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terça-feira, 18 de dezembro de 2018

A FLOR - Maria do Carmo Machado d’Oliveira


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A Flor

No meu jardim é assim:
Foi Deus quem a fez assim.
Singela, mas exibida,
dentre as demais, se destacou.

As outras nasceram rosa
ela nasceu bicolor...
Amanhã já vai-se embora,
vida breve tem a flor.

Nasce, encanta, alegra os olhos
da gente, brilha durante o dia,
a noite murcha, e no outro dia cai.
Vida breve tem a flor!
  
Maria do Carmo Machado d'Oliveira 
Professora e poetisa Itabunense, 
residente em São Gonçalo dos Campos – BA.


* * *

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

“COISAS DA MÃE DE JESUS” - Um relato divertido



São Pedro investiga por onde almas entram no Céu sem sua permissão
Fev 07, 2018

Um relato divertido e piedoso sobre o que Nossa Senhora anda aprontando na janela...

As redes sociais estão compartilhando o relato que reproduzimos abaixo. Certamente não é nenhum tratado de teologia, mas, imperfeições à parte, ele reflete o quanto Nossa Mãe se empenha em nos ajudar a chegar a Jesus – inclusive quando nos custa tanto perseverar na virtude.

Conta-se que São Pedro, certa vez, ficou preocupado ao notar no Céu a presença de várias almas que ele não se lembrava de ter deixado entrar pela porta. Ele então começou a investigar e, finalmente, encontrou o lugar por onde elas passavam.

Dirigiu-se diligentemente até o Senhor e lhe disse:

“Jesus, percebi que temos aqui várias almas que eu não me lembro de ter deixado entrar. Fiz algumas investigações e descobri por onde elas estão entrando. Gostaria que o Senhor mesmo visse”.

Jesus, com toda a Sua serenidade, acompanhou São Pedro e observou que, de fato, havia uma entrada por onde constantemente subiam almas e mais almas até o Céu.

Ainda um pouco alarmado, São Pedro sugeriu:

“Não deveríamos fechar essa entrada, Senhor?”.

E Jesus, sorridente e até encantado com a cena, respondeu:

“Não, não… Deixe assim. Isso é coisa da Mamãe!”

Maria tinha deixado um enorme rosário pendurado à janela e, por ele, a fila de almas ia subindo continuamente até o Céu.

Não é à toa que se diz que, quando os próprios pecadores se fecham as portas do Paraíso com as trancas do pecado, Maria lhes escancara a janela, para que sempre encontrem alguma nova oportunidade.




* * *

UMA TARDE REPETIDA – Ariston Caldas


            A tarde era de sol, algumas nuvens brancas; sentia-se cheiro de enfado.


            Sentou-se num jardim, lembrou-se do colégio de padres onde cursou o segundo grau e tinha uma área ampla com palmeiras, canteiros ajardinados; sentiu sua infância ao olhar uns meninos que passavam vigiados por empregadas domésticas; via moças de short e de tênis, com os cabelos soltos.

            Lembrou-se de Floripes, quase sua noiva, “se eu tivesse casado com ela!” Floripes casou-se com outro e teve um filho excepcional; “se fosse comigo teria ocorrido o mesmo?”

            Olhava para as flores pelos canteiros do jardim, sentia uma brisa esfriante tangida do mar; assustou-se com a buzina de um carro estacionado ao lado; “este filho da puta é doido!” O dono do carro nem o olhou e continuou buzinando.

            No tempo de quase noivo de Floripes era um sujeito alegre, vestia-se bem e não tinha arranhões com a vida, mas o tempo mudou as coisas, pondo-o frente a um mundo diferente, estranho; nem imaginara que tudo mudasse assim. Sentia-se amargo. Naquela tarde sol  voltava a sentir Floripes, quase sua noiva; “Por que aconteceu?” Lembrou Geraldina estendendo a roupa no quintal vizinho, mulata nova, bonita mas de pouco tino, parecendo doida. “Usei Geraldina como se fosse um bicho, na beira do rio, tudo escuro, entre muriçocas e rabanadas de peixes pela superfície.” Geraldina gemia, xingando a princípio, mas aquietou-se depois; saiu toda doída, enxugando-se  com a borda do vestido, desvirginada. “Floripes me deu o troco”.

