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segunda-feira, 9 de abril de 2018

O MODELO MORO - Alexandre Garcia


O Modelo Moro 

Um juiz que tem em mãos processos envolvendo tanta gente poderosa e que aceita ser o alvo das perguntas e câmeras de um programa como Roda Viva, da TV Cultura de São Paulo, tem que ser uma pessoa extremamente confiante em sua própria sensatez. O risco é enorme. Qualquer pré-julgamento, qualquer opinião fora dos autos, pode ser argumento para ser contestado pelas defesas - que por tantas vezes já pediram seu afastamento de processos de corrupção. Pois por hora e meia o juiz Sérgio Moro correu esse risco, submetendo-se a perguntas de cinco jornalistas e aos olhares implacáveis das câmeras que acompanharam seus gestos, feições e olhos de todos os ângulos. E não tropeçou nenhuma vez; nenhum vacilo, nenhuma irritação, nenhum arroubo de estrelismo diante das luzes daquele plenário que o cercava.

Em pergunta alguma perdeu a naturalidade. Mostrou que é um juiz equilibrado, calmo, racional, sem paixões e preconceitos. Com profundo conhecimento do mundo que o cerca, respondeu, no entanto com humildade, com simplicidade, passando a imagem de sinceridade nas posições. Em nenhum momento foi além dos limites da lei e de seus deveres como julgador. Depois do que se viu e ouviu na semana passada no Supremo Tribunal, Moro foi um jato de esperança a robustecer a aposta na Justiça, no país que vai perdendo referências civilizatórias. Quando o programa terminou, ficou a impressão de que o Brasil teve muita sorte quando a operação que começou num lava-jato de Brasília, envolvendo pessoas com domicílio no Paraná, tenha ficado na Vara Federal do juiz Sérgio Moro.

Quando tinha em mãos o caso do escândalo do Banestado(Banco do Estado do Paraná), com evasão em dezenas de bilhões em divisas, o juiz Sérgio Moro foi criticado por excessos e levado, por isso, ao Conselho Superior de Justiça, que arquivou o caso. Com humildade, inscreveu-se em cursos da Polícia Federal para aprender mais sobre lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Sentou-se nos bancos escolares da PF e acabou considerado pelos policiais como um exemplo de juiz que se aproxima da origem da Justiça - o inquérito policial - para aprender. O juiz mostrava então que a toga serve com mais justiça quanto mais conhecimento tiver do crime. Por isso suas sentenças têm sido irrepreensíveis. Ao se expor no programa da TV Cultura, em nenhum momento foi acuado por perguntas de jornalistas que certamente se prepararam para o interrogatório.

Moro virou celebridade mas não sai de si nem levita. Continua sendo um juiz de primeira instância e não um artista. Ainda que se deva repetir que juiz só fala nos autos, a situação por que passa o país precisa de manifestações públicas dele, porque se tornou um símbolo da lei e da justiça  - no país da impunidade, da desordem civil, das leis circunstanciais, em que o princípio de que todos são iguais perante a lei se tornou uma farsa em que fingimos acreditar. Um país que fala em democracia todos os dias é porque tem apenas um arremedo dela. Estados Unidos e Alemanha não ficam falando em democracia - porque é o fato básico, corriqueiro. Sem ordem, sem justiça que desestimule os corruptos e criminosos em geral, jamais chegaremos a ser uma democracia. Sérgio Moro é uma esperança, um modelo, de que sem histrionismo, sem populismo e com simplicidade, revela um modelo para recuperarmos o caminho perdido.
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Alexandre Garcia
Jornalista
Alexandre Eggers Garcia é um jornalista, apresentador e colunista político brasileiro. Foi porta-voz do último presidente do período do regime militar do Brasil, general João Batista Figueiredo. Wikipédia
Nascimento: 11 de novembro de 1940 (77 anos), Cachoeira do Sul, Rio Grande do Sul


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domingo, 8 de abril de 2018

OS IRMÃOS RIELA - Cyro de Mattos


Os irmãos Riela
Cyro de Mattos


                O futebol de Itabuna,  digno de seu passado amador brilhante,  quando era vencedor, dava orgulho à cidade. Agora se tornara em  grande frustração, abatia  o torcedor que  gostaria de comparecer ao estádio para torcer com entusiasmo pelo seu time do coração.  A frustração  que esse torcedor carrega dentro dele hoje   força que  acenda o coração no sentimento da saudade. Lembre-se do tempo em  que esse futebol amador  foi pródigo em oferecer partidas  memoráveis,   portadoras da verdade  como reflexo da vida, dizendo que nesta  existe a alegria dos que vencem, a tristeza dos que perdem, conformismo ou  não dos que empatam em cada batalha.
 
