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sábado, 23 de dezembro de 2017

SÃO NICOLAU, “PAPAI NOEL” E O SIGNIFICADO DO NATAL

23 de dezembro de 2017
São Nicolau entrega presentes às crianças – Pintura de Fritz Tüshaus (1832-1885). Stadtmuseum, Münster (Alemanha).

A figura de São Nicolau acompanha o processo de decadência da Cristandade iniciado com a Revolução Protestante, que transformou o sentido sacrossanto do Natal.

Alejandro Ezcurra Naón

No Natal celebramos o momento culminante da história humana em que Deus feito homem veio ao mundo e “habitou entre nós” (Jo 1, 14). O nascimento do Menino Jesus constitui um transbordamento incomensurável de amor divino: o Verbo de Deus reveste-se de nossa natureza para reparar como homem ao Padre Eterno todos os nossos pecados e abrir-nos assim as portas do Céu.

A festa da pureza, da família e das crianças
A festa de Natal é por excelência a festa da inocência, da pureza, das alegrias castas, serenas e profundas. Aquele terno Menino que repousa num presépio é o “esperado das nações” (Gn. 49,10). o Messias cuja única presença restaura a Ordem vulnerada pelo pecado e inaugura a Era da Graça, tornando-nos capazes de praticar todo o bem.
Natal é também a festa da família, porque envolve a Família por excelência que é a Sagrada Família, constituída pelo Menino Jesus, por sua Mãe Santíssima — Virgem antes, durante e depois do parto — e por seu pai legal, o patriarca São José, herdeiro do trono de David.
Sendo a festa da família, o Natal não pode deixar de ser a festa das crianças. Ao longo dos séculos, a Igreja procurou rodeá-lo de manifestações que também nos pequenos despertassem sentimentos de devoção e piedade para com Aquele “a quem os céus não podem conter” (Do Officium Parvum B. Mariӕ Virginis, Matinas, 1ª Lição), e que, entretanto, se fez pequenino como eles e para eles.
Foram assim aparecendo costumes — músicas, representações cênicas, orações, comidas, presentes — ou formas especiais de adornar as casas, como o Presépio, prática inaugurada por São Francisco de Assis e que se propagou rapidamente por todo o mundo cristão.
E assim como o espanhol é o povo que mais se comove com os sofrimentos da Paixão do Redentor e o eslavo com a celebração da Páscoa da Ressurreição, o germânico é sem dúvida o que mais se maravilha com o santo mistério do Natal.

“Papai Noel” na Palestina, no Japão e de camelo nos países árabes. Um velhote sem profissão nem religião conhecida, podendo perfeitamente ser um agnóstico e mentalmente um tanto decrépito, que reparte presentes não se sabe para quê nem por conta de quem…

Pedagogia natalina: a visita de São Nicolau

Um dos costumes natalinos mais encantadores surgidos na Alemanha é a visita de São Nicolau às crianças, preparando-as para essa grande festividade.
Ele é também conhecido como São Nicolau de Bari. Sabemos que foi bispo da cidade de Mira, na Lícia romana (atual sudeste da Turquia), no século IV, tendo combatido os cultos pagãos e a heresia ariana, a qual negava a dupla natureza divina e humana de Jesus Cristo. Ele participou do Concílio de Niceia, que definiu os doze artigos da fé católica contidos no Credo. Após uma vida repleta de fatos extraordinários, São Nicolau faleceu em dezembro do ano de 345.


Quando os muçulmanos invadiram a Turquia, suas relíquias foram resgatadas e trasladadas para Bari, na Itália, onde são veneradas até hoje. Iniciou-se assim sua grande fama no Ocidente. A devoção a São Nicolau ficou associada às crianças, porque além de tê-las escolhido como objeto de sua especial caridade, nelas operou muitos milagres, alguns dos quais tão estupendos como a ressurreição de três meninos assassinados por um hospedeiro.

O Bispo São Nicolau, celebrado na Alemanha
Surgiu por esse motivo na Alemanha medieval um simpático costume, que perdura até hoje em algumas regiões católicas: no dia 6 de dezembro, festa do santo bispo, um venerável “São Nicolau” de barbas brancas, revestido com solenes trajes episcopais, mitra e báculo, visita as casas para perguntar como as crianças procederam durante o ano. As que se comportaram bem ganham doces e outros presentes, enquanto as malcomportadas recebem apenas um pequeno pedaço de carvão…
Essa visita do santo aos lares era acompanhada de cantos, recitações etc., e constituía uma excelente forma de gerar expectativa nas famílias pela chegada do Menino Deus.

