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quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

CNH: UM DOCUMENTO CARO E OBSOLETO – Kleber Galvêas

CNH: um documento caro e obsoleto

          Desenvolver o sentimento de cidadania é missão do Estado e interesse dos cidadãos propagado pela Revolução Francesa. O número de leis de um país é diretamente proporcional ao grau de subordinação do seu povo. A tutela legal “condiciona a liberdade” e inibe o sentimento de cidadania, que é a mola propulsora do progresso dos povos, em todos os períodos da História. 
          Pensando em valorizar o sentimento de responsabilidade, trouxe um tema objetivo para a discussão: Carteira de Motorista. 
          A carteira de motorista é o documento mais importante do americano. Nos Estados Unidos não existe carteira de identidade universal. No Brasil todos portam carteira de identidade. 
          Adquirindo um bem, é sua a responsabilidade no uso. Cometeu erro? Deve ser responsabilizado. Autoescolas estarão sempre disponíveis. A segurança no trânsito é fundamental, vital, não o interesse pecuniário do governo. A circulação de veículos é como uma sinfonia onde não cabe nenhuma nota desafinada, mesmo que o músico tenha diploma do melhor conservatório. 
          Recursos eletrônicos tornaram a CNH obsoleta. É diploma caro, envolve várias pessoas e tem extensa burocracia. Radar faz a leitura das placas, mostrando o histórico do veículo e do proprietário. Havendo algo errado ou acontecido uma infração de trânsito, o guarda mais próximo é informado, e o infrator multado ou levado imediatamente à presença do juiz. O motorista correto será estimulado, respeitado e só poderá ser parado se errar.   Errando, receberá imediatamente punição proporcional à infração cometida. Recursos materiais e humanos para essa mudança serão obtidos: no governo, com a extinção da burocracia da CNH e transferência dos seus burocratas para a fiscalização eletrônica; o cidadão, economizando taxas e tempo poderá investir em mais treinamento.
          A carteira de motorista, nos Estados Unidos, fica em torno de U$ 35,00. Aqui, renovar a minha carteira, categoria “B”, pela décima vez (2016), com validade para mais três anos, vai me custar no mínimo R$ 300,00 e horas perdidas. Obtê-la pela primeira vez fica em torno de R$ 3 mil. Quase mil dólares!
          A CNH poderia ser substituída por uma declaração pública do cidadão afirmando estar apto a conduzir veículos. Isto constaria em sua CI. O órgão do governo responsável pelo trânsito convocaria (por amostragem) alguns dos que se declararam aptos a dirigir, para teste de direção. A maioria esmagadora das perturbações no trânsito é causada por motoristas com a CNH em dia. Afinal, ela é um diploma e não consagração.
          A primeira legislação sobre trânsito surgiu na Inglaterra (1836–triciclo a vapor). Limitava a velocidade a 10 Km/h e era necessário, que 60 metros à frente do veículo um homem a pé conduzisse uma bandeira como alerta. As coisas mudaram com o tempo: do vapor à informática.
          Considerando-se a quantidade de veículos, o número de infratores é muito pequeno. Dar crédito ao sentimento de cidadania, respeitando-se o cidadão e confiando nele, será sempre positivo, e os resultados obtidos serão permanentes, propiciando colaboração espontânea. 
          “Tá tá tá tá tá na hora. Vá vá vá vale tudo agora. Sou mo-mole pra falar. Mas um Pintacuda pra beijar...” Sucesso musical do carnaval de 1950, cantava as proezas do piloto italiano Carlo Maria Pintacuda, campão de automobilismo. Ele não tinha CNH, mas seu sobrenome se tornou, em português, sinônimo de rapidez e perícia ao volante. 
          A transição do cidadão, de dependente do governo para parceiro agente do progresso, deve ser estimulada. Fé no progresso, esperança na harmonia e generosidade cidadã são virtudes que florescem na democracia. Se cultivarmos a liberdade e o respeito ao cidadão.


Kleber Galvêas, pintor. 
Tel, (27) 3244 7115 www.galveas.com novembro, 2016

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O CANALHA TRANSLÚCIDO – Por Péricles Capanema

O Canalha Translúcido
1 de dezembro de 2016

Fartei-me com a cobertura indecente, desproporcionada e gritantemente sintomática da morte de Fidel Castro. Ditirambos disparatados, análises tendenciosas, críticas suaves. Excetuo palavras como as de Anna Cecília Malmström, Comissária Europeia do Comércio: “Fidel Castro foi um ditador que oprimiu seu povo por 50 anos. Muito estranhos todos os elogios nas notícias de hoje”.

Estranho, mas não novo. Provém de mentalidade antiga, embebida de complacência com toda forma de esquerdismo, mesmo o mais extremista. Lembrei-me de crônica de Nelson Rodrigues sobre o embasbacamento subserviente de magotes da intelligentsia brasileira e da sociedade carioca em torno de Jean-Paul Sartre, o velho comunista, que visitou o Rio de Janeiro.