              Os quatro irmãos Riela formaram um capítulo à parte nas partidas disputadas no Campo da Desportiva. Eram conhecidos como  os quatro mosqueteiros do rei, pois constante era o   sentimento de união  entre eles no relacionamento com a vida.  Fernando, Carlos, Leto e Lua eram inseparáveis. A vida só conseguia separá-los quando eles se enfrentavam no campo de jogo, cada um defendendo o seu time.  Carlos e Fernando jogaram no Fluminense, Leto no Flamengo e Lua no Janízaros. Cada um dava o  melhor de si para defender o seu  time. Os quatro eram jogadores dotados de  recursos técnicos invejáveis.  Cada um possuía  a sua característica na intimidade  com a bola.

             Como observei,  fizeram história no Campo da  Desportiva.  Fernando como um ponta-esquerda que driblava numa  velocidade  espantosa, deixava o marcador para trás, batido pelo chão, e o torcedor incrédulo ante a investida impetuosa, fundamental na conclusão da jogada perfeita pela beirada do campo.  O  meia-direita Carlos  tinha boa  visão de jogo, não  olhava para a bola, de cabeça erguida via o companheiro, antevia o lance   e o campo para o lançamento preciso.  Leto jogou no Flamengo  e se sagrou campeão pela seleção de Itabuna, médio-esquerdo implacável na marcação,  com uma  eficiência exemplar anulava o ponta-direita, que pouco pegava  na bola durante os lances acirrados da  partida.

             Lua, o mais novo, era dos quatro  o que mais encantava, ora parecia flutuar em campo na condução da bola, um pássaro que se desvencilhava  do obstáculo e no chão  voava?  Gingava, driblava, enganava, aquele jogador franzino  transvestido  em um artista que desenhava a jogada como num sonho. Fazia a tabelinha com o companheiro, deslizava com a bola, sem tomar conhecimento do adversário,   bailarino ou  vento esperto, ligeiro, que fazia o espetáculo pontilhado de riso e gozo?
     
             Os admiradores de Lua não cansavam de dizer que dos irmãos Riela ele era o melhor, o que tinha mais recursos técnicos,  o pequeno maior. Jogou no Janízaros e na seleção de Itabuna quando esta começou o declínio para não mais conquistar o Intermunicipal. O seu  futebol era de tão boa qualidade que foi aproveitado no time profissional do Itabuna.


*Cyro de Mattos é membro efetivo da Academia de Letras da Bahia. Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual de Santa Cruz. Publicado em vários países europeus, Estados Unidos e México.   Contista, cronista, poeta, romancista, ensaísta e autor de livros para crianças  e jovens. Pertence às Academias de Letras de Ilhéus e de Itabuna.

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AGITAÇÃO SOCIAL, VIOLÊNCIA: PRODUTOS DE LABORATÓRIO QUE O BRASIL REJEITA


8 de Abril de 2018
 Na “missa-comício”, pouco antes de sua prisão, Lula conclama seus sequazes a provocarem agitações de Norte a Sul do País

Paulo Roberto Campos

         Na presente conjuntura que atravessa o Brasil, com movimentos de esquerda — que contam com a colaboração do clero progressista adepto da “Teologia da Libertação” — insuflando seus sequazes à rebelião e a incendiar o País como vingança devido à condenação e prisão do ex-presidente Lula, vem a propósito reproduzir aqui um apelo de Plinio Corrêa de Oliveira.

O texto de tal apelo — extraído do livro “Agitação social, violência: produtos de laboratório que o Brasil rejeita” — muito nos auxilia de como enfrentar a atual situação nacional, não nos deixando arrastar pelos tumultos revolucionários desses movimentos esquerdistas.

