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quarta-feira, 25 de abril de 2018

COMUNISMO X CRISTIANISMO: QUAL EXIGE MAIOR FÉ?


23 de abril de 2018

Por Jocinei Godoy, publicado pelo Instituto Liberal

Muito provavelmente você já deve ter pensado em alguma utopia – algum lugar ou estado de coisas onde tudo é perfeito, pacífico e equânime – tipo uma ilha perfeita, como retratou Thomas More em seu livro: A Utopia. Com a passagem do Medievo para a Moderna, é sabido que a fé deslocou-se do campo religioso e passou a focar o campo científico e político. Em outras palavras, a fé de que a humanidade alcançaria seu ápice de igualdade, liberdade e fraternidade saiu da esfera transcendental para a esfera da imanência, ou seja, do divino para o aqui-e-agora [humanismo].

Quando o comunismo – utopia de viés humanista – é confrontado por algum cristão como sendo histórica e humanamente impossível, logo os adeptos e simpatizantes desta ideologia, devolvem para os cristãos a mesma acusação, dizendo que o cristianismo também é utópico. Esta última acusação não possui qualquer sustentação, lógica e histórica, uma vez que as diferenças entre cristianismo e comunismo são estabelecidas desde suas bases fundacionais, sendo a principal delas, o que se entende por natureza humana. O marxismo, ao rotular a religião como “a ideologia”, provou do seu próprio veneno tornando-se uma das mais pujantes ideologias de toda a história. Seu calcanhar de Aquiles se deve justamente na idealização de um ser humano humanamente impossível.

O comunismo e até mesmo o próprio marxismo ou socialismo científico nunca darão certo, uma vez que, como disse Roger Scruton “desconsideram o agir humano, ao olhar o mundo [humanidade] como uma junção de forças impessoais”[1] . Ao contrário do que pretendem com seu materialismo histórico, pervertem a noção de natureza humana para firmar seus mais loucos devaneios travestidos de justiça e igualdade.

Contudo, esta ideologia possui uma estratégica válvula de escape. Isto é, a práxis destas tentativas utópicas por meio do socialismo é dialética por natureza. Este é o cerne da ideologia que coopta milhares de estudantes que, achando o máximo, aderem aos seus pressupostos. Assim, por mais que as evidências concretas da instituição do socialismo apontem para desgraças e calamidades sem fim, seus ideólogos, numa espécie de onanismo mental, subvertem o imbecil coletivo [parodiando Antônio Gramsci] sob o pretexto de a ideologia se reinventar a cada momento, através da força dos contrários. Ou seja, é sempre a reação dos outros, não a deles, que gera desgraça e calamidade na tentativa de instauração de regimes socialistas. Espertinhos, não é?

É por esta e outras razões que jamais o comunismo poderá ser comparado ao cristianismo. O fundamento do comunismo é imanente. Já o fundamento do cristianismo é transcendente. O primeiro é ingenuamente otimista em relação à natureza humana. Sua implementação sempre acaba em desgraça. O segundo é regiamente pessimista em relação à natureza humana, tornando-se, portanto, factível através da busca espiritual incessante pela virtude.

Sobre isso, o escritor brasileiro João Batista Libânio em seu livro: A Religião do Inicio do Milênio, citando o saudoso padre e filósofo Lima Vaz (1921-2002), ilustrou esta questão ao dizer: “Lima Vaz assume forte posição crítica diante da modernidade pós-cristã na sua pretensão de razão autônoma, de antropocentrismo absoluto, sem referência a Transcendência”. É a “imanentização da transcendência”, isto é, mesmo a ideia de sagrado foi trazida para dentro e a partir do próprio humano no pretenso uso de sua “razão autônoma”.

Finalmente, a verossimilhança da apropriação pelo ser humano de determinada ideologia ou sistema filosófico, tem muito mais a ver com a busca por fundamentação de suas crenças e legitimação do seu pathos [suas paixões], do que propriamente a busca ou amor pelo conhecimento. Tal fenômeno indica que qualquer ser humano, passada a mais tenra infância, sempre partirá da sua crença para a busca interessada de determinado conhecimento. Neste caso, são raríssimas as exceções que se relacionam com o conhecimento, conscientes de que “levarão porrada” o tempo todo em seus conceitos e preconceitos.

