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domingo, 14 de junho de 2020

PALAVRA DA SALVAÇÃO (188)

Anúncio do Evangelho (Mt 9,36-10,8)

— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Mateus.
— Glória a vós, Senhor.

Naquele tempo, vendo Jesus as multidões, compadeceu-se delas, porque estavam cansadas e abatidas, como ovelhas que não têm pastor. Então disse a seus discípulos: ”A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. Pedi pois ao dono da messe que envie trabalhadores para a sua colheita!”
Jesus chamou os doze discípulos e deu-lhes poder para expulsarem os espíritos maus e para curarem todo tipo de doença e enfermidade. Estes são os nomes dos doze apóstolos: primeiro, Simão chamado Pedro, e André, seu irmão; Tiago, filho de Zebedeu, e seu irmão João; Filipe e Bartolomeu; Tomé e Mateus, o cobrador de impostos; Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu; Simão, o Zelota, e Judas Iscariotes, que foi o traidor de Jesus. Jesus enviou estes Doze, com as seguintes recomendações: “Não deveis ir aonde moram os pagãos, nem entrar nas cidades dos samaritanos! Ide, antes, às ovelhas perdidas da casa de Israel! Em vosso caminho, anunciai: ‘O Reino dos Céus está próximo’. Curai os doentes, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demônios. De graça recebestes, de graça deveis dar!”.

— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor.

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Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Padre Roger  Araújo:

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“...vendo as multidões, Jesus compadeceu-se delas, porque estavam cansadas e abatidas” (Mt 9,36)

Depois do percurso quaresmal e pascal, retomamos o tempo litúrgico conhecido como “Tempo Comum” (Ano A), seguindo o evangelista Mateus. Trata-se de uma longa “caminhada contemplativa”, deixando-nos inspirar pelo modo de ser e de agir de Jesus. Estamos na escola do discipulado, deixando-nos modelar pelo Mestre de Nazaré: seu estilo de vida, sua forma de pensar e de viver a relação com o Pai, sua maneira de entender o ser humano, sua relação com os outros, seu modo de conhecer, de crer, de esperar, de amar, sua liberdade diante da religião e das tradições, sua atitude diante das vítimas, dos sofredores e excluídos...

E o evangelho de hoje nos indica que Jesus vive uma presença diferente e inspiradora no contexto social e religioso de seu tempo; seu olhar contemplativo vê o emergente, o alternativo, o novo..., nas mesmas realidades que para outros são uma lixeira de coisas mortas, de amargura e desalento. Ele tem uma sensibilidade para perceber o Reino de Deus onde aparentemente não está, onde outros veem uma massa de pecadores, de excluídos que não conhecem a lei, de impuros, de publicanos a serviço do império romano.

A partir do olhar misericordioso do Pai, Jesus também contempla a vida e vislumbra aquilo que o olhar superficial e acostumado à linguagem da sinagoga não é capaz de descobrir.

Ao deixar-se impactar pela “massa sobrante”, “cansada e abatida”, Jesus sente o despertar de suas entranhas compassivas. Esse é o sentido da verdadeira compaixão: “amor de entranhas”. Elas são o lugar onde estão localizadas as nossas emoções mais íntimas e mais intensas. Constituem o centro de onde brota o amor oblativo, que nos move a sair de nós mesmos para entrar em sintonia com a dor e a miséria do outro.

Quando os evangelhos falam da compaixão de Jesus como estremecimento de suas entranhas, eles expressam algo muito profundo e humano. A compaixão que Jesus sentia era obviamente muito diferente dos sentimentos superficiais ou passageiros de pesar ou de simpatia pela situação do outro. Pelo contrário, ela está relacionada com a palavra hebraica “rahamim”, que se refere ao ventre materno de Deus.

Na verdade, a compaixão é uma emoção tão profunda, central e poderosa em Jesus, que só pode ser descrita como um movimento de contração do “ventre de Deus”. Nele, está oculta toda a ternura e toda a bondade divina. Nele, Deus é pai e mãe, irmão e irmã, filho e filha. Nele, todos os sentimentos, emoções e paixões são uma só coisa no amor divino. Nesse sentido, a compaixão revela o abismo de ternura imensa, inesgotável e insondável de Deus.

Jesus, presença visível da compaixão do Pai, sofre ao ver a distância que havia entre o sofrimento dos enfermos, excluídos, desnutridos e estigmatizados pela sociedade, e a vida que o mesmo Pai queria para todos. Jesus, então, põe em marcha um “movimento compassivo”, constituídos de discípulos e discípulas, que se deixaram seduzir por Ele, para prolongar na vida o mesmo compromisso compassivo do Mestre.

Aqui, não se trata de adesão a um mero programa ou a uma doutrina, mas do convite a um seguimento (“vir comigo”), no calor e intimidade de uma relação pessoal que é dirigida a cada um em particular. Para isso, requer-se uma resposta sem reservas, com a marca da compaixão.

Sem compaixão, todo seguimento de Jesus torna-se vazio, burocrático, rotineiro, normativo... 

compaixão é princípio de humanidade e expressão da identidade do ser humano. Na sua essência, a pessoa pode ser definida como ser compassivo. Sem compaixão, não há humanidade, pois predominam a violência, a dureza de coração, a indiferença, o fechamento fanático da mente e da inteligência.

Enquanto compassivo, o ser humano se sente solidário, terno, próximo... tanto diante da situação dos outros seres humanos, vítimas de exclusão e violência, como diante da natureza ferida, de forma que todo ato de homicídio e de ecocídio se converte em suicídio; matar a outra pessoa ou destruir a natureza é matar-se ou destruir-se a si mesmo. Sem compaixão, o ser humano se torna lobo solitário que se guia pela lei da selva. Sem compaixão, não há respeito pela vida dos outros, mas a guerra de todos contra todos.

De fato, a com-paixão não é um sentimento menor de “piedade” para com os que sofrem.

A com-paixão não é passiva, mas sim altamente ativa; é a capacidade de com-partilhar a própria paixão com a paixão do outro. Trata-se de sair de si mesmo e de seu próprio círculo e entrar no universo do outro enquanto outro, para sofrer com ele, para cuidar dele, para alegrar-se com ele e caminhar junto a ele, e para construir uma vida em comunhão e solidariedade.

Quem já foi tocado por um olhar de uma pessoa pobre ou sofredora, e deixou que este olhar penetrasse no fundo do seu coração, sabe que não sai “ileso” desta experiência; algo mudou dentro de si.

É uma experiência que o modifica profundamente, tanto que muitos interpretam como uma “experiência de Deus”, uma experiência de ter conhecido no rosto do pobre o rosto de Cristo.

As comunidades cristãs, ao longo de sua história, se moveram entre duas atitudes: a insensibilidade diante do sofrimento humano e a compaixão para com as vítimas. Hoje, só terá credibilidade o cristianismo se, como o bom Samaritano, deixa-se afetar pela situação do outro e realiza gestos compassivos.

