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segunda-feira, 21 de setembro de 2020

“PANDEMIA E O VELHO ANORMAL” É O TEMA DA PRÓXIMA CONFERÊNCIA DO CICLO DE PODCASTS INTITULADO "PENSANDO O NOVO NORMAL"


Academia Brasileira de Letras prossegue com o seu o ciclo de podcasts "Pensando o novo normal", gravado por seus acadêmicos e que aborda as relações entre a pandemia e as diferentes áreas do conhecimento humano. O décimo terceiro episódio disponibilizado foi gravado pelo Acadêmico João Almino e estará disponível para os ouvintes a partir das 16h da próxima quarta-feira, dia 23 de setembro. O tema escolhido foi "Pandemia e o Velho Anormal". A apresentação do programa e coordenação-geral do ciclo cabem ao Acadêmico Antônio Torres.

Durante a emissão, o Acadêmico discute as diferenças entre o pré e o pós-pandemia: “O que é normal? Se considerássemos 'normal' o que havia antes da pandemia, miséria, desigualdade, crises políticas e ambientais, teríamos de admitir que estamos vivenciando uma velha normalidade piorada. Pois o fato é que a pandemia está agravando coisas que já conhecíamos. Suas consequências na economia e muito especialmente no campo social são claras. Não estamos diante de um novo normal, mas sim de um velho e insistente normal, quando pessoas perdem o emprego e têm dificuldade de se manter quando a pobreza avança, quando as desigualdades internas internacionais ficam mais evidentes e quando as condições gerais de saúde pioram por causa do vírus e por seus efeitos indiretos. (...) Agora, se tivermos a expectativa de que as coisas mudem para melhor num determinado horizonte de tempo, então podemos considerar que esta normalidade piorada é passageira. A humanidade terá atravessado um período excepcional de meses ou anos, como aconteceu em outras pandemias, ou durante guerras. Já a velocidade das soluções vai depender da criatividade de governos e sociedades, da ciência e da tecnologia, da cooperação internacional, de medidas governamentais, de iniciativas privadas, coletivas e individuais. Acho que nem tudo vai mudar para pior, algumas oportunidades se abrem: tendências promissoras que já se percebiam antes da pandemia podem se reforçar.”

Está previsto, até o final de setembro, mais 1 episódio, sempre apresentado às quartas-feiras. Todos os podcasts gravados ficarão disponíveis no site da Academia, assim como nas plataformas de streaming Spotify, Apple Podcasts, Deezer e Castbox.

21/09/2020

https://www.academia.org.br/noticias/pandemia-e-o-velho-anormal-e-o-tema-da-proxima-conferencia-do-ciclo-de-podcasts-intitulado

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domingo, 20 de setembro de 2020

A ALEGRIA E A TRISTEZA – Gibran Khalil Gibran




A Alegria e a Tristeza


            Então uma mulher disse: “Fala-nos da Alegria e da Tristeza”.

            E ele respondeu:

            “Vossa alegria é vossa tristeza desmascarada.

            E o mesmo poço que dá nascimento a vosso riso foi muitas vezes preenchido por vossas lágrimas.

            E como poderia não ser assim?

            Quanto mais profundamente a tristeza cravar a sua garra em vosso ser, tanto mais alegria podereis conter.

            Não é a taça que contém vosso vinho a mesma que foi queimada no forno do oleiro?

            E não é a lira que acaricia vossa alma a própria madeira que entalhada a faca?

            Quando estiverdes alegres, olhai no fundo de vosso coração, e achareis que o que vos deu tristeza é aquilo mesmo que está vos dando alegria.

            E quando estiverdes tristes, olhai novamente no vosso coração e vereis que, na verdade, estais chorando por aquilo mesmo que constitui vosso deleite.

 

            Alguns dentre vós dizeis: “A alegria é maior que a tristeza”, e outros dizem: “Não, a tristeza é maior”.

            Porém, eu vos digo que elas são inseparáveis.

            Vêm sempre juntas; e quando uma está sentada à vossa mesa, lembrai-vos de que a outra dorme em vossa cama.

            Em verdade, vós estais suspensos como os pratos de uma balança entre vossa tristeza e vossa alegria.

            É somente quando estais vazios que estais equilibrados.

            Quando o guarda do tesouro vos suspende para pesar seu ouro e sua prata, então deve a vossa alegria ou a vossa tristeza subir ou descer.”

 

(O PROFETA)

Gibran Khalil Gibran

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Gibran Khalil Gibran - Poeta libanês, viveu na França e nos EUA. Também foi um aclamado pintor. Seus textos apresentam a beleza da alma humana e da Natureza, num estilo belo, místico, conseguindo com simplicidade explicar os segredos da vida, da alegria, da justiça, do amor, da verdade.