Quem conseguiu atingir tal grau de autonomia intelectual, está sempre pronto a moldar suas formas e esquemas de pensamento. Os que atingiram este patamar, certamente, jamais removerão a sua fé em Deus para colocá-la na humanidade ou, por redução, em si mesmo. Isto sim seria uma fé para lá de religiosa. Eric Voegelin a chamou de fé metastática, ou seja, a fé de que uma ordem paradisíaca se daria a partir, e somente, da boa vontade humana. É a ilha perfeita de Thomas More.

[1] The Imaginative Conservative: How to Be a Non-Liberal, Anti-Socialist Conservative. Publicado em 22 de dezembro de 2012.


Sobre o autor: Jocinei Godoy é formado em Teologia pelo Seminário Teológico Batista Independente de Campinas-SP; estudante de Filosofia na PUC-Campinas-SP; e Sócio da Evolução Consultoria. 



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terça-feira, 24 de abril de 2018

ADRIANO ESPÍNOLA ENCERRA NA ABL O CICLO ‘A CIDADE DOS POETAS’, SOB COORDENAÇÃO DO ACADÊMICO ANTONIO CARLOS SECCHIN

O poeta e professor Adriano Espínola encerra, na Academia Brasileira de Letras o ciclo de conferências do mês de abril de 2018, intitulado A cidade dos poetas. O tema escolhido foi Ferreira Gullar: São Luís e o Rio de Janeiro. O evento aconteceu terça-feira, dia 24 de abril, no Teatro R. Magalhães Jr., Avenida Presidente Wilson 203, Castelo, Rio de Janeiro.

Foram fornecidos certificados de frequência.

A Acadêmica e escritora Ana Maria Machado, Primeira-Secretária da ABL, é a Coordenadora-Geral dos ciclos de conferências de 2018.

Adriano Espínola abordou a representação das cidades de São Luís do Maranhão e do Rio de Janeiro, na poesia de Ferreira Gullar (1930-2016), inserindo-a inicialmente na já longa tradição, desde a antiguidade greco-latina aos nossos dias, que une o poeta à cidade, como espaço privilegiado de expressão afetiva, de reflexão crítica e/ou de memória individual e coletiva.

“No caso de Gullar, esse espaço é duplo: voltando-se para São Luís, o poeta torna-se evocativo, buscando resgatar as vivências e experiências fundamentais e decisivas da sua infância, adolescência e início da maioridade; dirigindo-se ao Rio, faz-se reflexivo, na tentativa de expressar o cotidiano, a vida presente, em suas diversas manifestações. A via que expressa liricamente esses dois espaços quase sempre é sensorial, tendo por pressuposto teórico a dialética entre o particular vivenciado e o universal”, destacou.

O CONFERENCISTA

Adriano Espínola (Fortaleza-Ce, 1952) é poeta, autor, entre outros livros, de Beira-Sol (1997), Praia provisória (2006) e Escritos ao Sol (2015). Ensaísta, escreveu As artes de enganar: um estudo das máscaras de Gregório de Matos (2000), O essencial de Gregório de Matos (2011) e Os melhores poemas de Sousândrade (2008; prefácio, notas e biografia); e contista (Malindrândia, 2009). Como poeta convidado, participou do Festival Internacional da Poesia Latina, em Bucareste (1997), do 18º Salão do Livro, em Paris (1998), e do Congresso de Escritores Brasil-Portugal, no Porto (2000). Doutor em Literatura Brasileira pela UFRJ, é professor aposentado da UFC, tendo ensinado também na Université Stendhal Grenoble III (FR) e na UFRJ. Pertence ao PEN Clube do Brasil e à Academia Carioca de Letras.

18/04/2018 



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LOUQUINHA POR CAPETINHA - Continho de Cyro de Mattos


Louquinha por Capetinha
Continho de  Cyro de Mattos


Quem quiser que prove
Do danado do amor,
Ora é riso, ora é mel,
Ora arde com dor.

