Um relato divertido e piedoso sobre o que Nossa Senhora anda
aprontando na janela...
As redes sociais estão compartilhando o relato que
reproduzimos abaixo. Certamente não é nenhum tratado de teologia, mas,
imperfeições à parte, ele reflete o quanto Nossa Mãe se empenha em nos ajudar a
chegar a Jesus – inclusive quando nos custa tanto perseverar na virtude.
Conta-se que São Pedro, certa vez, ficou preocupado ao notar
no Céu a presença de várias almas que ele não se lembrava de ter deixado entrar
pela porta. Ele então começou a investigar e, finalmente, encontrou o lugar por
onde elas passavam.
Dirigiu-se diligentemente até o Senhor e lhe disse:
“Jesus, percebi que temos aqui várias almas que eu não me
lembro de ter deixado entrar. Fiz algumas investigações e descobri por onde elas
estão entrando. Gostaria que o Senhor mesmo visse”.
Jesus, com toda a Sua serenidade, acompanhou São Pedro e
observou que, de fato, havia uma entrada por onde constantemente subiam almas e
mais almas até o Céu.
Ainda um pouco alarmado, São Pedro sugeriu:
“Não deveríamos fechar essa entrada, Senhor?”.
E Jesus, sorridente e até encantado com a cena, respondeu:
“Não, não… Deixe assim. Isso é coisa da Mamãe!”
Maria tinha deixado um enorme rosário pendurado à janela e,
por ele, a fila de almas ia subindo continuamente até o Céu.
Não é à toa que se diz que, quando os próprios pecadores se
fecham as portas do Paraíso com as trancas do pecado, Maria lhes escancara a
janela, para que sempre encontrem alguma nova oportunidade.
A tarde
era de sol, algumas nuvens brancas; sentia-se cheiro de enfado.
Sentou-se
num jardim, lembrou-se do colégio de padres onde cursou o segundo grau e tinha
uma área ampla com palmeiras, canteiros ajardinados; sentiu sua infância ao
olhar uns meninos que passavam vigiados por empregadas domésticas; via moças de
short e de tênis, com os cabelos soltos.
Lembrou-se de Floripes, quase sua
noiva, “se eu tivesse casado com ela!” Floripes casou-se com outro e teve um
filho excepcional; “se fosse comigo teria ocorrido o mesmo?”
Olhava
para as flores pelos canteiros do jardim, sentia uma brisa esfriante tangida do
mar; assustou-se com a buzina de um carro estacionado ao lado; “este filho da
puta é doido!” O dono do carro nem o olhou e continuou buzinando.
No tempo
de quase noivo de Floripes era um sujeito alegre, vestia-se bem e não tinha
arranhões com a vida, mas o tempo mudou as coisas, pondo-o frente a um mundo
diferente, estranho; nem imaginara que tudo mudasse assim. Sentia-se amargo.
Naquela tarde sol voltava a sentir
Floripes, quase sua noiva; “Por que aconteceu?” Lembrou Geraldina estendendo a
roupa no quintal vizinho, mulata nova, bonita mas de pouco tino, parecendo
doida. “Usei Geraldina como se fosse um bicho, na beira do rio, tudo escuro,
entre muriçocas e rabanadas de peixes pela superfície.” Geraldina gemia,
xingando a princípio, mas aquietou-se depois; saiu toda doída,
enxugando-se com a borda do vestido,
desvirginada. “Floripes me deu o troco”.
Do outro
lado do jardim apareceram uns colegiais marchando, com bandeiras hasteadas,
repicando tambores lembrou-se do tempo de colégio e da vida militar; não gostava
de uma coisa nem da outra, mas as duas se misturavam, os tambores o
ensurdeciam, a marcha deixava-lhe uma sensação de cansaço. Fez o curso primário
numa escola pública e nas festas cívicas desfilava pelas ruas, de calça curta,
tênis brancos apertando os pés, sol pelando, bandeira em punho; quando o
desfile passava, os moradores saíam para os passeios, outros se acotovelavam
pelas janelas, batiam palmas, davam vivas; depois havia a concentração no meio
da praça onde ficavam a prefeitura e a igreja; os discursadores entravam pela
noite falando coisas repetidas, exortando os heróis responsáveis pela grandeza
da pátria; os tênis apertando os pés, sentia fome, a goela apertando, as pernas
fracas. Quando terminava a concentração, ele estava aporrinhado, enrolava a
bandeira embaixo do braço e saía desejando que nunca mais houvesse desfile. Naquele
tempo Floripes nem existia, ele nem imaginava que ela nascesse e fosse quase sua
noiva, casasse com outro para ter um filho excepcional.
