A Academia Brasileira de
Letras prossegue com o seu o ciclo de podcasts "Pensando o novo
normal", gravado por seus acadêmicos e que aborda as relações entre a
pandemia e as diferentes áreas do conhecimento humano. O décimo terceiro
episódio disponibilizado foi gravado pelo Acadêmico João Almino e estará
disponível para os ouvintes a partir das 16h da próxima quarta-feira, dia 23 de
setembro. O tema escolhido foi "Pandemia e o Velho Anormal". A
apresentação do programa e coordenação-geral do ciclo cabem ao Acadêmico
Antônio Torres.
Durante a emissão, o Acadêmico
discute as diferenças entre o pré e o pós-pandemia: “O que é normal? Se
considerássemos 'normal' o que havia antes da pandemia, miséria, desigualdade,
crises políticas e ambientais, teríamos de admitir que estamos vivenciando uma velha
normalidade piorada. Pois o fato é que a pandemia está agravando coisas que já
conhecíamos. Suas consequências na economia e muito especialmente no campo
social são claras. Não estamos diante de um novo normal, mas sim de um velho e
insistente normal, quando pessoas perdem o emprego e têm dificuldade de se
manter quando a pobreza avança, quando as desigualdades internas internacionais
ficam mais evidentes e quando as condições gerais de saúde pioram por causa do
vírus e por seus efeitos indiretos. (...) Agora, se tivermos a expectativa de
que as coisas mudem para melhor num determinado horizonte de tempo, então
podemos considerar que esta normalidade piorada é passageira. A humanidade terá
atravessado um período excepcional de meses ou anos, como aconteceu em outras
pandemias, ou durante guerras. Já a velocidade das soluções vai depender da
criatividade de governos e sociedades, da ciência e da tecnologia, da
cooperação internacional, de medidas governamentais, de iniciativas privadas,
coletivas e individuais. Acho que nem tudo vai mudar para pior, algumas
oportunidades se abrem: tendências promissoras que já se percebiam antes da
pandemia podem se reforçar.”
Está previsto, até o final de
setembro, mais 1 episódio, sempre apresentado às quartas-feiras. Todos os
podcasts gravados ficarão disponíveis no site da Academia, assim como nas
plataformas de streaming Spotify, Apple Podcasts, Deezer e Castbox.
Então uma
mulher disse: “Fala-nos da Alegria e da Tristeza”.
E ele
respondeu:
“Vossa
alegria é vossa tristeza desmascarada.
E o mesmo
poço que dá nascimento a vosso riso foi muitas vezes preenchido por vossas
lágrimas.
E como
poderia não ser assim?
Quanto
mais profundamente a tristeza cravar a sua garra em vosso ser, tanto mais
alegria podereis conter.
Não é a
taça que contém vosso vinho a mesma que foi queimada no forno do oleiro?
E não é a
lira que acaricia vossa alma a própria madeira que entalhada a faca?
Quando estiverdes alegres, olhai no
fundo de vosso coração, e achareis que o que vos deu tristeza é aquilo mesmo
que está vos dando alegria.
E quando
estiverdes tristes, olhai novamente no vosso coração e vereis que, na verdade,
estais chorando por aquilo mesmo que constitui vosso deleite.
Alguns
dentre vós dizeis: “A alegria é maior que a tristeza”, e outros dizem: “Não, a
tristeza é maior”.
Porém, eu
vos digo que elas são inseparáveis.
Vêm sempre
juntas; e quando uma está sentada à vossa mesa, lembrai-vos de que a outra
dorme em vossa cama.
Em
verdade, vós estais suspensos como os pratos de uma balança entre vossa
tristeza e vossa alegria.
É somente
quando estais vazios que estais equilibrados.
Quando o
guarda do tesouro vos suspende para pesar seu ouro e sua prata, então deve a
vossa alegria ou a vossa tristeza subir ou descer.”
(O PROFETA)
Gibran Khalil Gibran
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Gibran Khalil Gibran - Poeta libanês, viveu na
França e nos EUA. Também foi um aclamado pintor. Seus textos apresentam a
beleza da alma humana e da Natureza, num estilo belo, místico, conseguindo com
simplicidade explicar os segredos da vida, da alegria, da justiça, do amor, da
verdade.