          I

               Noivo de outra ele,  prestes a casar.
               Ela nova, amava  o namorado mais que nunca. Louquinha para se entregar a ele mais uma vez. Queria demonstrar que era perfeita, insubstituível. Tentar, quem sabe, fazer com que ele desistisse do casamento.
                                                
        II
               Carro estacionado na garagem. Entram no motel. Esperam viver momentos de amor. Ele chama de molequinha  aquele  montinho de penugem com o seu ponto crítico embebido de fogo, oculto entre lábios que vagalumeiam com  ardor. Ela chama de  capetinha aquele pino enrubescido, num instante incontido de furor. Ela desfila de calcinha preta no quarto de espelhos. Escreve com o batom no espelho da penteadeira: Por Você Faço Tudo.
               Após alguns minutos de louca paixão, ele sai do quarto só de cueca. Grita aterrorizado por socorro. Segura o capetinha, que sangra bastante. A dor é tanta que esquece ter vindo no seu carro. Pede ajuda a um casal jovem que acaba de chegar.
                                              
        III

            -  Por favor, estanque esse sangue, enfermeira, será que arrancou algum pedaço? – chora, grita. Os policiais de plantão na sala da enfermaria do pronto-socorro incrédulos. A enfermeira, nervosa, sem saber o que fazer para acalmá-lo.
                                               
        IV
                         
           Atendido pelo médico plantonista. Menos agitado,  ao saber que o seu insubstituível  capetinha não tinha sido mutilado.
                                      
        V

           A radiopatrulha trouxe a namorada aflita. Aguardava o namorado na sala de recepção, chorando e alegando que não fizera aquilo por maldade.
                                  
        VI
                       
         - Senhor policial, não coloque o incidente no livro de ocorrência, a imprensa vai divulgar; também não quero nada de queixa, nem delegacia, foi minha namorada que começou a beijá-lo, e daí pedi a ela que desse só uma mordidinha, pedi só de brincadeira, só que ela mordeu com tanta força, que veja o que fez, quase  arranca.
                                       
      VII

            Nomes não foram divulgados, nem endereços.
                                
      VIII

            No bairro onde ele mora, já ocorreram várias brigas, bate-bocas, discussões entre  os noivos. As noivas teimam em ver o  ardente  capetinho ali embaixo das pernas do noivo, cujo melhor desempenho é quando se transforma  em fereza, verificando todas elas  se está ou não ferido, como resultado de namoro assanhado com mulher inconsequente, para adotarem as medidas cabíveis, que o caso prontamente exige.
                                   
        IX

           Bom anotar que no hospital os dois se abraçaram e confirmaram a verdade do ocorrido. Alegaram que foi tudo por causa do amor.

       X
     
         Não deixaram de voltar ao motel, agora casados.
                    
     XI

        Cada vez mais felizes.
          


*PS -  Qualquer coincidência do fato com pessoas vivas ou mortas não é mera coincidência . (CM)

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Cyro de Mattos - Escritor e poeta. Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México. Publicado nos Estados Unidos, Dinamarca, Rússia, Portugal, Espanha, Itália, França e Alemanha. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia. Doutor  Honoris Causa pela  Universidade Estadual de Santa Cruz - UESC

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DESVIO DE ROTA NA CAMPANHA PRESIDENCIAL – Péricles Capanema


24 de Abril de 2018
Péricles Capanema

Para os poucos que desconhecem o significado da palavra; mantra, originário do hinduísmo, também utilizado no budismo, é som ritual pronunciado de forma repetida, que busca quase sempre criar um estado de paz interior (alguns sugerem, narcotizante) em quem o cantarola ou ouve. É uma forma de encantamento. Existem mantras para facilitar a concentração e a meditação, para energizar, para dormir ou despertar. Há pessoas que repetem o som, pasmem, para vibrar canais energéticos, com o fito de desobstruí-los, sabe lá Deus o que isso possa designar. A mais, noutro aspecto, sua repetição traria bons relacionamentos, saúde, prosperidade, dinheiro. Por aí afora.


Está lotada de mantras, saindo pelo ladrão, a campanha presidencial no Brasil que já anda solta, apesar de oficialmente nem ter começado. Programas, até agora, quase nada. É perigoso o quadro, abaixo tratarei da kakistocracia.

Atrás dos votos, venham de onde vierem, os candidatos fogem dos temas espinhosos, que podem tirá-los. Privatização é um deles. Aborto, outro. União homossexual, mais um. Austeridade fiscal e reforma da Previdência, na lista. A favor ou contra a possibilidade da prisão em 2ª instância, depois de sentença de colegiado, antes do trânsito em julgado? Que amplitude dar ao foro especial por prerrogativa de função? No máximo, generalidades sobre tudo isso. Corrupção, era natural, virou mantra, mas se evita dizer que a presença fortíssima das estatais na economia é caldo de cultura dela. Escutam-se aqui e ali censuras à presença crescente das estatais chinesas na economia brasileira. A campanha começa com generalidades desnorteantes, pode bem acabar com troca de ofensas pessoais do mais baixo nível.

