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sábado, 25 de março de 2017

O NAMORADO IMAGINÁRIO - Ivan Martins


Cultivamos fantasias autocomplacentes no mundo do trabalho, nas relações sociais e nos afetos. Depois nos enfurecemos – ou desabamos – quando os fatos nos contrariam

IVAN MARTINS
22/03/2017

Eu nunca experimentei, mas dizem que namoros à distância são complicados. Falta convívio, sobram inquietações, algumas experiências importantes são atrofiadas. Mesmo em tempos de Skype e WhatsApp, a intimidade de quem se relaciona à distância é incompleta. Um corpo apaixonado requer o toque do outro corpo. Na ausência desse contato, as relações são limitadas. Por isso os namoros à distância tendem a ser temporários. Ou as pessoas se mudam para o mesmo lugar ou o romance acaba.

Pensei nisso na semana passada, quando uma moça me contou que seu namoro acabara repentinamente, durante uma conversa por Skype. O rapaz está morando na Europa e anunciou que ficará por lá, indefinidamente. Ela estava devastada. Imaginava que ele voltaria nos próximos meses ou que a convidaria para encontrá-lo. Ele, obviamente, tinha outros planos e sentimentos.

Minha primeira reação a essa história foi maldizer o abismo social que separa os dois continentes e torna a vida na Europa tão atraente para boa parte dos brasileiros. Mas, depois de ouvir com atenção, essa impressão se desfez. Ficou claro que o problema não estava na distância civilizatória entre o Brasil e a Europa, mas na distância entre o que a moça imaginara e a realidade. Ela havia inventado um namorado para si mesma. O que o sujeito fez no Skype foi comunicar a ela que a ilusão estava oficialmente encerrada.

Alguma leitora dirá que é impossível inventar um namorado, e estará errada. Homens e mulheres têm capacidade de acreditar em qualquer coisa que lhes dê conforto ou alivie sofrimentos. As relações imaginárias são uma delas. Quando falta um relacionamento real, as pessoas podem se enrabichar com o cobrador de ônibus, com a gerente do banco ou até mesmo com aquela prima – ou primo – que aparece de visita uma vez por ano. Basta a pessoa dar atenção ao carente para que ele se imagine numa relação.

O que aconteceu com a protagonista desta história foi diferente. Ela passou algumas semanas com um homem que estava de partida e imaginou que o combustível emocional seria suficiente para aquecer dois corações à distância. Estava errada. Assim que chegou ao outro lado do Atlântico, o rapaz começou a mudar de atitude. De apaixonado foi passando a distraído, e logo a impaciente. As trocas de WhatsApp escassearam, e as conversas semanais por Skype se tornaram burocráticas. Ela pedia atenção e sentimento. Ele oferecia pressa e indisfarçável frialdade. No aniversário de um ano da viagem, encerrou a farsa. O que para ele fora apoio emocional num momento de transição se transformara para ela em esperança de vida comum. Não poderia haver sentimentos mais desencontrados.

Se o relacionamento entre eles era imaginário, a dor que ela sente é real. Está arrasada e ressentida. Acredita que perdeu um ano de vida se dedicando a um egoísta. É um julgamento duro, provavelmente correto, que ajuda a superar seu sofrimento. Mas ele contém um elemento de ilusão. Culpar a fraqueza e a ambiguidade do outro a isenta de pensar em sua própria responsabilidade no episódio. A base da relação era frágil, e o rapaz deu vários sinais de que desejava rompê-la, mas ela persistiu no namoro à distância, acreditando e insistindo, até que ele tornou a fantasia impossível. Ela tem direito de se sentir enganada, mas talvez devesse admitir que foi cúmplice da encenação.

