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sexta-feira, 25 de setembro de 2020

QUEM COMBATE DE MODO “POLITICAMENTE CORRETO” NÃO CONQUISTA A VITÓRIA - Plinio Maria Solimeo

24 de setembro de 2020


Plinio Maria Solimeo

Hoje em dia tal é a pressão dos meios de comunicação social sobre as pessoas em geral que, independentemente de seu nível social e representativo, ao se manifestarem, para serem “politicamente corretas”, elas silenciam sobre as opiniões que deveriam por dever de ofício expressar com clareza.

É o que ocorre inclusive com eclesiásticos de alto escalão quando falam de problemas morais. Em vez de justificá-los com base na religião que professam, por uma espécie de incompreensível respeito humano, para não ferir os ateus ou agnósticos ou destoar da opinião geral, silenciam o aspecto religioso do que dizem. Exemplifiquemos com dois casos recentes.

Está em tramitação no Congresso espanhol, propulsionado pelos esquerdistas radicais apoiados pela esquerda em geral, uma nova lei para aprovar a eutanásia, o suicídio assistido etc.

A propósito desse polêmico assunto, a Comissão Executiva da Conferência dos Bispos Espanhóis publicou no dia 14 uma “reflexão”.

Os prelados recordam que essa lei “é uma má notícia, pois a vida humana não é um bem à disposição de ninguém”. Por isso, “insistir no ‘direito à eutanásia’ é próprio de uma visão individualista e reducionista do ser humano, e de uma liberdade desvinculada da responsabilidade. Afirma-se uma radical autonomia individual e, ao mesmo tempo, se reclama uma intervenção ‘compassiva’ da sociedade, através da medicina, originando-se uma incoerência antropológica”. Ora, dizem os bispos, “o próprio da medicina é curar, mas também cuidar, aliviar e consolar, sobretudo no final da vida. A medicina paliativa se propõe a humanizar o processo da morte, e acompanhar o doente até o final. Não há enfermos ‘não cuidáveis’ mesmo que sejam incuráveis”.

Acrescentam os bispos: “O suicídio crescente entre nós também reclama uma reflexão e práticas sociais e sanitárias de prevenção e cuidado oportuno. A legalização de formas de suicídio assistido não ajudará na hora de insistir quem está tentado de suicídio que a morte não é a saída adequada. A lei, que tem uma função de proposta geral de critérios éticos, não pode propor a morte como solução do problema.”

A Conferência Episcopal Espanhola considera ademais que “uma sociedade não pode pensar na eliminação total do sofrimento e, quando não o consegue, propor sair do cenário da vida; deve, pelo contrário, acompanhar, paliar e ajudar a viver esse sofrimento”.

Os bispos concluem: “O sim à dignidade da pessoa, sobretudo nos momentos em que é mais indefesa e frágil, nos obriga a nos opor a essa lei que, em nome de uma dita morte digna, nega em sua raiz a dignidade de toda vida humana.”

Essa “reflexão” — que poderia ter sido escrita por qualquer movimento civil de defesa da vida sem orientação religiosa ou filantrópica específica — é muito censurável numa Conferência Episcopal que deveria se expressar de modo católico. Ela omite o principal aspecto do problema, que é o religioso, pois a eutanásia viola o V Mandamento de Lei de Deus: NÃO MATAR.

Essa mesma crítica se pode fazer à “Carta Aberta” do Cardeal Cañizares, de Valência, entretanto forte e contundente em muitos aspectos, se comparado com seus pares que nada fizeram.

O purpurado diz que a aprovação da lei da eutanásia foi uma derrota “histórica, humilhante […] da Espanha inteira, da sociedade espanhola, das pessoas que habitamos aqui, derrota também da humanidade, do próprio homem, pela aprovação da lei da eutanásia em trâmite, suicídio assistido, e pelo rechaço de outras propostas sobre cuidados paliativos que melhoravam a atual legislação”.