Os estudantes
sumiram por uma esquina e o som dos tambores perdeu-se entre os edifícios que
não tinham nenhuma pessoa pelas janelas nem pelos passeios. Agora, sentia-se
enfastiado, como quem não vai bem de saúde ou de espírito; respirou fundo,
levantou-se e esticou os braços, espreguiçou-se. Sempre fui forte!” Mas não
reagiu coisa nenhuma.
Depois do
almoço sentiu-se assim e saiu para o jardim; nunca imaginara que Floripes fosse
casar com outro, tivesse um filho excepcional; lembrava-se de Geraldina gemendo
embaixo, de olhos fechados na beira do rio, enxugando-se depois.
Agora a
noite aproximava-se, voltaria para o pensionato onde dormia, num quarto escuro
e estreito, pouca ventilação; dona Eulália sacudindo os móveis velhos, com
espanador de penas, cheiro de comida chegando da cozinha; o quarto sempre
desarrumado, cheio de sujo, roupas penduradas pela cabeceira da cama, telhado
cheio de pucumã. “Seu porco”, dizia dona Eulália; as lagartixas cruzando pelas
paredes encardidas.
Só deitava-se
depois da meia-noite, lembrava-se de Floripes, cabelo ondulado. “Devia ser com
você”, disse ela na véspera. Ele nem acreditou; baixou a cabeça, calado, e saiu
indignado para um jardim parecido com o que se encontrava agora.
Pensou ainda
por alguns instantes, a cabeça pegando fogo. “Um ridículo!” “quanto tempo,
parece que foi ontem”, pensou, levantando-se; lembrou-se do sanatório, “um
inferno”.
Passou u’a
mão pela testa, repetiu olhares para um lado, para outro e saiu de cabeça
baixa, rua a fora, à busca de coisa nenhuma.
(LINHAS INTERCALADAS – 2ª Edição 2004)
Ariston Caldas
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Ariston Caldas nasceu em Inhambupe, norte da
Bahia, em 15 de dezembro de 1923. Ainda menino, veio para o Sul do
estado, primeiro Uruçuca, depois Itabuna. Em 1970 se mudou para Salvador onde
residiu por 12 anos. Jornalista de profissão, Ariston trabalhou nos
jornais A Tarde, Tribuna da Bahia e Jornal da Bahia e fundou o
periódico ‘Terra Nossa’, da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do
Estado da Bahia; em Itabuna foi redator da Folha do Cacau, Tribuna do
Cacau, Diário de Itabuna, dentre outros. Foi também diretor da Rádio
Jornal.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo
Lucas.
— Glória a vós, Senhor.
Naquele tempo, as multidões perguntavam a João: “Que
devemos fazer?” João respondia: “Quem tiver duas túnicas, dê uma a quem
não tem; e quem tiver comida, faça o mesmo!” Foram também para o batismo
cobradores de impostos, e perguntaram a João: “Mestre, que devemos
fazer?” João respondeu: “Não cobreis mais do que foi
estabelecido”. Havia também soldados que perguntavam: “E nós, que devemos
fazer?” João respondia: “Não tomeis à força dinheiro de ninguém, nem façais
falsas acusações; ficai satisfeitos com o vosso salário!”
O povo estava na expectativa e todos se perguntavam no seu
íntimo se João não seria o Messias. Por isso, João declarou a todos: “Eu
vos batizo com água, mas virá aquele que é mais forte do que eu. Eu não sou
digno de desamarrar a correia de suas sandálias. Ele vos batizará no Espírito
Santo e no fogo. Ele virá com a pá na mão: vai limpar sua eira e recolher
o trigo no celeiro; mas a palha ele a queimará no fogo que não se apaga”.
E ainda de muitos outros modos, João anunciava ao povo a
Boa-Nova.
Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Padre Roger Araújo:
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Advento: travessia... para a
solidariedade
“Quem tiver duas túnicas, dê uma a quem não tem” (Lc
3,11)
Em meio às sombras, perplexidades, contradições, provocações
e intolerâncias, que constituem o atual momento histórico, queremos, neste
Advento, dar vez a um brado de esperança e expressar a fé no futuro da nossa
vida. A esperança tem raízes na eternidade, mas ela se alimenta de pequenas
coisas; nos despojados gestos ela floresce e aponta para um sentido novo. É
preciso um coração contemplativo para captar o “mistério” que nos envolve.
A esperança, como força transformadora da realidade, inclui
uma clara tomada de decisões de dirigir as energias vitais para ir ao encontro
daquilo que é imprescindível para a vida. Por isso, em um mundo de muita
injustiça social, onde milhões de pessoas vivem em condições de pobreza extrema
e submergidos em círculos de violência, a esperança se apresenta a nós como uma
força capaz de despertar nossa consciência adormecida e assumir nossa
responsabilidade. A esperança é sempre inquieta e mobilizadora, é impulso que
nos faz desejar e buscar uma mudança decisiva que favoreça instaurar um mundo
mais humanizador, abrindo-nos a um “mais além” que já está próximo. Mesmo
diante dos profundos dilemas internos e sociais, achamos possível ser e viver
de outro modo, inventamos e reinventamos opções, criamos novas saídas... e, sem
cessar, sonhamos com o “mais” e o “melhor”. Afinal, somos seres de
“travessia”...
Essa “travessia” não é apenas geográfica; trata-se de uma
experiência que requer a atitude de “saída de si” para ir ao outro como
diferente; e isso implica “passar” para o seu lugar, aprender a ver o mundo a
partir de sua perspectiva, deixar-nos questionar e desinstalar-nos por ele, tão
despojado da condição de pessoa. Ir ao encontro do outro só é possível a
partir do cultivo da sensibilidade, entendida como o movimento afetivo
necessário para olhar e sentir a verdade na realidade de quem sofre. Não se
trata de “dar coisas”, mas deixar-nos “afetar cordialmente” pela dor do
outro.
Neste 3º. domingo do Advento, o apelo à mudança, na voz de
João Batista, se torna mais concreto. “Quê devemos fazer”? Tal pergunta é uma
prova da sinceridade daqueles que se aproximavam de João. Com três pinceladas o
Batista enfatiza a necessidade de mudar a maneira de pensar e de agir: é
preciso abrir-se à alteridade até chegar a partilhar com outros, é preciso sair
do estreito círculo do “meu” para que a escravidão do possuir abra passagem à
liberdade de preferir o bem maior da relação; ativar a alegria de saber que uma
túnica sobrante abriga agora o corpo de um irmão; a economia deve estar a
serviço da vida e de todas as pessoas; reacender o impulso a ser “pacifistas
ativos”, defendendo e protegendo os pobres e indefesos.
Encontramo-nos aqui diante da razão ética originária que não
se baseia tanto numa compreensão da realidade, mas na compaixão com a pessoa do
“outro”, excluído, pobre, dominado, marginalizado... Lucas apresenta a mensagem
de João Batista a partir de uma perspectiva ética, que pode e deve aplicar-se a
todos os povos. Deixa de lado os aspectos exclusivamente religiosos
(confessionais) de sua mensagem e o condensa em um programa ético de deveres
sociais, que se aplicam primeiramente a todos os homens e mulheres e logo a
dois grupos especiais: os publicanos e os soldados.
Esta é uma mensagem muito simples. Não precisa reuniões
episcopais, nem conselhos de países, nem comissões internacionais. É uma
mensagem imediata e próxima, de comunhão humana, pacífica, generosa. É uma
mensagem que crê no ser humano. Não se trata de “matar” os publicanos e os
soldados, mas de descobrir que também eles são humanos, iniciando a grande
revolução da igualdade e partilha de bens.
Esta é a moral natural de João Batista. Este é para Lucas o
ponto de partida para chegar ao evangelho. Jesus vai além (é gratuidade). Mas,
para chegar a Jesus é preciso passar por João Batista. A resposta de João
Batista não é teoria vazia. É através de gestos e ações concretas de justiça,
respeito, solidariedade, partilha e coerência cristã que se vai construindo um
tecido social mais digno de filhos(as) de Deus, realizando as transformações
radicais e profundas que as pessoas e a sociedade tanto necessitam. Frente a
diferentes públicos, João não faz alusão nenhuma à religião; o que ele pede a
todos é melhorar a convivência humana. O envolvimento com o “outro” nos conduz
à autenticidade, à libertação de apegos e avareza, à liberdade para partilhar e
receber e a uma imensa felicidade.
