Com sua
beleza enorme em que se retrata a
história da civilização cacaueira baiana, representada em figuras,
símbolos, cenas e paisagens, o painel composto de azulejos, criado pela arte
genial de Genaro de Carvalho, que fica no prédio Comendador Firmino Alves, e
que alojava o antigo Banco Econômico, entre a avenida do Cinquentenário e a
praça Adami, nos idos de 1953, é indiscutivelmente um dos patrimônios
artísticos de incalculável valor pertencente ao
município.
Não se
concebe como essa obra de arte magnífica esteve entregue à indiferença de
prefeitos, secretários de educação e cultura durante décadas, sendo alvo de
toda espécie de mazela. Sobre a sua superfície foram pregados folhetos de propaganda comercial e
política, vários azulejos estavam
quebrados ou rachados, outros tantos não mais existiam. Havia uma banca de jornal e revistas na
frente, erguida na rua, junto ao meio
fio, que obstruía sua visão. Faixas
estendidas de um poste ao outro, anunciando algum evento, poluíam a visão do
painel montado na parede como um monumento de um povo, além do tempo.
A
recuperação do painel deveu-se à nossa
iniciativa quando exercíamos o cargo de gestor cultural da cidade. Atuou como
parceiro desse desafio o Instituto de Patrimônio Artístico e Cultural – IPAC,
sediado em Salvador. Houve a intervenção diplomática para a remoção da banca de revista e jornal, além do comércio informal de vendedores
ambulantes, que com a exposição de seus
produtos, pregados na superfície dos azulejos trabalhados, escondiam,
também, o painel.
Reconhecimento maior
deve-se à atuação de Richard Wagner, um mestre da arte em murais, artista com
fama mundial. Usou seu talento, paciência, amor, técnica exemplar e material
apropriado, adquirido em São Paulo, para
recuperar o painel.
Hoje, passados
tantos anos da sua recuperação, o painel sofre os mesmos abandonos de tempos
passados. Existem agora, em frente ao painel,
duas mesas com guarda-sol de
praia para proteger óculos e outros produtos vendidos por camelôs. O gradil, erguido como protetor do painel,
serve para que sejam expostos óculos pendurados em mantas para atrair eventuais
compradores. Por trás do gradil,
guarda-se bicicleta; papelão, cadeiras
quebradas, jornal velho e lixo são jogados dentro. As faixas, estendidas de um poste a
outro, voltaram com seus anúncios de
algum produto novo e barato para aumentar a poluição visual sobre o painel. Ó
quão amarga é essa agressão a uma peça artística tão valiosa, de inegável
valor, do patrimônio de um município onde nasceu Jorge Amado, o autor mais lido
da língua portuguesa.
Até
quando vai continuar essa indiferença,
deixando o que é belo ao imenso largado ao sabor da sorte? Só depende de boa vontade das autoridades
responsáveis pelo setor para que se reverta o quadro. Não requer muito esforço a mudança na atitude
omissa, apenas uma vigilância atenta,
adicionada a uma política de educação cultural perante a comunidade.
Como se diz, antes tarde do que nunca.
Prefeito, por
favor, dê uma chance ao painel artístico, que retrata a civilização do cacau
nos tempos áureos, do esplêndido Genaro
de Carvalho.
Cyro de
Mattos é autor publicado em vários países europeus, Estados Unidos e México.
Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México. Membro efetivo da Academia de
Letras da Bahia, Academia de Letras de Itabuna e Academia de Letras de Ilhéus.
Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual de Santa Cruz.
Para dispor de um quadro o mais amplo possível da situação
na Igreja, o site do Instituto Plinio Corrêa de Oliveira deu a
conhecer aos seus leitores uma notícia difundida no dia 24 de setembro último,
pelos coordenadores de uma carta dirigida ao Papa Francisco por 62
eclesiásticos e acadêmicos católicos. Seguem-se as principais afirmações de
ditos coordenadores:
“Uma carta de vinte e cinco páginas, assinada por 40
clérigos católicos e acadêmicos leigos, foi enviada ao Papa Francisco no dia 11
de agosto último. Como não se recebeu nenhuma resposta do Santo Padre, o
documento é tornado público hoje, 24 de setembro de 2017, festa de Nossa
Senhora das Mercês e da Virgem de Walsingham. A carta, que ainda está aberta a
novos signatários, já foi subscrita por 62 clérigos e acadêmicos de 20 países —
representando também outros que carecem da necessária liberdade de expressão —,
e tem um título latino: ‘Correctio filialis de haeresibus propagatis’
(literalmente, ‘Uma correção filial concernente à propagação de heresias’)”.