Numa linguagem forte, o Cardeal Cañizares diz: “Sr. Presidente do Governo, membros do Governo, ministros, parlamentares que aprovaram tamanha injustiça, aliás monstruosa, estão os Srs. loucos, perderam a cabeça, ou sua moral é não tê-la? Deem-se conta de que os Srs., como Governo ou como Parlamentares, existem para defender, proteger, tutelar o bem comum baseado em direito e deveres fundamentais da sociedade à que representam — o primeiro é a vida —, e acontece que se converteram em inimigos que se opõem à sociedade, dispostos a derrotar essa sociedade que representam e devem proteger, ao propugnar semelhante proposta de Lei, que difunde e aumenta uma cultura de morte, sobretudo em meio à Pandemia do Covid-19. Que credibilidade podem manter diante de dita Pandemia? Com que autoridade moral podem dirigir-se a esse povo e pedir-nos o que nos pedem? Não se veem como um sinal de contradição?”.

Depois de dizer que sua atitude não representa uma intromissão na política, mas que sua responsabilidade como bispo e como cidadão não lhe permite calar, ele conclui dizendo: “E assim devo denunciar ante a opinião pública esse comportamento, como também o dos meios de comunicação que tanta importância deram ao ‘assunto dos prefeitos’, e sem embargo tão pouco relevo ao assunto da eutanásia, que constitui não uma derrota histórica de um Governo, mas uma derrota de todo um Estado.”

Concluímos repetindo ser lastimável ver um Cardeal e bispos da Santa Igreja, que enfrentaram os Poderes constituídos, o fazerem não como ministros de Deus e guardiães de sua santa doutrina que são, mas como uma autoridade civil qualquer.

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– https://www.religionenlibertad.com/espana/545654904/obispos-espanoles-eutanasia-enfermos-incuidables-incurables.html
– https://www.religionenlibertad.com/espana/978146941/Estan-locos-han-perdido-la-cabeza-o-su-moral-es-no-tenerla-dura-carta-de-Canizares-al-Gobierno.html?utm_source=boletin&utm_medium=mail&utm_campaign=boletin&origin=newsletter&id=31&tipo=3&identificador=978146941&id_boletin=923471013&cod_suscriptor=452495753


https://www.abim.inf.br/quem-combate-de-modo-politicamente-correto-nao-conquista-a-vitoria/

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quinta-feira, 24 de setembro de 2020

TODO PODER À VACINA - José Sarney


A vacina é o único socorro de esperança contra a ameaça da Covid. Já falei mais de uma vez do cálculo de Malthus sobre a expansão da Humanidade e da narrativa que Jared Diamond faz da ascensão e queda das civilizações: nos cenários, guerras e germes. A história das pragas é uma desgraça: desde as sete pragas do Egito, que são dez, o que se vê são as populações dizimadas. Dizimadas não: o decimatio castigava um em cada dez soldados, mas as pestes sempre foram mais radicais. A praga de Justiniano matou mais da metade da Humanidade; a peste negra, um quarto.

Para uma doença virar epidemia ou pandemia, ela precisa ser contagiosa e viajar. Assim nossas cidades marítimas não escaparam da reviravolta da natureza — pois é isso o que acontece quando mexemos com o meio ambiente, mesmo na “inocente” domesticação de rebanhos. Varíola, gripe, malária, dengue, febre amarela, SARS passaram por aqui. Houve a gripe suína, que era em parte aviária, mas tinha até fragmentos dos vírus da gripe espanhola; esta, com bagagem de 100 milhões de mortos, matou Rodrigues Alves, que acabara com a febre amarela; doença que o africano Aedes aegypti trouxe em 1685/6 para Recife e Salvador; mosquito que nós erradicamos duas vezes, mas continua matando com a dengue. A colheita das pragas é grande, e temos algumas vitórias e muitas derrotas. A maior, o impaludismo, nos bate há 10 mil anos.

O Brasil tinha uma história de vacinação. A primeira foi em 1804. Em 1811 tivemos mesmo uma Junta Vacínica. Com o uso direto do vírus ativo, acontecia de ser pior que o soneto. Um século depois, Rodrigues Alves chamou Osvaldo Cruz, jovem médico a quem não conhecia, para acabar com a febre amarela e a varíola. A imprensa, um grupo de médicos negacionistas e alguns conspiradores militares ficaram contra ele. Consideravam absurdo que os mata-mosquitos pudessem entrar nas casas para acabar com o Aedes.