            Do outro lado do jardim apareceram uns colegiais marchando, com bandeiras hasteadas, repicando tambores lembrou-se do tempo de colégio e da vida militar; não gostava de uma coisa nem da outra, mas as duas se misturavam, os tambores o ensurdeciam, a marcha deixava-lhe uma sensação de cansaço. Fez o curso primário numa escola pública e nas festas cívicas desfilava pelas ruas, de calça curta, tênis brancos apertando os pés, sol pelando, bandeira em punho; quando o desfile passava, os moradores saíam para os passeios, outros se acotovelavam pelas janelas, batiam palmas, davam vivas; depois havia a concentração no meio da praça onde ficavam a prefeitura e a igreja; os discursadores entravam pela noite falando coisas repetidas, exortando os heróis responsáveis pela grandeza da pátria; os tênis apertando os pés, sentia fome, a goela apertando, as pernas fracas. Quando terminava a concentração, ele estava aporrinhado, enrolava a bandeira embaixo do braço e saía desejando que nunca mais houvesse desfile. Naquele tempo Floripes nem existia, ele nem imaginava que ela nascesse e fosse quase sua noiva, casasse com outro para ter um filho excepcional.

            Os estudantes sumiram por uma esquina e o som dos tambores perdeu-se entre os edifícios que não tinham nenhuma pessoa pelas janelas nem pelos passeios. Agora, sentia-se enfastiado, como quem não vai bem de saúde ou de espírito; respirou fundo, levantou-se e esticou os braços, espreguiçou-se. Sempre fui forte!” Mas não reagiu coisa nenhuma.

            Depois do almoço sentiu-se assim e saiu para o jardim; nunca imaginara que Floripes fosse casar com outro, tivesse um filho excepcional; lembrava-se de Geraldina gemendo embaixo, de olhos fechados na beira do rio, enxugando-se depois.

            Agora a noite aproximava-se, voltaria para o pensionato onde dormia, num quarto escuro e estreito, pouca ventilação; dona Eulália sacudindo os móveis velhos, com espanador de penas, cheiro de comida chegando da cozinha; o quarto sempre desarrumado, cheio de sujo, roupas penduradas pela cabeceira da cama, telhado cheio de pucumã. “Seu porco”, dizia dona Eulália; as lagartixas cruzando pelas paredes encardidas.

            Só deitava-se depois da meia-noite, lembrava-se de Floripes, cabelo ondulado. “Devia ser com você”, disse ela na véspera. Ele nem acreditou; baixou a cabeça, calado, e saiu indignado para um jardim parecido com o que se encontrava agora.

            Pensou ainda por alguns instantes, a cabeça pegando fogo. “Um ridículo!” “quanto tempo, parece que foi ontem”, pensou, levantando-se; lembrou-se do sanatório, “um inferno”.

            Passou u’a mão pela testa, repetiu olhares para um lado, para outro e saiu de cabeça baixa, rua a fora, à busca de coisa nenhuma.


(LINHAS INTERCALADAS – 2ª Edição 2004)
Ariston Caldas
..........
Ariston Caldas nasceu em Inhambupe, norte da Bahia,  em 15 de dezembro de 1923. Ainda menino, veio para o Sul do estado, primeiro Uruçuca, depois Itabuna. Em 1970 se mudou para Salvador onde residiu por 12 anos. Jornalista de profissão, Ariston trabalhou nos jornais A Tarde, Tribuna da Bahia e Jornal da Bahia e fundou o periódico ‘Terra Nossa’, da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado da Bahia; em Itabuna foi redator da Folha do Cacau, Tribuna do Cacau, Diário de Itabuna, dentre outros. Foi também diretor da Rádio Jornal.