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 “HÁ DENTRO DE MIM UM PODER IMPACIENTE POR SE REVELAR”


 

       Essas qualidades bastavam para produzir uma grande obra literária e humana, mas não explicam essa irradiação intensa que emana de O Profeta e que, tanto quanto o valor da obra, provoca o entusiasmo dos leitores.

          Essa irradiação provém da fé do Gibran em sua missão. Gibran não considerava O Profeta como um simples livro, mas como sua mensagem, com a razão pela qual fora enviado a este mundo, com a palavra em torno da qual toda a sua vida se concentrava.

          Desde a juventude, Gibran estava consciente de possuir um poder excepcional que procurava sua expressão. Em cartas a amigos, encontram-se repetidamente declarações como estas:

          “Sinto que há nas profundezas do meu coração uma grande força que se quer manifestar, mas é ainda incapaz de fazê-lo. Meus sentimentos são como as marés de um oceano. Minha alma é como uma águia de asas partidas. Sofre dolorosamente quando vê os pássaros voar nos espaços, porque não pode ainda imitá-los.”

          Aos 15 anos, tenta dar forma a essa força impaciente por se exteriorizar, e debuxa uma primeira versão, em árabe, de O Profeta. De regresso a Boston, lê para sua mãe trechos do livro que “iria transformar o mundo”. A mãe acalma a exaltação do filho: “É um bom trabalho, Gibran, mas seu tempo ainda não chegou. Deixa-o amadurecer.”

            Gibran aceita o conselho, que corresponde, aliás, à sua própria convicção. Mas O Profeta não o abandona nunca mais. Escreve e publica outros livros, mas deixa O Profeta amadurecer em sua alma.

            Em 1910, começa a redigi-lo em inglês. E enquanto suas obras árabes já o cobriam de glória, escreve a seu editor Emile Zeidan:

            “Os vinte anos que vivi como escritor e como pintor foram simplesmente uma época de preparação e de desejo. Ainda não produzi nada que mereça ficar à face do sol.”

            E continua a polir O Profeta. Reescreve-o cinco vezes em inglês, antes de remetê-lo ao editor, em 1923. Durante essa gestação de 25 anos, a mensagem se forma no fundo de seu coração, como uma pérola se forma no fundo do mar.

            E quando a pérola é enfim expelida, ele suspira de alívio: “Enfim, pronunciei-a, a palavra que carrego desde que nasci e que vim a este mundo para pronunciar”, declara, jubiloso, a um amigo. Mais tarde, lamentará ter escrito tanto. Confia a May Ziadé, sua amiga espiritual: “Por que escrevi e publiquei tantos livros? Eu nasci para viver e escrever um único livro, um pequeno livro. Nasci para viver e sofrer e pronunciar uma única palavra, vívida e alada.”

          E o mais impressionante é que essa palavra não era considerada por Gibran como uma mensagem simplesmente teórica, simplesmente intelectual: ele lhe submetia sua maneira de viver e de ser. Há um incidente particularmente significativo. Uma vez, Gibran comprou uma casa, em Boston, e a reformou para servir a uma associação feminina. A associação fracassou, deixando a casa imprópria para qualquer outra locação. Para recuperar o dinheiro investido, Gibran devia acionar a associação em juízo. Mas uma das diretoras vai vê-lo e sacode O Profeta na sua face, dizendo: “Foi o senhor quem escreveu este livro, não foi? Que pretende fazer dele agora?” apesar da insistência dos amigos, Gibran desistiu do processo. “Se o tivesse continuado, explicava, não poderia abrir outra vez o pequeno livro.”

            Independentemente de tais incidentes, Gibran viveu na atmosfera de seu livro, à sombra de suas alturas. Nunca se casou. Nunca se interessou por negócios. Dedicou toda a sua vida a escrever e pintar. Sua residência foi sempre a mais simples, a mais modesta, tanto em Paria como em Boston e Nova Iorque; e seu modo de viver não se alterou quando a venda de seus livros e quadros o tornou milionário.

            E essa fé em si mesmo e em sua missão, essa transposição da pregação para a própria vida do pregador confere a obra de Gibran a sedução mística que dotava de força extraordinária, por exemplo, as palavras de Ghandi. Os homens são particularmente atraídos para os que creem no que pregam e submetem seus atos ao seu ideal.

           

APRESENTAÇÃO

Mansour Challita

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Editora Vozes Ltda.

BRASIL 1974

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PALAVRA DA SALVAÇÃO (202)


25º Domingo do Tempo Comum – 20/09/2020

Anúncio do Evangelho (Mt 20,1-16a)

 — O Senhor esteja convosco.

— Ele está no meio de nós.

— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Mateus.

— Glória a vós, Senhor.

 Naquele tempo, Jesus contou esta parábola a seus discípulos:

“O Reino dos Céus é como a história do patrão que saiu de madrugada para contratar trabalhadores para a sua vinha. Combinou com os trabalhadores uma moeda de prata por dia, e os mandou para a vinha. Às nove horas da manhã, o patrão saiu de novo, viu outros que estavam na praça, desocupados, e lhes disse: ‘Ide também vós para a minha vinha! E eu vos pagarei o que for justo’. E eles foram. O patrão saiu de novo ao meio-dia e às três horas da tarde, e fez a mesma coisa.