Por isso, às notas tradicionais aplicadas à Igreja: una, santa, católica, apostólica (os tradicionalistas acrescentam uma quinta: “romana”, que não faz parte do Credo), poderíamos acrescentar outras duas: samaritana e compassiva. Não é evangélica uma Igreja só preocupada com ritos, leis, doutrinas, sacrifícios..., desprovida de compaixão. É na vivência compassiva que a Igreja mais se identifica com Aquele que é centro mesmo dela, o Jesus Compassivo. Afinal, somos seguidores de uma pessoa compassiva e não simples adeptos de uma religião ou de uma determinada doutrina.

E que é a Igreja senão a grande comunidade, constituída de pequenas comunidades, seduzidas por esta compaixão ousada de Jesus? A Igreja, para ser Igreja, precisa fundamentar-se na compaixão de Jesus.

Para que serve a Igreja se não mantém aceso o fogo da compaixão de Jesus que aquece os corações e transforma sem cessar as estruturas? Jesus não estabeleceu nenhum sistema de dogmas, normas e ritos. Não é o fundador de uma religião, mas de um movimento vivo, ativado pela compaixão e animado por uma esperança sempre nova, renovadora da vida. Para que servem todos os dogmas, normas e ritos se não despertam a compaixão nem ajudam à vida em sua incessante renovação, diversidade e criatividade? 

O Evangelho deste domingo também nos possibilita considerar nossa interioridade como “Israel”; Jesus nos envia às “ovelhas perdidas” de nosso interior: afetos, desejos, sentimentos, paixões, feridas, fracassos, traumas... Re-ordenar a vida interior, evangelizar nossas profundezas para que sejamos presenças compassivas.

A evangelização começa pela própria interioridade. No percurso interior (caminho), levar a luz do Evangelho, a mensagem da boa-nova. Tudo deve ser integrado, acolhido, iluminado... para dar um novo sentido à nossa própria existência. Carregamos muitos “nomes”, muitas presenças que ainda não foram acolhidas.

A finalidade da evangelização das profundezas é colocar Deus em seu devido lugar em nossa vida. É retornar a Ele, vivendo plenamente nossa humanidade e deixando-a vivificar pelo seu Espírito. Trata-se, dessa maneira, de experimentar a salvação em todas as dimensões de nosso ser, de recompor-nos, reajustando-nos às leis fundamentais da vida.

É indispensável “unificar-nos” por dentro e descobrir que podemos re-inventar-nos a cada dia, a cada passo, conduzindo conscientemente nossa vida em direção à plenitude e não arrastá-la pelo chão.

Quem está “unificado” tem a coragem de redefinir-se, de eleger, de assumir-se; é alguém preparado para dar um salto arrojado e criativo.

A discreta presença do nosso Mestre interior nos move a acolher nosso potencial de ternura, de cuidado e de resistência diante de todas aquelas situações e forças que desintegram a vida e nos dividem por dentro. Então, nossa interioridade evangelizada fará emergir a força compassiva que estava reprimida.

Só poderemos ser compassivos na relação com os outros quando formos compassivos com nossa própria história de vida.

Texto bíblico:  Mt 9,36-10,8 

Na oração: A compaixão está cada vez mais ausente da esfera pública e de nossas relações com o outro diferente e com o outro que sofre. Aqui está a chave da incapacidade de nossa sociedade para responder aos desafios atuais. Afirmamos ser seguidores(as) do Jesus Compassivo e, no entanto, a realidade deixa transparecer a trágica face da “sem-paixão”; está se tornando “normal” ser intolerante, violento, preconceituoso, racista, misógino,...

- Sua presença, frente ao contexto pandêmico, social, político, religioso..., revela “compaixão profética” ou “massa de manobra” da violência institucionalizada?


Pe. Adroaldo Palaoro sj 
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ONDA CONSERVADORA MANIFESTA OPOSIÇÃO A UM GOVERNO MUNDIAL - Adolpho Lindenberg

7 de junho de 2020
Por trás da pandemia vai surgindo o espectro de uma ditadura para implantar uma “nova ordem mundial”. Simultaneamente cresce a oposição à globalização, bem caracterizada no Brasil, nos EUA e na Igreja.

·    Adolpho Lindenberg
·          
A atual pandemia está sendo utilizada pelos agentes da globalização para alegar que, por serem universais, os grandes males que nos atingem precisam ser sanados por uma entidade supranacional. Algo parecido com uma ONU, só que com mais poderes. A globalização, em seu início, apresentou-se como mero processo político de integração de países, mas recentemente tornou-se um instrumento para os que almejam uma nova ordem mundial orquestrada por um governo supranacional.

Esse intuito, porém, está sendo contestado por um movimento ético-político recente, diversificado, difícil de ser definido, que muitos classificam como “onda conservadora”. Na Europa, as pessoas não suportam mais as ingerências descabidas da União Europeia nos governos de seus países. E multiplicam-se nos Estados Unidos as reações contra o movimento globalizante e os intuitos reformistas do Papa Francisco. Talvez possam auxiliar a compreensão do fenômeno os qualificativos “saturação” e “inconformidade” da população, em relação às propostas revolucionárias.

Até recentemente, a globalização, por ser incentivada pela mídia e pelo establishment, parecia incoercível. Mas hoje ela tem despertado reações dos que a julgam uma ameaça às soberanias nacionais e à privacidade das pessoas. No Brasil, temos um exemplo na intenção de entidades ligadas à ONU — no caso a OMS (Organização Mundial da Saúde) — de se sobreporem ao nosso governo, obrigando-o a aceitar suas diretrizes no combate ao coronavírus.

A instauração de um governo mundial tem sido denunciada por numerosos autores católicos como um projeto de inspiração revolucionária. Entre eles figura o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, que assim se expressa num de seus magistrais ensaios: “Como prefigura de um Governo Mundial, a ONU almeja a mistura de todas as raças, de todas as nações e de todas as línguas para formar um tipo humano já anunciado — o homem pardo da ONU. O homem pardo professará também uma religião que será ecumênica, uma mistura sincrética e eclética de todas as religiões”.
“Nova ordem mundial”, pretexto para uma ditadura global

Voltaram a figurar na lista dos best-sellers os livros que desde o século XIX vêm sendo publicados na Europa, em especial na França, alertando para o perigo da instauração de um governo mundial com poderes ditatoriais — o tão comentado big brother. Os mais recentes deixaram de acusar a maçonaria e passaram a denunciar as poderosas fundações norte-americanas. Ao lado dos grandes bancos e de pessoas como o bilionário George Soros, elas dão suporte financeiro aos programas globalizantes. O compêndio Nova Ordem Mundial, de Alexandre Costa, enumera mais de 100 obras com esse intuito.
Temáticas referentes à criação de um governo mundial com poderes ditatoriais começaram a ser discutidas por jornalistas em seus programas televisivos, despertando grande interesse entre o público. Com algum alívio, pode-se constatar que a maioria deles é contrária à sua instauração.
Está tendo grande sucesso o livro Sociedade do cansaço, do filósofo sul-coreano Byung-Chul Han. Destaca os poderes cada vez maiores que o Estado chinês utiliza para saber de cada indivíduo o que ele pensa, qual seu posicionamento político, quanto ganha, quais são seus hábitos. Embora o artigo se limite a descrever o crescente poder do governo chinês, sua leitura nos permite prever quais meios um eventual governo mundial terá à sua disposição para restringir a privacidade e a autonomia das pessoas. Chul Han assim descreve o que está ocorrendo no país mais populoso do mundo:
 “A China introduziu um sistema de crédito social inimaginável aos europeus, que permite uma avaliação exaustiva das pessoas. Cada um deve ser avaliado em consequência de sua conduta social. Na China não há nenhum momento da vida cotidiana que não esteja submetido à observação. Cada compra, cada clique, cada contato, cada atividade nas redes sociais é controlado pela vigilância virtual. Quem atravessa com o sinal vermelho, quem tem contato com críticos do regime, perde pontos. Quem compra pela internet alimentos saudáveis e lê jornais que apoiam o governo, ganha pontos.