“Obstáculo a que a Nação se deixe levedar pelos fermentos revolucionários”

Plinio Corrêa de Oliveira

“O povo brasileiro sempre foi conhecido como afetivo, ordeiro e pacífico. Tal feitio de alma lhe vem da tradição profundamente cristã. E constitui um nobre obstáculo a que a Nação se deixe levedar pelos fermentos revolucionários indispensáveis para o êxito do socialismo e do comunismo.

É por isto que as forças da desagregação e da desordem deitam tanto empenho em criar a ilusão do contrário, apresentando nossa população como desordeira, agressiva, revoltada.

Lanço um apelo para que o Brasil da bondade, o Brasil afetivo, o Brasil cristão continue idêntico a si mesmo, e não se deixe arrastar pelas solicitações da violência, seja física, seja moral. Nós brasileiros não somos afeitos à revolta e à subversão, ao contrário do que propalam os agitadores. E por mais razões que tenhamos para estar descontentes, procuramos resolver nossos problemas dentro da paz autêntica, da paz cristã que Santo Agostinho definiu lindamente como sendo a tranquilidade da ordem.

Nosso povo tem bem consciência dos imensos recursos e possibilidades do território nacional, e sabe que o aproveitamento de toda esta potencialidade através de um trabalho empreendedor e confiante, pode tornar o Brasil uma das primeiras nações do mundo no século XXI.

Trabalho que exige esforço árduo, ânimo forte. Mas não foi assim que nossos antepassados dilataram as fronteiras do País? Embora sem a comodidade oferecida hoje pelo progresso, eles galgaram serras, venceram florestas, atravessaram rios e transpuseram pântanos. E extraíram da terra, pelo plantio, pela criação e pela mineração, os recursos de que hoje vivem os brasileiros. Por que não podemos recobrar essa fibra, essa força de alma que nasce da Fé católica que eles nos legaram?

Não será, pois, com revoluções mortíferas, dissensões internas, tensões estéreis entre irmãos, de que haveremos de aproveitar as vastidões ainda inexploradas de nosso território. Mas é com esse espírito empreendedor, ordeiro e cheio de Fé, que podemos alcançar de Deus, por intermédio de Nossa Senhora Aparecida, Rainha e Padroeira do Brasil, a grandeza cristã, que deve ser a nossa, nas novas etapas históricas que se aproximam”.


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PALAVRA DA SALVAÇÃO (73)


2º Domingo da Páscoa – 08/04/2018


Anúncio do Evangelho (Jo 20,19-31)

— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo João.
— Glória a vós, Senhor.

Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas, por medo dos judeus, as portas do lugar onde os discípulos se encontravam, Jesus entrou e, pondo-se no meio deles, disse: “A paz esteja convosco”. Depois dessas palavras, mostrou-lhes as mãos e o lado. Então os discípulos se alegraram por verem o Senhor.
Novamente, Jesus disse: “A paz esteja convosco. Como o Pai me enviou, também eu vos envio”.
E, depois de ter dito isso, soprou sobre eles e disse: “Recebei o Espírito Santo. A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados; a quem os não perdoardes, eles lhes serão retidos”.
Tomé, chamado Dídimo, que era um dos doze, não estava com eles quando Jesus veio. Os outros discípulos contaram-lhe depois: “Vimos o Senhor!” Mas Tomé disse-lhes: “Se eu não vir a marca dos pregos em suas mãos, se eu não puser o dedo nas marcas dos pregos e não puser a mão no seu lado, não acreditarei”.
Oito dias depois, encontravam-se os discípulos novamente reunidos em casa, e Tomé estava com eles. Estando fechadas as portas, Jesus entrou, pôs-se no meio deles e disse: “A paz esteja convosco”.
Depois disse a Tomé: “Põe o teu dedo aqui e olha as minhas mãos. Estende a tua mão e coloca-a no meu lado. E não sejas incrédulo, mas fiel”. Tomé respondeu: “Meu Senhor e meu Deus!” Jesus lhe disse: “Acreditaste, porque me viste? Bem-aventurados os que creram sem terem visto!” Jesus realizou muitos outros sinais diante dos discípulos, que não estão escritos neste livro. Mas estes foram escritos para que acrediteis que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e, para que, crendo, tenhais a vida em seu nome.

— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor.

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Clique no link abaixo a acompanhe a reflexão de Dom Gil Antônio Moreira, arcebispo Metropolitano de Juiz de Fora, sobre a Misericórdia Divina:
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Encontro com o Ressuscitado: "tocar" nos crucificados da história

“Põe o teu dedo aqui e olha as minhas mãos. Estende a tua mão e coloca-a no meu lado...” (Jo 20,27)=

Uma grande ameaça sempre se fez presente na caminhada histórica da Igreja, qual seja, o risco de viver o seguimento de Jesus sem as suas chagas. Crer no Ressuscitado “asséptico”, sem as chagas em suas mãos, em seu lado e em seus pés, é desumaniza-lo. Crer de alguma forma em Jesus, mas um Jesus da glória, um Jesus “espiritual”, separado da vida e da entrega até à morte, é esvaziar o verdadeiro sentido da redenção. Crer no Ressuscitado sem as chagas é esquecer-se das feridas dos pobres, da morte dos oprimidos; é não tocar as chagas da humanidade sofrida, quebrada... Crer no Ressuscitado com as chagas nos compromete em fazer descer da Cruz todos os crucificados da história.

Neste sentido, o evangelho deste 2º domingo da Páscoa, nos apresenta uma profunda experiência pascal da Igreja a partir da “conversão de Tomé”, que é a imagem daquele que aceita a ressurreição de Jesus, mas a entende como uma experiência intimista, sem compromisso de comunhão e sem solidariedade com os mais excluídos e sofredores.

Tomé é aquele que vive isolado, anda solto por aí, sem vínculo comunitário. Enquanto os outros se fecham, ele vive sem comunidade, sem compromisso social, dedicado à sua mística particular. Morreu Jesus, mas não lhe importa as chagas d’Ele, nem o sofrimento dos outros; vive de uma espiritualidade “desencarnada”, com uma fé puramente intimista, sem a visibilidade de um corpo morto, sem a necessidade de precisar tocar as chagas d’Aquele que morreu pelos outros, as chagas de todos os mortos.  Custava-lhe tocar as pegadas e feridas de Jesus crucificado; para ele, é como se Jesus não tivesse sofrido e não trouxesse em suas chagas as chagas da humanidade. Possivelmente, Tomé tivesse uma fé de tipo “new age”, de puras melodias interiores, que não se visibiliza no serviço e no cuidado aos outros.

Jesus respondeu à incredulidade de Tomé mostrando suas feridas; só assim, em contato de corporalidade a corporalidade, em encontro com a Vida triunfante de Cristo, pode realizar-se a experiência de Páscoa.

Tocar o Verbo de Deus”, tocando as chagas dos crucificados: este é o tema deste domingo. Isto é o que devemos todos fazer, se cremos na Ressurreição. Sem chagas do Crucificado não há Páscoa. Sem corporalidade do Ressuscitado não existe cristianismo.

Muitos de nós preferimos continuar buscando uma Igreja bela, de glória, fechada em si mesma, de espaços sem ar de liberdade, preocupada somente com sua doutrina, seus ritos e liturgias celestiais, mas separada da comunidade dos pobres e sofredores ... Temos medo de compartilhar a vida e de “tocar” a ferida de Jesus, que são suas chagas, as chagas da igreja e da humanidade. Se esquecemos isto, esquecemos a Páscoa.

Por isso, o Senhor ressuscitado continua sendo Aquele que traz em suas mãos e lado as feridas de sua entrega, os sinais de seu amor crucificado em favor da humanidade. O Senhor ressuscitado continua sendo Aquele que sofre em todos os sofredores do mundo.

Certamente, nós cristãos podemos e devemos afirmar que “tocamos” o Jesus ressuscitado com as mãos da fé, em um espaço novo de “corporalidade mística”. Mas não podemos tocá-Lo só em um plano de “ideias”, de belas experiências interiores, senão na realidade da carne, da vida concreta: temos que tocar as chagas dos crucificados, na vida concreta dos rejeitados da sociedade. Ali está Jesus como Aquele que vem ao nosso encontro como promessa de vida.

