podemos ir além: tais grupos estão presentes, e em constante conflito, em nossa própria interioridade.

Como integrá-los e como conviver com eles para que nossa vida seja criativa e expansiva? Nesse sentido, a pequena parábola deste domingo nos capacita a considerar nossa vida sob outra perspectiva.

Provavelmente, a parábola – em linha com a sabedoria de Jesus – está nos convidando a que sejamos capazes de reconhecer e abraçar o “publicano” e a “prostituta” que cada um de nós carrega em nosso interior. O sentido é o mesmo daquela outra parábola que fala do “fariseu” e do “publicano”: até que não reconheçamos o nosso publicano interno não poderemos estar reconciliados.

Simbolicamente, “publicano” e “prostituta” é aquela dimensão nossa que temos reprimida e escondida, nossa própria sombra. É claro que, enquanto não a reconhecermos, projetaremos nos outros o que em nós mesmos rejeitamos. Só quando abraçamos nossa “negatividade”, nos humanizamos, porque nos abrimos à humildade. E só então pode emergir a bondade e a compaixão para com os outros.

Os “sacerdotes” e os “anciãos” – escravos de sua própria imagem de “observantes religiosos” – eram incapazes de reconhecer e aceitar seu “publicano” e sua “prostituta” – presentes em todos nós. Isso os incapacitava para amar os outros – publicanos e prostitutas – e entrar no Reino.

Quanto mais nos reconciliamos com nossa debilidade e fragilidade, mais próximos estaremos da verdade. Uma coisa parece clara: abraçar nossos próprios “publicano” e “prostituta” nos permitirá abraçar qualquer pessoa que cruze nosso caminho, sem necessidade de impor-lhe nenhuma etiqueta prévia.

Dito de outro modo: ao reconhecer e aceitar nossa própria sombra (tudo aquilo que em algum momento tivemos que negar, ocultar, reprimir...) crescemos em unificação e harmonia interior, desaparecem os juízos e preconceitos e entramos em um caminho de humildade e graça.

A aceitação da sombra (“publicano-prostituta”) nos faz descer do falso pedestal, sobre o qual nos havia feito subir o “sacerdote que nos habita”, e nos permite crescer em humildade e em humanidade.

Para Jesus, a conversão significa mover-nos em direção à nossa fragilidade, aos limites, às sombras... Ao reconhecer-nos fracos e limitados, nós nos abrimos para Deus e para os outros; sentimo-nos necessitados de salvação. Só a aceitação de nossa verdade completa conduzir-nos-á no caminho da libertação.

E a verdade é que em cada um, jazem unidas, a luz e a sombra, o sacerdote e o publicano. Em cada santo dorme um pecador, e não reconhecer isso conduz ao farisaísmo e ao moralismo; mas em todo pecador dorme também um santo, e não percebê-lo supõe um empobrecimento humano, desesperança e vazio.

Somente quando integrarmos e nos reconciliarmos com os aspectos nossos que tínhamos negado ou até rejeitado, poderemos alcançar a paz e a harmonia estáveis.  Portanto, nossa grande tarefa não consiste em sermos “perfeitos”, mas “completos”. Na medida em que somos mais “completos”, porque aceitamos de maneira integral nossa verdade, tornamo-nos mais compassivos e humanos. 

Texto bíblico:  Mt 21,28-32 

Na oração: - Fazer memória de tantas pessoas que, mesmo no anonimato de suas vidas, foram referências na vivência de fé, integrando uma profunda adesão ao Deus da Vida e o compromisso em favor da vida.

- Sua vivência de fé faz diferença na realidade em que você se encontra? Ela inspira, move, provoca... a sair das suas “normoses religiosas” (normalidade doentia centrada no legalismo, no moralismo, no ritualismo...


Pe. Adroaldo Palaoro sj

https://centroloyola.org.br/revista/outras-palavras/espiritualidade/2149-crer-e-tecer-a-vida

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sábado, 26 de setembro de 2020

ANGÚSTIA E PAZ – Divaldo pereira franco


Angústia e Paz

 

Previne-te contra a angústia.

Esta tristeza molesta, insidiosa, contínua, arrasta-te a estado perturbador.