“Na China existem 200 milhões de câmeras de vigilância, muitas delas com reconhecimento facial. Essas câmeras dotadas de inteligência artificial podem observar e avaliar qualquer espaço público: lojas, ruas, aeroportos. A vida pode chegar a se tornar muito perigosa. Na China essa vigilância social é possível, porque ocorre uma irrestrita troca de dados entre os usuários da Internet e dos smartphones com as autoridades. No vocabulário dos chineses não há o termo ‘esfera privada’. Todo esse aparelhamento, segundo se divulgou, mostrou-se muito eficaz para controlar a epidemia do coronavírus”.
Câmeras vigiam continuamente as ruas de Londres

Revigoramento de reações contra-revolucionárias


O senador democrata Bernie Sanders perdeu o apoio para disputar a Presidência por causa de suas posições acentuadamente esquerdistas

Nos Estados Unidos de modo especial, mas também em outros países, o público conservador saturou-se com a exuberância com que os movimentos ditos sociais — ecológico extremado, LGBT, pró-imigração, tribalismo e dezenas de outros — atuam com o apoio do establishment e da mídia.

Concomitantemente, o aborto, a ideologia de gênero, o “casasamento” homossexual, os pseudo-direitos humanos estão sendo legalizados na maior parte dos países ocidentais, sem que contra isso o Papa Francisco se manifeste. Essas mazelas, tendo atingido excessos inacreditáveis, estão despertando nos católicos tradicionais as mais diversas reações — protestos, marchas, abaixo-assinados, terços rezados em público, entre outras sadias reações.

O Prof. Plinio Corrêa de Oliveira afirmava que a velocidade do processo revolucionário, visando eliminar os últimos vestígios da Cristandade, é limitada pelo perigo de a opinião pública conservadora acordar de sua letargia e expressar sua inconformidade. E isso é exatamente o que está acontecendo nestes últimos anos. Boa parte do público, que até havia pouco dava as boas-vindas às reformas progressistas, nos dias atuais começou a reagir, a se organizar politicamente e a querer que os antigos valores éticos voltem a pautar o comportamento humano.

Essas reações tomaram corpo, revigorando os partidos de direita na Europa e o Republicano nos EUA. O orgulho nacional, a defesa da família e uma política mais firme em relação à socialização interna, vistos até pouco tempo atrás como frutos de um nacionalismo malsão, tornaram-se nos EUA o hit do momento.

O Partido Democrata americano adotou uma agenda progressista acentuada, a ponto de um líder socialista como o senador Bernie Sanders ser escolhido para disputar a Presidência; e está perdendo seu prestígio junto aos eleitores devido a essa posição. O apoio a Trump, ao contrário, está se consolidando.

A esquerda, após décadas, parece ter encontrado um adversário à sua altura. Até alguns anos atrás, ninguém se atrevia a dizer-se “de direita”, reacionário, conservador, mas agora esses termos deixaram de ser pejorativos. Com a derrota dos sociais-democratas nas eleições europeias recentes, e o desligamento da Inglaterra da União Europeia, consolidou-se a chamada “onda conservadora”. Por falta de outra denominação adequada, seus seguidores passaram a ser denominados “populistas”, pelo fato de estarem em sintonia com as aspirações do povo.

Abrindo um parêntese, é impossível deixar de apontar o paradoxo de o establishment e a mídia estarem acusando os populistas de serem antidemocráticos, quando na verdade são estes que auscultam os anseios da opinião pública, utilizando para isso as redes sociais. Com efeito, o povo influencia o governo com mais autenticidade por meio do universo virtual do que pelo sistema pouco confiável de eleições dos representantes, realizadas de quatro em quatro anos.
Muito sintomático nessa “onda conservadora” foi a marcante presença de jovens, como estes que rezam de joelhos nas adjacências de Notre-Dame de Paris no dia do trágico incêndio. Alguns deles portavam o terço em suas mãos

“Onda conservadora” comprovada entre brasileiros
establishment não poupa críticas aos líderes populistas por pregarem um patriotismo e uma moralidade fora de moda. Acusa-os de caipiras, evangélicos de carreira ou de fascistas. Essas críticas são de tal modo unilaterais e agressivas, que o público deixou de levá-las a sério. O que está ocorrendo agora no Brasil comprova o acima dito: o presidente Bolsonaro está suportando um inferno astral especialmente midiático, acusado pelo que disse e pelo que não disse, sendo denegrido por sua postura popular e moralizante. Uma coisa é certa, certíssima: se ele deixasse de se opor à ideologia de gênero e ao aborto, de enaltecer o patriotismo e os valores do “antigo Brasil”, as críticas seriam substituídas por aplausos da mídia, e ele seria apontado como um grande presidente.

A onda conservadora não foi planejada por políticos nem é fruto da iniciativa de um líder carismático. Nasceu concomitantemente em quase todos os países, de modo espontâneo e com surpreendente vigor. Algo parecido com o que ocorre quando a vegetação, adormecida por uma longa estiagem, renasce após as primeiras chuvas com uma vitalidade a toda prova.

Até pouco tempo atrás o establishment menosprezava sua existência, crendo ser fruto de mentalidades retrógradas ou de heranças fascistas. Mas agora foi obrigado a reconhecer que parte da opinião pública a está vendo com simpatia — digamos mesmo, com alívio — por ter encontrado um movimento alinhado com suas convicções e disposto a combater em sua defesa. Um combate do qual muitos gostariam de participar, mas que não dispõem de meios ou de coragem para fazê-lo.
Jovens participantes da Marcha pela Vida, realizada anualmente em Washington, exibem cartazes e bradam slogans contra o assassinato de inocentes. Cenas como esta são cada vez mais frequentes em muitos países e têm indiscutível repercussão no mundo político.

Nos EUA polarizado, preeminência do polo mais tradicional

Uma análise de como eclodiu a onda conservadora nos Estados Unidos pode nos auxiliar a ver como as pessoas reagem quando seus modos de vida e suas convicções herdadas dos antepassados ficam ameaçados pela Revolução. De início manifestam seu desagrado, depois partem para protestos os mais variados, e finalmente organizam-se em movimentos ou partidos políticos.