Saindo outra vez pelas cinco horas da tarde, encontrou outros que estavam na praça, e lhes disse: ‘Por que estais aí o dia inteiro desocupados?’ Eles responderam: ‘Porque ninguém nos contratou’. O patrão lhes disse: ‘Ide vós também para a minha vinha’.

Quando chegou a tarde, o patrão disse ao administrador: ‘Chama os trabalhadores e paga-lhes uma diária a todos, começando pelos últimos até os primeiros!’

Vieram os que tinham sido contratados às cinco da tarde e cada um recebeu uma moeda de prata. Em seguida vieram os que foram contratados primeiro, e pensavam que iam receber mais. Porém, cada um deles também recebeu uma moeda de prata.

Ao receberem o pagamento, começaram a resmungar contra o patrão: ‘Estes últimos trabalharam uma hora só, e tu os igualaste a nós, que suportamos o cansaço e o calor o dia inteiro’.

Então o patrão disse a um deles: ‘Amigo, eu não fui injusto contigo. Não combinamos uma moeda de prata? Toma o que é teu e volta para casa! Eu quero dar a este que foi contratado por último o mesmo que dei a ti. Por acaso não tenho o direito de fazer o que quero com aquilo que me pertence? Ou estás com inveja porque estou sendo bom?’

Assim, os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos”

— Palavra da Salvação.

— Glória a vós, Senhor.

https://liturgia.cancaonova.com/pb/

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Ligue o link abaixo e acompanhe a reflexão do Padre Roger Araújo:



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O veneno da comparação


“Ou estás com inveja porque estou sendo bom?” (Mt 20,15)

Os textos evangélicos dos três últimos domingos desenvolveram o mesmo tema, numa progressão interessante: o 23º. domingo nos falava da correção fraterna, ou seja, a acolhida do irmão que errou. O 24º. domingo nos falou da necessidade do perdão contínuo como fundamento que sustenta uma comunidade. Hoje nos fala do chamado a trabalhar em favor do Reino, sem nos deixar determinar pelo sentido da justiça humana (pagar mais a quem trabalhou mais), mas a partir do amor (pura gratuidade). O critério único é deixar-nos inspirar pelo amor do Senhor da Vinha, que se manifesta em cada um de nós.

E Jesus revela isso através de mais uma parábola.

Como toda parábola, também o evangelho deste domingo é profundamente provocador, pois nos introduz em um mundo de contradição, nos confunde e nos faz clamar por um pagamento mais equitativo, mais “justo”. A maneira de proceder do proprietário da vinha transtorna os esquemas razoáveis do sistema econômica no qual nos movemos, centrado na competição e na produção. Contexto que acaba alimentando a comparação e fazendo emergir a inveja doentia que dá um sabor amargo às relações pessoais. 

Feito para ser a sede da inteligência e da experiência gratificante e edificadora de amar, o coração do ser humano também é palco de dramas desafiadores. Entre esses dramas, lá está a inveja destruidora. Um dinamismo demolidor, que petrifica situações, enrijece posturas, com dificuldades em admitir o bem e a grandeza de Deus revelada no outro. Por isso, a inveja faz com que os sábios e experientes percam os rumos, obscurece o horizonte aberto dos jovens, joga por terra o que o adulto construiu.

As consequências são funestas: a inveja acirra os conflitos, envenena as relações pelo uso ferino da língua, compromete vidas, arrasa instituições. Uma sensação de inferioridade toma conta do coração dos invejosos, incapazes de compreender para além do horizonte dos seus interesses e de suas próprias justificativas.

No contexto atual, a inveja é um dos motores sociais mais importantes. Esta é considerada como alavanca para alimentar a competição, aumentar a produtividade e insuflar as pessoas na busca de metas ambiciosas, passando por cima dos outros.

Jesus conhece bem o coração do ser humano; Ele sabe que a força da inveja compromete a alegria dos seus(suas) seguidores(as), solapa tudo, desvia do seu rumo aquele(a) que foi chamado(a), e incrementa silenciosamente a incompetência para a fraternidade.

A inveja é a mãe de muitos filhos; sua fecundação é escondida, mas os seus lastros são bem visíveis. Ela tem um poder de ramificação incrível, entrelaçando corações como erva daninha, impedindo o encantamento pelo outro, retardando reconciliações, dando margem às intrigas em todos os ambientes.

A inveja é tão terrível que, diferentemente de outros pecados capitais, como a luxúria, a gula e a soberba, não proporciona prazer.

Suas raízes escondidas estão enterradas no mais profundo da identidade de cada um. Identidade que para crescer precisa de reconhecimento, de comparação... Quando essa necessidade torna-se patológica, como consequência de um olhar narcisista exagerado sobre si mesmo, sobre seus feitos, títulos, posses, etc... a identidade fica comprometida.

