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terça-feira, 4 de julho de 2017

MORTALHA – Fernanda Torres

Mortalha


Moro em frente à Lagoa Rodrigo de Freitas, no caminho do túnel Rebouças, principal via de ligação entre a zona sul, o centro e a zona norte do Rio de Janeiro.

Aprendi, com a vida, a lidar com o eterno engarrafamento das cercanias do meu prédio. Tracei estratégias para suportá-lo com resignação, e na época em que ainda existia a Árvore-de-natal da Lagoa, cheguei a abandonar o volante e ir a pé, devido à quantidade de curiosos em torno do espelho d'água.

De janeiro para cá, os congestionamentos desapareceram como que por milagre. Dei para ir e vir com uma rapidez espantosa, comemorei a melhoria do trânsito, até perceber que o fenômeno nada tinha a ver com mobilidade urbana. Era a crise. A crise e a depressão da cidade.

Os restaurantes e bares estão vazios, os teatros fecharam, as lojas se foram e os hotéis olímpicos acabaram às moscas. É como se estivéssemos vivendo sob um toque de recolher. Minha mãe comentou, outro dia, que sente o Rio envolto numa mortalha.

Os assaltos, as trocas de tiro que ecoam como na Síria, os arrastões continuam, mas a calmaria é assombrosa.

Não há dinheiro nem plano, não há futuro ou comando. É como estar num transatlântico à deriva, rezando para passar, você nem sabe o quê.

Pezão abriu mão de governar, declarou estar ciente de que não resistirá muito mais no cargo. Crivella honra compromissos na África, como pastor, e tem planos para fechar as torneiras da festa pagã do Carnaval.

No último dilúvio, a comitiva do prefeito colidiu com o carro de um cidadão e passou batida, sem prestar assistência. Crivella, suspeita-se, tinha pressa de chegar em casa, para ficar a salvo das corredeiras de esgoto e lixo em que se transformaram as ruas e avenidas sob sua responsabilidade.

Normal. Não se espera mesmo nada do andar de cima. Não há revolta, não há mais bombas na Primeiro de Março. Resta apenas a apatia, e uma falta de saída de arrepiar.

Os males que ameaçam o país parecem acontecer antes, e com mais intensidade, nessa vitrine chamada Rio de Janeiro. Carma de ex-capital. O PMDB de Cunha e Cabral levou a medalha de ouro em corrupção, o buraco da Previdência já mostra os dentes por aqui, e a falência é palpável.

Ninguém merece a Alerj, Picciani, ou a oposição de Garotinho. O Rio prima pelo horror, mas os eguns engravatados de Brasília não deixam nada a dever aos mortos-vivos da Guanabara.

Michel Temer sofreu bullying na Noruega, tem uma taxa de aversão de 93%, é investigado por formação de quadrilha. Ainda assim, não há grita.

O medo do colapso da economia, a tentativa de atravessar o lamaçal até 2018 sem fazer marola, o "Fora, Temer" tão colado ao "Volta, Lula", o deserto de candidatos, tudo isso explica, em parte, o marasmo. Mas a paralisia do Rio diz mais.

Cansamos. Desistimos deles.

No temporal de 20 de junho, um mergulhador limpou os bueiros da praça da Bandeira por conta própria, enquanto Crivella fugia a caminho de sua casa.

Não há consenso ou energia que faça a indignação chegar às praças, mas um e-mail seguido de "send", para pressionar os deputados da CCJ a levar a acusação de Janot a plenário, já seria um baita de um esforço cívico.

Temer é como Pezão. Já foi e sabe. É preciso impedir que ele estenda a mortalha.


FERNANDA TORRES - 30/06/2017 - FOLHA DE SÃO PAULO

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Enviado do meu smartphone Samsung Galaxy.

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sábado, 7 de janeiro de 2017

UMA BOA NOTÍCIA - Rosiska Darcy de Oliveira

Uma boa notícia 


O último dia do ano não é o último dia do tempo. Foi Carlos Drummond de Andrade quem me ensinou.

Foi-se um ano sofrido. A memória, parceira obrigatória da vida vivida, nesse dia pede um balanço de lucros e perdas. Há no ar, e nos implacáveis números das pesquisas, tristeza, desencanto e pessimismo. Quem se orgulhava do Brasil não se orgulha mais. O que é injusto com os brasileiros, jogados no purgatório das privações e incertezas.