Essa insatisfação injustificável, perseverante, penosa, conduz-te a desequilíbrio imprevisível.

Aquela mágoa que conservas, vitalizada pela revolta sem lógica, impele-te a desajuste insano.

Isso que te assoma em forma de melancolia, que aceitas, empurra-te a abismo sem fundo.

Isso que aflora com frequência, instalando nas tuas paisagens mentais de pressão constante, representa o surgimento de problema grave.

Aquilo que remóis, propiciando-te dor e mal-estar, impele-te a estados infelizes, que te atormentam.

A angústia possui gêneses. Várias.

Procede de erros que se encontram fixados no ser desde a reencarnação anterior, como matriz que aceita motivos verdadeiros ou não, para dominar quem deveria envidar esforços por aplainar e vencer as imposições negativas e as compulsões torpes.

Realmente, não há motivos que justifiquem os estados de angústia.

A angústia entorpece os centros mentais do discernimentos e desarticula os mecanismos nervosos, transformando-se em fator positivo de alienações.

Afeta o psiquismo, o corpo e a vida, enfermando o espírito.

Rechaça a angústia, pondo sol nas tuas sombras-problemas.

Não passes recibo aos áulicos da melancolia e dispersa com a prece as mancomunações que produzem angústia.

Fomenta a paz, que é antídoto da angústia.

Exercita a mente nos pensamentos otimistas e cultiva a esperança.

Trabalha com desinteresse, fazendo pelo próximo o que dizes dele não receber.

A paz é fruto que surge em momento próprio, após a germinação e desenvolvimento do bem no coração.

Jamais duvides do amor de Deus.

Fixado no propósito de crescimento espiritual, transfere para depois o que não logres agora, agindo com segurança.

Toda angústia dilui-se na água corrente da paz.

 

Divaldo Pereira Franco

 

http://blog.forumespirita.net/angustia-e-paz/

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sexta-feira, 25 de setembro de 2020

O POTE RACHADO (Reflexão)


 

QUEM COMBATE DE MODO “POLITICAMENTE CORRETO” NÃO CONQUISTA A VITÓRIA - Plinio Maria Solimeo

24 de setembro de 2020


Plinio Maria Solimeo

Hoje em dia tal é a pressão dos meios de comunicação social sobre as pessoas em geral que, independentemente de seu nível social e representativo, ao se manifestarem, para serem “politicamente corretas”, elas silenciam sobre as opiniões que deveriam por dever de ofício expressar com clareza.

É o que ocorre inclusive com eclesiásticos de alto escalão quando falam de problemas morais. Em vez de justificá-los com base na religião que professam, por uma espécie de incompreensível respeito humano, para não ferir os ateus ou agnósticos ou destoar da opinião geral, silenciam o aspecto religioso do que dizem. Exemplifiquemos com dois casos recentes.

Está em tramitação no Congresso espanhol, propulsionado pelos esquerdistas radicais apoiados pela esquerda em geral, uma nova lei para aprovar a eutanásia, o suicídio assistido etc.

A propósito desse polêmico assunto, a Comissão Executiva da Conferência dos Bispos Espanhóis publicou no dia 14 uma “reflexão”.

Os prelados recordam que essa lei “é uma má notícia, pois a vida humana não é um bem à disposição de ninguém”. Por isso, “insistir no ‘direito à eutanásia’ é próprio de uma visão individualista e reducionista do ser humano, e de uma liberdade desvinculada da responsabilidade. Afirma-se uma radical autonomia individual e, ao mesmo tempo, se reclama uma intervenção ‘compassiva’ da sociedade, através da medicina, originando-se uma incoerência antropológica”. Ora, dizem os bispos, “o próprio da medicina é curar, mas também cuidar, aliviar e consolar, sobretudo no final da vida. A medicina paliativa se propõe a humanizar o processo da morte, e acompanhar o doente até o final. Não há enfermos ‘não cuidáveis’ mesmo que sejam incuráveis”.

Acrescentam os bispos: “O suicídio crescente entre nós também reclama uma reflexão e práticas sociais e sanitárias de prevenção e cuidado oportuno. A legalização de formas de suicídio assistido não ajudará na hora de insistir quem está tentado de suicídio que a morte não é a saída adequada. A lei, que tem uma função de proposta geral de critérios éticos, não pode propor a morte como solução do problema.”