De acordo com os divulgadores da notícia, a carta “afirma
que o Papa, através de sua Exortação apostólica Amoris laetitia, bem como
de outras palavras, atos e omissões a ela relacionados, sustentou sete posições
heréticas referentes ao casamento, à vida moral e à recepção dos sacramentos, e
fez com que essas opiniões heréticas se propagassem na Igreja Católica. Essas
sete heresias são expressas pelos signatários em latim, a língua oficial da
Igreja”.
“Esta carta de correção contém três partes principais. Na
primeira parte, os signatários explicam por que, como crentes e praticantes
católicos, eles têm o direito e o dever de emitir tal correção ao Sumo
Pontífice. A lei da Igreja determina que as pessoas competentes quebrem o
silêncio quando os pastores da Igreja estão desviando o rebanho. Isso não
implica nenhum conflito com o dogma católico da infalibilidade papal, tendo em
mente o ensinamento da Igreja segundo o qual para que as declarações do Papa
possam ser consideradas infalíveis, ele deve antes cumprir critérios estritos.
O Papa Francisco não cumpriu esses critérios. Ele não declarou que essas
posições heréticas são ensinamentos definitivos da Igreja, nem afirmou que os
católicos devem acreditar nelas com o consentimento próprio da fé. A Igreja
ensina que nenhum Papa pode declarar que Deus lhe revelou alguma nova verdade
para ser crida obrigatoriamente pelos católicos.”
Os coordenadores da referida iniciativa de 62 eclesiásticos
e signatários também afirmam que “a segunda parte da carta é fundamental,
uma vez que contém a ‘Correção’ propriamente dita. Enumera as passagens
de Amoris laetitia nas quais se insinuam ou encorajam posições
heréticas, e depois as palavras, atos e omissões do Papa Francisco que
evidenciam, além de qualquer dúvida razoável, que ele deseja que os católicos
interpretem essas passagens de uma maneira que é, de fato, herética. Em
particular, o Papa, direta ou indiretamente, apoiou a crença de que a
obediência à Lei de Deus pode ser impossível ou indesejável e que a Igreja
deveria às vezes aceitar o adultério como um comportamento compatível com a
vida de um católico praticante”.
“A última parte, chamada ‘Elucidação’, discute duas causas
desta crise singular. Uma delas é o ‘Modernismo’. Teologicamente falando, o
Modernismo é a crença de que Deus não entregou verdades definitivas à Igreja
para que esta continue ensiná-las exatamente no mesmo sentido até o fim dos
tempos. Os modernistas sustentam que Deus comunica à humanidade apenas
experiências sobre as quais os seres humanos podem refletir, de tal modo que
façam diferentes asserções sobre Deus, a vida e a religião; mas essas
declarações são apenas provisórias, nunca dogmas inamovíveis. O Modernismo foi
condenado pelo Papa São Pio X [foto] no início do século XX, mas renasceu em
meados desse século. A grande e contínua confusão causada pelo Modernismo na
Igreja Católica obriga os signatários a descrever o verdadeiro significado de
‘fé’, ‘heresia’, ‘revelação’ e ‘magistério’.
“Uma segunda causa da crise — sempre de acordo com os
coordenadores da carta — é a aparente influência das ideias de Martinho Lutero
sobre o Papa Francisco. A carta mostra como Lutero, fundador do protestantismo,
tinha ideias sobre o casamento, o divórcio, o perdão e a lei divina que
correspondem àquelas que o Papa promoveu mediante palavras, atos e omissões.
Também destaca o elogio explícito e sem precedentes que o Papa Francisco
dedicou ao heresiarca alemão”.
“Os signatários — afirmam os coordenadores da iniciativa —
não ousam julgar o grau de consciência com que o Papa Francisco propagou as
sete heresias que enumeram; mas insistem respeitosamente que condene essas
heresias, as quais ele sustentou direta ou indiretamente”.
De acordo com o comunicado recebido pelo Instituto
Plinio Corrêa de Oliveira, os signatários da carta “professam sua lealdade
à Santa Igreja Católica, asseguram ao Papa suas orações e solicitam a sua
bênção apostólica”.
www.ipco.org.br
[*] A íntegra do documento encontra-se disponível em
português no link:
A Fazenda
Cordilheira, de João Batista Lavinscky, era, outrora, animada. O campo de
futebol, efetivamente, sempre foi o palco de atração de tantos quantos para ali
se convergiam aos domingos e feriados.