Os mesmos sinais de morte (cravos que ataram as mãos e pés de Jesus no madeiro, lança que perfurou seu coração) revelam-se como sinais de vida, mas não para esquecermos deles, senão para tê-los sempre presentes na vida da comunidade, nas experiências de amor ativo que nos leva a descobrir o caminho pascal em todos os sofredores e chagados da história.

Tomé viu, tocou e apalpou as chagas da entrega radical de Jesus. E justamente ali, naquilo que entra pelos sentidos, Tomé se deu de cara com a fé: “Meu Senhor e meu Deus”. Hoje a presença de Jesus está ali onde os que lhe buscam, encontram chagas de dor e morte. Se, em lugar disso, encontram poder, pompa, prestígio, não poderão dizer: “Meu Senhor e meu Deus”.

O Ressuscitado, ao conservar e mostrar as feridas abertas nas suas mãos e no seu lado, quer que saibamos que se apropriou também das nossas feridas; nas feridas do Crucificado, somos movidos a mostrar nossas feridas; porque carregou nossas dores, nossas feridas Lhe pertencem; assim, nossas feridas, sanadas pelas chagas de Jesus, se convertem em sinal de vida, porque abrem possibilidades de futuro.

As feridas são tudo aquilo que é vulnerado, fragilizado e debilitado, que permanece em nós depois de situações de sofrimento, de frustração ou de perda. Há antigas feridas, velhas e enraizadas, que parasitam nossas forças impedindo o fluir de nossa vida. São como sabotadoras que vão fragilizando nossa estrutura interna e tornando a vida amarga. Sua aparição é típica nos momentos de crise.

É no meio das feridas, pessoais e coletivas, que o Ressuscitado se faz presente, exercendo o “ofício do consolador” (S. Inácio). O “ofício de consolar” é a marca do Ressuscitado, é força recriadora e reconstrutora de vidas despedaçadas. Jesus “toca” as feridas e “ressuscita” cada um dos seus amigos e amigas, ativando neles(as) o sentido da vida, reconstruindo os laços comunitários rompidos, e sobretudo, oferecendo solo firme a quem estava sem chão, sem direção...

A partir da experiência do encontro com o Ressuscitado podemos recuperar a dimensão do tato como possibilidade de viver de forma mais humanizadora e plena. Os sentidos, e de maneira especial o tato, nos fazem mais humanos, nos tornam mais sensíveis, nos ajudam na descoberta do corpo ferido do outro, fazem palpável o amor, nos ajudam a reavivar a beleza do transcendente em cada pessoa.

Jesus sabia deste tocar bem concreto: através de suas mãos fez presente o amor do Pai ao tocar com ternura os corpos das pessoas excluídas, violentadas, consideradas indignas de serem tocadas, nem amadas. O mesmo Jesus se deixa tocar em um momento de grande vulnerabilidade: numa situação de angústia e temor, recebe o contato, a proximidade e a carícia de uma mulher que o unge com perfume (Jo. 12, 1-8).

Ressuscitar o tato é sentir-se próximo, acolhedor, terno... Mas, antes é preciso deixar cair as barreiras; nosso mundo está cheio de alambrados, valas, muros e fronteiras; assim nos defendemos daqueles que são de outra raça, cor, religião, classe social... Comecemos apagando nossos preconceitos antes de tentar tocar.

Ninguém toca ninguém “de longe”. Estaremos “tocando o Ressuscitado” quando nos aproximamos d’Ele com uma visita, um telefonema, uma mensagem, uma saudação na rua, um favor, um serviço prestado com amor. Há templos famosos pela liturgia da oração tátil: orfanatos, hospitais, cárceres, periferias, sanatórios, asilos, favelas... Não deixemos de frequentá-los, pois é ali que “tocamos a carne de Cristo”.

Que Tomé e todos nós toquemos o lado aberto de Jesus e suas mãos feridas, de maneira que o contato com o sofrimento do mundo nos transforme e nos faça capazes de expandir a vida de Deus.
Texto bíblico:  Jo 20,19-31

Na oração: contemplar o Ressuscitado significa também “ressuscitar nossos sentidos”, torná-los mais oblativos e abertos para se deixarem impactar pela realidade crucificada.