Descontadas as particularidades – a Europa, o Skype, o tempo  –, essa história guarda lições para nós todos. Somos especialistas em enxergar aquilo em que queremos acreditar e mestres em ignorar evidências que nos contrariem. Cavalgamos ilusões com mais facilidade do que lidamos com a realidade. Cultivamos fantasias autocomplacentes no mundo do trabalho, nas relações sociais e nos afetos. Depois nos enfurecemos – ou desabamos – quando os fatos nos contrariam. Se os nossos problemas se resumissem aos que agem mal conosco, teríamos pouco com que nos preocupar. O que mais atrapalha a nossa vida são os nossos enganos.

Não interessa saber se o namoro é à distância, mas se ele é real. Se a pessoa do outro lado da linha telefônica – ou do outro lado da sala – faz com que você se sinta amada ou amado, tudo bem. Esse é o antídoto contra o autoengano. As relações que satisfazem emocionalmente costumam ser verdadeiras. Problemas e complicações são inevitáveis, mas, quando se olha nos olhos do outro – mesmo desapontado, mesmo depois de uma briga, mesmo na tela do computador – é preciso encontrar cumplicidade e reconhecimento, não indiferença ou desatenção.

O relacionamento que a moça me relatou não resiste aos filtros de realidade. Um dia talvez tenha sido verdadeiro, mas havia tempos não passava de ilusão. Por pior que tenha agido antes, o rapaz foi correto ao encerrá-lo. A moça está gostando de sentir-se vítima, mas faria mais por si mesma se admitisse seu próprio papel na trama. Abandonar-se à autopiedade é uma forma conhecida de prazer, mas, assim como os namoros imaginários, não leva a lugar nenhum.


IVAN MARTINS
Colunista de ÉPOCA
Autor do livro Alguém especial, escreve em epoca.com.br às quartas-feiras



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sexta-feira, 24 de março de 2017

O VOO DA SABIÁ - Antônio Carlos Hyigino


O voo da sabiá

Para Bia Hygino, com afeto.


Era manhã de domingo. Encontra-se ele em sua casa de campo.


Sentado numa poltrona, na varanda, contemplava a natureza.

No jardim, havia muitas flores. Um pé jamelão trazia-lhe doces lembranças do seu tempo de criança. Um pé de amora ofertava frutos dulcíssimos. O cajueiro de frutos sem igual. As goiabeiras, o pé cambucá, as mangueiras, o pé de jambo a colorir a terra de lilás. E o pé de seriguela…. os galhos arriavam cheios de frutos maduros. Do pé de carambola seus frutos transformavam-se num doce de estrelas. Havia muito mais…


Em meio àquele cenário, solenemente casais de pavão passeavam. Em harmonia viviam perus, patos, gansos e galos a cantar a melodia da alvorada, a qual repetiam ao longo dia. 
Os passarinhos entoavam doces melodias de amor.

Por entre os montes, um riacho serpenteava em direção ao oceano, fertilizando o solo à margem de seu leito.

Dentro de casa, Nide preparava um delicioso café da manhã que seria servido assim que todos estivessem sentados à mesa. Faltava apenas Bia, a filha dele que ainda se arruma. 
Estava acertada uma caminhada matinal pelas redondezas.

Em meio aquilo tudo e no aguardo do desjejum, observou uma sabiá a fazer voos rasteiros em sua direção, sobrevoando lhe a cabeça.

No galho de cambucá, outra sabiá atentamente a tudo observa.

Olhou para cima e viu um ninho feito no espaço entre o ripão e o telhado. Dentro dele dois ou três pássaros. Um deles ficou à beira do ninho. A sabiá alimentava os outros dois.

Ele ficou preocupado com a possibilidade de o pequenino cair e se machucar. A altura entre ninho e chão era de dois metros e meio, mais ou menos. Pensou em fazer qualquer coisa que impedisse o inevitável, mas preferiu não interceder.

De repente, o cheiro de café espalhou- se pelo ar e veio o chamado. Mesa posta, familiares sentados. Servido foi bolo de aipim, de tapioca e de milho. Mingau de milho verde, canjica e pão. Seu compadre e cunhado, se fartou.