Havia
partidas acirradíssimas entre o time local e outros adversários, que procediam
dos mais diversos lugares. Recordo-me dos atletas que jogavam no time da
Fazenda Cordilheira. Uns, ainda vivem entre nós; outros já partiram para a
eternidade. Eis os nomes de alguns: Laerte – que pertencia à família Lavinscky
e, mesmo depois de velho, era um sujeito muito brincalhão e desbocado, entre
uma pitada e outra de tabaco, que sujava o seu imenso bigode, ele espirrava e
proferia palavras obscenas -, Eliziário, Wilson, Merinho, Antenor, Teodoro e
Milton Lavinscky.
Milton nos
conta uma história deveras engraçada sobre o seu tempo de jogador de futebol
naquela fazenda. Segundo ele, o seu time disputava uma partida com uma equipe
de Itabuna – a sua posição é de centro-avante -, e era considerado artilheiro.
Neste jogo havia feito dois tentos e quando encerrou a primeira etapa, a
Cordilheira já ganhava tranquilamente pelo placar de 2 a 0. Foi aí que, durante
o intervalo, o zagueiro do time visitante, um negão com porte de
halterofilista, chamou-o em particular e, com um revólver discretamente
apontado para sua barriga, fez a
seguinte ameaça: “Companheiro, peça para sair do jogo, ou do contrário, vou
estourar os teus miolos”... Com os olhos arregalados, tremendo de medo, Milton
foi obrigado a tranquilizar o jogador e, dando-lhe um tapinha “amistoso” nas
costas, retrucou: “Calma, rapaz, eu já
estava pensando em sair mesmo. Estou contundido, e de qualquer sorte, eu não
aguentaria o segundo tempo”. Foi saindo de mansinho e, tamanho era o seu pavor,
que não teve tempo para comunicar aos colegas a razão do seu estranho
afastamento.
Ao
reiniciar a partida, Emerito que era o capitão do time, pode descobrir a tempo
que estava faltando um dos seus jogadores. Procura daqui, procura dali, até que o encontraram, deitado debaixo de um
caminhão que ali estava estacionado, queixando-se de uma dor de barriga
insuportável. O medo faz coisas incríveis...
Bem
próximo ao campo de futebol, havia a igreja N. Senhora da Conceição, onde fui
batizado e crismado. Os fiéis da Fazenda Cordilheira e adjacências buscavam ali, a paz espiritual e o contato com Deus.
Como
esquecer das novenas do mês de Maria? Naquela época, Salobrinho ainda não tinha
a sua igreja católica e, durante todo o mês de maio, aproveitando o luar,
formávamos grupos de moças e rapazes e
lá íamos rodagem acima, a fim de prestigiar as novenas da Cordilheira e, ao mesmo tempo, paquerar as moças bonitas, que
eram lideradas por Neuma, uma das filhas
de Antônio Lavinscky (Tonico), as quais rezavam e entoavam lindos cânticos em
louvor à Santa. Ali, tudo era organizado e maravilhoso: a ornamentação da
igreja ficava a cargo de João Gomes de Jesus, ou simplesmente Gomes, um rapaz
humilde que fora criado por João Batista Lavinscky e que se aprimorara na arte
de cozinhar.
As moças
que engalanavam as noites daquela fazenda eram dedicadas e de uma gentileza
ímpar. Recordo-me dos nomes de algumas, que até foram minhas colegas. Neuma, Tereza,
Ivany, Nilma, Nadir, Lúcia, Tili, Carminha, Nilzete, Lucinete, Eloína e tantas
outras, que no momento me escapam à memória, entretanto hão de perdurar para
sempre nas lembranças dos que tiveram a oportunidade de visitar a Fazenda
Cordilheira, à margem da
BR-415, a poucos quilômetros do Salobrinho.
Na verdade,
aquele lugar foi um manancial de alegria e felicidade. Hoje, só existem
recordações, porque as moças, paulatinamente, foram casando e se afastando
dali, o que deu origem à solidão e à monotonia existente.