A pessoa não consegue se compreender a partir do dom da vida e dos seus dons recebidos de Deus; só se vê como alguém que está acima dos outros. O parâmetro da compreensão de si é o outro, considerado como menor e menos importante. Aqui se instala o desejo de demolição do outro. Vive-se à cata de razões, mesmo insignificantes, agigantadas pela mesquinhez da inveja, para destruir o outro e garantir só para si o lugar da consideração. Trata-se de um drama que tira o sabor de viver. 

Na parábola deste domingo, Jesus não tem a intenção pedagógica de abordar a temática da justiça social que poderia aparecer na queixa daqueles que foram os primeiros contratados pelo dono da vinha. Estes, vendo o quanto tinham recebido aqueles que tinham sido contratados no fim do dia (uma moeda de prata), alimentaram desejos nos seus corações de receberem mais O incômodo nasceu da generosidade do dono da vinha. Seus critérios não comprometem a justiça, pois uma moeda era o justo para um dia de trabalho.

Quando a moeda é referência, símbolo do valor que se dá a si mesmo, fora de outros critérios e longe do horizonte do serviço a que se foi chamado, a inveja é a consequência inevitável e terrível. O peso maior recai sobre aquilo que foi feito, vale o reconhecimento ao que se fez. O trabalhador não é capaz de viver a alegria de ter sido chamado, mesmo na primeira hora e, sobretudo, a alegria de ter realizado o serviço e o cuidado que fizeram com que a vinha florescesse. A mesquinhez faz centrar o valor no próprio reconhecimento e no quanto acumula para si mesmo.

Jesus busca convencer os seus discípulos e a nós que esse caminho não leva a nada, cria aflições, multiplica os incômodos da competição; no final, só resta o gosto amargo da insatisfação, além do perigo de desvalorizar e destruir o serviço realizado, pela presença da força venenosa do egoísmo e do narcisismo que sustentam os invejosos.

O valor está no serviço, ensina o Mestre. O ganho é o serviço que se realiza. Importante é a vinha. Dignificante é ser contratado por seu proprietário para trabalhar nela. Relevante é quem chama e o empenho investido numa causa: a Vinha.

A grandeza de ser chamado e a nobreza do “sim”: eis o remédio contra o veneno da inveja.

Por isso, na vinha do Senhor, a lógica que preside é diferente: não é lógica capitalista, não é a contabilização dos feitos e das grandiosidades individuais. Na vinha do Senhor, a fecundidade é resultado da consciência da honra de ser chamado por Ele, não importando o tempo e menos ainda o valor monetário ou a busca de reconhecimento do serviço realizado. Gratuidade e generosidade são as atitudes do coração, marcas de quem trabalha nessa vinha do Reino.

Tais atitudes garantem a liberdade que o coração humano procura. Livra-o dos incômodos e mal-estar que a competição acirra no seu ser mais íntimo. Mais ainda, elas não deixam o coração embarcar na costumeira pretensão do seu próprio fazer, para encontrar gosto e alegria no bem feito junto com os outros, mesmo aqueles que foram chamados à tarde. O decisivo é a participação honesta e oblativa naquilo que realiza.

Trabalhar, servindo com a consciência despojada de simples servo, é a indicação que Jesus dá aos seus para encontrar o caminho da fecundidade, a superação das amargas queixas, o risco de afogar-se nas próprias inferioridades. Os olhos precisam estar sempre fitos no Senhor da vinha, fazendo o que Ele indicar, com alegria e investimento de todo o ser. Essa é a verdadeira recompensa, o “denário” do final do dia.

Hoje precisamos superar todo espírito de competição e cobiça; precisamos superar todo o “exclusivismo” que ainda pulsa no subconsciente cristão. É ainda latente uma atitude de complexo de superioridade que não tem nenhuma justificação.

Não resta dúvida que aceitar em profundidade a mensagem evangélica de hoje de que “os primeiros serão os últimos”, exige de nós uma mudança de mentalidade a fundo.

Trata-se de romper os esquemas nos quais está baseada a sociedade que se move unicamente pelo interesse. Como dirigida à comunidade cristã, a parábola pretende criar relações humanas que estejam mais além de todo interesse egoísta de indivíduo ou de grupo. Os atos dos Apóstolos nos dão a pista quando nos dizem: “possuíam tudo em comum, e repartiam os bens entre todos, segundo a necessidade de cada um”.

 Texto bíblico:  Mt 20,1-16 

 Na oração: - é na “queixa”, declarada ou não, que reconheço em mim a imagem dos “trabalhadores da primeira hora”.  Quais são minhas queixas?

 - não é fácil distinguir o meu ressentimento e administrá-lo de maneira sensata;  esta é a realidade: onde quer  que se encontre meu lado virtuoso, aí também existirá sempre um lado  queixoso e ressentido;

 - abrir espaço em meu interior para que a bondade e a gratuidade do Pai prevaleçam na minha relação com os outros.