O texto atualíssimo, profilático, é de 22 de abril de 1968:

“De onde vem meu horror a Sartre? Foi numa conferência do mestre. Lembro-me de tudo. Conferência, ali, na ABI. [...] Eu estava na sala superlotada. [...] Por mais estranho que pareça, eu não prestava a menor atenção ao conferencista. Mais que a palavra de Sartre, fascinou-me a cara dos seus admiradores. A cara! [...] A cara dos admiradores de Sartre merecia, sim, a folha de parreira. Homens e mulheres lambiam com a vista o filósofo. Por certo, há admirações nobilíssimas e outras que são abjetas. Naquela tarde, e naquela sala, eu só via admirações abjetas. [...] O meu horror a Sartre começou nos seus admiradores e, mais precisamente, começou na cara dos seus admiradores. Só posteriormente é que tratei de fazer uma revisão da obra sartriana. [...] Sua obra é todo um gigantesco julgamento dos valores de vida. Vamos também julgá-lo. Sartre recusou o Prêmio Nobel. Convém esvaziar tal renúncia de todo o falso patético, de todo pseudossublime. O filósofo não perdeu um tostão. Pelo contrário: — foi um gesto promocional de gênio e que serviu apenas para aumentar a sua bilheteria. [...] Argumenta o filósofo que o Prêmio Nobel foi concedido a Boris Pasternak. Mas quem é Pasternak? Diz ele: — ‘Um escritor que não é lido em sua própria terra’. Vejam: — ‘Um escritor que não é lido em sua própria terra’. Aí está o canalha, o límpido, o translúcido canalha Jean-Paul Sartre. Se disse isso, é um canalha (e o disse num claro e deslavado documento para o mundo). E repito: — de uma simples frase emerge todo o canalha. Vejam bem. Um crime contra a inteligência impediu que Pasternak fosse lido em sua própria língua. E Sartre está a favor do “crime” e contra a vítima. Pasternak é um poeta, um romancista, um pensador que o totalitarismo soviético havia de exterminar, até fisicamente. E Sartre não pinga uma palavra de compaixão sobre o assassinato de um artista. (Preciso falar também de um prodigioso documento. É um manifesto de Oitocentos intelectuais russos. E lá se faz também a excomunhão do autor em desgraça. Oitocentos intelectuais russos, Oitocentos canalhas.) Mas a miséria não para aí. Perguntem aos nossos intelectuais de esquerda: — ‘Vocês leram o que Sartre disse sobre o Pasternak?’. Ninguém leu, ninguém viu, ninguém sabe. O monstruoso documento saiu em todos os idiomas. E nós, que o lemos e o relemos, fingimos um pequeno, irrelevante, cínico lapso de memória. Agora mesmo vejo um telegrama de Moscou, que todos os jornais publicaram: — nove intelectuais russos foram julgados e condenados sumariamente. Imagino se esses também assinaram o manifesto contra Pasternak. Leiam os nossos próximos suplementos dominicais. Os nossos intelectuais de esquerda não vão exalar um mísero e tênue suspiro. É um crime contra a inteligência. Mas Jean-Paul Sartre disse, aqui, que a Rússia era ‘a Revolução’. E, como tal, tem todo o direito de enfiar na cadeia a canalha intelectual. [...] Nunca a inteligência se degradou tanto”.

No meio da geral louvaminha a Sartre no Brasil, Nelson Rodrigues teve a coragem singela de, com base em um fato, exprimir o óbvio ululante: o homem era um canalha translúcido. Até agora, de ninguém escutei o óbvio ululante: Fidel Castro foi um canalha translúcido. E entre a montanha de fatos para embasar o juízo, lembro esses: foi tirano implacável, torturador de seu povo, lambe-botas de Kruschev e Brejnev; destruiu os sonhos de gerações de cubanos. No Brasil, esse amigo próximo do PT, do frei Betto e de gente assemelhada treinou e estimulou guerrilheiros que, na tentativa aloucada de impor ao povo brasileiro renitente a ditadura do proletariado, ceifaram a vida de militares e policiais heroicos, bem como de civis inocentes, hoje em geral dolorosamente esquecidos, tantas vezes com a memória injustamente escarnecida. Eu me associo enfaticamente à alegria dos cubanos exilados na Flórida, esperançosos com a perspectiva de Cuba regressar à trilha da liberdade, da prosperidade e harmonia social, da qual foi arrancada brutalmente há mais de 50 anos.

Péricles Capanema



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quarta-feira, 30 de novembro de 2016

INCERTEZAS - Mírian Warttusch

Incertezas
  

Eu não te quero ver assim amargurado...
É triste a tua rima - chora de saudade...
Têm os teus versos uma obscura realidade,
Pois não estás feliz... Escuta o meu chamado.

Finges que não vês, o que se passa ao teu redor,
Fulgentes bênçãos descendo do infinito!
- Tu acreditas que sofrer é que é bonito?
Meu caro deves ver que o mundo é bem melhor.

Agora me diga: que incertezas são aquelas,
Sofrimento e dor, misérias e mazelas?
Faça um verso de amor, de fé e de esperança,

Viva feliz, sorria como se fosse uma criança!
Atualiza o amor, esquece dos abrolhos,
Deixe que a alegria se espelhe nos teus olhos...