Os fiéis
não perderam a crença, mas ficaram sem estímulo, à proporção que as missas e
novenas aconteciam esporadicamente, contribuindo para que a igreja fosse ficando
no abandono, e ocasionasse o seu completo desmoronamento. Atualmente, tem
acontecido ao contrário: o povo do Salobrinho já não mais vai à Cordilheira
confessar os seus pecados. Recebe, porém,
com muito carinho, na igreja de
São Pedro, aquela gente boa e hospitaleira, que para ali converge, numa prova inconteste
de fé cristã.
(SALOBRINHO, Encantos e Desencantos de um Povoado)
— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Mateus.
— Glória a vós, Senhor.
Naquele tempo, Jesus contou esta parábola a seus discípulos:
“O Reino dos Céus é como a história do patrão que saiu de madrugada para
contratar trabalhadores para a sua vinha. Combinou com os trabalhadores
uma moeda de prata por dia, e os mandou para a vinha.
Às nove horas da manhã, o patrão saiu de novo, viu outros que estavam na praça,
desocupados, e lhes disse: ‘Ide também vós para a minha vinha! E eu vos
pagarei o que for justo’. E eles foram. O patrão saiu de novo ao meio-dia
e às três horas da tarde, e fez a mesma coisa.
Saindo outra vez pelas cinco horas da tarde, encontrou outros que estavam na
praça, e lhes disse: ‘Por que estais aí o dia inteiro desocupados?’ Eles
responderam: ‘Porque ninguém nos contratou’. O patrão lhes disse: ‘Ide vós também
para a minha vinha’.
Quando chegou a tarde, o patrão disse ao administrador: ‘Chama os trabalhadores
e paga-lhes uma diária a todos, começando pelos últimos até os primeiros!’
Vieram os que tinham sido contratados às cinco da tarde e cada um recebeu uma
moeda de prata. Em seguida vieram os que foram contratados primeiro, e
pensavam que iam receber mais. Porém, cada um deles também recebeu uma moeda de
prata.
Ao receberem o pagamento, começaram a resmungar contra o patrão: ‘Estes
últimos trabalharam uma hora só, e tu os igualaste a nós, que suportamos o
cansaço e o calor o dia inteiro’.Então o patrão disse a um deles: ‘Amigo, eu
não fui injusto contigo. Não combinamos uma moeda de prata? Toma o que é
teu e volta para casa! Eu quero dar a este que foi contratado por último o
mesmo que dei a ti. Por acaso não tenho o direito de fazer o que quero com
aquilo que me pertence? Ou estás com inveja, porque estou sendo bom?’ Assim,
os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos”.
Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Pe. Paulo
Ricardo:
---
O amor é sempre surpreendente
“Ou está com inveja, porque estou sendo bom? (Mt 20,15)
Sabemos que toda parábola é um relato provocativo,
instigante, que envolve o ouvinte... A partir de conceitos simples, tomados da
vida cotidiana e que todo mundo conhece, a parábola projeta nossa consciência
para um horizonte maior; por estar profundamente conectada à vida, toda
parábola mantém sua atualidade através do tempo e das culturas.
O objetivo das parábolas é substituir uma maneira míope de
ver o mundo por outra, aberta a uma nova realidade cheia de sentido;
igualmente, elas ativam a olhar o mais profundo de nós mesmos e a descobrir
possibilidades ainda não conhecidas. A parábola revela uma pedagogia que
permite não dizer nada a quem não está disposto a mudar, e a dizer mais do que
se pode dizer com palavras a quem está disposto a escutar. Quem a escuta, deve
deixar transparecer em sua presença a mensagem do relato e começar a viver de
acordo com o que foi narrado.
A parábola, em si mesma, dá o que pensar, pois questiona
nossa maneira de ser, nos diz que outro mundo é possível e espera de nós uma
resposta vital. Nesse sentido, as parábolas de Jesus não foram dadas por
concluídas; elas estão sempre abertas às novas realidades dos ouvintes; por
isso, não podem ser entendidas em atitude passiva, pois elas abrem espaço para
que cada um entre nelas de maneira criativa. A parábola não é verdade fechada,
mas verdade dialogada, onde todo ouvinte deve interpretá-la com sua vida.
Em toda parábola existe um ponto de inflexão que rompe a
lógica do relato. Nessa quebra se encontra a verdadeira mensagem. Na parábola
do evangelho de hoje(25º Dom TC), a ruptura se produz no final do relato. É
evidente que, em chave de lógica econômica, esta parábola é estranha, fora do
normal. Mas Jesus, semeador de parábolas do Reino, sabe que há uma lógica mais
alta, a do poeta criador.