A Lei 1261/1904 tornou obrigatória a vacina contra a varíola. A conspiração positivista, que faria chefe da ditadura a Lauro Sodré, partiu para a ação. Revoltou-se o Rio de Janeiro. O dia 14 de novembro foi de conflito armado. O governo dominou, com dificuldade, a situação. Na discussão do pedido de estado de sítio, Rui Barbosa, nosso maior intelectual, numa posição incompreensível, ataca: “Não tem nome, na categoria dos crimes do poder, a temeridade, a violência, a tirania a que ele se aventura… a me envenenar, com a introdução, no meu sangue, de um vírus… condutor da moléstia, ou da morte.” E apoia o governo, elogia o desbaratamento do golpe!!!

No Maranhão a história é outra. Cláudio Amaral Júnior, grande nome da vacinação no País, conduziu a campanha que em oito meses erradicou a varíola. Fiz o possível para ajudá-lo: acionei a estrutura das escolas comunitárias “João de Barro”, fazíamos os “Comícios da Saúde”, 15 dias de campanha preparatória e promovi a “vacinação num só dia”. Na Praça João Lisboa vacinamos 40 mil pessoas de uma levada, trabalhando até meia-noite. Essa experiência foi levada por ele e pela OMS para outros países.

Contra a Covid o caminho é claro: precisamos da vacinação em massa, alcançando indiscriminadamente dos mais ricos aos mais pobres. O Brasil tem instituições que são capazes de produzir rapidamente as vacinas que tenham sucesso. Aqui no Maranhão temos que nos preparar para aplicar as vacinas. Levantar voluntariado, treinar e organizar equipes, fazer um trabalho coordenado com os municípios, chegar aos povoados mais remotos.

O Estado do Maranhão, 20/09/2020


https://www.academia.org.br/artigos/todo-poder-vacina

 

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José Sarney - Sexto ocupante da Cadeira nº 38 da ABL, eleito em 17 de julho de 1980, na sucessão de José Américo de Almeida e recebido em 6 de novembro de 1980 pelo Acadêmico Josué Montello. Recebeu os Acadêmicos Marcos Vinicios Vilaça e Affonso Arinos de Mello Franco.

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quarta-feira, 23 de setembro de 2020

PREÁ - Antônio Baracho

Preá

              

A Alana

 

Ontem fazia calor

E eu subia lentamente, pausadamente,

A Rua "Ariston Caldas".

Sem o rodopio das crianças,

 Sem o esconde-esconde, do meu filho.

Tingia um sentimento amargo,

Talvez medo de ficar só.

As crianças voltam a mim.

E finjo que as vejo

Na retina dos meus olhos,

Subindo a ladeira,

Gritando e soltando pipa.

Tudo isso fica ausente...

Os bem-te-vis, um gorjeio de um sabiá,

Os latidos de Kika são interrompidos

Quando uma preá

Passa correndo,

Atravessando a rua,

Assustada com o pio de uma cobra.

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 Antônio Baracho, Poeta Psicólogo.

Membro da Academia Grapiúna de Letras- AGRAL e ao Clube do Poeta Sul da Bahia.

Tel. (73) 98801-1224 / 99102-7937

E-mail: antoniobaracho@hotmail.com

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terça-feira, 22 de setembro de 2020

DIRETO AO ASSUNTO – Martha Medeiros



Direto ao Assunto


Quanto tempo a gente perde na vida? Se somarmos todos os minutos jogados fora, perdemos anos inteiros. Depois de nascer, a gente demora pra falar, demora pra caminhar, aí mais tarde demora pra entender certas coisas, demora pra dar o braço a torcer. Viramos adolescentes teimosos e dramáticos. Levamos um século para aceitar o fim de uma relação, e outro século para abrir a guarda para um novo amor... E adultos demoramos dizer a alguém o que sentimos, demoramos para perdoar um amigo, demoramos para tomar uma decisão.

 Até que um dia a gente faz aniversário. 37 anos. Ou 41. Talvez 48. Uma idade qualquer que esteja no meio do trajeto. E a gente descobre que o tempo não pode continuar sendo desperdiçado. Fazendo uma analogia com o futebol, é como se a gente estivesse com o jogo empatado no segundo tempo e ainda se desse ao luxo de atrasar a bola para o goleiro ou fazer tabelas desnecessárias. Que esbanjamento. Não falta muito para o jogo acabar. É preciso encontrar logo o caminho do gol. Sem muita frescura, sem muito desgaste, sem muito discurso.