 


Pe. Adroaldo Palaoro sj

https://centroloyola.org.br/revista/outras-palavras/espiritualidade/2147-o-veneno-da-comparacao

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sábado, 19 de setembro de 2020

ITABUNA CENTENÁRIA UM POEMA: Dalila - Castro Alves


                                                      DALILA

Fair defect of nature.
Milton (Paradise Lost)



Foi desgraça, meu Deus!... Não!... Foi loucura
Pedir seiba de vida - à sepultura,
Em gelo - me abrasar,
Pedir amores - a Marco sem brio,
E a rebolcar-me em leito imundo e frio
- A ventura buscar.

Errado viajor - sentei-me à alfombra
E adormeci da mancenilha à sombra
Em berço de cetim...
Embalava-me a brisa no meu leito...
Tinha o veneno a lacerar-me o peito
- A morte dentro de mim...

Foi loucura!... No ocaso - tomba o astro;
A estátua branca e pura de alabastro
- Se mancha em lodo vil...
Quem rouba a estrela - à tumba do ocidente?
Que Jordão lava na lustral corrente
O marmóreo perfil?...

Talvez!... Foi sonho!... Em noite nevoenta
Ela passou sozinha, macilenta,
Tremendo a soluçar...
Chorava - nenhum eco respondia...
Sorria - a tempestade além bramia...
E ela sempre a marchar.

E eu disse-lhe: Tens frio? - arde minha alma.
Tens os pés a sangrar? - podes em calma
Dormir no peito meu.
Pomba errante - é meu peito um ninho vago!
Estrela - tens minha alma - imenso lago -
Reflete o rosto teu!...

E amamos - Este amor foi um delírio...
Foi ela minha crença, foi meu lírio,
Minha estrela sem véu...
Seu nome era o meu canto de poesia,
Que com o sol - pena de ouro - eu escrevia
Nas lâminas do céu.

Em seu seio escondi-me... como à noite
Incauto colibri, temendo o açoite
Das iras do tufão,
A cabecinha esconde sob as asas,
Faz seu leito gentil por entre as gazas
Da rosa do Japão.

E depois... embalei-a com meus cantos
Seu passado esqueci... lavei com prantos
Seu lodo e maldição...
...Mas um dia acordei... E mal desperto
Olhei em torno a mim... - Tudo deserto...
Deserto o coração...

Ao vento, que gemia pelas franças
Por ela perguntei... de suas tranças
À flor que ela deixou...
Debalde... Seu lugar era vazio...
E meu lábio queimado e o peito frio,
Foi ela que o queimou...

Minha alma nodoou no ósculo imundo,
Bem como Satanás - beijando o mundo -
Manchou a criação,
Simum - crestou-me da esperança as flôres...
Tormenta - ela afogou nos seus negrores
A luz da inspiração...

Vai, Dalila!... É bem longa tua estrada...
É suave a descida - terminada
Em báratro cruel.
Tua vida - é um banho de ambrosia...
Mais tarde a morte e a lâmpada sombria
Pendente do bordel.

Hoje flores... A música soando...
As perlas do Champagne gotejando
Em taças de cristal.
A volúpia a escaldar na louca insônia...
Mas sufoca os festins de Babilônia
A legenda fatal.

Tens o seio de fogo e a alma fria.
O cetro empunhas lúbrico da orgia
Em que reinas tu só!...
Mas que finda o ranger de uma mortalha,
A enxada do coveiro que trabalha
A revolver o pó.

Não te maldigo, não!... Em vasto campo
Julguei-te - estrela, - e eras - pirilampo
Em meio à cerração...
Prometeu - quis dar luz à fria argila...
Não pude... Pede a Deus, louca Dalila,
A luz da redenção!!...

Recife, 1864.

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CASTRO ALVES

 

          Antônio de Castro Alves nasceu na comarca de Cachoeira, Estado da Bahia, a 14 de abril de 1847, sendo filho do médico Antônio Alves e de sua mulher, D. Clélia Brasília da Silva Castro. Faleceu na cidade do Salvador a 6 de julho de 1871. Na expressão de Afrânio Peixoto Castro Alves “Pôs suas ideias à frente do seu sentimento e, num tempo em que a miséria da escravidão não comovia ninguém,  despertou com os seus poemas arrebatadores, piedosos ou indignados, a sensibilidade humana e patriótica da geração que, vinte anos mais tarde, viria a conseguir a liberdade. Por isso lhe deram o nome invejável de Poeta dos Escravos. Das alturas do seu gênio compreendera que não há grande homem sem uma grande causa social a que tenha servido, e não aspirava a outra glorificação que a dessa obra realizada. A morte, depois, não importaria...

 

De tumba da infâmia erguer um povo

Fazer de um verme – um rei.