Esta é a lógica da gratuidade e da bondade do dono da vinha
que se expressam no gesto generoso de pagar a mesma quantia para os
trabalhadores que foram chamados em diferentes horários do dia. O contexto da
parábola é a controvérsia de Jesus com as autoridades judaicas por sua contínua
relação com pessoas de duvidosa reputação como os publicanos, pecadores,
enfermos, crianças, pagãos e mulheres. Precisamente aqueles que eram
considerados impuros e, portanto, excluídos do círculo de santidade.
Com a parábola do dono da vinha que contrata trabalhadores,
Jesus não pretende dar uma lição de relações trabalhistas. Qualquer referência
a esse campo não tem sentido. Jesus fala da maneira de comportar-se de Deus
para conosco, que está para além de toda justiça humana. Ele nos desafia a
entrar em sintonia com esse modo de agir original e gratuito de Deus, contrário
à nossa mentalidade utilitarista. A partir dos valores de justiça que manejamos
em nossa sociedade, será impossível entender a parábola.
O proprietário daquela vinha tinha uma estranha forma de
organizar sua empresa agrícola; não parecia se importar muito com o dinheiro
que investia na mão de obra. A relação entre diária e tempo trabalhado não se
ajusta aos cânones empresariais do nosso mundo capitalista: não havia feito
nenhum MBA em “racionalização de recursos humanos”, “índices de produtividade”
ou “salários mínimos, máximos benefícios”... Incompreensível sua atitude: pagou
a todos igualmente sem valorar tempo e trabalho realizado.
A partir da lógica humana, não há nenhuma razão para que o
dono da vinha trate com essa deferência ao trabalhador de última hora. Por
outra parte, o proprietário da vinha atua a partir do amor absoluto, coisa que
só Deus pode fazer. O que a parábola nos quer dizer é que uma relação de “toma
lá e dá cá” com Deus não tem sentido. O trabalho na comunidade dos seguidores
de Jesus deve fundamentar-se no modo de agir de Deus e ser totalmente
desinteressado.
O sistema religioso do tempo de Jesus centrava a prática
religiosa no mérito e no pagamento. A salvação se havia convertido num mercado
de compra e venda. Jesus questiona a fundo esta mentalidade que tanto mal fez
ao povo. A salvação é dom gratuito de Deus. E a graça, que é sempre
surpreendente, tem a ver com o amor misericordioso. Deus não maneja nossos
esquemas contábeis de rendimento e lucros. Para Deus, tanto os primeiros como
os últimos são objeto de seu imenso amor e misericórdia.
Na realidade, o que está em jogo na parábola é uma maneira
de entender a Deus, completamente original. Tão desconcertante é esse Deus de
Jesus que, depois de vinte séculos, ainda não o temos compreendido. Continuamos
pensando em um Deus que retribui a cada um segundo suas obras. Uma das travas
mais fortes que impedem nossa vida espiritual é crer que podemos e temos que
merecer a salvação.
O dom total de Deus é sempre o ponto de partida, não algo a
conseguir graças ao nosso esforço. O caminho de cada pessoa é saber-se filho(a)
de Deus e comprometer-se na construção do Reino, sendo este um caminho de
conhecimento que dura toda a vida. Uns tem o privilégio de compreendê-lo ao
amanhecer; outros, no meio da manhã, dão-se conta de que estão sendo chamados;
e ainda ao cair da tarde, uns quantos mais entendem que são enviados; por fim,
ao anoitecer, todos receberão o pagamento pela sua entrega, seu esforço e sua
confiança em Deus.
Considerando o denário da parábola como o amor total de
Deus, que não pode ser fragmentado, que não faz distinções e que não considera
ninguém como forasteiro ou excluído, é preciso e urgente colocá-lo em
circulação como “moeda única mundial”. O amor de Deus não se fraciona como o
dinheiro. Ele é total; paga sem importar-lhe quando as pessoas se deram conta
de sua presença. No amor misericordioso de Deus estão implícitas a justiça e a
alegria. E a justiça aqui significa “ajustar-se ao modo de agir de Deus”.
Se sairmos de nossos esquemas e entrarmos em sintonia com o
modo de agir de Deus, não teremos dificuldades em entender a estranha maneira
d’Ele realizar os pagamentos; também nós passaremos a desejar aos nossos irmãos
aquilo que Deus sempre desejou: que todos compartilhem igualmente do seu amor
surpreendente, superando a estreita visão do mérito e da recompensa; também
vibraremos de alegria quando aqueles que, ao cair da tarde, vierem se integrar
à nobre missão de construtores do Reino e receberem o único pagamento possível:
o denário do Amor de Deus.