Nos EUA, é de longa data uma oposição latente entre as mentalidades e os modos de viver dos habitantes das costas Leste e Oeste (Nova York, Washington, Los Angeles, São Francisco), e do outro lado os equivalentes americanos do Centro e Oeste. Dir-se-ia que um muro de discordância passou a dividir os democratas e os republicanos. Essa oposição é antiga, mas recentemente acentuou-se e passou a assemelhar-se a um conflito infindável.

Os democratas e o establishment liberal (esquerdista, no sentido americano) possuem um estado de espírito que outrora era descrito como sendo o American way of life. Consiste numa visão otimista da realidade, descompromissada e na crença de que o progresso e o conhecimento solucionarão todas as mazelas que nos afligem. Além dessa concepção rósea do mundo, são simpáticos aos movimentos sociais e indulgentes quanto às reivindicações das minorias; são globalizantes, enquanto julgam inevitável um governo mundial; e estão convictos de que a tão almejada paz entre os EUA e os países comunistas só será obtida por meio da boa vontade e de concessões recíprocas. São críticos ao uso de armas pelo público, restringem as verbas para as Forças Armadas e são defensores convictos do Obama care e de outros atendimentos sociais pelo Estado.

Pessoas típicas dessa mentalidade são os líderes políticos democratas e os participantes do jet-set internacional — artistas, escritores, figuras de proa do movimento ecologista —, todos enaltecidos pela mídia e por membros do establishment.

A onda conservadora nos EUA é formada por dois públicos diferentes: o primeiro inclui os americanos fiéis às suas tradições cristãs, que cultivam os valores típicos do tempo em que foram pioneiros — honestidade, trabalho árduo, consumo morigerado. Desconfiam do governo e ficam desagradados com as extravagâncias de seus conterrâneos da costa leste. É devido a eles que o Partido Republicano tem conseguido vencer as eleições.

O segundo público participante da onda conservadora é formado por aqueles que defendem a liberdade econômica e são contrários à assistência social estatal. Empresários e banqueiros de grande porte se alinham aos moradores das pequenas cidades do Meio Oeste, de mentalidade conservadora, com o objetivo de proteger o país das novidades socializantes vindas da Europa logo após o fim da guerra, tão caras aos democratas. Dir-se-ia uma conjunção esdrúxula, inviável à primeira vista, mas que provou sua viabilidade ao participarem lado a lado da “onda conservadora”.

Quem viaja pelo interior dos Estados Unidos fica admirado com o número de casas com a bandeira nacional hasteada, mesmo nos estados com predomínio democrata. O derrotismo vigente nos anos da guerra do Vietnam foi submergido pelas primeiras ondas conservadoras, e Trump não só venceu as eleições como também se tornou o ponto de referência para os governos populistas do mundo inteiro.

O apoio popular a Trump é devido, em parte, à insatisfação dos americanos ao verem que o individualismo empreendedor, tão caro a eles e tão bem descrito nos livros de Anna Ryan, estar sendo contestado pelos que julgam que a solidariedade entre as pessoas é mais importante do que a competição. Por outro lado, explica-se por ter ressuscitado o “orgulho nacional”, sintetizado no lema America first, por ter acabado com o desemprego e contrabalançado o poderio comercial da China.

Crise na Igreja e onda conservadora católica

A densidade revolucionária, presente na atual crise pela qual a Igreja está passando, não tem comparação com a de qualquer outro cisma ou heresia do passado. O Papa Francisco, aparentando simplicidade evangélica, mostra desagrado em relação ao esplendor ostensivo da corte pontifícia; preferência pelas vítimas de um sistema que visa ao enriquecimento, e não à partilha; e assim tornou-se uma figura simpática a vários setores da opinião pública no início de seu pontificado. Com o tempo, no entanto, começou a revelar sua verdadeira face de um reformador convicto, intencionado em transformar a Igreja Católica num simulacro do modelo criado por Jesus Cristo.

Seu hábito de expor seus planos enquanto retorna das viagens ao exterior permitiu-lhe apresentar-se como sendo um humilde devoto de São Francisco, incompreendido pelos “poderosos”, indulgente com as fraquezas humanas, protetor dos pobres e oprimidos. Ele sorri, mostra-se confortado por estar conversando com seus companheiros de viagem, cria um ambiente informal, acolhedor, distendido. Quem poderá acusá-lo de desdém pelo ensino tradicional, vituperado como se fosse fruto de um dogmatismo rígido já superado?

Tal imagem edulcorada, no entanto, é frequentemente contrariada pela rispidez com que trata os prelados que não partilham de seus projetos, transformando-se em amargura e desencanto revelados em suas fotografias.

Suas palavras dúbias, pouco ortodoxas, seu modo popularesco de se apresentar em público e seu alinhamento com a esquerda vêm suscitando reações de cardeais, teólogos e fiéis católicos, e até mesmo de não católicos.     Exemplos dessas reações são as Marchas pela Vida, os abaixo-assinados, os protestos contra peças de teatro satânicas e blasfemas, o Terço rezado em praças públicas, todas iniciativas promovidas ou apoiadas pela TFP americana (American Society for the Defense of Tradition, Family, and Property) [foto acima]. Tão significativo quanto essas iniciativas é o apoio entusiasta encontrado no público jovem. A essas se acrescentam as publicações do Instituto Plinio Corrêa de Oliveira e do Pan-Amazon Synod Watch, bem como a atuação do Prof. Roberto de Mattei e dos publicistas José Antonio Ureta e Julio Loredo, que ao longo do Sínodo Amazônico alertaram os fiéis para as heresias presentes nos movimentos ambientalista e indigenista.

O fato de o conteúdo revolucionário estar ficando cada vez mais visível nos movimentos reformistas — LGBT, feministas, imigração, tribalismo, ecologia extremada, patrocinados pela ONU e apoiados pelo Papa — deixou os católicos conservadores alarmados e dispostos a participar das reações que estão eclodindo por toda parte. Em razão da espontaneidade de cada uma dessas reações, e de se insurgirem contra este ou aquele contrassenso sem estarem interconectadas, não é fácil a formação de uma onda conservadora religiosa semelhante às existentes no campo político. Se em determinado momento, porém, os cardeais e bispos de orientação conservadora formarem uma frente única com os fiéis perplexos com o que está ocorrendo na Igreja, as reações crescerão, tomarão corpo e se transformarão num movimento de proporções universais. Terão eles, num futuro próximo, o poder de inverter a marcha dos acontecimentos? Decorrem de uma graça especial as atuais ondas conservadoras, tanto as políticas quanto a religiosa? São elas instrumentos de Nossa Senhora para congregar os fiéis num confronto final com os revolucionários? Seja como for, a desproporção de forças é assustadora. Os revolucionários contam com o apoio do atual Papa e da maioria dos cardeais e bispos, da mídia internacional e das entidades que se pretendem supranacionais. O que fazer? Rezar, continuar a participar dos movimentos contra-revolucionários? Sim, e cada vez mais, pois Nossa Senhora prometeu em Fátima que o seu Imaculado Coração triunfará. Mas Ela depende para isso do nosso esforço, e o tem implorado repetidamente para que possa cumprir o que prometeu.
  