- À Luz da Páscoa, como você reage diante de tantos crucificados, vítimas de intolerância, preconceito, violência verbal, indiferença?

Pe. Adroaldo Palaoro sj

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sábado, 7 de abril de 2018

ENQUANTO ISSO, NO SUPREMO – Carlos José Marques

06/abr/18
Enquanto isso, no Supremo 



Estão expostas, não é de hoje, as vísceras e mazelas de um Supremo claramente contaminado pelo cancro político. Em estágio avançado de metástase. Trata-se, no caso, de uma doença implacável já que dos tribunais é esperada a tão imperiosa máxima da isenção sem limites. Ao menos no que tange um punhado de doutos ministros o princípio virou quimera. Para essa ala restrita de togados, ao que tudo indica, as simpatias pessoais e eventuais prestações de favores podem sobrepor-se inclusive ao mérito das causas. Aqui e acolá uma jurisprudência sob encomenda é sacada do colete, a depender do freguês, para justificar viradas de opinião de última hora de vossas excelências. Nenhum dos 11 magistrados que participaram da solene sessão que desaguou no pedido de encarceramento de Lula sabe dizer exatamente a razão pela qual a Suprema Corte voltou a discutir a prisão em segunda instância, justamente nesse momento, menos de dois anos após o colegiado firmar entendimento sobre o tema. Como indagou o ministro Barroso, referindo-se a oscilação jurisprudencial: “mudar para quê? Pior, mudar para quem?”. Não há argumento convincente que não o do mero casuísmo, atendendo às necessidades de um ex-presidente que se encontra no cadafalso do rigor penal por crime de corrupção. É fato sacramentado nessas paragens: o nome de capa nos processos pesa. Prevalece o prestígio e aparato legal do “paciente”. Vigora, sem sombra de dúvidas, o arbítrio de quem pode mais, a reforçar as distâncias abissais de tratamento judicial entre os que se encontram no andar de cima e os do andar de baixo da pirâmide social. Simples assim. As disfunções do sistema judicial são por demais conhecidas do grande público. A rotina do batedor de carteira, do ladrão de galinhas, do garoto flagrado com 100 gramas de droga é cadeia na certa – lugar onde majoritariamente mofam sem chances, sequer pecuniárias, de frequentar as várias instâncias de apelação. Já para aqueles condenados abonados, de dinheiro farto, capazes de bancar bons advogados, e para os poderosos influentes, a vida segue sem punições por anos a fio, na base dos embargos infringentes, declaratórios, protelatórios e quetais. Os verdadeiros bandidos do Brasil, cujas abomináveis práticas de desvios públicos e privados colocam de joelhos uma nação inteira, quase nunca ou nunca são presos. O sistema estimula o avanço acelerado do contingente de ricos delinquentes por aqui.