Depois morrer... que a vida está completa

- Rei ou tribuno. César ou poeta,

Que mais quereis, depois?

Basta escutar do fundo lá da cova

Dançar em vossa lousa a raça nova

Libertada por vós...”


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sexta-feira, 18 de setembro de 2020

DOSTOIÉVSKI, SAUDADES DO BRASIL E DAS GRANDES IDEIAS - Marco Lucchesi


“A paisagem segue cada vez mais polarizada. Com a esperança de terminar rapidamente 2020, apresso-me a comemorar os 200 anos de Dostoiévski, ano que vem. Porque um clássico é sempre um divisor de águas. Um acontecimento impressionante. Incêndio e terremoto. Ou tudo, ou nada.

Assim aconteceu quando fui atropelado pelo “O idiota”, de Dostoiévski, e meu sono, e minhas vísceras, e minhas lágrimas foram convocadas de mim para mim. Tinha treze anos de idade.

Não era apenas um capítulo da literatura, mas era a Literatura em sua potência extrema. A “nuvem-Dostoiévski” começou a habitar meus olhos. E mal desconfiava que minha vocação estava toda em seus romances. Que minha vida seria tocada pela chama de sua grandeza atormentada.

Li todos os seus romances até completar dezoito anos. Comecei a aprender russo, mais tarde, com minha saudosa professora Zoé Stepanov. Devo-lhe parte de meus sonhos adolescentes.

Guardo um punhado de versos nas fibras do meu coração. Contemplei o “Cristo de Holbein”, que comoveu Dostoiévski, e o apartamento em Florença, onde terminou “O idiota”, enquanto ele, Dostoiévski, e eu, passeávamos pelo jardim de Boboli, numa conversa que não termina.

Saudades do Brasil. E das grandes ideias”.

 

O Globo, 09/09/2020

 https://www.academia.org.br/artigos/dostoievski-saudades-do-brasil-e-das-grandes-ideias

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Marco Lucchesi - Sétimo ocupante da cadeira nº 15 da ABL, eleito em 3 de março de 2011, na sucessão de Pe. Fernando Bastos de Ávila, foi recebido em 20 de maio de 2011 pelo Acadêmico Tarcísio Padilha. Foi eleito Presidente da ABL para o exercício de 2018.

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quinta-feira, 17 de setembro de 2020

HELOÍSA PRAZERES REALIZA LIVE DE LANÇAMENTO DO LIVRO TENDA ACESA

Leitores podem acompanhar o evento virtual via o zoom literário


A escritora, tradutora e doutora em literatura Heloísa Prazeres e a Scortecci Editora promovem no dia 24 de setembro de 2020 (quinta-feira), das 19h30 às 21h, a live de lançamento do livro de poemas Tenda acesa, através do Zoom “Literário” (Id da reunião: 725 467 5353).

Ilustrado com a reprodução de pinturas do artista visual Jamison Pedra e arte da capa de Daniel Prata Prazeres, “Tenda acesa” é o terceiro livro de poemas da autora e reúne composições dispostas em quatro divisões. Constituem os temas do livro a essência do viver, os riscos dos contextos contemporâneos, ao longo da atual pandemia, a convivialidade e trânsitos (viagens curtas ou prolongadas).

Por meio da linguagem lírica Heloísa Prazeres aborda a incomunicabilidade, o luto moral, as relações possíveis no mundo contemporâneo. A partir de uma perspectiva da vivência social e intelectual feminina. “A metáfora TENDA é uma imagem feminina, da qual me aproprio, ampliando-a. A obra destina-se ao público cuja insatisfação com a realidade o leve a buscas complementares na arte da palavra. Creio que as leitoras se beneficiarão”, expressa a autora, acrescentando ainda que há um forte apelo de imagens femininas na obra.

Tenda acesa (PRAZERES, 2020) é um retorno à escrita poética, atividade impactada, contemporaneamente, por contextos acentuados de crise e dispersão − ainda mais provocadores, desde o início deste segundo decênio do século, quando o mundo sofre os efeitos de uma pandemia de âmbito global. O título da obra é, por isso, a afirmação da palavra poética, por meio do signo “tenda”, associado a fragilidades e abrigos efêmeros, mas vivo, aceso.

A obra está dividida em quatro partes, compreendendo, 1, a teimosia da amorosidade, “O ouro da vida”; 2, a afirmação do sentimento de companhia e união sustentável entre humanos, “poesiasemprepossível”; 3, percepção subjetiva da experiência existencial, “Olhos capitais”; e uma quase separata, 4, intitulada ”Trânsitos”, celebração momentânea à liberdade, à viagem real, aos deslocamentos seguros, inclusive para outros hemisférios e continentes. “Tema que se deve à minha peculiar biografia, ou seja, família dispersa, quando as fronteiras do mundo se pulverizaram. Em contraponto, exploro a geografia afetiva, os lugares de origem, que reclamam por exaltação, citações a pessoas referenciais e a topônimos de origem”, diz a escritora.