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“HÁ DENTRO DE MIM UM PODER IMPACIENTE POR SE REVELAR”
Essas
qualidades bastavam para produzir uma grande obra literária e humana, mas não
explicam essa irradiação intensa que emana de O Profeta e que, tanto quanto o
valor da obra, provoca o entusiasmo dos leitores.
Essa
irradiação provém da fé do Gibran em sua missão. Gibran não considerava O
Profeta como um simples livro, mas como sua mensagem, com a razão pela qual
fora enviado a este mundo, com a palavra em torno da qual toda a sua vida se
concentrava.
Desde a
juventude, Gibran estava consciente de possuir um poder excepcional que
procurava sua expressão. Em cartas a amigos, encontram-se repetidamente
declarações como estas:
“Sinto que
há nas profundezas do meu coração uma grande força que se quer manifestar, mas
é ainda incapaz de fazê-lo. Meus sentimentos são como as marés de um oceano.
Minha alma é como uma águia de asas partidas. Sofre dolorosamente quando vê os
pássaros voar nos espaços, porque não pode ainda imitá-los.”
Aos 15 anos,
tenta dar forma a essa força impaciente por se exteriorizar, e debuxa uma
primeira versão, em árabe, de O Profeta. De regresso a Boston, lê para sua mãe
trechos do livro que “iria transformar o mundo”. A mãe acalma a exaltação do
filho: “É um bom trabalho, Gibran, mas seu tempo ainda não chegou. Deixa-o
amadurecer.”
Gibran
aceita o conselho, que corresponde, aliás, à sua própria convicção. Mas O
Profeta não o abandona nunca mais. Escreve e publica outros livros, mas deixa O
Profeta amadurecer em sua alma.
Em 1910,
começa a redigi-lo em inglês. E enquanto suas obras árabes já o cobriam de
glória, escreve a seu editor Emile Zeidan:
“Os vinte
anos que vivi como escritor e como pintor foram simplesmente uma época de
preparação e de desejo. Ainda não produzi nada que mereça ficar à face do sol.”
E continua
a polir O Profeta. Reescreve-o cinco vezes em inglês, antes de remetê-lo ao
editor, em 1923. Durante essa gestação de 25 anos, a mensagem se forma no fundo
de seu coração, como uma pérola se forma no fundo do mar.
E quando a
pérola é enfim expelida, ele suspira de alívio: “Enfim, pronunciei-a, a palavra
que carrego desde que nasci e que vim a este mundo para pronunciar”, declara,
jubiloso, a um amigo. Mais tarde, lamentará ter escrito tanto. Confia a May
Ziadé, sua amiga espiritual: “Por que escrevi e publiquei tantos livros? Eu
nasci para viver e escrever um único livro, um pequeno livro. Nasci para viver
e sofrer e pronunciar uma única palavra, vívida e alada.”
E o mais
impressionante é que essa palavra não era considerada por Gibran como uma
mensagem simplesmente teórica, simplesmente intelectual: ele lhe submetia sua
maneira de viver e de ser. Há um incidente particularmente significativo. Uma
vez, Gibran comprou uma casa, em Boston, e a reformou para servir a uma
associação feminina. A associação fracassou, deixando a casa imprópria para
qualquer outra locação. Para recuperar o dinheiro investido, Gibran devia
acionar a associação em juízo. Mas uma das diretoras vai vê-lo e sacode O
Profeta na sua face, dizendo: “Foi o senhor quem escreveu este livro, não foi?
Que pretende fazer dele agora?” apesar da insistência dos amigos, Gibran desistiu
do processo. “Se o tivesse continuado, explicava, não poderia abrir outra vez o
pequeno livro.”
Independentemente de tais incidentes, Gibran viveu na atmosfera de seu
livro, à sombra de suas alturas. Nunca se casou. Nunca se interessou por negócios.
Dedicou toda a sua vida a escrever e pintar. Sua residência foi sempre a mais
simples, a mais modesta, tanto em Paria como em Boston e Nova Iorque; e seu
modo de viver não se alterou quando a venda de seus livros e quadros o tornou
milionário.
E essa fé em si mesmo e em sua missão,
essa transposição da pregação para a própria vida do pregador confere a obra de
Gibran a sedução mística que dotava de força extraordinária, por exemplo, as
palavras de Ghandi. Os homens são particularmente atraídos para os que creem no
que pregam e submetem seus atos ao seu ideal.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo
Mateus.