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domingo, 16 de dezembro de 2018

HAPPY CHRISTMAS – John Lennon


Happy Christmas 
  
Então já é Natal 
E o que você tem feito 
Um outro ano se encerra 
E um novo ano está chegando 

Pois é... Já é Natal 
Eu espero que você se divirta 
Com seus entes mais queridos 
Que se divirta o jovem e o velho 

Um feliz Natal 
E Feliz Ano Novo 
Esperamos que seja

bom de verdade 
Sem nenhum temor 

Pois é... Já é Natal 
Para o fraco e para o forte 
Para ricos e pobres 

Nosso mundo
está tão errado 
Mesmo assim

 tenha um Feliz Natal 
Para negros e para brancos 
Para amarelos e vermelhos 

Vamos parar
com toda guerra 
Um Feliz Natal 
E Feliz Ano Novo 
Vamos esperar

que seja bom de verdade 
Sem nenhum temor 
Pois é... Já é Natal 

E o que nós temos feito 
Um outro ano se encerra 
E um novo ano está chegando 
Desejamos que você

se divirta muito 
Com seus entes

mais queridos 
Que se divirta

o jovem e o velho 
Um Feliz Natal 
E Feliz Ano Novo 
Vamos esperar

que seja bom de verdade 
Sem nenhuma lágrima 

A guerra acabou 
Se você quiser 
A guerra acaba 
Agora.


John Lennon 
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 É!!! Mais um ano se finda
e já chega o Natal.
   Muitas festas, comemorações
 e alegrias nestes dias.
Importante:
Não se esqueça
do aniversariante...


"Gotas de Crystal" ppscrystal@yahoo.com..br


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PALAVRA DA SALVAÇÃO (109)

3º Domingo do Advento – 16/12/2018

Anúncio do Evangelho (Lc 3,10-18)

— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Lucas.
— Glória a vós, Senhor.

Naquele tempo, as multidões perguntavam a João: “Que devemos fazer?” João respondia: “Quem tiver duas túnicas, dê uma a quem não tem; e quem tiver comida, faça o mesmo!” Foram também para o batismo cobradores de impostos, e perguntaram a João: “Mestre, que devemos fazer?” João respondeu: “Não cobreis mais do que foi estabelecido”. Havia também soldados que perguntavam: “E nós, que devemos fazer?” João respondia: “Não tomeis à força dinheiro de ninguém, nem façais falsas acusações; ficai satisfeitos com o vosso salário!”
O povo estava na expectativa e todos se perguntavam no seu íntimo se João não seria o Messias. Por isso, João declarou a todos: “Eu vos batizo com água, mas virá aquele que é mais forte do que eu. Eu não sou digno de desamarrar a correia de suas sandálias. Ele vos batizará no Espírito Santo e no fogo. Ele virá com a pá na mão: vai limpar sua eira e recolher o trigo no celeiro; mas a palha ele a queimará no fogo que não se apaga”.
E ainda de muitos outros modos, João anunciava ao povo a Boa-Nova.

— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor.

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Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do  Padre Roger Araújo:

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Advento: travessia... para a solidariedade

“Quem tiver duas túnicas, dê uma a quem não tem” (Lc 3,11) 

Em meio às sombras, perplexidades, contradições, provocações e intolerâncias, que constituem o atual momento histórico, queremos, neste Advento, dar vez a um brado de esperança e expressar a fé no futuro da nossa vida. A esperança tem raízes na eternidade, mas ela se alimenta de pequenas coisas; nos despojados gestos ela floresce e aponta para um sentido novo. É preciso um coração contemplativo para captar o “mistério” que nos envolve.

A esperança, como força transformadora da realidade, inclui uma clara tomada de decisões de dirigir as energias vitais para ir ao encontro daquilo que é imprescindível para a vida. Por isso, em um mundo de muita injustiça social, onde milhões de pessoas vivem em condições de pobreza extrema e submergidos em círculos de violência, a esperança se apresenta a nós como uma força capaz de despertar nossa consciência adormecida e assumir nossa responsabilidade. A esperança é sempre inquieta e mobilizadora, é impulso que nos faz desejar e buscar uma mudança decisiva que favoreça instaurar um mundo mais humanizador, abrindo-nos a um “mais além” que já está próximo. Mesmo diante dos profundos dilemas internos e sociais, achamos possível ser e viver de outro modo, inventamos e reinventamos opções, criamos novas saídas... e, sem cessar, sonhamos com o “mais” e o “melhor”. Afinal, somos seres de “travessia”... 