Com o pensamento voltado para a sabiá, retornou à varanda. Para sua surpresa, no chão, viu aquele passarinho que estava à beira do ninho. Frágil, indefeso, penugem esparsa, tentando fazer curtos voos por dentro da varanda. Não se conteve. Delicadamente, buscando protegê- lo, conseguiu levá-lo de volta ao ninho. Os pais, desesperados, do cajueiro observavam interferência do bicho homem.

Um deles voou de onde se encontrava para o ninho e ficou como se a conversar com o seu filho. Todos presenciaram a cena.

Na varanda, ficaram por cerca duas horas na expectativa do que pudesse acontecer. Nada aconteceu, salvo as idas e vindas da sabiá sempre a alimentar seus filhotes.

Resolveram, então, fazer a caminhada, conforme combinado.

Quando do retorno, já por volta do meio dia, o pequenino estava fora do ninho, novamente no chão e com o mesmo propósito: voar.

Ele pensou em levá-lo de volta, como antes o fizera, mas seu cunhado o dissuadiu. Ponderou para que observassem junto o que ocorreria.

Então, fazendo pequenos voos conseguiu chegar ao pé de Cambucá. Do pé de Cambucá voou para o pé de seriguela. Daí, para o galho do cajueiro. Em seguida para a caramboleira. Nessa trajetória acompanhada foi, à distância, pelos pais. A certa altura foi deixado pelos seus pais e voou na imensidão do azul.

Ficou ele a pensar o que poderia acontecer ao pequenino pássaro, desde o badoque até a ação do predador natural. 

Nada, entretanto, podia fazer. O destino estava selado: voar. 

Tudo que pudesse ou que viesse a acontecer com aquele pássaro fazia parte ou faz parte dessa história que se chama vida.

Veio o almoço e descanso vespertino.

À noite, pirilampos faziam breves clarões e os grilos cantavam em festa.

Logo de manhã retornaram à cidade.

Anos depois, perdido em seus pensamentos, sua filha, ainda adolescente, sem qualquer experiência de vida, veio ao seu encontro e lhe disse: pai, tenho uma surpresa. Qual? 
Questionou ele. Ela lhe respondeu com alegria contagiante: passei na seletiva do intercâmbio. Vou para Taiwan, país que fica ao sul da China. O Senhor deixa?

Naquele instante veio em sua mente um poema do incomparável Khail Gibran, “Vossos filhos não são vossos filhos. São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma.Vêm através de vós, mas não de vós e embora vivam convosco, não vos pertencem”.

Lembrou-se, então, do voo da sabiá. Disfarçando com um sorriso o seu medo e não contendo a lágrima que rolava em seu rosto, abraçou-a afetuosamente, sem nada dizer.


Antônio Carlos de Souza Hygino
Juiz de Direito titular da 5ª Vara Cível da Comarca de Itabuna – Bahia.



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CYRO DE MATTOS E “A ESTRADA DAS LETRAS” – Eglê S Machado

Clique sobre a foto, para vê-la no tamanho original

Cyro de Mattos e “A Estrada das  Letras” 


Quando li no G1 Bahia de 16 de agosto de 2016, “O escritor, poeta e cronista baiano Cyro de Mattos, foi eleito membro da Academia de Letras da Bahia (ALB), onde passará a ocupar a cadeira 22, cujo último ocupante foi o poeta Clovis Lima”, não fiquei admirada, apenas comentei: fez-se justiça.

Quando li sobre a sessão solene de posse de Cyro de Mattos, dia 10 de novembro do mesmo ano, no Salão Nobre da Academia de Letras da Bahia (ALB), pensei: quão orgulhosos devemos ficar, nós, os Itabunenses! - desejei ter estado lá, fotografando, ouvindo os discursos e fazendo anotações, para postar na "Itabuna Centenária-ICAL".

Ontem recebi via Correios  um envelope pardo, e logo reconheci pela  caligrafia, tratar-se de mais um livro enviado pelo escritor Cyro de Mattos.