 Tudo o que a gente quer, depois de uma certa idade, é ir direto ao assunto. Excetuando-se no sexo, onde a rapidez não é louvada, pra todo o resto é melhor atalhar. E isso a gente só alcança com alguma vivência e maturidade. Pessoas experientes já não cozinham em fogo brando, não esperam sentadas, não ficam dando voltas e voltas, não necessitam percorrer todos os estágios. Queimam etapas. Não desperdiçam mais nada.

Uma pessoa é sempre bruta com você? Não é obrigatório conviver com ela. O seu amor está enrolando muito? Beije-o primeiro. A resposta do emprego ainda não veio? Procure outro enquanto espera. Paciência só para o que importa de verdade. 

Paciência para ver a tarde cair. 

Paciência para sorver um cálice de vinho. 

Paciência para a música e para os livros. 

Paciência para escutar um amigo. 

Paciência para aquilo que vale nossa dedicação 

Para enrolação... ATALHO!

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Martha Mattos Medeiros é uma escritora, aforista e poetisa brasileira. É conhecida como uma das melhores cronistas brasileiras. Entre suas obras mais conhecidas estão Divã, Doidas e Santas e Feliz Por Nada. Seus livros já ultrapassaram a marca de 1 milhão de exemplares vendidos. Wikipédia

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segunda-feira, 21 de setembro de 2020

“PANDEMIA E O VELHO ANORMAL” É O TEMA DA PRÓXIMA CONFERÊNCIA DO CICLO DE PODCASTS INTITULADO "PENSANDO O NOVO NORMAL"


Academia Brasileira de Letras prossegue com o seu o ciclo de podcasts "Pensando o novo normal", gravado por seus acadêmicos e que aborda as relações entre a pandemia e as diferentes áreas do conhecimento humano. O décimo terceiro episódio disponibilizado foi gravado pelo Acadêmico João Almino e estará disponível para os ouvintes a partir das 16h da próxima quarta-feira, dia 23 de setembro. O tema escolhido foi "Pandemia e o Velho Anormal". A apresentação do programa e coordenação-geral do ciclo cabem ao Acadêmico Antônio Torres.

Durante a emissão, o Acadêmico discute as diferenças entre o pré e o pós-pandemia: “O que é normal? Se considerássemos 'normal' o que havia antes da pandemia, miséria, desigualdade, crises políticas e ambientais, teríamos de admitir que estamos vivenciando uma velha normalidade piorada. Pois o fato é que a pandemia está agravando coisas que já conhecíamos. Suas consequências na economia e muito especialmente no campo social são claras. Não estamos diante de um novo normal, mas sim de um velho e insistente normal, quando pessoas perdem o emprego e têm dificuldade de se manter quando a pobreza avança, quando as desigualdades internas internacionais ficam mais evidentes e quando as condições gerais de saúde pioram por causa do vírus e por seus efeitos indiretos. (...) Agora, se tivermos a expectativa de que as coisas mudem para melhor num determinado horizonte de tempo, então podemos considerar que esta normalidade piorada é passageira. A humanidade terá atravessado um período excepcional de meses ou anos, como aconteceu em outras pandemias, ou durante guerras. Já a velocidade das soluções vai depender da criatividade de governos e sociedades, da ciência e da tecnologia, da cooperação internacional, de medidas governamentais, de iniciativas privadas, coletivas e individuais. Acho que nem tudo vai mudar para pior, algumas oportunidades se abrem: tendências promissoras que já se percebiam antes da pandemia podem se reforçar.”

Está previsto, até o final de setembro, mais 1 episódio, sempre apresentado às quartas-feiras. Todos os podcasts gravados ficarão disponíveis no site da Academia, assim como nas plataformas de streaming Spotify, Apple Podcasts, Deezer e Castbox.

21/09/2020

https://www.academia.org.br/noticias/pandemia-e-o-velho-anormal-e-o-tema-da-proxima-conferencia-do-ciclo-de-podcasts-intitulado

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domingo, 20 de setembro de 2020

A ALEGRIA E A TRISTEZA – Gibran Khalil Gibran




A Alegria e a Tristeza


            Então uma mulher disse: “Fala-nos da Alegria e da Tristeza”.