Essa “travessia” não é apenas geográfica; trata-se de uma experiência que requer a atitude de “saída de si” para ir ao outro como diferente; e isso implica “passar” para o seu lugar, aprender a ver o mundo a partir de sua perspectiva, deixar-nos questionar e desinstalar-nos por ele, tão despojado da condição de pessoa.  Ir ao encontro do outro só é possível a partir do cultivo da sensibilidade, entendida como o movimento afetivo necessário para olhar e sentir a verdade na realidade de quem sofre. Não se trata de “dar coisas”, mas deixar-nos “afetar cordialmente” pela dor do outro. 

Neste 3º. domingo do Advento, o apelo à mudança, na voz de João Batista, se torna mais concreto. “Quê devemos fazer”? Tal pergunta é uma prova da sinceridade daqueles que se aproximavam de João. Com três pinceladas o Batista enfatiza a necessidade de mudar a maneira de pensar e de agir: é preciso abrir-se à alteridade até chegar a partilhar com outros, é preciso sair do estreito círculo do “meu” para que a escravidão do possuir abra passagem à liberdade de preferir o bem maior da relação; ativar a alegria de saber que uma túnica sobrante abriga agora o corpo de um irmão; a economia deve estar a serviço da vida e de todas as pessoas; reacender o impulso a ser “pacifistas ativos”, defendendo e protegendo os pobres e indefesos.

Encontramo-nos aqui diante da razão ética originária que não se baseia tanto numa compreensão da realidade, mas na compaixão com a pessoa do “outro”, excluído, pobre, dominado, marginalizado... Lucas apresenta a mensagem de João Batista a partir de uma perspectiva ética, que pode e deve aplicar-se a todos os povos. Deixa de lado os aspectos exclusivamente religiosos (confessionais) de sua mensagem e o condensa em um programa ético de deveres sociais, que se aplicam primeiramente a todos os homens e mulheres e logo a dois grupos especiais: os publicanos e os soldados. 

Esta é uma mensagem muito simples. Não precisa reuniões episcopais, nem conselhos de países, nem comissões internacionais. É uma mensagem imediata e próxima, de comunhão humana, pacífica, generosa. É uma mensagem que crê no ser humano. Não se trata de “matar” os publicanos e os soldados, mas de descobrir que também eles são humanos, iniciando a grande revolução da igualdade e partilha de bens.

Esta é a moral natural de João Batista. Este é para Lucas o ponto de partida para chegar ao evangelho. Jesus vai além (é gratuidade). Mas, para chegar a Jesus é preciso passar por João Batista. A resposta de João Batista não é teoria vazia. É através de gestos e ações concretas de justiça, respeito, solidariedade, partilha e coerência cristã que se vai construindo um tecido social mais digno de filhos(as) de Deus, realizando as transformações radicais e profundas que as pessoas e a sociedade tanto necessitam. Frente a diferentes públicos, João não faz alusão nenhuma à religião; o que ele pede a todos é melhorar a convivência humana. O envolvimento com o “outro” nos conduz à autenticidade, à libertação de apegos e avareza, à liberdade para partilhar e receber e a uma imensa felicidade. 

A “sensibilidade solidária” suscita em nós um desejo novo que articula um novo horizonte de sentido às nossas vidas e gera um horizonte de utopia e de esperança por um mundo justo e fraterno. A solidariedade é a não-violência em ação; é a fonte de todas as qualidades espirituais: a capacidade de perdão, a acolhida compassiva, a tolerância e todas as demais virtudes. Além disso, é a que de fato dá sentido às nossas atividades cotidianas e as torna construtivas. 