Mírian Warttusch


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‎ MARICOTA SENTE SAUDADE - Geraldo Maia

Maricota sente saudade
Geraldo Maia

A gata também não consegue te esquecer
anda triste e reclamando do teu abandono
mudou até o local de dormir
anda carente demais zoando pela casa
"cadê ela?", "cadê ela?", "cadê ela?"
a gata anda muito nervosa e irritada
ontem mesmo brigou com a gata do vizinho
está muito estressada com a tua partida
ela ouviu você dizer ao ir embora
que da casa só teria saudades dela
ela ouviu, mas não pode dizer
que também iria sentir muita saudade.
A gata Maricota anda muito nervosa
anda miando demais de saudade pelos cantos
eu pego, abraço, beijo e acarinho
a gota Maricota com saudades,
Mas de repente ela não quer saber do meu carinho
É do teu que ela sente mais falta
Como vou dizer que não vais voltar?
Que já tens um novo amor e vais casar
Um novo amor mais belo, mais jovem e muito rico
Como vou explicar que você se foi
porque não queria mais um velho pobre imprestável
um velho sem nada para oferecer a uma mulher
não possuía nem uma merda de um computador
um velho tolo descartável em qualquer lata de lixo
como as latas que a gata Maricota gosta de derrubar
como se fosse um cachorro vira latas
uma gata realmente muito louca e apaixonada
irritada porque você ainda não voltou
sem saber que você se foi para sempre
tomou um avião rumo ao paraíso da juventude e riqueza
Rumo à uma nova casa e a um novo marido jovem e reluzente
E até mesmo tenha por lá uma nova gata, mas com certeza
nunca terá a terrível gata voadora e determinada
a gata que toda noite me espera no portão
como se dissesse "ela devia estar aqui no meu lugar
devia ter te esperado todas as noites
porque eu gosto de receber teu carinho
e não precisa ter alguma coisa para me fazer feliz
não precisa ter computador ou carro novo
basta a tua atenção, teu cuidado e a segurança
de saber que você sempre volta para casa
e que por isso eu posso te esperar no portão
porque isso me torna útil e a minha vida
em vez de buscar um novo lugar ou uma nova pessoa
passa a ter um sentido novo de servir
de ser feliz ao ser usada em função de fazer o outro feliz
dizem que os gatos são egoístas, mas não concordo
porque adoro te esperar à noite no portão
e miar toda feliz com a tua chegada".

Geraldo Maia - Estudou Jornalismo na instituição de ensino PUC-RIO (incompleto)
Estudou na instituição de ensino ESCOLA DE TEATRO DA UFBA
Coordenou Livro, Leitura e literatura na empresa Fundação Pedro Calmon
Trabalha na empresa Folha Notícias,
Filho de Itabuna/BA/BRASIL, reside em Louveira /SP.


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terça-feira, 29 de novembro de 2016

SOBRE O PODER DA POESIA, por Sílvia Marques

Sobre o poder da poesia

A natureza , as artes , o amor ao saber , o contato com as outras pessoas deveriam ser os nossos ícones. E não os shoppings centers que viraram os templos sagrados da nossa sociedade. Deveríamos gastar menos tempo e dinheiro em barzinhos da moda e fazer mais encontros em casa.Deveríamos dedicar mais tempo aos amigos de verdade do que aos contatos sociais. Deveríamos dedicar mais tempo ao prazer , à alegria do que aos cursos online para estimular uma produtividade, muitas vezes, mecanizada. Deveríamos criar nossos filhos para serem pessoas inteiras e não robozinhos que servem aos interesses do status quo.
...

Em tempos de literatura de autoajuda e frases prontas pregando um otimismo irreflexivo, falar sobre qualquer tipo de poesia parece algo anacrônico, sem muito sentido.

Não, não, não! Não estou pregando o pessimismo. Questionar um otimismo sem embasamento não significa ser pessimista. Entre os extremos , existem sempre muitas possibilidades. Normalmente as mais interessantes e intrigantes.

Não creio que devamos ser reclamões e acomodados. Não creio que devamos cruzar os braços porque a vida é difícil. Sim, a vida é bem difícil. Não creio que devamos nos acostumar com tudo nem nos conformar com uma vida apequenada, medíocre.

Por outro lado, não creio que com pensamento positivo tudo se resolva. Não creio num manual estilo receita de bolo para ser feliz. Muito pelo contrário. Acho que este tipo de literatura mais atrapalha do que ajuda. Num primeiro momento parece ajudar pois infla o leitor de esperança. Mas conforme o tempo vai passando e a pessoa vai percebendo que pensamento positivo colabora , mas não é tudo, um sentimento de revolta pode surgir. Contra o Universo. Contra si mesmo. Sim, muita gente quando não consegue concretizar as promessas dos livros de autoajuda podem voltar-se contra si mesmas , achando que não tiveram fé suficiente. Achando que não pensaram positivamente o bastante.

Me parece que esta necessidade de encontrar uma causa e um efeito para tudo é um bom começo para pirar qualquer pessoa. Falo por experiência própria. Sim, algumas coisas não fazem muito sentido mesmo. Se a gente for buscar o porquê de tudo, corre o sério risco de deixar de viver as coisas mais simples e ao mesmo tempo sublimes da nossa existência. E é aí que entra a poesia no meu atual post...