“A ESTRADA DAS LETRAS” (Cyro de Mattos e Aramis Ribeiro Costa - Via Litterarum Editora).

Prefaciado pelo Acadêmico Joaci Góes, jubiloso pela segunda posse do escritor, desta vez como membro efetivo da Academia de Letras da Bahia - ALB. Traça o perfil intelectual do escritor e do cidadão Cyro de Mattos, e não poupa merecidos elogios.

A seguir vem a íntegra do DISCURSO DA CRENÇA LITERÁRIA proferido pelo escritor Cyro de Mattos naquela noite memorável. Belíssimo discurso iniciado com um agradecimento a Deus. Afirma que “a literatura é uma forma de conhecer a vida, fundamental como o amanhecer”. E encerra com poema de sua autoria Academia de Letras da Bahia exprimindo seu instante de alegria, e enaltecendo a casa que o recebe.

Por fim  o "DISCURSO DO LONGO CAMINHO - Recepção  a Cyro de Mattos" pelo acadêmico Aramis Ribeiro Costa, uma autêntica prosa poética construída com afeto e cadência de uma grande amizade. A certa altura o orador cita a reforma do Regimento da ALB, que possibilitou aquele momento e diz: “tornava-se justo e necessário que fosseis alçado pelo voto à condição que mereceis a que nesta noite vos impõe o colar de ouro [...]  Maior é o vosso compromisso por ter sido aqui admitido por duas vezes, e mais ainda, por virdes acrescentar neste sodalício a já existente e tradicional representação da poderosa literatura do Sul da Bahia.”

Aramis Ribeiro Costa recitou o “Soneto do Rio” de Cyro de Mattos, discorreu sobre a sua obra, citou os catorze títulos da literatura infanto-juvenil do acadêmico e mencionou as distinções como o Prêmio Internacional de Literatura Maestrale Marengo d'Oro.

De parabéns Itabuna, por mais um digno representante da terra na Academia de Letras da Bahia, o Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual de Santa Cruz, Cyro de Mattos.

Parabéns, Cyro de Mattos. Reitero aqui as palavras de Joaci Góes a seu respeito:

“UMA PERSONALIDADE EXEMPLAR”


Itabuna 23/o3/2017


Eglê S Machado
Academia Grapiúna de Letras-AGRAL
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quinta-feira, 23 de março de 2017

O ADVOGADO VERCIL RODRIGUES LANÇA “DICAS DE DIREITO PREVIDENCIÁRIO”


“Dicas de Direito Previdenciário”


O Advogado Vercil Rodrigues, que também é jornalista e professor, acaba de lançar seu mais novo livro na seara jurídica, “Dicas de Direito Previdenciário”, pela Direitos Editora.
               
Em um esquema de perguntas e respostas, Dr. Vercil Rodrigues explora os principais temas e dúvidas das pessoas em Direito Previdenciário, seja em relação ao Regime Geral de Previdência Social (INSS), seja em relação aos Regimes de Previdência dos Servidores Públicos. E vai mais além. Aborda alguns efeitos dos benefícios previdenciários nos vínculos empregatícios, demonstrando domínio da matéria e a sua repercussão para além da relação de benefício, estabelecida entre segurado e a Previdência Social.

No “Dicas de Direito Previdenciário”, Vercil Rodrigues se preocupa em não trazer apenas conceitos estereotipados acerca do tema. De fato, há uma verdadeira aproximação da obra com o rigor técnico-jurídico e a prática necessária ao cotidiano do mundo previdenciário, de modo que o presente livro servirá como parâmetro para diversos seguimentos, tanto para operadores do Direito quanto para aqueles que de algum modo vivenciam o mundo previdenciário. É factível que o autor utiliza linguagem clara e inteligível através de temas próprios, de modo que os leitores conseguirão encontrar com facilidade respostas para os questionamentos trabalhados na presente intentada literária. Nesse sentido, o trabalho configura-se como obra de vanguarda, visto que traz uma abordagem pragmática embasada em estudos sólidos e robustos da doutrina e da jurisprudência dominante.