Esvaziamento e perversão: de São Nicolau ao “Papai Noel”
Mas com a revolução protestante tudo se transtornou. É muito instrutivo verificar como a degradação da figura de São Nicolau acompanha as etapas do processo de decadência da Cristandade descrito por Plinio Corrêa de Oliveira em seu célebre ensaio Revolução e Contra-Revolução.
Durante a pseudo-Reforma chefiada por Lutero — por incrível que pareça, comemorada há pouco em ambientes progressistas da Igreja Católica —, para se colocar no mesmo nível do igualitarismo calvinista, as vestimentas episcopais de São Nicolau desapareceram em alguns países, sendo substituídas por uma roupa civil. Como os protestantes não têm hierarquia eclesiástica nem culto aos santos, a própria figura do santo bispo foi diluída. Assim deformado, no século seguinte passou para a América do Norte.

De São Nicolau ao Papai Noel comercial…
No século XIX, ao sopro das ideias da Revolução Francesa, essa versão norte-americana do personagem — ao qual se passou chamar “Santa Claus” e que guardava ainda certos vestígios de São Nicolau — se laicizou completamente, transformando-se no fictício “Papai Noel” que hoje conhecemos: um velho de aspecto vulgar, obeso e bonacheirão, sem profissão nem religião conhecida, podendo perfeitamente ser um agnóstico e mentalmente um tanto decrépito, que reparte presentes não se sabe para quê nem por conta de quem… Quem lucra? — O comércio!
Já no século XX, novo passo na decadência: com a hegemonia política iniciada pelos Estados Unidos a partir da vitória aliada na Guerra de 1914-1918 sobreveio uma concomitante hegemonia cultural norte-americana que impôs universalmente os estilos do American way of life.
Com isso, um “Papai Noel” tosco e proletário, ícone de marketing da Coca-Cola, transformou-se nos anos 30 em principal personagem do Natal daquele país, tirando dos espaços públicos das comemorações natalinas as figuras da Sagrada Família e dos Reis Magos, enquanto o Jingle Bellsinsípido e trepidante substituía as suaves harmonias do Stille Nacht (Noite Feliz) — o canto natalino por excelência — e os tradicionais carols (cânticos) anglo-saxões. Versões ridículas do Papai Noel se difundiram assim por todo o mundo, esvaziando gradualmente o Natal do Menino Jesus de seu sublime significado original e transformando-o numa mera celebração comercial.

Fim de um processo e certeza de regeneração
Assistimos agora à etapa final desse esvaziamento. Coincidindo com a revolução cultural que ameaça precipitar o Ocidente na mais completa dissolução moral e social, nas últimas décadas aberrantes apareceram “Mamães Noel” — inicialmente extravagantes, depois feministas, mais tarde sensuais e, por fim, pornográficas —, símbolos da perversão revolucionária do Natal.
Assim, das alegrias inocentes à voluptuosidade; da serenidade maravilhada ao frenesi; da pureza aos impulsos infrenes; da luz de Cristo às pompas de satanás, chegamos ao fim de uma sequência de abominações que procuram converter a magna festa da Cristandade — a celebração do nascimento do Salvador do mundo — no extremo oposto do que ela substancialmente é.
Mas o verdadeiro Natal não morre: ele continua palpitando nos corações de todos aqueles que adoram o Divino Infante “em espírito e em verdade” (Jo 4, 24) e esperam a era de glória para a Igreja e de regeneração e esplendor para a Cristandade, anunciada há um século em Fátima.

“EU REINAREI”

Na base da imagem do precioso Menino Jesus venerado no Santuário do Bairro 20 de Julho, em Bogotá, e popularizado em todo o orbe católico, lemos esta categórica afirmação: “Eu reinarei”. Com a confiança que nasce da fé, peçamos neste Natal ao Menino Jesus que torne o quanto antes realidade esta promessa, suplicando-Lhe com toda a Igreja: “Veni, Dómine, et noli tardare: relaxa facinora plebis tuae Israel” — “Vem, Senhor, e não tardeis: perdoa os pecados de teu povo”. (Liturgia do Advento, Domingo IV, Gradual).      