A solidariedade permeia e ressignifica, assim, toda a nossa existência. Não é um evento, um ato isolado. Ela torna oblativa a vida em suas diferentes expressões, fermenta o cotidiano de nossas existências, infunde sentido e razão de ser àquilo que somos e fazemos.

Nas experiências de “convivência” com os pobres adquirimos os valores evangélicos da capacidade de celebrar, da simplicidade, da hospitalidade... Eles tem um jeito de nos trazer de volta para o essencial da vida. Eles são uma fonte de esperança, uma fonte de autenticidade. Eles se tornam nossos amigos.

Importa, portanto, “re-inventar” com urgência a solidariedade como valor ético e como atitude permanente de vida; não uma solidariedade ocasional, mas uma solidariedade cotidiana que se encarna nos pequenos gestos de inclusão do dia-a-dia. Na criação da “nova comunidade” dos(as) seguidores(as) de Jesus, a partilha substitui a acumulação e a abertura aos outros se apresenta como alternativa às relações interpessoais de opressão e exclusão; aqui está configurada uma das propostas mestras na proclamação do Reino de Deus.

Com nossos gestos solidários nos mobilizamos e nos aproximamos do Senhor que chega. Neste dia Deus discernirá entre o trigo e a palha que existem em nossa conduta. Vivemos a cultura da “palha”, que nos força permanecer na superficialidade, na aparência, na exterioridade da vida, impedindo-nos perceber o trigo presente em nossa interioridade. 

Vivemos, muitas vezes, imersos em meio a tanta palha que nos afoga e nos incapacita viver a cultura do encontro solidário. De fato, a cultura da superficialidade, da aparência, da vaidade... são as marcas de nossa sociedade atual; marcas que nos desfiguram e nos desumanizam. Só quem sai de si em direção ao outro, através de gestos solidários, é capaz de peneirar a palha para deixar emergir o trigo de vida que carrega dentro. 

Somente a “sensibilidade solidária” será capaz de fazer a pessoa retornar à sua casa, ao centro, ao seu eu profundo; só ela ativará os recursos consistentes, os pontos de luz, o trigo que carrega dentro. O ego não ama ninguém além de si mesmo, atendendo apenas às suas próprias necessidades e à sua própria gratificação. Sofrendo de uma falta total de compaixão ou empatia, ele pode ser extraordinariamente cruel para com os outros. Ele não se dá conta de que vive fechado em si mesmo, prisioneiro de uma lógica que o desumaniza, esvaziando-se de todo dignidade. Aumenta seus celeiros, mas não sabe ampliar o horizonte de sua vida. Aumenta sua riqueza, mas diminui e empobrece sua vida. Acumula bens, mas não conhece a amizade, o amor generoso, a alegria e a solidariedade. Não sabe compartilhar, só monopolizar.

Finalmente, acaba-se por criar uma dura cortiça que defende e isola a pessoa do entorno e que a aliena numa insensibilidade para com tudo aquilo que não seja sua própria realidade. É uma espécie de "embriaguez" na qual a alteridade desaparece.

A verdadeira riqueza é investir numa única fortuna: a do amor, do favorecimento da vida, a do descentramento de si, o do encontro solidário em favor dos mais pobres e desfavorecidos. 

Texto bíblico:  Lc 3,10-18

Na Oração: Segundo o Batista, a conversão exige “saber peneirar” (saber selecionar ou eleger), “recolher o trigo” (ir ao essencial e não ficar na superfície) e “queimar a palha” (eliminar o que não serve ou o que imobiliza); acolher a Boa Nova da vinda do Senhor requer essa conversão.

- Se sua vida “passar pela peneira”, o quanto de trigo permanecerá? O quanto de palha deve ser lançado fora?

Pe. Adroaldo Palaoro sj

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sábado, 15 de dezembro de 2018

LINHA DIRETA - Merval Pereira


Uma afirmação do presidente eleito Jair Bolsonaro no discurso na cerimonia de diplomação chama a atenção pelo que revela da estratégia que o novo governo pretende usar na negociação com o Congresso. “O poder popular não precisa mais de intermediação. As novas tecnologias permitiram uma relação direta entre o eleitor e seus representantes”.