A “sensibilidade solidária” suscita em nós um desejo novo
que articula um novo horizonte de sentido às nossas vidas e gera um horizonte
de utopia e de esperança por um mundo justo e fraterno. A solidariedade é a
não-violência em ação; é a fonte de todas as qualidades espirituais: a
capacidade de perdão, a acolhida compassiva, a tolerância e todas as demais
virtudes. Além disso, é a que de fato dá sentido às nossas atividades
cotidianas e as torna construtivas.
A solidariedade permeia e ressignifica, assim, toda a nossa
existência. Não é um evento, um ato isolado. Ela torna oblativa a vida em suas
diferentes expressões, fermenta o cotidiano de nossas existências, infunde
sentido e razão de ser àquilo que somos e fazemos.
Nas experiências de “convivência” com os pobres adquirimos
os valores evangélicos da capacidade de celebrar, da simplicidade, da
hospitalidade... Eles tem um jeito de nos trazer de volta para o essencial da
vida. Eles são uma fonte de esperança, uma fonte de autenticidade. Eles se
tornam nossos amigos.
Importa, portanto, “re-inventar” com urgência a
solidariedade como valor ético e como atitude permanente de vida; não uma
solidariedade ocasional, mas uma solidariedade cotidiana que se encarna nos
pequenos gestos de inclusão do dia-a-dia. Na criação da “nova comunidade”
dos(as) seguidores(as) de Jesus, a partilha substitui a acumulação e a abertura
aos outros se apresenta como alternativa às relações interpessoais de opressão
e exclusão; aqui está configurada uma das propostas mestras na proclamação do
Reino de Deus.
Com nossos gestos solidários nos mobilizamos e nos
aproximamos do Senhor que chega. Neste dia Deus discernirá entre o trigo e a
palha que existem em nossa conduta. Vivemos a cultura da “palha”, que nos força
permanecer na superficialidade, na aparência, na exterioridade da vida,
impedindo-nos perceber o trigo presente em nossa interioridade.
Vivemos, muitas vezes, imersos em meio a tanta palha que nos
afoga e nos incapacita viver a cultura do encontro solidário. De fato, a cultura
da superficialidade, da aparência, da vaidade... são as marcas de nossa
sociedade atual; marcas que nos desfiguram e nos desumanizam. Só quem sai de si
em direção ao outro, através de gestos solidários, é capaz de peneirar a palha
para deixar emergir o trigo de vida que carrega dentro.
Somente a “sensibilidade solidária” será capaz de fazer a
pessoa retornar à sua casa, ao centro, ao seu eu profundo; só ela ativará os
recursos consistentes, os pontos de luz, o trigo que carrega dentro. O ego não
ama ninguém além de si mesmo, atendendo apenas às suas próprias necessidades e
à sua própria gratificação. Sofrendo de uma falta total de compaixão ou
empatia, ele pode ser extraordinariamente cruel para com os outros. Ele não se
dá conta de que vive fechado em si mesmo, prisioneiro de uma lógica que o
desumaniza, esvaziando-se de todo dignidade. Aumenta seus celeiros, mas não
sabe ampliar o horizonte de sua vida. Aumenta sua riqueza, mas diminui e
empobrece sua vida. Acumula bens, mas não conhece a amizade, o amor generoso, a
alegria e a solidariedade. Não sabe compartilhar, só monopolizar.
Finalmente, acaba-se por criar uma dura cortiça que defende
e isola a pessoa do entorno e que a aliena numa insensibilidade para com tudo
aquilo que não seja sua própria realidade. É uma espécie de
"embriaguez" na qual a alteridade desaparece.
A verdadeira riqueza é investir numa única fortuna: a do
amor, do favorecimento da vida, a do descentramento de si, o do encontro
solidário em favor dos mais pobres e desfavorecidos.
Texto bíblico: Lc 3,10-18
Na Oração: Segundo o Batista, a conversão exige “saber
peneirar” (saber selecionar ou eleger), “recolher o trigo” (ir ao essencial e
não ficar na superfície) e “queimar a palha” (eliminar o que não serve ou o que
imobiliza); acolher a Boa Nova da vinda do Senhor requer essa conversão.