Sobre o livro declarou o advogado, auditor do trabalho aposentado e membro-fundador da Academia de Letras Jurídicas do Sul da Bahia (Aljusba), José Carlos Oliveira, que faz a apresentação da obra: “Na forma inteligente com que o NEO JURISTA se dispôs a escrever este livro, o fez com o critério de quem domina a matéria, embasando suas assertivas na legislação pertinente e no melhor de nossa doutrina, não deixando de externar seu próprio posicionamento. Assim, face aos importantes assuntos tratados neste livro, entre os quais estão: desempregado e auxílio-doença; auxílio-doença e empresa extinta; donas de casa e aposentadoria; inclusão previdenciária; aposentadoria especial no serviço público; estabilidade provisória e salário-maternidade, será um privilégio de lê-lo”.


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FALANGES MIDIÁTICAS, ACADÊMICAS E POSTORAIS

22 de março de 2017.



Os que empurraram as esquerdas para suas vitórias e o Brasil para o fracasso retomam as antigas práticas. Astutamente, tendo suas opiniões perdido credibilidade nas questões internas, usam e abusam da cena internacional para continuar ministrando “lições” à opinião pública.

Recordemos. Durante décadas, formadores de opinião, “trabalhadores em educação” e seguidores da Teologia da Libertação arrastaram o corpo social brasileiro para a valeta esquerdista. Era uma força irresistível a alavancar o PT para a condição de grande partido nacional, levar Lula à presidência da República e arrastar o Brasil para o caos. Nos microfones, as falanges midiáticas não poupavam sequer o público dos programas futebolísticos. Nas salas de aula, tornos e marretas ideológicas faziam cabeças em linha de produção. A CNBB e o clero dito progressista esmeravam-se em documentos e campanhas cujo cunho religioso se consumia em brevíssimas referências à Santíssima Virgem; tudo mais era perdição eufemística da mensagem cristã a serviço de determinada política. Certa feita, anos 90, designado pelo admirável arcebispo de Porto Alegre, D. Cláudio Colling, participei dos eventos que compunham o projeto da CNBB chamado “O Brasil que queremos”. Nos bastidores de todos os eventos e mesas de trabalho, os assuntos mais abordados pelas pastorais presentes eram eleição vindoura e Lula-lá… A tudo testemunhei porque, como peixe fora d’água, lá estava.

Assim, ao longo de muitos anos, o povo brasileiro foi orientado pelos corregedores da opinião pública a pensar com critérios esquerdistas, estatistas, coletivistas. Toda a análise sociológica, histórica, política e econômica era promovida com lentes marxistas. Quando, nos anos 90, o Leste Europeu sacudia do próprio lombo sete décadas de opressão, ferrugem e lixo comunista, o Brasil da teologia da libertação, dos progressistas, dos movimentos sociais mantidos pelos inesgotáveis fundos petistas estava ávido de importar tudo para cá.

O que aconteceu após 13 anos do sucesso eleitoral de 2002 foi o inevitável fracasso operacional e moral de 2014, quando já não podia mais ser ocultado. E tudo fica bem resumido nestas estrofes narrativas e proféticas de Miguezin de Princesa em “Nunca recebi propina”:

Prometeu melhores dias
Para um bocado de gente,
Vivia quase montado
No pescoço do vivente,
Mas, na hora de comer,
Só comeu quem foi parente.

Agora no xilindró,
Com saudade do faisão,
Come pão com margarina
E almoça rubacão
E diz: – Esse povo ingrato
Inda beija meu retrato
Nessa próxima eleição!

O poder petista, como tal, acabou. Junto com sua parceria, virou caso de polícia. A conexão publicitária entre esquerda e progresso, a ninguém mais convence. Com os foguetes queimados para levar o PT ao poder, torrou-se o prestígio de seus apoiadores. Por isso, leitor, você não ouve mais qualquer discurso esquerdista.