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DOM CESLAU STANULA Do laicato e dos leigos (2)

21/12/2017
Do laicato e dos leigos VIII

 (Ainda antes do Natal teremos a reflexão  hoje e amanhã sobre os leigos e depois faremos o intervalo para viver as emoções natalinas).

As organizações dos leigos são legitimas e necessárias para cumprir melhor a missão. Além da organização nacional CNLB, Conselho Nacional do Laicato no Brasil, com seu Estatuto e organização interna, existe uma plêiade de outras organizações dos leigos no Brasil e no mundo.
Como disse, estas organizações são legitimas e até necessárias. Cada um se deve determinar onde pode, e se sente chamado para cumprir a sua missão de leigo. 

O mais novo documento da CNBB, Nº 105, no capítulo III, dedica vários parágrafos sobre a organização dos leigos no Brasil (201-224).

Mas a mais conhecida organização de leigos são as pastorais. Pela Pastoral se entende a ação da Igreja Católica no mundo ou o conjunto de atividades pelas quais a Igreja toda (os cristãos ordenados ou não) realizam a sua missão, que consiste em continuar a ação de Jesus Cristo. A palavra “pastoral” vem do pastor, que era um elemento constante no mundo bíblico. Na simbologia bíblica, Deus é comparado ao pastor, aquele que tem ao mesmo tempo autoridade e solicitude para com suas ovelhas. 

Jesus Cristo no Evangelho de João (J.10,11) se determina como Bom Pastor. (Continuaremos...).

Uma Boa e santa Noite, Com a minha benção e oração. 
Dom Ceslau.

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22/12/2017
Do laicato e dos leigos IX

A Igreja Católica, continuando a missão a ela confiada pelo Bom Pastor Jesus, realiza a sua ação através de três funções pastorais:

Função profética: abrange as diversas formas do ministério da Palavra de Deus (evangelização, catequese e homilia), bem como a formação espiritual dos católicos. Anunciando a mensagem de Deus e denunciando tudo aquilo que destoa desta mensagem.

Função litúrgica: refere-se à celebração dos sacramentos, sobretudo da Eucaristia, à oração e aos sacramentais. Santificação do Povo de Deus.

Função real: diz respeito à promoção e orientação das comunidades, à organização da caridade e à animação cristã das realidades terrestres. Neste último aspecto, a ação da Igreja engloba campos da sociedade como a saúde, a juventude, a solidariedade social, a educação e o meio ambiente.

(Achei interessante esta distinção da ação da Igreja e a função dos pastorais, por isso copiei da: Wikipédia - Ação pastoral católica – Internet).
Com a minha benção, desejos de Feliz Natal e humilde oração. 
Dom Ceslau.

 Enviado do meu smartphone Samsung Galaxy.

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Dom Ceslau Stanula – Bispo Emérito da Diocese de Itabuna-BA, escritor, Membro da Academia Grapiúna de Letras-AGRAL

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quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

ITABUNA CENTENÁRIA PELA SUA SAÚDE Para idosos...

Para Idosos, quase idosos e longe de estarem idosos


Sempre que dou aula de clínica médica a estudantes do quarto ano de medicina, lanço a pergunta: "quais as causas que mais fazem o vovô ou a vovó terem confusão mental?" alguns arriscam: "tumor na cabeça". Eu digo: "não". Outros apostam: "mal de Alzheimer". Respondo, novamente: “não". A cada negativa a turma espanta-se.
E fica ainda mais boquiaberta quando enumero os três responsáveis mais comuns: diabetes descontrolado; infecção urinária; a família passou um dia inteiro no shopping, enquanto os idosos ficaram em casa.

Parece brincadeira, mas não é. Constantemente vovô e vovó, sem sentir sede, deixam de tomar líquidos. Quando falta gente em casa para lembrá-los, desidratam-se com rapidez. A desidratação tende a ser grave e afeta todo o organismo. Pode causar confusão mental abrupta, queda de pressão arterial, aumento dos batimentos cardíacos ("batedeira"), angina 
(dor no peito), coma e até morte.