A autora – Heloísa Prazeres é natural de Itabuna, BA, possui textos publicados com produtores de Artes Visuais (Cinema e Fotografia). Citada no Dicionário de Autores Baianos. Salvador: SECULT, 2006, e no Dicionário de Escritores Contemporâneos da Bahia, CEPA, 2015. Seu primeiro livro, ensaios, data do início dos anos 2000, o segundo, poemas, Pequena história (PRAZERES, 2014), O terceiro, poemas, Casa onde habitamos (2016), o quarto, ensaios, Arco de sentidos, literatura, tradução e memória cultural (2018).

Publicou, em livro, Temas e teimas em narrativas baianas do Centro-Sul. FCJA; UNIFACS; SECULT, 2000; Pequena História, poemas selecionados. Salvador: Quarteto, 2014; Antologia Outros Riscos do Prêmio DamárioDaCruz de Poesia. Salvador: FPC/ SecultBA e Quarteto, 2013; Poetas da Bahia, III. Salvador: Expogeo, 2015 e Antologia 5º Prêmio Literário de Poesia, Portal Amigos do Livro, São Paulo: Scortecci, 2015 Medalha de Bronze do I Concurso Literário da AECALB, Rio de Janeiro, 2016.

Bacharel e Mestre em Letras pela UFBA. Cumpriu doutorado em Literaturana Universityof Cincinnati, OH. EUA. Professora Adjunta, aposentada do IL da UFBA. Foi titular na Universidade Salvador, UNIFACS. Coordenou o Núcleo de Referência Cultural da Fundação Cultural do Estado da Bahia.

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Serviço:

O quê: Live de lançamento do livro ‘Tenda acesa, de Heloísa Prazeres.  

Onde: Através do Zoom “Literário” (Id da reunião: 725 467 5353).

Quando: Dia 24 de setembro de 2020 (quinta-feira), das 19h30 às 21h.

Editora: Scortecci Editora – Poesia – Formato 14 x 21 cm – 1ª edição – 2020 – 152 páginas. R$ 35,00

 

Livro disponível para pré-venda no site da livraria Asabeça:https://www.asabeca.com.br/

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quarta-feira, 16 de setembro de 2020

O ALIENISTA CAP. II – Machado de Assis




TORRENTES DE LOUCOS

 

            Três dias depois, numa expansão íntima com o boticário Crispim Soares, desvendou o alienista o mistério do seu coração.

             – A caridade, Sr. Soares, entra decerto no meu procedimento, mas entra como tempero, como o sal das coisas, que é assim que interpreto o dito de São Paulo aos Coríntios: “Se eu conhecer quanto se pode saber, e não tiver caridade, não sou nada”. O principal nesta minha obra da Casa Verde é estudar profundamente a loucura, os seus diversos graus, classificar-lhe os casos, descobrir enfim a causa do fenômeno e o remédio universal. Este é o mistério do meu coração. Creio que com isto presto um bom serviço à humanidade.

            – Um excelente serviço, corrigiu o boticário.

            – Sem este asilo, continuou o alienista, pouco poderia fazer; ele dá-me, porém, muito maior campo aos meus estudos.

            – Muito maior, acrescentou o outro.

            E tinha razão. De todas as vilas e arraiais vizinhos afluíam loucos à Casa Verde. Eram furiosos, eram mansos, eram monomaníacos, era toda a família dos deserdados do espírito. Ao cabo de quatro meses, a Casa Verde era uma povoação. Não bastaram os primeiros cubículos; mandou-se anexar uma galeria de mais trinta e sete. O Padre Lopes confessou que não imaginara a existência de tantos doidos no mundo, e menos ainda o inexplicável de alguns casos. Um, por exemplo, um rapaz bronco e vilão, que todos os dias, depois do almoço, fazia regularmente um discurso acadêmico, ornado de tropos, de antíteses, de apóstrofes, com seus recamos de grego e latim, e suas borlas de Cícero, Apuleio e Tertuliano. O vigário não queria acabar de crer. Quê! um rapaz que ele vira, três meses antes, jogando peteca na rua!

            – Não digo que não, respondia-lhe o alienista; mas a verdade é o que Vossa Reverendíssima está vendo. Isto é todos os dias.

            – Quanto a mim, tornou o vigário, só se pode explicar pela confusão das línguas na torre de Babel, segundo nos conta a Escritura; provavelmente, confundidas antigamente as línguas, é fácil trocá-las agora, desde que a razão não trabalhe...

            – Essa pode ser, com efeito, a explicação divina do fenômeno, concordou o alienista, depois de refletir um instante, mas não é impossível que haja também alguma razão humana, e puramente científica, e disso trato...

            – Vá que seja, e fico ansioso. Realmente!