Que fazem, então, as falanges midiáticas, acadêmicas e pastorais? Reconhecidas as próprias limitações, dedicam-se a: 1) combater quem esteja à sua direita no arco ideológico, jogando rótulos entre os quais os de “ultradireita” e “fascista” são os mais recorrentes; 2) atacar propostas que busquem desfazer os estragos promovidos por um quarto de século de governos de esquerda; 3) investir contra conservadores e liberais como sendo os vilões a serem evitados.

Observe, então e por fim, o quanto se valem para isso do cenário internacional. Ali está o campo de prova onde reiteram suas convicções e “ensinamentos”, sem que o passado os condene. Não, as falanges não se penitenciam nem redimem. Apenas mudam de estratégia. Agora, pretendem nos ensinar a compreender o mundo com seus olhos.


Um blog de um liberal sem medo de polêmica ou da patrulha da esquerda “politicamente correta”.

http://rodrigoconstantino.com/artigos/falanges-midiaticas-academicas-e-postorais/?utm_medium=feed&utm_source=feedpress.me&utm_campaign=Feed%3A+rconstantino

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A VILA – Helena Borborema (Parte II)

A Vila  (Parte II)



          Recém-chegado, o advogado Lafayette de Borborema logo iniciou suas atividades profissionais. Contaria ele muitos anos depois:


          “Devido ao ambiente hostil que a política lhe criara, o Dr. Unapetinga deixara o cargo de Juiz e fora embora da Vila poucos meses depois da minha chegada, deixando o campo forense para mim e o provisionado Laudelino Lorens. O meio era revolto; não recuei, disposto a advogar e, junto a Firmino Alves e seus amigos enfrentar as lutas também trabalhar em benefício do meio social."

          “O meu primeiro trabalho como advogado foi o preparo dos papéis de habilitação para um casamento civil pelo qual recebi trinta e cinco mil reis; o segundo foi uma defesa no Júri, por trezentos mil reis."

          “A primeira reunião do júri, cujos processos haviam sido feitos pela Justiça de Ilhéus, foi um marcante acontecimento social. Tive que funcionar como Promotor ad-hoc no mais importante dos processos, cujos acusados eram protegidos da situação contrária a Firmino Alves, interessada que se achava na absolvição dos acusados. Quando estava fazendo a acusação, entregaram-me um bilhete; parei e fiz a leitura do mesmo; estava assinado. Era uma ameaça; avisava-me que o partido tinha interesse na absolvição dos ‘meninos’, por isso que, se  eu quisesse ficar aqui, tinha que não apelar da absolvição dos mesmos. Guardei-o e continuei a acusação."

          “Depois da defesa, num intervalo para descanso, falaram-me pessoalmente sobre a conveniência de não apelar era uma ameaça velada. Fiz de conta que não compreendia."

          “Voltei à tribuna para replicar, o que fiz com mais ardor e firmeza. Terminado o julgamento os acusados foram absolvidos. Era o segundo ou terceiro julgamento e a acusação desta vez não podia mais apelar."

          “De outra feita, em casa, fui procurado por um senhor, contra que era advogado em uma causa cível, para prevenir-me daria mal se recorresse da sentença, que lhe havia sido favorável.Mandei-o sentar-se calmamente respondi-lhe que já havia apelado. Depois de um pequeno silencio, retirou-se.”

          “Vi que havia muita maldade e injustiça e precisava defender os injustiçados não pela justiça togada, e sim pelos ambiciosos, pelos espoliadores que tomavam as plantações dos pequenos lavradores, os quais eram abatidos com tiros de repetição nas emboscadas.”

          “Recebi ameaças, mas nunca recuei e nunca transigi. Também nada sofri pessoalmente. Sempre respeitando e sempre respeitado.”

          “Pouco a pouco, Itabuna foi entrando na ordem; passou à categoria de Comarca. A lei passou a imperar; foram chegando outros advogados, juízes foram se sucedendo, o movimento forense crescendo, acompanhando o desenvolvimento e o progresso do Município.”