            E ele respondeu:

            “Vossa alegria é vossa tristeza desmascarada.

            E o mesmo poço que dá nascimento a vosso riso foi muitas vezes preenchido por vossas lágrimas.

            E como poderia não ser assim?

            Quanto mais profundamente a tristeza cravar a sua garra em vosso ser, tanto mais alegria podereis conter.

            Não é a taça que contém vosso vinho a mesma que foi queimada no forno do oleiro?

            E não é a lira que acaricia vossa alma a própria madeira que entalhada a faca?

            Quando estiverdes alegres, olhai no fundo de vosso coração, e achareis que o que vos deu tristeza é aquilo mesmo que está vos dando alegria.

            E quando estiverdes tristes, olhai novamente no vosso coração e vereis que, na verdade, estais chorando por aquilo mesmo que constitui vosso deleite.

 

            Alguns dentre vós dizeis: “A alegria é maior que a tristeza”, e outros dizem: “Não, a tristeza é maior”.

            Porém, eu vos digo que elas são inseparáveis.

            Vêm sempre juntas; e quando uma está sentada à vossa mesa, lembrai-vos de que a outra dorme em vossa cama.

            Em verdade, vós estais suspensos como os pratos de uma balança entre vossa tristeza e vossa alegria.

            É somente quando estais vazios que estais equilibrados.

            Quando o guarda do tesouro vos suspende para pesar seu ouro e sua prata, então deve a vossa alegria ou a vossa tristeza subir ou descer.”

 

(O PROFETA)

Gibran Khalil Gibran

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Gibran Khalil Gibran - Poeta libanês, viveu na França e nos EUA. Também foi um aclamado pintor. Seus textos apresentam a beleza da alma humana e da Natureza, num estilo belo, místico, conseguindo com simplicidade explicar os segredos da vida, da alegria, da justiça, do amor, da verdade.

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 “HÁ DENTRO DE MIM UM PODER IMPACIENTE POR SE REVELAR”


 

       Essas qualidades bastavam para produzir uma grande obra literária e humana, mas não explicam essa irradiação intensa que emana de O Profeta e que, tanto quanto o valor da obra, provoca o entusiasmo dos leitores.

          Essa irradiação provém da fé do Gibran em sua missão. Gibran não considerava O Profeta como um simples livro, mas como sua mensagem, com a razão pela qual fora enviado a este mundo, com a palavra em torno da qual toda a sua vida se concentrava.

          Desde a juventude, Gibran estava consciente de possuir um poder excepcional que procurava sua expressão. Em cartas a amigos, encontram-se repetidamente declarações como estas:

          “Sinto que há nas profundezas do meu coração uma grande força que se quer manifestar, mas é ainda incapaz de fazê-lo. Meus sentimentos são como as marés de um oceano. Minha alma é como uma águia de asas partidas. Sofre dolorosamente quando vê os pássaros voar nos espaços, porque não pode ainda imitá-los.”

          Aos 15 anos, tenta dar forma a essa força impaciente por se exteriorizar, e debuxa uma primeira versão, em árabe, de O Profeta. De regresso a Boston, lê para sua mãe trechos do livro que “iria transformar o mundo”. A mãe acalma a exaltação do filho: “É um bom trabalho, Gibran, mas seu tempo ainda não chegou. Deixa-o amadurecer.”

            Gibran aceita o conselho, que corresponde, aliás, à sua própria convicção. Mas O Profeta não o abandona nunca mais. Escreve e publica outros livros, mas deixa O Profeta amadurecer em sua alma.

            Em 1910, começa a redigi-lo em inglês. E enquanto suas obras árabes já o cobriam de glória, escreve a seu editor Emile Zeidan:

            “Os vinte anos que vivi como escritor e como pintor foram simplesmente uma época de preparação e de desejo. Ainda não produzi nada que mereça ficar à face do sol.”

            E continua a polir O Profeta. Reescreve-o cinco vezes em inglês, antes de remetê-lo ao editor, em 1923. Durante essa gestação de 25 anos, a mensagem se forma no fundo de seu coração, como uma pérola se forma no fundo do mar.