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sexta-feira, 12 de junho de 2020

PENSAR — UMA NOVA MODA? – Marcos Luiz Garcia

12 de junho de 2020
·   
Marcos Luiz Garcia

          Não poucas pessoas obrigadas a ficar em casa devido a imposições de autoridades locais vêm se entregando a uma atividade que lhe é própria, mas estava ficando ultrapassada: pensar. Sim, nolens, volens, a Covid-19 está propiciando o exercício da faculdade que nos distingue dos irracionais, além de outra, ainda mais nobre, que é a oração.
         Tal é a catadupa de informações sobre ovírus chinês e a guerra movida pela esquerda — de todos os naipes — para derrubar o governo eleito e implantar no Brasil um regime comunista semelhante ao da China, que todos que tomam conhecimento delas vão ficando atordoados. Quanto mais informação a pessoa procura, tanto mais confusa ela fica.
          À medida que se começa a deixar de lado, por instintiva defesa mental, as informações com que somos diuturnamente bombardeados, vai-se percebendo que os números de doentes e mortos apresentados pela estatísticas não inspiram confiança.
          Por exemplo, não fica claro porque a mídia não publica fotos de engarrafamento de ambulâncias e carros fúnebres diante dos hospitais e dos cemitérios. Se não publica é porque o número desses veículos é pequeno.
         Uma pessoa conhecida minha, que reside nas cercanias do estádio do Pacaembu (onde o governo do Estado montou tendas de emergência para tratamento de Covid), me disse que quase não se vê movimento de ambulâncias ou de carros fúnebres no local.
          Também no cemitério da Vila Formosa, designado para sepultar os mortos vitimados pelo coronavírus cujas famílias são mais desprovidas de recursos, a mídia não publica nenhuma foto de engarrafamento.
           Habituada a exagerar o que convém à esquerda, a mídia brasileira exploraria cenas dessas até o delírio, se elas existissem de fato. Pergunto: Qual o interesse em exagerar os números, uma vez que mesmo os contagiados anunciados pela Prefeitura de São Paulo, cidade com 12 milhões de habitantes, não equivalem a mais do que 0,58%, e o de mortos a 0,034% da população? Convenhamos, há outras doenças que matam muito mais do que essa.
          Outro aspecto que chama a atenção é a “coincidência” de os cinco estados cujos governadores são mais entranhadamente contra o governo federal — São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco, Ceará e Amazonas — com um total de 82 milhões de habitantes — somarem maior cifra de óbitos do que os cinco estados mais favoráveis ao governo central — Minas, Rio Grande do Sul, Paraná, Distrito Federal e Santa Catarina —, com uma população total de 52.500.000.
          Para aumentar a confusão, veja o que a UOL publicou no dia 31 de março p.p.:
          “O porta-voz da Organização Mundial de Saúde (OMS), Tarik Jasarevic, lançou um alerta hoje sobre o uso indiscriminado de máscaras pelas pessoas que não querem se infectar pelo novo coronavírus, garantindo que possa haver uma falsa sensação de segurança. O uso não é requerido para pessoas saudáveis. Em vez disso, as pessoas com sintomas é que devem usá-las, para proteger os demais, assim como os que cuidam dos doentes em casa e estão mais expostos ao vírus, explicou o representante da entidade.”
          Ora, usar máscara é norma geral no Brasil, que afirma seguir as normas da OMS. Como fica a contradição?      O mais grave, entretanto, é o lado espiritual da situação: as igrejas fechadas e as pessoas sentindo pouco a falta dos sacramentos. Muitos estão se adaptando à nova maneira de praticar a religião via internet. Em casa mesmo, diante de uma tela, largados num sofá, em muitos casos semidespidos, comendo um pedaço de pão e tomando um pouco de vinho, à guisa de comunhão.
          No final das contas ficam satisfeitos, pois com décadas de deformação conciliar, consideram normal que essa seja a nova forma de cumprir suas obrigações em relação a Deus… Afinal, como isso tudo vai acabar? — A primeira parte das previsões de Fátima está se cumprindo e se espera grande número de conversões. Depois virá o cumprimento total das previsões: “Por fim o meu Imaculado Coração triunfará!”, conforme Ela garantiu.


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quinta-feira, 11 de junho de 2020

HISTÓRIA DE MARIA CAMISÃO – Cyro de Mattos

História de Maria Camisão
Cyro de Mattos
      

          A mulher, apelidada de Maria Camisão, andava vestida em uma camisa folgada, mangas compridas, de tão grande batia nos joelhos. Ela era de estatura baixa, os cabelos sempre assanhados, a boca desdentada.  Alguns diziam que guardara como lembrança uma meia dúzia de  camisas  grandes do seu homem, um preto alto e forte.

          Aparecia com a trouxa de roupa na cabeça. Descia o barranco do rio, juntando-se no areal  às outras lavadeiras, algumas  espalhadas pelas pedras pretas. Lavava, esfregava, torcia. Ensaboava, batia com a roupa na pedra. E cantava uma cantiga moída e remoída na  sua voz triste. As outras lavadeiras ouviam em silêncio o que ela cantava, falando de coisas sentidas nas águas do rio da vida.
                               
                           Ó água, água, água,
                           Torce  e escorre
                          Toda minha mágoa.
                          Ó água, água, água,
                          Leva logo pro mar
                         Essa vida amarga.   

           Apesar das marcas doloridas  que guardava no peito e que  pulsavam  quando lembrava da desgraça que fizeram com o seu homem, nunca teve  medo de enfrentar qualquer tipo de trabalho caseiro. Varria os cômodos, lavava  o pátio, limpava  o quintal com a enxada, cuidava da roupa da família.  Com o  dinheiro que ganhava nesses serviços  ia passando a vida. Morava num barraco do bairro mais pobre da cidade, no outro lado do rio.

          Comentava-se que ela havia ficado adoidada depois que o marido amanheceu enforcado na cadeia, dizem que a mando do delegado Ranulfo, que  armara  para ele uma cilada. O delegado mandou que dois soldados  tomassem as caças moqueadas e prendessem o homem chamado Barba Preta.
 
          Os soldados aproximaram-se do homem na sua barraca que vendia na feira, aos sábados, jaca, galinha, ovos  e caça moqueada. Deram a ordem: “- Entregue as caças abatidas e moqueadas, seu criminoso! É pra já!” O homem respondeu: “- Nunca soube que abater bicho do mato fosse proibido  nessas bandas, ainda mais nas matas que são do meu pertence. ” Foi algemado nessa hora de discussão e xingamento.

          Na cadeia,  bateram tanto no homem com o cinturão grosso, deram sopapos  e pontapés seguidos que ele  não suportou  a surra, caindo no chão desacordado.  Depois de preso cinco dias na cadeia, sem direito à visita da mulher, comendo pão dormido e bebendo água imunda,  dormindo no chão de cimento,  amanheceu enforcado, pendurado na cumeeira da cela escura. 
     
          Disseram depois do episódio sinistro que foi o delegado Ranulfo que mandou fazer a desgraceira para se apossar da roça do Barba Preta nas Salteadas.