            Os loucos por amor eram três ou quatro, mas só dois espantavam pelo curioso do delírio. O primeiro, um Falcão, rapaz de vinte e cinco anos, supunha-se estrela-d’alva, abria os braços e alargava as pernas, para dar-lhes certa feição de raios, e ficava assim horas esquecidas a perguntar se o sol já tinha saído para ele recolher-se. O outro andava sempre, sempre, sempre, à roda das salas ou do pátio, ao longo dos corredores, à procura do fim do mundo. Era um desgraçado, a quem a mulher deixou por seguir um peralvilho. Mal descobrira a fuga, armou-se de uma garrucha, e saiu-lhes no encalço; achou-os duas horas depois, ao pé de uma lagoa, matou-os a ambos com os maiores requintes de crueldade.

            O ciúme satisfez-se, mas o vingado estava louco. E então começou aquela ânsia de ir ao fim do mundo à cata dos fugitivos.

            A mania das grandezas tinha exemplares notáveis. O mais notável era um pobre diabo, filho de um algibebe, que narrava às paredes (porque não olhava nunca para nenhuma pessoa) toda a sua genealogia, que era esta:

            – Deus engendrou um ovo, o ovo engendrou a espada, a espada engendrou Davi, Davi engendrou a púrpura, a púrpura engendrou o duque, o duque engendrou o marquês, o marquês engendrou o conde, que sou eu.

            Dava uma pancada na testa, um estalo com os dedos, e repetia cinco, seis vezes seguidas:

             – Deus engendrou um ovo, o ovo, etc.

            Outro da mesma espécie era um escrivão, que se vendia por mordomo do rei; outro era um boiadeiro de Minas, cuja mania era distribuir boiadas a toda a gente, dava trezentas cabeças a um, seiscentas a outro, mil e duzentas a outro, e não acabava mais. Não falo dos casos de monomania religiosa; apenas citarei um sujeito que, chamando-se João de Deus, dizia agora ser o deus João, e prometia o reino dos céus a quem o adorasse, e as penas do inferno aos outros; e depois desse, o licenciado Garcia, que não dizia nada, porque imaginava que no dia em que chegasse a proferir uma só palavra, todas as estrelas se despegariam do céu e abrasariam a terra; tal era o poder que recebera de Deus.

            Assim o escrevia ele no papel que o alienista lhe mandava dar, menos por caridade do que por interesse científico.

            Que, na verdade, a paciência do alienista era ainda mais extraordinária do que todas as manias hospedadas na Casa Verde; nada menos que assombrosa. Simão Bacamarte começou por organizar um pessoal de administração; e, aceitando essa ideia ao boticário Crispim Soares, aceitou-lhe também dois sobrinhos, a quem incumbiu da execução de um regimento que lhes deu, aprovado pela Câmara, da distribuição da comida e da roupa, e assim também da escrita, etc. Era o melhor que podia fazer, para somente cuidar do seu ofício.

            – A Casa Verde, disse ele ao vigário, é agora uma espécie de mundo, em que há o governo temporal e o governo espiritual. E o Padre Lopes ria deste pio trocado, – e acrescentava, – com o único fim de dizer também uma chalaça: – Deixe estar, deixe estar, que hei de mandá-lo denunciar ao papa.

            Uma vez desonerado da administração, o alienista procedeu a uma vasta classificação dos seus enfermos. Dividiu-os primeiramente em duas classes principais: os furiosos e os mansos; daí passou às subclasses, monomanias, delírios, alucinações diversas.

            Isto feito, começou um estudo aturado e contínuo; analisava os hábitos de cada louco, as horas de acesso, as aversões, as simpatias, as palavras, os gestos, as tendências; inquiria da vida dos enfermos, profissão, costumes, circunstâncias da revelação mórbida, acidentes da infância e da mocidade, doenças de outra espécie, antecedentes na família, uma devassa, enfim, como a não faria o mais atilado corregedor. E cada dia notava uma observação nova, uma descoberta interessante, um fenômeno extraordinário. Ao mesmo tempo estudava o melhor regímen, as substâncias medicamentosas, os meios curativos e os meios paliativos, não só os que vinham nos seus amados árabes, como os que ele mesmo descobria, à força de sagacidade e paciência. Ora, todo esse trabalho levava-lhe o melhor e o mais do tempo. Mal dormia e mal comia; e, ainda comendo, era como se trabalhasse, porque ora interrogava um texto antigo, ora ruminava uma questão, e ia muitas vezes de um cabo a outro do jantar sem dizer uma só palavra a D. Evarista.

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Fonte:

MINISTÉRIO DA CULTURA

Fundação Biblioteca Nacional

Departamento Nacional do Livro

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Machado de Assis
 (Joaquim Maria Machado de Assis), jornalista, contista, cronista, romancista, poeta e teatrólogo, nasceu no Rio de Janeiro, RJ, em 21 de junho de 1839, e faleceu também no Rio de Janeiro, em 29 de setembro de 1908. É o fundador da cadeira nº. 23 da Academia Brasileira de Letras.

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