Insisto: não é brincadeira. Ao nascermos, 90% do nosso corpo é
constituído de água. Na adolescência, isso cai para 70%. Na fase adulta, para 60%. Na terceira idade, que começa aos 60 anos, temos pouco mais de 50% de água. Isso faz parte do processo natural de envelhecimento. Portanto, de saída, os idosos têm menor reserva hídrica. Mas há outro complicador: mesmo desidratados, eles não sentem vontade de tomar água, pois os seus mecanismos de equilíbrio interno não funcionam muito bem.

Explico: nós temos sensores de água em várias partes do organismo. São eles que verificam a adequação do nível. Quando ele cai, aciona-se automaticamente um "alarme". Pouca água significa menor quantidade de sangue, de oxigênio e de sais minerais em nossas artérias e veias. Por isso, o corpo "pede" água. A informação é passada ao cérebro, a gente
sente sede e sai em busca de líquidos.

Nos idosos, porém, esses mecanismos são menos eficientes. A detecção de falta de água corporal e a percepção da sede fica prejudicada. Alguns, ainda, devido a certas doenças, como a dolorosa artrose, evitam movimentar-se até para ir tomar água. Conclusão: idosos desidratam-se facilmente não apenas porque possuem reserva hídrica menor, mas também porque percebem menos a falta de água em seu corpo. Além disso, para a
desidratação ser grave, eles não precisam de grandes perdas, como
diarreias, vômitos ou exposição intensa ao sol. Basta o dia estar quente - e o verão já vem aí - ou a umidade do ar baixar muito - como tem sido comum nos últimos meses. Nessas situações, perde-se mais água pela respiração e pelo suor. Se não houver reposição adequada, é desidratação na certa. Mesmo que o idoso seja  saudável, fica prejudicado o desempenho das reações químicas e funções de todo o seu organismo.

Por isso, aqui vão dois alertas. O primeiro é para vovós e vovôs: tornem voluntário o hábito de beber líquidos. Bebam toda vez que houver uma oportunidade. Por líquido entenda-se água, sucos, chás, água-de-coco, leite. Sopa, gelatina e frutas ricas em água, como melão, melancia, abacaxi, laranja e tangerina, também funcionam. O importante é, a cada duas horas, botar algum líquido para dentro. Lembrem-se disso!

Meu segundo alerta é para os familiares: ofereçam constantemente
líquidos aos idosos. Lembrem-lhes de que isso é vital. Ao mesmo tempo, fiquem atentos. Ao perceberem que estão rejeitando líquidos e, de um dia para o outro, ficam confusos, irritadiços, fora do ar, atenção. É quase certo que esses sintomas sejam decorrentes de desidratação. Líquido neles e rápido para um serviço médico.



Arnaldo Lichtenstein, médico, é clínico-geral do Hospital das
Clínicas e professor colaborador do departamento de clínica médica da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).

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FELIZ NATAL – Dom Ceslau Stanula

Feliz Natal

“Onde está a fila para ver Jesus, pergunta a criança a uma moça no shopping – se no Natal celebramos o seu Nascimento, Ele está na loja aqui? Porque não o vemos mais? Ele nasceu para mim. Papai Noel traz presentes, mas Jesus deu a vida por mim”. (Canto circulando na rede há poucos dias).  Fiquei pensativo e também me perguntando: “onde está a fila para ver Jesus?”. Na realidade Ele não está nas filas das lojas dos shoppings, não está nas ruas coloridas, nos palácios dos homens públicos.

Ele está nas filas do INSS, nas filas para marcar uma consulta nos vazios postos de saúde, ele está nos corredores entupidos de macas com os doentes nos hospitais, Ele está nas filas dos desempregados, está na fila dos pobres empurrados para a rua pela corrupção reinante em todos os escalões. (Mt.25,40)

“Glória a Deus no mais alto dos céus e na terra paz aos homens” (Lc 2,14), que o encontraram e levaram consigo para o Presépio do seu coração com carinho, amor e esperança. 

Feliz Natal e Abençoado Ano Novo.

São os votos do amigo e irmão

Dom Ceslau Stanula, CSsR

Bispo Emérito de Itabuna.

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quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

CÉLULA DE LUZ - Dassigny


Célula de Luz

Como Célula de Luz
Libere sua energia ao redor
Ilumine quem estiver por perto.
Seja a LUZ na vida de alguém
Seja Célula de Luz agora
Você é! Você sabe!
Você sente o Fogo da Luz em você.
ILUMINE. BRILHE. LUZ INTENSA!