Quando uso o termo poesia , não me refiro apenas ao gênero literário. Me refiro a todas as poesias da vida. Me refiro à poesia que existe num jogo de luzes e sombras numa fotografia ou num quadro. Me refiro à poesia de uma música que fala ao coração. À poesia que habita o cheiro do café recém-coado, o cheiro do bolo assando, a textura da manteiga se derretendo no pão quente , as gotas de chuva através do vidro da janela, o risinho de uma criança , o balbuciar de um bebê , o abraço apertado entre amigos que não se veem há muito tempo. E falo da poesia como gênero literário também.

Raramente paramos para ler um livro de poesias ou nos deleitamos diante de um quadro. Raramente nos deixamos levar pelas luzes de uma fotografia , pelas formas e cores de uma pintura , pelos silêncios de uma música. Raramente nos deixamos levar pelo calor morno de uma manhã ensolarada ou pelo frio nostálgico de uma tarde cinzenta. Normalmente comemos e bebemos apressados , sem sentir as rimas e metáforas que existem numa simples xícara de café , numa taça de vinho, no sorriso da pessoa amada. Normalmente andamos apressados , querendo realizar e realizar cada vez mais , mergulhados em planos infindáveis. Mas raramente nos deixamos envolver pelas coisas que já fazem parte do nosso presente , que esperam pacientemente por apenas um olhar nosso.

Sim, deveríamos ler mais poesia e filosofia. Não para arrotar conhecimento na cara das pessoas. Mas para transformar a nós mesmos. Deveríamos carregar mais livros debaixo do braço, dentro da alma. Deveríamos passear mais em livrarias , passar tardes em cinemas alternativos , fazer piqueniques em parques. E entre uma mordida num sanduíche caseiro e um gole de uma bebida qualquer , degustar pensamentos poéticos , compartilhá-los com pessoas queridas.

A natureza , as artes , o amor ao saber , o contato com as outras pessoas deveriam ser os nossos ícones. E não os shoppings centers que viraram os templos sagrados da nossa sociedade. Deveríamos gastar menos tempo e dinheiro em barzinhos da moda e fazer mais encontros em casa. Deveríamos dedicar mais tempo aos amigos de verdade do que aos contatos sociais. Deveríamos dedicar mais tempo ao prazer , à alegria do que aos cursos online para estimular uma produtividade, muitas vezes, mecanizada. Deveríamos criar nossos filhos para serem pessoas inteiras e não robozinhos que servem aos interesses do status quo.

Deveríamos cultuar mais livros e filmes do que sapatos e bolsas. As nossas estantes de livros deveriam ocupar mais espaço em nossas casas e em nossas vidas do que nossas sapateiras. Muita gente ao ler esta frase , vai pensar ou dizer: "Qual é o problema de preferir sapatos a livros? Preferir sapatos é uma questão de gosto, ué?" Se alguém não consegue entender que livros são mais importantes do que colecionar sapatos , eu realmente não tenho nada a dizer. Preferir sapatos , ok. Sem problemas. O triste é não conseguir entender a superficialidade da sua preferência. Sei que minha frase soa de forma bem pedante e autoritária, mas chega uma hora em que não dá mais para usar meias palavras. Sim, me parece muito triste viver em uma sociedade que não consegue enxergar o quanto suas prioridades demonstram uma devastadora superficialidade emocional e intelectual.

Por outro lado, também é inegável que existem muitos devoradores de livros que são superficiais e que não conseguem traduzir para a própria vida aquilo que eles leem. Usar o conhecimento como estratégia de dominação provavelmente é muito pior do que ser meramente superficial.

Sim, deveríamos buscar a felicidade existencial e única e não a felicidade pasteurizada que se reverte em mais um objeto de status. Deveríamos falar e entender mais sobre as variadas poesias...deveríamos ser nós mesmos mais poesia do que simplesmente pedras de um jogo de xadrez servindo à regras que não compreendemos e nos deleitando com vitórias que não são nossas.


SÍLVIA MARQUES
Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..


http://obviousmag.org/cinema_pensante/2016/07/sobre-o-poder-da-poesia.html?utm_source=obvious+subscribers&utm_campaign=a93cf1f9a8-MAILCHIMP_DAILY_EMAIL_CAMPAIGN&utm_medium=email&utm_term=0_7d1f58ded8-a93cf1f9a8-213482989&goal=0_7d1f58ded8-a93cf1f9a8-213482989


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JEJUM FAZ SUAS CÉLULAS SE COMEREM; E ISSO TE RENOVA, DIZ NOBEL DE MEDICINA

Jejum faz suas células se comerem; e isso te renova, diz Nobel de medicina

Fernando Cymbaluk
Do UOL, em São Paulo
28/11/2016

Não é dieta ou regime. Os cientistas estão pesquisando como o jejum ou o corte radical de calorias pode promover o aumento da expectativa de vida. A alimentação equilibrada e rica em nutrientes é fundamental para uma boa saúde. Porém, já é sabido que a privação de alimentos de forma controlada pode ativar mecanismos de autodefesa das células que garantem a elas maior longevidade. É isso que se traduz em benefícios para todo nosso organismo.

Tudo por causa da autofagia. Ela é um mecanismo importante de autolimpeza que existe em todas as células de nosso corpo. Os genes que regulam essa reciclagem de organelas velhas ou malformadas foram identificados por Yoshinori Ohsumi, ganhador do Nobel de medicina deste ano.