          “Fui testemunha de tudo, porque como advogado tinha que conhecer os fatos na polícia, no foro e de vista.


          Mesmo sendo uma vila, havia prosperidade e vida social em Itabuna. Reuniões eram feitas em casas de famílias, onde não faltavam recitativos, modinhas e danças da época, como valsas, polcas e quadrilhas, principalmente na residência de Firmino Alves, que trouxera um piano de Salvador, o qual, do Banco da Vitória até sua casa, foi conduzido com enorme dificuldade a pau e corda.

          A alimentação era farta: muito peixe e pitus do rio Cachoeira, muita caça das matas próximas, enormes requeijões vindos do sertão, boa manteiga, queijos e enlatados vindos de Salvador, em geral importados do estrangeiro.

          Havia também reuniões literárias bem animadas, com discursos. A vida não era monótona. Com elementos da terra criou-se um grupo de teatro para cujos espetáculos a plateia trazia de casa as cadeiras. Criou-se um grêmio literário e recreativo, com uma pequena biblioteca. Foram também criadas duas filarmônicas, a Minerva e a Lira; ambas se digladiavam. Cada uma tinha seus adeptos.

          Mas, apesar desses progressos, a vida da população continuava a correr perigo; quem saía à noite estava arriscado a ter os passos embargados por um indivíduo escondido sob um pala, que riscava o fósforo para ver se era a pessoa a quem procurava para matar.

(Lafayette de Borborema : UMA VIDA, UM IDEAL)
Helena Borborema

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HELENA BORBOREMA - Nasceu em Itabuna. Professora de Geografia lecionou muitos anos no Colégio Divina Providência, na Ação Fraternal e no Colégio Estadual de Itabuna. Formada em Pedagogia pela Faculdade de Filosofia de Itabuna. Exerceu o cargo de Secretária de Educação e Cultura do Município. (A autora)

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JANOT: "O MÉRITO DA LAVA JATO FOI HAVER ENCONTRADO O VEIO PRINCIPAL DA CORRUPÇÃO POLÍTICA"

Brasil 22.03.2017



Confiram a íntegra do duro discurso de Rodrigo Janot em defesa da Lava Jato em evento da Escola Superior do MPU:

"Colegas,

A Lava Jato completou neste mês de março três anos de profícuos trabalhos. Do que se revelou no curso das investigações, é possível concluir que existem basicamente duas formas de corrupção no país: a econômica e a política. Elas não se excluem e, em certa medida, tocam-se e interagem.

A primeira, sempre combatida e bem conhecida do Ministério Público, tem fundamentalmente uma finalidade financeira: o corrupto busca o enriquecimento com a venda de facilidades. Normalmente, esse tipo de corrupção encontra-se em profusão nas camadas inferiores da estrutura burocrática do Estado.

A segunda, até então mais intuída do que propriamente conhecida, é ambiciosa e mais lesiva. O proveito econômico não está na sua alçada principal, mas antes o poder.
Enriquecer pela corrupção política é mais uma consequência do que propriamente um objetivo. Busca-se o poder, porque o dinheiro e suas facilidades chegam de arrasto. O mérito da Lava Jato foi haver encontrado o veio principal da corrupção política. Esse tipo de corrupção, como disse, é de altíssima lesividade social porque frauda a democracia representativa, movimenta bilhões de reais na clandestinidade e debilita o senso de solidariedade e de coesão, essenciais a uma sociedade saudável.

Escolhas para altos postos na estrutura do Estado, nas suas autarquias e empresas passam a não considerar a competência técnica do candidato, mas sua disposição para trabalhar na engrenagem arrecadadora de recursos espúrios destinados à máquina partidária que o apadrinhou. Desde o mensalão, essa realidade já começava a revelar seus contornos com mais nitidez. No entanto, foi nesses últimos três anos que a dura e inocultável verdade se mostrou por completo: nosso sistema político-partidário foi conspurcado e precisa urgentemente de reformas.