Na luz do dia, Em plena Luz do dia
Lembre-se da Luz que você é!
Lembre-se da consciência que você é!
Lembre-se da Luz divina que você é!

Lembre-se dessa Luz
Que vestiu um corpo humano
Para respirar a brisa
Que vem do mar ou da mata
Respirar a brisa
Carregada de aromas vegetais!

Para admirar a beleza do pôr do Sol
Respirar o luar
Nadar no mar
Andar ao luar
Para compartilhar da Grande Aventura!
Compartilhar da Permanente
Criação do Universo!

Assim, nesse estado de graça
Nesse estado de felicidade
De realidade plena
Com carinho, Lembre-se
De um momento de plenitude!

Lembre-se desse dia quando você
Estava ao melhor da sua vitalidade!
Você estava passeando
na beira mar ou na mata.

Deixe seu corpo lembrar-se!
Lembrar-se dessa sensação
de Paraíso Terrestre!
Seu corpo lembrar-se dessa leveza
Dessa força tranquila
Dessa vitalidade encantada!
Você admirava a beleza de uma árvore
As ondas do mar na praia
Com seu corpo admirava
A beleza natural do lugar.

E você sabe, seu corpo sabe!
Assim fazendo, você está falando
Com uma tremenda inteligência
Com a inteligência orgânica em você.
Assim fazendo
Essa inteligência orgânica em você
Lembra-se como manter uma saúde plena
Uma saúde de Paraíso Terrestre
Em alegria com a Natureza
Com a Vida.

Com seu corpo inteiro sentindo
Lembrando-se desse passeio
em plena felicidade
Deixando o passeio de novo
Encantar seu corpo
Alegrar-se no seu corpo
Deliciar-se!

E enquanto seu corpo memoriza
Esse bem estar em plenitude
Você continua lembrar-se
E deixa nascer Em você
Uma canção
Como uma respiração!
Como a respiração que vem da terra
Vem do mais profundo
Vem das raízes das plantas
Da terra, da Terra Divina

A canção natural
Das árvores
Das plantas
A canção da seiva e da primavera
Subindo da terra
Subindo no seu corpo
O cantar dos pássaros
A beleza do levantar do Sol
Massageando seu corpo
Deliciando-se no seu corpo!


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Enviado por: " Gotas de Crystal" <gotasdecrystal@gmail..com>

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RIO DE JANEIRO ANTES E DEPOIS, de CYRO DE MATTOS

A primeira vez que vi o Rio de Janeiro foi pela janelinha do avião. Perde-se na memória dos anos quando isso aconteceu. Por ter sido aprovado no exame do vestibular do curso de Direito, em Salvador, recebi como presente do pai uma viagem para conhecer o Rio de Janeiro onde permaneceria durante trinta dias, divertindo-me e conhecendo os lugares pitorescos da cidade cantada como maravilhosa em nosso cancioneiro.
  
Na minha terra natal, no interior da Bahia, e em Salvador, onde fui estudar o curso clássico, ouvia ser chamada de maravilhosa a cidade que seduzia os brasileiros e gente que vinha do estrangeiro para conhecê-la de perto, com o seu jeito mestiço e alegre. Uma canção dizia que Copacabana era a princesinha do mar, não existia praia mais bela cheia de luz, nas suas areias desfilavam sereias.

O Maracanã tinha jogos empolgantes, entre as principais equipes cariocas, era uma festa de bandeiras, erguidas por torcedores vibrantes, a cada lance empolgante da partida jogada no tapete verde. De qualquer lugar você via o Cristo abençoar a cidade, os generosos braços abertos ao abraço imenso. O bondinho do Pão de Açúcar transportava gente brasileira e do estrangeiro para lá em cima do morro percorrer os olhos deslumbrados pela paisagem da cidade embaixo, cercada de morros e favelas, povoada de edifícios como espigões que furavam o céu.