Por trás das palavras a favor da soberania popular e da disposição de ser o presidente de todos, Bolsonaro manda um recado claro de que pretende usar as redes sociais para governar, assim como fez sua campanha eleitoral com baixo custo e ligação direta com os eleitores.

A cerimônia de diplomação, alias, foi cheia de recados indiretos. Como quando a presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministra Rosa Weber, discorreu sobre a necessidade de proteção às minorias, que o candidato Bolsonaro disse que deveriam se submeter às maiorias.

O presidente eleito Bolsonaro, pelo contrário, deixou explícito que governará para todos, mas insinuou que continuará a ter uma relação direta com os cidadãos, o que pode levar à tentativa de adotar a democracia direta, com referendos e plebiscitos, se as negociações com o Congresso não forem no caminho que considera o melhor.

O sociólogo Manuel Castells, considerado um dos maiores especialistas nos efeitos das novas mídias na sociedade, avalia, em seu mais recente livro “Ruptura”, que existe uma crise profunda da relação entre governantes e governados, demonstrada pelo descontentamento generalizado com as instituições políticas.

A falta de representatividade dos partidos políticos, e não apenas no Brasil, anunciaria o colapso gradual da democracia liberal, que seria substituída pelo que chama de "democracia real", a que surge a partir dos movimentos nascidos nas redes sociais.

Muito tempo antes das consequências desse desprestigio das classes politicas desaguarem na eleição de Trump nos Estados Unidos, no movimento pelo Brexit na Inglaterra e na eleição de Bolsonaro no Brasil, Manuel Castells já previa em entrevistas e em livros que a descrença na democracia representativa poderia levar a que os cidadãos mandassem todos os políticos embora, mas ele acreditava que o sistema bloqueava as saídas.

Em parte tinha razão, pois, pelo menos no Brasil, alguns representantes da chamada “velha política” sobreviveram às eleições, como o senador Renan Calheiros, que insiste em ser novamente presidente do Senado. Se for derrotado nessa pretensão pelos novos senadores eleitos, e pela nova configuração política que chegou ao Congresso junto com a vitória de Bolsonaro, confirmará que os efeitos dessa ruptura são mais amplos.

Sua admiração pelos novos meios de comunicação, no entanto, não faz dele um defensor radical da sua eficácia autônoma. Em livros anteriores ele advertiu que “não basta um manifesto no Facebook para mobilizar milhares de pessoas”. A mobilização dependeria do nível de descontentamento popular e da capacidade de mobilização de imagens e palavras.

 “A internet é uma condição necessária, mas não suficiente para que existam movimentos sociais”. Mas a frase do presidente eleito sobre os cidadãos não precisarem mais de intermediação, referindo-se claramente aos partidos políticos, mas também aos meios tradicionais de comunicação, se baseia em Castells, que considera que agora o cidadão tem “os meios tecnológicos para existir independentemente das instituições políticas e do sistema de comunicação de massa”.

Essa ação através das mídias sociais tenta preencher o que Castells define de “vazio de representação”, criado pela banalização da atividade político-partidária, que caiu no descrédito da nova geração de usuários da internet. Manoel Castells sempre achou que um político ligado aos partidos convencionais dificilmente conseguiria superar essa rejeição, e a vitória de Bolsonaro parece confirmar essa teoria, embora o radar de Castells estivesse enviezado à esquerda, fazendo com que, a certa altura do processo, identificasse a presidente da Rede, Marina Silva, como quem teria condições para isso.
O Globo, 12/12/2018

Merval Pereira - Oitavo ocupante da cadeira nº 31da ABL, eleito em 2 de junho de 2011, na sucessão de Moacyr Scliar, falecido em 27 de fevereiro de 2011, foi recebido em 23 de setembro de 2011, pelo Acadêmico Eduardo Portella.

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A PRIMEIRA MULHER E A PONTE


A Mãe Lua chamou a Primeira Mulher para vir a uma assembleia sobre a nova ponte. Os primeiros animais queriam alcançar a grama verde e a floresta do outro lado do rio, mas o rio era muito largo e profundo para que os animais menores atravessassem.