Akiko Matsushita/Kyodo News via AP

Yoshinori Ohsumi ganhou o Nobel graças a suas descobertas sobre a autofagia, um processo de reciclagem celular

A redução da autofagia leva ao acúmulo de componentes danificados, o que está associado à morte das células e ao desenvolvimento de doenças. Assim, manter o mecanismo ativo seria uma forma de prevenir problemas futuros.

A autofagia é ativada quando a célula está em situações de estresse. Por exemplo, quando o indivíduo fuma um cigarro ou deixa de se alimentar. Para sobreviver, a célula passa a "comer" partes internas, degradando tudo o que tem de ruim. Quanto mais o mecanismo funciona maior a faxina interna.

"A autofagia não fica ativa o tempo todo. Mas a restrição de nutrientes é uma forma de burlar isso"
Luciana Gomes, pesquisadora do Laboratório de Reparo de DNA da USP

"O jejum induz a autofagia, isso é sabido. Também sabemos que a autofagia induz a longevidade. A busca agora é entender a conexão entre a autofagia ativada pelo jejum e a longevidade das células", explica Soraya Smaili, professora livre-docente da Escola Paulista de Medicina. Segundo ela, a maioria dos estudos feitos até hoje foi com animais. 

Comer menos calorias também pode aumentar longevidade.

Outra forma de ativar a autofagia e propiciar benefícios para o organismo é com a restrição do consumo de alimentos. Para funcionar, a redução de calorias ingeridas dever variar entre 20% e 60%, de acordo com as pesquisas. "Não é o jejum, é a diminuição prolongada de consumo de nutrientes. A autofagia é aumentada", explica Luciana Gomes. A redução ocorreria principalmente no consumo de carboidratos e proteínas.
QMUL
Contudo, se a privação de nutrientes for muito longa, os efeitos passam a ser negativos. Nesse caso, a célula poderia começar a degradar componentes bons, que funcionam. O ideal seria conseguir estimular a faxina interna em tempo certo, sem excessos. Para isso, os cientistas pesquisam qual seria o tempo de jejum e o nível de redução calórica que garantiriam os efeitos benéficos sem causar prejuízos.

Smaili diz que há estudos feitos em humanos que mostram que o jejum, se bem conduzido e monitorado, traz benefícios a longo prazo. "Não é um jejum prolongado. É de 12 e no máximo 24 horas. E pode ser específico, de alguns nutrientes, como carboidratos e proteínas", afirma.
Durante o jejum, seria importante manter o consumo de água e de sais, para não provocar aumento da pressão arterial ou desidratação. Um soro pode cumprir essa função. E o jejum só poderia ser feito por pessoas saudáveis.

Adnan Abidi/Reuters
Em algumas culturas, o jejum periódico é tradicional, como o Ramadã para os muçulmanos

Fazer jejum ou reduzir alimentação, o que você prefere?

Para garantir o aumento da expectativa de vida a longo prazo, o jejum precisaria ser feito de forma periódica. "Não adianta fazer um hoje e outro no ano que vem", diz a farmacóloga da Unifesp.

Já a redução calórica precisaria ser permanente para produzir efeitos. "Como é difícil ter essa disciplina, surgiu a busca para confirmar se jejum intermitente conseguiria levar aos mesmos efeitos", complementa a biomédica da USP. 

As pesquisas existentes ainda não possuem resultados que permitam traçar uma indicação de frequência do jejum. Quanto à restrição calórica, Gomes explica que em testes com animais os melhores resultados ocorreram entre os que foram mantidos em restrição calórica desde o nascimento. O aumento da expectativa de vida chegaria, nesses casos, a 30%.




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segunda-feira, 28 de novembro de 2016

A MORTE DE FIDEL CASTRO E SUAS "CARPIDEIRAS"

Fidel Castro por ocasião de seu aniversário, quando completou 90 anos em agosto passado. Certamente uma das últimas fotos do tirano em público, ladeado por Raul Castro e Nicolás Maduro.


A morte de Fidel Castro e suas “carpideiras”
28 de novembro de 2016 
Paulo Roberto Campos

A choradeira das esquerdas nacionais e internacionais — tanto do âmbito temporal quanto religioso — chegou ao auge e beira ao ridículo com a morte do “coma-andante” Fidel Castro. Este representava para as esquerdas uma utopia que precisava a todo custo sobreviver, apesar de ser tão velha quanto o próprio tirano da Ilha-presídio. Mas a Providência Divina o chamou para prestar suas contas no Supremo Tribunal de Deus.

Enquanto rolam as lágrimas das novas “carpideiras” do século XXI — os companheiros de Fidel e a mídia camarada dele —, o autêntico povo cubano comemora [fotos ao lado e abaixo]. Os cubanos celebram a expectativa do início do esperado fim do tirânico regime comunista que torturou de modo tão cruel, física e psicologicamente, lançando-os escravizados na mais negra miséria moral e material.
Sobretudo os cubanos no exílio, longe das garras do regime opressor, comemoraram euforicamente o dia 25 de novembro; celebrações que em Cuba foram evidentemente mais comedidas — aí daqueles que manifestarem grande alegria…. O luto é imposto e obrigatório! “Hay que llorar”…