— Glória a vós, Senhor.
Naquele tempo, Jesus contou esta parábola a seus discípulos:
“O Reino dos Céus é como a história do patrão que saiu de
madrugada para contratar trabalhadores para a sua vinha. Combinou com os
trabalhadores uma moeda de prata por dia, e os mandou para a vinha. Às
nove horas da manhã, o patrão saiu de novo, viu outros que estavam na praça,
desocupados, e lhes disse: ‘Ide também vós para a minha vinha! E eu vos
pagarei o que for justo’. E eles foram. O patrão saiu de novo ao meio-dia
e às três horas da tarde, e fez a mesma coisa.
Saindo outra vez pelas cinco horas da tarde, encontrou
outros que estavam na praça, e lhes disse: ‘Por que estais aí o dia inteiro
desocupados?’ Eles responderam: ‘Porque ninguém nos contratou’. O patrão
lhes disse: ‘Ide vós também para a minha vinha’.
Quando chegou a tarde, o patrão disse ao administrador:
‘Chama os trabalhadores e paga-lhes uma diária a todos, começando pelos últimos
até os primeiros!’
Vieram os que tinham sido contratados às cinco da tarde e
cada um recebeu uma moeda de prata. Em seguida vieram os que foram
contratados primeiro, e pensavam que iam receber mais. Porém, cada um deles
também recebeu uma moeda de prata.
Ao receberem o pagamento, começaram a resmungar contra o
patrão: ‘Estes últimos trabalharam uma hora só, e tu os igualaste a nós,
que suportamos o cansaço e o calor o dia inteiro’.
Então o patrão disse a um deles: ‘Amigo, eu não fui injusto
contigo. Não combinamos uma moeda de prata? Toma o que é teu e volta para
casa! Eu quero dar a este que foi contratado por último o mesmo que dei a
ti. Por acaso não tenho o direito de fazer o que quero com aquilo que me
pertence? Ou estás com inveja porque estou sendo bom?’
Assim, os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão
os últimos”
“Ou estás com inveja porque estou sendo bom?” (Mt
20,15)
Os textos evangélicos dos três últimos domingos
desenvolveram o mesmo tema, numa progressão interessante: o 23º. domingo nos
falava da correção fraterna, ou seja, a acolhida do irmão que errou.
O 24º. domingo nos falou da necessidade do perdão contínuo como
fundamento que sustenta uma comunidade. Hoje nos fala do chamado a trabalhar em
favor do Reino, sem nos deixar determinar pelo sentido da justiça humana (pagar
mais a quem trabalhou mais), mas a partir do amor (pura gratuidade).
O critério único é deixar-nos inspirar pelo amor do Senhor da Vinha, que se
manifesta em cada um de nós.
E Jesus revela isso através de mais uma parábola.
Como toda parábola, também o evangelho deste domingo é
profundamente provocador, pois nos introduz em um mundo de contradição, nos
confunde e nos faz clamar por um pagamento mais equitativo, mais “justo”. A
maneira de proceder do proprietário da vinha transtorna os esquemas razoáveis
do sistema econômica no qual nos movemos, centrado na competição e na produção.
Contexto que acaba alimentando a comparação e fazendo emergir a inveja doentia
que dá um sabor amargo às relações pessoais.
Feito para ser a sede da inteligência e da experiência
gratificante e edificadora de amar, o coração do ser humano também é
palco de dramas desafiadores. Entre esses dramas, lá está a inveja destruidora.
Um dinamismo demolidor, que petrifica situações, enrijece posturas, com
dificuldades em admitir o bem e a grandeza de Deus revelada no outro. Por isso,
a inveja faz com que os sábios e experientes percam os rumos, obscurece o
horizonte aberto dos jovens, joga por terra o que o adulto construiu.
As consequências são funestas: a inveja acirra os conflitos,
envenena as relações pelo uso ferino da língua, compromete vidas, arrasa
instituições. Uma sensação de inferioridade toma conta do coração dos
invejosos, incapazes de compreender para além do horizonte dos seus interesses
e de suas próprias justificativas.