O ano termina sobre as ruínas da crise mais grave de nossa historia. O cenário mundial é assustador. Vivemos um tempo de jogadas sinistras, de ídolos espatifados, tempos de grandes desilusões. A desordem dos acontecimentos de hoje não se parece com a de ontem, e o futuro não promete nada de previsível. O que vivemos hoje é um enigma ainda não decifrado.

Folheamos os livros que nos ensinaram tudo que sabíamos com um sorriso amargo, pena de nós mesmos e dos mestres em quem confiamos. Nesses dias de feriados e arrumações, eles nos olham das estantes, desolados, como fantasmas que, à noite, passeiam pelos quartos e salas preferidas da casa. E são eles que melhor testemunham nosso desvalimento, agora que vivemos longe da segurança que nos davam e pela qual vestimos um luto secreto. Não há mais caminho das pedras, e vamos nós mesmos, canhestramente, espalhando as pedras frágeis em que tentamos pisar.

Hoje, a crise dói: desemprego, saúde em risco, insônia, medo e miséria não retratam um fracasso individual, como tantos sentem, e sim um drama coletivo. Que não durará para sempre. Quem já enfrentou uma doença grave — em si ou numa pessoa querida — sabe que há recursos desconhecidos, nunca antes mobilizados, que vêm à tona e nos ajudam a enfrentar esses momentos críticos. Os brasileiros têm uma longa história de resiliência.

É longo o inventário das perdas, mas também o do que está preservado. O que interessa lembrar é o que fica imune à crise, tudo que ela não pode confiscar, e que nos faz resistir à depressão e ao desalento. Cada um tem presente em sua vida um patrimônio imaterial com que pode contar.

Assim como o dinheiro não compra tudo — o tempo, por exemplo, a morte não vende —, há bens que independem dele, a exemplo dos vínculos afetivos profundos, como amor e amizade, os círculos de confiança onde esses sentimentos se produzem, onde a roda da vida cria e reforça laços.

As alegrias da solidariedade, aquela que faz o nadador atirar-se ao mar para resgatar o afogado ou alguém entregar as suas veias para, com seu sangue, prolongar uma vida desconhecida. A alegria das esperanças compartilhadas em torno de um projeto comum, que faz sentido — fazer sentido é de fato um fazer — e traz o sentimento cálido de pertencimento.

Tudo que não é passível de monetarização — alguns economistas dirão que tudo tem um preço, mas isso é problema deles — continua a existir e é fonte de prazer e de sentido para a vida. Pensar no que somos fora do dinheiro que temos ou não temos pode ser um exercício inédito de escapar da lógica econômica que torna invisível tudo que não anuncia seu preço e vai pouco a pouco se apropriando de todos os aspectos da existência, até definir cada um pelo que ganha ou deixa de ganhar. Nível de vida passou a ser sinônimo de nível de renda.

Essa lógica não é alheia à epidemia de corrupção que levou nosso país à ruína e homens desmoralizados, de cabeça baixa, às grades das prisões. A fidelidade a valores dos muitíssimos que não mentiram, não roubaram, não jogaram dinheiro no mar é um capital inestimável, razão de justificada autoestima.

Assim como a lógica econômica dita uma visão de mundo redutora, outra lógica perversa, a do charco em que mergulhou a política, ao penetrar cada recanto do cotidiano, incitando ódios, separando amigos, vai envenenando as possibilidades de esperança.

A crise ameaça expropriar até mesmo a esperança de ser mais feliz que sempre anima um novo ano. Paralisa com o risco do autoengano. Quer tornar ridículo o brinde da meia-noite. Inúteis, as rosas jogadas ao mar. Mas a esperança tem uma natureza imbatível, ela que, quando um cansaço imenso invoca o testemunho da memória para defender renúncias, caminha para o quebra-mar, olha o horizonte de um novo ano e, antes de mergulhar no futuro, anuncia: tenho uma boa notícia. E todos olham para ela porque é ela que se quer ouvir. A notícia é sucinta: estamos vivos.

Peço a benção, nessa passagem do ano, a Carlos Drummond de Andrade: “Recebe com simplicidade esse presente do acaso/ Mereceste viver mais um ano”.

Que seja um Ano Novo feliz.

O Globo, 31/12/2016




Rosiska Darcy de Oliveira - Sexta ocupante da cadeira 10 da ABL, eleita em 11 de abril de 2013. É escritora e ensaísta. Sua obra literária exprime uma trajetória de vida. Foi recebida em 14 de junho de 2013 pelo Acadêmico Eduardo Portella, na sucessão do Acadêmico Lêdo Ivo, falecido em 23 de dezembro de 2012.

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