Para os cubanos autênticos, “No hay que llorar”…

Da obra intitulada O Livro Negro do Comunismo — crimes, terror e repressão(1999) [capa ao lado], muito bem documentada e de autores insuspeitos(*), pois pertencentes à ala esquerdista, no capítulo “Cuba. O interminável totalitarismo tropical” (entre as págs. 769 a 789), copiei para nossos leitores alguns trechinhos que demonstram que não há razão para lamentos e prantos. Marquei em negrito algumas frases.
“[...] Em 8 de janeiro de 1959, Castro, Guevara e os barbudos fazem uma entrada triunfal na capital. Desde a tomada do poder, as prisões de Cabana, em Havana, e de Santa Clara foram palco de execuções em massa. De acordo com a imprensa estrangeira, essa depuração sumária fez 600 vítimas entre os partidários de Batista, em cinco meses. Organizaram-se tribunais de exceção, criados unicamente para pronunciar condenações. ‘As formas dos processos e os princípios sobre os quais o direito foi concebido eram altamente significativos: a natureza totalitária do regime estava ali inscrita desde o início’, comprova Jeannine Verdès-Leroux. Realizaram-se simulacros de julgamentos num ambiente de feira: uma multidão de 18.000 pessoas reunidas no Palácio dos Desportos ‘julga’ o comandante batistiano Jesus Sosa Blanco, acusado de vários assassinatos, apontando os polegares para o chão. ‘É digno da antiga Roma!’, exclamou. Ele foi logo fuzilado.
[...]
“Desde a tomada do poder, surdas lutas viscerais minaram o jovem governo revolucionário. Em 15 de fevereiro de 1959, o primeiro-ministro Miro Cardona demitiu-se. Já comandante-chefe do exército, Castro substituiu-o. Em junho, decidiu anular o projeto de organizar eleições livres, anteriormente prometidas para um prazo de 18 meses. Perante os habitantes de Havana, justificou a sua decisão através desta interpelação: ‘Eleições! Para quê?’ Negava desse modo um dos pontos fundamentais inscritos no programa dos revolucionários anti-Batista. Além disso, suspendeu a Constituição de 1940, que garantia os direitos fundamentais, para governar exclusivamente por decreto — antes de impor, em 1976, uma Constituição inspirada na da URSS. Teve igualmente o cuidado de promulgar dois textos legais, a Lei nº 54 e a Lei nº 53 (texto relativo à lei sobre as associações), que limitavam o direito dos cidadãos a associarem-se livremente.

“Castro, que trabalhava então em estreita relação com os seus próximos, tratou de afastar os democratas do governo e, para conseguir esse objetivo, apoiou-se no seu irmão Raul (membro do Partido Socialista Popular, isto é, do PC) e em Guevara, sovietófilo convicto. Em junho de 1959, cristalizava-se a oposição entre liberais e radicais acerca da reforma agrária lançada em 17 de maio. O projeto inicial visava constituir uma média burguesia fundiária através de uma redistribuição de terras. Castro escolheu uma política mais radical, sob a égide do Instituto Nacional de Reforma Agraria (INRA), confiado a marxistas ortodoxos e do qual ele foi o primeiro presidente. Rapidamente, anulou o plano proposto pelo ministro da Agricultura, Humberto Sori Marin. Em junho de 1959, e para acelerar a reforma agrária, ordenou ao exército que tornasse o controle de cem latifúndios na província de Camagiiey.
[...]
“A violência do regime penitenciário atingiu tanto os presos políticos quanto os de direito comum. Começava com os interrogatórios conduzidos pelo Departemento Técnico de Investigaciones, a seção encarregada dos inquéritos. O DTI utilizava o isolamento e explorava as fobias dos detidos: uma mulher que tinha horror a insetos foi encarcerada numa cela infestada de baratas. O DTI usou pressões físicas violentas: havia prisioneiros que eram forçados a subir escadas calçando sapatos recheados com chumbo, e em seguida eram atirados degraus abaixo. À tortura física juntava-se a tortura psíquica, frequentemente com acompanhamento médico; os guardas utilizavam o pentotal e outras drogas, a fim de manter os presos acordados. No hospital de Mazzora, os eletrochoques eram usados com fins repressivos, sem qualquer restrição. Os guardas empregavam cães de guarda, procediam a simulações de execução; as celas disciplinares não tinham água nem eletricidade; o detido que se pretendia despersonalizar era mantido em completo isolamento.
[...]