Agora, alguns mantras. Avanço (vago, todos querem avanços, — versão adjetivada, avanços sociais —, justificativa frequente para gastos irresponsáveis e concessão de direitos ilusórios que pouco ou nada ajudarão de fato o povo; em geral o prejudicam no longo prazo); medidas progressistas (expressão utilizada amiúde para atitudes na ordem política que flertam com ditaduras sanguinárias de esquerda; na ordem moral via de regra medidas que favorecem a desintegração moral, como facilidades maiores para a união homossexual). Mais um, preservação de setores estratégicos (empregado para deixar a estatização mais ou menos como está, continuando sob o domínio das patotas partidárias gigantescos setores da economia e da máquina estatal). Aliás, bobagem essa história de setores estratégicos na economia. Nos Estados Unidos o petróleo, a energia elétrica, a mineração e o subsolo estão desde sempre em poder dos particulares. Prejudicou a segurança do País? Impediu a economia de crescer e distribuir seus benefícios para a população? Ajudou e muito, essa é a verdade. Ênfase reformista no governo (aqui ninguém sabe o que esse mantra quer dizer de fato).

Em linhas gerais, nessa largada todos os candidatos são democráticos, populares, progressistas, reformistas. Como efeito a ser tido em conta, seduz, ilude e entorpece a repetição meio atoleimada de tais slogans. No meu caso aconteceu o contrário, impliquei. Cansei da cantilena, enfarei da lorota, enjoei dos mantras.

Poderia esmiuçar cada um deles. Estaco em um, o regime democrático. Ou, em outra formulação, a democracia. Diante de seu altar todos se inclinam, reverentes e sôfregos lhe prestam homenagens subservientes, como pagãos incultos e crédulos arqueados diante do Júpiter tronante.

Aqui, vou devagar, piso em terreno cheio de pregos e vidros, ando em área politicamente incorreta, mas estou disposto a pingar is pelo trajeto, atendendo ao fundamental para quem fala ou escreve: a clareza.

Simplificando, com alguma base se atribuiu a Aristóteles a classificação dos regimes em monárquicos, aristocráticos, democráticos e mistos, todos legítimos, com condições de buscar o bem comum. Luís Taparelli d’Azeglio (1793-1862), tratadista do Direito Natural, vê apenas diferenças acidentais, de quantidade, entre os regimes aristocráticos e democráticos, já que nos últimos, de fato, nunca a totalidade dos membros da sociedade participa dos assuntos públicos. A democracia corrompida degenera em demagogia, a aristocracia em oligarquia, a monarquia em tirania. Lembrei teoria de forma sumária para fixar os pontos principais da questão.

Agora, um mergulho na prática. Nossa democracia tem pouco a ver com o governo de todos da teoria aristotélica. Na casca, nomes iguais ou parecidos. No miolo, diferenças abissais. Nossa democracia tem caráter oligárquico e demagógico. É partidocracia. Minorias organizadas tangem maiorias desnorteadas, manipulando o que por aí chamam de vontade popular. Focalizando de momento só um aspecto do quadro, vivemos na era dos robots nas redes sociais, das fake news, dos spin doctors, afundados no ambiente da pós-verdade.

Tal montoeira de recursos propicia a kakistocracia, palavra nova que significa o governo dos piores. E se generaliza no povo a descrença e o repúdio. Aqui está um motivo pelo qual nenhuma proposta de voto facultativo avança no Congresso. O voto não obrigatório, sem o cabresto da sanção, poria a nu a inautenticidade de nossa democracia. Desconfiada, desinteressada ou raivosa, a maioria não iria até as urnas, o comparecimento, quanto muito, bateria nos 30%.

E nem trato dos regimes de partido único, feição totalitária, buscando a hegemonia, que é para onde caminha a Venezuela, nos passos de Cuba, aplaudidas delirantemente pelo PT e alguns partidos afins.

É, estamos vendo, nossa democracia tem muita telha de vidro na cobertura. Outras. Já no nascedouro, foi fruto de golpe militar que incinerou a ordem constitucional. Em texto conhecido, afirmou Aristides Lobo, ministro do primeiro governo da República: “O povo assistiu àquilo bestificado, atônito, surpreso, sem conhecer o que significava. Muitos acreditaram seriamente estar vendo uma parada”. Mais grave nem foi o alheamento popular. Desde o começo plantou as raízes doutrinárias na Revolução Francesa, fede a racionalismo e iluminismo; e pisa, por lógica incoercível, o chão ensanguentado do Terror.