É necessário abrir espaço para a renovação o quanto antes, pois a política não pode continuar a ser uma custosa atividade de risco propícia para aventureiros sem escrúpulos. Certamente, essa crise política há de encontrar o devido equacionamento no âmbito do próprio sistema democrático. Serão as forças políticas da sociedade, dentro da institucionalidade, que, após debate e reflexão, devem apontar caminhos para que levem à quebra do círculo vicioso em que o país se encontra.

A nós do Ministério Público cabe um papel modesto nesse processo, mas de grande relevância social. Devemos dar combate, sem tréguas, ao crime, à corrupção e às tentativas de fraudar-se a lisura do processo eleitoral. É nesse contexto que o papel dos senhores, Procuradores Regionais Eleitorais, avulta em importância institucional. Muitos dos desvios do poder político podem e devem ser prevenidos e reprimidos, quando for o caso, já no processo eleitoral.

Precisamos intensificar, assim, a fiscalização do financiamento das campanhas, combater firmemente o caixa 2 e promover obstinadamente a responsabilização de quem não respeita o fair play do jogo democrático e abusa do poder econômico e político para vencer ilegitimamente eleições. O filtro do processo eleitoral, do qual o Ministério Público é importante componente, é fundamental para melhorar a qualidade de nossa política. Não é fácil a nossa missão, bem o sei. Para mim, já se vão 32 anos de árdua labuta nesta Casa.Tenho afirmado reiteradamente que o Ministério Público não engana a ninguém e não costuma vender ilusões ou fantasias. Quem busca atalhos e facilidades, de fato, não terá aqui o melhor lugar para encontrá-los.

Digo isso porque, mesmo quando exercemos nossas funções dentro da mais absoluta legalidade,estamos sujeitos a severas e, muitas vezes, injustas críticas de quem teve interesses contrariados por nossas ações. A maledicência e a má-fé são verdugos constantes e insolentes.Não quero deter-me no fato específico, mas não posso deixar de repudiar com toda veemência a aleivosia que tem sido disseminada para o público nos últimos dias: é uma mentira, que beira a irresponsabilidade, afirmar que realizamos, na Procuradoria-Geral da República, coletiva de imprensa para “vazar” nomes da Odebrecht.

Só posso atribuir tal ideia a mentes ociosas e dadas a devaneios, mas, infelizmente, com meios para distorcer fatos e desvirtuar instrumentos legítimos de comunicação institucional. Refutei pessoalmente o fato para os próprios representantes do veículo de comunicação que publicou a matéria inverídica. Procuramos nos distanciar dos banquetes palacianos. Fugimos dos círculos de comensais que cortejam desavergonhadamente o poder político. E repudiamos a relação promíscua com a imprensa.

Ainda assim, meus amigos, em projeção mental, alguns tentam nivelar a todos à sua decrepitude moral, e para isso acusam-nos de condutas que lhes são próprias, socorrendo-se não raras vezes da aparente intangibilidade proporcionada pela posição que ocupam no Estado.

Infelizmente, precisamos reconhecer que sempre houve, na história da humanidade, homens dispostos a sacrificar seus compromissos éticos no altar da vaidade desmedida e da ambição sem freios. Esses não hesitam em violar o dever de imparcialidade ou em macular o decoro do cargo que exercem; na sofreguidão por reconhecimento e afago dos poderosos de plantão, perdem o referencial de decência e de retidão. Não se impressionem com a importância que parecem transitoriamente ostentar.

No fundo, são apenas difamadores e para eles, ouvidos moucos é o que cabe e, no limite, a lei. Não somos um deles, e isso já nos basta.Para encerrar, compartilho com os senhores a advertência do mestre Montesquieu que sempre tive presente comigo: o homem público deve buscar sempre a aprovação, mas nunca o aplauso. E, se o busca, espera-se, ao menos, que seja pelo cumprimento do seu dever para com as leis; jamais por servilismo ou compadrio."



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