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Cyro de Mattos é jornalista, cronista, contista, romancista, poeta e autor de livros para crianças. Publicado em Portugal, Itália, França, Espanha, Alemanha, Rússia, Dinamarca, México e Estados Unidos. Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia, Academia de Letras de Ilhéus e Academia de Letras de Itabuna. Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual de Santa Cruz.

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quarta-feira, 10 de junho de 2020

A CAMISETA VERMELHA – Nídia Costa Reis

Meu nome é Magno.

Depois de ficar viúvo, fui morar com minha filha e meu neto em um bairro aprazível e sossegado de uma cidade do interior do Paraná.

Sou como um Cravo que perdeu a Rosa, mas continua no jardim. Vivo das boas lembranças e gosto de ser útil sempre que me é possível. Nunca fui de muitas letras, mas leio a Bíblia, gosto de livros de aventuras e faço palavras cruzadas com o dicionário por perto, naturalmente.

No princípio, era interessante observar a rua, o trânsito de pessoas e veículos, os estudantes com seus fardos escolares, o ruído de uma cidade maior. Hoje, prefiro o sossego de meu quarto a buzinas e vozes na calçada.

Da porta da cozinha de nossa casa, eu via uma igreja e várias casas a uns sessenta metros de distância. Entre elas, um sobradinho com duas janelas e uma chaminé que soltava fumaça o dia inteiro e me trazia boas lembranças do antigo fogão a lenha da fazenda de meus pais. Enquanto esperava a hora do almoço, de vez em quando eu olhava a fumaça, ora espessa, ora quase imperceptível e, por isso, podia calcular a quantidade de lenha que ardia na boca daquele fogão.

Certo dia, além da fumaça, vi uma camiseta vermelha dependurada em uma das janelas do sobradinho. Às vezes, ela balançava e parecia que ia cair a qualquer momento. Com certeza, a vizinhança também estava de olho nela, não pela cor, mas pelo varal improvisado, na janela, onde ficou o dia inteiro. Ao anoitecer, ela continuava no mesmo lugar. Se fosse para secar já estaria seca, pensei. Por que não a recolheram? Percebi que minha curiosidade estava fora de controle e, por isso, decidi deixar a camiseta sossegada, embora estivesse morto de vontade de saber a opinião de alguém de minha família sobre o assunto. Eu tinha fama de ser curioso, portanto, se perguntasse à minha filha, ouviria de novo a mesma frase: “deixa pra lá, papai. Já vem o senhor de novo?”

Mas quem não seria capaz de observar uma camiseta vermelha na janela o dia inteiro? Calculei que o dono da camiseta se tratava de um torcedor de algum time de futebol ou de algum carnavalesco que exibia sua camiseta de escola de samba, guardada durante um ano, dentro do guarda-roupa.

No dia seguinte, fiquei bastante assustado. A camiseta vermelha estava na janela, do mesmo jeito, no mesmíssimo lugar. Achei que havia algo de misterioso para ser explicado, antes que eu desse um ataque de histeria e fosse internado em um manicômio qualquer. Comecei a desconfiar de mim mesmo. Eu era apenas idoso, não velho, e sempre achei que minha cabeça funcionava bem, mas, naquele momento, já não tinha tanta certeza. Talvez, havia começado a caducar e ainda não percebera! Mas, que maldita camiseta seria aquela?

Saí decidido a pedir socorro à primeira pessoa que encontrasse pela casa, a fim de desvendar aquele mistério. Minha filha já havia saído para o trabalho e a empregada lavava a louça do café. Avistei meu neto na varanda e pedi-lhe que viesse me ajudar, pois eu não estava me sentido bem. Ele veio resmungando como sempre fazia quando eu lhe pedia qualquer coisa. Fomos até a porta da cozinha, criei coragem e, meio sem jeito, fingindo não ser nada muito importante, perguntei-lhe:

- Paulinho, está vendo aquela camiseta vermelha na janela daquele sobradinho, lá adiante?

- Que janela? - perguntou.

- Aquela, do sobrado. Não está vendo uma camisa vermelha balançando, balançando?

- Não vejo nenhuma camiseta vermelha, vovô. O senhor está enxergando demais e vendo coisas de uns tempos para cá. Isto é perigoso. Também nessa idade...

Fiquei parado, triste e desiludido. Eu andava vendo coisas ultimamente. Outro dia vi um gambá no muro; era um gato. Cumprimentei o soldado José; era o sargento Oliveira. Antes, podia jurar que minha cabeça funcionava muito bem, mas, agora, comecei a duvidar.

Eu não estava preparado para aceitar chacotas e conviver com as cobranças do tempo, as deficiências da idade,. Enfim, eu não admitia ser um octogenário inútil, caduco, imprestável.

Durante o almoço, percebi que meu neto estava aflito para falar sobre a camiseta do sobradinho. Então, passei-lhe um olhar de cobra venenosa e ele se conteve, mas advertiu minha filha de que ela deveria levar-me ao médico, pois achava que, na minha idade, era urgente uma consulta.

- Vovô está treslendo, meio lelé. Eu acho — disse ele.

Fiquei quieto, não disse nada, à espera da contestação de minha filha, mas ela parou de comer, olhou-me com ternura, aprovou a ideia e se dispôs a marcar um exame com um neurologista. Foi duro constatar que minha família desconfiava de minhas faculdades mentais, mas, no fundo, não era isto que eu queria?

E a camiseta vermelha? Quanto tempo eu aguentaria a visão que me atormentava dia e noite, sem poder desvendar aquele mistério?
     
No dia marcado para a consulta, entramos no carro e rumamos para o consultório do neurologista. Durante o percurso, meu neto resolveu antecipar o exame e começou a me testar, digo, me tentar:

- Vovô, que rua é esta? Aquela é a igreja de São Bento ou a de São Francisco? Meu colégio fica para cá ou para lá?

Achei suas perguntas uma falta de respeito e já ia chamar-lhe a atenção quando minha filha se antecipou e passou-lhe uma escaramuça de primeira. Coitado do Paulinho! Depois de me pedir desculpas, encolheu-se no banco de trás e não deu nem mais uma palavra. O pior era que eu não saberia responder a nenhuma de suas perguntas, pois há muito tempo, não passava por aquela parte da cidade e seria mais uma demonstração de que minha cabeça estava em péssimo estado de conservação.

No consultório, o médico deu início aos exames de rotina: mediu a pressão, auscultou-me os pulmões e o coração, revirou-me as pálpebras, olhou a língua e a garganta. Depois, pegou um martelo e bateu em meus joelhos com força. Dei um pulo na cadeira e vi que ele gostou, mas eu não achei graça nenhuma. Fiquei de pé para algumas palhaçadas: “Levante a mão esquerda, equilibre-se em uma perna só, mostre-me a orelha direita e a esquerda”. Eu obedecia às suas ordens como um robô japonês e já ia reclamar da incômoda ginástica, quando ele, amavelmente, deu-me um tapinha nas costas e mandou que me assentasse, naturalmente, para o veredicto final. Pela sua fisionomia calma e satisfeita, percebi que ia sair livre de qualquer culpa na minha saúde. Então, confessei-lhe que andava vendo coisas estranhas, trocando gambá por gato e soldado por sargento. Falei sobre a camiseta vermelha do sobradinho que só era vista por mim e afirmei-lhe que estava á beira da loucura. Ele não levou minhas queixas a sério e disse ser perfeitamente normal esses enganos na minha idade. Aconselhou-me a observar melhor antes de tirar conclusões, fazer pequenas caminhadas pelo bairro e cuidar da alimentação. Antes de sair, ele quis falar com minha filha. Pedi-lhe que não dissesse nada a ela a respeito de minhas visões para não ficar preocupada e passar a me vigiar dia e noite. 