Democracia e república não são sinônimos entre si, nem são sinônimos de liberdade. Nunca foram. Na defesa das liberdades naturais, hoje agredidas por tudo quanto é canto, mora a questão mais séria. Para um católico seguidor da doutrina social da Igreja, repito, o primordial são as liberdades naturais: liberdade de cultuar o verdadeiro Deus, liberdade de buscar a própria perfeição, liberdade de comprar e vender, de empreender, de casar, ter filhos, educá-los. Enfim, ampla autonomia na vida pessoal, papel suplementar cabe ao Estado.

Nosso regime democrático asfixia várias das liberdades naturais, quando o direito seria bafejá-las, oxigená-las. Alguns poucos exemplos. Os candidatos prometerão expandir a liberdade de empreender, tão sufocada no Brasil? Constarão de seu programa compromissos de proteção à ordem que constituirão obstáculos sérios a quem delas abusa? Lembro os quebra-quebras do MST e do MTST.

Prometerão proteger o direito de os pais educarem os filhos, criando condições que propiciem a luta contra a ideologia de gênero? É liberdade ameaçada pela tirânica coorte dos que pretendem impor na educação e na vida em geral tal doutrina devastadora. Parece, crescerá sem cessar ao longo dos anos a pressão pela vitória da ideologia de gênero, em especial por trabalho dos grandes meios de divulgação e da academia.

Tanta coisa mais haveria a dizer, mas preciso parar por aqui. Constato com tristeza, porém estou certo de que assuntos assim — fundamentais para nosso destino de nação cristã e civilizada —, caso presentes nos debates, estarão de forma tangencial. A demagogia vai correr solta; se vier enxurrada, com facilidade poderemos despencar na kakistocracia.


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segunda-feira, 23 de abril de 2018

ITABUNA CENTENÁRIA REFLETINDO - A esmola da compaixão


A esmola da compaixão



De portas abertas ao serviço da caridade, a casa dos Apóstolos em Jerusalém vivia repleta, em rumoroso tumulto.

Eram doentes desiludidos que vinham rogar esperança, velhinhos sem consolo que suplicavam abrigo. Mulheres de lívido semblante traziam nos braços crianças aleijadas, que o duro guante do sofrimento mutilara ao nascer, e, de quando em quando, grupos de irmãos generosos chegavam da via pública, acompanhando alienados mentais para que ali recolhessem o benefício da prece. Numa sala pequena, Simão Pedro atendia, prestimoso. Fosse, porém, pelo cansaço físico ou pelas desilusões hauridas ao contato com as hipocrisias do mundo, o antigo pescador acusava irritação e fadiga, a se expressarem nas exclamações de amargura que não mais podia conter.

– Observa aquele homem que vem lá, de braços secos e distendidos? – gritava para Zenon, o companheiro humilde que lhe prestava concurso – aquele é Roboão, o miserável que espancou a própria mãe, numa noite de embriaguez… Não é justo sofra, agora, as consequências? E pedia para que o enfermo não lhe ocupasse a atenção.

Logo após, indicando feridenta mulher que se arrasava, buscando-o, exclamou, encolerizado:

– Que procuras, infeliz? Gozaste no orgulho e na crueldade, durante longos anos… Muitas vezes, ouvi-te o riso imundo à frente dos escravos agonizantes que espancavas até à morte… Fora daqui! Fora daqui!…

E a desmandar-se nas indisposições de que se via tocado, em seguida bradou para um velho paralítico que lhe implorava socorro:

– Como não te envergonhas de comparecer no pouso do Senhor, quando sempre devoraste o ceitil das viúvas e dos órfãos? Tuas arcas transbordam de maldições e de lágrimas. . . O pranto das vítimas é grilhão nos teus pés. . .

E, por muitas horas, fustigou as desventuras alheias, colocando à mostra, com palavras candentes e incisivas, as deficiências e os erros de quantos lhe vinham suplicar reconforto.

Todavia, quando o Sol desaparecera distante e a névoa crepuscular invadira o suave refúgio, modesto viajante penetrou o estreito cenáculo, exibindo nas mãos largas nódoas sanguinolentas.

No compartimento, agora vazio, apenas o velho pescador se dispunha à retirada, suarento e abatido.

O recém-vindo, silencioso, aproximou-se, sutil, e tocou-o docemente.