No contexto atual, a inveja é um dos motores sociais mais
importantes. Esta é considerada como alavanca para alimentar a competição,
aumentar a produtividade e insuflar as pessoas na busca de metas ambiciosas,
passando por cima dos outros.
Jesus conhece bem o coração do ser humano; Ele sabe que a
força da inveja compromete a alegria dos seus(suas) seguidores(as),
solapa tudo, desvia do seu rumo aquele(a) que foi chamado(a), e incrementa silenciosamente
a incompetência para a fraternidade.
A inveja é a mãe de muitos filhos; sua fecundação
é escondida, mas os seus lastros são bem visíveis. Ela tem um poder de
ramificação incrível, entrelaçando corações como erva daninha, impedindo o
encantamento pelo outro, retardando reconciliações, dando margem às intrigas em
todos os ambientes.
A inveja é tão terrível que, diferentemente de outros
pecados capitais, como a luxúria, a gula e a soberba, não proporciona prazer.
Suas raízes escondidas estão enterradas no mais profundo da
identidade de cada um. Identidade que para crescer precisa de reconhecimento,
de comparação... Quando essa necessidade torna-se patológica, como consequência
de um olhar narcisista exagerado sobre si mesmo, sobre seus feitos, títulos,
posses, etc... a identidade fica comprometida.
A pessoa não consegue se compreender a partir do dom da vida
e dos seus dons recebidos de Deus; só se vê como alguém que está acima dos
outros. O parâmetro da compreensão de si é o outro, considerado como menor e
menos importante. Aqui se instala o desejo de demolição do outro. Vive-se à
cata de razões, mesmo insignificantes, agigantadas pela mesquinhez da inveja,
para destruir o outro e garantir só para si o lugar da consideração. Trata-se
de um drama que tira o sabor de viver.
Na parábola deste domingo, Jesus não tem a intenção
pedagógica de abordar a temática da justiça social que poderia aparecer na
queixa daqueles que foram os primeiros contratados pelo dono da vinha. Estes,
vendo o quanto tinham recebido aqueles que tinham sido contratados no fim do
dia (uma moeda de prata), alimentaram desejos nos seus corações de receberem
mais O incômodo nasceu da generosidade do dono da vinha. Seus critérios não
comprometem a justiça, pois uma moeda era o justo para um dia de trabalho.
Quando a moeda é referência, símbolo do valor que se dá a si
mesmo, fora de outros critérios e longe do horizonte do serviço a que se foi
chamado, a inveja é a consequência inevitável e terrível. O peso maior recai
sobre aquilo que foi feito, vale o reconhecimento ao que se fez. O trabalhador
não é capaz de viver a alegria de ter sido chamado, mesmo na primeira hora e,
sobretudo, a alegria de ter realizado o serviço e o cuidado que fizeram com que
a vinha florescesse. A mesquinhez faz centrar o valor no próprio reconhecimento
e no quanto acumula para si mesmo.
Jesus busca convencer os seus discípulos e a nós que esse
caminho não leva a nada, cria aflições, multiplica os incômodos da competição;
no final, só resta o gosto amargo da insatisfação, além do perigo de
desvalorizar e destruir o serviço realizado, pela presença da força venenosa do
egoísmo e do narcisismo que sustentam os invejosos.
O valor está no serviço, ensina o Mestre. O ganho
é o serviço que se realiza. Importante é a vinha. Dignificante é ser contratado
por seu proprietário para trabalhar nela. Relevante é quem chama e o empenho
investido numa causa: a Vinha.
A grandeza de ser chamado e a nobreza do “sim”: eis o
remédio contra o veneno da inveja.
Por isso, na vinha do Senhor, a lógica que preside é
diferente: não é lógica capitalista, não é a contabilização dos feitos e das
grandiosidades individuais. Na vinha do Senhor, a fecundidade é resultado da
consciência da honra de ser chamado por Ele, não importando o tempo e menos
ainda o valor monetário ou a busca de reconhecimento do serviço
realizado. Gratuidade e generosidade são as atitudes do
coração, marcas de quem trabalha nessa vinha do Reino.
Tais atitudes garantem a liberdade que o coração humano
procura. Livra-o dos incômodos e mal-estar que a competição acirra no seu ser
mais íntimo. Mais ainda, elas não deixam o coração embarcar na costumeira
pretensão do seu próprio fazer, para encontrar gosto e alegria no bem feito
junto com os outros, mesmo aqueles que foram chamados à tarde. O decisivo é a
participação honesta e oblativa naquilo que realiza.