Na volta, perguntei-lhe se estava tudo bem comigo. Disse - lhe que eu não havia gostado nem um pouco da consulta porque ele não me dera muita atenção e não me levara a sério. Minha filha, como sempre, não poupou esforços para me acalmar. Eu não tinha nada grave, mas seria bom procurar um oculista. Protestei, argumentando não ter dinheiro para tantas consultas, que minha aposentadoria, em breve, iria virar salário mínimo e meu plano de saúde não me garantia quase nada. Ela me afirmou que não seria por falta de recursos que eu deixaria de ir ao oculista. Já fazia muitos anos que eu usava os mesmos óculos e, depois dos oitenta, é comum ter catarata. Fiquei comovido pela preocupação de minha filha e já ia agradecer quando Paulinho saiu-se com esta:

- Eu quero ajudar o vovô. De hoje em diante o senhor não precisa me dar os cinquenta centavos do picolé. De cinquenta em cinquenta...

Tratei de mudar de assunto a fim de não dar oportunidade a meu neto de falar sobre a camiseta vermelha. Foi em vão. Parece que, de propósito, ele resmungou:

- Eu sei que o senhor anda vendo coisas esquisitas, não é verdade, vovô? E aquela história de camiseta ver...

Interrompi sua pergunta, virei para trás e fulminei-o com um olhar de cachorro bravo. Ele me entendeu e passou o resto do trajeto em silêncio. Preocupada na direção do carro, minha filha nada percebeu e o assunto foi encerrado.

Ao entrar em casa, fui direto à porta da cozinha, antes de ir ao banheiro, tal era a minha aflição e curiosidade. Lá estava ela, do mesmo jeito, tremulando como uma bandeira ameaçadora de piratas. Absorto pela visão aterradora, nem percebi a chegada do Paulinho que, cheio de malícia, falou baixinho:

- Aí, vovô, procurando a camiseta, não é? O senhor não desiste dessa história!

Assustado, repreendi-o mais baixo ainda.

- Quieto, menino tagarela. Não vê que sua mãe está ali na copa? Deixe-me em paz! Vá lavar as mãos para o lanche. Vá logo!

Durante o lanche, ficou resolvido que eu iria ao oculista assim que recebesse o pagamento de minha aposentadoria. Era minha última esperança de me livrar daquela maldita camiseta vermelha na janela do sobradinho.

Não admitia estar fraco de ideia, sei lá, de miolo mole, como insinuava meu neto. Agarrei-me à possibilidade de ter mesmo a catarata para conseguir esperar o dia da consulta. Prometi a mim mesmo não chegar à porta da cozinha com intuito de satisfazer minha curiosidade.

Passei a frequentar a cadeira da varanda onde ficava horas e horas lendo, pensando ou cochilando até a hora das novelas. Os dias tornaram-se mais longos, quase insuportáveis. Paulinho, que não era bobo, percebeu minha mudança de hábitos e, uma noite, assentou-se bem perto de mim e cochichou:

- Vovô, não fica nervoso. Mamãe já marcou a consulta. Aposto que é só uma operaçãozinha de nada e o senhor nunca mais vai ver aquela camiseta, está bem?                                                       

Quinze dia depois, fui submetido a uma cirurgia de catarata. Fiquei algum tempo de “quarentena”, à espera dos novos óculos como um náufrago perdido em alto mar, à espera de um navio salvador que o livrasse dos tormentos da fome, da sede e da impiedade do sol.

Finalmente, uma bela tarde, minha filha, ao chegar do trabalho, trouxe a caixinha com meu socorro visual. Ela e meu neto fizeram questão de presenciar o teste. Eu não reclamei por educação, mas detesto ser observado e analisado, porque não sou mais um galã e meu nariz é maior que o desejado.

Meio sem jeito, coloquei os óculos diante do espelho e fiquei parado sem saber o que dizer, tentando enxergar meu rosto e verificar o resultado da cirurgia. Esperei que um deles dissesse alguma palavra e não sabia mais o que fazer, se olhava de lá para cá, de cima para baixo. Nada acontecia, e o silêncio era total para meu desespero e aflição. Finalmente, meu neto resolveu dar o ar da graça e disse:

- Ó, vovô! Legal! O senhor está parecendo o Rui Barbosa!

Paulinho sempre me constrangia por seus palpites maliciosos. Minha filha, mais interessada na qualidade de minha visão que em minha aparência, sugeriu que fôssemos até a janela para que eu pudesse ver à distância.

- Janela, não – replicou meu esperto netinho. Vamos à porta da cozinha. É melhor. O senhor pode ver o sobradinho e aquela cami...

Antes de ela terminar a frase, saí depressa, seguido por minha filha, esbarrando nas cadeiras, tropeçando no tapete, ansioso pelo momento de provar que eu não estava maluco nem tampouco com a mente deteriorada pela idade.

Paramos na soleira da porta, os três, mudos e apreensivos. Vi o sobradinho e procurei a camiseta vermelha. Minha filha, que de nada sabia, perguntou-me se eu estava enxergando melhor, mas meu neto, percebendo minha desilusão, entrou na conversa e saiu-se com esta:

- Vovô, está vendo as janelas do sobradinho? O que o senhor está vendo em uma delas? É a mesma coisa que o senhor viu naquele dia?

Eu estava em tempo de desmaiar de tanta felicidade. Minhas pernas tremiam e meu coração batia descompassado, provocando-me um pouco de falta de ar. Foi com grande alegria e alívio que lhe respondi:

- Não, Paulinho. Deus seja bendito! Quer mesmo saber o que vejo lá na janela do sobradinho? Agora estou vendo um lençol vermelho balançando pra lá e pra cá. Meu Deus! Como eu estava cego!

Meu neto explodiu numa sonora gargalhada e correu para o quintal quase morto de tanto rir. Minha filha, assustada, abraçou-me ternamente, afagou-me a cabeça e, desconsolada, disse:

- Não ligue para o Paulinho, pai. Ele anda impossível. Sua visão está ainda bem boa. O senhor quase acertou. Aquilo não é lençol, pai. É uma cortininha vermelha, esquisita, que está lá há muito tempo. De longe, para quem não enxerga bem, eu juro que até parece uma camiseta vermelha!  

                                        
                                                 Nídia Maria da Costa Reis
                                                           21 / 07 /2007
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Nídia Maria da Costa Reis - Educadora, escritora, soma mais de cem pequenas histórias e poemas catalogados, além da coleção 12 provérbios e suas histórias que chegou à quarta edição e concorreu ao Prêmio Jabuti de Literatura. Aventuras de Gui Omar é seu trabalho mais recente.