- Se sua vida “passar pela peneira”, o quanto de trigo
permanecerá? O quanto de palha deve ser lançado fora?
Uma afirmação do presidente eleito Jair Bolsonaro no
discurso na cerimonia de diplomação chama a atenção pelo que revela da
estratégia que o novo governo pretende usar na negociação com o Congresso. “O
poder popular não precisa mais de intermediação. As novas tecnologias
permitiram uma relação direta entre o eleitor e seus representantes”.
Por trás das palavras a favor da soberania popular e da
disposição de ser o presidente de todos, Bolsonaro manda um recado claro de que
pretende usar as redes sociais para governar, assim como fez sua campanha
eleitoral com baixo custo e ligação direta com os eleitores.
A cerimônia de diplomação, alias, foi cheia de recados
indiretos. Como quando a presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE),
ministra Rosa Weber, discorreu sobre a necessidade de proteção às minorias, que
o candidato Bolsonaro disse que deveriam se submeter às maiorias.
O presidente eleito Bolsonaro, pelo contrário, deixou
explícito que governará para todos, mas insinuou que continuará a ter uma
relação direta com os cidadãos, o que pode levar à tentativa de adotar a
democracia direta, com referendos e plebiscitos, se as negociações com o
Congresso não forem no caminho que considera o melhor.
O sociólogo Manuel Castells, considerado um dos maiores
especialistas nos efeitos das novas mídias na sociedade, avalia, em seu mais
recente livro “Ruptura”, que existe uma crise profunda da relação entre
governantes e governados, demonstrada pelo descontentamento generalizado com as
instituições políticas.
A falta de representatividade dos partidos políticos, e não
apenas no Brasil, anunciaria o colapso gradual da democracia liberal, que seria
substituída pelo que chama de "democracia real", a que surge a partir
dos movimentos nascidos nas redes sociais.
Muito tempo antes das consequências desse desprestigio das classes politicas
desaguarem na eleição de Trump nos Estados Unidos, no movimento pelo Brexit na
Inglaterra e na eleição de Bolsonaro no Brasil, Manuel Castells já previa em
entrevistas e em livros que a descrença na democracia representativa poderia
levar a que os cidadãos mandassem todos os políticos embora, mas ele acreditava
que o sistema bloqueava as saídas.
Em parte tinha razão, pois, pelo menos no Brasil, alguns
representantes da chamada “velha política” sobreviveram às eleições, como o
senador Renan Calheiros, que insiste em ser novamente presidente do Senado. Se
for derrotado nessa pretensão pelos novos senadores eleitos, e pela nova
configuração política que chegou ao Congresso junto com a vitória de Bolsonaro,
confirmará que os efeitos dessa ruptura são mais amplos.
Sua admiração pelos novos meios de comunicação, no entanto,
não faz dele um defensor radical da sua eficácia autônoma. Em livros anteriores
ele advertiu que “não basta um manifesto no Facebook para mobilizar milhares de
pessoas”. A mobilização dependeria do nível de descontentamento popular e da
capacidade de mobilização de imagens e palavras.
“A internet é uma condição necessária, mas não
suficiente para que existam movimentos sociais”. Mas a frase do presidente eleito
sobre os cidadãos não precisarem mais de intermediação, referindo-se claramente
aos partidos políticos, mas também aos meios tradicionais de comunicação, se
baseia em Castells, que considera que agora o cidadão tem “os meios
tecnológicos para existir independentemente das instituições políticas e do
sistema de comunicação de massa”.
Essa ação através das mídias sociais tenta preencher o que
Castells define de “vazio de representação”, criado pela banalização da
atividade político-partidária, que caiu no descrédito da nova geração de
usuários da internet. Manoel Castells sempre achou que um político ligado aos
partidos convencionais dificilmente conseguiria superar essa rejeição, e a
vitória de Bolsonaro parece confirmar essa teoria, embora o radar de Castells
estivesse enviezado à esquerda, fazendo com que, a certa altura do processo,
identificasse a presidente da Rede, Marina Silva, como quem teria condições
para isso.
O Globo, 12/12/2018
Merval Pereira - Oitavo ocupante da cadeira nº 31da ABL,
eleito em 2 de junho de 2011, na sucessão de Moacyr Scliar, falecido em 27 de
fevereiro de 2011, foi recebido em 23 de setembro de 2011, pelo Acadêmico
Eduardo Portella.