            E quando a pérola é enfim expelida, ele suspira de alívio: “Enfim, pronunciei-a, a palavra que carrego desde que nasci e que vim a este mundo para pronunciar”, declara, jubiloso, a um amigo. Mais tarde, lamentará ter escrito tanto. Confia a May Ziadé, sua amiga espiritual: “Por que escrevi e publiquei tantos livros? Eu nasci para viver e escrever um único livro, um pequeno livro. Nasci para viver e sofrer e pronunciar uma única palavra, vívida e alada.”

          E o mais impressionante é que essa palavra não era considerada por Gibran como uma mensagem simplesmente teórica, simplesmente intelectual: ele lhe submetia sua maneira de viver e de ser. Há um incidente particularmente significativo. Uma vez, Gibran comprou uma casa, em Boston, e a reformou para servir a uma associação feminina. A associação fracassou, deixando a casa imprópria para qualquer outra locação. Para recuperar o dinheiro investido, Gibran devia acionar a associação em juízo. Mas uma das diretoras vai vê-lo e sacode O Profeta na sua face, dizendo: “Foi o senhor quem escreveu este livro, não foi? Que pretende fazer dele agora?” apesar da insistência dos amigos, Gibran desistiu do processo. “Se o tivesse continuado, explicava, não poderia abrir outra vez o pequeno livro.”

            Independentemente de tais incidentes, Gibran viveu na atmosfera de seu livro, à sombra de suas alturas. Nunca se casou. Nunca se interessou por negócios. Dedicou toda a sua vida a escrever e pintar. Sua residência foi sempre a mais simples, a mais modesta, tanto em Paria como em Boston e Nova Iorque; e seu modo de viver não se alterou quando a venda de seus livros e quadros o tornou milionário.

            E essa fé em si mesmo e em sua missão, essa transposição da pregação para a própria vida do pregador confere a obra de Gibran a sedução mística que dotava de força extraordinária, por exemplo, as palavras de Ghandi. Os homens são particularmente atraídos para os que creem no que pregam e submetem seus atos ao seu ideal.

           

APRESENTAÇÃO

Mansour Challita

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Editora Vozes Ltda.

BRASIL 1974

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PALAVRA DA SALVAÇÃO (202)


25º Domingo do Tempo Comum – 20/09/2020

Anúncio do Evangelho (Mt 20,1-16a)

 — O Senhor esteja convosco.

— Ele está no meio de nós.

— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Mateus.

— Glória a vós, Senhor.

 Naquele tempo, Jesus contou esta parábola a seus discípulos:

“O Reino dos Céus é como a história do patrão que saiu de madrugada para contratar trabalhadores para a sua vinha. Combinou com os trabalhadores uma moeda de prata por dia, e os mandou para a vinha. Às nove horas da manhã, o patrão saiu de novo, viu outros que estavam na praça, desocupados, e lhes disse: ‘Ide também vós para a minha vinha! E eu vos pagarei o que for justo’. E eles foram. O patrão saiu de novo ao meio-dia e às três horas da tarde, e fez a mesma coisa.

Saindo outra vez pelas cinco horas da tarde, encontrou outros que estavam na praça, e lhes disse: ‘Por que estais aí o dia inteiro desocupados?’ Eles responderam: ‘Porque ninguém nos contratou’. O patrão lhes disse: ‘Ide vós também para a minha vinha’.

Quando chegou a tarde, o patrão disse ao administrador: ‘Chama os trabalhadores e paga-lhes uma diária a todos, começando pelos últimos até os primeiros!’

Vieram os que tinham sido contratados às cinco da tarde e cada um recebeu uma moeda de prata. Em seguida vieram os que foram contratados primeiro, e pensavam que iam receber mais. Porém, cada um deles também recebeu uma moeda de prata.

Ao receberem o pagamento, começaram a resmungar contra o patrão: ‘Estes últimos trabalharam uma hora só, e tu os igualaste a nós, que suportamos o cansaço e o calor o dia inteiro’.

Então o patrão disse a um deles: ‘Amigo, eu não fui injusto contigo. Não combinamos uma moeda de prata? Toma o que é teu e volta para casa! Eu quero dar a este que foi contratado por último o mesmo que dei a ti. Por acaso não tenho o direito de fazer o que quero com aquilo que me pertence? Ou estás com inveja porque estou sendo bom?’

Assim, os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos”

— Palavra da Salvação.