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terça-feira, 9 de junho de 2020

CHEGA DE BURRICE – Guilherme Fiuza

"No início da Pandemia aqui no Brasil, o cara (Jair Messias Bolsonaro) quis fazer uso da Hidroxicloroquina e defendeu o isolamento vertical; a resistência foi contra! 

O resultado: hoje a Hidroxicloroquina é uma realidade e o isolamento ao qual fomos submetidos com a finalidade de construir leitos de hospitais, não cumpriu seu papel. 

O STF, com seus 11 Presidentes da República, tirou do cara a prerrogativa de gerir a crise da Covid19, deixando a cargo de Governadores e Prefeitos a gestão! O que nós vimos? Roubos, superfaturamentos, Lockdown pra quebrar a economia, meia dúzia de máscaras e álcool em gel pra calar a boca da massa de manobra.

A OMS negligenciou informações cruciais, a Ditadura Chinesa matou médicos e jornalistas que divulgavam coisas sobre o vírus; Governadores e Prefeitos ignoraram o vírus pra pular Carnaval, mas o “genocida” é o cara que, em reunião fechada, defende a sua nação com unhas e dentes! 

 A última agora, é a troca do horário de atualização do número de mortos e infectados pela Covid19, porque os curados nunca interessaram! Agora, não permitir que a Globo anuncie em rede Nacional, comemorando como se fosse um recorde olímpico, os números do Brasil, é esconder informação? Vocês sabiam que existe outro meio de se informar, que não seja pela Globo, que aliás, só desinforma? Assistam aos jornais da imprensa livre; vocês vão ficar chocados com a quantidade de informação que estão sendo ocultadas! 

Você não precisa gostar do cara, mas não precisa torcer pro vírus só porque você perdeu a eleição! O Brasil não é uma partida de futebol, onde quem perde fica puto, pega a bola e acaba com o jogo! O Brasil é nosso, de quem ama suas cores e honra sua bandeira! 

O Brasil não é de quem, em nome de uma ideologia, queima seu maior símbolo! Odeie o cara, é um direito seu, mas não deixe esse ódio te fazer torcer pro seu país quebrar; lembre-se que com a sua ignorância, você não entra mais nos Estados Unidos e vai ter que, finalmente, amargar férias da sua Disney imaginária, na Venezuela!  
Chega de cegueira! Chega de burrice! Chega de dissonância cognitiva! Chega de cagação de regra de quem votava, vota e defende bandido! Chega!! 

Chegou a hora dos brasileiros de bem tomarem conta do futuro do país!" 

Brasil acima de tudo e Deus acima de todos! 

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Guilherme Fiuza - Rio de Janeiro, 30 de maio de 1965 é um jornalista e escritor brasileiro. 


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segunda-feira, 8 de junho de 2020

ANOS AGITADOS – Carlos Pereira Filho


   
      Entre 1920 e 1930 o município havia crescido muito. O seu povo trabalhava a passos acelerados. O comércio se firmava como um dos mais importantes da região e a produção cacaueira se aproximava de duzentos mil sacos.

            Uma enchente muito grande do Cachoeira ameaçou invadir a cidade, tendo causado sérios estragos nos armazéns dos compradores de cacau, na Rua da Jaqueira, o que muita gente tomou como castigo contra os especuladores.

            Nesse períodos a política itabunenses esteve muito agitada. As lutas entre Gileno Amado e Henrique Alves assumiram, muitas vezes, proporções alarmantes. As paixões cresceram muito, a tensão entre os partidos se extremou demasiadamente.

            Houve choques de jagunçada, mortes de lado a lado. Boatos de toda espécie. Intrigalhada a mais terrível. Nomes como o de Antônio Pereira figuravam nos cartazes da valentia. Carlos Cotó, Manuel dos Brejos, Eduviges Cauassu, comandavam os acontecimentos por detrás das pontas das ruas e nos distritos distantes. A Rua da Palha tomou fama. Macuco e Ferradas não ficavam atrás. Se Henrique Alves era forte em Ferradas, Gileno Amado fortíssimo em Macuco. Palestina, ponto mais extremado, agasalhava a reserva dos cabras valentes, que ali estacionavam de prontidão, com Quintino Marques na zona divisora, entre a terra do cacau e o sertão de Conquista.

            Entre esses anos passaram pela intendência de Itabuna, José Kruschewsky, Laudelino Lorens, em substituição a Gileno Amado, Henrique Alves dos Reis e Benjamim de Andrade, que saiu com a revolução de 1930.

            Dois episódios dominaram a opinião pública no período agitado desses dez anos. O ataque ao Tiro de Guerra, repelido pelos atiradores comandados pelo Sargento “Massaroca”, um preto valente do Exército Nacional, e o cancelamento da agência do Banco do Brasil, recém-criada, com a devolução  do material já transportado e do seu gerente, que ali se encontrava para a instalação da respectiva agência, façanha de um político.

            A grita foi geral e infrutífera. O chefe político, deputado federal, possuía força e voltou o material da agência, cancelando a sua fixação. Tudo isso porque, naquela época, o representante do Banco do Brasil, no comércio local, tinha interesse de manter o dinheiro do Banco em sua mão, com o qual comprava cacau e especulava na região, tanto valia, naqueles anos, a força dos poderosos, possuidores dos meios econômicos e políticos, contra os direitos da coletividade.

            Até mesmo a influência de Francisco Fontes da Silva Lima, tradicional defensor dos interesses comerciais de Itabuna, de coisa alguma serviu. E olhe lá que Francisco Fontes, “seu Fontes” como ainda é conhecido, pesava na balança, era respeitado e considerado desde quando, em 1908 ele e outros companheiros haviam constituído uma sociedade para defender o comércio, contra os impostos de consumo do Estado e dos abusos de um coletor.

            Não se falava mais da influência de Firmino Alves. O velho chefe itabunenses estava como que aposentado. Ficara até pobre. Já cumprira a sua missão. Descobriu e povoou o município e o perdeu para outros donos, outros chefes.

            Assim é tudo na vida; provisoriamente de um proprietário, depois de outro, sucessivamente, correndo gerações. No particular, Tourinho tinha razão, quando criticava a ambição de alguns lavradores. Costumava perguntar a Oscar Marinho e a Zezinho Kruschewsky para que tanta luta, tanta usura? Amanhã morreriam e as fazendas iriam pertencer a outros, até a um estranho. E citava o exemplo de um sírio ladrão como só ele que ficara milionário, emprestava dinheiro a juros de judeu, acionava, executava, tomava as fazendas, comprava todas as joias que podia. Vivia com a mulher e filhos, somente para a família, dentro da fortaleza de seu egoísmo, da sua ambição desmedida. De uma hora para a outra morreu. E anos depois a viúva, ainda aproveitável, se casou com um moço mais jovem, simpático e risonho. E foi aquela desgraça. Jogou na roleta o dinheiro acumulado pelo sírio sovina e, depois, abandonou a mulher, pobre e doente, atrás de uma mulher vagabunda.

 (TERRAS DE ITABUNA Capítulo XXI)
Carlos Pereira Filho
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