Trabalhar, servindo com a consciência despojada de simples
servo, é a indicação que Jesus dá aos seus para encontrar o caminho da
fecundidade, a superação das amargas queixas, o risco de afogar-se nas próprias
inferioridades. Os olhos precisam estar sempre fitos no Senhor da vinha,
fazendo o que Ele indicar, com alegria e investimento de todo o ser. Essa é a
verdadeira recompensa, o “denário” do final do dia.
Hoje precisamos superar todo espírito de competição e
cobiça; precisamos superar todo o “exclusivismo” que ainda pulsa no
subconsciente cristão. É ainda latente uma atitude de complexo de superioridade
que não tem nenhuma justificação.
Não resta dúvida que aceitar em profundidade a mensagem
evangélica de hoje de que “os primeiros serão os últimos”, exige de
nós uma mudança de mentalidade a fundo.
Trata-se de romper os esquemas nos quais está baseada a
sociedade que se move unicamente pelo interesse. Como dirigida à comunidade
cristã, a parábola pretende criar relações humanas que estejam mais além de
todo interesse egoísta de indivíduo ou de grupo. Os atos dos Apóstolos nos dão
a pista quando nos dizem: “possuíam tudo em comum, e repartiam os bens
entre todos, segundo a necessidade de cada um”.
Texto bíblico: Mt 20,1-16
Na oração: - é na “queixa”, declarada ou não,
que reconheço em mim a imagem dos “trabalhadores da primeira hora”.
Quais são minhas queixas?
- não é fácil distinguir o meu ressentimento e
administrá-lo de maneira sensata; esta é a realidade: onde quer que
se encontre meu lado virtuoso, aí também existirá sempre um lado queixoso e ressentido;
- abrir espaço em meu interior para que a bondade e a
gratuidade do Pai prevaleçam na minha relação com os outros.
Antônio
de Castro Alves nasceu na comarca de Cachoeira, Estado da Bahia, a 14 de abril
de 1847, sendo filho do médico Antônio Alves e de sua mulher, D. Clélia
Brasília da Silva Castro. Faleceu na cidade do Salvador a 6 de julho de 1871.
Na expressão de Afrânio Peixoto Castro Alves “Pôs suas ideias à frente do seu
sentimento e, num tempo em que a miséria da escravidão não comovia
ninguém, despertou com os seus poemas arrebatadores, piedosos ou
indignados, a sensibilidade humana e patriótica da geração que, vinte anos mais
tarde, viria a conseguir a liberdade. Por isso lhe deram o nome invejável de
Poeta dos Escravos. Das alturas do seu gênio compreendera que não há grande
homem sem uma grande causa social a que tenha servido, e não aspirava a outra
glorificação que a dessa obra realizada. A morte, depois, não importaria...
“A paisagem segue cada vez mais polarizada. Com a esperança
de terminar rapidamente 2020, apresso-me a comemorar os 200 anos de
Dostoiévski, ano que vem. Porque um clássico é sempre um divisor de águas. Um
acontecimento impressionante. Incêndio e terremoto. Ou tudo, ou nada.
Assim aconteceu quando fui atropelado pelo “O idiota”, de
Dostoiévski, e meu sono, e minhas vísceras, e minhas lágrimas foram convocadas
de mim para mim. Tinha treze anos de idade.
Não era apenas um capítulo da literatura, mas era a Literatura
em sua potência extrema. A “nuvem-Dostoiévski” começou a habitar meus olhos. E
mal desconfiava que minha vocação estava toda em seus romances. Que minha vida
seria tocada pela chama de sua grandeza atormentada.
Li todos os seus romances até completar dezoito anos.
Comecei a aprender russo, mais tarde, com minha saudosa professora Zoé
Stepanov. Devo-lhe parte de meus sonhos adolescentes.
Guardo um punhado de versos nas fibras do meu coração.
Contemplei o “Cristo de Holbein”, que comoveu Dostoiévski, e o apartamento em
Florença, onde terminou “O idiota”, enquanto ele, Dostoiévski, e eu,
passeávamos pelo jardim de Boboli, numa conversa que não termina.