Não percamos tempo pensando e esperando ingenuamente que o
FMI ou qualquer outro organismo financeiro vá interessar-se por esta mudança de
moeda, já que ela nem é cotada nas bolsas, nem é protegida em paraísos fiscais,
nem flutua seu valor conforme convenha a quem move os fios financeiros.
O denário da parábola é cotado no coração humano e quem
compreende seu valor quererá compartilhá-lo com cada pessoa que habita este
mundo, começando pelos que “ao cair da tarde” estão parados: refugiados,
enfermos, excluídos, crianças sem acesso à educação nem atenção sanitária,
anciãos que não podem ter uma velhice digna e feliz junto às suas famílias,
imigrantes, jovens sem futuro enredados pela violência, profissionais que não
podem exercer o que sabem... São tantos os que aguardam!
Quando conseguirmos a “mudança de moeda” em nosso coração,
estarão em alta valores como a paz, a tolerância, a fraternidade, o equilíbrio
entre a natureza, a justa satisfação das necessidades... O amor será a única
“moeda” aceita por todos; o amor será o único meio para fazer que as diferenças
caiam, as distâncias desapareçam, os erros se emendem e a violência se extinga,
o perdão sane e o abraço reconforte... Está em nossas mãos a possibilidade e a
esperança de concretizar tudo isso.
Texto bíblico: Mt 20,1-16
Na oração: “Por que afligir-se em comparações? Não queira
ser o melhor, se certamente não é o pior.
Contente-se por ser diferente na missão que recebe para que
algo em você passe a enriquecer os outros.
Deixe-se acompanhar pela eterna surpresa e, encantado,
exercite a divina criatividade” (Frei Cláudio)
Graças quero dar ao divino labirinto de efeitos e causas
pela diversidade das criaturas que formam este singular universo!
Graças quero dar pela razão, que não deixará de sonhar com
um plano para o labirinto!
Graças quero dar pelo amor, que nos deixa ver os outros como
os vê a divindade! Pelo firme diamante e água solta! Pela álgebra, palácio de
precisos e preciosos cristais!
Graças quero dar pelo fulgor do fogo, que nenhum ser humano
pode olhar sem assombro antigo! Pelo mogno, o cedro, o sândalo! Pelo pão e o
sal!
Graças quero dar pelo mistério da rosa que prodigaliza cor e
não a vê! Pela arte da amizade! Pelas palavras que foram ditas no crepúsculo de
uma cruz a outra cruz!
Graças quero dar pelos rios secretos e imemoriais que
convergem em mim! Pelo mar, que é um deserto resplandecente e uma cifra de
coisas que não sabemos!
Graças quero dar pelo ouro que reluz nos versos! Pelo
inverno épico! Pelos prismas de cristal e o peso de bronze!
Graças quero dar pelo geométrico e bizarro xadrez! Pelo odor
medicinal do eucalipto!
Graças quero dar pela linguagem, que pode simular a
sabedoria! Pelo esquecimento, que anula ou modifica o passado! Pelo hábito, que
nos repete e nos confirma como um espelho!
Graças quero dar pela manhã, que nos proporciona a ilusão de
um começo! Pela noite, sua treva e sua astronomia! Pelo valor e a felicidade
dos outros! Pela pátria, sentida nos jasmins ou numa velha espada!
Graças quero dar pelo fato de que o poema é inesgotável e se
confunde com a soma das criaturas e jamais chegará ao último verso e varia
segundo os homens!
Graças quero dar pelos minutos que precedem o sono! Pelo
sono e pela morte, esses dois tesouros ocultos!
Graças quero dar pela música, misteriosa forma do tempo!
Pelos íntimos e inúmeros dons que não enumero!
Enviado por: " Gotas de Crystal"
<gotasdecrystal@gmail.com>
Fácil entender, à vista disso, que nos movemos todos num
oceano de energia mental.
Cada um de nós é um centro de princípios atuantes ou de
irradiações que liberamos, consciente ou inconscientemente.