A ecoar, mais uma vez, a histórica defesa do magistrado Barroso, o que se tem no Brasil não é a sensação de impunidade, é a própria impunidade em si, com efeitos devastadoramente negativos. É bem verdade que a primeira prisão por delito de um ex-presidente brasileiro denota um ponto de inflexão importante. Pode estar aberto o caminho para a retomada da credibilidade e dignidade da Justiça junto à população. Um sistema legal que estimula a obstinação procrastinatória dos condenados faz as pessoas acreditarem que o crime compensa. A expectativa e o desejo da sociedade é que a detenção de Lula puxe ainda mais a fila de malfeitores do colarinho branco para as cadeias, onde é seu lugar. Lamentavelmente, no que se refere ao chefão petista, pode ser por pouco tempo. Há uma tropa de choque suprema, claramente inconformada com o resultado, que ainda tenta brechas para de novo ressuscitar a discussão do ordenamento jurídico em vigor, embora o tema já tenha sido votado por três vezes nos últimos tempos. O relator das chamadas ADCs (Ações Declaratórias de Constitucionalidade), Marco Aurélio Mello, promete botar o País mais uma vez em desassossego, requisitando à plenária do STF a votação de uma liminar neste sentido. E mais: ameaça, abertamente, a desobediência aos preceitos estabelecidos no colegiado quando for avaliar os processos sob seus cuidados. Cabe aqui a questão: pode um ministro, vencido na sua arguição pelo voto dos demais, simplesmente se postar contra a orientação da maioria? Não deveria. É o que gera insegurança jurídica. O STF tem como missão fundamental uniformizar o entendimento geral. Mas a imprevisibilidade segue como tônica naquela Corte. Por conta disso, juízes de tribunais inferiores são induzidos a tomar decisões levados quase que pelas próprias convicções. O que pode fazer se as regras seguem cambiantes por força das interpretações de veneta de vossas excelências? Observe-se, por exemplo, o comportamento do ministro Gilmar Mendes que ora advoga pela prisão em segunda instância, ora a abomina por provocar o que chama de “onda de neopunitivismo”. Gilmar Mendes se sente admoestado pela imprensa. Diz que a “mídia é opressiva” e atribui a ela a responsabilidade por ser perseguido nas ruas por cidadãos que reclamam da impunidade. Não são seus atos o motivo de tamanha impopularidade. Da mesma maneira, no seu entender, não é abusiva a permissividade que se estabelece com os recursos em cascata, misturando presunção de inocência e punição. A Lei não diz que “ninguém pode ser preso antes do trânsito em julgado”. Ela aponta que “ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado”. Coisas bem diferentes. Desde 1941, incluindo o período da Constituinte de 1988, vem sendo adotada a prisão em segunda instância. A interpretação contrária só vigorou no curto espaço de tempo entre 2009 e 2016. A singularidade brasileira quanto ao critério do trânsito em julgado não impede, decerto, o cumprimento de pena. Mas alguns magistrados insistem em rever esse preceito. Por que agora? Com qual objetivo?

Sobre o autor
Carlos José Marques é diretor editorial da Editora Três



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DA IMPORTÂNCIA DA ALEGRIA – Paulo Coelho


O lavrador e o sábio
O sábio indiano Narada pediu que Deus lhe mostrasse um homem amado por Ele. O Senhor aconselhou-o a procurar certo lavrador.
- O que você faz para que o Senhor lhe ame tanto? - perguntou Narada ao lavrador, quando encontrou-o.
- Digo Seu nome de manhã. Trabalho o dia inteiro, de noite divirto-me um pouco, e digo de novo o Seu nome antes de dormir.
- Só isso?
- Só isso.
"Acho que errei de homem", pensou Narada. Naquela noite, ele teve um sonho: O Senhor aparecia pedindo:
"Encha uma tigela de leite, vá até a cidade e volte - sem derramar uma gota sequer".
Na manhã seguinte Narada - acostumado a seguir os sinais - fez o que o Senhor lhe ordenava. E de noite, teve outro sonho, onde Deus aparecia perguntando:
"Quantas vezes você pensou em mim, enquanto carregava o leite?".
"Como podia pensar no Altíssimo? Estava preocupado para não derramar o conteúdo da tigela!".
"Uma simples tigela fez você Me esquecer. E o lavrador, como todos os seus afazeres e com sua diversão noturna, pensa em Mim duas vezes ao dia".

A loja em Bagdá
Abu Sari tinha uma loja de quinquilharias no meio do principal mercado de Bagdá. Passava o dia vendendo, comprando, e barganhando com os fregueses.
Mas, toda tarde saía para seu pequeno jardim nos fundos, e rezava.
Certa vez foi procurado por um monge, que dizia estar próximo de Deus, e queria compartilhar com Abu Sari sua felicidade.
- Onde você vive? - perguntou o comerciante.
- Nas montanhas. Ali consigo contemplar a face do Altíssimo, e mergulhar em suas bênçãos.
- Se você mora nas montanhas, isto significa que está distante dos homens, e quem se afasta das criaturas que Ele criou não pode estar próximo do mundo espiritual.
"Um homem iluminado vive no meio de um mercado, cuida de seus filhos, protege sua família, e é justamente sua vida normal que o faz estar sempre perto da presença de Deus".

Só a metade é sagrada?
O venerável Nitju aproximou-se do mestre, fez uma reverência, e sentou-se ao seu lado.
- Tenho feito as meditações, preces, e os exercícios que o senhor mandou. Mas eles não ocupam todo o meu tempo, e então saio com amigos e amigas.
O mestre não disse nada. Nitju continuou:
- E fico com a sensação de que só metade do que faço é sagrado.
- Você, quando está na mesa com os amigos, aplica os conhecimentos adquiridos durante as práticas espirituais?
- Não. Apenas me divirto.
- Então, o seu dia é inteiramente sagrado. Porque equilibra a disciplina da Busca com a alegria da Vida - concluiu o mestre.