— Glória a vós, Senhor.

https://liturgia.cancaonova.com/pb/

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Ligue o link abaixo e acompanhe a reflexão do Padre Roger Araújo:



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O veneno da comparação


“Ou estás com inveja porque estou sendo bom?” (Mt 20,15)

Os textos evangélicos dos três últimos domingos desenvolveram o mesmo tema, numa progressão interessante: o 23º. domingo nos falava da correção fraterna, ou seja, a acolhida do irmão que errou. O 24º. domingo nos falou da necessidade do perdão contínuo como fundamento que sustenta uma comunidade. Hoje nos fala do chamado a trabalhar em favor do Reino, sem nos deixar determinar pelo sentido da justiça humana (pagar mais a quem trabalhou mais), mas a partir do amor (pura gratuidade). O critério único é deixar-nos inspirar pelo amor do Senhor da Vinha, que se manifesta em cada um de nós.

E Jesus revela isso através de mais uma parábola.

Como toda parábola, também o evangelho deste domingo é profundamente provocador, pois nos introduz em um mundo de contradição, nos confunde e nos faz clamar por um pagamento mais equitativo, mais “justo”. A maneira de proceder do proprietário da vinha transtorna os esquemas razoáveis do sistema econômica no qual nos movemos, centrado na competição e na produção. Contexto que acaba alimentando a comparação e fazendo emergir a inveja doentia que dá um sabor amargo às relações pessoais. 

Feito para ser a sede da inteligência e da experiência gratificante e edificadora de amar, o coração do ser humano também é palco de dramas desafiadores. Entre esses dramas, lá está a inveja destruidora. Um dinamismo demolidor, que petrifica situações, enrijece posturas, com dificuldades em admitir o bem e a grandeza de Deus revelada no outro. Por isso, a inveja faz com que os sábios e experientes percam os rumos, obscurece o horizonte aberto dos jovens, joga por terra o que o adulto construiu.

As consequências são funestas: a inveja acirra os conflitos, envenena as relações pelo uso ferino da língua, compromete vidas, arrasa instituições. Uma sensação de inferioridade toma conta do coração dos invejosos, incapazes de compreender para além do horizonte dos seus interesses e de suas próprias justificativas.

No contexto atual, a inveja é um dos motores sociais mais importantes. Esta é considerada como alavanca para alimentar a competição, aumentar a produtividade e insuflar as pessoas na busca de metas ambiciosas, passando por cima dos outros.

Jesus conhece bem o coração do ser humano; Ele sabe que a força da inveja compromete a alegria dos seus(suas) seguidores(as), solapa tudo, desvia do seu rumo aquele(a) que foi chamado(a), e incrementa silenciosamente a incompetência para a fraternidade.

A inveja é a mãe de muitos filhos; sua fecundação é escondida, mas os seus lastros são bem visíveis. Ela tem um poder de ramificação incrível, entrelaçando corações como erva daninha, impedindo o encantamento pelo outro, retardando reconciliações, dando margem às intrigas em todos os ambientes.

A inveja é tão terrível que, diferentemente de outros pecados capitais, como a luxúria, a gula e a soberba, não proporciona prazer.

Suas raízes escondidas estão enterradas no mais profundo da identidade de cada um. Identidade que para crescer precisa de reconhecimento, de comparação... Quando essa necessidade torna-se patológica, como consequência de um olhar narcisista exagerado sobre si mesmo, sobre seus feitos, títulos, posses, etc... a identidade fica comprometida.

A pessoa não consegue se compreender a partir do dom da vida e dos seus dons recebidos de Deus; só se vê como alguém que está acima dos outros. O parâmetro da compreensão de si é o outro, considerado como menor e menos importante. Aqui se instala o desejo de demolição do outro. Vive-se à cata de razões, mesmo insignificantes, agigantadas pela mesquinhez da inveja, para destruir o outro e garantir só para si o lugar da consideração. Trata-se de um drama que tira o sabor de viver. 

Na parábola deste domingo, Jesus não tem a intenção pedagógica de abordar a temática da justiça social que poderia aparecer na queixa daqueles que foram os primeiros contratados pelo dono da vinha. Estes, vendo o quanto tinham recebido aqueles que tinham sido contratados no fim do dia (uma moeda de prata), alimentaram desejos nos seus corações de receberem mais O incômodo nasceu da generosidade do dono da vinha. Seus critérios não comprometem a justiça, pois uma moeda era o justo para um dia de trabalho.