Marco Lucchesi - Sétimo ocupante da cadeira nº 15 da ABL,
eleito em 3 de março de 2011, na sucessão de Pe. Fernando Bastos de Ávila, foi
recebido em 20 de maio de 2011 pelo Acadêmico Tarcísio Padilha. Foi eleito Presidente
da ABL para o exercício de 2018.
Leitores podem acompanhar o evento virtual via o zoom
literário
A escritora, tradutora e doutora em literatura Heloísa
Prazeres e a Scortecci Editora promovem no dia 24 de setembro de 2020
(quinta-feira), das 19h30 às 21h, a live de lançamento do livro de poemas Tenda
acesa, através do Zoom “Literário” (Id da reunião: 725 467 5353).
Ilustrado com a reprodução de pinturas do artista visual
Jamison Pedra e arte da capa de Daniel Prata Prazeres, “Tenda acesa”
é o terceiro livro de poemas da autora e reúne composições dispostas em
quatro divisões. Constituem os temas do livro a essência do viver, os
riscos dos contextos contemporâneos, ao longo da atual pandemia, a
convivialidade e trânsitos (viagens curtas ou prolongadas).
Por meio da linguagem lírica Heloísa Prazeres aborda a
incomunicabilidade, o luto moral, as relações possíveis no mundo
contemporâneo. A partir de uma perspectiva da vivência social e
intelectual feminina. “A metáfora TENDA é uma imagem feminina, da qual me
aproprio, ampliando-a. A obra destina-se ao público cuja insatisfação com
a realidade o leve a buscas complementares na arte da palavra. Creio que as
leitoras se beneficiarão”, expressa a autora, acrescentando ainda que há um
forte apelo de imagens femininas na obra.
Tenda acesa (PRAZERES, 2020) é um retorno à escrita poética,
atividade impactada, contemporaneamente, por contextos acentuados de crise e
dispersão − ainda mais provocadores, desde o início deste segundo decênio do
século, quando o mundo sofre os efeitos de uma pandemia de âmbito global. O
título da obra é, por isso, a afirmação da palavra poética, por meio do signo
“tenda”, associado a fragilidades e abrigos efêmeros, mas vivo, aceso.
A obra está dividida em quatro partes, compreendendo, 1, a
teimosia da amorosidade, “O ouro da vida”; 2, a afirmação do sentimento de
companhia e união sustentável entre humanos, “poesiasemprepossível”; 3,
percepção subjetiva da experiência existencial, “Olhos capitais”; e uma quase
separata, 4, intitulada ”Trânsitos”, celebração momentânea à liberdade, à
viagem real, aos deslocamentos seguros, inclusive para outros hemisférios e
continentes. “Tema que se deve à minha peculiar biografia, ou seja, família
dispersa, quando as fronteiras do mundo se pulverizaram. Em contraponto,
exploro a geografia afetiva, os lugares de origem, que reclamam por exaltação,
citações a pessoas referenciais e a topônimos de origem”, diz a escritora.
A autora – Heloísa Prazeres é natural de Itabuna, BA,
possui textos publicados com produtores de Artes Visuais (Cinema e Fotografia).
Citada no Dicionário de Autores Baianos. Salvador: SECULT, 2006, e no
Dicionário de Escritores Contemporâneos da Bahia, CEPA, 2015. Seu primeiro
livro, ensaios, data do início dos anos 2000, o segundo, poemas, Pequena
história (PRAZERES, 2014), O terceiro, poemas, Casa onde habitamos (2016), o
quarto, ensaios, Arco de sentidos, literatura, tradução e memória cultural
(2018).
Publicou, em livro, Temas e teimas em narrativas baianas do
Centro-Sul. FCJA; UNIFACS; SECULT, 2000; Pequena História, poemas selecionados.
Salvador: Quarteto, 2014; Antologia Outros Riscos do Prêmio DamárioDaCruz de
Poesia. Salvador: FPC/ SecultBA e Quarteto, 2013; Poetas da Bahia, III.
Salvador: Expogeo, 2015 e Antologia 5º Prêmio Literário de Poesia, Portal
Amigos do Livro, São Paulo: Scortecci, 2015 Medalha de Bronze do I Concurso
Literário da AECALB, Rio de Janeiro, 2016.