“A prisão mais tristemente célebre foi, durante muito tempo, a de Cabana [foto ao lado], onde foram executados Sori Marin e Carreras. Ainda em 1982, cerca de cem prisioneiros foram ali fuzilados. A ‘especialidade’ de Cabana eram as masmorras de reduzidas dimensões chamadas ratoneras (buracos de rato). Ela foi desativada em 1985. Mas as execuções prosseguem em Columbio, em Boniato, prisão de alta segurança onde reina uma violência sem limites e onde dezenas de políticos são mortos de fome. Para não serem violentados pelos presos de direito comum, alguns se lambuzam com excrementos. Boniato continua a ser ainda hoje a prisão dos condenados à morte, sejam políticos ou de direito comum. É célebre pelas suas celas de rede de arame, as tapiadas. Por falta de assistência médica, dezenas de prisioneiros encontraram a morte nessas celas. Os poetas Jorge Valls, que devia cumprir 7.340 dias de prisão, e Ernesto Diaz Rodriguez, assim como o comandante Eloy Guttierrez Menoyo, testemunharam as condições particularmente duras que ali vigoram. Em agosto de 1995, ocorreu uma greve de fome lançada conjuntamente pelos presos políticos e pelos de direito comum, a fim de denunciar as condições de vida deploráveis: alimentação péssima e doenças infecciosas (tifo, leptospirose). A greve durou quase um mês.
“Algumas prisões voltaram a pôr em vigor as jaulas de ferro. No fim dos anos 60, na prisão de Três Macios dei Oriente, as gavetas (celas), destinadas originalmente aos presos de direito comum, foram ocupadas pelos presos políticos. Tratava-se de uma cela de 1 metro de largura por 1,8 metro de altura, e com um comprimento de uma dezena de metros. Nesse universo fechado, em que a promiscuidade é dificilmente suportável, sem água nem higiene, os prisioneiros permaneciam semanas, às vezes vários meses.
[...]
“As visitas dos familiares proporcionavam aos guardas o ensejo de humilhar os detidos. Em Cabana, eles deviam se apresentar nus perante a família. Os maridos encarcerados eram obrigados a assistir à revista íntima das esposas.
“No universo carcerário de Cuba, a situação das mulheres é especialmente dramática, uma vez que elas são entregues sem defesa ao sadismo dos guardas. Mais de 1.100 mulheres foram condenadas por motivos políticos desde 1959. Em 1963 elas eram encarceradas na prisão de Guanajay. Os testemunhos reunidos estabelecem o uso de sessões de espancamento e de humilhações diversas. Um exemplo: antes de passarem pela ducha, as detidas deviam despir-se diante dos guardas, que lhes batiam. No campo de Potosi, na zona de Lãs Victorias de Ias Tunas, contavam-se, em 1986(**), três mil mulheres encarceradas — estando misturadas delinquentes, prostitutas e políticas. Em Havana, a prisão de Nuevo Amenacer continua a ser a mais importante. Amiga de Castro de longa data, representante de Cuba na UNESCO nos anos 70, a doutora Martha Frayde descreveu assim esse centro carcerário, onde as condições de vida eram particularmente duras:
‘A minha cela tinha seis metros por cinco. cinco. Éramos 22 dormindo em catres sobrepostos a dois ou a três. [...] Na nossa cela, chegou a acontecer de sermos 42. [...] As condições de higiene tornavam-se totalmente insuportáveis. As tinas onde devíamos nos lavar estavam cheias de imundícies. Tornara-se absolutamente impossível fazer a nossa toilette. [...] Começou a faltar água. A limpeza dos banheiros tornou-se impossível. Primeiro encheram e depois transbordaram. Formou-se uma camada de excrementos que invadiu as nossas celas. Depois, como uma onda irreprimível, atingiu o corredor e depois a escada, escoando-se até o jardim’.[...]

“No decorrer do verão de 1994, Havana foi palco, pela primeira vez desde 1959, de violentos tumultos. Candidatos à partida, não podendo embarcar nas balsas, as jangadas improvisadas [foto ao lado], confrontaram-se com a polícia. Nas ruas do bairro Colomb, a avenida marginal — o Malecón — foi saqueada. O restabelecimento da ordem implicou várias dezenas de detenções, mas, finalmente, Castro autorizou novo êxodo de 25 mil pessoas. Posteriormente, as partidas não cessaram, e as bases americanas de Guantánamo e do Panamá estão saturadas de exilados voluntários. Castro tentou igualmente travar essas fugas em jangadas, enviando helicópteros para bombardear as frágeis embarcações com sacos de areia. Cerca de sete mil pessoas pereceram no mar durante o verão de 1994. Ao todo, estima-se que um terço dos balseros morreu durante a fuga. Em 30 anos, teriam sido entre 25 mil e 35 mil os cubanos que tentaram a fuga pelo mar. No total, os diversos êxodos fazem com que Cuba tenha atualmente 20% dos seus cidadãos no exílio. Numa população global de 11 milhões de habitantes, perto de 2 milhões de cubanos vivem fora da ilha. O exílio desarticulou as famílias, e são incontáveis as que estão dispersas entre Havana, Miami, Espanha ou Porto Rico…
[...]
“Em 1978, havia entre 15.000 e 20.000 prisioneiros de opinião. Muitos vinham do M-26, dos movimentos estudantis antibatistianos, das guerrilhas de Escambray ou dos antigos da baía dos Porcos. Em 1986, estimava-se de 12.000 a 15.000 o número de prisioneiros políticos encarcerados em 50 prisões ‘regionais’ distribuídas por toda a ilha.
“Desde 1959, mais de cem mil cubanos conheceram os campos, as prisões ou as frentes abertas. Entre 15.000 e 17.000 pessoas foram fuziladas. [...]”.
(Stéphane Courtois, Nicolas Werth, Jean-Louis Panné, Andrzej Paczkowski, Karel Bartosek, Jean-Louis Margolin, ”O livro negro do comunismo. Crimes, terror e repressão”, Bertrand Brasil, Rio de Janeiro).