A Conferência Episcopal Espanhola considera ademais que “uma sociedade não pode pensar na eliminação total do sofrimento e, quando não o consegue, propor sair do cenário da vida; deve, pelo contrário, acompanhar, paliar e ajudar a viver esse sofrimento”.

Os bispos concluem: “O sim à dignidade da pessoa, sobretudo nos momentos em que é mais indefesa e frágil, nos obriga a nos opor a essa lei que, em nome de uma dita morte digna, nega em sua raiz a dignidade de toda vida humana.”

Essa “reflexão” — que poderia ter sido escrita por qualquer movimento civil de defesa da vida sem orientação religiosa ou filantrópica específica — é muito censurável numa Conferência Episcopal que deveria se expressar de modo católico. Ela omite o principal aspecto do problema, que é o religioso, pois a eutanásia viola o V Mandamento de Lei de Deus: NÃO MATAR.

Essa mesma crítica se pode fazer à “Carta Aberta” do Cardeal Cañizares, de Valência, entretanto forte e contundente em muitos aspectos, se comparado com seus pares que nada fizeram.

O purpurado diz que a aprovação da lei da eutanásia foi uma derrota “histórica, humilhante […] da Espanha inteira, da sociedade espanhola, das pessoas que habitamos aqui, derrota também da humanidade, do próprio homem, pela aprovação da lei da eutanásia em trâmite, suicídio assistido, e pelo rechaço de outras propostas sobre cuidados paliativos que melhoravam a atual legislação”.

Numa linguagem forte, o Cardeal Cañizares diz: “Sr. Presidente do Governo, membros do Governo, ministros, parlamentares que aprovaram tamanha injustiça, aliás monstruosa, estão os Srs. loucos, perderam a cabeça, ou sua moral é não tê-la? Deem-se conta de que os Srs., como Governo ou como Parlamentares, existem para defender, proteger, tutelar o bem comum baseado em direito e deveres fundamentais da sociedade à que representam — o primeiro é a vida —, e acontece que se converteram em inimigos que se opõem à sociedade, dispostos a derrotar essa sociedade que representam e devem proteger, ao propugnar semelhante proposta de Lei, que difunde e aumenta uma cultura de morte, sobretudo em meio à Pandemia do Covid-19. Que credibilidade podem manter diante de dita Pandemia? Com que autoridade moral podem dirigir-se a esse povo e pedir-nos o que nos pedem? Não se veem como um sinal de contradição?”.

Depois de dizer que sua atitude não representa uma intromissão na política, mas que sua responsabilidade como bispo e como cidadão não lhe permite calar, ele conclui dizendo: “E assim devo denunciar ante a opinião pública esse comportamento, como também o dos meios de comunicação que tanta importância deram ao ‘assunto dos prefeitos’, e sem embargo tão pouco relevo ao assunto da eutanásia, que constitui não uma derrota histórica de um Governo, mas uma derrota de todo um Estado.”

Concluímos repetindo ser lastimável ver um Cardeal e bispos da Santa Igreja, que enfrentaram os Poderes constituídos, o fazerem não como ministros de Deus e guardiães de sua santa doutrina que são, mas como uma autoridade civil qualquer.

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– https://www.religionenlibertad.com/espana/545654904/obispos-espanoles-eutanasia-enfermos-incuidables-incurables.html
– https://www.religionenlibertad.com/espana/978146941/Estan-locos-han-perdido-la-cabeza-o-su-moral-es-no-tenerla-dura-carta-de-Canizares-al-Gobierno.html?utm_source=boletin&utm_medium=mail&utm_campaign=boletin&origin=newsletter&id=31&tipo=3&identificador=978146941&id_boletin=923471013&cod_suscriptor=452495753


https://www.abim.inf.br/quem-combate-de-modo-politicamente-correto-nao-conquista-a-vitoria/

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quinta-feira, 24 de setembro de 2020

TODO PODER À VACINA - José Sarney


A vacina é o único socorro de esperança contra a ameaça da Covid. Já falei mais de uma vez do cálculo de Malthus sobre a expansão da Humanidade e da narrativa que Jared Diamond faz da ascensão e queda das civilizações: nos cenários, guerras e germes. A história das pragas é uma desgraça: desde as sete pragas do Egito, que são dez, o que se vê são as populações dizimadas. Dizimadas não: o decimatio castigava um em cada dez soldados, mas as pestes sempre foram mais radicais. A praga de Justiniano matou mais da metade da Humanidade; a peste negra, um quarto.