Bacharel e Mestre em Letras pela UFBA. Cumpriu doutorado em
Literaturana Universityof Cincinnati, OH. EUA. Professora Adjunta, aposentada
do IL da UFBA. Foi titular na Universidade Salvador, UNIFACS. Coordenou o
Núcleo de Referência Cultural da Fundação Cultural do Estado da Bahia.
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Serviço:
O quê: Live de lançamento do livro ‘Tenda acesa, de Heloísa
Prazeres.
Onde: Através do Zoom “Literário” (Id da reunião: 725
467 5353).
Quando: Dia 24 de setembro de 2020 (quinta-feira),
das 19h30 às 21h.
Editora: Scortecci Editora – Poesia – Formato
14 x 21 cm – 1ª edição – 2020 – 152 páginas. R$ 35,00
Livro disponível para pré-venda no site da livraria Asabeça:https://www.asabeca.com.br/
Três dias
depois, numa expansão íntima com o boticário Crispim Soares, desvendou o
alienista o mistério do seu coração.
– A caridade, Sr. Soares, entra
decerto no meu procedimento, mas entra como tempero, como o sal das coisas, que
é assim que interpreto o dito de São Paulo aos Coríntios: “Se eu conhecer
quanto se pode saber, e não tiver caridade, não sou nada”. O principal nesta
minha obra da Casa Verde é estudar profundamente a loucura, os seus diversos
graus, classificar-lhe os casos, descobrir enfim a causa do fenômeno e o
remédio universal. Este é o mistério do meu coração. Creio que com isto presto
um bom serviço à humanidade.
– Um
excelente serviço, corrigiu o boticário.
– Sem este
asilo, continuou o alienista, pouco poderia fazer; ele dá-me, porém, muito
maior campo aos meus estudos.
– Muito
maior, acrescentou o outro.
E tinha
razão. De todas as vilas e arraiais vizinhos afluíam loucos à Casa Verde. Eram
furiosos, eram mansos, eram monomaníacos, era toda a família dos deserdados do
espírito. Ao cabo de quatro meses, a Casa Verde era uma povoação. Não bastaram
os primeiros cubículos; mandou-se anexar uma galeria de mais trinta e sete. O
Padre Lopes confessou que não imaginara a existência de tantos doidos no mundo,
e menos ainda o inexplicável de alguns casos. Um, por exemplo, um rapaz bronco
e vilão, que todos os dias, depois do almoço, fazia regularmente um discurso
acadêmico, ornado de tropos, de antíteses, de apóstrofes, com seus recamos de
grego e latim, e suas borlas de Cícero, Apuleio e Tertuliano. O vigário não
queria acabar de crer. Quê! um rapaz que ele vira, três meses antes, jogando
peteca na rua!
– Não digo
que não, respondia-lhe o alienista; mas a verdade é o que Vossa Reverendíssima
está vendo. Isto é todos os dias.
– Quanto a
mim, tornou o vigário, só se pode explicar pela confusão das línguas na torre
de Babel, segundo nos conta a Escritura; provavelmente, confundidas antigamente
as línguas, é fácil trocá-las agora, desde que a razão não trabalhe...
– Essa
pode ser, com efeito, a explicação divina do fenômeno, concordou o alienista,
depois de refletir um instante, mas não é impossível que haja também alguma
razão humana, e puramente científica, e disso trato...
– Vá que
seja, e fico ansioso. Realmente!
Os loucos
por amor eram três ou quatro, mas só dois espantavam pelo curioso do delírio. O
primeiro, um Falcão, rapaz de vinte e cinco anos, supunha-se estrela-d’alva,
abria os braços e alargava as pernas, para dar-lhes certa feição de raios, e
ficava assim horas esquecidas a perguntar se o sol já tinha saído para ele
recolher-se. O outro andava sempre, sempre, sempre, à roda das salas ou do
pátio, ao longo dos corredores, à procura do fim do mundo. Era um desgraçado, a
quem a mulher deixou por seguir um peralvilho. Mal descobrira a fuga, armou-se
de uma garrucha, e saiu-lhes no encalço; achou-os duas horas depois, ao pé de
uma lagoa, matou-os a ambos com os maiores requintes de crueldade.
O ciúme
satisfez-se, mas o vingado estava louco. E então começou aquela ânsia de ir ao
fim do mundo à cata dos fugitivos.