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Como acima mencionei, os autores do “O Livro Negro do Comunismo” são esquerdistas. Assim sendo, as cifras por eles citadas devem ser ampliadas, pois, o número de prisioneiros, torturados, fuzilados no famoso “paredón” está baseado em registros oficiais. Mas quantos infelizes “desapareceram” sem nenhum registro? Há outras informações seguras — por exemplo, as que constam no livro “Cuba comunista: vergonha de nosso tempo e de nosso continente” (1997), de autoria do cubano Sergio F. de Paz — denunciando que quase 500.000 de seus conterrâneos foram encarcerados ou passaram por campos de trabalho forçado. Sem falar de dezenas de milhares de cubanos afogados nas tentativas de fuga pelo mar. Também sem registrar que, devido à ideologia materialista do regime comunista, Cuba conta com altos índices de suicídios e abortos. A respeito, recomendo outro excelente livro “Hasta cuándo las Américas tolerarán al dictador Castro, el implacable stalinista que continua oprimiendo al pueblo cubano, y amenazando a naciones Hermanas?”, publicado em 1990 por iniciativa de “Cubanos Desterrados” (Miami). [Foto acima].

Fidel Castro — palavras inesquecíveis
Com tal “curriculum” nas costas, acumulado por quase 50 anos de tirania comunista, não causa surpresa a declaração de Fidel Castro ao jornalista Jean-Luc Mano, da revista “Paris Match”, em 29-10-1994:
“Eu irei para o inferno, e sei que o calor ali será insuportável… E lá chegando, encontrarei Marx, Engels, Lenine. E também encontrarei você, porque os capitalistas também vão para o inferno, sobretudo se desejam gozar a vida”.
Não se pode desejar o Inferno para ninguém. Convém, entretanto, lembrar que Fidel sabia perfeitamente da existência do Céu e do Inferno, pois estudou em colégio dos Padres Jesuítas, onde fez o catecismo.
Com o desaparecimento de sua única figura carismática e “legendária”, como a esquerda sobreviverá? Como tentará manter-se viva após a morte do tirano? Surgirá algum líder esquerdista substituto ao qual ela possa agarrar-se para não naufragar? Tal homem será do mundo laico ou do mundo eclesial? Conseguirá esse novo líder manter Cuba num regime castrista sem Castro? Quem viver, verá!
Mas, considerado sob outro aspecto, a choradeira dos companheiros do velho tirano é compreensível. Eles temem que um dia Cuba se veja totalmente livre do regime comunista e, desse modo, a antiga “Pérola do Caribe” volte à prosperidade de que outrora gozava.
Encerro transcrevendo o artigo abaixo, que explica esse temor das esquerdas e aponta o papel que Cuba exerce (exercia?) para o comunismo internacional. Seu autor é Plinio Corrêa de Oliveira — o líder anticomunista que mais se dedicou na defesa do povo cubano — e foi divulgado pela “Agência Boa Imprensa” em julho de 1992, ano em que a URSS desmoronava.

Cuba e o submarino
Plinio Corrêa de Oliveira
Se há no mundo atual um reduto revolucionário onde a bandeira comunista parece insultar os raios do sol com sua presença, esse reduto é Cuba.
Um pouco por toda parte, os comunistas ficaram estarrecidos e desconcertados com a espetacular degringolada do bloco soviético. Ora, o constatar que a Rússia soviética de repente se pulveriza, representou um baque psicológico espantoso para os comunistas no mundo inteiro.
Entretanto, é um fator de alento para todos eles ver que, na pequenina Cuba, ainda arde uma Tróia comunista, irradiando para as três Américas os seus malfazejos eflúvios eletro-políticos.
A Ilha-Prisão das Antilhas, porém, está imersa no caos. Castro parece estar com ‘falta de ar’, e a única saída possível para a sua delicada situação é o apoio propagandístico que lhe venha do exterior. Nesse sentido, caravanas faceiras de forâneos não têm faltado para lhe dar o indispensável respaldo.

Alegres próceres da esquerda católica brasileira, como Frei Betto [na foto ao lado, à esq. de Fidel Castro], Frei Boff e quejandos, lá estiveram. Fazendo coro com ecologistas e tribalistas, esses homens-show da teologia da libertação entregaram-se à mesma lenga-lenga de sempre, cujos termos são mais ou menos os seguintes: Em Cuba, vive-se feliz. Lá há miséria, é verdade. Mas qual é a diferença entre miséria e pobreza? E, no total, uma suportável pobreza não será melhor do que o consumismo?
Não podendo fazer outra defesa da ilha-cárcere, seus propugnadores entregam-se a essas desajeitadas defesas do miserabilismo. E pouco se incomodam de, por essa forma, concorrerem para que ali se perpetuem as brutalidades, as inclemências e os crimes do comunismo staliniano, fracassado no Leste europeu.

Tudo isso não obstante, o melhor proveito da presente situação cubana para os interesses do comunismo internacional, ainda acaba sendo aquele de porta-bandeira.
Só para comparar, afigure-se o leitor um submarino no qual o periscópio, ademais de sua função ótica, exercesse também outra, à maneira de escafandro, sendo responsável pela introdução do ar no interior da nave.
Pois bem, Cuba, de momento, representa o papel desse periscópio hipotético. Em meio à tripulação comunista sub-aquática, imersa nas águas da miséria, minguada, desanimada e asfixiada à vista do naufrágio do comunismo russo, ela introduz o ar nesses pulmões. De maneira que, se eles ainda respiram, é porque Cuba respira. E isso é de muito grande alcance.