Sem dúvida, a palavra é o veículo natural que nos exprime as
ideias e as intenções que nos caracterizem, mas o pensamento, em si, conquanto
a força mental seja neutra qual ocorre à eletricidade, é o instrumento genuíno
das vibrações benéficas ou negativas que lançamos de nós, sem a apreciação
imediata dos outros.
Meditemos nisso, afastemos do campo íntimo qualquer
expressão de ressentimento, mágoa, queixa ou ciúme, modalidades do ódio, sempre
suscetível de carrear a destruição.
Se tens fé em Deus, já sabes que o amor é a presença da luz
que dissolve as trevas.
Cultivemos a caridade do pensamento.
Dá o que possas, em auxílio aos outros, no entanto, envolve
de simpatia e compreensão tudo aquilo que dês.
No exercício da compaixão, que é a beneficência da alma,
revisa o que sentes, o que desejas, o que acreditas e o que falas, efetuando a
triagem dos propósitos mais ocultos que te inspirem, a fim de que se traduzam
em bondade e entendimento, porque mais dia menos dia, as nossas manifestações
mais íntimas se evidenciam ou se revelam, inelutavelmente, de vez que tudo
aquilo que colocarmos, no oceano da vida, para nós voltará.
Histórias de amor Perguntaram
a uma menina inglesa se ela conhecia Shakespeare e, caso o conhecesse, quais eram suas peças favoritas. A menina respondeu que eram duas:
“Uma, Romeu; a outra, Julieta.”
O desencontro trágico de dois namorados cujas famílias são
rivais não é apenas uma história bem arquitetada: é uma história universal.
Pode se passar em lugares tão estranhos como Cabul, Istambul ou Rio Grande do Sul.
Nem todo mundo sabe, contudo, que Shakespeare não inventou a
trama: ele a adaptou de um poema inglês, que se baseou num texto francês, que
era a adaptação de um conto italiano, escrito por Luigi da Porto. Que, por sua
vez, se inspirou em textos anteriores. Em suma, parafraseando o filósofo
Chacrinha, quase nada se cria, quase tudo se copia.
Shakespeare, no entanto, compreendeu a força dramática do
conto.
Reproduziu a trama nos mínimos detalhes e ainda teve o cuidado de mudar
o sobrenome de Julieta para Capuleto, e não Capeletti, como em da Porto, o que
a tornaria demasiado comestível. Já imaginou uma heroína chamada Julieta
Capeletti?
A grande sacada de Shakespeare foi escrever os três
primeiros atos de “Romeu e Julieta” como uma comédia romântica, tendo ao fundo
a guerra pelo poder entre as famílias de Verona. As falas dos asseclas dos
Capuletos e Montéquios parecem extraídas de um filme do Tarantino. Essa
violência serve como contraponto para o trunfo maior de Shakespeare: as
palavras de amor. Romeu se esconde diante do balcão de Julieta. E ao vê-la, diz
para si mesmo:
Romeu: “Que luz é essa que irrompe na janela?
Será o nascente, e Julieta é o sol?
Levanta, sol, e mata a lua ciumenta,
Que já está pálida com a dor da inveja
Por seres tão mais bela do que ela.
E Julieta, ainda sem vê-lo, sonha em voz alta:
Julieta Ó Romeu, Romeu... Por que és Romeu?
Nega teu pai, recusa esse teu nome;
Senão, é só jurar-me o teu amor,
E eu já não mais serei uma Capuleto.”
Romeu escuta as palavras de Julieta e, quando ela confessa
seu amor por ele, se revela para a amada. Julieta, entre a perplexidade e o
êxtase, se declara. Só faz uma pequena restrição:
Julieta: “Embora eu tenha em ti minha alegria,
Não me alegra essa aliança em meio à noite,
Tão brusca, repentina e tão imprevista,
Como um relâmpago que logo apaga
Antes que alguém proclame a sua luz.
Boa noite, amor. Que o sopro do verão
Transforme esse botão de amor em flor
Quando nos encontrarmos outra vez.
Boa noite, e que tenhamos toda a calma
Tanto em teu coração quanto em minha alma.”
Como todos sabem, os dois se casaram em segredo e foram
felizes por três dias. Dirá você que a felicidade não durou muito. Pois é.
Mas
três dias de amor já são um pouquinho de eternidade.
Geraldo Carneiro - Sexto ocupante da Cadeira 24 da ABL,
eleito em 27 de outubro de 2016, na sucessão de Sábato Magaldi e recebido em 31
de março de 2017 pelo Acadêmico Antonio Carlos Secchin.