A mania
das grandezas tinha exemplares notáveis. O mais notável era um pobre diabo,
filho de um algibebe, que narrava às paredes (porque não olhava nunca para
nenhuma pessoa) toda a sua genealogia, que era esta:
– Deus
engendrou um ovo, o ovo engendrou a espada, a espada engendrou Davi, Davi
engendrou a púrpura, a púrpura engendrou o duque, o duque engendrou o marquês,
o marquês engendrou o conde, que sou eu.
Dava uma
pancada na testa, um estalo com os dedos, e repetia cinco, seis vezes seguidas:
– Deus engendrou um ovo, o ovo, etc.
Outro da mesma espécie era um escrivão, que
se vendia por mordomo do rei; outro era um boiadeiro de Minas, cuja mania era
distribuir boiadas a toda a gente, dava trezentas cabeças a um, seiscentas a
outro, mil e duzentas a outro, e não acabava mais. Não falo dos casos de
monomania religiosa; apenas citarei um sujeito que, chamando-se João de Deus,
dizia agora ser o deus João, e prometia o reino dos céus a quem o adorasse, e
as penas do inferno aos outros; e depois desse, o licenciado Garcia, que não
dizia nada, porque imaginava que no dia em que chegasse a proferir uma só
palavra, todas as estrelas se despegariam do céu e abrasariam a terra; tal era
o poder que recebera de Deus.
Assim o
escrevia ele no papel que o alienista lhe mandava dar, menos por caridade do
que por interesse científico.
Que, na
verdade, a paciência do alienista era ainda mais extraordinária do que todas as
manias hospedadas na Casa Verde; nada menos que assombrosa. Simão Bacamarte
começou por organizar um pessoal de administração; e, aceitando essa ideia ao
boticário Crispim Soares, aceitou-lhe também dois sobrinhos, a quem incumbiu da
execução de um regimento que lhes deu, aprovado pela Câmara, da distribuição da
comida e da roupa, e assim também da escrita, etc. Era o melhor que podia
fazer, para somente cuidar do seu ofício.
– A Casa
Verde, disse ele ao vigário, é agora uma espécie de mundo, em que há o governo
temporal e o governo espiritual. E o Padre Lopes ria deste pio trocado, – e
acrescentava, – com o único fim de dizer também uma chalaça: – Deixe estar,
deixe estar, que hei de mandá-lo denunciar ao papa.
Uma vez
desonerado da administração, o alienista procedeu a uma vasta classificação dos
seus enfermos. Dividiu-os primeiramente em duas classes principais: os furiosos
e os mansos; daí passou às subclasses, monomanias, delírios, alucinações
diversas.
Isto
feito, começou um estudo aturado e contínuo; analisava os hábitos de cada
louco, as horas de acesso, as aversões, as simpatias, as palavras, os gestos,
as tendências; inquiria da vida dos enfermos, profissão, costumes,
circunstâncias da revelação mórbida, acidentes da infância e da mocidade,
doenças de outra espécie, antecedentes na família, uma devassa, enfim, como a
não faria o mais atilado corregedor. E cada dia notava uma observação nova, uma
descoberta interessante, um fenômeno extraordinário. Ao mesmo tempo estudava o
melhor regímen, as substâncias medicamentosas, os meios curativos e os meios
paliativos, não só os que vinham nos seus amados árabes, como os que ele mesmo
descobria, à força de sagacidade e paciência. Ora, todo esse trabalho
levava-lhe o melhor e o mais do tempo. Mal dormia e mal comia; e, ainda
comendo, era como se trabalhasse, porque ora interrogava um texto antigo, ora
ruminava uma questão, e ia muitas vezes de um cabo a outro do jantar sem dizer
uma só palavra a D. Evarista.
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Fonte:
MINISTÉRIO DA CULTURA
Fundação Biblioteca Nacional
Departamento Nacional do Livro
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Machado de Assis (Joaquim Maria Machado de Assis), jornalista,
contista, cronista, romancista, poeta e teatrólogo, nasceu no Rio de Janeiro,
RJ, em 21 de junho de 1839, e faleceu também no Rio de Janeiro, em 29 de
setembro de 1908. É o fundador da cadeira nº. 23 da Academia Brasileira de
Letras.