A
Mãe Lua chamou a Primeira Mulher para vir a uma assembleia sobre a nova ponte.
Os primeiros animais queriam alcançar a grama verde e a floresta do outro lado
do rio, mas o rio era muito largo e profundo para que os animais menores
atravessassem.
A
Donzela Primavera, a Mãe Verão, a Feiticeira
Outono e a Anciã Inverno tinham concordado em ajudar a criar uma ponte para
eles. Elas se sentaram ao sol do lado de fora da caverna da Anciã Inverno para
discutirem o que elas precisariam fazer.
Eu
preciso fazer uma lista de todos os materiais de que nós precisaremos, disse a
Donzela, entusiasmada com o projeto. Nós precisaremos desenhar uma estrutura
para a ponte, planejar um cronograma para construí-la e resolver tudo o que
precisamos. Quanto mais detalhado, melhor!
Eu
acho que deveríamos falar com os animais primeiro, sorriu a Mãe, para ver de
que eles precisam e ajudá-los a se envolverem – de maneira que eles sintam que
a ponte pertence a eles.
Eu
acho que deveríamos desenhar a ponte enquanto a construímos. Vamos sentir o
fluxo, sentir por onde ela deveria ir e estarmos abertas a quaisquer ideias que
forem surgindo, disse a Feiticeira, inclinando-se para a frente e com brilho em
seus olhos.
Eu
acho que deveríamos lembrar que esta ponte não é apenas para esta geração de
animais, mas para seus filhotes também. Precisa ser uma boa ponte para todo
mundo, disse a Anciã, fechando seus olhos e se recostando na parede da caverna.
Mas
nós não podemos ser espontâneas, disse a Donzela. Nós temos que saber o que nós
estamos fazendo e como vamos fazê-lo. Nós precisamos conseguir os materiais. É
irresponsável ir fazendo qualquer coisa que sentirmos!
Irresponsável!Gritou a Feiticeira, levantando-se. Eu não
sou irresponsável. Você é rígida. Não tem nenhuma criatividade. Você construirá
uma ponte, mas ela não terá uma alma!
Sob
as árvores, a Primeira Mulher olhou para a Mãe Lua e sussurrou: O que
deveríamos fazer?
A
Mãe Lua caminhou afastando-se das árvores em direção à reunião. Ela olhou para
a Feiticeira, que se sentou sentindo-se um pouco constrangida.
Paz!
disse a Mãe Lua suavemente.
Donzela
e Feiticeira, vocês são irmãs. Vocês têm a mesma energia – dinâmica segura e
criativa. Ambas precisam mudar coisas e fazer as coisas acontecerem. A única
diferença é a sua perspectiva. Vocês têm mais em comum do que pensam. Vocês são
reflexo uma da outra.
E
vocês duas precisam uma da outra.
A
Mãe Lua virou-se para a Feiticeira.
Feiticeira,
ame gentilmente a necessidade da Donzela por estrutura – porque, sem estrutura,
suas energias estarão dispersas e a ponte poderá nunca ser terminada ou ser
forte nos lugares certos.
Ela
se virou para a Donzela.
Donzela,
aprecie a criatividade inspiradora da Feiticeira com amor. Mantenha sua
estrutura para a essência vital da ponte e então dê a ela Liberdade e Espaço
para criar com sua intuição e mágica.
Eu
tenho uma ideia, disse a Feiticeira cautelosamente.
Ela
olhou para a Donzela.
Talvez
nós pudéssemos colocar plantas nas laterais da ponte. Isso tornará a ponte
parte do cenário e também daria aos animaizinhos um esconderijo e um lugar para
descansar. A ponte será um longo caminho para eles caminharem e rastejarem.
Oh,
que ótima ideia! exclamou a Donzela. Eu nunca teria pensado nisso.
E
logo elas estavam discutindo um monte de ideias com grande entusiasmo.
Enquanto
a Mãe Lua e a Primeira Mulher se afastavam, a Mãe Lua disse par a Primeira Mulher:
o que você aprendeu?
A
Primeira Mulher fez uma pausa e disse: ambas
querem produzir alguma coisa, mas elas têm modos diferentes de fazê-lo. Porém,
quando elas se juntam com amor – então elas formam uma ponte!