O conturbado discípulo do Evangelho só assim lhe deu atenção, clamando, porém, impulsivo:

– Quem és tu, que chegas a estas horas, quando o dia de trabalho já terminou?

E porque o desconhecido não respondesse, insistiu com inflexão de censura:

– Avia-te sem demora! Dize depressa a que vens…

Nesse instante, porém, deteve-se a contemplar as rosas de sangue que desabotoavam naquelas mãos belas e finas. Fitou os pés descalços, dos quais transpareciam ainda vivos, os rubros sinais dos cravos da cruz e, ansioso, encontrou no estranho peregrino o olhar que refletia o fulgor das estrelas…

Perplexo e desfalecente compreendeu que se achava diante do Mestre, e, ajoelhando-se, em lágrimas, gemeu aflito:

– Senhor! Senhor! Que pretendes de teu servo? Foi então que Jesus redivivo afagou-lhe a atormentada cabeça e falou em voz triste:

– Pedro, lembra-te de que não fomos chamados para socorrer as almas puras…

Venho rogar-te a caridade do silêncio quando não possas auxiliar! Suplico-te para os filhos de minha esperança a esmola da compaixão…

O rude, mas amoroso pescador de Cafarnaum, mergulhou a face nas mãos calosas para enxugar o pranto copioso e sincero, e quando ergueu, de novo, os olhos para abraçar o visitante querido, no aposento isolado somente havia a sombra da noite que avançava de leve.

Irmão X


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LOTEAMENTO CELESTE! - Antonio Nunes de Souza


É público e notório que, atualmente, existem milhares de igrejas de diversas vertentes religiosas que, com bastante veemência, oferecem um lugar no céu para seus seguidores, inclusive, através de lavagens cerebrais, fanatizam seus discípulos para que façam as notícias circularem abundantemente, em busca de novos e pobres adeptos!

O que nos causa estranheza é o assentimento da justiça que, verdadeiramente, tem conhecimento dessa farsa e deixa o barco correr a vontade, proliferando cada vez mais o número de chamados “templos” ou pequenas garagens transformadas em igrejas, bastando para isso uma quantidade de baratas cadeiras de plástico, serviço de som e um ministro ou pastor (muitas vezes semi-analfabetos) e, com uma semana, o pobre povo aflito e desesperado começar a prestigiar, em busca de soluções dos seus problemas!

Falei sobre a enganação de “um lugar no céu”, entretanto, o peso pesado para conquista diária de dízimos é a promessa de empregos, abandonos de todos os tipos de vícios, retornos de casamentos, curas miraculosas até para doenças incuráveis, etc. Na verdade se intitulam verdadeiras potências como representantes de Jesus aqui na terra!

Com toda certeza, Jesus, lá do alto, deve estar horrorizado com o uso indevido do seu nome, estarem oferecendo mirabolantes milagres!

Ainda achando pouco, vendem garrafinhas de águas bentas, vidrinhos de óleos milagrosos para dores corpóreas, pedacinhos de madeiras ditas como sendo da cruz que Cristo foi crucificado, fora a comercialização da Bíblia Sagrada que cada um que entra é obrigado a comprar!

Verdadeiras filiais do Planalto Central em termos de enganação popular. Uma série de muitos bandidos enganadores, aproveitando-se das fraquezas do pouco letrado povo brasileiro!

Mereciam, após serem sanadas as falcatruas da Lava Jato, que fosse feita pela polícia federal uma operação, que poderia ser batizada como “O Céu é o Limite!”!

 Creio que, com uma boa varredura, seriam desmascarados muitos peixes de diversos tamanhos!

Peço a Deus que esse desmanche brevemente seja feito “em nome de Jesus!”


Antonio Nunes de Souza, escritor
Membro da Academia Grapiúna de Letras-AGRAL


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‘LULA NÃO É PRESO POLÍTICO, É POLÍTICO PRESO’, AFIRMA FHC


Fernando Henrique acha que a descrença nos políticos poderá levar a uma queda de participação nas urnas (Crédito: Fabio Braga)
20/04/18

A seis meses das eleições, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) minimiza o fato de o pré-candidato de seu partido ao Palácio do Planalto, o ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin, aparecer estagnado nas mais recentes pesquisas de intenção de voto, na faixa dos 8%. “Geraldo é um corredor de maratona, não de 100 metros”, disse FHC nesta quarta-feira, 18, ao jornal O Estado de S. Paulo, em seu escritório na capital paulista.