Do Pão de Açúcar você tinha a cidade a seus pés, pressentindo-a com o seu ritmo por dentro, na alegria que irrompia do futebol no Maracanã e nas escolas de samba quando chegava o Carnaval. Havia, nesse tempo bom para ser vivido, sempre um sorriso na passagem da vida, embora as favelas fossem se expandindo por vielas e becos, intimidando lá do morro com as quadrilhas disputando o poder no tráfico de drogas. Gente perigosa descia a ladeira e no asfalto investia contra a cidade, tendo no rosto o espanto do assalto acompanhado da morte.

A cidade ainda não ultrapassava os limites sem fim do seu galope amarelo. Na Rua do Catete, por exemplo, com sua gente nas esquinas, discutia-se futebol e política, as luzes dos postes iluminavam à noite os ônibus e carros que passavam, alguns gatos fugiam dos velhos casarões e vinham caminhar nos passeios. O bairro do Flamengo era povoado de bares, lojas e pensões, o vento trazido do mar despejava o cheiro de maresia nos ares em silêncio.

Durante o dia, no centro, a cidade acontecia com um povo afobado, andando com pressa, a subir nos ônibus, a encher os cafés e as lojas, a entupir os passeios, a zumbir como abelhas nos ruídos de uma colmeia gigantesca. O barulhão dos motores e das buzinas, o fumaceiro dos ônibus, os sacos de lixo nas calçadas, fregueses comprando jornal ou revista nas bancas do passeio e das galerias, tudo isso enchia de prognósticos a vida diária, que a cada dia aumentava com sua gente, entre o alegre e o triste, pressentida do prognóstico que iria extraviar-se por várias direções.
  
A cidade ainda era cantada em prosa e verso como a que tinha encanto de sobra, chegando a causar arrepio. Naqueles idos de 1968, depois da refeição do jantar, ia com a esposa fazer o percurso entre a Rua Correia Dutra e o Largo do Machado. Era bom caminhar despreocupado. Sentir o movimento da cidade que passava segura, sem muita pressa. Voltávamos de mãos dadas, sem ter medo de nada, pois aquele vento bom, que vinha do mar, dava-nos a certeza de que viver naquela cidade grande valia a pena, chegando a ser um privilégio.

Depois de transcorridos alguns anos na cidade grande, voltei a residir em minha terra natal, no interior baiano. Os três filhos, já criados e casados, deram-me seis netos. Quanta generosidade da vida! Se me perguntassem se gostaria de morar hoje no Rio de Janeiro, seria difícil dizer sim. Nem sempre é fácil um homem do interior acostumar-se a morar numa cidade imensa, com ritmo veloz e intenso nos tempos de hoje, de disputa exacerbada pelo espaço, para não se falar do medo que ultrapassou os limites de seu galope amarelo.

Medo de ir ao supermercado. Medo de andar de ônibus. Medo de sair de casa e não voltar. Medo de ser alcançado pelo tiroteio trocado entre a polícia e os traficantes de droga, em plena luz do dia. Medo de ser atropelado por um ônibus, que subiu desembestado no passeio. Medo de ser morto pela briga das torcidas antes mesmo de o jogo ser iniciado. Medo de ser pisoteado na passeata pela multidão, que de repente confrontou-se com a facção rival. Medo de ser queimado no ônibus. Medo de ser morto por uma bala perdida quando estava rezando na missa.

Meu Rio de Janeiro, apesar de todos os traumas dos tempos atuais, gosto muito de você.

*Baiano de Itabuna, onde reside, Cyro de Mattos é contista, novelista, romancista, cronista, poeta, autor de livros para jovens e crianças, organizador de antologia e coletânea. Já publicou quarenta e três livros pessoais no Brasil e doze no exterior: Portugal, Itália, França, Espanha e Alemanha. É membro efetivo da Ordem do Mérito da Bahia, Pen Clube do Brasil, Academia de Letras da Bahia, Academia de Letras de Ilhéus e Academia de Letras de Itabuna. Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual de Santa Cruz (Sul da Bahia). Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México.

Posted by Ivo Korytowski at 10:55   
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terça-feira, 19 de dezembro de 2017

POEMA DE NATAL – Vinícius de Moraes

Poema de Natal


Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.

Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.

Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez, de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.

Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos…
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.


Vinícius de Moraes, Rio de Janeiro, 1946 )
(conferido com o filme Vinícius e no site oficial do poeta)
Enviado por << “A Magia da Poesia” >> Desde 1999, este projeto divulga poemas de grandes poetas sem erros ou falsas autorias.


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