Para uma doença virar epidemia ou pandemia, ela precisa ser contagiosa e viajar. Assim nossas cidades marítimas não escaparam da reviravolta da natureza — pois é isso o que acontece quando mexemos com o meio ambiente, mesmo na “inocente” domesticação de rebanhos. Varíola, gripe, malária, dengue, febre amarela, SARS passaram por aqui. Houve a gripe suína, que era em parte aviária, mas tinha até fragmentos dos vírus da gripe espanhola; esta, com bagagem de 100 milhões de mortos, matou Rodrigues Alves, que acabara com a febre amarela; doença que o africano Aedes aegypti trouxe em 1685/6 para Recife e Salvador; mosquito que nós erradicamos duas vezes, mas continua matando com a dengue. A colheita das pragas é grande, e temos algumas vitórias e muitas derrotas. A maior, o impaludismo, nos bate há 10 mil anos.

O Brasil tinha uma história de vacinação. A primeira foi em 1804. Em 1811 tivemos mesmo uma Junta Vacínica. Com o uso direto do vírus ativo, acontecia de ser pior que o soneto. Um século depois, Rodrigues Alves chamou Osvaldo Cruz, jovem médico a quem não conhecia, para acabar com a febre amarela e a varíola. A imprensa, um grupo de médicos negacionistas e alguns conspiradores militares ficaram contra ele. Consideravam absurdo que os mata-mosquitos pudessem entrar nas casas para acabar com o Aedes.

A Lei 1261/1904 tornou obrigatória a vacina contra a varíola. A conspiração positivista, que faria chefe da ditadura a Lauro Sodré, partiu para a ação. Revoltou-se o Rio de Janeiro. O dia 14 de novembro foi de conflito armado. O governo dominou, com dificuldade, a situação. Na discussão do pedido de estado de sítio, Rui Barbosa, nosso maior intelectual, numa posição incompreensível, ataca: “Não tem nome, na categoria dos crimes do poder, a temeridade, a violência, a tirania a que ele se aventura… a me envenenar, com a introdução, no meu sangue, de um vírus… condutor da moléstia, ou da morte.” E apoia o governo, elogia o desbaratamento do golpe!!!

No Maranhão a história é outra. Cláudio Amaral Júnior, grande nome da vacinação no País, conduziu a campanha que em oito meses erradicou a varíola. Fiz o possível para ajudá-lo: acionei a estrutura das escolas comunitárias “João de Barro”, fazíamos os “Comícios da Saúde”, 15 dias de campanha preparatória e promovi a “vacinação num só dia”. Na Praça João Lisboa vacinamos 40 mil pessoas de uma levada, trabalhando até meia-noite. Essa experiência foi levada por ele e pela OMS para outros países.

Contra a Covid o caminho é claro: precisamos da vacinação em massa, alcançando indiscriminadamente dos mais ricos aos mais pobres. O Brasil tem instituições que são capazes de produzir rapidamente as vacinas que tenham sucesso. Aqui no Maranhão temos que nos preparar para aplicar as vacinas. Levantar voluntariado, treinar e organizar equipes, fazer um trabalho coordenado com os municípios, chegar aos povoados mais remotos.

O Estado do Maranhão, 20/09/2020


https://www.academia.org.br/artigos/todo-poder-vacina

 

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José Sarney - Sexto ocupante da Cadeira nº 38 da ABL, eleito em 17 de julho de 1980, na sucessão de José Américo de Almeida e recebido em 6 de novembro de 1980 pelo Acadêmico Josué Montello. Recebeu os Acadêmicos Marcos Vinicios Vilaça e Affonso Arinos de Mello Franco.

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