A Donzela Primavera,  a Mãe Verão, a Feiticeira Outono e a Anciã Inverno tinham concordado em ajudar a criar uma ponte para eles. Elas se sentaram ao sol do lado de fora da caverna da Anciã Inverno para discutirem o que elas precisariam fazer.

Eu preciso fazer uma lista de todos os materiais de que nós precisaremos, disse a Donzela, entusiasmada com o projeto. Nós precisaremos desenhar uma estrutura para a ponte, planejar um cronograma para construí-la e resolver tudo o que precisamos. Quanto mais detalhado, melhor! 

Eu acho que deveríamos falar com os animais primeiro, sorriu a Mãe, para ver de que eles precisam e ajudá-los a se envolverem – de maneira que eles sintam que a ponte pertence a eles.

Eu acho que deveríamos desenhar a ponte enquanto a construímos. Vamos sentir o fluxo, sentir por onde ela deveria ir e estarmos abertas a quaisquer ideias que forem surgindo, disse a Feiticeira, inclinando-se para a frente e com brilho em seus olhos. 

Eu acho que deveríamos lembrar que esta ponte não é apenas para esta geração de animais, mas para seus filhotes também. Precisa ser uma boa ponte para todo mundo, disse a Anciã, fechando seus olhos e se recostando na parede da caverna.

Mas nós não podemos ser espontâneas, disse a Donzela. Nós temos que saber o que nós estamos fazendo e como vamos fazê-lo. Nós precisamos conseguir os materiais. É irresponsável ir fazendo qualquer coisa que sentirmos!

Irresponsável!  Gritou a Feiticeira, levantando-se. Eu não sou irresponsável. Você é rígida. Não tem nenhuma criatividade. Você construirá uma ponte, mas ela não terá uma alma!

Sob as árvores, a Primeira Mulher olhou para a Mãe Lua e sussurrou: O que deveríamos fazer? 

A Mãe Lua caminhou afastando-se das árvores em direção à reunião. Ela olhou para a Feiticeira, que se sentou sentindo-se um pouco constrangida.

Paz! disse a Mãe Lua suavemente.

Donzela e Feiticeira, vocês são irmãs. Vocês têm a mesma energia – dinâmica segura e criativa. Ambas precisam mudar coisas e fazer as coisas acontecerem. A única diferença é a sua perspectiva. Vocês têm mais em comum do que pensam. Vocês são reflexo uma da outra.

E vocês duas precisam uma da outra.

A Mãe Lua virou-se para a Feiticeira.

Feiticeira, ame gentilmente a necessidade da Donzela por estrutura – porque, sem estrutura, suas energias estarão dispersas e a ponte poderá nunca ser terminada ou ser forte nos lugares certos.

Ela se virou para a Donzela.

Donzela, aprecie a criatividade inspiradora da Feiticeira com amor. Mantenha sua estrutura para a essência vital da ponte e então dê a ela Liberdade e Espaço para criar com sua intuição e mágica.

Eu tenho uma ideia, disse a Feiticeira cautelosamente.

Ela olhou para a Donzela.

Talvez nós pudéssemos colocar plantas nas laterais da ponte. Isso tornará a ponte parte do cenário e também daria aos animaizinhos um esconderijo e um lugar para descansar. A ponte será um longo caminho para eles caminharem e rastejarem.

Oh, que ótima ideia! exclamou a Donzela. Eu nunca teria pensado nisso.

E logo elas estavam discutindo um monte de ideias com grande entusiasmo. 
Enquanto a Mãe Lua e a Primeira Mulher se afastavam, a Mãe Lua disse par a Primeira Mulher:  o que você aprendeu?

A Primeira Mulher fez uma pausa e disse:  ambas querem produzir alguma coisa, mas elas têm modos diferentes de fazê-lo. Porém, quando elas se juntam com amor – então elas formam uma ponte!

(Recebi via WhatsApp. Autor não mencionado)

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