Na estrada de Damasco
O homem caminhava pela estrada de Damasco. Lembrava seu amor perdido, e sua alma estava em prantos. "Pobre do ser humano que conhece o amor", pensava. "Jamais será feliz, com o medo de perder a quem ama".
Neste momento, escutou um rouxinol cantando.
- Por que você age assim? - disse o homem ao rouxinol. - Não vê que minha amada, que gostava tanto de seu canto, já não está mais aqui ao meu lado?
- Canto porque estou contente - respondeu o rouxinol.
- Você nunca perdeu alguém? - insistiu o homem.
- Muitas vezes - respondeu o rouxinol. - Mas meu amor continuou o mesmo.
E o homem sentiu mais esperança em seu caminho.

Diário do Nordeste , 31/03/2018
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Paulo Coelho - Oitavo ocupante da Cadeira nº 21da ABL, eleito em 25 de julho de 2002 na sucessão de Roberto Campos e recebido em 28 de outubro de 2002 pelo Acadêmico Arnaldo Niskier.

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DA APRENDIZAGEM A CRIAÇÃO - Jennifer Hoffman


Os desejos de nosso coração estão entrelaçados com as lições e feridas da alma, que são a nossa experiência humana.. O desejo de maior realização, amor e abundância origina-se do nosso conhecimento da limitação, que resulta de estarmos desconectado da fonte. Faz parte da humanidade conhecer o medo antes que possa abraçar o amor! Faz parte da humanidade conhecer a dúvida antes que possa confiar! Faz parte da humanidade conhecer a tristeza antes que possa permitir a alegria!

O conhecimento das limitações da experiência humana pode levar-nos a crer que as energias superiores estão fora de nosso alcance. Isso ocorre porque a energia de polaridade da Terra  nos permite vivenciar todos os aspectos e âmbitos de toda energia. Cada um de nós vive a vida por meio de duas etapas: Aprendizagem e Criação. Quando estamos aprendendo, estamos experimentando a vida através da alma ferida, atraindo e manifestando a partir das energias que viemos curar.

Esses tempos são desafiadores para nós, mas, por meio do nosso contrato de alma, nós concordamos em compreender a origem da nossa desconexão e como o nosso medo a criou. Porém, ficamos ancorados no medo ao invés de ficarmos na luz de nossa verdade como criadores, nos esquecemos de que há sempre outro caminho, uma verdade mais elevada, um caminho mais gratificante e uma luz mais luminosa que brilha até mesmo nos momentos mais sombrios. Logo que terminemos a etapa de aprendizagem, entramos na etapa de criação, que ocorre quando abraçamos nosso poder cocriativo, alinhamos com os nossos sonhos e começamos a manifestar a partir do nível energético acima da dor. Cada nível acima da dor e do medo é um aspecto mais elevado dessas energias.

Se experimentarmos desafios contínuos é porque ainda não concluímos o perdão, que é passar da aprendizagem para a criação. A vibração energética da dor é aquela com que o ego está mais familiarizado e confortável, mas é liberada logo que o perdão, a nós e aos demais, seja consumado. A dor faz parte da experiência humana, mas é um caminho que escolhemos quando estamos na etapa de aprendizagem e somos conduzidos pelo ego ou pelas emoções.

Cada momento de desespero inclui uma escolha da energia oposta, da alegria. Quando soubermos que podemos escolher um aspecto mais elevado de toda energia, passamos da aprendizagem para a criação. Lembremos de nós mesmos como co-criadores, como mestres da energia da Terra. Podemos transformar qualquer coisa, porque  nosso poder é ilimitado. Estejamos atentos ao fato de que com todos os pensamentos estamos aprendendo ou criando, na dor ou na alegria, expressando medo ou amor, e que o caminho que nós tomamos é sempre de nossa livre escolha.


 "Gotas de Crystal" <gotasdecrystal@gmail..com>

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