Quando a moeda é referência, símbolo do valor que se dá a si mesmo, fora de outros critérios e longe do horizonte do serviço a que se foi chamado, a inveja é a consequência inevitável e terrível. O peso maior recai sobre aquilo que foi feito, vale o reconhecimento ao que se fez. O trabalhador não é capaz de viver a alegria de ter sido chamado, mesmo na primeira hora e, sobretudo, a alegria de ter realizado o serviço e o cuidado que fizeram com que a vinha florescesse. A mesquinhez faz centrar o valor no próprio reconhecimento e no quanto acumula para si mesmo.

Jesus busca convencer os seus discípulos e a nós que esse caminho não leva a nada, cria aflições, multiplica os incômodos da competição; no final, só resta o gosto amargo da insatisfação, além do perigo de desvalorizar e destruir o serviço realizado, pela presença da força venenosa do egoísmo e do narcisismo que sustentam os invejosos.

O valor está no serviço, ensina o Mestre. O ganho é o serviço que se realiza. Importante é a vinha. Dignificante é ser contratado por seu proprietário para trabalhar nela. Relevante é quem chama e o empenho investido numa causa: a Vinha.

A grandeza de ser chamado e a nobreza do “sim”: eis o remédio contra o veneno da inveja.

Por isso, na vinha do Senhor, a lógica que preside é diferente: não é lógica capitalista, não é a contabilização dos feitos e das grandiosidades individuais. Na vinha do Senhor, a fecundidade é resultado da consciência da honra de ser chamado por Ele, não importando o tempo e menos ainda o valor monetário ou a busca de reconhecimento do serviço realizado. Gratuidade e generosidade são as atitudes do coração, marcas de quem trabalha nessa vinha do Reino.

Tais atitudes garantem a liberdade que o coração humano procura. Livra-o dos incômodos e mal-estar que a competição acirra no seu ser mais íntimo. Mais ainda, elas não deixam o coração embarcar na costumeira pretensão do seu próprio fazer, para encontrar gosto e alegria no bem feito junto com os outros, mesmo aqueles que foram chamados à tarde. O decisivo é a participação honesta e oblativa naquilo que realiza.

Trabalhar, servindo com a consciência despojada de simples servo, é a indicação que Jesus dá aos seus para encontrar o caminho da fecundidade, a superação das amargas queixas, o risco de afogar-se nas próprias inferioridades. Os olhos precisam estar sempre fitos no Senhor da vinha, fazendo o que Ele indicar, com alegria e investimento de todo o ser. Essa é a verdadeira recompensa, o “denário” do final do dia.

Hoje precisamos superar todo espírito de competição e cobiça; precisamos superar todo o “exclusivismo” que ainda pulsa no subconsciente cristão. É ainda latente uma atitude de complexo de superioridade que não tem nenhuma justificação.

Não resta dúvida que aceitar em profundidade a mensagem evangélica de hoje de que “os primeiros serão os últimos”, exige de nós uma mudança de mentalidade a fundo.

Trata-se de romper os esquemas nos quais está baseada a sociedade que se move unicamente pelo interesse. Como dirigida à comunidade cristã, a parábola pretende criar relações humanas que estejam mais além de todo interesse egoísta de indivíduo ou de grupo. Os atos dos Apóstolos nos dão a pista quando nos dizem: “possuíam tudo em comum, e repartiam os bens entre todos, segundo a necessidade de cada um”.

 Texto bíblico:  Mt 20,1-16 

 Na oração: - é na “queixa”, declarada ou não, que reconheço em mim a imagem dos “trabalhadores da primeira hora”.  Quais são minhas queixas?

 - não é fácil distinguir o meu ressentimento e administrá-lo de maneira sensata;  esta é a realidade: onde quer  que se encontre meu lado virtuoso, aí também existirá sempre um lado  queixoso e ressentido;

 - abrir espaço em meu interior para que a bondade e a gratuidade do Pai prevaleçam na minha relação com os outros.

 


Pe. Adroaldo Palaoro sj

https://centroloyola.org.br/revista/outras-palavras/espiritualidade/2147-o-veneno-da-comparacao

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