O tucano, de 86 anos, cita como exemplo sua própria campanha em 1994, quando só decolou em junho na esteira do Plano Real. Sobre uma eventual candidatura do ex-presidente do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa, Fernando Henrique afirma: “Foi um juiz competente, teve coragem, mas isso qualifica você para presidente? Por isso só, não”. “Não sei o que ele pensa.”

Questionado se o fato de o senador Aécio Neves (PSDB) ter se tornado réu pode contaminar a campanha tucana, Fernando Henrique cita o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva: “Qual foi o impacto na inclinação pelo Lula? Até agora nenhum”. Ao comentar a prisão do petista, condenado na Lava Jato, ele rebate a tese do partido adversário, dizendo que não se trata de um preso político. “É um político preso.”

Fernando Henrique lança nesta sexta-feira, 20, o livro “Crise e reinvenção da política no Brasil”, pela Companhia das Letras. Leia abaixo os principais trechos da entrevista:

No seu livro, o sr. fala que um líder deve ser capaz de explicar, passar uma mensagem. Que mensagem é essa e quem seria capaz de transmiti-la hoje?

Sempre fomos um País que achávamos que daria certo, grande pela própria natureza. Somos, mas não basta. Temos que ser grandes pela criatividade, tecnologia, capacidade. Tem que ter um rumo, essa é a mensagem. Para melhorar a vida das pessoas, com segurança, garantida a liberdade, crescendo a economia, emprego e bem-estar. Para isso, é preciso um governo que funcione. É simples, mas é preciso que quem emita a mensagem, tenha chama, toque no outro. O povo, por enquanto, não está nem aí. Política é assim, estamos aquecendo os motores.

O livro fala ainda em uma “nova onda de direita”. Quem representa esse movimento?

No Brasil, temos gente que não é nem de direita nem de esquerda, é atrasada. O nome mais falado agora é o de (Jair) Bolsonaro. Não sei o que ele representa. Um sentimento de ‘quero ordem, mata bandido?’ É um sentimento que não tem expressão política. O que significa na economia, na vida social? É só uma explosão.

Sobre o Judiciário, o sr. diz que teria se tornado mais consciente da sua autoridade e mais “permeável” à sociedade. O STF tem sido alvo de críticas por isso.

Fomos nós da Assembleia Constituinte que demos esse poder ao Supremo. Você pode requerer ao tribunal que, no vácuo da lei, ele legisle. Ele tem abusado? Não creio. Nas áreas comportamentais, como o Congresso fica receoso de avançar, às vezes o Supremo avança.

E nos casos da Lava Jato?

A Lava Jato fez simplesmente o que todo mundo queria que se fizesse, pegou poderosos e ricos. O Supremo às vezes dá um habeas corpus e a população reclama, mas é que a lei permite liberar. Não acho que a Lava Jato tenha, no geral, extrapolado. E muito menos que ela seja facciosa, pegue um só partido. Estamos vendo agora, pegou os partidos que estavam no poder. Os que não estavam é natural que tenham menos foco na Lava Jato, porque não estavam metidos na cumbuca. Não é que a Justiça favorece os tucanos, favorece porque não estão no poder. Lava Jato foi um fato político muito importante, mas não dota aquele que foi o protagonista de qualidades para ser líder político. Mas há uma tentativa também de atacar o (juiz Sérgio) Moro. Acho que ele é apenas um juiz correto, tenta aplicar as leis tal qual ele entende.

O STF tornou réu Aécio Neves e, na próxima semana, Eduardo Azeredo, outro ex-presidente do PSDB, pode ser preso. Qual o reflexo disso na imagem do partido do qual é presidente de honra?

Eu não posso ficar contente quando vejo personalidades importantes sendo julgadas e presas. O Lula, você acha que eu fico satisfeito? Não, mas não vou contra a Justiça. No caso do Aécio, foi apenas iniciado o processo. Ele disse que vai demonstrar que não havia dinheiro público envolvido. Eu não sei. Agora, eu não posso ser contra o que a Justiça decidiu. Nem num caso, nem no outro. Tem efeito claro, prejudica os partidos. Mas juiz não tem de ver se tem efeito político, tem de ver os autos. Tem indício de crime, abre o processo. Tem crime, condena. Foi o que eles fizeram.

Isso pode ter algum impacto na candidatura do ex-governador Geraldo Alckmin?

Digo isso até com constrangimento, mas qual foi o impacto na inclinação pelo Lula (nas pesquisas)?
Até agora nenhum. Eu acho que devia ter, mas não sei se vai. É provável que as lideranças (tucanas) discutam esse assunto. Como ele (Aécio) tem direitos políticos, ele que vai decidir (se será candidato), mas acho que a liderança vai ponderar e dizer: ‘Presta atenção, olha as consequências’.

Joaquim Barbosa se filiou ao PSB. O sr. acha que ele pode ser esse novo na eleição?

Não sei o que ele pensa. O que ele pensa sobre economia? Sobre a sociedade? Pode ser que sim, mas eu não sei. Um perfil parecido com o dele, no imaginário, é o de Moro. Eu não sei se o Moro seria um bom presidente. O Joaquim Barbosa foi um juiz competente, teve coragem, mas isso qualifica você para ser presidente? Por isso só, não.

Alckmin, entre os nomes colocados, parece ser o candidato de centro que mais tem viabilidade eleitoral, mas não decolou. Como isso vai se resolver?

Quando eu fui ministro, deixei o Ministério da Fazenda para ser candidato à Presidência da República em abril, acho. Quando chegou em maio, eu falei à Ruth (Cardoso, ex-primeira-dama, que morreu em 2008), ‘não dá mais, vou desistir’, porque eu tinha apenas 11%, o Lula tinha 40%. Quem me apoiava? Ninguém. Que recurso eu tinha? Nenhum. Em junho, comecei a ganhar. Em agosto, estava na frente. Em outubro, ganhei no primeiro turno. O Geraldo é um corredor de maratona, não é de 100 metros rasos. Às vezes, você vai correr maratona e sai com velocidade de 100 metros e queima na largada. Vamos ver como vai ser, o que vai acontecer nesse jogo, que está apenas começando. Há elementos para (se viabilizar como o candidato), mas precisa ver se vai conseguir.

O que representa a prisão de Lula para o processo eleitoral?

Lula tem um peso simbólico, foi líder sindical, criou um partido. Ele não está sendo processado pelo que fez politicamente. O PT está dizendo: é um preso político. Não é. É um político preso. A narrativa do PT é de preso político. Se fosse, eu estaria protestando. É preso por outras razões. Você pode dizer: decisão não foi correta. Apela. A condição (de preso) vai pesar contra (no processo eleitoral), com o passar do tempo. Aí na campanha os partidos vão transformar um fato numa versão. Na política, não adianta eu ter razão, adianta ter capacidade de convencer, explicar. Melhor que não tivesse acontecido, mas aconteceu, e agora vamos ter que explicar à população. A força simbólica de Lula não é sobre o que ele faz e diz, mas sobre o que ele fez. E foi capaz de, ao fazer, cantar, cacarejar. Um dos defeitos do PSDB e meu é cacarejar pouco sobre o que se fez, quando se fazia. O Lula tem a virtude de que ele cacareja: eu fiz, eu fiz, agora sou ideia. A ideia pode ser boa ou pode ser má, não sei (risos). Mas foi uma boa sacada.

O que uma eventual 3ª denúncia contra Temer representaria para o País, às vésperas da eleição?

Acho que seria insensato, porque vai ter uma luta de novo. É difícil que o Congresso a dois meses da eleição vá tomar uma posição contra o presidente. Acho que deveria ter um pouco de pensamento institucional.

Do Ministério Público?

Inclusive. Tem de ter uma certa visão institucional do País. Se houve coisa errada, ele vai deixar de ser presidente, vai ser julgado. Por que balançar mais ainda a situação que já é em si frágil? Tem coisas tão importantes para fazer, retomar o crescimento, dar emprego, botar segurança na rua. Se fosse uma coisa afrontosa… Mas se for começar ver pelo em ovo para poder arranjar argumento para fazer um impeachment, processar presidente… Se fosse no começo do governo, eu entendo. Mas no fim, com eleição à vista? Tem de ter um pouco de moderação.

E o que o sr. acha das manifestações de militares da ativa e da declaração do general Villa Bôas na véspera do julgamento do habeas corpus de Lula?

Melhor que os militares não falem. Alguns ameaçaram, o chefe do Exército não fez isso. Basicamente, foi uma mensagem interna corporis. Ele falou antes que outros falassem coisas mais desabusadas. Não considero que a declaração do ministro tenha sido uma ameaça. Ele disse o que todo mundo diz: a impunidade não pode prevalecer, a Constituição diz isso. Ele não disse ‘condene fulano e beltrano’. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.


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